Et tu, Bento?

Autora: Hilary White[1]
Tradução: André Carezia

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Recentemente, o editor de uma revista católica “conservadora” me perguntou se eu estava interessada em escrever um artigo sobre a renúncia do papa Bento XVI, agora que se passaram cinco anos. Recusei dizendo-lhe que eu estava moralmente certa de que nada do que eu tinha para contar estaria de acordo com a sua linha editorial. Depois destes cinco anos eu já percebo que há muito menos gente se referindo ao abandono do pontificado como um ato “corajoso”. As conseqüências daquele ato têm se mostrado tão bizarras – mesmo para quem, no geral, está de acordo com Francisco – que muito poucas pessoas ainda se dispõem a emitir ruídos educados sobre isto.

Na verdade, após cinco anos da renúncia do papa Bento, a maioria dos fiéis católicos quer saber o porquê. Por que um papa – um homem com décadas de experiência íntima e pessoal com a “sujeira” na cúria e em toda a Igreja – decidiria sair de repente? Por que ele escolheria ir embora sabendo que a sua tarefa não estava completa? Tanto na época quanto agora, especialmente à luz do que vem acontecendo, as razões oferecidas são tão triviais, tão inapropriadas, tão desproporcionalmente mesquinhas, que parecem ser um dos aspectos mais bizarros de toda esta situação bizarra.

Essas respostas absurdas a perguntas sérias e graves levantaram de modo inescapável a suspeita de que Bento simplesmente não levou o papado tão a sério como nós aqui levamos. Não é possível evitar a ponderação: será que essas respostas trivializadas revelam algum profundo defeito nunca antes suspeitado? Será que estivemos errados sobre ele? Em caso positivo, será que estivemos tão errados assim?

As razões que ouvimos na época eram todas, em essência, “estou cansado”. Havia uma certa sugestão de que ele não se sentia mais apto para viagens internacionais, de modo que não podia ir ao Dia Internacional da Juventude e a eventos similares. A trivialização da renúncia parecia estar de mãos dadas com o conceito moderno do “papa como pop star”, coisa em que um homem tão sério – um católico tão sério – quanto Bento não poderia acreditar. Assim pensávamos. Assumimos que Bento XVI, mais do que todos, levava o papado a sério.

E desde então, enquanto todos os venenos que ficaram à espreita por cinqüenta anos na lama da Nova Igreja estão agora eclodindo freneticamente, muitos católicos querem saber: por que não ouvimos nada dele? Deste homem que acreditávamos ser o “campeão da ortodoxia”, que pensávamos conhecer. O erro, e até mesmo a heresia e a blasfêmia, escorrem diariamente da boca de seu sucessor – o qual, literalmente, transformou o Vaticano em um covil de ladrões – e não ouvimos nada além dos pronunciamentos ocasionais, feitos com palavras cuidadosamente escolhidas, para dizer que está tudo muito bem. Quão contente ele está com a sua decisão, e quão feliz com a sua vida atual!

Depois de três anos de desmonte sistemático de tudo que ele tinha tentado fazer em seu pontificado, o que obtemos de um Ratzinger que parece absolutamente tranqüilo é isto: “Sua bondade é o meu lar, é o lugar onde me sinto seguro.” Todo mundo que já tenha lido qualquer coisa escrita por ele ficou admirado dele ser capaz de emitir um disparate tão piegas quanto este, mas o vídeo não mente.

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Este novo tom foi tão estranho que começou a circular uma especulação de que ele estava sob algum tipo de pressão externa, sem liberdade para falar o que pensa. Mas isto não é o que nós vemos. Ele está ali claramente feliz, lendo aquilo em voz alta. “Pode ter sido escrito para ele.” Mas então por que repetir? Se ele tem algum receio, por que se deixar guiar em ocasiões assim, por que ler esta propaganda descarada? Se é uma fraude, por que participar dela?

Todos os que comentam esperançosamente em blogs e outras mídias sociais, dizendo-me sempre o quanto “sentem falta” dele, na verdade deixam de respeitá-lo numa coisa: eles não aceitam a sua palavra. Alguns insistem que a sua renúncia foi feita sob algum tipo de coação e é portanto inválida. Mas nós o ouvimos dizer várias vezes que ninguém o estava constrangendo, que ele tinha renunciado livremente. E de fato ele está longe de ser um “prisioneiro do Vaticano”. Ao contrário de ser um isolado, Bento já recebeu muitos convidados, os quais sempre relatam que, embora frágil, ele parece contente e nunca abre a boca para reclamar. Ainda estamos esperando alguma notícia de algum bilhete escondido debaixo de um jogo americano na mesa de jantar, implorando por socorro.

Não há dúvida de que esta é uma situação extremamente esquisita e, francamente, suspeita; alguma coisa não bate, esta é que é a verdade. Todas as perguntas ou foram desconsideradas ou receberam respostas frívolas e jocosas:

Por que o Senhor renunciou?

Ratzinger: “Eu estava meio cansado, sem muita vontade de festejar com a criançada no Dia Mundial da Juventude.”

Se o Sr. não é papa, por que ainda se veste de branco?

Ratzinger: “Ah, não tinha uma batina preta que me servisse.”

Por que o Sr. continua a se chamar Bento XVI, se não é mais papa?

Ratzinger: “Bom, eu sou um ‘emérito’, entende…?”

E de onde é que veio este negócio de “emérito”? Existe algum precedente para isto na história católica? Em termos canônicos e doutrinais, o que significa?

Ratzinger: “…”

O que foi aquela besteira do Gänswein sobre haver um “munus” dividido – um membro ativo e um “membro contemplativo”? Quer dizer que agora há dois papas?

Ratzinger: “…”

E provavelmente a mais agonizante de todas: “Como é que o Sr. pode ficar aí sorridente, pronunciando platitudes e tolices insossas, enquanto este lunático empurra as ovelhas para um precipício?”

Alguns dias atrás, o meu amigo Steve Skojec, do website tradicionalista/restauracionista One Peter Five, resumiu a consternação daqueles que ainda sentem uma afeição pelo (homem que costumávamos chamar) papa Bento. Talvez muitos de nós ainda nos sintamos relutantes em expressar publicamente toda a raiva e todo o devastador desapontamento que aparece resumido nesta breve postagem do Steve:

“O papa Bento XVI abdicou do papado há exatamente cinco anos atrás. E, através do abandono do dever de pastorear a Igreja, ele abriu espaço para o pior papado de todos os tempos – ao qual ele obstinadamente recusa se opor por palavras, atos ou até mesmo algum gesto por mais sutil que seja.

“Você pode amá-lo por razões diversas, pode sentir falta dele pelo contraste, mas não pode dispensá-lo da responsabilidade que ele tem. Ele se afastou de sua família, deixando a porta aberta para um padrasto abusador, e assiste não apenas em silêncio seus filhos serem surrados e desencaminhados, mas em aparente contentamento.

“Mesmo assim, ele foi o melhor dos papas pós-conciliares, motivo pelo qual ele será o único a não ser canonizado.”

Quem é o verdadeiro Joseph Ratzinger?

Observadores experientes do Vaticano já me disseram mais de uma vez: “Provavelmente ele apenas não era quem pensávamos que fosse”. Eu suspeito haver mais coisas nesta história do que a maioria das pessoas pode imaginar. Acho que cometemos o erro de acreditar na imprensa. Ficamos contentes porque a mídia, que é extremamente anti-católica, o odiava e temia. Esquecemos que eles não sabem absolutamente nada de catolicismo. O que os jornais nunca nos contaram foi que o teólogo Joseph Ratzinger, no início de seu sacerdócio em 1962, era conhecido pelo termo “progressista”. Esta reputação foi solidificada durante os trabalhos dele como peritus (conselheiro teológico) de um dos mais influentes bispos na ala progressista do Concílio, o cardeal Josef Frings, de Colônia. O que fez a fama de Frings naquele grande drama foi um pronunciamento criticando a CDF – e seu prefeito, o cardeal Alfredo Ottaviani – pelo “conservadorismo” presente no “schema” (os documentos preparados pela CDF para servirem de guia às discussões dos bispos.

Após o pronunciamento, houve uma revolta entre os bispos da comissão preparatória, e eles exigiram que o schema – que havia levado anos para ficar pronto – fosse abandonado. E isto foi feito, apesar das objeções de Ottaviani. Novos documentos foram improvisados por uma coalizão de “progressistas” alemães e franceses, os quais se rejubilaram por ter, na prática, tomado o controle do Concílio a partir daquele instante, mesmo antes de ter começado.

Hoje em dia se sabe que foi Joseph Ratzinger – o “progressista” rebelde trazido pelo teólogo e acadêmico Frings a Roma como seu secretário – que escreveu esse pronunciamento.

O cardeal Henri de Lubac, escrevendo em 1985 para recordar aquele drama, afirmou:

“Joseph Ratzinger, um perito conciliar, era também o secretário pessoal do cardeal Frings, arcebispo de Colônia. O idoso e já cego cardeal se utilizava amplamente de seu secretário para escrever suas intervenções. Ora, uma destas intervenções se tornou memorável: a crítica radical (embora serena) dos métodos do Santo Ofício. Malgrado uma resposta do cardeal Ottaviani, Frings manteve a sua crítica.

“Não é exagero dizer que o Santo Ofício, tal como se apresentava até então, foi naquele dia destruído por Ratzinger em conjunto com seu arcebispo.

“O cardeal Seper, homem cheio de bondade, iniciou a renovação. Ratzinger, que não mudou, a continua.”

A reputação de Ratzinger como um “progressista” não se baseava em um incidente, e nem se restringia às suas primeiras obras. Na gritaria que fizeram devido à sua liderança da CDF, ninguém notou que ele tinha escrito em 1982 uma convocação para que a Igreja “nunca retornasse” ao Sílabo dos Erros de Pio IX. No livro “Princípios de Teologia Católica”, Ratzinger propôs a questão “O Concílio deve ser revogado?”, e respondeu sua própria pergunta recomendando a “demolição dos bastiões” da Igreja Católica em relação ao mundo moderno:

“Portanto, o dever não é suprimir o Concílio, mas sim descobrir o verdadeiro Concílio, cavoucando em profundidade aquilo que ele realmente deseja em relação ao que já aconteceu desde então.

“Isto implica em não haver um possível retorno ao Syllabus, que pode muito bem ter sido um primeiro passo no combate ao liberalismo e ao marxismo nascente, mas nunca a palavra final. Nem o abraço, nem o gueto, podem resolver o problema do mundo moderno para o cristão. Por isto é que a ‘demolição dos bastiões’, convocada já em 1952 por Hans Urs von Balthasar, era na verdade uma obrigação urgente.

“Era necessário que ela [a Igreja] demolisse os velhos bastiões, confiando apenas na proteção da fé: o poder da palavra, que é sua força única, verdadeira e permanente. Mas demolir os bastiões não significa que ela não tem mais nada a proteger, ou que ela vive em dívida para com forças diferentes daquelas que a engendraram: a água e o sangue que brotaram do lado aberto do Senhor crucificado.”

Sua tese – um estai da ideologia “conservadora” – era a de que o Concílio “verdadeiro”, desde que corretamente implementado, seria a salvação da Igreja e do mundo; e ele nunca abandonou este tema.

Para aqueles que se lembravam desta história, quão irônico deve ter parecido que se entregasse ao próprio Ratzinger o cargo que ele tinha “destruído”, e que ele ganhasse a reputação midiática de um “arqui-conservador”. Isto é o indício de uma resposta, ou pelo menos de uma linha de investigação, para as seguintes perguntas: Por que tão pouca coisa se realizou em seu longo mandato? Por que, com o rottweiler “arqui-conservador” Ratzinger na CDF, temos a situação que temos hoje? O que ele fez para impedir a explosão do neo-modernismo, que queimou como um fogo descontrolado por todo o mundo católico ao longo do reinado de João Paulo II?

O que o “silêncio” imposto pela CDF de Ratzinger fez para impedir Hans Küng de se tornar um célebre “padre-teólogo”, cortejado pela mídia por sua aversão ao catolicismo? Küng, que nunca foi removido do sacerdócio apesar de sua manifesta heresia? Será que conseguimos pensar em outros nomes que foram corrigidos pelo menos nesta medida? Bem poucos.

Certamente, porém, nós conseguimos pensar em muitos e muitos que passaram a vida negando e solapando abertamente a fé católica – teólogos acadêmicos, religiosos, padres, bispos e cardeais ao redor do mundo – sem nem um pio de protesto vindo de Roma. Mais ainda: a escandalosa montanha de fraudes que hoje temos no episcopado é, em sua totalidade, fruto dos pontificados do “arqui-conservador” João Paulo II e do “rottweiler” Bento XVI.

Por que é que nós achávamos que Ratzinger, em seu papel crucial como prefeito da CDF, era um baluarte da ortodoxia? Será que é simplesmente porque nos afastamos tanto da antiga fé que já não temos mais uma noção realista da fé que permita uma comparação, um julgamento objetivo? O destruidor “progressista” de Ottaviani herdando o seu cargo… O epíteto de “arqui-conservador”…

O próprio Ratzinger, para dizer a verdade, sustentava que nunca havia mudado de opinião teológica. Ele dizia que eram seus velhos colegas acadêmicos como Küng e Kasper que tinham se deslocado ainda mais na direção da “esquerda” ideológica depois dos anos 60, enquanto ele tinha ficado no mesmo lugar. Talvez possamos agora finalmente aceitar a sua palavra nisto, como uma peça que se encaixa em nosso quebra-cabeças aparentemente contraditório. Talvez o mundo acadêmico da teologia católica tenha se tornado tão corrupto que um homem considerado “progressista” em 1963 pareceria um “campeão da ortodoxia tradicional católica” em 2005, mesmo sem mudar nenhuma de suas idéias.

Será que foi por isto que ele renunciou? Será que a sua concepção da Igreja, do papado, simplesmente nunca foi aquilo que os católicos acreditavam ser? Talvez um indício de resposta venha do La Stampa de 2015, que publicou algumas das memórias de Silvano Fausti, SJ, confessor e guia espiritual do cardeal Carlo Maria Martini, o chefão da Igreja Católica européia “liberal”[2] e suposto líder da “máfia de Sankt Gallen”, a qual conspirou contra o papa Bento por anos, conforme admitiu o cardeal Danneels.

Fausti disse que Bento se encontrou com Martini no palácio dos bispos em Milão, em junho de 2012. Disse ainda que Martini insistiu que Bento renunciasse ao papado. Aparentemente, na época da sua eleição em 2005, Martini havia dito que sua principal tarefa seria reformar a Curia, coisa que se demonstrou impossível por volta de 2012.

Por que Bento aceitaria conselhos de um homem como Martini – o “chefão” da “ala liberal” do catolicismo europeu? Eu acho que a pergunta nem mesmo ocorreria a um homem como Ratzinger. Eles eram bons colegas na academia. Eram irmãos no episcopado. Qualquer aparência de divisão ideológica entre ambos era, essencialmente, um produto da narrativa midiática. Por que o papa não levaria em conta o conselho do seu mais velho e respeitado cardeal?

Por que Walter Kasper é um cardeal?

Uma das peças mais proeminentes desse quebra-cabeças é que aparentemente os tais prelados “conservadores” não conseguem detectar (e muito menos barrar) os insolentes inimigos da fé em meio ao episcopado e ao colégio de cardeais. É impossível explicar a pessoas comuns como, depois de tantos anos ouvindo e lendo essa gente, Ratzinger ainda manteria tão boa amizade com homens como Walter Kasper e Carlo Maria Martini, os supostos cérebros da máfia de Sankt Gallen.

Quando o papa Francisco, no seu primeiro Angelus, em 2013, contou à multidão o quanto adorava os escritos de Walter Kasper, quase todos nós que tínhamos passado vários anos acompanhando o Vaticano começamos a entender para onde estávamos indo com o novo papa. Jorge Bergoglio podia até ser um desconhecido aos olhos do mundo católico, mas Walter Kasper era um herege célebre; ele era a fachada midiática da “ala ultra-liberal” da Igreja pós-Vaticano II.

Em um artigo sobre a obra do cardeal, Thomas Jansen, editor-chefe do Katholisch.de, observou recentemente que Walter Kasper não teria conseguido fazer o estrago que fez sem a assistência direta de João Paulo II e do papa Bento. O debacle monstruoso da Amoris Laetitia é tanto obra do Kasper quanto do Bergoglio. Este é um homem que, por 40 anos, nunca se incomodou em esconder suas opiniões heterodoxas, tendo devotado a maior parte de sua vida a uma campanha para produzir justamente este resultado.

Jansen chama a atenção para o fato de que Kasper, em 1993, já tinha tentado avançar a mesma proposta de comunhão para divorciados e recasados, junto com Karl Lehmann, outro membro de “Sankt Gallen”. Foi barrado por Ratzinger e a CDF. Mas então vem a próxima pergunta: se Ratzinger sabia muito bem que tipo de criatura era Kasper, por que não o catou pela orelha e lançou-o para fora do episcopado? Por que não lhe deu, no mínimo, o mesmo “tratamento de silêncio” dado a Küng? Kasper foi na mídia recentemente para reclamar por ter sido chamado de herege. Mas é a pura verdade: ele é herege. Todo mundo sabe que ele é herege, porque nós já o escutamos trombetear por décadas as suas heresias descaradas de cima de todos os telhados que ele conseguiu encontrar.

Após trabalhar abertamente contra a fé, ele ganhou de João Paulo II o título de cardeal, ao invés de ser rebaixado, silenciado, laicizado e/ou excomungado. O seu esquema de Amoris-Laetitia-ar a Igreja, lembre-se, foi barrado em 1993 pela CDF de Ratzinger. Ele não foi, porém, nem rebaixado, nem admoestado, nem corrigido em nada. Também não foi removido de postos de influência. Ao contrário: em 1994, Kasper foi enxertado na Cúria Vaticana ao ser nomeado co-presidente da Comissão Internacional para o Diálogo Luterano-Católico. Em 1999, subindo mais um degrau, foi nomeado secretário do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, o departamento “ecumênico” no qual o seu manifesto indiferentismo religioso pôde reinar livremente. Em 2001 ele foi sagrado cardeal-diácono, com a incrível responsabilidade de votar em um conclave.

Bento, então, permitiu-lhe permanecer cardeal. E, como um toque final ao bolo envenenado que é o envolvimento de Ratzinger na criação do “novo paradigma católico”, agora há o rumor de que Bento calculou o momento exato de sua renúncia de modo a permitir a participação de seu velho colega de academia no conclave de 2013. Jansen chamou a atenção – e Maike Hickson citou num artigo para o One Peter Five – para o seguinte:

“O cardeal Kasper quase não conseguiu entrar no último conclave, porque tinha acabado de fazer 80 anos. Porém, como a data da morte (ou abdicação, como foi o caso em 2013) do papa é decisiva, ele ainda pôde participar e votar naquela eleição. (Alguns observadores notaram que isto foi um gesto de generosidade de Bento XVI em relação ao cardeal Kasper: a renúncia na hora certa.)”

Maike que me desculpe, mas não acho que isto seja um assunto parentético. É mesmo de admirar que tantos católicos tenham ficado ressentidos?

Cardeal Ratzinger, Papa “emérito” Bento – chame-se como quiser – eu tenho uma pergunta muito importante para você responder: Por que este homem ainda é um cardeal? Por que ainda é um bispo? Por que ainda deixam que ele se proclame um “teólogo católico”? Por que você, aparentemente de propósito, assegurou a participação dele no conclave que iria decidir o seu sucessor?

Será que ninguém mais quer saber isto? Não queremos todos saber porque Hans Küng ainda é um sacerdote? Por que deixaram que o cardeal Mahony se aposentasse em boa reputação? Por que um homem como Weakland, aquele homossexual ativo que comprou seu ex-amante, não foi excomungado? Quais são os nomes que todos nós recordamos só assim de cabeça? Meu próprio bispo em Victoria, o ocultista Remi de Roo, o Raymond Hunthausen de Seattle, o Favalora de Miami, o Matthew Clark de Rochester, o Derek Worlock de Liverpool… Às vezes eu fico pensando no tamanho que esta lista vai ter quando tudo isso acabar.

Faz cinqüenta anos que os católicos querem saber porque nada nunca foi feito. Por que deixaram estes lobos no episcopado, atacando continuamente a Igreja ano após ano? Por que nós sempre vimos estes homens – comprometidos intelectual e moralmente – serem elevados a degraus superiores, apesar da insolência inacreditável do seu ódio à fé católica?

O fim do “catolicismo guarda-chuva”

Ross Douhat, do New York Times, é um dos que estão começando a fazer esse tipo de pergunta. Maike Hickson cita um escrito dele sobre esta situação bizarra, na qual cada um dos chamados prelados “da máfia de Sankt Gallen”, inclusive Kasper, que fez campanha pela abolição de fato do ensinamento moral da Igreja[3]: “Algo característico da efetiva trégua na Igreja [entre conservadores e progressistas] foi que o próprio João Paulo II entregou à maioria deles os barretes vermelhos, promovendo-os apesar do desacordo que eles mantinham em relação à sua abordagem restauracionista.”

Quando os jornalistas falam de catolicismo, é comum se referirem a homens tipo Kasper como – está em sua página na Wikipédia – “uma das principais figuras da ala liberal da Igreja Católica.” E supostamente isto deve fazer algum sentido para os católicos, e supostamente temos que aceitar isto como uma realidade de nossos tempos: há uma “ala liberal” e uma “ala conservadora”, e ambas são católicas.

Steve Skojec me disse que a nossa disposição de aceitar toda aquela charada de “papa emérito” foi um erro: “Acho que o problema é termos aceitado o jogo de faz-de-conta deles, quando não deveríamos ter aceitado.” Na verdade, estou começando a achar que a disposição de aceitar toda a charada do catolicismo pós-conciliar, que muitos católicos tiveram, foi um sério erro. Ao entrar no jogo, ao fingir que podíamos ser “católicos conservadores” neste novo paradigma que inclui também “católicos liberais”, nós os ajudamos a perpetrar uma [das] mais monstruosas fraudes da história humana.

Devido a esta mentalidade esquizofrênica da liderança da Igreja desde 1965, acabamos por aceitar a premissa oculta: a de que a Igreja é um “imenso guarda-chuva” com um montão de espaço para pessoas de todas as opiniões pessoais… que temas como a liturgia são questões de “gosto” pessoal… que duas coisas opostas podem ambas ser a verdade católica.

Esta esquizofrenia é o modelo sob o qual os “conservadores” operaram todo esse tempo, e pelo qual eles julgaram que um homem como Joseph Ratzinger é um “conservador e campeão da ortodoxia”. E qual o resultado disto? Isto criou uma fachada para os homens da panelinha de Kasper manobrarem seu homem no trono de Pedro cinco anos atrás.

E assim, de repente, o jargão da “tolerância” e do “imenso guarda-chuva” chega ao fim, e o expurgo dos religiosos, seminaristas, padres e acadêmicos fiéis começa. E tinha que ser assim. Eles ao menos não alimentam esta contradição insana, e entendem – e freqüentemente dizem em voz alta – que o novo paradigma e a Igreja Católica não são a mesma coisa. E sua Nova Igreja é a única que resta.

Por cinco décadas nós brincamos de jogo anglicano: se não falamos sobre o assunto, não existe problema algum. O Santo Ofício de Ottaviani e o schema eram o último suspiro da velha Igreja – que, como de Lubac escreveu acima, foi destruída por Joseph Ratzinger. Depois de um longo hiato, no qual os papas fingiram que nada de essencial estava mudando, enquanto a instituição à sua volta sucumbia ao novo paradigma, uma única coisa ainda restava: o papado.

Uma das coisas que eu venho dizendo a respeito da era Bergoglio – e que é uma benção disfarçada, um enorme alívio – é que finalmente nós podemos abandonar a situação absurda da era Wojtyla/Ratzinger. Todos estes anos nós tivemos que fingir estar em uma “nova primavera do Vaticano II”, enquanto assistíamos a esses lobos em pele de pastor devorando as ovelhas.

Agora, enfim, podemos pelo menos parar de fingir que tudo é fantástico sob o novo paradigma da misericordiosa maravilha conciliar. Para quem ainda está em dúvida, Bergoglio não é um escândalo, e nem mesmo uma surpresa; ele é somente a conclusão lógica. Este pontificado não é uma anomalia; é o único resultado possível, e foi uma obra tanto de Walter Kasper quanto de Joseph Ratzinger.

[1] Tradução de artigo originalmente publicado em 12 de março de 2018 no jornal americano católico The Remnant. Link original: https://remnantnewspaper.com/web/index.php/articles/item/3786-et-tu-benedict-some-final-thoughts-on-joseph-ratzinger

[2] A palavra “liberal”, seguindo a tradição americana, é usada neste artigo como sinônimo de “esquerdista”.

[3] N.T. A frase aqui está aparentemente cortada no original. A idéia é clara, entretanto.

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