Os Anjos da Guarda

Autor: Dom Prosper Gueranger, in “O Ano Litúrgico”

Tradução: André Carezia

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HISTÓRIA DA FESTA – Embora a solenidade de 29 de setembro tenha por objetivo honrar a todos os espíritos bem-aventurados dos nove coros, a piedade dos fiéis nestes últimos séculos quis que se consagrasse um dia especial aqui na Terra para celebrar os Anjos da Guarda. Várias igrejas começaram a celebrar esta festa, e puseram-na em diferentes data do ano; Paulo V, embora permitindo-a em 27 de setembro de 1608, achou conveniente não impor sua aceitação; Clemente X acabou com essa variação em torno da nova festa, e a 20 de setembro de 1670 fixou-a em 2 de outubro, primeiro dia livre depois de São Miguel, a cuja festa está como que subordinada.

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DOUTRINA DA IGREJA – É de fé que, neste desterro, Deus encomenda aos anjos a custódia dos homens destinados a contemplá-Lo no céu; e isto as Escrituras asseguram, e a Tradição o afirma unanimemente.

As conclusões mais certas da teologia católica estendem o benefício desta preciosa proteção a todos os membros da raça humana, sem distinção de justos ou pecadores, de infiéis ou batizados. Afastar os perigos, sustentar o homem em sua luta contra o demônio, despertar nele pensamentos virtuosos, apartá-lo do mal e castigá-lo de quando em quando, rogar por ele e apresentar a Deus suas próprias orações: eis aí o ofício do Anjo da Guarda. E é um ministério tão especial que o mesmo Anjo não acumula a custódia simultânea de vários. E é tão assíduo que acompanha seu protegido desde o primeiro dia até o último de sua vida, apanhando a alma que sai deste mundo para conduzi-la depois do juízo ao lugar merecido no céu, ou na mansão temporal de purificação e expiação.

Os NOVE COROS – A santa milícia dos Anjos da Guarda é recrutada principalmente do lado mais próximo de nossa natureza, entre os postos do último dos nove coros. Deus, de fato, reserva aos Serafins, Querubins e Tronos a honra de formar Sua augusta corte. As Dominações presidem do alto de seu trono o governo do universo. As Virtudes velam pela firmeza das leis da natureza, pela conservação das espécies, pelos movimentos dos céus; as Potestades mantêm acorrentado o inferno. A raça humana, em seu conjunto e nos grupos sociais das nações e das Igrejas, está confiada aos Principados; o ofício dos Arcanjos, encarregados das comunidades menores, parece incluir também o de transmitir aos Anjos as ordens do céu, com o amor e a luz que descem até nós da primeira e suprema hierarquia. Ó abismo de sabedoria em Deus![1] Assim é que o conjunto admirável de ministérios, disposto entre os diversos coros de espíritos celestiais, se ordena para o seu fim: guardar o mais humilde deles, o homem, para quem foi criado o universo. O mesmo afirma a Escolástica[2], e também o Apóstolo: Não são todos os anjos espíritos ao serviço de Deus, que lhes confia missões para o bem daqueles que devem herdar a salvação? [3]

OFÍCIO DOS ANJOS DA GUARDA – “Os anjos”, diz São Lourenço Justiano, “observam nossas diversas ações; exortam-nos, incitam-nos, levantam-nos depois de nossas quedas, e mantêm vigília em torno da Igreja militante. Sobem e descem sem cessar; andam sempre contentes, sempre solícitos, do céu à terra e da terra ao céu, oferecendo a Deus nossas obras, nossas lágrimas e nossas orações. Trazem-nos, do altar Deus, por assim dizer, a humanidade de Cristo, o fogo da caridade, o ardor da fé, e a esperança de um dia termos parte na glória dos santos. Mostram-nos o triunfo dos mártires para que tenhamos maior ânimo; a porta aberta do céu, para induzir-nos a desprezar o mundo; a presença contínua de Deus, para encher-nos de respeito; e por fim a imensidão da eterna fortuna, para excitar nossos desejos. Quanto mais oportunidades eles têm de cumprir por nós estas diversas funções, mais felizes e diligentes se sentem. Não invejam de forma alguma nosso progresso no bem, nem diminuem em nada nossos méritos; ao contrário, trabalham pela nossa perfeição, instruem-nos em nossos deveres, e dão-nos coragem para cumpri-los. Não têm outro desejo nem outro fim que não seja a glória do Onipotente e a nossa salvação. São amigos da Sabedoria e vivem próximos ao Verbo, isentos de toda miséria e de toda imperfeição. Mesmo enquanto exercem seu ministério em meio ao mundo, não ficam nem com a mais mínima mancha, e nem sentem fadiga alguma. Ainda que circunscritos pelo espaço, permanecem sempre na presença de Deus; ao mesmo tempo que servem aos homens, não cessam de oferecer amorosamente ao seu Criador o sacrifício de louvor; as funções de seu ministério não se separam da homenagem e da glória que devem tributar ao Rei imortal.”[4]

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Deus, porém, que se mostra extremamente admirável para a estirpe humana, não deixa por menos os governos deste mundo quando se trata de honrar com uma especial atenção os príncipes de Seu povo, os privilegiados de Sua graça, ou os que regem o mundo em nome dEle; como dizem os santos, uma suma perfeição, uma alta comissão do Estado ou da Igreja, exigem para o investido a assistência de um espírito também superior. A anjo da primeira hora – se assim se pode dizer – não precisa necessariamente ser guarda de si mesmo. Não há lugar, no campo das operações de salvação, para que o titular do posto a ele confiado desde o princípio possa temer encontrar-se sozinho; a uma chamada sua, ou a uma ordem do alto, os exércitos dos bem-aventurados companheiros, que enchem os céus e terra, estão sempre dispostos a prestar-lhe ajuda poderosa. Entre estes nobres espíritos, que na presença de Deus aspiram a aumentar por todos os meios seu amor a Ele, há alianças secretas que às vezes originam neste mundo, entre seus devotos, aproximações cujo mistério se descobrirá no dia da eternidade.

OS ANJOS NA CRIAÇÃO – “Profundo mistério”, diz Orígenes, “é a repartição das almas entre os anjos encarregados de sua guarda; segredo divino relacionado com a economia universal que descansa no Homem-Deus! E não é sem inefáveis disposições que se repartem entre as Virtudes dos céus os serviços da terra, os grupos múltiplos da natureza: fontes e rios, ventos e bosques, plantas, seres animados dos continentes e dos mares, cujos ofícios se harmonizam por intermédio dos anjos que dirigem seus variados ofícios ao fim comum.”[5] Deste modo se conserva, em sua forte unidade, a obra do Criador.

E sobre estas palavras de Jeremias, “Até quando permanecerá a terra em luto?”[6], Orígenes prossegue[7]: “A terra se regozija ou chora por cada um de nós; e não somente a terra, mas também a água, o fogo, o ar, e todos os elementos, não da matéria insensível, mas dos anjos que estão à frente de todas as coisas do mundo. Há um anjo da terra, e é este que, juntamente com seus companheiros, chora por nossos crimes. Há um anjo das águas, a quem se aplica o salmo: As águas vos viram, Senhor, as águas vos viram; elas tremeram e as vagas se puseram em movimento. Em torrentes de água as nuvens se tornaram, elas fizeram ouvir a sua voz, de todos os lados fuzilaram vossas flechas.”[8]

A natureza, considerada desta maneira, é grande. A antigüidade, que abundava de verdades e de poesias mais que nossas gerações atuais, deste modo contemplava o universo. Seu erro consistiu em adorar a esses poderosos mistérios, com prejuízo do único Deus, ante o qual se inclinam aqueles que sustentam o mundo.[9] “Ar, terra, oceano, tudo está cheio de anjos”, afirmou por sua vez Santo Ambrósio[10]. “Eliseu, assediado por um exército, não tinha medo algum, pois via que lhe assistiam esquadrões invisíveis. Oxalá o profeta te abra também os olhos, e que o inimigo, ainda que seja legião, não te assuste: crês que estás sitiado, mas estás livre; os que estão conosco são mais numerosos do que os que estão com eles[11].”

CULTO AO ANJO DA GUARDA – Para terminar, escutemos hoje, como a Igreja o faz, o abade de Claraval, em cuja eloqüência parecem nesta ocasião brotar asas: “Mostra-te, em todo lugar, respeitoso para com teu anjo. Disponha-te a render culto à sua grandeza e graças por seus benefícios. Ama este futuro co-herdeiro, que agora é o tutor designado pelo Pai para os dias de tua infância. Porque, ainda que sejamos filhos de Deus, não passamos agora de crianças, e o caminho é longo e perigoso. Mas aos seus anjos Deus mandou que te guardem em todos os teus caminhos. Eles te sustentarão em suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra. Sobre serpente e víbora andarás, calcarás aos pés o leão e o dragão[12]. Certamente, por onde o caminho é fácil para uma criança, sua ajuda se reduzirá a ser simplesmente um guia, a sustentar-te como se faz às crianças. Mas a provação corre o risco de exceder tuas forças? Eles te levarão em suas mãos. Mãos de anjos! Quantos atoleiros temíveis, ultrapassados quase que sem se dar conta à mercê destas mãos, só deixaram no homem a impressão de um pesadelo rapidamente desvanecido!” [13]

AGRADECIMENTO AOS ANJOS – Santos Anjos, benditos sejais porque os crimes dos homens não cansam a vossa caridade; damos graças a vós pelo benefício – entre muitos outros – de conservar a terra habitável, dignando-nos permanecer sempre nela. Muitas vezes há perigo de que a solidão se torne pesada no coração dos filhos de Deus nas grandes cidades e nos caminhos do mundo, onde se acotovelam apenas desconhecidos ou inimigos; porém, se diminuiu o número dos justos, não diminui o vosso. E em meio à multidão entusiasmada, como também no deserto, não há um ser humano que não tenha junto de si seu anjo, representante da Providência universal sobre os bons e os maus. Espíritos bem-aventurados, temos a mesma pátria que vós, o mesmo pensamento e o mesmo amor; por que os ruídos confusos de uma turba frívola hão de turbar a vida do céu que desde agora podemos viver já convosco? O tumulto das praças públicas impede-vos por acaso de formar no além vossos coros, ou impede o Todo-poderoso de perceber nelas as vossas harmonias? Também nós queremos cantar por toda parte ao Senhor, e unir continuamente as nossas adorações às vossas, vivendo pela fé na face oculta do Pai[14], cuja contínua contemplação provoca arroubos em vós[15]. Se formos tomados por este modo angélico de viver, a vida presente não nos oferecerá nenhuma inquietude. E nem a eterna surpresa alguma.

Notas:

[1] Rm 11,33.

[2] Suárez, De Angelis, 1, Cap. VI , XVIII, 5.

[3] Hb 1,14.

[4] Da Agonia Triunfante.

[5] Comentário sobre Josué, Homilia 23.

[6] Jeremias 12, 4.

[7] Homilia 10.

[8] Salmo 76, 17-18

[9] Jó 9, 13.

[10] Comentário do Salmo 118; Sermão I, 9, 11, 12.

[11] 2Re 6, 16.

[12] Salmo 90, 11-13.

[13] Comentário ao Salmo 40; Sermão XII.

[14] Salmo 30, 21; Colossenses 3, 3.

[15] Mt 18, 10.

Santo Agostinho, Bispo e Doutor da Igreja

Autor: Dom Próspero Gueranger, in “O Ano Litúrgico”

Tradução: André Carezia

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A ALMA DOS SANTOS — “Quão admirável é Deus em Seus Santos!”[1] Esta exclamação do Salmo nos é sugerida pela liturgia quase todos os dias. Dentre todos os espetáculos oportunos para alegrar-nos e animar-nos, nenhum há que cause tanta admiração como a alma de um santo. “Que formosa é uma alma!”, dizia o santo Cura d’Ars; e santa Catarina de Gênova exclamou no dia em que recebeu do céu o favor de contemplar uma alma em estado de graça: “Senhor, se eu não soubesse que há um só Deus, creria que esta alma é um deus.” A Igreja se compraz em trazer à nossa memória a recordação dos santos, agrupar-nos junto a seus altares, expor suas relíquias para a nossa veneração, e propor-nos seus exemplos e conselhos. Neles, mostra-nos o que a natureza e a graça têm de mais elevado e mais suave, de mais misterioso e mais atraente.

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SANTO AGOSTINHO — É muito difícil comparar os méritos dos santos para averiguar quais são os maiores, e talvez seja preferível nem sequer tentá-lo. Contudo, não podemos deixar de reconhecer naquele que a Igreja celebra hoje “o homem que, unido ao corpo místico de Cristo por um milagre, provavelmente não teve nunca, a julgar pela história, em tempo algum e em povo algum, outro que lhe igualasse em grandeza e em sublimidade.”[2]

É destes homens suscitados por Deus para que, com seu talento superior e com suas obras, adaptando-se às necessidades de sua época e de todos os tempos, fortaleçam e continuem sustentando o povo cristão, sobretudo quando o poder das trevas se apresenta mais ameaçador e o erro se propaga com maior facilidade. “É, dizia Leão XIII, um talento vigoroso que, dominando todas as ciências humanas e divinas, combateu todos os erros de seu tempo;”[3] e se a autoridade de sua palavra não pode se colocar acima da autoridade da Igreja docente, sabemos ao menos que “a Igreja romana segue e conserva a doutrina de Santo Agostinho.”

O AMANTE DA SABEDORIA — Santo Agostinho é, em primeiro lugar, o amante da Sabedoria, a qual é Deus: “Ama somente Ela, por Ela mesma, e unicamente por Ela ama o descanso e a vida.[4] Ouçamo-lo por um momento a desafogar seu coração, que foi objeto de tão grande misericórdia: ‘Tarde Te amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde Te amei!’ E Tu estavas dentro de mim e eu fora, e por fora Te buscava…[5] Perguntei à terra e ela me disse: ‘Não sou eu aquele que tu buscas’; e todas as coisas que nela há me confessavam o mesmo. Perguntei ao mar e aos abismos e aos répteis de alma viva, e me responderam: ‘Não somos teu Deus; busca-O acima de nós.’ Interroguei o ar que respiramos, e o vento, com seus moradores, me disse: ‘Engana-se Anaxímenes, eu não sou teu Deus.’ Perguntei ao céu, ao sol, à lua e às estrelas: ‘tampouco somos nós o Deus que buscas’, me responderam. Disse então a todas as coisas que estão fora das portas de minha carne: ‘dizei-me algo de meu Deus, já que vós não O sois; dizei-me algo dEle.’ E exclamaram todas com grande voz: Ele nos fez[6]. Se houvesse alguém no qual silenciasse o tumulto da carne; e silenciassem as imagens da terra, da água e do ar; e silenciasse o próprio céu, e ainda a própria alma silenciasse e se elevasse acima de si, sem pensar em si; se silenciassem os sonhos e revelações imaginárias; e se, enfim, silenciasse por completo toda língua, todo sinal e tudo quanto sucede, posto que todas estas coisas dizem a quem lhes dá ouvidos: ‘Não nos fizemos a nós mesmas, mas Aquele que permanece eternamente foi quem nos fez’; se, dito isto, silenciassem e voltassem o ouvido Àquele que as fez, e somente Ele falasse, não por elas, mas por Ele mesmo, de modo que ouvissem Sua palavra, não por língua de carne, nem por voz de anjo, nem por som de nuvens, nem por enigmas de semelhança, mas sim que O ouvíssemos a Ele mesmo, a quem amamos nestas coisas, a Ele mesmo sem elas, como no presente nos elevamos e tocamos rapidamente com o pensamento a eterna Sabedoria, que permanece sobre todas as coisas; se, por último, este estado continuasse e fossem afastadas dEle as demais visões de índole muito inferior, e estas somente arrebatassem, absorvessem e confundissem os gozos mais íntimos de seu contemplador, de modo que a vida eterna fosse qual este momento de intuição pelo qual suspiramos, não seria isto o Entrar no gozo de teu Senhor[7]? Chamaste e clamaste, Senhor, e rompeste minha surdez; brilhaste e resplandeceste, e afugentaste minha cegueira; exalaste Teu perfume e respirei, e suspiro por Ti; gostei de Ti, e sinto fome e sede; tocaste-me, e me abrasei em Tua paz. Quando me unir a Ti com todo meu ser, já não haverá mais dor nem esforço para mim.”[8]

O DOUTOR DA IGREJA — Por muito tempo, Agostinho foi escravo das concupiscências e das paixões de seu coração; por muito tempo sua inteligência esteve presa pelos horrores maniqueístas, e muito lhe custou romper também estes laços e voltar a falar a verdade da Igreja católica. Porém, uma vez convertido, empreendeu resolutamente a ofensiva contra o erro. Vinha no rastro dos célebres doutores Clemente de Roma, Irineu, Hilário, Atanásio, Ambrósio, Basílio, João Crisóstomo; mas são seus ensinamentos orais e escritos ao longo de quase meio século que mais nos admiram.

Declara-se inimigo do maniqueísmo, do qual em outros tempos fora apóstolo convicto, e reduz a nada essa estranha heresia, que, para explicar a existência do mal, havia imaginado divinizá-lo e colocá-lo contra o Deus bom. Nesta luta, entretanto, Agostinho mostra sua alma repleta de mansidão para com aqueles com quem compartilhou tanto tempo a mesma ilusão: “Que sejam severos convosco os que não sabem quão raro é, e quanto custa, chegar a superar com a serenidade de uma alma piedosa os fantasmas dos sentidos. Mostrem-se duros os que ignoram com que trabalho se cura o olho do homem interior, para olhar para seu sol, o sol de justiça; os que não sabem com que ânsias e com que gemidos se chega a entender um pouco de Deus. Tolero, enfim, a intransigência daqueles que jamais conheceram tal sedução como a que vos faz viver equivocados… De minha parte, de modo algum serei exigente convosco, porque, além do meu espírito procurar fantasias fúteis que lhe arrastaram para todo lado, eu tomei parte nessa vossa miséria, e tive que chorar muito.” [9]

Era-lhe mais agradável demonstrar aos homens seu fim último e o único meio de conseguir a bem-aventurança, como o faz nesta famosa oração: “Fizeste-nos para Ti, ó Deus meu, e nosso coração está inquieto até que descanse em Ti;” [10] e recordar-lhes que inutilmente tentariam alcançar o céu sem a submissão e a obediência que se devem à Igreja católica, que é a única instituída por Deus para levar às almas a luz e a força. O próprio santo tinha supremo empenho em submeter-se à autoridade da Igreja docente, convencido de que, enquanto assim agisse, não se afastaria nem um milímetro da verdadeira doutrina.

De modo especial, agrada-lhe defender a natureza da graça, já que sabe muito bem quanto deve a ela. Sua oração preferida: “Senhor, concede-me o que ordenas, e ordena o que queres”[11], feria o orgulho do monge Pelágio, para quem a natureza era onipotente para fazer o bem, e se bastava totalmente para a salvação, posto que o pecado original não a havia modificado. Fez um estudo sobre a graça, tão completo e perfeito, que passou a ser chamado de “Doutor da Graça”; estudo que os escritores católicos, dali em diante, passaram a consultar ao tratarem desse tema, para, seguindo seus ensinamentos e os ensinamentos da Igreja, verem-se livres de cair em erro.

O ENSINAMENTO DE SUA VIDA — Há, entretanto, outro ensinamento que Agostinho dava aos fiéis: o de sua vida virtuosa. Posídio, seu primeiro biógrafo, assegurava que “os que puderam vê-lo e ouvi-lo pregar na igreja, e sobretudo os que desfrutaram de suas conversas, tiraram muito proveito. Porque não somente era um sábio nas coisas do reino dos céus, mas era daqueles de quem havia dito o Salvador: aquele que praticar e ensinar aos homens desta maneira, este será grande no reino dos céus.” Buscou ardorosamente a caridade como a mais nobre das virtudes, e cultivou-a com tal constância que lhe valeu ser representado com um coração de fogo na mão; sua alma, por vezes, voltava-se a Deus, como ele mesmo nos contou no famoso episódio do êxtase de Óstia. É que se entregava sem interrupção a contemplar a vida de Cristo; além disso, esforçava-se para reproduzir em si o modelo divino, devolvendo amor por amor, como ele aconselhava às virgens: “Esteja gravado em vosso coração Aquele que por vós foi cravado na cruz.”

AS PROVAS — Não podia faltar a provação de dor a esta grande alma. Nem devemos imaginar o santo em amena meditação, ou escrevendo na paz de uma singela cidade episcopal, escolhida para tal pela Providência, essas obras preciosas cujos frutos o mundo colheria até nossos dias. Nesta vida não há fecundidade sem padecimento, sem tribulações públicas ou privadas, sem sacrifícios conhecidos por Deus ou pelos homens; quando, ao ler os escritos dos santos, brotam em nós piedosos pensamentos e resoluções generosas, não devemos nos contentar, como se fossem livros profanos, em render um tributo de admiração ao gênio de seus autores; devemos, ao contrário, pensar ainda mais em quanto lhes custou esse bem sobrenatural que produzem em nossas almas. Antes de Agostinho chegar a Hipona, os donatistas já eram tal maioria que o santo conta que se valiam disso até para proibir assar pães para os católicos[12]. Quando o santo morreu, as coisas haviam mudado notavelmente; mas foi necessário que o pastor, colocando em primeiro lugar o dever de salvar a todo custo as almas que se lhe haviam confiado, gastasse seus dias e suas noites nesta obra essencial, correndo mais de uma vez o feliz perigo do martírio[13]. Os chefes dos cismáticos, temendo mais a força de seus argumentos do que sua eloqüência, negavam-se a disputar com ele, e haviam tornado público que matar Agostinho seria uma obra louvável, merecedora do perdão de todos os pecados de quem se comprometesse a levá-la a cabo[14].

“Rogai por nós”, dizia no início de seu ministério, “rogai por nós, que vivemos de maneira tão precária, entre dentes de lobos furiosos; ovelhas desgarradas, ovelhas obstinadas, que se aborrecem porque vamos atrás delas, como se seus extravios fizessem-nas não ser nossas.”[15]

SEU ZELO — E para com seu rebanho fiel, que abnegação e que bondade manifestava o Pastor! É uma delícia vê-lo em meio a seu povo, falando-lhe familiarmente, deixando-se cercar e cativar por ele. Sua porta sempre aberta a todos os que chegavam, atendia todo pedido, toda dor, todo litígio. Às vezes, ante a insistência das outras igrejas e dos concílios que reivindicavam seus trabalhos e conselhos, Agostinho e seus visitantes faziam um pacto que, por certo, durava muito pouco, porque sobretudo os pobres e os humildes sabiam que a vida e o coração do santo era para eles.

Seria preciso ler todas as suas obras, o relato de suas “Confissões”, seus sermões e suas homilias para chegar a compreender esta alma incomparável. Pio XI, ao encerrar a encíclica que dedicou a seu louvor, dizia que “sua vida e seus méritos, seu agudo talento, a amplitude e a profundidade de sua ciência, a sublimidade de sua santidade, a luta que teve que travar para defender a verdade católica, fazem com que não se possam encontrar, por assim dizer, outros homens, ou muito poucos a quem compará-lo, desde o princípio do mundo até hoje.”

A grandeza dos santos não se parece com a dos poderosos deste mundo; estes nos assustam e aqueles, ao contrário, nos atraem e nos infundem confiança. Não nos desanimam nem a sublimidade de seu talento, nem a santidade de sua vida, nem o rigor de sua penitência, nem o fogo de sua caridade. Pelo dogma da Comunhão dos Santos, sabemos que são nossos irmãos; e, por estarem próximos ao Senhor, parecem-se com Ele, participam de Sua ternura, de Sua benignidade, de Sua misericórdia. Deixaram-nos seus exemplos e seus ensinamentos, e agora oferecem sua oração e seus méritos para que, embora de longe, sigamo-los pelo caminho que leva a Deus. Tomara que cheguemos a nos unir intimamente e para sempre com este Deus, o qual Agostinho se lamentava “de haver conhecido e começado a amar demasiado tarde”!

VIDA — Agostinho nasceu em Tagaste, na Numídia, em 13 de novembro de 354, de pai pagão e de mãe cristã, Santa Mônica. De inteligência brilhante, estudou em Cartago, depois em Roma e em Milão, onde ensinou a retórica. Em sua juventude conheceu a desordem dos sentidos e caiu na heresia maniqueísta. Tocado porém pela graça obtida pelas orações e lágrimas de sua mãe Santa Mônica, iluminado pelos ensinamentos e conselhos de Santo Ambrósio, converteu-se e recebeu o batismo em 25 de abril de 387. Pouco depois chegou à África para ali praticar, com muitos outros discípulos, uma vida monástica totalmente dedicada à oração e ao estudo. Em 391 se ordenou sacerdote. Sua ciência, sua eloqüência, sua santidade, valeram-lhe para substituir Valério, bispo de Hipona. Durante cerca de quarenta anos se entregou ao ensino de seu povo, à conversão dos hereges e a escrever suas inumeráveis obras. Morreu em 430, quando os vândalos cercaram sua cidade.

SÚPLICA — Enfim, após doze séculos, voltamos a ver a Cruz na África tão querida, onde perecera até o nome de muitas igrejas florescentes em outros tempos. Queira Deus que a liberdade de que agora desfruta permita-lhe alcançar rapidamente seu triunfo sobre o Corão! Tomara que a nação que hoje protege teu solo natal possa sentir-se orgulhosa desta nova honra, e compreenda as obrigações que disso derivam!

Teus feitos, contudo, não se amorteceram no decorrer desta noite prolongada. Tuas obras imortais iluminaram as inteligências e despertaram o amor através do mundo inteiro. Nas basílicas atendidas por teus filhos e imitadores, o esplendor do culto divino e a perfeição das santas melodias mantiveram no coração dos povos a alegria sobrenatural que se apoderou de ti ao ressoar pela primeira vez em nosso Ocidente o canto alternado dos salmos e dos hinos litúrgicos[16] sob a direção de Ambrósio. Em todas as épocas, a vida perfeita renovou sua juventude com as mil formas com que o mandamento duplo da caridade exige revesti-la, bebendo nas águas que correm de tuas fontes[17].

Ilumina continuamente a Igreja com tuas luzes incomparáveis. Bendize as muitas famílias religiosas que se amparam em teu insigne patrocínio. Ajuda-nos a todos, alcançando-nos o espírito de amor e de penitência, de confiança e de humildade, que orna tão bem com uma alma resgatada; ensina-nos quão débil e indigna é a natureza depois da queda, mas também dá-nos conhecer a bondade sem limites de nosso Deus, a superabundância de Sua redenção, a onipotência de Sua graça. E que, contigo, todos saibamos não somente reconhecer a verdade, mas também dizer a Deus de modo leal e prático: “Fizeste-nos para Ti, e nosso coração está inquieto até que descanse em Ti.”[18]

[1] Salmo 67, 36.

[2] Encíclica Ad salutem humani, de 20 de abril de 1930.

[3] Encíclica Aeterni Patris.

[4] João II, Registro de Cartas, l. X , c. XXXVII.

[5] Confissões, l. X, c. XXVII.

[6] Confissões, l. X, c. VI.

[7] Confissões, l. IX, c. X.

[8] ibid, l. X, c. XXVII.

[9] Contra epist. Manichael quam vocant fundamenti, 2-3.

[10] Confissões, l. I, c. I.

[11] Confissões, l. X , cc. XXIX, XXXI.

[12] Contra litteras Petiliani, II, 184.

[13] Posidius, Vita Augustini, 13.

[14] ibid., 10.

[15] Sermão XLVI, 14.

[16] Confissões, l. IX , cc. VI, VII.

[17] Prov 5, 16.

[18] Confissões, l. I, c. I.

Hino a São Rafael Arcanjo

(extraído do livro “Ano Litúrgico”, de Dom Próspero Gueranger)

Tradução: André Carezia

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Rafael, guia divino,
recebe bondosamente o hino sagrado
que nossas vozes suplicantes e alegres te dedicam.

Guia-nos pelo caminho da salvação,
vigia nossos passos;
faze que nunca caminhemos a esmo,
por haver perdido a trilha do céu.

Mira-nos do céu;
enche nossas almas do esplendor reluzente
que descende do santo Pai das luzes.

Dá a saúde aos enfermos,
ponde fim à noite dos cegos;
ao curar os corpos, fortifica os corações.

Tu, que te encontras diante do soberano Juiz,
advoga pela causa de nossos crimes;
aplaca tu, a quem confiamos nossos rogos,
a cólera vingadora do Onipotente.

Confunde tu, que novamente inicias o grande combate,
nosso soberbo inimigo;
para triunfar sobre os espíritos rebeldes,
dá-nos a força, aumenta em nós a graça.

Glória seja dada a Deus Pai, bem como a Seu único Filho,
com o Espírito Consolador, agora e sempre.

Amém.

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Santo Inácio, Confessor

Autor: Dom Próspero Gueranger, in O Ano Litúrgico.

Tradução: André Carezia

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LUTERO — Ainda que o ciclo do tempo depois de Pentecostes tenha nos manifestado, em numerosas ocasiões, o zelo com que o Espírito Santo vela pela defesa da Igreja, volta a resplandecer neste dia o ensinamento de uma maneira nova. No século XVI um ataque formidável havia se desencadeado contra a Igreja. Satanás havia escolhido como chefe um homem caído, como ele, das alturas do céu. Lutero, agraciado desde sua juventude por predileções próprias dos perfeitos, não soube, em um dia de descaminho, resistir ao espírito de rebeldia. Como Lúcifer, que pretendia ser igual a Deus, ficou face a face com o Vigário do Altíssimo sobre o monte do Testamento[1]; de repente, rodando de abismo em abismo, arrastou atrás de si a terça parte dos astros do céu da santa Igreja[2]. Lei misteriosa e terrível, aquela que tão freqüentemente deixa nas esferas do mal o homem ou o anjo, vencido o poder que devia exercer para o bem e para o amor! Mas a eterna sabedoria jamais fica frustrada; precisamente então, frente à liberdade pervertida do anjo ou do homem, implanta esta outra lei substitutiva e misericordiosa, da qual foi Miguel o primeiro beneficiado.

VOCAÇÃO DE INÁCIO — A vocação de Inácio à santidade acompanha passo a passo em seu crescimento a apostasia de Lutero. Na primavera do ano de 1521, Lutero, desafiando todos os poderes, acabara de abandonar Worms e de refugiar-se em Wartbourgo[3], quando Inácio recebia em Pamplona a ferida que haveria de afastá-lo do mundo e encaminhá-lo pouco depois a Manresa. Valoroso como seus nobres antepassados, desde seus primeiros anos havia se sentido penetrado pelo ardor belicoso que se mostrava nos campos de batalha da terra de Espanha; mas a campanha contra o Mouro havia chegado ao fim precisamente nos dias de seu nascimento[4]. Poderia crer que para satisfazer seus instintos cavalheirescos teria somente porfias mesquinhas?

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O único e verdadeiro Rei digno de sua grande alma revela-se a ele na prova que detém seus projetos mundanos; uma nova milícia se apresenta para sua ambição: começa outra cruzada. O ano de 1522 contempla, desde os montes da Catalunha até os de Turingia, o crescimento da estratégia divina da qual unicamente os anjos possuem de fato o segredo.

MONTSERRAT — Admirável campina onde se diria que o céu se contenta em observar os poderes do mal, deixando que tomem a dianteira e apenas reservando-se o direito de fazer superabundar a graça ali mesmo onde pretende abundar a iniqüidade[5]. Assim como no ano anterior, três semanas depois de consumada a rebelião de Lutero, havia tido lugar o primeiro chamado de Inácio; a três semanas igualmente de distância, eis aqui o inferno e o céu exibindo seus eleitos sob as diferentes armaduras que correspondem aos dois campos, cujos chefes serão ambos. Dez meses de estranhas manifestações haviam preparado o substituto de satanás no forçado retiro que ele denominou “seu Patmos”; e em 5 de março, contrariando a ordem de desterro, o trânsfuga do sacerdócio e do claustro abandona Wartbourgo transformado, sob a couraça e o casco, em cavaleiro espúrio. No dia 25 do mesmo mês, na noite gloriosa em que o Verbo se fez carne, o flamante soldado das armas do reino católico, o descendente dos Iñigo e dos Loyola, vestido de saco, insígnia da pobreza que revela seus novos projetos, passa a noite em oração em Montserrat velando as armas. Pendura no altar de Maria sua bem temperada espada, e dali se dirige a lutas desconhecidas que o esperam em um combate sem compaixão por si mesmo.

PARIS — Por sobre a bandeira do livre exame [das escrituras] coloca a sua, com uma única divisa: Para maior glória de Deus! Logo se encontra em Paris (onde Calvino recruta secretamente os futuros huguenotes) para alistar, em favor do Deus dos exércitos, a companhia de vanguarda que deve proteger as hostes cristãs iluminando seu caminho, dando e recebendo os primeiros golpes. A Inglaterra, no início do ano de 1534, imita a Alemanha e os países do Norte em sua apostasia. Em 15 de agosto desse mesmo ano os primeiros soldados de Inácio, junto com ele, selam em Montmartre o compromisso definitivo que mais tarde renovarão em São Paulo Extramuros. Porque aquela tropa fixou em Roma o ponto de encontro, tropa que muito rapidamente crescerá de maneira surpreendente, e cuja profissão particular será a de estar sempre dispostos a dirigir-se, ao menor sinal, a todos os pontos onde o chefe da Igreja militante julgar utilizar bem seu selo, em defesa da fé ou para sua propagação, e para o progresso das almas na doutrina e na vida cristã.

A COMPANHIA DE JESUS — Lábios ilustres disseram[6]: “À primeira vista, o que surpreende na Companhia de Jesus é que para ela a idade madura é contemporânea da primeira formação. Quem conhece os primeiros criadores da Companhia conhece a Companhia inteira em seu espírito, em seu objeto, em seus empreendimentos, em seus procedimentos, em seus métodos. Que geração a que preside em suas origens! Que união de ciência e de atividade, de vida interior e de vida militante! Pode-se dizer que são homens universais, homens de raça gigantesca, em companhia dos quais não somos mais que insetos: de genere giganteo, quibus comparan quasi locustae videbamur.”[7]

INÁCIO E A ORAÇÃO DA IGREJA — Quão comovedora se nos parece a sensibilidade tão cheia de encantos destes primeiros padres da Companhia, indo a pé até Roma, a pé e em jejum, esgotados mas com o coração transbordante de alegria e cantando baixinho os Salmos de Davi! Quando foi indispensável, para responder às necessidades da hora presente, abandonar no novo instituto as grandes tradições da oração pública, não se fez isso sem grande sacrifício por parte de muitas destas almas; Maria, com pena, teve de ceder seu posto a Marta nesse ponto. Pelo espaço de tantos séculos a solene celebração dos Ofícios Divinos — dívida social primária — havia parecido tarefa indispensável de toda família religiosa; era o primeiro alimento da santidade individual de seus membros!

Mas a chegada de novos tempos, semeando por toda parte a degradação e a ruína, reclamava uma exceção tão insólita quanto dolorosa da valente companhia que consagrava sua existência à instabilidade de sobressaltos sem conta e de contínuas incursões por terras inimigas. Inácio compreendeu isso. Sacrificou, em benefício do objetivo que se impunha, a atração pessoal que sentiu toda sua vida pelo canto sagrado, cujas menores notas ao chegarem a seus ouvidos faziam verter nele lágrimas de consolo.

Com a chegada dos últimos tempos e de suas emboscadas, havia soado para a Igreja a hora das milícias especiais, organizadas em acampamentos móveis. Mas quanto mais difícil se tornava exigir destas tropas beneméritas, embebidas no contínuo batalhar exterior, os hábitos e costumes dos que protegiam a Cidade Santa, tanto mais Santo Inácio desprezava o estranho contrassenso que pretendia reformar os costumes do povo cristão segundo o modo de vida exigido pelo serviço de reconhecimento e de vanguarda, ao qual ele se sacrificou por todos os demais. A terceira das dezoito regras que assenta, como coroação dos Exercícios Espirituais, “para termos em nós os verdadeiros sentidos da Igreja ortodoxa”, recomenda aos fiéis os cantos da Igreja, os salmos, e as diferentes Horas canônicas no tempo assinalado para cada uma. E, no início do livro, que realmente é o tesouro da Companhia de Jesus, ao estabelecer as condições que permitiriam extrair o melhor fruto possível dos mesmos Exercícios, determina em sua vigésima nota que aquele que puder deve escolher, durante o tempo de sua duração, uma cela que lhe permita facilmente dirigir tanto os Ofícios quanto o Santo Sacrifício. Com isto, que faz pelos outros nosso Santo, senão aconselhar para a prática dos Exercícios o mesmo espírito com que foram compostos, neste retiro bendito de Manresa, onde a participação cotidiana na Missa solene e nos Ofícios do entardecer foram para ele um manancial de delícias celestiais?

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Vida — Inácio nasceu, sem dúvida, em outubro de 1491, em Guipúzcoa, da nobre família dos Loyola. Tendo entrado para o serviço do Rei de Navarra, foi ferido em Pamplona em 20 de maio de 1521. No decurso de sua convalescença, leu a Vita Christi de Ludolfo de Saxônia e, auxiliado pela graça divina, resolveu daí em diante seguir a Cristo. Em fevereiro de 1522, partiu para Montserrat com a finalidade de oferecer sua espada à Virgem; depois se dirigiu a Manresa, onde permaneceu um ano entregue à penitência e à oração. Compôs então seu célebre livro dos Exercícios Espirituais, que obteria a aprovação da Sé Apostólica e faria muito bem a inúmeras almas. Em 1523 fez uma peregrinação à Terra Santa, regressando depois à Espanha com o objetivo de estudar para se achar melhor disposto ao serviço de Deus e da Igreja. Com alguns companheiros partiu a Paris, aonde chegaram em 2 de fevereiro de 1528. Inácio recebeu ali sua graduação universitária e assentou os fundamentos da nova Ordem. Tendo estabelecido a ordem em Roma com aprovação de Paulo III, acrescentou aos votos ordinários o de consagrar-se às missões, se a Santa Sé assim o pedisse. Enviou São Francisco Xavier às Índias; ele mesmo lutou ardorosamente contra a heresia luterana; fundou casas de educação para a juventude; trabalhou na renovação da piedade entre os católicos; suas obras prediletas foram o embelezamento dos templos, o ensino do catecismo e a prática dos sacramentos. Por último, depois de ter trabalhado longo tempo para “a maior glória de Deus”, morreu em 31 de julho de 1556. Foi beatificado em 1609 e canonizado em 1623 junto com São Isidoro Lavrador, Santa Teresa de Ávila e São Francisco Xavier. Em 1922, Pio XI declarou-o patrono de todos os exercícios espirituais.

O SOLDADO DE DEUS — “Esta é a vitória que venceu o mundo: nossa fé.”[8] Tu, por tua vez, mostraste que foste o grande vencedor do mundo, deste mundo no qual o Filho de Deus te elegeu para exaltar Sua bandeira humilhada diante do estandarte de Babel. Estiveste longo tempo quase que sozinho contra os batalhões sempre crescentes dos rebeldes, deixando ao Senhor dos exércitos o cuidado de escolher a hora para que travasses a batalha contra as cortes de Satanás, assim como a escolheu para retirar-te da milícia terrena. Se o mundo tivesse então conhecido teus intentos, teria considerado tudo chacota; e contudo foi um momento tão importante para a história do mundo quanto aquele em que, à semelhança dos mais ilustres capitães a concentrar suas tropas, deste ordem a teus nove companheiros para se dirigirem de três em três à Cidade Santa. Que resultados admiráveis durante aqueles quinze anos em que esta tropa escolhida e recrutada pelo Espírito Santo teve-te como chefe e primeiro general! A heresia varrida da Itália, confundida em Trento, detida em todas as partes, imobilizada até em sua própria casa; imensas conquistas em terras novas, para reparar os danos sofridos em nosso Ocidente; a própria Igreja rejuvenescida em sua beleza, restaurada em seu povo e em seus pastores; assegurada para seus filhos uma educação correspondente aos seus destinos celestiais; por fim, todo lugar onde imprudentemente Satanás havia cantado vitória, em meio a espantosos rugidos, é dominado novamente por este nome de Jesus que faz dobrar todos os joelhos no céu, na terra e nos infernos[9]. Qual glória, ó Inácio, algum dia se igualou a esta, nos exércitos dos reis da terra?

INVOCAÇÃO AO CHEFE GLORIOSO — Vela, do trono que conquistaste com tantas façanhas, sobre estes frutos de tuas obras, e continua mostrando-te como soldado de Deus. Através das contradições que nunca lhes faltaram, mantém teus filhos na posição de honra e valentia que faz deles os sentinelas da vanguarda de tua Igreja. Que sejam fiéis ao espírito de seu glorioso pai, “tendo diante dos olhos, sem cessar, primeiramente o reino de Deus; em seguida, como um caminho que conduz a Ele, a forma de seu instituto, consagrando todas as suas forças para alcançar este objetivo que Deus lhes assinala, seguindo embora cada um a medida da graça que recebeu do Espírito Santo e o grau próprio de sua vocação”[10]. Finalmente, ó cabeça de tão nobre descendência, abraça em teu amor todas as famílias religiosas cuja sorte diante da perseguição veio a ser, nestes dias, tão estreitamente solidária à da tua; bendize particularmente a Ordem monástica que protegeu com suas antigas ramas teus primeiros passos na vida de perfeição, e o nascimento da egrégia Companhia que será tua imperecível coroa nos céus. Protege a Espanha, que te viu nascer não só para a vida terrestre, mas também para a graça da conversão. Roga para que os cristãos aprendam de ti a militar por Deus, a nunca renegar sua bandeira; roga para que todos os homens, debaixo de tuas ordens, recoloquem em Deus seu princípio e seu fim.

Notas:

[1] Isaías, XIV, 13.

[2] Apoc., XII, 4.

[3] A dieta de Worms, onde teve lugar a ruptura oficial do heresiarca, na presença das diversas ordens do império, viu consumar-se esta ruptura nos últimos dias de abril, e foi em 20 de maio que Inácio recebeu a ferida cuja consequência foi sua conversão.

[4] 1491.

[5] Rom., V, 20.

[6] Cardeal Pie, homilia pronunciada nas festas da beatificação de Pedro Fabro.

[7] “da raça dos gigantes, parecíamos gafanhotos comparados com eles”, Números, XIII, 34.

[8] 1 Jo, V, 4.

[9] Fl, II, 10.

[10] Nota de Paulo III.