Sede da Sabedoria

Autor: Michael Hichborn
Tradução: André Carezia

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“Deus pode criar uma pedra tão pesada que nem Ele mesmo pode erguer?”, pergunta em sua essência uma antiga charada medieval.

À primeira vista a questão parece bastante absurda, pois afinal Deus é onipotente: Ele pode fazer qualquer coisa. Porém, quando consideramos as possibilidades, parece impossível responder afirmativamente à pergunta – por qualquer ângulo que se tente.

Deus pode criar qualquer coisa que deseje, de modo que é óbvio que Ele pode criar um objeto infinitamente pesado. Entretanto, Deus é também todo-poderoso, de maneira que Ele pode erguer qualquer coisa que crie. Portanto, qualquer que seja a resposta à questão, ou Ele não consegue criar a pedra, ou Ele não consegue erguê-la.

Ao longo dos séculos os filósofos tentaram encarar de frente a questão. São Tomás de Aquino afirma, por exemplo, que a origem do paradoxo é um mau entendimento ou um abuso da palavra “onipotência”. Na questão 25 da primeira parte da Suma Teológica, o Doutor Angélico diz:

As coisas, porém, que implicam contradição não constituem objeto da divina onipotência, por não poderem ter a natureza de coisas possíveis. Por isso, é mais conveniente dizer que não podem ser feitas, em vez de dizer que Deus não pode fazê-las. Nem isto vai contra as palavras do Anjo: Porque a Deus nada é impossível. Pois, o contraditório, não podendo ser conceito, nenhum intelecto pode concebê-lo.

Em outras palavras, uma contradição sempre implica uma impossibilidade, não importando se Deus é ou não o agente principal no experimento teórico proposto.

C.S. Lewis, ao invés de examinar a charada pelo critério lógico, enfrentou-o como um problema de definição. Em seu livro “A Grief Observed” [Uma Dor em Observação], Lewis escreveu:

Um mortal consegue fazer perguntas que Deus não pode responder? É bem fácil, eu diria. Todas as perguntas nonsense são irrespondíveis. Quantas horas há em um quilômetro? O amarelo é quadrado ou redondo? É provável que metade das questões que levantamos – metade de nossos grandes problemas teológicos e metafísicos – sejam assim.

O Natal já está aí às portas, e nós temos a chance de considerar a questão sob uma outra luz. Já peço desculpas a esses grandes pensadores maiores do que eu, mas humildemente venho aqui propor que não apenas Deus pode criar um objeto tão grande que não possa levantar, como já o fez.

Os grandes pensadores com certeza responderam à questão em seu valor de face, apontando a falta de sentido e de lógica que ela contém. Entretanto, com alguma compreensão das duas naturezas de Deus, notamos que há um elemento que não está sendo considerado.

A Santíssima Virgem Maria é o pináculo da criação de Deus, perfeita em todos os sentidos, sem mancha, e literalmente cheia da Graça Divina. Deus criou Maria para ser a ponte de perfeição entre Ele próprio e o homem. Sem a perfeição dela, não poderia haver uma passagem da divindade para a humanidade. E por meio do “faça-se” de Nossa Senhora, Deus se tornou homem: Nosso Senhor foi concebido em seu ventre.

Naquele exato instante, Nosso Senhor Bendito, que tem duas naturezas, se encontrava em total presença no ventre de Maria. Jesus é 100% Deus e 100% homem.

Sendo Deus, pelo poder do Espírito Santo, Ele se fez homem. E uma vez encarnado no ventre na Puríssima Virgem Maria, Ele se tornou completamente dependente dela para manter Sua vida e Seu sustento. Na verdade, depois de nascido, Ele não somente não podia erguê-la, mas pela primeira vez em toda a história humana, um ser humano foi capaz de olhar para BAIXO e ver o rosto de Deus.

Ao erguer o Cristo Menino para colocá-lo sobre seus joelhos, Nossa Senhora se tornou a Sede da Sabedoria.

Deus criou Maria… mas ao se fazer encarnado no ventre dela, Ele ao mesmo tempo criou algo (ou melhor, alguém) tão grande no tempo e no espaço, que nem Ele podia erguer.

(Traduzido do original publicado em 22/dezembro/2017 no “Catholic Week in Review”, boletim semanal do Instituto Lepanto.)