A Consagração: Última Ceia e Calvário

(Artigo original em inglês, de autoria do Padre Ladis J. Cizik, publicado no jornal americano The Remnant em 23 de março de 2016.)

Tradução: André Carezia

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In Nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti. Amen.

“Ceia do Senhor” é uma expressão bíblica que foi adotada durante a ‘de’-formação protestante da Igreja, com o objetivo de negar a natureza de sacrifício da Missa, e trocá-la por um simples “memorial”. Protestantes e modernistas[1] se esforçam por separar o sacrifício no Calvário, centrado em Cristo, do santo sacrifício da Missa, transformando um evento solene em um “lanche feliz” centrado na comunidade. Entretanto, tanto as sagradas Escrituras quanto a sagrada Tradição afirmam que o Calvário estava onipresente já na primeira Missa oferecida na história. Aquela primeira Missa no Cenáculo foi a última ceia na qual Nosso Senhor e Deus, Jesus Cristo, antecipou Sua morte salvadora no Calvário.

santa ceia

A última ceia, a primeira Missa, não foi uma “refeição memorial” em consideração ao fato de que Cristo ainda não havia morrido na cruz. A última ceia apresenta uma espécie de catequese sobre a presença real de Cristo no Santíssimo Sacramento, a instituição da ordenação sacerdotal e a natureza de sacrifício da Missa. As orações da Consagração no Missal Romano tradicional (Missale Romanum) evocam a morte-sacrifício de Nosso Senhor no Calvário dentro do contexto das palavras e ações de Jesus na última ceia. Na pessoa de Cristo (in persona Christi), o sacerdote católico segue as palavras e gestos de Jesus na última ceia, consagrando e transformando pão e vinho no corpo, sangue, alma e divindade da segunda pessoa da Santíssima Trindade.

Pelo uso de “matéria e forma” apropriadas, as mesmas matéria e forma que Jesus usou na última ceia, e com a “intenção” adequada do sacerdote, o milagre da transubstanciação acontece. Assim, o Rito Romano da Igreja Católica prescreve que a “matéria” adequada à Eucaristia precisa ser o pão ázimo[2] e o vinho de uva natural. Pão ázimo é aquele que Jesus teria usado em Sua última ceia de Páscoa. O Antigo Testamento nos conta que o povo judeu só deveria comer pão ázimo todos os anos durante a Páscoa, como forma de comemorar seu êxodo do cativeiro egípcio[3]. De modo similar, o pão sem fermento que Jesus teria usado na última ceia pascal representaria o êxodo do pecado e da morte, que ocorreu para Seus seguidores após Sua morte salvífica e gloriosa ressurreição. Note que o fermento na bíblia é quase sempre símbolo do pecado[4]. Um pecado grave é o que ocorre quando o pão fermentado é introduzido na Missa católica de rito romano – embora o Concílio de Florença (século 15) confirme o entendimento corrente de que tal Missa ilícita continua sendo válida.

A “forma” apropriada para transformar pão e vinho em corpo e sangue de Cristo são as “palavras da consagração” (também chamadas palavras da instituição). Estas palavras sagradas são o centro espiritual e pináculo da Missa. O coração da Missa é a consagração. O Dr. Nicholas Gihr declara em sua obra clássica, O Santo Sacrifício da Missa: “O momento da consagração é o momento mais importante e solene, o fruto mais sublime e santo de toda a celebração do Sacrifício; pois neste momento é completada aquela obra gloriosa e inapreensivelmente profunda, o Sacrifício Eucarístico, no qual todas as maravilhas do amor de Deus estão concentradas como em um foco de calor e luz. A mudança de pão e vinho no corpo e sangue de Cristo só pode provir dEle, pois ‘só Ele operou maravilhosos prodígios’: é um ato de onipotência criativa. Mas este ato de supremo poder requer um ato humano, um cooperação humana da parte do sacerdote ordenado.”[5] Para uma Missa ser válida, o sacerdote ordenado validamente deve ter a “intenção” de transformar pão e vinho no corpo e sangue de Cristo. São Tomás de Aquino afirma: “a intenção [do sacerdote] é exigida; por meio dela ele se sujeita ao agente principal; ou seja, é necessário que ele tenha a intenção de fazer o que Cristo e a Igreja fazem.”[6]

Imediatamente antes das palavras da consagração vem a oração Qui pridie. O sacerdote nos leva misticamente à “véspera de sua paixão”, quando Jesus tomou o pão em Suas santas e veneráveis mãos (sanctas, ac venerabiles manus suas). Neste instante, o sacerdote já passou seus “dedos canônicos” (polegares e indicadores) no corporal para melhor purificá-los antes de segurar a hóstia com estes quatro dedos apenas. Ao pronunciar elevatis oculis in caelum, o sacerdote, in persona Christi, eleva os olhos para o céu em direção a Deus, o Pai todo-poderoso, dá-Lhe graças (com uma inclinação da cabeça) e abençoa (benedixit) a hóstia. O sacerdote relembra então Jesus partindo o pão e dando-o aos discípulos, enquanto dá voz às palavras de Nosso Senhor: tomai e comei dele, todos (Accipite, et manducate ex hoc omnes).

Observe que o sacerdote não está apenas lendo uma narrativa de um evento do passado; ele está ‘re’-presentando, in persona Christi, o evento por meio das palavras e ações simultâneas do próprio Jesus Cristo. Cristo não está lendo uma “narrativa da instituição” no pretérito. O Cristo-sacerdote não está meramente repetindo as palavras de uma antiga história de uma refeição que está “feita e encerrada”. Cristo está agindo no presente através do sacerdote. É por isso que dizemos que o santo sacrifício da Missa é a ‘re’-presentação incruenta do sacrifício de Cristo no calvário.

Profundamente reclinado sobre o corporal, com os antebraços apoiados na borda do altar (significando sua união com Cristo representado pelo altar), segurando a hóstia com os dedos canônicos de ambas as mãos, o sacerdote pronuncia as palavras da consagração sobre o pão. No missal da Missa Tridentina, as palavras da consagração são impressas com uma letra de tamanho duplo em relação ao resto do texto, e em negrito, para que se destaquem. O sacerdote, com os olhos postos na hóstia, deve dar voz às palavras de Cristo de maneira clara e atenta, sem pausas e num sussurro:

HOC EST ENIM CORPUS MEUM.

Tradução: “Pois isto é o meu corpo.” A hóstia agora É a presença real de Cristo na Eucaristia: Seu corpo, sangue, alma e divindade. Note que, assim como a carne humana contém sangue, também a Igreja ensina que o corpo e o sangue de Jesus Cristo estão presentes em cada espécie eucarística. Ninguém precisa “beber do cálice”, como dizem na Missa Novus Ordo, para receber o precioso sangue de Cristo. Jesus está completo e inteiro na hóstia consagrada. Isto corrobora a prática da Missa Tridentina, na qual a Santa Comunhão é distribuída apenas sob a aparência do pão. As palavras “isto é o meu corpo” aparecem nos quatro relatos bíblicos da Última Ceia[7]. A palavra “pois” não aparece nos relatos bíblicos, mas é considerada como sendo parte da Sagrada Tradição, como uma palavra que o Senhor teria dito.

Note que, depois de consagrar a Sagrada Hóstia, o sacerdote não separará mais seus polegares e indicadores, exceto para segurar o Santíssimo Sacramento, até que eles estejam “purificados” após a santa comunhão. Isto para assegurar que toda partícula da hóstia restante nos dedos seja consumida de maneira reverente durante as abluções. Além do mais, deste momento em diante, o sacerdote fará uma genuflexão honrosa antes e depois de cada toque que fizer na Sagrada Hóstia.

Depois da consagração da hóstia sagrada, o sacerdote segue para a oração simili modo, não sem antes retirar a pala do cálice. A oração inicia seguindo as ações e palavras de Jesus na Última Ceia: do mesmo modo (simili modo), depois da ceia, Ele tomou também o precioso cálice em Suas santas e veneráveis mãos (aqui o sacerdote eleva o cálice ligeiramente acima do corporal com ambas as mãos), deu graças ao Pai (inclinando a cabeça), abençoou-o (o sacerdote faz o sinal da cruz sobre o cálice) e deu-o a Seus discípulos dizendo: tomai e bebei dele todos vós (Accipite, et bibite ex eo omnes). Segurando o cálice nas mãos, um pouco acima do corporal, profundamente inclinado sobre o altar com os antebraços na borda (significando sua união com Cristo, representado pelo altar), o sacerdote dá voz às palavras de Cristo sobre o vinho, de maneira clara e atenta, e num sussurro:

HIC EST ENIM CALIX SANGUINIS MEI, NOVI ET AETERNI TESTAMENTI: MYSTERIUM FIDEI: QUI PRO VOBIS ET PRO MULTIS EFFUNDETUR IN REMISSIONEM PECCATORUM.

Tradução: “Pois este é o cálice do meu sangue, sangue do novo e eterno testamento (mistério da fé), o qual será derramado por vós e por muitos para remissão dos pecados.” Com relação às palavras “pois este é o cálice do meu sangue”, Gihr opina: “De acordo com a opinião geral, estas palavras e somente elas constituem a fórmula essencial da consagração do cálice; pois elas significam e tornam realidade a presença do sangue de Cristo sob a aparência do vinho.”[8] E continua dizendo: “As palavras seguintes… são acrescentadas por serem apropriadas. É aceitação comum que elas foram ditas alguma vez pelo próprio Senhor; além do mais, elas explicam a dignidade e os efeitos deste Sacrifício.”

Todas as outras palavras da consagração do vinho podem ser encontradas em um ou mais relatos da Última Ceia, exceto por “eterno” e “mistério da fé”. Estas palavras que não estão na Bíblia, incluindo “pois” (já mencionada acima na consagração do pão), têm origem na outra fonte da verdade católica: a Tradição Sagrada, tão válida quanto a Sagrada Escritura. Lembre que o santo sacrifício da Missa era celebrado pelos apóstolos antes mesmo da Igreja Católica elaborar a seção do Novo Testamento da Bíblia. Em especial, o papa Leão IX declarou que as palavras mysterium fidei (mistério da fé) são uma “tradição transmitida por São Pedro, o autor da liturgia romana.” De fato, São Pedro, o primeiro papa, escutou Nosso Senhor falar na Última Ceia e presidiu em Roma, onde morreu e está sepultado. As palavras “novo e eterno testamento” (ou seja: nova e eterna aliança) são essenciais ao entendimento católico de que a Nova Aliança, selada pelo sangue de Cristo, aboliu completamente e para sempre a Antiga Aliança, a qual existia para durar apenas temporariamente até a vinda do Messias, nosso Senhor e nosso Deus, Jesus Cristo[9].

As palavras da consagração incluem: qui pro vobis et pro multis effundetur in remissionem peccatorum (o qual será derramado por vós e por muitos para remissão dos pecados). Embora estas palavras nunca tenham mudado na Missa Tridentina, é incrível que as palavras pro multis tenham sido traduzidas incorretamente e de propósito quando da introdução da Missa Novus Ordo na língua inglesa[10], passando a ser lidas como “por todos” (pro omnibus). Mudar as palavras de Cristo foi um insulto feito para apoiar o pensamento modernista e herético de que TODOS são salvos; e para reforçar a heresia do indiferentismo religioso, o qual alega que não importa a religião – ou a falta dela – que o sujeito professa, já que todo mundo vai para o céu. Os estudos feitos levaram muitos a crer que a tradução errada e proposital invalidava a Missa Novus Ordo. Após quarenta longos anos de confusão, escândalo e profunda angústia, a tradução inglesa voltou ao correto “por muitos” (pro multis), por ordem do papa Bento XVI[11]. Isto é um exemplo de como a Missa Tridentina serve de guardiã da fé: pelo Cânon estar livre de erros[12], pelo Cânon nunca ter sido alterado, e pelo Missale Romanum tradicional estar somente em latim.

Note que effundetur in remissionem peccatorum é assim compreendido: o sangue de Cristo foi derramado pela remissão dos pecados: todos os pecados desde o pecado original de Adão e Eva; e todos os outros pecados passados, presentes e futuros. Entretanto, “nem todos recebem o benefício de Sua morte, mas apenas aqueles aos quais o mérito de Sua paixão é comunicado.”[13] Sendo assim, nem todo mundo é salvo: “Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado”[14]; “em nenhum outro há salvação, porque debaixo do céu nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual devamos ser salvos”[15]; “trabalhai na vossa salvação com temor e tremor”[16]; além disto, existe aquele pecado mortal do qual a pessoa não se arrepende e não pede perdão, e que pode levá-la à danação eterna[17]. Note ainda que o “mérito de Sua paixão é comunicado” pelo santo sacrifício da Missa: “Em virtude deste sacrifício, os méritos infinitos de Cristo, obtidos por Seu precioso sangue derramado de uma vez [por todas] na cruz pela salvação dos homens, são aplicados às nossas almas.”[18]

calvario

É importante observar que imediatamente após as palavras da consagração, primeiro sobre o pão, e depois sobre o vinho, em ambos os casos o sacerdote faz a genuflexão (e a sineta soa) antes de levantar as sagradas espécies. Isto colabora para assegurar o entendimento católico de que o milagre da transubstanciação, o qual acaba de acontecer, nada tem a ver com o testemunho da assembléia. Portanto, quando da elevação da hóstia ou cálice para adoração dos fiéis, a sineta toca pela segunda vez, e não pela primeira. Depois de voltar as espécies sagradas sobre o altar, o sacerdote faz nova genuflexão e a sineta toca pela terceira vez – simbolizando a Santíssima Trindade. Em relação ao precioso sangue, neste momento o cálice é coberto com a pala, o que o protege da profanação por insetos e outros elementos estranhos.

Uma nota pessoal sobre as palavras da instituição: quando eu fui empossado como capelão de um instituto público para retardados mentais, duas unidades (das muitas que havia) continham residentes com deficiências severas (físicas e mentais) e que não podiam falar. Em geral eles passavam o dia fazendo ruídos vocais, exceto quando as palavras da consagração eram pronunciadas na Missa e as elevações aconteciam – então havia um completo e incomum silêncio na capela. Eles sabiam! Suas mentes inocentes sentiam que a presença real de Cristo havia entrado ali no local. Em outra unidade com deficiências menos graves, onde a idade mental não passava de quatro anos, havia um menino chamado Joey que gritava durante a elevação da Hóstia sagrada: “Meu Senhor e meu Deus!” E Jesus disse: “Da boca dos meninos e das crianças de peito tirastes o vosso louvor.”[19] O papa São Pio X, com efeito, emitiu uma indulgência de sete anos para todos aqueles que, ao fixarem o olhar sobre a hóstia sagrada sendo elevada durante a Missa, exclamarem com fé e devoção: “Meu Senhor e meu Deus!” No instante da elevação do precioso sangue, o melhor amigo de Joey, Butchie, se unia a ele dizendo: “Meu Jesus, misericórdia!”

Imediatamente após a consagração do precioso sangue, o sacerdote reza: Haec quotiescumque feceritis, in mei memoriam facietis (Todas as vezes que isto fizerdes, fazei-o em memória de mim). A Igreja sempre ensinou que este momento foi a instituição do sacramento das Ordens Sagradas. A Última Ceia na quinta-feira santa foi também a instituição do sacramento da Eucaristia; foi a primeira Missa. A Última Ceia foi coisa seria. Foi uma antecipação sombria do Calvário, e não uma “celebração alegre.” Na Última Ceia o milagre da transubstanciação aconteceu pela primeira vez: Nosso Senhor e Deus, Jesus Cristo, como Sumo-Sacerdote eterno, transformou pão e vinho em Seu corpo, sangue, alma e divindade.

Na Última Ceia, Cristo deixava para a Igreja também Sua vontade e Seu testamento: “Fazei-o em memória de mim.” Com esta oração Haec quotiescumque, Jesus ordenou que os apóstolos e seus sucessores no sacerdócio oferecessem a Santa Missa, e continuassem assim a oferecer o sacrifício a Deus Todo-poderoso, trazendo Sua presença real ao mundo, para adoração e para servir como alimento espiritual. Cristo não ordenou aos sacerdotes que presidissem uma “refeição comunitária.” Cristo, na Última Ceia, mandou que os sacerdotes fizesse aquilo que só eles podem fazer: oferecer o sacrifício de Deus-Filho no calvário a Deus-Pai Todo-poderoso. O padre John Hardon, em seu Dicionário Católico, define assim o sacerdote: “Um mediador autorizado, que oferece o verdadeiro sacrifício em reconhecimento do supremo domínio de Deus sobre os seres humanos, e em expiação por seus pecados.” O sacerdote é ordenado para oferecer o sacrifício, e não para preparar refeições. Ao longo de toda a Bíblia e tradição da Igreja, Deus exige sacrifícios, e não refeições. Enquanto que todos os católicos são obrigados a ir à Missa dominical para prestar culto a Deus no sacrifício, nem todos estão em estado de graça para receber a santa Comunhão.

As duas consagrações separadas, primeiro do corpo e depois do sangue de Jesus na Última Ceia e na Missa, significam ‘misticamente’ a morte do Senhor no calvário. Na Última Ceia, Jesus antecipou Seu sacrifício no calvário. Naquela primeira Sexta-Feira Santa, no calvário, a separação violenta entre Seu precioso sangue e Seu corpo causou uma verdadeira separação entre Sua alma humana e Seu corpo, o que provocou Sua morte. No Santo Sacrifício da Missa, a Sua morte histórica na cruz é recordada e expressa pela dupla consagração, que é a separação mística entre o precioso sangue e o corpo sagrado de Cristo. Jesus morre misticamente a cada Missa oferecida. Entretanto, lembre que, após Sua gloriosa ressurreição, o corpo, o sangue, a alma e a divindade de Cristo não podem na realidade ser jamais separados novamente. A separação na Missa é mística, embora o sacrifício seja real. Cristo não pode morrer de novo. Assim sendo, o Senhor eucarístico está verdadeiramente presente no altar em estado vivo e glorioso, do mesmo jeito que está no céu; e Seu corpo vivo, Seu sangue vivo, Sua alma viva e Sua divindade viva estão presentes nas duas espécies, o tempo todo, imediatamente após as consagrações.

Concluindo: a Última Ceia e o calvário estão intimamente ligados. Como última reflexão, considere uma possível conexão entre a Última Ceia e o calvário que se crê ser do tempo de Cristo, e que ainda não tem explicação segundo a ciência moderna: é o sudário que São Pedro e São João contemplaram no túmulo vazio, e o qual é muito provavelmente o Sudário de Turim, atualmente guardado na capela real da catedral de São João Batista em Turim, na Itália. Muitos, incluindo este escriba, acreditam que o Sudário é a longa mortalha de Cristo, que cobriu todo o corpo de Nosso Senhor. Este Sudário contém imagens notáveis e inexplicáveis, bem como manchas de sangue, de um homem crucificado e coroado de espinhos. O curioso é que, além das manchas de sangue, há também manchas de vinho.

Alguns estudos conectando José de Arimatéia ao Cenáculo e ao sepultamento de Cristo, junto com as manchas de vinho que foram encontradas, dão credibilidade a uma possibilidade impressionante: a de que a toalha de mesa usada para a primeira Missa na Última Ceia seja o próprio Sudário de Turim presente no calvário. A teoria é que, na Sexta-Feira Santa, as lojas que vendiam as grosseiras mortalhas, tecidas com ligação simples 1×1, estariam fechadas para a Páscoa, forçando José de Arimatéia a usar a toalha de mesa da Última Ceia, tecida com ligação mais sofisticada 3×1, como mortalha. Além disto, acredita-se que o Cenáculo, parte de uma sinagoga liderada por José de Arimatéia, e local da Última Ceia, foi construída sobre o túmulo do rei Davi. Seria maravilhosamente apropriado que Nosso Senhor Jesus, o Rei dos Reis, o “Filho de Davi”, oferecesse a primeira Missa sobre o celebrado túmulo do rei Davi; além de aparecer ali depois da Ressurreição no domingo de Páscoa. E que coisa interessante: a conexão católica entre a Última Ceia e o Calvário, que protestantes e modernistas negam, parece ser confirmada em nosso tempo pelo Deus Todo-poderoso através do Santo Sudário de Turim. Deus escreve certo por linhas tortas. Ele deixa a nós, pela fé, a tarefa de conectar os pontos.

In Nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti. Amen.

Notas:

[1] Ver a encíclica Pascendi Dominici Gregis (39), na qual o papa São Pio X define o modernismo como “a síntese de todas as heresias.”

[2] Pão de trigo, sem fermento.

[3] Dt 16,3.

[4] Lc 12,1.

[5] The Holy Sacrifice of the Mass, páginas 666-667.

[6] Suma Teológica, parte III, q64, a8.

[7] Mt 26,26-28; Mc 14,22-24; Lc 22,19-20; e 1 Cor 11,24-25.

[8] Página 675.

[9] Denzinger 712; Ex Quo 61; Mystici Corporis 29 e 31.

[10] N.T.: Idem para a língua portuguesa.

[11] N.T.: A tradução portuguesa, na Missa Novus Ordo, continua errada.

[12] Trento: seção XXII, capítulo IV.

[13] Trento: seção VI, primeiro decreto, capítulo III.

[14] Mc 16,16.

[15] Atos 4,12.

[16] Fl 2,12.

[17] Denzinger, 1002; Catecismo da Igreja Católica, 1035.

[18] Papa Leão XIII, Carta Encíclica “Caritatis Studium”, 9.

[19] Mt 21,16.

O Domingo do Surdo-Mudo

Autor: Dom Prósper Gueranger, in “O Ano Litúrgico”
Tradução: André Carezia

Evangelho (Mc 7, 31-37)

Jesus saiu de novo da região de Tiro, passou por Sidônia e continuou até o mar da Galiléia, atravessando a região da Decápole. Levaram então a Jesus um homem surdo e que falava com dificuldade e pediram que Jesus pusesse a mão sobre ele.

Jesus se afastou com o homem para longe da multidão; em seguida pôs os dedos no ouvido do homem, cuspiu e com a sua saliva tocou a língua dele. Depois olhou para o céu, suspirou e disse: “Efatá!”, que quer dizer: “Abra-se!”

Imediatamente os ouvidos do homem se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade. Jesus recomendou com insistência que não contassem nada a ninguém. No entanto, quanto mais ele recomendava, mais eles pregavam.

Estavam muito impressionados e diziam: “Jesus faz bem todas as coisas. Faz os surdos ouvir e os mudos falar”.

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O GÊNERO HUMANO ENFERMO — Os santos doutores nos ensinam que este homem representa todo o gênero humano, com exceção do povo judeu. Abandonado há tantíssimo tempo nas regiões tempestuosas, onde somente reinava o príncipe do mundo, experimentou os efeitos desastrosos do esquecimento em que seu Criador e Pai parece tê-lo deixado, como consequência do pecado original. Satanás, cuja astúcia pérfida o fez sair do paraíso, apoderando-se dele, se excedeu a si mesmo na escolha do meio que usou para salvaguardar sua conquista. Com tirania ladina reduziu sua vítima a um estado de mutismo e de surdez, com o que o mantém debaixo de seu poder mais seguro que se estivesse amarrado com correntes de diamante; mudo para implorar a Deus, surdo para ouvir Sua voz; os dois meios de que podia se servir para se libertar, os têm impedidos. Satanás, o adversário de Deus e do homem, pode felicitar-se. Arruinou, pode-se pensar, a última das criaturas do Todo-Poderoso, arruinou o gênero humano, sem distinção de famílias e de povos; pois até essa mesma nação, conservada pelo Altíssimo como parte escolhida em meio à deslealdade dos povos, se aproveitou de suas vantagens para renegar, com mais crueldade que todos os demais, de seu Senhor e seu Rei!

O MILAGRE — O Homem-Deus gemeu ao ver uma miséria tão extrema. E como não iria fazê-lo considerando os estragos realizados pelo inimigo neste ser escolhido? Sendo assim, levantando os olhos sempre misericordiosos de Sua santa humanidade, vê o consentimento do Pai às intenções de Sua misericordiosa compaixão; e, usando aquele poder criador que no princípio fez perfeitas todas as coisas, pronuncia como Deus e como Verbo a palavra onipotente de restauração: Éfeta! O nada, neste caso a ruína que é pior que o nada, obedece a esta voz tão conhecida; o ouvido do desafortunado se desperta; abre-se com prazer aos ensinamentos generosos da triunfante ternura da Igreja, cujas orações maternais obtiveram esta libertação; e, penetrando nele a fé, e produzindo no mesmo instante seus efeitos, sua até então travada língua volta a emitir o cântico de louvor ao Senhor, interrompido pelo pecado séculos antes.

O ENSINAMENTO — Com tudo isso, o Homem-Deus quer mais instruir aos Seus do que manifestar o poder de Sua palavra divina; quer revelar-lhes simbolicamente as realidades invisíveis produzidas por Sua graça no segredo dos sacramentos. Por isso, conduz o homem que Lhe apresentam a um local apartado, leva-o para longe dessa turba tumultuosa de paixões e de pensamentos vãos que haviam-no deixado surdo às coisas do céu: de que serviria, de fato, curá-lo se está em perigo de voltar a cair novamente, por não se acharem distantes as causas de sua enfermidade? Jesus, assegurando o futuro, coloca nos ouvidos do corpo do enfermo Seus dedos sagrados, que carregam o Espírito Santo e fazem penetrar até os ouvidos de seu coração a virtude reparadora deste Espírito de amor. Finalmente, com maior mistério ainda, posto que a verdade que se quer expressar é mais profunda, toca com a saliva de Sua boca divina esta língua que se havia feito impotente para a confissão e para o louvor; e a Sabedoria — pois é ela que está aqui misticamente — a Sabedoria que sai da boca do Altíssimo e, qual onda embriagadora, flui sobre nós a partir da carne do Salvador, abre a boca do mundo do mesmo modo que faz eloqüente a língua das crianças que ainda não sabem falar.

RITOS DO BATISMO — Também a Igreja, para nos fazer ver que o relato evangélico figurado se refere não a um homem isolado mas a todos nós, quis que os ritos do batismo de cada um de seus filhos recordem as circunstâncias da cura que acabamos de ver. Seu ministro, antes de submergir no banho sagrado o escolhido que se apresenta, deve depositar em sua língua o sal da Sabedoria, e tocar os ouvidos do neófito, repetindo a palavra que Cristo disse ao surdo-mudo: Éfeta, que significa: abre-te.