Focolares e a Idolatria da “Unidade” sem Dogmas

Autora: Hilary White [1]
Tradução: André Carezia

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Em fevereiro deste ano, a servir de prosseguimento ao ‘Sínodo dos Jovens’, foi organizada em Florença, por um dos ‘novos movimentos’ da Igreja, uma conferência dos bispos católicos do país.

O tema da conferência foi “Uma nova etapa de evangelização e sinodalidade: renovação eclesial à luz da Evangelii Gaudium.” Tendo por anfitrião o bispo de Fiesole e presidente da Conferência dos Bispos da Itália (CEI) Mario Meini, o encontro incluiu alguns palestrantes do alto escalão da cúria romana.

Algumas breves citações darão uma idéia do sentido geral das conversações.

O cardeal Giuseppe Petrocchi, arcebispo de L’Aquila e presidente do conselho científico do Centro Evangelii Gaudium, no Instituto Universitário Sophia, falou o seguinte no encontro: “O período conturbado de mudanças que experimentamos requer que demos vida a uma nova etapa. Procedimento evangélico: fiel, criativo e alegre, e deve atrever-se a todas as experiências da Igreja como um sínodo, e assim é que podemos caminhar juntos.” Reunidos na “cidadela dos focolares”, em Loppiano[2], os quarenta bispos presentes ouviram Piero Coda, membro da Comissão Teológica Internacional e reitor do Instituto Universitário Sophia, identificar a “sinodalidade” como o fio condutor do programa pontifício de Francisco, a direção à qual a Igreja avança.

Em sua palestra, intitulada “A Sinodalidade do Exercício da Igreja,” o monsenhor Coda afirmou que a meta não é a salvação mas “uma democracia verdadeiramente participativa e popular.”

“‘Sínodo’ é o termo usado para a Igreja antiga, mas o adjetivo ‘sinodal’ é um amadurecimento da consciência eclesial…” Propõe, diz ele, cinco “caminhos a seguir”: “pastores, artistas e artesãos da sinodalidade; estruturação de cursos de treinamento em comum para jovens leigos(as), jovens religiosos(as) e seminaristas; educação para aquilo que o papa Francisco descreve como uma ‘cultura do encontro’ e uma ‘coragem da alteridade’; inauguração de ‘uma nova época na construção coletiva de uma democracia popular e verdadeiramente participativa.’”

Isto, disse ele, exige que “todas as nossas igrejas particulares na Itália” sigam um caminho comum. “Como se programa a Igreja na Itália? Estamos agora no limiar de uma década pastoral. Qual é o momento ideal?”

(Imagine ficar escutando um fim-de-semana inteiro disto.)

O “misticismo do nós” – Focolares e a nova religião bergogliana

Deixando de lado o palavrório eclesiástico da moda, a conferência foi notável por uma coisa: esses prelados de alto escalão têm em comum mais do que a nacionalidade italiana. Cada um deles é um adepto do movimento dos focolares, e todos estão completamente dedicados ao uso de seus cargos para espalhar as doutrinas deste movimento – que, não por coincidência, combinam perfeitamente com as do papa Francisco – pelas estruturas da Igreja tanto quanto seja possível, “através do engajamento em comum nas diversas realidades eclesiais: paróquias, dioceses e organizações diocesanas.” Em outras palavras, por meio da infiltração.

No ano passado, no encontro geral dos focolarinos em Loppiano, intitulado “Caminhos da sinodalidade em andamento,” os participantes receberam do papa alguns dos seus mais incompreensíveis elogios.

Num “diálogo” publicado pelos focolares, o papa lhes disse:

“O carisma da unidade é um estímulo providencial e um auxílio poderoso para viver este misticismo evangélico do nós, isto é, caminhar juntos na história dos homens e mulheres do nosso tempo… É esta espiritualidade do nós, que vocês devem levar adiante, que nos salva de todo egoísmo e de cada interesse egoísta. A espiritualidade do nós.”

Como veremos, e por mais absurdo que pareça, isto não foi, infelizmente, completa algaravia. A identificação que o papa fez do “carisma da unidade” como o centro da doutrina dos focolares é precisa, e os resultados – uma “espiritualidade” e um “misticismo do nós” – são o objetivo último; é a implementação final da “Igreja do nós” em lugar da Igreja de Cristo que havia antes.

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“Carisma da unidade”: apenas o velho indiferentismo religioso

Todo este jargão estranho, que na maior parte não faz sentido para os católicos comuns, é na verdade uma recitação dos princípios que norteiam os focolares. Em bom português, estes pronunciamentos querem dizer que o atual pontificado lhes deu a oportunidade de usar o conceito de “sinodalidade” – isto é, a delegação ao nível local da autoridade papal em matéria doutrinal – como um canal para introduzir a ideologia focolarina em todos os aspectos da vida católica.

O “carisma da unidade” significa não apenas “unidade” entre os católicos, mas com os protestantes, ortodoxos, budistas, hindus, muçulmanos e todas as outras religiões e os secularistas descrentes, em uma grande… como direi… “fraternidade universal da humanidade.”

É essencial compreender que, no movimento dos focolares, este “carisma da unidade” não significa unidade na verdade de Cristo do modo explicado e defendido pelas doutrinas da Igreja Católica. Longe disto: a verdade de Cristo – em particular o dogma católico “extra ecclesiam nulla salus” – é para eles algo que divide demais. A doutrina central dos focolares é apenas a “unidade” em si mesma.

Em 1997, a fundadora do movimento, Chiara Lubich, “pregou” a um grupo de monges budistas na Tailândia, afirmando que qualquer um dedicado ao “carisma da unidade” pode ser um focolarino: “Temos 30 mil que não são cristãos.”

Um “carisma do Espírito Santo” que rejeita uma doutrina católica fundamental

Parece claro que o “carisma da unidade” dos focolares é meramente um termo cortês para o “indiferentismo”: a idéia, condenada explicitamente pelos papas, de que uma religião é tão boa quanto qualquer outra desde que estejamos todos juntos como descrentes.

O próprio movimento dos focolares alega que o seu objetivo não é arrancar as pessoas das suas crenças particulares, ou das suas não-crenças, como às vezes é o caso.

Do seu site web:

“A mensagem [que o movimento] quer trazer ao mundo é a da unidade. O objetivo, portanto, é cooperar para a construção de um mundo mais unido, guiado pela oração que Jesus faz ao Pai “para que todos sejam um” (Jo 17,21), em respeito e em apreço à diversidade. E, para atingir esta meta, o diálogo é favorecido, no compromisso constante de construir pontes e relações de fraternidade entre os indivíduos, povos e esferas culturais.

“O movimento enxerga cristãos de várias igrejas e comunidades cristãs, fiéis de outras grandes religiões mundiais e pessoas sem qualquer convicção religiosa. Cada um adere a ele através da colaboração com o objetivo e o espírito do movimento, na fidelidade aos preceitos da sua própria igreja, da sua fé e da sua consciência.”

A página descreve Chiara Lubich como “uma figura excepcional e carismática do nosso tempo, muito conhecida por seu esforço incansável para aumentar a comunhão, a fraternidade e a paz entre pessoas de diferentes igrejas, entre seguidores de diversas religiões mundiais e entre pessoas que não têm crenças religiosas.” A combinação perfeita entre o “bergoglianismo” e os focolares parece nascer da mútua rejeição (na prática) da transcendência, do primado (e, mais importante, da exclusividade) da Verdade, e finalmente do autor encarnado da Verdade.

Para os focolares e Bergoglio, o que importa realmente é o poder

Também é importante compreender o quão poderoso é o movimento no episcopado italiano, e portanto no Vaticano. Em 2012, Sandro Magister escreveu que os focolarinos são “onipresentes” na cúria romana e no episcopado italiano, confirmando que “centenas” de bispos são membros.

Muitos nomes que Magister lista se tornaram famosos no pontificado atual; e nenhum deles por fazer o bem: os cardeais Turkson, Becciu e Antonelli, e o arcebispo Celestino Migliore, ex-representante da Santa Sé na ONU. Entre eles está também o cardeal João Braz de Aviz, prefeito da Congregação para os Religiosos, cujo objetivo de criação de uma nova espécie de vida religiosa parece perfeitamente coerente com os objetivos do movimento ao qual pertence, e a quem retornaremos mais adiante.

Obviamente, a obra dos focolares não está confinada à Itália, nem tampouco à Igreja Católica. Recentemente o movimento publicou um relatório da reunião de 40 bispos “de diversas igrejas” na Suécia em 2018 – a 37a. que o grupo realizou por lá. O tema: “A Igreja no mundo de hoje.”

O encontro “ecumênico” na Suécia foi moderado pelo cardeal Francis Kriengsak Kovithavanij, arcebispo de Bangkok, e enfocou “A sinodalidade na vida e na missão da Igreja”:

“O sínodo é considerado um instrumento eclesiástico fundamental para caminharmos juntos sob a orientação do Cristo Ressuscitado. Daí que ‘uma Igreja sinodal seja uma Igreja participativa e co-responsável,’ uma noção que se relaciona aos conceitos de comunhão e colegialidade que estão no coração da doutrina eclesiológica do Vaticano II.”

A mesma toada é repetida pelos focolarinos eclesiásticos ao redor do mundo.

O movimento de Lubich, além do mais, fornece uma hierarquia alternativa de liderança que é usada para exercer o poder sobre os indivíduos do próprio movimento. Ex-membros já trouxeram a público as técnicas de isolamento social e manipulação psicológica, como as usadas em cultos, feitas para fazer desmoronar a personalidade e criar uma dependência emocional e psicológica do movimento e de seus líderes.

Eles afirmam que os membros não têm liberdade para criticar o movimento ou as suas lideranças, que a espiritualidade e a batalha pela santidade e os vínculos emocionais, com ameaças subseqüentes de retração do amor, são usados como métodos de controle e manipulação.

O autor diz algo que é típico de cultos: “Aqueles que se afastam do movimento freqüentemente ficam sozinhos. Quem quer que saia quase sempre perde todas as amizades que tinha lá dentro,” e aqueles que saem são “geralmente considerados sacrílegos.”

“As pessoas que alimentam fantasias de poder facilmente acham nesses movimentos as bases ideológicas que podem ser usadas para este propósito.”

Ao relatar, no ano passado, a provável e iminente beatificação de Lubich, Sandro Magister observou friamente que o prefeito da Congregação para as Causas dos Santos é um focolarino bastante conhecido, “de longa data,” na Cúria Romana: o cardeal Giovanni Angelo Becciu. Deve ser certamente muito mais fácil pedir, e até mesmo obter, a total aprovação das autoridades da Igreja quando o seu movimento já as cooptou completamente.

A cruzada de Chiara Lubich pela “unidade” ecumênica: uma “Nova Humanidade para um Mundo Unido”

Ficará a cargo dos futuros historiadores do catolicismo decidir exatamente como é que a Igreja Católica resolveu se dedicar à doutrina do “ecumenismo,” mas esta história certamente terá de levar em conta a enorme influência do movimento dos focolares, para quem a “unidade,” acima da verdade, é a doutrina central. Grande parte da culpa recai sobre as costas do papa João Paulo II, cujas notórias inclinações para o indiferentismo ficaram expostas nos encontros “ecumênicos” e “inter-religiosos” de Assis. O seu apoio à organização era inabalável, e o sentimento era mútuo. Testemunhas da época relataram que foram grupos organizados e bem-preparados de focolarinos que iniciaram os famosos coros de “santo subito” no funeral do papa.

Chiara (nascida Silvia) Lubich, que morreu em 2008 e teve um funeral católico na Basílica São Paulo Extramuros, em Roma, foi uma professora que viveu em Trento durante a segunda guerra mundial. A história oficial da fundação dos focolares (“lareira”, “lar”, em italiano) é contada em palavras simples pela diocese de Mântua, onde existem 150 membros ativos do movimento:

“O movimento nasceu em Trento, com Chiara Lubich, em 1943, sob o bombardeio da Segunda Guerra Mundial. Conforme palavras que a própria fundadora sempre repete, numa época em que tudo fracassava devido à guerra, ela sentiu que todas as coisas materiais podiam entrar em colapso, mas não Deus, compreendido como amor. Nos abrigos, Chiara trazia o Evangelho consigo, e à luz de velas lia com um pequeno grupo de amigos. Ao deixar o abrigo, eles tentavam colocar em prática as palavras de Jesus, e logo o seu exemplo foi seguido por pessoas de todas as idades e de todas as classes.”

O movimento, chamado oficialmente de Obra de Maria e cujos estatutos foram aprovados por João Paulo II em 1990 na forma de uma associação internacional de direito pontifício, tem seguidores na casa dos milhões e delegações em 182 países.

Os comentários de Chiara Lubich sobre as Escrituras já foram traduzidos em mais de 80 línguas, e o movimento se gaba de possuir 27 editoras para disseminar as suas obras. Ele conta com adeptos casados e solteiros que fizeram votos – bem como sacerdotes e bispos – e colaboradores leigos que não fizeram votos.

Da matriz dos focolares surgiram alguns sub-movimentos com foco na família e na economia, incluindo o “Movimento para uma Nova Sociedade” e o “Escritório Internacional de Economia e Trabalho”. A partir dos anos 50, os focolares começaram a se envolver no movimento internacionalista (ou globalista), promovendo um conceito de Estado global unificado. A ONG “Nova Humanidade para um Mundo Unido”, derivada dos focolares, tem um cargo consultivo na ONU e ganhou o Prêmio da Paz de Luxemburgo em 2015.

Um dos braços [dos focolares] é uma organização chamada “Jovens por um Mundo Unido”, que realiza um evento anual chamado “Semana da Unidade Mundial”. O site web do grupo diz: “O objetivo da associação é contribuir para a criação de unidade na família humana, respeitando integralmente as identidades individuais de todos os seus membros. Por este motivo ela propaga a idéia de um mundo unido em todas as esferas da sociedade e em todos os níveis.”

Eis onde a coisa fica assustadora

Sobre o movimento, Lubich afirmava que “não tinha sido pensado por uma mente humana, mas que era fruto de um carisma que vinha do Alto.” Alegava – e pelo menos dois papas concordaram – que eram guiados pelo Espírito Santo para uma “nova corrente” de espiritualidade: a da “unidade”.

Afirmando ter a sua própria teologia e interpretações especialmente inspiradas, o movimento se baseia em três textos bíblicos: a oração de Jesus “ut unum sint”, mal-traduzida como “para que sejam perfeitos na unidade” (Jo 17,23); “Porque onde dois ou três estão reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles.” (Mt 18,20); e “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27,46).

Lubich relata a história dos primórdios do movimento, em que ela e os seus seguidores não consultavam ninguém além de si mesmos:

“Estávamos lendo o Evangelho num abrigo iluminado por uma vela. Sentimo-nos particularmente atraídos pela oração de Jesus ‘ut unum sint’. Ficamos mesmo surpreendidos, já que estas palavras não mais pareciam difíceis de compreender; ao contrário, tivemos a impressão de compreendê-las um pouco melhor. Tínhamos a certeza: era a carta, a Magna Carta da nossa nova vida.”

Seus seguidores, ela dizia, “colocavam as vidas a serviço da unidade mundial,” e “a unidade é o que resulta da busca em comum pela mesma verdade luminosa.” Qual verdade, exatamente, ela não especifica nunca.

Em 1950, Lubich revelou a essência do movimento: ela mesma.

“Cada alma dos focolares tem de ser uma expressão da minha, e nada mais. A minha Palavra contém todas aquelas dos focolarinos e focolarinas. Eu resumo todos eles. Daí que, quando eu apareço, eles tenham de se deixar ser gerados por mim, comungar comigo. Também eu, como Jesus, devo lhes dizer: ‘Quem come a minha carne…’”

Em 1977, ao receber o Prêmio Templeton para o Progresso da Religião – um prêmio secular – Lubich se atribuiu a extraordinária façanha de ter realizado os desejos de Cristo. Ela afirmou: “Todos os que estavam presentes e que aderiam a religiões diferentes me pareciam unidos.”

“Eu me perguntei: ‘Como é que isto pode ter acontecido?’ Será que o motivo era que praticamente todos acreditavam em Deus, e que, naquele momento, Ele nos acolhia a todos?

“Quando eu saí, os primeiros a se aproximarem foram alguns membros de outras religiões: um monge tibetano me contou que escreveria imediatamente ao Dalai Lama para que me contatasse. Quatro judeus expressaram a sua alegria ao me dizerem que, basicamente, o Antigo Testamento é o tronco da árvore no qual o cristianismo foi enxertado. Evidentemente, eles queriam dizer que o desenvolvimento do nosso movimento veio dessa mesma árvore. Depois vieram os hindus, os sikhs, e outros.”

Cornelia Ferreira e John Vennari, no livro World Youth Day: From Catholicism to Counterchurch[3], observam em particular que foram Lubich e os focolares que criaram o conceito moderno de paróquia como unidade igualitária e democrática, governada por meio da “co-responsabilidade.” “Essa comunidade paroquial igualitária desenvolve a ‘fraternidade’ e o ‘corpo único’ (no qual são bem-vindos os não-católicos).”

“Na elite dos focolares, o anti-clericalismo e o desprezo pelos padres com ‘mentalidade sacerdotal’ (i.e. falta de submissão ao igualitarismo dos focolares) são ostensivos. A obediência pública à hierarquia e o ‘bombardeio de amor’[4] que lhe é dirigido, em especial ao papa, são apenas relações públicas. Arregimentar membros do episcopado ou protetores faz silenciar os críticos e contribui para a expansão. Mas em 1966, em Roma, na inauguração de uma escola para a formação de padres na espiritualidade da unidade dos focolares, Chiara propôs com ousadia o desmanche da autoridade sacerdotal:

‘Se os padres puderem aprender a deixar de lado tudo, inclusive o seu próprio sacerdócio, para assegurar a presença de Jesus em seu meio [cada pessoa da comunidade, e a comunidade como um todo, se tornando então um alter Christus], … daí Jesus vai enfim transformá-los em ‘novos’ padres com uma ‘nova’ abordagem pastoral, e haverá ‘novos’ seminários. … E se também eles se unirem [como iguais] ao setor laico do movimento, disto surgirá o que eu chamaria de ‘Igreja-Cidade’ ou ‘Igreja-Sociedade’ … Podemos oferecer ao mundo ‘novos padres’ que são ‘novos’ porque vivem o Novo Mandamento [da igualdade]…’”

Cornelia Ferreira e John Vennari prosseguem:

“Quase que a partir da sua fundação, quando o ecumenismo era proibido para os católicos, os focolares eram não-denominacionais… os focolares, assim, operavam como uma contra-igreja indiferentista muito antes do Concílio…

“Os focolarinos (membros dos focolares) buscam Jesus apenas na unidade uns com os outros, e afirmam ‘poder gerar a presença de Cristo’ em seu próprio meio. Assim como o Unitário-Universalismo, eles transformam ‘Deus é amor’ em ‘amor é Deus,’ onde ‘amor’ denota uma unidade derivada de igualdade e unanimidade completas.”

Sandro Magister escreveu em 1997 que os focolares eram o maior dos “novos movimentos”. Ele cita Gordon Urquhart, um informante inglês cujo livro de 1999, The Pope’s Armadas: Unlocking the secrets of mysterious and powerful new sects in the Church[5], fala de uma “gnose” dos focolares, com seus “mistérios reservados aos iniciados.”

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Urquhart ficou sabendo, durante o tempo em que era focolarino, que Lubich afirmava ter tido uma visão na qual Deus lhe revelava o futuro do movimento. Magister escreve: “Tudo gira em torno da experiência da fundadora, cuja autobiografia é considerada escrita por mão celestial e não pode, portanto, ser contrariada.”

Urquhart descreve as características em comum que existem nas seitas da Igreja, incluindo os Focolares, o Caminho Neocatecumenal e Comunhão e Libertação: “um sistema interno super eficiente de comunicações; ensinamentos secretos revelados por etapas; uma vasta operação de recrutamento usando técnicas sectárias; ambições ilimitadas de influenciar a igreja e a sociedade.” Além disto, essas seitas, diz ele, têm efeitos similares em seus adeptos: “a destruição do ego, causando depressão e colapso nervoso numa escala alarmante.”

Focolares: maçonaria com matiz católico

O livro World Youth Day: From Catholicism to Counterchurch equipara, sem rodeios, as metas dos focolares aos objetivos da maçonaria. Mesmo que o movimento não queira admitir, os objetivos dos focolares – fraternidade universal da humanidade, “unidade” como meta acima de todas as outras, inclusive acima da adesão à Verdade divina – são idênticos aos dos maçons. As doutrinas de Chiara Lubich são meros retoques, com ar católico, do humanismo “liberdade, igualdade, fraternidade” da maçonaria, tudo compreendido sem relação com Deus ou com os Seus preceitos.

Os maçons também afirmam não exigir que os membros abandonem as suas crenças religiosas. O site web da Associação Maçônica Norte Americana (MSANA) descreve as relações com os membros das várias crenças religiosas em termos muito similares aos de Lubich.

A maçonaria, diz o site, está aberta a homens de qualquer fé, e “exige de seus membros uma crença em Deus como parte da obrigação de todo adulto responsável, mas não defende nenhuma fé ou prática em particular. As cerimônias maçônicas incluem orações, tanto tradicionais quanto espontâneas, que reafirmam a dependência de cada indivíduo em relação a Deus e que servem para buscar orientação divina…”

“Os maçons acreditam que há um só Deus e que as pessoas empregam diversos modos diferentes para buscar Deus e para expressar o que conhecem dEle… Assim, pessoas de diferentes crenças podem se unir em oração, concentrando-se em Deus e não nas diferenças entre si. A maçonaria acredita em liberdade religiosa, e acredita que a relação entre o indivíduo e Deus é pessoal, íntima e sagrada.”

Tanto faz que as idéias de Chiara Lubich tenham surgido totalmente dela mesma, como ela alega, ou que tenham sofrido influência dos princípios maçônicos que o pai e o irmão absorveram em seu envolvimento com o comunismo e com o socialismo; o resultado final parece tornar esta questão irrelevante. De qualquer jeito, podemos apostar tranqüilamente que não vieram de Deus.

Os focolares, o ecumenismo e a nova vida religiosa

O estranho messianismo de Chiara Lubich parece ser contagioso, com os adeptos quase sempre falando em recriar a humanidade – ou a democracia, ou a Igreja, ou o que estiver na agenda – conforme uma nova imagem. Considerando o que vimos anteriormente, começamos a compreender melhor quando clérigos como o cardeal João Braz de Aviz se pronunciam de modos que prima facie parecem opostos aos ensinamentos católicos e à práxis imemorial. Como já vimos no episódio anterior[6], o prefeito da Congregação para os Religiosos é um adepto fervoroso da missão dos focolares: derrubar as barreiras entre as religiões e recriar a vida consagrada de acordo com um novo padrão; essencialmente, de acordo com a “unidade acima da verdade”, o dogma central dos focolares. As suas palestras em encontros “inter-religiosos” já eram uma característica conhecida do seu ministério antes que ele fosse trazido a Roma pelo papa Bento XVI, e nunca houve nenhum sinal de censura a elas. O cardeal brasileiro parece nem pestanejar ao partilhar o palco com “espíritas”, maçons do Grande Oriente e praticantes de vodu, fora a enfiada mais convencional de budistas, judeus e muçulmanos.

Não faltam evidências da ideologia focolarina nas tarefas curiais que o cardeal brasileiro exerce no Vaticano. Conhecido pela proximidade com a comunidade de Bose, no Piemonte, que é mista, “monástica e ecumênica”, e com o seu ícone e fundador Enzo Bianchi, Braz de Aviz sugeriu em 2015 a criação de uma nova forma de vida consagrada que incluiria tanto homens quanto mulheres “numa atmosfera familiar.” Para realizar isto, disse ele, é preciso abandonar as idéias “antiquadas”: “No passado nós tínhamos dificuldades quando se tratava de viver juntos, porque se dizia que é preciso ter cuidado, que a mulher está em perigo, que o homem está em perigo…”

Ele acrescentou, recordando que o voto de castidade ainda é importante na vida consagrada, que essas comunidades “mistas” não devem alojar homens e mulheres “na mesma casa.”

Outros conceitos “antiquados” a serem descartados são as idéias de obediência religiosa, de autoridade e de recursos financeiros. Todos estes conceitos são abordados nos documentos Vultum dei Quaerere e Cor orans, os quais removem a maior parte da autoridade dos superiores escolhidos pela comunidade, exigindo que todas as comunidades monásticas se filiem a “federações” que terão um governo centralizado – respondendo apenas à Congregação para os Religiosos – e terão o controle último sobre os bens materiais de cada comunidade individual.

Numa entrevista ao jornal paraguaio Hora, em julho deste ano, ao tratar dos “desafios” encarados pela vida consagrada em nossos dias, o cardeal disse: “Estamos trabalhando firme na transformação do treinamento. Temos de pensar na formação desde o ventre até o último suspiro.”

E não interessa que você goste da sua vida religiosa do jeito que está; eles sabem mais do que você. Tudo o que é antigo tem de sumir:

“Muitas coisas da tradição, muitas delas da cultura passada, não servem mais.

“Por exemplo, temos modos de vida ligados aos nossos fundadores e que não são essenciais: um jeito de rezar, um jeito de se vestir, de dar mais importância a certas coisas pouco importantes, e a outras importantes se dedicar só um pouco. Essa visão mais globalizada de tudo… não tínhamos isso, e agora temos.

“Que a minha cultura seja mais importante do que a cultura do outro… isto não é mais verdade porque as culturas são todas iguais, mas têm de buscar os valores do Evangelho.”

A influência dos focolares nesse dicastério explica o favoritismo categórico do cardeal pelas ordens religiosas do tipo LCWR[7], comunidades que não usam hábitos, seguem o Novo Paradigma e adotaram há muito tempo a ideologia “verdade, não.” Em 2015, os defensores da LCWR rejubilaram quando a “visita” que a Congregação realizou por 6 anos terminou “em uma lamúria,” nas palavras do jesuíta Thomas Reese, em vez de acabar num estrondo. Braz de Aviz criticou o seu antecessor, cardeal Franc Rode, por ter entrado no processo “unilateralmente” e sem consultar ninguém.

Rode tinha especulado educadamente que talvez a LCWR houvesse adotado “uma certa mentalidade secular” e até mesmo, “talvez, um certo espírito ‘feminista’.” Os comentários provocaram um furor histérico na imprensa católica esquerdista. Mas Rode se aposentou e Braz de Aviz transformou a “inquisição” à LCWR – notória e escandalosamente heterodoxa – em um “diálogo afirmativo.”

Ele e o seu número dois, José Rodrigues Carballo, se orgulham de fazer ameaças não muito veladas às comunidades que desejam manter as tradições de fé e de vida religiosa anteriores ao Vaticano II. Em 2015, num encontro de formação de diretores religiosos, ele afirmou novamente que era o caminho do Vaticano II ou o caminho da rua: “Na verdade, os que se distanciam do Concílio para seguir outro percurso estão se matando – mais cedo ou mais tarde, morrerão. Não terão bom senso. Estarão fora da Igreja. Precisamos construir usando o Evangelho e o Concílio como pontos de partida.”

“Deus não é estático. Deus é sempre um movimento novo – de luz, de calor, de demonstração. Ele fala em cada época aos homens e mulheres com a verdadeira linguagem da época,” disse o cardeal.

Focolares ou Cristo: uma escolha que é uma necessidade lógica

O catolicismo e os focolares são logicamente incompatíveis. Portanto, um homem que alega ser um bispo “focolarino” já escolheu o lado. Depois que compreendemos esta necessidade lógica, um homem como o cardeal João Braz de Aviz começa a fazer muito mais sentido. “Que a minha cultura seja mais importante do que a cultura do outro… isto não é mais verdade porque as culturas são todas iguais” é uma recitação do “carisma da unidade”, o indiferentismo focolarino, aplicado a toda cultura humana. Este é, em essência, o mundo que eles querem criar, e que estão construindo mediante o uso das instituições da Igreja.

Ao compreendermos isto, torna-se evidente a urgência em recriar a vida consagrada de acordo com a visão dos focolares. Uma doutrina que nega o primado da verdade e alega que todas as idéias têm igual valor precisa, por força de sua própria lógica, sempre rejeitar qualquer comunidade de religiosos que afirma seguir Cristo e a fé católica e nada mais.


Notas:

[1] N.T.: Artigo original publicado na edição de 15/setembro/2019 da revista católica The Remnant.

[2] Loppiano é uma cidade fundada em 1964. Foi construída pelos focolares em um território doado ao movimento. Atualmente possui uma população de mais ou menos 900 almas. Há outras 32 cidades focolares espalhadas pelo mundo.

[3] N.T.: “Dia Mundial da Juventude: do Catolicismo à Contra-igreja”. Livro publicado pela Canisius em 2005, sem tradução em português.

[4] Técnica de lavagem cerebral empregada comumente por cultos; é feita para dobrar a resistência de uma pessoa aos objetivos de um grupo e criar vínculos emocionais e psicológicos.

[5] N.T.: “As Armadas do Papa: Desvendando os Segredos das Misteriosas e Poderosas Novas Seitas na Igreja”. Livro sem tradução em português.

[6] N.T.: a autora se refere ao artigo “Something wicked this way comes: what the contemplative life might look like under the New Bergoglian Paradigm” [“Algo perverso vem aí: como pode ficar a vida contemplativa sob o novo paradigma bergogliano”], também de sua autoria, publicado no The Remnant, edição de 26 de agosto de 2019.

[7] N.T.: sigla em inglês para a Conferência de Lideranças das Ordens Femininas, uma associação com 1300 membros fundada em 1956 nos EUA.

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