A Origem da Canção ‘Noite Feliz’

Autor: John Horvat II
Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

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A música ‘Noite Feliz’ é, de longe, a mais simbólica das cantigas de Natal. É compreensível, assim, que fiquemos a refletir sobre a origem de canção tão extraordinária. Para contar a história de suas origens, precisamos voltar à côrte de Frederico Guilherme da Prússia, o quarto rei com esse nome, logo após sua ascensão ao trono em 1840.

Era véspera de Natal. Em Berlim, o rei e seus cortesãos comemoravam o nascimento de Cristo. O coro da catedral, regido por Felix Mendelsohn, executava uma das peças de seu repertório. A música era ‘Noite Feliz’. O rei ficou bem impressionado pela bela canção e imaginou quem seria o autor. Examinou o programa com a lista de hinos sendo cantados e ficou surpreso ao saber que o autor era desconhecido. O rei da Prússia não podia permitir tal imprecisão.

Imediatamente, assim, após a cerimônia, ele fez o maestro vir vê-lo. Mendelsohn, porém, não foi capaz de iluminar em nada o assunto. Ele então chamou o chefe dos concertos reais, Ludovico, cuja reputação era a de descobridor da origem de canções desconhecidas. Mas, para frustração de Frederico Guilherme, ele também não sabia de nada. O rei então ordenou que Ludovico se virasse para descobrir, porque os livros de hinos da Prússia não podiam ficar em desordem!

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Agora que a sua reputação estava em jogo, Ludovico não tinha escolha senão descobrir quem era o compositor da canção. Escarafunchou as bibliotecas, cidades, principados e reinos daquelas terras que eram a Alemanha de então. Nada encontrou, porém.

Já tinham começado a chamar Ludovico de ‘o caçador de canções’, quando ele reparou no estilo da música, que parecia austríaca. Foi para Viena, mas novamente deu com os burros n’água. Então um velho músico dos tempos de Haydn lhe deu uma dica. Michael Haydn, o irmão do músico famoso, compôs muitas obras que se tinham perdido. “Talvez essa canção de Natal seja uma daquelas?” sugeriu o velho. Era um tiro no escuro, e Ludovico não se sentiu encorajado pela dica. Desistiu da busca e decidiu retornar à côrte.

Na viagem de volta, enquanto descansava em uma hospedaria, ouviu um passarinho em uma gaiola a cantar uma música familiar. Deu um pulo de tão surpreso. Ludovico percebeu que o pássaro cantava aquela música de Natal misteriosa cujo autor ele procurava; estava cantando ‘Noite Feliz!’

“Que foi?” perguntou o estalajadeiro.

“Este pássaro,” respondeu Ludovico. “Quem ensinou esta canção ao pássaro?”

O estalajadeiro não sabia. Mas acrescentou que um amigo tinha comprado o bicho na abadia de Salzburgo, e deixado ali na pousada para diversão dos hóspedes.

A Abadia de Salzburgo! Ludovico se sentiu de repente como aquele caçador que, depois de muitas buscas infrutíferas, encontra alguns rastros frescos na neve. A pista tinha esquentado de novo! Ele sabia que Michael Haydn tinha morado naquela abadia por muitos anos. Era quase certo que a canção era de Michael Haydn. Ludovico não perdeu tempo: mudou os planos de viagem e partiu para a abadia.

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Quando chegou, o chefe dos concertos reais da côrte prussiana foi recebido com todas as honrarias que seu posto merecia. O abade e os monges lhe ofereceram um bom jantar e confortáveis acomodações. Infelizmente, porém, ninguém sabia de onde a canção tinha vindo. Também não acreditavam que o autor fosse Michael Haydn.

Quando o ‘caçador de canções’ lhes contou a respeito do pássaro na gaiola, sugerindo que os monges tinham-lhe ensinado a cantar a música, o abade se mostrou ofendido, já que tais caprichos eram proibidos no mosteiro.

Ludovico examinou, então, todos os manuscritos que havia na cela onde Michael Haydn antigamente trabalhara. E, exatamente como os monges haviam previsto, não encontrou nada. A pista tinha esfriado de novo. Desanimado, Ludovico decidiu retomar sua jornada de volta à côrte prussiana.

Entretanto, por acaso, dentre aqueles que estavam presentes ao jantar oferecido pelo abade, havia um professor chamado Ambrósio Prestainer, que ficou particularmente interessado na estória do pássaro.

“Isto pode ser obra de algum dos meninos do coral da abadia”, matutou ele.

Então, já que o professor conseguia imitar com perfeição o passarinho, ele decidiu tentar um truque para ver se descobria quem havia ensinado esta canção ao animal. Alguns dias depois, ele se ajeitou em uma janela que dava para o pátio interno da escola. E assobiou, imitando o pássaro a cantar ‘Noite Feliz’.

O ardil deu certo, pois logo ele ouviu a voz de um menino: “Ah, passarinho, você voltou!” E um garoto de nove anos de idade veio correndo, saindo da aula. Mas quão surpreso o menino ficou ao ver que tinha caído em uma armadilha!

“Como se chama?”, perguntou o professor.

“Felix Gruber,” respondeu o garoto.

“Muito bem. Diga-me, Felix: onde você aprendeu essa música?”

“Meu pai me ensinou.”

“E de onde ele a tirou?”

“Ele a compôs, senhor.”

Prestainer, sem perder um minuto, foi até a casa do menino em uma vila próxima. Lá ele conheceu o professor de uma escola local, Franz Gruber, que confirmou ter de fato composto a música. Mas a letra, ele disse, tinha sido escrita pelo seu amigo Josef Mohr, que fora pároco na vila de Bagran, e que tinha morrido não fazia muito tempo.

Mal podendo conter a alegria por finalmente ter achado a origem da canção, Prestainer escreveu a Ludovico, “O Caçador de Canções”, contando que sua missão de busca das origens da música tinha acabado. Enviou a Ludovico um relato completo de como a canção surgiu. O relato foi assim:

É véspera de Natal, e a torre da pequena igreja da vila domina as casas cobertas pela neve, como uma galinha que protege seus pintinhos. No presbitério, o jovem Padre Josef Mohr, com 26 anos, se prepara para as cerimônias daquela noite relendo o Evangelho, quando uma batida na porta rompe o silêncio. É uma camponesa que pede ao pároco ajuda para um bebê que acabara de nascer.

Sem demora, o padre deixa o conforto da casa e, depois de uma íngreme subida pela montanha, chega a um casebre humilde onde estava a criança recém-nascida. Ao retornar, as estrelas brilham no céu e o branco da neve reflete sua luz.

Ele começa a refletir sobre a cena que acabara de testemunhar. A criança, o casal de camponeses, o casebre, tudo causou-lhe impressão. Lembravam uma outra criança, um outro casal, uma outra moradia rústica em Belém de Judá.

Após a Missa do Galo, o padre Mohr não consegue dormir. Toma uma caneta e uma folha de papel, e começa a escrever um poema que se tornaria a letra da canção ‘Noite Feliz’.

Na manhã seguinte, o Natal de 1818, o piedoso sacerdote vai atrás de um amigo chamado Franz Gruber, então com 31 anos. Depois de ler o poema, Gruber exclama:

“Padre, era exatamente essa a canção de Natal que eu procurava! Louvado seja Deus!” E naquele mesmo dia ele compôs a música que acompanha a letra.

E assim, dessa maneira singela, imitando os acontecimentos de Belém, nasceu a mais popular e bela canção de Natal de todos os tempos.

FIM.


Traduzido do original em inglês, publicado em dezembro/2016 no site http://www.returntoorder.org/

Sol, Lua e Talia

Autor: Giambattista Basile, século XVI
Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

Era uma vez um grande senhor que foi agraciado com o nascimento de uma filha, a quem deu o nome de Talia. Chamou os homens sábios e astrônomos de suas terras para que predissessem o seu futuro. Encontraram-se e, assessorando-se mutuamente, consultaram seu horóscopo e chegaram à conclusão de que ela correria um grande perigo devido a uma farpa de linho. Seu pai então proibiu qualquer planta de linho, cânhamo, ou qualquer outro material desse tipo em sua casa, esperando assim que escapasse do perigo.

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Um dia, quando se havia convertido em uma bela jovem, Talia estava olhando através da janela e viu passar uma velha mulher fiando. Talia, que nunca tinha visto nem uma roca nem um fuso, quis ver como girava, e era tal a sua curiosidade que pediu à velha mulher que fosse até ela. Tomando a roca em sua mão, a garota começou a fiar o linho. Desgraçadamente, cravou-se uma farpa de linho debaixo da unha de Talia, e ela caiu morta ao solo. Quando a velha mulher viu o acontecido, assustou-se tanto que saiu pelas escadas e está fugindo até hoje.

Tão logo seu desgraçado pai viu o desastre que havia ocorrido, tomou-a e, depois de ser inundado pela tristeza e de derramar rios de lágrimas, tirou dali a belíssima Talia e levou-a até um de seus palácios no campo. Ali sentou-a em um trono de veludo debaixo de um dossel de brocado. Desejando apagar da memória todo o seu infortúnio, fechou todas as portas e abandonou para sempre o palácio onde havia sofrido sua grande perda.

Depois de muito tempo aconteceu que um rei caçava ali por perto. Um de seus falcões escapou de sua mão e voou ao interior do palácio através de uma janela. Como não acudisse ao chamado, o rei teve que bater à porta, crendo que o lugar fosse habitado. Mas ninguém atendeu, e então o rei mandou trazerem uma escada de vindimador, pois desejava descobrir o que havia dentro do palácio. Percorreu todos os quartos, salas e recantos, surpreendendo-se grandemente por não encontrar viva alma. Por fim abriu a porta do quarto onde Talia se achava sob o encantamento e, crendo que apenas dormia, chamou-a. Como ela continuasse inconsciente, ele tentou reanimar a bela moça, pensando que estivesse passando mal, mas não teve sucesso. Sentindo então inflamar-se seu sangue pela beleza dela, carregou-a nos braços, deitou-a na cama, beijou-a e lhe deu todo o seu amor. Deixando-a assim deitada, voltou para o seu reino e para as suas ocupações, e por um longo tempo não pensou mais naquilo que tinha acontecido.

Nove meses depois, Talia deu à luz dois filhos, um menino e uma menina, formosos como duas jóias. Duas fadas apareceram no palácio e cuidaram deles, colocando-os sobre os peitos de sua mãe. Certa vez, querendo mamar e não encontrando o mamilo, começaram a sugar o dedo de Talia. Fizeram-no tão forte que arrancaram a farpa de linho. Talia despertou assim de um longo sono e, vendo seus belíssimos filhos sobre ela, toda contente lhes deu o leite. Os bebês eram a coisa que mais queria na vida.

Talia se viu sozinha no palácio, com os gêmeos ao lado, e não sabia o que tinha acontecido com ela. Mas notou que a mesa estava posta, com comida e bebida, embora não conseguisse ver quem as tinha trazido. Enquanto isso, o rei se lembrou da bela adormecida. Tornou a caçar e, voltando ao palácio, entrou para vê-la e encontrou-a desperta com aqueles dois lindos e alegres bonequinhos. Ele se regozijou como nunca antes na vida.

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Contou a Talia quem era, e como a tinha visto e entrado naquele lugar. Eles então se conheceram melhor, a amizade de ambos imediatamente se estreitou, e ele permaneceu com ela durante alguns dias. Depois desse tempo ele se despediu, prometendo que regressaria para levá-la com ele ao seu reino. E voltou ao seu reino, onde a todo momento tinha nos lábios os nomes de Talia, Sol e Lua – pois era assim que se chamavam seus filhos. Até mesmo quando estava comendo chamava-os pelos nomes. E não dormia nem acordava sem pronunciar seus nomes.

A rainha, vendo que algo estranho havia ocorrido ao seu marido durante a caçada, começou a suspeitar. Percebendo que ele não fazia outra coisa além de chamar pelos nomes de Talia, Sol e Lua, ficou furiosa de ciúmes. Chamou seu secretário e disse-lhe:

– Escuta, meu querido, tu estás entre a cruz e a espada. Se me disseres de quem o rei, meu marido, está enamorado, te farei enriquecer; e se me esconderes a verdade, te farei morrer.

O secretário, por um lado, estava assustado; por outro lado, estava ávido pela riqueza. A avareza e o medo lhe fizeram esquecer a honra, a justiça e a lealdade, e contou-lhe tudo que sabia.

Então a rainha ordenou que o secretário fosse até Talia, e lhe dissesse que o rei queria as crianças no palácio. Talia, com grande contentamento, obedeceu e enviou Sol e Lua pelo secretário, que os entregou nas mãos da rainha. Esta, que era mais venenosa que uma víbora, pediu ao cozinheiro que os matasse e cozinhasse em vários e apetitosos molhos, e os servisse para o rei comer. Mas o cozinheiro, tendo um coração terno, ao ver aquelas duas jóias formosas, sentiu compaixão e os entregou à sua esposa para que cuidasse deles. No palácio, ele preparou dois cordeiros de acordo com cem receitas diferentes.

Quando o rei chegou, a rainha, toda satisfeita, mandou servir a comida. O rei comeu com gosto, exclamando:

– Oh, como isto é bom! Que requinte! Que primor!

E ela, de quando em quando, lhe dizia:

– Come! Pois a carne que comes é tua!

Depois de ouvir isto algumas vezes, o rei se entristeceu e disse-lhe:

– Sei muito bem que eu como a carne que é minha, porque sou rei e tudo é meu, enquanto tu nada trouxeste a esta casa.

E se levantou, e foi dar uma volta pelo seu país para fazer a raiva passar.

Mas à rainha ainda não bastava o que tinha feito, e então ordenou ao secretário que trouxesse Talia ao palácio, com a desculpa de que o rei a esperava. Talia se arrumou, toda contente, e partiu o mais rápido que pôde, pois desejava com todas as forças ver o rei, sem desconfiar do que sua inimiga lhe estava preparando.

Encontrou-se diante da rainha, e esta, com o rosto deformado pela crueldade, disse-lhe com voz perversa e zombeteira:

– Ah! Ah! Bem-vinda, senhora vagabunda! Então tu és a cachorra que enganou o rei! Tu, com esse sorriso insinuante, querias tê-lo todo para ti! Já chega, madame porcina! Chegaste ao teu tribunal, pois agora vou te dar o castigo que mereces!

Talia começou a desculpar-se, dizendo que não era culpa dela, que o rei havia tomado posse das suas coisas enquanto ela estava enfeitiçada, mas a rainha não quis saber das desculpas. Acendeu uma grande fogueira no pátio do palácio, e deu ordens de botar a moça para arder. Ao ver que as coisas iam mal, Talia se ajoelhou diante da rainha e lhe disse:

– Por favor, dá-me tempo ao menos para eu tirar estas belas roupas que uso!

Não por piedade, mas porque queria ficar com aqueles vestidos bordados de ouro e pérolas, a rainha respondeu:

– Está bem, vai te despir!

Talia, então, foi se despir lentamente, e soltava um grito para cada parte da vestimenta que tirava. Tirou o manto, o casaco e a saia. No momento de remover a anágua, lançou um último grito. Depois disto, tomaram-na novamente e prepararam-se para prendê-la na estaca onde a rainha pretendia transformá-la em um montículo de cinzas. De repente, o rei apareceu e, diante daquela cena, mandou que ninguém se movesse. Queria saber o que se passava. Ao perguntar por seus filhos, a cruel rainha lhe disse:

– A isto tu não darás remédio, porque eu te fiz comê-los, e tu adoraste!

Quando o rei ouviu isto, caiu em desespero, chorando e gritando:

– Ai! Meus pobres cordeiros, então eu mesmo fui vosso lobo! Ai! Como é possível que eu não tenha reconhecido vossas carnes que tanto cheguei a acariciar? E tu, bruxa pérfida e renegada, como é que pudeste ser mais feroz do que bestas selvagens? Mas eu não te darei tempo nem para que peças perdão pelos teus pecados!

E ordenou que a rainha fosse queimada na fogueira que havia preparado para Talia, fazendo queimar também o secretário, seu cúmplice. Mandou queimar até o cozinheiro, por haver picado e cozinhado os seus filhos. Mas o cozinheiro se atirou aos seus pés e disse:

– Senhor, seria uma fogueira a recompensa pelo serviço que prestei a ti? Farás festa de mim, enquanto sou assado preso a uma estaca? É este o bom lugar que me darás, em uma grelha com a rainha? Eu esperava algo melhor por ter salvado as tuas crianças, desobedecendo àquele coração de pedra que queria te fazer comê-las!

Ao ouvir estas palavras, o rei ficou atônito. Pensou estar sonhando, porque não podia crer no que seus próprios ouvidos lhe diziam. Voltou-se então para o cozinheiro e lhe disse:

– Se é verdade que salvaste os meus filhos, então estejas seguro de que te impedirei de girar no espeto, e te darei o poder de fazer girar o meu coração, porque quero contentar-te em todos os teus desejos, e te darei uma recompensa tão grande que serás o homem mais feliz do mundo!

Enquanto o rei pronunciava estas palavras, a esposa do cozinheiro, que tinha visto seu marido em perigo, trouxe Sol e Lua. O rei abraçou-os juntamente com Talia e, chorando de alegria, não se fartava nunca de beijá-los e acariciá-los.

Depois de haver destinado uma grande renda ao cozinheiro, e de havê-lo nomeado camareiro-mor do palácio, o rei se casou com Talia, que viveu feliz e contente para sempre com seu marido e filhos, depois de ter experimentado que até mesmo dormindo é possível ser favorecida com a sorte.


Traduzido das versões italiana e espanhola:
http://www.alaaddin.it/_TESORO_FIABE/FA_1996/FA_XVII_Sole_Luna_Talia.html
https://bibliotecadeloscuentos.wordpress.com/2016/02/20/sol-luna-y-talia/

A Catástrofe do Suicídio

Autora: Emily Esfahani Smith
Tradução: André Carezia
Versão em PDF.

Nos últimos meses, houve vários acontecimentos desoladores a nos lembrar o aumento, por todo o país, dos suicídios, um tema sobre o qual escrevi em minha primeira coluna “Modos & Moral” em outubro (“Life on the island”, A Vida na Ilha). Destes, o mais falado de todos foi o de LWren Scott. A designer de moda de 49 anos foi achada morta em seu apartamento na cidade de Nova Iorque, apartamento este que foi aparentemente comprado para ela por Mick Jagger, seu namorado da época.

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Uma semana depois, a secretária de educação da cidade de Nova Iorque, Carmen Fariña, convocou uma reunião fechada com os diretores para discutir a epidemia de suicídios entre os alunos da cidade. Graças ao fato do New York Post ter publicado a estória, sabemos agora que os suicídios estão em alta no meio juvenil da cidade: há dois anos atrás, nove alunos cometeram suicídio; no último ano, quatorze; e, nestes primeiros meses de 2014, doze já cometeram suicídio em Nova Iorque.

Em março, alguns voluntários se reuniram em Washington para instalar 1892 bandeiras americanas no [parque] National Mall, lembrando cada veterano que cometeu suicídio desde o início de 2014. Faça a conta: são vinte e dois veteranos se suicidando por dia. Outro número trágico: desde 2001, o ano que marca o início das guerras no Iraque e Afeganistão, mais soldados da ativa se mataram do que morreram em combate.

O aumento no número de suicídios veio acompanhado pelo sumiço das questões morais que antigamente cercavam aqueles. G. K. Chesterton foi um dos nossos últimos críticos vigorosos do suicídio. Sua insistência em dizer que o suicídio é imoral soa estranha aos nossos ouvidos individualistas: “O suicídio não é apenas um pecado; é o pecado”, escreveu Chesterton. “É o mal final e absoluto, a recusa em se interessar pela existência; a recusa em fazer o juramento de lealdade à vida. O homem que mata um homem, mata um homem. O homem que mata a si mesmo, mata todos os homens; do seu ponto de vista, ele aniquila o mundo”. Chesterton prossegue dizendo que o ato suicida é egoísta: “Um suicida é um homem que dá tão pouca importância a qualquer coisa além dele, que ele quer ver o fim de tudo”. Seria difícil imaginar alguém escrevendo coisas assim polêmicas hoje. Não consideramos que o suicídio é a catástrofe moral que pessoas como Chesterton antigamente pensavam.

Nossa cultura contemporânea, ao contrário, trata o suicídio como um problema médico – uma “questão de saúde pública”, como o psicólogo e pesquisador Joshua Rottman afirmou recentemente ao The Atlantic. De acordo com seu novo estudo, tanto as pessoas religiosas quanto as não-religiosas possuem uma inclinação moral contrária ao suicídio, e a inclinação nasce das “reações de repugnância” que elas têm quando confrontadas com estórias de suicídios. Cometer suicídio, elas pensam, contamina a alma. Para Rottman, isto é um problema. Estas reações são irracionais e portanto nocivas: “A questão valendo 1 milhão de dólares”, diz Rottman, é “como tirar do suicídio o estigma de coisa impura”. E continua: “Isto não quer dizer que devemos começar a achar que suicídios são uma coisa completamente boa, mas não acho que devemos tratá-los como tabu (sendo assim assunto proibido em conversas educadas). Ao invés disso, devemos lidar como eles como se fossem uma questão de saúde pública, e buscar maneiras de efetivamente aumentar a prevenção.” Mas Rottman está errado ao desmoralizar a noção de suicídio. Se queremos seriamente ajudar as pessoas a superar suas noites escuras da alma, devemos insistir – com Chesterton – que o suicídio é um problema moral, e não apenas clínico.

É exatamente isso que faz um novo e importante livro. Stay: A History of Suicide and the Philosophies Against It [“Fique: Uma História do Suicídio e as Filosofias Contrárias a Ele”], da poeta e filósofa Jennifer Michael Hecht, desafia a nossa cultura de aceitação do suicídio, e revigora os argumentos morais contrários a ele. Em uma época em que poucos filósofos e intelectuais oferecem argumentos não religiosos fortes e convincentes contra o suicídio, o livro de Hecht surge como uma advertência de que nossa abordagem liberal em relação ao suicídio é relativamente nova, e na verdade bastante radical, e deve ser claramente contestada. Em parte uma história intelectual, em parte uma polêmica – e branda – contra o suicídio, o livro preenche um vazio no diálogo cultural a respeito da escolha de terminar a vida de alguém. Hecht escreve: “Os argumentos contra o suicídio, os quais pretendo reviver na consciência pública, afirmam que o suicídio é errado, que ele prejudica a comunidade, que ele estraga a humanidade, que ele antecipa injustamente seu próprio eu.”

Hecht staynos recorda que através da história – no ocidente ao menos – sempre houve forte pressão social e argumentos filosóficos contra o suicídio. Embora os antigos em geral já escrevessem contra o suicídio, suas posições foram defendidas com máximo vigor por pensadores cristãos, que encaravam o suicídio como um pecado – uma violação da lei moral de Deus. A crença cristã sobre o suicídio foi articulada de modo mais claro por Santo Tomás de Aquino, que achava, como escreve Hecht, que “o suicídio é cruel para com a comunidade, é cruel para consigo mesmo, e Deus mandou não fazer.” Aqueles que violavam a lei moral, tirando as próprias vidas, enfrentavam um destino póstumo pavoroso. Seus corpos eram torturados e arrastados pelas ruas. Suas propriedades eram confiscadas pela Igreja, e suas famílias eram deixadas sem nada.

Esta visão começou a mudar durante o Iluminismo. Os filósofos seculares daquela época, como David Hume e o Barão d’Holbach, fizeram tudo que puderam para empurrar o cristianismo para a irrelevância filosófica. Uma nas baixas na guerra contra a religião foi a proibição moral contra o suicídio, que Hume associava, como aponta Hecht, com a “superstição da Europa moderna.” Foi um caso clássico de jogar o bebê junto com a água do banho. Para Hume e d’Holbach, o suicídio era um caminho permitido para escapar ao sofrimento, e a justificativa deles era quase sempre assustadoramente desumana. Pergunta d’Holbach: “Além do mais, que auxílio ou que vantagem uma sociedade pode obter de um miserável desgraçado reduzido ao desespero, de um misantropo sufocado de dor, de um miserável atormentado pelo remorso, que não tem mais nenhum motivo para se considerar útil aos outros, que abandonou-se, e que não se interessa mais em preservar sua vida?”

A visão pró-suicida, que “agora é uma atitude que define a cultura secular, é um erro e precisa ser repensada”, escreve Hecht. Produziu uma confusão moral. Os seculares que estão entre nós rejeitam o cristianismo e as idéias cristãs sobre o suicídio – e certamente a resposta medieval a ele – mas isto não quer dizer que devemos concluir que o suicídio é permitido. O argumento não-religioso contra o suicídio, afinal, já foi encampado por um grupo admirável de pensadores, desde Kant até Durkheim até (o suicida) Wittgenstein. Como cultura, esquecemos seus argumentos, mas precisamos revivê-los e encampá-los de modo a salvar as pessoas suicidas da tirania de suas emoções. O suicida precisa perceber que o sofrimento é parte natural e passageira da vida, que ele precisa persistir, e que ele vive não apenas para si mesmo mas para os outros.

O peso moral do argumento de Hecht fica claro quando consideramos os efeitos de longo alcance do suicídio. Eles se estendem além da morte do suicida, e da dor de seus amados. O suicídio é contagioso como uma doença infecciosa. Quando uma pessoa em uma comunidade tira sua vida, não é incomum que outras pessoas sigam seu exemplo, criando o que os cientistas chamam de “suicídio em série”. Por isso é que, usando um potente floreio retórico, Hecht chama o suicídio de assassinato “retardado”. Quando você decide tirar a sua vida, ela alega, você não mata apenas você mesmo, mas também seu vizinho, seu colega de escola, seu irmão de luta.

A própria idéia de suicídio pode levar ao auto-assassinato. O romance de Goethe, Os Sofrimentos do Jovem Werther (1774) – sobre um jovem que se mata quando a mulher que ele ama o rejeita – iniciou após sua publicação uma onda de suicídios em série na Europa. O chamado “efeito Werther” deve fazer-nos parar e refletir sobre o modo como a mídia faz a cobertura dos suicídios reais, e sobre a maneira dos artistas e criadores abordarem o suicídio em suas obras. Neste sentido, Hecht cita um estudo do New England Journal of Medicine a respeito de três filmes cujos aspectos centrais do enredo são suicídios. O estudo “descobriu que os suicídios aumentaram depois de dois deles, ambos com foco na vítima de suicídio. O outro filme, não associado ao crescimento na taxa de suicídio, se concentrou nos pais e em sua angústia.” Idéias têm conseqüências: “Elas podem influenciar as pessoas tanto em direção à morte quanto para longe dela.” Hecht cita uma pesquisa que mostra que, das pessoas que tentaram cometer suicídio e falharam, a maior parte é grata pela falha. Elas não tentam mais tirar suas vidas, e admitem que “a tentativa inicial foi um ato impulsivo.”

Em minha coluna de outubro passado, indiquei uma pesquisa – de Durkheim e da ciência social moderna – que mostra que o crescimento do suicídio veio acompanhado pelo crescimento do individualismo. O papel do indivíduo na sociedade mudou dramaticamente desde o Iluminismo. Antes, a influência da tradição judaico-cristã no ocidente colocava restrições na vontade do indivíduo. A moralidade estava organizada em torno da vontade de Deus e de nossos deveres comunitários – e o suicídio era considerado uma afronta a ambos. Hoje, porém, nosso sentido de certo e errado está organizado mais em torno da experiência individual do que no bem da comunidade.

O famoso filme A Sociedade dos Poetas Mortos (1989) é um bom exemplo da resposta moderna e individualista ao suicídio. O filme gira em torno de um grupo de colegiais veteranos em uma escola de elite, um internato apenas para meninos, em New England. O líder do problemático grupo, Neil, enfrenta um dilema comum de adolescente. Seus pais querem que ele faça medicina, mas ele quer ser ator. Contrariando o desejo de seu pai, Neil faz o papel de Puck na montagem de Sonho de Uma Noite de Verão que a escola realiza. Seu pai decide removê-lo do idílico internato e mandá-lo para a academia militar, a fim de prepará-lo melhor para Harvard e uma carreira de médico. Quando Neil volta para sua casa, ele está em um turbilhão emocional. Acha que sua vida acabou. Acha que não será capaz de concretizar seu sonho de ser um ator. Ele se convence de que a solução para o problema é se matar na casa de seus pais, os quais encontram seu corpo mais tarde naquela noite.

Lamentavelmente, a estória romantiza o suicídio dele. Neil veste uma coroa de espinhos antes de tirar a própria vida, estabelecendo uma ligação espúria entre seu último ato de vontade e a submissão de Cristo à vontade do Pai. Somos levados a concluir que o adolescente é uma vítima – e seu pai é o vilão, responsável por sua morte e merecedor do sofrimento que sente ao ver seu filho morto. O filme convida-nos a simpatizar com a situação infeliz de Neil. A morte de Neil é apresentada como se fosse uma expressão da liberdade, uma fuga da infelicidade extrema, do sofrimento, e de outras barreiras que o impediriam de viver a vida do jeito que ele gostaria. Mas o fato é que a decisão de Neil é impetuosa e acima de tudo egoísta. Ao contrário de Cristo, ele não entrega sua vida por amor aos outros; seu suicídio, ao invés disso, é um ato de vingança. Mesmo assim, somos levados a concluir que ele é uma espécie de herói que morre porque o mundo é imperfeito e ele não consegue atingir a plenitude de seu ideal artístico.

Hecht impele-nos a “aposentar a idéia de que cada um é livre para tirar sua própria vida.” Hecht aqui realmente insiste em que repensemos o relacionamento do indivíduo com sua comunidade. O suicídio, que pode acabar com a infelicidade do indivíduo, é causa de incontáveis infelicidades na comunidade. Tirar a própria vida não é, portanto, uma escolha puramente pessoal, cujos efeitos são sentidos apenas pelo morto. Impõe um julgamento profundo contra o mundo partilhado por todos.

Nossa atitude perante o suicídio diz muito sobre o quanto valorizamos a vida e as comunidades que nos sustentam. Para nós não deveria ser surpresa que o suicídio tenha ganhado aceitação em nossa cultura; nossas comunidades estão se dissolvendo; o indivíduo, livre das muitas amarras tradicionais, se considera o senhor de seu próprio destino. Embora haja certamente casos em que a morte é com justiça considerada uma libertação do sofrimento, já é tempo de reconsiderar nossa crença de que, como indivíduos, somos livres para escolher a hora e o lugar desta libertação. Como assinala Hecht: “O sentido da vida é maior do que o indivíduo.”


(Traduzido do original em inglês, publicado em maio de 2014 na revista americana de cultura The New Criterion. O artigo original está disponível para assinantes no seguinte link: http://www.newcriterion.com/articles.cfm/The-catastrophe-of-suicide-7902)

Homens que Vêem Mulheres como Objetos Sexuais

(Traduzido do artigo original do jornalista conservador americano Dennis Prager, publicado em 13/dezembro/2016: http://www.dennisprager.com/on-men-viewing-women-as-sex-objects/)

Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

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Minha última coluna levou o título de “Donald Trump é Misógino?” Depois que li as reações por toda a Internet, percebi a importância de elaborar melhor o assunto de como os homens vêem as mulheres.

A educação superior torna aqueles que freqüentam a universidade mais estúpidos, mais ingênuos, e muitas vezes até mais ignorantes a respeito da vida do que aqueles que nunca estiveram na faculdade. Uma das provas disso é a crença amplamente presente entre os mais educados de que quando os homens consideram as mulheres como objetos sexuais, isso significa que eles são misóginos, que odeiam as mulheres.

Eis então, para aqueles que têm um diploma em qualquer uma das “ciências sociais”, uma lista de oito verdades sobre os machos e a “objetificação” sexual:

  1. Para homens heterossexuais, é completamente normal ver como objetos sexuais as mulheres pelas quais se sentem sexualmente atraídos.

  2. Uma das provas de que tal “objetificação” sexual é normal, e nada tem a ver com a misoginia, é o fato de que os homens homossexuais vêem como objetos sexuais os homens pelos quais estão sexualmente atraídos. Se os homens heterossexuais são misóginos, então os homens homossexuais odeiam os homens.

  3. Uma razão para isso é o poder quase ímpar que o visual tem de excitar sexualmente os homens. Os homens se excitam com o mero vislumbre do braço de uma mulher, do tornozelo dela, da panturrilha dela, da coxa e da barriga dela, mesmo sem olhar para o rosto dela. Essas pernas, panturrilhas, braços, etc, são objetos sexuais. É por isso que aparecem em inúmeros sites na Internet.

  4. Todo homem heterossexual normal, mesmo enxergando uma mulher como um objeto sexual, pode também respeitar completamente a mente dela, o caráter dela, e todo o resto que não é sexual nela. Os homens fazem isso o tempo todo.

  5. A maior parte das mulheres heterossexuais também vêem as mulheres sensuais como objetos sexuais, e elas dificilmente são misóginas. Pergunte à sua esposa ou namorada o que a excita mais: observar um homem se despir diante de uma platéia feminina, ou uma mulher se despir diante de uma platéia masculina.

  6. Um casal sortudo é aquele em que o homem consegue considerar sua parceira como objeto sexual. Quanto mais tempo um marido consegue tratar sua esposa, ao menos de vez em quando, como um objeto sexual, melhor é o casamento deles. Nem sempre é fácil ver como objeto sexual a mulher que você vê todo dia, a mãe de seus filhos.

  7. Todo o propósito da lingerie e de outros trajes sexuais é tornar a mulher um objeto sexual aos olhos de seu parceiro. Será que todas as mulheres que vestem lingerie, biquínis, uniformes de torcida, ou o que quer que seja que excita seus parceiros — e elas também, de preferência — odeiam as mulheres?

  8. Se o seu marido nega as afirmações acima, ele está mentindo. Ele tem medo de que você reaja irritada, ou que isso magoe seus sentimentos. Pode ser também que ele minta para si mesmo — afinal, ele também freqüentou a universidade e lê opiniões esquerdistas sobre a misoginia; e quer se um macho “iluminado”.

Que estes oito pontos tenham que ser escritos é um sinal dos tempos. A pergunta é: por que qualquer um desses pontos — conhecidos por quase todos os homens e mulheres que viveram antes dos anos 1960 — é controverso para tantas pessoas bem-educadas hoje em dia?

Resposta: o esquerdismo e sua ramificação, o feminismo.

O esquerdismo é em primeiro lugar uma negação da realidade.

Os esquerdistas negam a realidade por dois motivos.

Um é que o esquerdismo é uma religião (secular), e por isso tem dogmas que se sobrepõem à verdade.

O outro motivo é que a realidade é repleta de decepção e dor, e evitar a dor é o ímpeto psicológico central do esquerdismo. Isso explica os “quartos do pânico” infantilizantes que ficam nas instituições que a esquerda mais controla: as universidades. Esses quartos existem para proteger os ouvidos dos alunos contra idéias das quais discordam (lembre-se do primeiro motivo) e contra idéias que lhes causam dor.

Cite uma posição da esquerda, e em quase todos os casos você verá como exemplifica um desses motivos, ou ambos.

A realidade é que a natureza humana não é basicamente boa. Mas desde o iluminismo francês a esquerda vem afirmando que as pessoas são basicamente boas. Por isso os esquerdistas culpam a “pobreza” e o “racismo” pelos crimes violentos, mas não culpam o criminoso violento.

A realidade é que quanto mais elevado o salário mínimo, menos funcionários serão contratados. Mas devido ao dogma, a esquerda nega isso. (Em 1987, quando a seção de editorial do New York Times não era esquerda pura como é hoje, houve um editorial intitulado “O Salário Mínimo Correto: $0.00”.)

A realidade é que a palavra Islã significa “submissão”, mas esse significado conflita com a fantasia esquerdista de que todas as culturas são moralmente iguais. Assim, quase todos os professores e publicações esquerdistas afirmam que Islã significa “paz”. (Na medida em que se conecta com a palavra árabe para “paz” — “salaam” — é a paz que sobrevém depois de toda a humanidade se submeter ao Islã). A magnitude da negação da realidade esquerdista em relação ao mundo islâmico é aproximadamente igual ao volume de afirmativas que os esquerdistas fazem a respeito dele. (Assim foi que o governo Obama chamou de “violência no local de trabalho” o massacre de 13 pessoas em Fort Hood por um radical islâmico.)

Também é realidade, e não uma expressão de misoginia, que os homens vejam como objetos sexuais os objetos de seu desejo sexual. Mas isso é muito doloroso para as feministas e para outros esquerdistas. E viola a teoria feminista, que diz que os homens e as mulheres são essencialmente iguais, e que enxergar como objeto sexual uma mulher é misoginia.

Como conseqüência, a realidade é rejeitada.

Cuidado com dois perversos roteiros para os deprimidos

Artigo publicado originalmente em inglês, em fevereiro de 2016, no jornal conservador americano Conservative Chronicle (www.conservativechronicle.com)

Autor: Marvin Olasky

Tradução: André Carezia

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“A terra em que vivemos é um globo girante. Embora pareça gigante para nós, é meramente uma partícula de matéria em uma enorme vastidão de espaço.” Esse é o início de The Outline of History, de H. G. Wells, publicado em 1920; é uma história do mundo que ajudou a me inclinar na direção do ateísmo e do socialismo quando eu era adolescente.

Marvin Olasky Event

“Um Animal sem Significado”. Noventa e cinco anos mais tarde, esse é o título do capítulo 1 de Sapiens: A Brief History of Humankind, de Yuval Noah Harari, que muitos críticos aplaudiram em 2015. O ano passado foi bem-sucedido para o professor israelense, um ateu que aderiu ao que o Guardian chamou de “TED-cracia global: astros acadêmicos que viajam o mundo dando palestras sobre tópicos da moda.”

EM CERTO SENTIDO, é estranho que Harari seja popular. Afinal, ele insiste que “a vida humana não tem absolutamente nenhum significado. Seres humanos são produtos de processos evolucionários cegos que operam sem objetivo ou propósito. Nossas ações não são parte de algum plano cósmico divino… Qualquer significado que as pessoas atribuam às suas vidas é apenas ilusão.”

Essas cutucadas de Harari soam como sadismo intelectual, e quem além de um masoquista iria querer comprar um livro que berra “você é um idiota”? Ah, mas Harari abre uma pequena e crucial exceção à sua alegação de que o homo sapiens é na verdade Homer Sapiens, mais simplório ainda do que Homer Simpson: Harari diz que “devemos conhecer as pessoas no Google, no Facebook, elas têm visões maravilhosas do futuro, sobre superar a morte, vivendo eternamente, fundindo humanos com computadores.”

O elogio do autor aos potenciais patrocinadores é enorme: Harari interpõe um ataque obrigatório ao movimento do design inteligente, que “alega que a complexidade biológica prova que deve haver um criador que pensou em todos os detalhes biológicos a priori”. Ele diz que são tolos, é claro, “mas os proponentes do design inteligente podem, ironicamente, estar certos sobre o futuro”: googlianos e facebookianos serão os projetistas inteligentes, criando o Homo Google e o Homo Facebook à sua própria imagem.

SURPRESA NENHUMA, então, é que o fundador do Facebook, Mark Zuckerberger, tenha selecionado Sapiens para seu clube online do livro, convidando 38 milhões de seguidores a ler que suas vidas são vazias de significado — a menos que trabalhem para criar o sucessor da humanidade através da engenharia genética, através da engenharia cyborg (combinando partes orgânicas e inorgânicas), ou através da criação de mentes dentro de computadores, mentes que tenham todas as características de vida exceto carne e osso.

O apelo desse mais admirável dos novos mundos é óbvio, numa época em que se pode escrever ISIS num buscador web e instantaneamente ver exemplos da depravação absoluta do homem. Aquilo que Agostinho escreveu em A Cidade de Deus 1600 anos atrás nós vemos em nossas telas de computador e TV: “Os homens pilham seus semelhantes e os levam cativos. Acorrentam e aprisionam, exilam e torturam. Cortam membros, destroem órgãos do sentido, e abusam dos corpos para gratificação da luxúria obscena do opressor.”

A religião de Harari, da salvação pela tecnologia, tem seu apelo, assim como qualquer religião que diz que alguns sapiens podem ascender às alturas dos céus se eles forem espertos e trabalharem bastante. Só que o cristianismo ensina que nossa esperança não está em ascender ao status divino, mas em Deus descer para se tornar homem. Como Gerald Bray escreve na excelente biografia publicada pela Crossway, Augustine on the Christian Life, “quanto mais ele foi conhecendo Deus, menos ele confiou nele mesmo e em seus próprios meios.”

atoba

Sapiens provavelmente se tornará leitura obrigatória em muitos cursos para primeiro-anistas de universidades. Alguns leitores tentarão evitar a perda de sentido aderindo à tecnocracia, assim como eu aderi ao comunismo. “Sereis como deuses”, satanás sussurrou no jardim do Éden. O antídoto contra H. G. Wells ou Harari é o ensinamento bíblico de que todos, incluindo Lenin e Zuckerberg, pecam e se revoltam contra Deus — e que nossa esperança está em Cristo. Qualquer um que oferece uma falsa esperança está vendendo algo: um livro, um programa, talvez uma ideologia, mas sempre um ídolo.

SE CRIARMOS sociedades supostamente igualitárias, ou maravilhas da engenharia genética ou da engenharia de computação, iremos inevitavelmente infectá-los com nosso pecado. Se continuarmos construindo torres de babel, o futuro será mais na linha dos filmes Exterminador do Futuro do que na linha romântica de Harari.

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