Um pedido de desculpas para os católicos do passado

(Traduzido do artigo original publicado em 19/agosto/2016 na Crisis Magazine, em http://www.crisismagazine.com/2016/apology-catholics-past)

Autor: Timothy J. Williams

Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

Ao dar aulas de literatura francesa e ocidental, eu noto às vezes a reação perplexa de algum estudante aos pensamentos dos escritores medievais. Os leitores novatos mergulham avidamente em um texto de francês antigo esperando descobrir um panegírico à vida católica, numa época em que a cristandade estava ainda quase toda unida, e a Igreja integrada em cada aspecto da sociedade. Entretanto, quando lemos os grandes poemas católicos daquela época, percebemos imediatamente que as pessoas da Idade Média não se viam como modelos de católicos vivendo em tempos de grande fé. Ao contrário, freqüentemente elas julgavam a sociedade como irremediavelmente corrupta, infiel, hostil às virtudes, e indigna do nome “cristã”.

o-fariseu-e-o-publicano

Um bom exemplo dessa atitude se acha no poema A Vida de Sto. Aleixo[1], do século XI. Qual século poderia ser mais católico que aquele em que vários milhares responderam com gritos de “Deus vult!” ao apelo do Papa Urbano II para pegarem em armas na defesa dos cristãos na distante Terra Santa? E de fato a Vida de Sto. Aleixo é uma obra rústica de hagiografia, bem edificante, mas com grande força emocional. Entretanto, as linhas iniciais desse poema são marcadas pelo menosprezo, beirando o desespero:

Bons fut li siecles al tens ancienor,
Quer feit i ert e justise ed amor
Si ert credance, dont or n’i at nul prot;
Toz est mudez, perdude at sa color:
Ja mais n’iert tels com fut als ancessors.

O mundo era bom antigamente,
Pois havia fé e justiça e amor,
De fato havia confiança, da qual agora não há nenhuma;
Tudo mudou, e perdeu seu fascínio:
Jamais será como foi para nossos antepassados.

Um mundo arruinado, desprovido até mesmo das virtudes cristãs mais básicas, sem nenhuma esperança de que os homens que virão serão de alguma maneira melhores. O sentimento expresso aqui é muito mais que uma nostalgia de uma “era dourada” perdida no tempo, uma idéia que assombra não apenas o pensamento católico, mas também os mais primitivos pensamentos pagãos, idéia essa que muitos apologistas cristãos interpretaram corretamente como a primeira memória, fraca e fugaz, que nossa raça tem do Éden. Não, este poema (e incontáveis outros da Idade Média católica) revela um profundo senso de angústia, de indignidade, de humildade.

Claro que é exatamente este sentimento que torna a Idade Média muito mais católica que a nossa era. Mais que o poder temporal dos bispos e papas; mais que os sublimes milagres em pedra branca e vitrais coloridos; mais que os antigos rituais e as orações solenes entoadas em linguagem venerável — o verdadeiro espírito católico da Idade Média se encontra no desejo intenso de cauterizar as maldades do dia, de recuperar a virtude perdida, de restabelecer a amizade com os santos.

Não se trata de idealizar ou romancear o senso moral da Idade Média. Não há necessidade de repassar as crueldades da vida medieval. Mesmo levando em conta que a propaganda sobre a “idade das trevas” exagera enormemente sua morbidez e ignorância, não há dúvida de que a vida medieval podia ser “pobre, obscena, brutal e curta” (parafraseando o super-maquiavélico Hobbes). O fato notável é que para muitas pessoas hoje, a obscenidade e a brutalidade são modos atraentes de vida, embora não admitidos como tal. É improvável ouvirmos alguém falar hoje como um personagem de um romance de Mauriac: “Você não acha que a vida de pessoas como nós é horrivelmente similar à morte?

Se a conduta das pessoas do século XI não era necessariamente melhor que a das pessoas do século XXI, pelo menos elas não se gabavam de sua superioridade moral. Os católicos que escreveram, entoaram e ouviram poemas como a Vida de Sto. Aleixo não falavam de maneira untuosa sobre viverem uma “nova primavera” da Igreja, declarando a si mesmos como uma força de “renovação” por meio de métodos iluminados de “nova evangelização”. Eles essencialmente rezavam para evitar as piores calamidades, que eles sabiam merecer devido à sua cultura de pecado. E davam graças ao Deus que pensou neles o suficiente para lhes dar um Filho divino e Sua Mãe como consoladores in hac lacrimarum valle.

Acima de tudo, por estarem ocupados contemplando suas próprias faltas, os católicos dessa época antiga não se empenhavam em lamentar publicamente os supostos pecados das outras pessoas, tipo de “confissão” que parece estar na moda em nossos tempos. Nos três últimos papados, pelo menos, nós vimos uma avalanche de desculpas, quase sempre em nome de católicos de uma época anterior, e sem o contexto histórico necessário para sabermos o sentido das ações ou omissões daqueles fiéis. O papa São João Paulo II pediu desculpas tão freqüentemente, e por uma variedade tão grande de ofensas, que há uma página inteira da Wikipedia[2] dedicada a apenas esse aspecto de seu pontificado (e a página está bem incompleta).

O papa Francisco elevou a novas alturas esse culto à “eorum culpa”, emitindo pedidos de desculpas com estranhas palavras e que condenam os cristãos pelas próprias coisas pelas quais são dignos de louvor na cristandade. Por exemplo, de acordo com o papa[3], os cristãos devem pedir perdão “ao pobre, à mulher explorada, [e] às crianças exploradas como trabalhadoras”, mesmo que, historicamente, nenhuma religião ou outra organização de qualquer tipo tenha algum dia feito mais pelo pobre, pelo explorado, pelas mulheres, e pelas crianças.

Em que consiste, em última análise, esta afeição por emitir pedidos de desculpas em nome de cristãos (e especialmente católicos) de outras épocas? Às vezes, eu me pergunto se esses gestos não são apenas um tipo daquela oração do fariseu, de auto-elogio e de ação de graças pela própria superioridade moral: “O fariseu, em pé, orava no seu interior desta forma: Graças te dou, ó Deus, que não sou como os demais homens: ladrões, injustos e adúlteros; nem como ali aquele publicano.” (Lc 18,11) (Coloque o prefixo “Re-” na última palavra, e voila!aggiornamento moral.)

Alguém consegue realmente imaginar um papa medieval emitindo tais pedidos de desculpas? Certamente que o papa Inocêncio III expressou seu choque e arrependimento pelo resultado horroroso da quarta Cruzada, lançada por ele, mas isso não é nem de longe a mesma coisa que pedir desculpas por cristãos cujos feitos conhecemos apenas através de textos históricos. Inocêncio III (escrevendo em 1205) deveria ter pedido desculpas também pelo assassinato de Hipátia, filósofa pagã do século V, por uma multidão desvairada de cristãos em Alexandria? Ora, o historiador cristão Sócrates de Constantinopla, contemporâneo dela, já tinha condenado os cristãos da época dele por aquele crime. E não esqueçamos que o incitamento de violência dos pagãos contra os cristãos era bem comum naquele tempo.

Se queremos emitir um pedido de desculpas, não o façamos em nome com católicos do passado. Vamos pedir desculpas em nosso nome às gerações futuras que nunca terão chance de existir, devido à indiferença de muitos católicos de hoje em relação ao crime de aborto. Acabamos de testemunhar um católico bem conhecido, senador Tim Kaine, recebendo uma ovação de pé[4] de seus paroquianos e um voto de aprovação moral de seu pároco, apesar do forte apoio de Kaine ao posicionamento mais pró-aborto que um partido político americano jamais teve. Embora alguns bispos[5] tenham se pronunciado contra os católicos votarem em políticos pró-aborto, o mais comum é que políticos como Kaine não sofram nenhuma consequência por sua colaboração com o mal total.

aborto-planned-parenthood-960x420

Os católicos da Idade Média nunca entenderiam este paradoxo: esta profusão de desculpas conjugada com piedosa indiferença. Eles tinham o hábito de falar sem rodeios sobre o mal, e de encontrá-lo neles mesmos, ao invés de apontá-lo nos outros. Faríamos bem se seguíssemos a luz de seu exemplo, nós que vivemos na verdadeira idade das trevas da humanidade.

Notas:

[1] https://archive.org/details/laviedesaintalex00pariuoft

[2] https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_apologies_made_by_Pope_John_Paul_II

[3] https://cruxnow.com/vatican/2016/06/26/pope-backs-apology-gays-says-not-just/

[4] http://www.lifenews.com/2016/07/29/catholic-church-gives-pro-abortion-tim-kaine-a-standing-ovation/

[5] http://www.lifenews.com/2016/04/27/catholic-bishops-pro-life-voters-must-not-support-pro-abortion-candidates/

Confissões de um Esquerdista Radical

(traduzido do capítulo 45 do livro “The Liberal Mind”, de Lyle Rossiter, 2006)

Versão em PDF.

lm

“Em períodos críticos de minha infância, fui dolorosamente privado de amor, empatia, atenção e cuidado. Estas privações me fazem sentir ferido, necessitado, vazio, invejoso e irritado, mas eu tenho que fingir que não tenho essas emoções. Quando eu era pequeno, eu implorava, exigia e chorava para conseguir o que eu queria. Eu ainda quero agir assim, mas corro o risco de me sentir humilhado se o fizer. Não importa o que faço, eu nunca acho que tenho o suficiente do que preciso. Isso é uma injustiça terrível, e por causa dela eu creio ser uma vítima. Não sou paranóico por acreditar nisso; minha falta de confiança é realista. Mas sentir-me necessitado, invejoso e desprovido me deixa também deprimido e sem esperança. Certas horas eu me sinto também em pânico e com ódio. Eu sei que certas pessoas vão me maltratar, como fui maltratado na infância. Sinto-me profundamente magoado e irritado com os maus tratos que sofri nas mãos de vilões do passado e do presente.

“Para me defender contra essas situações, eu tenho que culpar certos indivíduos e grupos por meus problemas, e tenho que fazê-los dar a mim o que quero. Odiando-os por serem grosseiros, cruéis e egoístas, e tirando deles aquilo que têm, eu posso expressar minha ira e me sentir seguro, dono da verdade e poderoso. Culpar e odiar os outros ajuda a me afirmar como vítima, e a ver os outros como vilões aos quais posso punir enquanto tiro deles o que têm. O que eles têm são certos bens, serviços e posições aos quais tenho direito mas ainda não recebi. Para pôr fim a essa injustiça, usarei o poder do Governo para conseguir o que quero. Então deixarei de me sentir necessitado, invejoso e irritado. Não terei mais que implorar, pedir, manipular ou intimidar, porque o Governo vai fazer tudo isso por mim.

“O fato de o Governo poder tomar as coisas dos outros e dá-las a mim é, em si mesmo, gratificante. Preciso ter esse poder sobre os outros para que eu não me sinta desamparado, como eu sentia quando criança. O poder de tomar as coisas dos outros também me permite obter vingança pelas injúrias que suportei, e me permite deixar de sofrer. Além do mais, ganhar coisas satisfaz minha ganância. E eu sou mesmo ganancioso e invejoso, devido às privações que sofri na infância, mas não admito isso nem a mim mesmo nem aos outros. Ao invés disso, eu finjo que não sou invejoso, e nego veementemente ser ganancioso. Disfarço minhas exigências cobiçosas chamando-as de direitos. Os direitos são bens que alguém deve me proporcionar, porque eu os mereço; não devem me ver como ganancioso e ambicioso, mesmo eu sendo essas coisas. Minha razão para eu ter aquilo que os outros têm é minha necessidade legítima. Os esforços deles para manterem o que têm são sua avareza egoísta. Desse modo, eles são os gananciosos, não eu. Além do mais, eles merecem perder o que têm, já que eles tomaram as coisas dos outros. Estas opiniões me ajudam a fingir que não sou invejoso, nem cobiçoso, nem vingativo.

“Eu e outros como eu que somos necessitados, irritados e invejosos rejeitamos quaisquer regras que exigem que mereçamos o que temos. Para conseguir aquilo que é essencial numa boa vida, não deveríamos ter que fazer nada além do que já fizemos. Todos nós já sofremos bastante. Merecemos ser compensados sem mais fardos. As privações que sofremos no passado são o que nos torna dignos de direitos, no presente e no futuro. O simples fato de estarmos vivos e de termos padecido tantas provações, é suficiente para termos direito a benefícios gratuitos. Na verdade merecemos muito mais do que o essencial para uma boa vida, de modo a compensar as adversidades do passado. Por estes motivos, os direitos tradicionais de propriedade não devem impedir a satisfação de nossos direitos. Nós, as vítimas, devemos ter acesso desimpedido às riquezas, poderes e posições dos outros. Não aceitamos a primazia dos direitos de propriedade na proteção da liberdade ordenada, nem achamos que a liberdade individual é um ideal justo. Nossos direitos positivos de termos nossas necessidades satisfeitas e nossas injúrias compensadas são muito mais importantes do que os direitos básicos de propriedade ou a liberdade individual. Ademais, não reconhecemos a soberania das outras pessoas. Não reconhecemos o direito de serem deixados em paz. Nossos direitos são mais importantes do que os alegados direitos dos outros viverem as próprias vidas. Já que sofremos certas injustiças na infância, nós temos certas reivindicações legítimas às outras pessoas, à guisa de reparação. O fato de que as pessoas às quais fazemos estas reivindicações neguem qualquer papel causal nas injustiças que sofremos, passadas ou presentes, é irrelevante. Temos o direito de obter aquilo que é devido a nós por qualquer um que tenha os meios de provê-lo. Por conseguinte nós, os sem-qualquer-coisa, temos direito ao tempo, aos esforços, aos talentos e ao dinheiro daqueles que têm mais do que nós.

“Ver a mim mesmo como vítima inocente da injustiça, e ver os outros como vilões cruéis, gananciosos e mesquinhos, é meu jeito de me relacionar com o mundo. Posso me unir a outros que se sentem como eu me sinto, e este tipo de relacionamento preenche uma parte do vazio e acalma parte da insegurança que vem de minha infância. É especialmente importante que nessa união eu me sinta ligado a algo e a alguém. Estar conectado desse jeito me deixa seguro e tranqüilo, e reduz minhas ansiedades em relação à vulnerabilidade, ao desamparo, à separação e ao abandono que ficaram de minha infância. Eu também posso conseguir simpatia e piedade pelo meu sofrimento; isso me ajuda a compensar a falta de ternura que experimentei quando criança. De fato, minha união com outras vítimas de vilões cria uma família de sofredores e uma confederação de vítimas com as quais consigo me identificar. Todos nós vemos a nós mesmos como nobres mártires unidos em nossas dores, em nossa inveja, em nossa auto-piedade e em nossa piedade mútua. Unimo-nos também em nossa ira e ódio pelos vilões de nossas vidas, passados e presentes. Com isto, sinto-me justificado ao agir com raiva e de maneira destrutiva contra os vilões. Além do mais, quando vejo que meus problemas são causados pelos outros, eu posso ser odioso e vingativo com eles, evitando assim odiar e punir a mim mesmo.

“O jeito com que vejo as vítimas e os vilões me permite entender a condição humana. O mundo consiste de pessoas inocentes que sofrem e de pessoas cruéis que fazem os primeiros sofrerem. Nós que sofremos não somos de nenhum modo responsáveis por nosso sofrimento. Nossa dor nunca é provocada por nossos próprios erros, sejam de ação ou de omissão. Nossa dor é causada por pessoas egoístas e mesquinhas, e por instituições malvadas como o capitalismo, que permite que pessoas ricas e poderosas explorem as minorias pobres e fracas. Tendo esta visão de mundo, consigo me convencer de que a minha desconfiança do mundo não é um legado neurótico de minha infância, nem uma distorção paranóide da realidade. É uma percepção perfeitamente natural e precisa do aterrorizante estado das relações humanas. Os únicos pontos luminosos neste mundo infeliz são os esquerdistas radicais modernos. Se aparecer a oportunidade, estes homens e mulheres heróicos conseguirão: derrotar os vilões de nossas vidas; deixar-nos seguros e tranqüilos; unir-nos em zelo amoroso uns pelos outros; e satisfazer nossa vontade de depender de líderes poderosos.

“Se puderem conquistar um poder político suficiente, nossos líderes esquerdistas radicais criarão uma sociedade utópica. Na verdade, o moderno Estado-Mamãe é a mãe idealizada de meus sonhos, um benfeitor onipotente com poderes mágicos para acabar com o sofrimento humano. Eu encaro essa entidade como uma criança que adora sua mãe amorosa, como um adolescente que idolatra uma estrela de rock, como um fiel que venera a divindade. Sob o moderno Estado-Mamãe eu não temo nenhum mal, porque o Governo elimina todas as privações, satisfaz todas as vontades, repara todas as injustiças. Isto é o espírito do mundo de Hegel. Ele não somente cria o contexto das relações humanas, mas é a realidade final das relações humanas. Em uma fusão mística com esse espírito, vou experimentar a unidade do cidadão e da sociedade, a conexão de todos com todos, a abolição da separação, e o fim da alienação em toda a existência humana. Não mais me sentirei solitário ou abandonado; minha angústia existencial se dissolverá em uma comunhão com o coletivo. Pertencerei a todos e todos pertencerão a mim. Estarei finalmente seguro, finalmente serei livre de necessidades, livre de desconfiança. Nessa minha fusão com o estado grandioso, alcançarei não apenas a segurança da confiança básica; sentirei-me conectado à própria alma da humanidade. Além do mais, em minha campanha coletiva contra o individualismo, alcançarei corroboração, vingança e significado. Minhas paixões serão finalmente justificadas na nobre guerra contra o egoísmo. Minha vida terá verdadeiro significado em uma campanha histórica contra o mal.”

Santo Inácio, Confessor

Autor: Dom Próspero Gueranger, in O Ano Litúrgico.

Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

LUTERO — Ainda que o ciclo do tempo depois de Pentecostes tenha nos manifestado, em numerosas ocasiões, o zelo com que o Espírito Santo vela pela defesa da Igreja, volta a resplandecer neste dia o ensinamento de uma maneira nova. No século XVI um ataque formidável havia se desencadeado contra a Igreja. Satanás havia escolhido como chefe um homem caído, como ele, das alturas do céu. Lutero, agraciado desde sua juventude por predileções próprias dos perfeitos, não soube, em um dia de descaminho, resistir ao espírito de rebeldia. Como Lúcifer, que pretendia ser igual a Deus, ficou face a face com o Vigário do Altíssimo sobre o monte do Testamento[1]; de repente, rodando de abismo em abismo, arrastou atrás de si a terça parte dos astros do céu da santa Igreja[2]. Lei misteriosa e terrível, aquela que tão freqüentemente deixa nas esferas do mal o homem ou o anjo, vencido o poder que devia exercer para o bem e para o amor! Mas a eterna sabedoria jamais fica frustrada; precisamente então, frente à liberdade pervertida do anjo ou do homem, implanta esta outra lei substitutiva e misericordiosa, da qual foi Miguel o primeiro beneficiado.

VOCAÇÃO DE INÁCIO — A vocação de Inácio à santidade acompanha passo a passo em seu crescimento a apostasia de Lutero. Na primavera do ano de 1521, Lutero, desafiando todos os poderes, acabara de abandonar Worms e de refugiar-se em Wartbourgo[3], quando Inácio recebia em Pamplona a ferida que haveria de afastá-lo do mundo e encaminhá-lo pouco depois a Manresa. Valoroso como seus nobres antepassados, desde seus primeiros anos havia se sentido penetrado pelo ardor belicoso que se mostrava nos campos de batalha da terra de Espanha; mas a campanha contra o Mouro havia chegado ao fim precisamente nos dias de seu nascimento[4]. Poderia crer que para satisfazer seus instintos cavalheirescos teria somente porfias mesquinhas?

inacio-luther

O único e verdadeiro Rei digno de sua grande alma revela-se a ele na prova que detém seus projetos mundanos; uma nova milícia se apresenta para sua ambição: começa outra cruzada. O ano de 1522 contempla, desde os montes da Catalunha até os de Turingia, o crescimento da estratégia divina da qual unicamente os anjos possuem de fato o segredo.

MONTSERRAT — Admirável campina onde se diria que o céu se contenta em observar os poderes do mal, deixando que tomem a dianteira e apenas reservando-se o direito de fazer superabundar a graça ali mesmo onde pretende abundar a iniqüidade[5]. Assim como no ano anterior, três semanas depois de consumada a rebelião de Lutero, havia tido lugar o primeiro chamado de Inácio; a três semanas igualmente de distância, eis aqui o inferno e o céu exibindo seus eleitos sob as diferentes armaduras que correspondem aos dois campos, cujos chefes serão ambos. Dez meses de estranhas manifestações haviam preparado o substituto de satanás no forçado retiro que ele denominou “seu Patmos”; e em 5 de março, contrariando a ordem de desterro, o trânsfuga do sacerdócio e do claustro abandona Wartbourgo transformado, sob a couraça e o casco, em cavaleiro espúrio. No dia 25 do mesmo mês, na noite gloriosa em que o Verbo se fez carne, o flamante soldado das armas do reino católico, o descendente dos Iñigo e dos Loyola, vestido de saco, insígnia da pobreza que revela seus novos projetos, passa a noite em oração em Montserrat velando as armas. Pendura no altar de Maria sua bem temperada espada, e dali se dirige a lutas desconhecidas que o esperam em um combate sem compaixão por si mesmo.

PARIS — Por sobre a bandeira do livre exame [das escrituras] coloca a sua, com uma única divisa: Para maior glória de Deus! Logo se encontra em Paris (onde Calvino recruta secretamente os futuros huguenotes) para alistar, em favor do Deus dos exércitos, a companhia de vanguarda que deve proteger as hostes cristãs iluminando seu caminho, dando e recebendo os primeiros golpes. A Inglaterra, no início do ano de 1534, imita a Alemanha e os países do Norte em sua apostasia. Em 15 de agosto desse mesmo ano os primeiros soldados de Inácio, junto com ele, selam em Montmartre o compromisso definitivo que mais tarde renovarão em São Paulo Extramuros. Porque aquela tropa fixou em Roma o ponto de encontro, tropa que muito rapidamente crescerá de maneira surpreendente, e cuja profissão particular será a de estar sempre dispostos a dirigir-se, ao menor sinal, a todos os pontos onde o chefe da Igreja militante julgar utilizar bem seu selo, em defesa da fé ou para sua propagação, e para o progresso das almas na doutrina e na vida cristã.

A COMPANHIA DE JESUS — Lábios ilustres disseram[6]: “À primeira vista, o que surpreende na Companhia de Jesus é que para ela a idade madura é contemporânea da primeira formação. Quem conhece os primeiros criadores da Companhia conhece a Companhia inteira em seu espírito, em seu objeto, em seus empreendimentos, em seus procedimentos, em seus métodos. Que geração a que preside em suas origens! Que união de ciência e de atividade, de vida interior e de vida militante! Pode-se dizer que são homens universais, homens de raça gigantesca, em companhia dos quais não somos mais que insetos: de genere giganteo, quibus comparan quasi locustae videbamur.”[7]

INÁCIO E A ORAÇÃO DA IGREJA — Quão comovedora se nos parece a sensibilidade tão cheia de encantos destes primeiros padres da Companhia, indo a pé até Roma, a pé e em jejum, esgotados mas com o coração transbordante de alegria e cantando baixinho os Salmos de Davi! Quando foi indispensável, para responder às necessidades da hora presente, abandonar no novo instituto as grandes tradições da oração pública, não se fez isso sem grande sacrifício por parte de muitas destas almas; Maria, com pena, teve de ceder seu posto a Marta nesse ponto. Pelo espaço de tantos séculos a solene celebração dos Ofícios Divinos — dívida social primária — havia parecido tarefa indispensável de toda família religiosa; era o primeiro alimento da santidade individual de seus membros!

Mas a chegada de novos tempos, semeando por toda parte a degradação e a ruína, reclamava uma exceção tão insólita quanto dolorosa da valente companhia que consagrava sua existência à instabilidade de sobressaltos sem conta e de contínuas incursões por terras inimigas. Inácio compreendeu isso. Sacrificou, em benefício do objetivo que se impunha, a atração pessoal que sentiu toda sua vida pelo canto sagrado, cujas menores notas ao chegarem a seus ouvidos faziam verter nele lágrimas de consolo.

Com a chegada dos últimos tempos e de suas emboscadas, havia soado para a Igreja a hora das milícias especiais, organizadas em acampamentos móveis. Mas quanto mais difícil se tornava exigir destas tropas beneméritas, embebidas no contínuo batalhar exterior, os hábitos e costumes dos que protegiam a Cidade Santa, tanto mais Santo Inácio desprezava o estranho contrassenso que pretendia reformar os costumes do povo cristão segundo o modo de vida exigido pelo serviço de reconhecimento e de vanguarda, ao qual ele se sacrificou por todos os demais. A terceira das dezoito regras que assenta, como coroação dos Exercícios Espirituais, “para termos em nós os verdadeiros sentidos da Igreja ortodoxa”, recomenda aos fiéis os cantos da Igreja, os salmos, e as diferentes Horas canônicas no tempo assinalado para cada uma. E, no início do livro, que realmente é o tesouro da Companhia de Jesus, ao estabelecer as condições que permitiriam extrair o melhor fruto possível dos mesmos Exercícios, determina em sua vigésima nota que aquele que puder deve escolher, durante o tempo de sua duração, uma cela que lhe permita facilmente dirigir tanto os Ofícios quanto o Santo Sacrifício. Com isto, que faz pelos outros nosso Santo, senão aconselhar para a prática dos Exercícios o mesmo espírito com que foram compostos, neste retiro bendito de Manresa, onde a participação cotidiana na Missa solene e nos Ofícios do entardecer foram para ele um manancial de delícias celestiais?

ignatius

Vida — Inácio nasceu, sem dúvida, em outubro de 1491, em Guipúzcoa, da nobre família dos Loyola. Tendo entrado para o serviço do Rei de Navarra, foi ferido em Pamplona em 20 de maio de 1521. No decurso de sua convalescença, leu a Vita Christi de Ludolfo de Saxônia e, auxiliado pela graça divina, resolveu daí em diante seguir a Cristo. Em fevereiro de 1522, partiu para Montserrat com a finalidade de oferecer sua espada à Virgem; depois se dirigiu a Manresa, onde permaneceu um ano entregue à penitência e à oração. Compôs então seu célebre livro dos Exercícios Espirituais, que obteria a aprovação da Sé Apostólica e faria muito bem a inúmeras almas. Em 1523 fez uma peregrinação à Terra Santa, regressando depois à Espanha com o objetivo de estudar para se achar melhor disposto ao serviço de Deus e da Igreja. Com alguns companheiros partiu a Paris, aonde chegaram em 2 de fevereiro de 1528. Inácio recebeu ali sua graduação universitária e assentou os fundamentos da nova Ordem. Tendo estabelecido a ordem em Roma com aprovação de Paulo III, acrescentou aos votos ordinários o de consagrar-se às missões, se a Santa Sé assim o pedisse. Enviou São Francisco Xavier às Índias; ele mesmo lutou ardorosamente contra a heresia luterana; fundou casas de educação para a juventude; trabalhou na renovação da piedade entre os católicos; suas obras prediletas foram o embelezamento dos templos, o ensino do catecismo e a prática dos sacramentos. Por último, depois de ter trabalhado longo tempo para “a maior glória de Deus”, morreu em 31 de julho de 1556. Foi beatificado em 1609 e canonizado em 1623 junto com São Isidoro Lavrador, Santa Teresa de Ávila e São Francisco Xavier. Em 1922, Pio XI declarou-o patrono de todos os exercícios espirituais.

O SOLDADO DE DEUS — “Esta é a vitória que venceu o mundo: nossa fé.”[8] Tu, por tua vez, mostraste que foste o grande vencedor do mundo, deste mundo no qual o Filho de Deus te elegeu para exaltar Sua bandeira humilhada diante do estandarte de Babel. Estiveste longo tempo quase que sozinho contra os batalhões sempre crescentes dos rebeldes, deixando ao Senhor dos exércitos o cuidado de escolher a hora para que travasses a batalha contra as cortes de Satanás, assim como a escolheu para retirar-te da milícia terrena. Se o mundo tivesse então conhecido teus intentos, teria considerado tudo chacota; e contudo foi um momento tão importante para a história do mundo quanto aquele em que, à semelhança dos mais ilustres capitães a concentrar suas tropas, deste ordem a teus nove companheiros para se dirigirem de três em três à Cidade Santa. Que resultados admiráveis durante aqueles quinze anos em que esta tropa escolhida e recrutada pelo Espírito Santo teve-te como chefe e primeiro general! A heresia varrida da Itália, confundida em Trento, detida em todas as partes, imobilizada até em sua própria casa; imensas conquistas em terras novas, para reparar os danos sofridos em nosso Ocidente; a própria Igreja rejuvenescida em sua beleza, restaurada em seu povo e em seus pastores; assegurada para seus filhos uma educação correspondente aos seus destinos celestiais; por fim, todo lugar onde imprudentemente Satanás havia cantado vitória, em meio a espantosos rugidos, é dominado novamente por este nome de Jesus que faz dobrar todos os joelhos no céu, na terra e nos infernos[9]. Qual glória, ó Inácio, algum dia se igualou a esta, nos exércitos dos reis da terra?

INVOCAÇÃO AO CHEFE GLORIOSO — Vela, do trono que conquistaste com tantas façanhas, sobre estes frutos de tuas obras, e continua mostrando-te como soldado de Deus. Através das contradições que nunca lhes faltaram, mantém teus filhos na posição de honra e valentia que faz deles os sentinelas da vanguarda de tua Igreja. Que sejam fiéis ao espírito de seu glorioso pai, “tendo diante dos olhos, sem cessar, primeiramente o reino de Deus; em seguida, como um caminho que conduz a Ele, a forma de seu instituto, consagrando todas as suas forças para alcançar este objetivo que Deus lhes assinala, seguindo embora cada um a medida da graça que recebeu do Espírito Santo e o grau próprio de sua vocação”[10]. Finalmente, ó cabeça de tão nobre descendência, abraça em teu amor todas as famílias religiosas cuja sorte diante da perseguição veio a ser, nestes dias, tão estreitamente solidária à da tua; bendize particularmente a Ordem monástica que protegeu com suas antigas ramas teus primeiros passos na vida de perfeição, e o nascimento da egrégia Companhia que será tua imperecível coroa nos céus. Protege a Espanha, que te viu nascer não só para a vida terrestre, mas também para a graça da conversão. Roga para que os cristãos aprendam de ti a militar por Deus, a nunca renegar sua bandeira; roga para que todos os homens, debaixo de tuas ordens, recoloquem em Deus seu princípio e seu fim.

Notas:

[1] Isaías, XIV, 13.

[2] Apoc., XII, 4.

[3] A dieta de Worms, onde teve lugar a ruptura oficial do heresiarca, na presença das diversas ordens do império, viu consumar-se esta ruptura nos últimos dias de abril, e foi em 20 de maio que Inácio recebeu a ferida cuja consequência foi sua conversão.

[4] 1491.

[5] Rom., V, 20.

[6] Cardeal Pie, homilia pronunciada nas festas da beatificação de Pedro Fabro.

[7] “da raça dos gigantes, parecíamos gafanhotos comparados com eles”, Números, XIII, 34.

[8] 1 Jo, V, 4.

[9] Fl, II, 10.

[10] Nota de Paulo III.