Os Anjos da Guarda

Autor: Dom Prosper Gueranger, in “O Ano Litúrgico”

Tradução: André Carezia

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HISTÓRIA DA FESTA – Embora a solenidade de 29 de setembro tenha por objetivo honrar a todos os espíritos bem-aventurados dos nove coros, a piedade dos fiéis nestes últimos séculos quis que se consagrasse um dia especial aqui na Terra para celebrar os Anjos da Guarda. Várias igrejas começaram a celebrar esta festa, e puseram-na em diferentes data do ano; Paulo V, embora permitindo-a em 27 de setembro de 1608, achou conveniente não impor sua aceitação; Clemente X acabou com essa variação em torno da nova festa, e a 20 de setembro de 1670 fixou-a em 2 de outubro, primeiro dia livre depois de São Miguel, a cuja festa está como que subordinada.

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DOUTRINA DA IGREJA – É de fé que, neste desterro, Deus encomenda aos anjos a custódia dos homens destinados a contemplá-Lo no céu; e isto as Escrituras asseguram, e a Tradição o afirma unanimemente.

As conclusões mais certas da teologia católica estendem o benefício desta preciosa proteção a todos os membros da raça humana, sem distinção de justos ou pecadores, de infiéis ou batizados. Afastar os perigos, sustentar o homem em sua luta contra o demônio, despertar nele pensamentos virtuosos, apartá-lo do mal e castigá-lo de quando em quando, rogar por ele e apresentar a Deus suas próprias orações: eis aí o ofício do Anjo da Guarda. E é um ministério tão especial que o mesmo Anjo não acumula a custódia simultânea de vários. E é tão assíduo que acompanha seu protegido desde o primeiro dia até o último de sua vida, apanhando a alma que sai deste mundo para conduzi-la depois do juízo ao lugar merecido no céu, ou na mansão temporal de purificação e expiação.

Os NOVE COROS – A santa milícia dos Anjos da Guarda é recrutada principalmente do lado mais próximo de nossa natureza, entre os postos do último dos nove coros. Deus, de fato, reserva aos Serafins, Querubins e Tronos a honra de formar Sua augusta corte. As Dominações presidem do alto de seu trono o governo do universo. As Virtudes velam pela firmeza das leis da natureza, pela conservação das espécies, pelos movimentos dos céus; as Potestades mantêm acorrentado o inferno. A raça humana, em seu conjunto e nos grupos sociais das nações e das Igrejas, está confiada aos Principados; o ofício dos Arcanjos, encarregados das comunidades menores, parece incluir também o de transmitir aos Anjos as ordens do céu, com o amor e a luz que descem até nós da primeira e suprema hierarquia. Ó abismo de sabedoria em Deus![1] Assim é que o conjunto admirável de ministérios, disposto entre os diversos coros de espíritos celestiais, se ordena para o seu fim: guardar o mais humilde deles, o homem, para quem foi criado o universo. O mesmo afirma a Escolástica[2], e também o Apóstolo: Não são todos os anjos espíritos ao serviço de Deus, que lhes confia missões para o bem daqueles que devem herdar a salvação? [3]

OFÍCIO DOS ANJOS DA GUARDA – “Os anjos”, diz São Lourenço Justiano, “observam nossas diversas ações; exortam-nos, incitam-nos, levantam-nos depois de nossas quedas, e mantêm vigília em torno da Igreja militante. Sobem e descem sem cessar; andam sempre contentes, sempre solícitos, do céu à terra e da terra ao céu, oferecendo a Deus nossas obras, nossas lágrimas e nossas orações. Trazem-nos, do altar Deus, por assim dizer, a humanidade de Cristo, o fogo da caridade, o ardor da fé, e a esperança de um dia termos parte na glória dos santos. Mostram-nos o triunfo dos mártires para que tenhamos maior ânimo; a porta aberta do céu, para induzir-nos a desprezar o mundo; a presença contínua de Deus, para encher-nos de respeito; e por fim a imensidão da eterna fortuna, para excitar nossos desejos. Quanto mais oportunidades eles têm de cumprir por nós estas diversas funções, mais felizes e diligentes se sentem. Não invejam de forma alguma nosso progresso no bem, nem diminuem em nada nossos méritos; ao contrário, trabalham pela nossa perfeição, instruem-nos em nossos deveres, e dão-nos coragem para cumpri-los. Não têm outro desejo nem outro fim que não seja a glória do Onipotente e a nossa salvação. São amigos da Sabedoria e vivem próximos ao Verbo, isentos de toda miséria e de toda imperfeição. Mesmo enquanto exercem seu ministério em meio ao mundo, não ficam nem com a mais mínima mancha, e nem sentem fadiga alguma. Ainda que circunscritos pelo espaço, permanecem sempre na presença de Deus; ao mesmo tempo que servem aos homens, não cessam de oferecer amorosamente ao seu Criador o sacrifício de louvor; as funções de seu ministério não se separam da homenagem e da glória que devem tributar ao Rei imortal.”[4]

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Deus, porém, que se mostra extremamente admirável para a estirpe humana, não deixa por menos os governos deste mundo quando se trata de honrar com uma especial atenção os príncipes de Seu povo, os privilegiados de Sua graça, ou os que regem o mundo em nome dEle; como dizem os santos, uma suma perfeição, uma alta comissão do Estado ou da Igreja, exigem para o investido a assistência de um espírito também superior. A anjo da primeira hora – se assim se pode dizer – não precisa necessariamente ser guarda de si mesmo. Não há lugar, no campo das operações de salvação, para que o titular do posto a ele confiado desde o princípio possa temer encontrar-se sozinho; a uma chamada sua, ou a uma ordem do alto, os exércitos dos bem-aventurados companheiros, que enchem os céus e terra, estão sempre dispostos a prestar-lhe ajuda poderosa. Entre estes nobres espíritos, que na presença de Deus aspiram a aumentar por todos os meios seu amor a Ele, há alianças secretas que às vezes originam neste mundo, entre seus devotos, aproximações cujo mistério se descobrirá no dia da eternidade.

OS ANJOS NA CRIAÇÃO – “Profundo mistério”, diz Orígenes, “é a repartição das almas entre os anjos encarregados de sua guarda; segredo divino relacionado com a economia universal que descansa no Homem-Deus! E não é sem inefáveis disposições que se repartem entre as Virtudes dos céus os serviços da terra, os grupos múltiplos da natureza: fontes e rios, ventos e bosques, plantas, seres animados dos continentes e dos mares, cujos ofícios se harmonizam por intermédio dos anjos que dirigem seus variados ofícios ao fim comum.”[5] Deste modo se conserva, em sua forte unidade, a obra do Criador.

E sobre estas palavras de Jeremias, “Até quando permanecerá a terra em luto?”[6], Orígenes prossegue[7]: “A terra se regozija ou chora por cada um de nós; e não somente a terra, mas também a água, o fogo, o ar, e todos os elementos, não da matéria insensível, mas dos anjos que estão à frente de todas as coisas do mundo. Há um anjo da terra, e é este que, juntamente com seus companheiros, chora por nossos crimes. Há um anjo das águas, a quem se aplica o salmo: As águas vos viram, Senhor, as águas vos viram; elas tremeram e as vagas se puseram em movimento. Em torrentes de água as nuvens se tornaram, elas fizeram ouvir a sua voz, de todos os lados fuzilaram vossas flechas.”[8]

A natureza, considerada desta maneira, é grande. A antigüidade, que abundava de verdades e de poesias mais que nossas gerações atuais, deste modo contemplava o universo. Seu erro consistiu em adorar a esses poderosos mistérios, com prejuízo do único Deus, ante o qual se inclinam aqueles que sustentam o mundo.[9] “Ar, terra, oceano, tudo está cheio de anjos”, afirmou por sua vez Santo Ambrósio[10]. “Eliseu, assediado por um exército, não tinha medo algum, pois via que lhe assistiam esquadrões invisíveis. Oxalá o profeta te abra também os olhos, e que o inimigo, ainda que seja legião, não te assuste: crês que estás sitiado, mas estás livre; os que estão conosco são mais numerosos do que os que estão com eles[11].”

CULTO AO ANJO DA GUARDA – Para terminar, escutemos hoje, como a Igreja o faz, o abade de Claraval, em cuja eloqüência parecem nesta ocasião brotar asas: “Mostra-te, em todo lugar, respeitoso para com teu anjo. Disponha-te a render culto à sua grandeza e graças por seus benefícios. Ama este futuro co-herdeiro, que agora é o tutor designado pelo Pai para os dias de tua infância. Porque, ainda que sejamos filhos de Deus, não passamos agora de crianças, e o caminho é longo e perigoso. Mas aos seus anjos Deus mandou que te guardem em todos os teus caminhos. Eles te sustentarão em suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra. Sobre serpente e víbora andarás, calcarás aos pés o leão e o dragão[12]. Certamente, por onde o caminho é fácil para uma criança, sua ajuda se reduzirá a ser simplesmente um guia, a sustentar-te como se faz às crianças. Mas a provação corre o risco de exceder tuas forças? Eles te levarão em suas mãos. Mãos de anjos! Quantos atoleiros temíveis, ultrapassados quase que sem se dar conta à mercê destas mãos, só deixaram no homem a impressão de um pesadelo rapidamente desvanecido!” [13]

AGRADECIMENTO AOS ANJOS – Santos Anjos, benditos sejais porque os crimes dos homens não cansam a vossa caridade; damos graças a vós pelo benefício – entre muitos outros – de conservar a terra habitável, dignando-nos permanecer sempre nela. Muitas vezes há perigo de que a solidão se torne pesada no coração dos filhos de Deus nas grandes cidades e nos caminhos do mundo, onde se acotovelam apenas desconhecidos ou inimigos; porém, se diminuiu o número dos justos, não diminui o vosso. E em meio à multidão entusiasmada, como também no deserto, não há um ser humano que não tenha junto de si seu anjo, representante da Providência universal sobre os bons e os maus. Espíritos bem-aventurados, temos a mesma pátria que vós, o mesmo pensamento e o mesmo amor; por que os ruídos confusos de uma turba frívola hão de turbar a vida do céu que desde agora podemos viver já convosco? O tumulto das praças públicas impede-vos por acaso de formar no além vossos coros, ou impede o Todo-poderoso de perceber nelas as vossas harmonias? Também nós queremos cantar por toda parte ao Senhor, e unir continuamente as nossas adorações às vossas, vivendo pela fé na face oculta do Pai[14], cuja contínua contemplação provoca arroubos em vós[15]. Se formos tomados por este modo angélico de viver, a vida presente não nos oferecerá nenhuma inquietude. E nem a eterna surpresa alguma.

Notas:

[1] Rm 11,33.

[2] Suárez, De Angelis, 1, Cap. VI , XVIII, 5.

[3] Hb 1,14.

[4] Da Agonia Triunfante.

[5] Comentário sobre Josué, Homilia 23.

[6] Jeremias 12, 4.

[7] Homilia 10.

[8] Salmo 76, 17-18

[9] Jó 9, 13.

[10] Comentário do Salmo 118; Sermão I, 9, 11, 12.

[11] 2Re 6, 16.

[12] Salmo 90, 11-13.

[13] Comentário ao Salmo 40; Sermão XII.

[14] Salmo 30, 21; Colossenses 3, 3.

[15] Mt 18, 10.

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