Você vê o que eu vejo?

(Publicado originalmente no jornal católico The Remnant, edição de 31/dez/2015.)

Autora: Susan Claire Potts

Tradução: André Carezia

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A neve caía fraca, congelando a guirlanda de folha de cedro na sacada do apartamento de Tom e Angelina Reynolds. Angelina estava em pé junto ao guarda-corpo, de roupão de banho bem amarrado, olhando para baixo, para o Rio Detroit. Um único cargueiro avançava lentamente em direção ao Lago Saint Clair, silencioso como uma jangada, seu casco amarelo queimado a única cor no rio.

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Era véspera de Natal, e o sol se elevava no oriente. Ela ouviu a porta se abrir por trás dela.

“Ei! Angie!”, exclamou Tom.

Ela se virou.

“Que está fazendo aqui fora?”

“Pensando.”

“Ninguém lhe contou que está nevando?”

Ela ignorou a pergunta. “Você levantou cedo”, ela disse.

“A emissora acabou de ligar”, ele respondeu. “Tenho que ir a Holly.”

“Pensei que estava de folga hoje.”

“Também pensei”. Ele fez uma careta. “Meu, está congelando. Você vem?”

“Claro.”

Ela o ouvia resmungar enquanto o seguia até a cozinha. “Tinha que me chamar. Não podia mandar outro… acaba com meu dia de folga…”, ele reclamou enquanto se servia de uma xícara de café.”

“O que há em Holly?”, ela perguntou.

“Umas crianças da fazenda montando um presépio vivo, ou algo do tipo”, ele respondeu dando de ombros. “Markowitz achou que daria uma boa história. Crianças, animais, Natal… muitas emoções.”

Ele abriu a geladeira para pegar o creme de leite. “Bom quando terminar.”

“Tom…”

Ele não queria ouvir. “Então o que vai fazer agora pela manhã?”, perguntou.

“Ensaio do coral”. Ela fez uma pausa. “Para a Missa da meia-noite. Quer ir comigo?”

“Não”. Ele virou a cabeça. Não queria ver a reprovação que ele sabia estar no rosto dela. “Mas levarei você de carro.”

“Obrigada.”

“De nada.”

Ela estava quieta. Exceto pelo próprio casamento, Tom não ia à Missa desde a faculdade. Ele era um repórter de TV e só acreditava no que via com seus próprios olhos. Sua mãe a alertara. Angelina, ele não vai à igreja, ela dissera, enxugando as mãos no avental. Que vai fazer quando os bebês vierem?

“Vou pensar nisso quando chegar a hora”, respondeu Angelina. Nada bom. Nada bom mesmo.

Mas Angelina era teimosa. Ela amava Tom e pensava que as coisas seriam diferentes depois de casados. Ela estava certa de que ele iria à igreja com ela. Mas ele não foi. Não faz sentido, ele dissera.

“O que não faz?”

“A coisa toda.”

Ela não tinha nada para dizer. Nada podia fazer, exceto rezar. “Quando você tem que sair?”, ela perguntou.

“Vou encontrar o Josh na fazenda às onze. Vamos preparar e entrar ao vivo meio-dia.”

“A essa hora já estarei de volta. Assistirei.”

Tom se refugiou em seu canto para se preparar para a história. Lá pelas oito horas, Angelina estava na cozinha, assando bolinhos de Natal. Cantava Tu Scendi dalle Stelle, a música que cantava desde criança, a música natalina de seus ancestrais italianos. Ela traduzira para ele uma noite:

Vós desceis das estrelas, Ó Rei dos Céus, para uma gruta… para o frio… para o gelo… quanto custa a Vós me amar!

Ele parara de trabalhar para escutar. As palavras o tocaram de uma maneira que ele não entendera. Mas ainda assim ele não acreditara.

***

A antiga casa da fazenda ficava afastada da estrada de cascalho. Perto do celeiro, no meio de uma área aberta, estava um estábulo simples de madeira, construído para a cena do presépio, seu telhado coberto de neve. Uma estrela cintilante, feita de cartolina, pendia de uma macieira. Atrás disso tudo ficavam acres e acres de abetos e pinheiros.

O ar tinha perfume de Natal. Tom estacionou seu carro e correu pela área aberta até o estábulo. Josh Evans, seu câmera, já estava lá, montando o equipamento. Juntou-se uma multidão. Às cinco para meio-dia, um homem — Tom supôs ser o dono da fazenda — trouxe animais para o estábulo. A vaca e o burro, lembrou-se Tom. Ele não havia esquecido tudo. O fazendeiro pôs os animais atrás da manjedoura. Batendo em seus dorsos, ele se abaixou, sussurrou algo em seus ouvidos, e então saiu, enquanto um coro de crianças, vestidas como anjos, vinham em fila da casa da fazenda.

A Sagrada Família tomou seus lugares. Maria, delicada com seu manto azul e um véu, carregava um nenê, embalando-o nos braços. Ela sorriu para os animais e depositou o nenê na manjedoura, envolvendo-o carinhosamente com um grosso cobertor de lã. A criança balbuciou de leve. Tom segurou a respiração. Ele pensara que era um boneco. Mas era real. No frio como o Menino Jesus. Maria se ajoelhou, seu véu recaindo sobre seu rosto, enquanto José se colocou a seu lado. Será que aconteceu mesmo? Tom ponderou, e então afastou o pensamento. Indo para a lateral do estábulo, ele ligou seu microfone e virou-se para Josh. “Vamos gravar”, disse.

“Já.”

Tom limpou a garganta e olhou para a câmera. “Aqui é Tom Reynolds”, começou, “transmitindo ao vivo da Fazenda Hauzenberg, onde um grupo de crianças está encenando o Natal de Jesus Cristo”. O coro cantou Gloria in excelsis Deo! Tom estremeceu, sem saber se do vento batendo em seu rosto ou da música dos anjos. Meninos pastores chegaram então, trazendo um pequeno rebanho de carneiros. Depois de entrarem no estábulo, ajoelharam-se na manjedoura. Tom fez uma mímica para Josh. Dê um close, falou sem emitir som. O câmera se posicionou para filmar.

Tom terminou a gravação. “Está feito”, disse com um aceno do braço.

“Acho que não acabou”, disse Josh.

“Por que?”

“Olhe lá.”

Os três Reis Magos — meninos ricamente vestidos com casacos de pele e coroas nas cabeças — estavam aguardando ao longe na área aberta. Um camelo estava atrás deles. O camelo era alto, com mais de 1,80m, e tinha uma corcova só. Um cobertor bordado, com pendões nos cantos, e pedras cintilantes costuradas na bainha, estava estendido sobre suas costas. Pendia de seu pescoço uma corrente de pequenos sinetes de bronze. Os pequenos sinos soaram à medida que o camelo acompanhou os Magos ao estábulo, trazendo presentes para o recém-nascido Rei.

“Acho que temos aqui uma outra história”, disse Tom.

Quando a peça terminou, um dos reis meninos, trajando veludo vermelho, levou o camelo até o celeiro. Ele estava amarrando o camelo a um poste quando Tom se aproximou. O camelo se virou e considerou Tom serenamente, seus olhos inteligentes cercados por cílios duplos.

“Belo animal”, disse Tom. “Você pode nos falar sobre ele?”

“Claro”, o menino respondeu. “Ele pertence a meu tio, que tem uma fazenda lá no ‘Polegar’[1]. Quando eu lhe contei sobre o presépio vivo, ele me perguntou se eu queria usar seu camelo. Não é legal?”

“Muito legal.”

“Ele é um dromedário. Sabia que os dromedários conseguem correr a 50 km/h?”, ele perguntou.

“Não sabia”, respondeu Tom. “Isso seria algo interessante de se ver.”

“Veja isto”, disse o menino. Ele bateu três palmas, e o camelo se abaixou mantendo a cabeça ereta.

“Parece que ele está se ajoelhando”, disse Tom.

“E está. Eles treinam os camelos para fazerem isso”, respondeu o menino. “Assim é mais fácil de carregá-lo — e de montar nele”. Ele abriu um largo sorriso. “Parece que está rezando, não parece?”

Tom deu risada. “Acho que sim.”

“O nome dele é Naveed”, o menino falou ao dar um tapinha no pescoço do camelo. “Quer dizer Boa Nova.”

***

Tom levou Angelina à igreja, a tempo para um ensaio de última hora antes do recital de Natal às onze. Ele estacionou o carro e andou com ela pela neve até os degraus da frente.

“A que horas você quer que eu volte?”, ele perguntou.

“1:30h?”

“Estarei aqui.”

“Queria que viesse à meia-noite… para a Missa…”

Ele deu um beijo no rosto dela. “Até mais tarde.”

Tom esperou até que Angelina estivesse segura lá dentro. Ao invés de voltar para casa, ele foi ao Sinbad’s, o restaurante beira-rio perto do apartamento deles. Ele não queria ficar sozinho. O restaurante estava cheio e barulhento, bem do jeito que ele queria. Algo o estava incomodando. O que era? O presépio? A Missa? O pedido de Angelina? Ele chegou à conclusão que era tudo isso junto. Até o camelo.

Ele sentou junto ao bar, pediu uma cerveja e um prato de lula. Uma música de Natal estava tocando no alto-falante. Uma voz de menino: Você vê o que eu vejo?

“Não, eu não”, disse Tom.

“Hein?”, exclamou o atendente do bar.

“Nada. Só pensando.”

Seria bom se ele pudesse ver, mas ele não via. Ele se lembrou do Natal quando era criança. Ele acreditava naquela época? Ele não sabia. Não lembrava. Ele agitou sua cerveja e tentou imaginar como Angelina fazia — como ela podia ter tanta certeza de ser verdade. A garçonete tinha acabado de trazer sua janta quando seu telefone vibrou, e depois tocou tão alto que o homem sentado ao lado quase derramou a bebida. Tom fez um gesto de desculpas, tirou o telefone do bolso e atendeu.

“Reynolds”, ele disse.

“Tom. Aqui é Markowitz. Escute, arrumei uma reportagem.”

“Angelina está na igreja. Tenho que pegá-la à uma, uma e meia.”

“Tempo de sobra.”

“O que há?”

“Você não vai acreditar.”

“Tente.”

“Sabe aquela coisa do presépio que você fez hoje lá em Holly? Com os animais e tudo aquilo?”

“Sim…”

“O camelo escapou. Rompeu a corda e saiu em disparada. Parece que ele se enfiou por umas estradinhas, e depois foi para o sul, como se soubesse para onde ir. Alguém o avistou no Lago White. O camelo desapareceu, mas depois outro cara ligou do carro, gaguejando sobre um camelo correndo a 50 ou 60 km/h, ao longo da I-75, em direção a Detroit.” Markowitz fez uma pausa para tomar fôlego. “Um camelo corredor! No Natal! Que reportagem!”

“Aonde devo ir?”

“Josh está esperando você no drive-in do Mack. Espere lá. Pelo que vejo, o camelo vai aparecer a qualquer momento.” Tom enfiou o telefone no bolso, pagou a conta, e saiu. Quinze minutos depois, ele avistou o furgão da emissora. Ele parou atrás dele e saltou para fora. Josh abaixou a janela. “Ei”, ele gritou. “Outra reportagem de camelo! Coisa estranha.”

“Estranho mesmo”, disse Tom enquanto subia no furgão. Eles esperaram, mas o camelo não apareceu. Tom ligou na emissora. “Eu acho que o perdemos. Olhe, tenho que ir buscar Angelina.”

“Onde ela está?”

“Sagrada Família. Saindo da Lafayette. Josh vai ficar aqui. Ele vai me mandar mensagem se vir algo, e eu voltarei imediatamente aqui.”

“Mantenha-me informado”, Markowitz ordenou. “Vamos saber logo, logo. O controle de animais está à procura. Os tiras também. Quer dizer, quão difícil pode ser avistar um camelo?”

Estava nevando forte enquanto Tom dirigia de volta à igreja. Ele estacionou o carro e estava saindo dele quando ouviu algo se mexendo atrás do prédio, no canto. Ele esperou, escutando, mas não voltou a ouvir. Um gato, provavelmente, ele pensou, ou um cachorro perdido.

Ao abrir a porta lateral para entrar na igreja, ele ouviu o tilintar de sinos. Deve estar vindo do coral, pensou ele ao entrar e se esgueirar por um banco do fundo. As pessoas estavam se ajoelhando, cantaram o Sanctus, e depois tudo ficou quieto. O sacerdote rezava em latim no altar, com a voz baixa, quase inaudível. Tom correu os olhos do altar às pessoas cheias de adoração. Ele queria saber o que eles sabiam, queria ver o que eles viam naquele antigo Sacrifício.

O alter Christus se inclinou profundamente, sussurrando. A sineta tocou, então, os triplos sons dourados, enquanto o sacerdote pronunciava as Palavras do Salvador, chamando Deus para descer dos Céus.

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O mistério da fé. O silêncio manifestou-se na igreja, mais pesado que o som, uma quietude sagrada, envolvendo-se em Tom como os braços de uma mãe. Tom sentiu uma punhalada no coração. Sentiu como nunca tinha sentido antes. Conforto e paz. E acima de tudo, uma alegria maravilhosa. O padre se virou para o povo, segurando a Hóstia diante deles, para que pudessem contemplar seu Deus. Ecce Agnus Dei.

E então Tom viu. Não com o corpo, mas com os olhos da alma, ele viu o Menino na Hóstia, olhando para ele. Não sorrindo. Não abrindo os braços. Apenas olhando. Tom olhou de volta com reverência, seu coração pulando, enquanto ouvia as palavras de humildade e desejo, há muito esquecidas.

Domine non sum dignus, sussurrou ele.

Enquanto as longas filas de pessoas enchiam o corredor para receber a comunhão, o coro começou a cantar. Tom escutava a voz de Angelina acima das outras, cantando o Senhor Deus descido das estrelas. Tu scendi dalle stellae, ela cantava, O re del cielo. Ó Rei dos Céus, sussurrava Tom, à medida que a dura casca da incredulidade se despedaçava.

A Missa terminou e o povo saiu. As pesadas portas foram abertas completamente, e Tom podia ouvir a comoção na frente da igreja — as pessoas rindo e conversando. Tom ignorou tudo isso. Ficou onde estava, subjugado, com a cabeça entre as mãos.

Olhando para ele do alto do coro, Angelina tentou imaginar qual era o problema. “Será que ele está doente?”, pensou ela ao descer as escadas e entrar no banco ao lado dele. Você está bem?, sussurrou ela. Ele olhou para ela e apertou sua mão. Ele não precisou dizer uma palavra. Ela entendeu. Lágrimas escorreram de seu rosto.

Eles ficaram ali, sozinhos, rezando. Então Tom ouviu um ruído suave de passos atrás dele. Ele se virou para ver quem era, e seu queixo caiu. Ele cutucou Angelina.

Era o camelo.

Do presépio?, Angelina mexeu os lábios. Ele fez que sim com a cabeça.

Mas como…?

Ele escapou. Depois eu conto.

Enquanto eles assistiam, o camelo andou pelo corredor central, majestoso como um rei, os olhos fixos no tabernáculo. E parou a um metro da mesa de comunhão.

Você tem que fazer algo?, sussurrou Angelina.

Espere aqui. Tenho que enviar mensagem a Josh. Tom saiu do banco e foi ao hall de entrada da igreja, e avisou o câmera. Depois chamou a polícia e o pessoal de controle de animais. Seu telefone vibrou.

Uma mensagem de Josh. Chegando com a câmera.

Tom voltou para dentro da igreja. Entrou no banco perto de Angelina, e o camelo se mexeu. Os sinos soaram em seu pescoço, enquanto Naveed se virava e andava lentamente em direção ao Presépio no altar lateral. Ele ficou parado por uns instantes diante da manjedoura, e então vagarosamente, lentamente, abaixou-se até ficar de joelhos.

Lá fora, o vento soprou. As nuvens se dissiparam, e uma estrela solitária iluminou o céu.

***

Notas:

[1] O estado do Michigan tem o formato de uma luva, e a região entre o Lago St. Clair, Port Austin e Bay City tem o formato do polegar da luva.