Dom Quixote e os Tempos Modernos

Autora: Mary Ann Kreitzer
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Hoje [16/junho/2020] o blog Mundabor traz uma interessante postagem que tem tudo a ver com a minha leitura atual:

O Grande Vazio, E Como Ele
Se Liga à Ascensão da Loucura

Aí você pergunta: o que é que eu estou lendo?

Dom Quixote, o mais importante romance espanhol, uma obra escrita por Miguel de Cervantes Saavedra e repleta de imagens e verdades católicas. A obra já foi distorcida e falsamente apresentada como uma fábula de um herói idealista que sai como um cavaleiro andante para salvar o mundo. Esse é quadro que é mostrado na peça musical O Homem da Mancha, a única idéia de Dom Quixote que têm os leitores não-leitores modernos. Ao final do musical, a prostituta Aldonza implora que o fidalgo retorne à insanidade e chame de volta Dulcinea, sua dama idealizada. Ao final do romance, Dom Quixote se arrepende dos pecados e morre no seio da Igreja.

O musical distorce totalmente a mensagem de Cervantes, que não admirava o doido Dom Quixote e nem o seu “escudeiro” Sancho Pança. Quixote é maluco e Cervantes mostra isto até não poder mais! Sua insanidade é alimentada pelo orgulho e por práticas erradas de leitura. Cego pelo orgulho, ele se vê como os “ultrassensíveis” no artigo do Mundabor, como alguém que “acredita em algo” (não importa quão distorcido ou falso) e pode sair para salvar o mundo e se sentir bem consigo mesmo. Como resultado, suas aventuras causam ferimentos injustos aos seus vizinhos (como os vândalos) e freqüentemente a si mesmo (como o homem que acabou no hospital quando a estátua que estava decapitando caiu sobre ele).

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A principal motivação de Sancho Pança é a cobiça. Ele espera receber a prometida “ilha” (CHAZ? CHOP?) ou algum rico reino, e casar a filha com alguém de família nobre depois de enriquecer. Sua esposa Teresa, que tem o pé no chão, discute com ele sem sucesso: ele sai, abandonando de novo a família, para se unir a Quixote em suas aventuras insanas.

As turbas, assim como Dom Quixote, abraçam com sofreguidão as narrativas falsas e seguem em frente criando caos. Assim como Dom Quixote, elas aniquilam a lei, a ordem e a Igreja. Dom Quixote, em uma cena, ataca os soldados do rei que levam um grupo de prisioneiros para serem castigados nas galés; na prática ele invalida a força policial. Em outra cena ele ataca um grupo de monges que leva um corpo para ser enterrado e quebra a perna de um sacerdote. A pena por atacar um clérigo é a excomunhão, e este é apenas um dos pecados de injustiça cometidos por Dom Quixote.

Cervantes era um homem profundamente religioso. Ele não sustenta que o decadente fidalgo seja um herói. Quixote é simplesmente doido! Embora os intérpretes modernos tentem fazer de Cervantes um católico desiludido, que usou o romance para minar a cultura da época, uma leitura adequada demonstra perfeitamente o quão católico é o livro. Na verdade, Quixote ilustra a mente rebelde de um protestante. Cervantes escreveu depois do Concílio de Trento, que marcou o início da contra-revolução em face dos erros protestantes (ver O Resgate de Cervantes, de Luis Cortest).

É um ícone e tanto para os nossos tempos loucos – o Dom Quixote de meia-idade se lançando sobre moinhos de vento e atacando odres de vinho como se fossem gigantes. A sua insanidade leva o caos aonde quer que vá. Qualquer realidade que não combine com a sua visão deturpada de mundo é torcida e descrita como “encantamento” feito por feiticeiros inimigos que querem evitar que ele tenha sucesso.

Eu duvido que a maior parte dos vândalos tenha algum dia ouvido falar de Dom Quixote ou de seu criador, mas eles demonstram o mesmo orgulho arrogante em suas ações ignorantes e insanas. Alegam respeitar as vidas dos negros ao mesmo tempo em que aceitam o assassinato de bebês negros no ventre. Alegam que “as vidas dos negros são importantes” ao mesmo tempo em que destroem as empresas de negros e aniquilam bairros negros. Assim como Quixote, eles atacam (e até matam) os homens e mulheres responsáveis pela manutenção da ordem.

Dom Quixote acaba por se arrepender no fim do romance, e morre no seio da Igreja. Por que será que eu não creio num fim saudável como este para aqueles que estão criando um absoluto caos em nosso pobre país?


Artigo original: https://lesfemmes-thetruth.blogspot.com/2020/06/mundabor-and-don-quixote-reflection-on.html Traduzido por André Carezia.

 

Cuidado com dois perversos roteiros para os deprimidos

Artigo publicado originalmente em inglês, em fevereiro de 2016, no jornal conservador americano Conservative Chronicle (www.conservativechronicle.com)

Autor: Marvin Olasky

Tradução: André Carezia

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“A terra em que vivemos é um globo girante. Embora pareça gigante para nós, é meramente uma partícula de matéria em uma enorme vastidão de espaço.” Esse é o início de The Outline of History, de H. G. Wells, publicado em 1920; é uma história do mundo que ajudou a me inclinar na direção do ateísmo e do socialismo quando eu era adolescente.

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“Um Animal sem Significado”. Noventa e cinco anos mais tarde, esse é o título do capítulo 1 de Sapiens: A Brief History of Humankind, de Yuval Noah Harari, que muitos críticos aplaudiram em 2015. O ano passado foi bem-sucedido para o professor israelense, um ateu que aderiu ao que o Guardian chamou de “TED-cracia global: astros acadêmicos que viajam o mundo dando palestras sobre tópicos da moda.”

EM CERTO SENTIDO, é estranho que Harari seja popular. Afinal, ele insiste que “a vida humana não tem absolutamente nenhum significado. Seres humanos são produtos de processos evolucionários cegos que operam sem objetivo ou propósito. Nossas ações não são parte de algum plano cósmico divino… Qualquer significado que as pessoas atribuam às suas vidas é apenas ilusão.”

Essas cutucadas de Harari soam como sadismo intelectual, e quem além de um masoquista iria querer comprar um livro que berra “você é um idiota”? Ah, mas Harari abre uma pequena e crucial exceção à sua alegação de que o homo sapiens é na verdade Homer Sapiens, mais simplório ainda do que Homer Simpson: Harari diz que “devemos conhecer as pessoas no Google, no Facebook, elas têm visões maravilhosas do futuro, sobre superar a morte, vivendo eternamente, fundindo humanos com computadores.”

O elogio do autor aos potenciais patrocinadores é enorme: Harari interpõe um ataque obrigatório ao movimento do design inteligente, que “alega que a complexidade biológica prova que deve haver um criador que pensou em todos os detalhes biológicos a priori”. Ele diz que são tolos, é claro, “mas os proponentes do design inteligente podem, ironicamente, estar certos sobre o futuro”: googlianos e facebookianos serão os projetistas inteligentes, criando o Homo Google e o Homo Facebook à sua própria imagem.

SURPRESA NENHUMA, então, é que o fundador do Facebook, Mark Zuckerberger, tenha selecionado Sapiens para seu clube online do livro, convidando 38 milhões de seguidores a ler que suas vidas são vazias de significado — a menos que trabalhem para criar o sucessor da humanidade através da engenharia genética, através da engenharia cyborg (combinando partes orgânicas e inorgânicas), ou através da criação de mentes dentro de computadores, mentes que tenham todas as características de vida exceto carne e osso.

O apelo desse mais admirável dos novos mundos é óbvio, numa época em que se pode escrever ISIS num buscador web e instantaneamente ver exemplos da depravação absoluta do homem. Aquilo que Agostinho escreveu em A Cidade de Deus 1600 anos atrás nós vemos em nossas telas de computador e TV: “Os homens pilham seus semelhantes e os levam cativos. Acorrentam e aprisionam, exilam e torturam. Cortam membros, destroem órgãos do sentido, e abusam dos corpos para gratificação da luxúria obscena do opressor.”

A religião de Harari, da salvação pela tecnologia, tem seu apelo, assim como qualquer religião que diz que alguns sapiens podem ascender às alturas dos céus se eles forem espertos e trabalharem bastante. Só que o cristianismo ensina que nossa esperança não está em ascender ao status divino, mas em Deus descer para se tornar homem. Como Gerald Bray escreve na excelente biografia publicada pela Crossway, Augustine on the Christian Life, “quanto mais ele foi conhecendo Deus, menos ele confiou nele mesmo e em seus próprios meios.”

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Sapiens provavelmente se tornará leitura obrigatória em muitos cursos para primeiro-anistas de universidades. Alguns leitores tentarão evitar a perda de sentido aderindo à tecnocracia, assim como eu aderi ao comunismo. “Sereis como deuses”, satanás sussurrou no jardim do Éden. O antídoto contra H. G. Wells ou Harari é o ensinamento bíblico de que todos, incluindo Lenin e Zuckerberg, pecam e se revoltam contra Deus — e que nossa esperança está em Cristo. Qualquer um que oferece uma falsa esperança está vendendo algo: um livro, um programa, talvez uma ideologia, mas sempre um ídolo.

SE CRIARMOS sociedades supostamente igualitárias, ou maravilhas da engenharia genética ou da engenharia de computação, iremos inevitavelmente infectá-los com nosso pecado. Se continuarmos construindo torres de babel, o futuro será mais na linha dos filmes Exterminador do Futuro do que na linha romântica de Harari.

www.conservativechronicle.com