Um pedido de desculpas para os católicos do passado

(Traduzido do artigo original publicado em 19/agosto/2016 na Crisis Magazine, em http://www.crisismagazine.com/2016/apology-catholics-past)

Autor: Timothy J. Williams

Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

Ao dar aulas de literatura francesa e ocidental, eu noto às vezes a reação perplexa de algum estudante aos pensamentos dos escritores medievais. Os leitores novatos mergulham avidamente em um texto de francês antigo esperando descobrir um panegírico à vida católica, numa época em que a cristandade estava ainda quase toda unida, e a Igreja integrada em cada aspecto da sociedade. Entretanto, quando lemos os grandes poemas católicos daquela época, percebemos imediatamente que as pessoas da Idade Média não se viam como modelos de católicos vivendo em tempos de grande fé. Ao contrário, freqüentemente elas julgavam a sociedade como irremediavelmente corrupta, infiel, hostil às virtudes, e indigna do nome “cristã”.

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Um bom exemplo dessa atitude se acha no poema A Vida de Sto. Aleixo[1], do século XI. Qual século poderia ser mais católico que aquele em que vários milhares responderam com gritos de “Deus vult!” ao apelo do Papa Urbano II para pegarem em armas na defesa dos cristãos na distante Terra Santa? E de fato a Vida de Sto. Aleixo é uma obra rústica de hagiografia, bem edificante, mas com grande força emocional. Entretanto, as linhas iniciais desse poema são marcadas pelo menosprezo, beirando o desespero:

Bons fut li siecles al tens ancienor,
Quer feit i ert e justise ed amor
Si ert credance, dont or n’i at nul prot;
Toz est mudez, perdude at sa color:
Ja mais n’iert tels com fut als ancessors.

O mundo era bom antigamente,
Pois havia fé e justiça e amor,
De fato havia confiança, da qual agora não há nenhuma;
Tudo mudou, e perdeu seu fascínio:
Jamais será como foi para nossos antepassados.

Um mundo arruinado, desprovido até mesmo das virtudes cristãs mais básicas, sem nenhuma esperança de que os homens que virão serão de alguma maneira melhores. O sentimento expresso aqui é muito mais que uma nostalgia de uma “era dourada” perdida no tempo, uma idéia que assombra não apenas o pensamento católico, mas também os mais primitivos pensamentos pagãos, idéia essa que muitos apologistas cristãos interpretaram corretamente como a primeira memória, fraca e fugaz, que nossa raça tem do Éden. Não, este poema (e incontáveis outros da Idade Média católica) revela um profundo senso de angústia, de indignidade, de humildade.

Claro que é exatamente este sentimento que torna a Idade Média muito mais católica que a nossa era. Mais que o poder temporal dos bispos e papas; mais que os sublimes milagres em pedra branca e vitrais coloridos; mais que os antigos rituais e as orações solenes entoadas em linguagem venerável — o verdadeiro espírito católico da Idade Média se encontra no desejo intenso de cauterizar as maldades do dia, de recuperar a virtude perdida, de restabelecer a amizade com os santos.

Não se trata de idealizar ou romancear o senso moral da Idade Média. Não há necessidade de repassar as crueldades da vida medieval. Mesmo levando em conta que a propaganda sobre a “idade das trevas” exagera enormemente sua morbidez e ignorância, não há dúvida de que a vida medieval podia ser “pobre, obscena, brutal e curta” (parafraseando o super-maquiavélico Hobbes). O fato notável é que para muitas pessoas hoje, a obscenidade e a brutalidade são modos atraentes de vida, embora não admitidos como tal. É improvável ouvirmos alguém falar hoje como um personagem de um romance de Mauriac: “Você não acha que a vida de pessoas como nós é horrivelmente similar à morte?

Se a conduta das pessoas do século XI não era necessariamente melhor que a das pessoas do século XXI, pelo menos elas não se gabavam de sua superioridade moral. Os católicos que escreveram, entoaram e ouviram poemas como a Vida de Sto. Aleixo não falavam de maneira untuosa sobre viverem uma “nova primavera” da Igreja, declarando a si mesmos como uma força de “renovação” por meio de métodos iluminados de “nova evangelização”. Eles essencialmente rezavam para evitar as piores calamidades, que eles sabiam merecer devido à sua cultura de pecado. E davam graças ao Deus que pensou neles o suficiente para lhes dar um Filho divino e Sua Mãe como consoladores in hac lacrimarum valle.

Acima de tudo, por estarem ocupados contemplando suas próprias faltas, os católicos dessa época antiga não se empenhavam em lamentar publicamente os supostos pecados das outras pessoas, tipo de “confissão” que parece estar na moda em nossos tempos. Nos três últimos papados, pelo menos, nós vimos uma avalanche de desculpas, quase sempre em nome de católicos de uma época anterior, e sem o contexto histórico necessário para sabermos o sentido das ações ou omissões daqueles fiéis. O papa São João Paulo II pediu desculpas tão freqüentemente, e por uma variedade tão grande de ofensas, que há uma página inteira da Wikipedia[2] dedicada a apenas esse aspecto de seu pontificado (e a página está bem incompleta).

O papa Francisco elevou a novas alturas esse culto à “eorum culpa”, emitindo pedidos de desculpas com estranhas palavras e que condenam os cristãos pelas próprias coisas pelas quais são dignos de louvor na cristandade. Por exemplo, de acordo com o papa[3], os cristãos devem pedir perdão “ao pobre, à mulher explorada, [e] às crianças exploradas como trabalhadoras”, mesmo que, historicamente, nenhuma religião ou outra organização de qualquer tipo tenha algum dia feito mais pelo pobre, pelo explorado, pelas mulheres, e pelas crianças.

Em que consiste, em última análise, esta afeição por emitir pedidos de desculpas em nome de cristãos (e especialmente católicos) de outras épocas? Às vezes, eu me pergunto se esses gestos não são apenas um tipo daquela oração do fariseu, de auto-elogio e de ação de graças pela própria superioridade moral: “O fariseu, em pé, orava no seu interior desta forma: Graças te dou, ó Deus, que não sou como os demais homens: ladrões, injustos e adúlteros; nem como ali aquele publicano.” (Lc 18,11) (Coloque o prefixo “Re-” na última palavra, e voila!aggiornamento moral.)

Alguém consegue realmente imaginar um papa medieval emitindo tais pedidos de desculpas? Certamente que o papa Inocêncio III expressou seu choque e arrependimento pelo resultado horroroso da quarta Cruzada, lançada por ele, mas isso não é nem de longe a mesma coisa que pedir desculpas por cristãos cujos feitos conhecemos apenas através de textos históricos. Inocêncio III (escrevendo em 1205) deveria ter pedido desculpas também pelo assassinato de Hipátia, filósofa pagã do século V, por uma multidão desvairada de cristãos em Alexandria? Ora, o historiador cristão Sócrates de Constantinopla, contemporâneo dela, já tinha condenado os cristãos da época dele por aquele crime. E não esqueçamos que o incitamento de violência dos pagãos contra os cristãos era bem comum naquele tempo.

Se queremos emitir um pedido de desculpas, não o façamos em nome com católicos do passado. Vamos pedir desculpas em nosso nome às gerações futuras que nunca terão chance de existir, devido à indiferença de muitos católicos de hoje em relação ao crime de aborto. Acabamos de testemunhar um católico bem conhecido, senador Tim Kaine, recebendo uma ovação de pé[4] de seus paroquianos e um voto de aprovação moral de seu pároco, apesar do forte apoio de Kaine ao posicionamento mais pró-aborto que um partido político americano jamais teve. Embora alguns bispos[5] tenham se pronunciado contra os católicos votarem em políticos pró-aborto, o mais comum é que políticos como Kaine não sofram nenhuma consequência por sua colaboração com o mal total.

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Os católicos da Idade Média nunca entenderiam este paradoxo: esta profusão de desculpas conjugada com piedosa indiferença. Eles tinham o hábito de falar sem rodeios sobre o mal, e de encontrá-lo neles mesmos, ao invés de apontá-lo nos outros. Faríamos bem se seguíssemos a luz de seu exemplo, nós que vivemos na verdadeira idade das trevas da humanidade.

Notas:

[1] https://archive.org/details/laviedesaintalex00pariuoft

[2] https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_apologies_made_by_Pope_John_Paul_II

[3] https://cruxnow.com/vatican/2016/06/26/pope-backs-apology-gays-says-not-just/

[4] http://www.lifenews.com/2016/07/29/catholic-church-gives-pro-abortion-tim-kaine-a-standing-ovation/

[5] http://www.lifenews.com/2016/04/27/catholic-bishops-pro-life-voters-must-not-support-pro-abortion-candidates/

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