Padre Pio e sua amiga de Chicago, Illinois: Clarice Bruno

(Traduzido por André Carezia do original em inglês. A história abaixo foi tirada do capítulo 21 do livro “Pray, Hope, and Don’t Worry: True Stories of Padre Pio”, de Diane Allen.)

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Clarice Bruno padrepio1nasceu em Chicago, Illinois, em uma família italiana católica e devota. Na juventude estudou em escolas católicas, e graduou-se no Rosemont College, uma excelente instituição católica em Villanova, Pennsylvania. Clarice, de modo geral, dava pouco valor à sua fé católica. Duvidava de vários ensinamentos da Igreja. Em seu coração havia uma indiferença – uma apatia – para com assuntos religiosos. Embora assistisse às Missas aos domingos, ela não se considerava uma boa católica.

Clarice fez os preparativos para uma viagem a Chiavari, na Itália, com a intenção de visitar seus amigos e parentes. Era para ser uma visita breve, mas a coisa se esticou muito além do que tinha planejado. A viagem a Chiavari foi tão proveitosa que ela decidiu morar lá definitivamente.

Feliz por estar novamente junto a seus parentes, Clarice também se alegrava por fazer novos amigos. Uma noite ela teve um sonho intenso. Ela caminhava, no sonho, em direção à igreja de Nossa Senhora das Graças de Chiavari, quando de repente a estrada ficou coberta de grandes pedras. Ela tentou passar por cima delas, mas a tarefa se mostrou impossível. De repente, uma grande mão surgiu detrás das pedras e ajudou-a. Num piscar de olhos, ela se achou diante da igreja. O grande obstáculo tinha sido ultrapassado.

Na frente da igreja, Clarice viu um Calvário composto de três cruzes de madeira. Por causa da cena que se desenrolava no horizonte, ela não conseguia elevar o olhar acima da base das cruzes. Ao longe, no horizonte, ela viu o mar cintilando com beleza sobrenatural. Os raios do sol dançavam sobre a água, fazendo-a brilhar como diamante. Clarice não conseguia tirar os olhos do cenário beatífico, e sentia uma intensa alegria no coração. Quando acordou, ela refletiu sobre o significado do sonho. Ela nunca tinha experimentado um sonho com tal beleza, e ficou imaginando se poderia ser sinal de algo importante que estava prestes a acontecer na vida dela. Ela não sabia. Naquele tempo, Clarice lutava contra uma cruz pesada, uma tristeza em sua vida. Ao se levantar de manhã, sua cruz já esperava por ela. Ao adormecer à noite, sua cruz ainda estava junto dela. Ela foi perdendo a coragem, até que resolveu contar alguns de seus problemas a uma gentil mulher que havia conhecido pouco tempo antes. A mulher deu-lhe um conselho: peça a intercessão de Padre Pio. E partilhou com Clarice alguns fatos acerca da vida de Padre Pio.

Clarice, de início cética a respeito das palavras da mulher sobre Padre Pio, passou a ficar mais interessada quando a mulher lhe relatou algumas das graças que ela tinha recebido pela intercessão de Padre Pio. “Acho que você deve escrever uma carta ao Padre Pio”, disse a mulher. “Na carta, você explica tudo que a incomoda. E pede ao Padre Pio que reze por você.” Convencida afinal de que era uma boa idéia, Clarice rapidamente escreveu uma carta e enviou-a, assumindo que o Padre Pio logo lhe escreveria de volta. Clarice imaginava que seria uma longa carta repleta de intuições espirituais e sábios conselhos. O que ela não sabia era que quem cuidava de toda a correspondência de Padre Pio eram seus secretários.

Uma noite, enquanto se preparava para deitar na cama, ela notou um perfume muito forte de rosas no quarto. E não conseguiu achar explicação alguma para a adorável fragrância, pois sabia que na casa não havia flores. Certamente não havia flores no quarto. Ela olhou até embaixo da cama para se certificar de que ninguém havia escondido rosas ali, mas, como suspeitava, não achou nada.

Na manhã seguinte, Clarice cumprimentou seu tio, seu pai, e vários outros amigos que estavam sentados à mesa de jantar no térreo. O tio de Clarice, que morava na casa com ela e sua família, contou-lhe a estranhíssima experiência que teve na noite anterior. Enquanto se preparava para deitar na cama, seu quarto foi preenchido pelo doce aroma de flores. Era um perfume fresco e delicioso de gardênias, depois cravos, depois violetas, e permaneceu no quarto por um longo tempo. Aconteceu entre meia-noite e meia e uma da manhã, e ele pensou se tratar de uma premonição da morte de algum amigo ou parente. Clarice disse ao tio que também ela tivera a mesma experiência aquela noite, com o delicioso perfume de rosas tomando conta de seu quarto por volta da meia-noite e meia.

Quando se encontrou novamente com a mulher que tinha lhe contado a história da vida de Padre Pio, Clarice contou-lhe a experiência que ela e seu tio tiveram em casa. A mulher explicou então à Clarice que o Padre Pio tinha o costume de fazer as pessoas saberem que ele estava intercedendo por elas, e o jeito de fazer isso era permitir que elas sentissem uma maravilhosa fragrância.

Clarice nunca tinha ouvido falar de tais dons, e pensou na carta que tinha escrito ao Padre Pio. Ele enviara a carta apenas três dias antes, e estava convencida de que ele tinha recebido e que seu espírito estava com ela, fato que ele demonstrava pelo perfume de rosas. Clarice sentiu que uma grande esperança crescia em seu coração. Tinha fé que o Padre Pio a ajudaria nas dificuldades.

Clarice escreveu uma segunda carta ao Padre Pio. Nela, agradeceu pela fragrância de rosas que ela tinha sentido. E incluiu um donativo dentro da carta. Ela disse-lhe que tinha fé nele, e que aguardava uma resposta. Poucos dias depois desta segunda carta, ela percebeu uma fragrância de lírios à volta dela. A maravilhosa fragrância começou repentinamente e com grande intensidade, desaparecendo tão rápido quanto começou.

Clarice decidiu escrever uma terceira carta ao Padre Pio, na qual agradeceu novamente a ele pela fragrância de rosas e lírios. Escreveu que estava esperando ouvir as palavras de sabedoria dele, e novamente incluiu um donativo dentro da carta. Depois de enviar a carta, os perfumes encantadores sumiram completamente. Não houve mais sinais tangíveis da presença de Padre Pio.

Clarice ia todos os dias ao correio para ver se alguma carta de Padre Pio estava esperando por ela, mas nenhuma carta chegava. Ela pensava muitas vezes em seu sonho, e na mão que a erguera por sobre a barreira de pedras, colocando-a bem na entrada da igreja de Nossa Senhora das Graças. Havia uma barreira em sua própria vida, uma cruz que ela carregava diariamente. Ela queira se livrar disso, mais do que qualquer outra coisa. Ela se apegava à esperança de que o Padre Pio pudesse ajudá-la.

Certa noite, o quarto escuro de Clarice ficou iluminado por uma suave luz, parecida com o luar. Ela viu, por mais incrível que fosse, o Padre Pio parado ao pé da cama. Ele estava usando uma túnica marrom dos capuchinhos. Ao redor da cintura ele usava a corda dos capuchinhos, e apoiava nela uma das mãos. Ele usava luvas cobrindo parcialmente suas mãos. Havia medo no coração de Clarice, ao mesmo tempo que não havia. Padre Pio disse a ela três palavras, mas ela não entendeu o significado das palavras. Ela tentou acender a luz ao lado da cama, mas por alguma razão a luz não funcionou.

Padre Pio repetiu uma segunda vez as três palavras, aquelas que ela não entendeu. E novamente ela apertou o interruptor para ligar a luz, mas a luz não ligava. Uma terceira vez o Padre Pio disse as palavras misteriosas. E então ele desapareceu. O suave brilho que lembrava a luz do luar desapareceu juntamente com ele. Clarice tocou no interruptor de luz e desta vez ela acendeu facilmente. No momento em que a luz acendeu, ela viu a porta do quarto abrir como se alguém estivesse deixando o quarto.

Ver o Padre Pio ao pé de sua cama era algo que Clarice nunca teria julgado possível. Tendo esperado tanto tempo por uma carta dele, e nunca tendo recebido nenhuma, ela já nem se preocupava mais com isso. Ela tinha recebido algo muito maior que uma carta. O Padre Pio tinha vindo pessoalmente. Clarice agora tinha certeza de que o Padre Pio estava ciente das necessidades dela, e de a guiaria pelo bom caminho.

Meses mais tarde, Clarice viajou a Roma para visitar sua grande amiga, Margherita Hamilton. Margherita, ao saber das coisas que Clarice tinha aprendido recentemente sobre o Padre Pio, disse que Clarice tinha que considerar uma visita ao Padre Pio em San Giovanni Rotondo. Depois de discutirem os detalhes, elas decidiram fazer juntas a viagem. Embarcaram em um trem em Roma para Foggia, e de lá pegaram um ônibus para San Giovanni Rotondo.

Quando Clarice e Margherita chegaram a San Giovanni Rotondo, sentiram como se tivessem voltado no tempo. San Giovanni Rotondo era uma vila primitiva naqueles anos após a II Guerra Mundial. Tanto os homens quanto as mulheres montavam em mulas e charretes puxadas a cavalo, e assim andavam pela cidade. Eletricidade e água corrente eram coisas escassas. Em algumas partes da cidade, inexistentes. Para chegar ao poço público, as mulheres locais andavam pela rua principal carregando ânforas. Clarice descreveu San Giovanni Rotondo como “um lugar semi-selvagem”.

Havia dois hotéis na cidadezinha, e nenhum deles estava em boas condições. Clarice e Margherita se consideraram sortudas por achar alojamento no mais limpo deles. Para chegar à Missa matutina do Padre Pio, elas tiveram que acordar no meio da noite e andar no escuro por três quilômetros. Isso porque não havia, para guiá-las até a igreja, nenhuma luz na estrada.

Durante o primeiro dia em San Giovanni Rotondo, Clarice e Margherita conheceram Maria Pyle. Maria morava em uma casa espaçosa, localizada bem perto do mosteiro. Cercada por um bosque de amêndoas, a casa rosada de Maria era um refúgio para inúmeros peregrinos que vinham ver o Padre Pio. Clarice e Margherita tiveram sorte de conseguir alugar dois quartos na casa de Maria e ficar neles até o final da viagem.

Maria Pyle padrepio2sabia que as acomodações eram escassas em San Giovanni Rotondo, e fez o possível para ajudar. Para oferecer hospitalidade aos peregrinos que precisavam de alojamento, ela colocou três camas desmontáveis no porão da casa. Para prover acomodações para mais gente, Maria construiu outro andar em sua casa.

Mesmo sendo muito grata pela hospitalidade, Clarice achava que o quarto oferecido por Maria Pyle deixava muito a desejar. Era úmido e frio, e Clarice não conseguia aquecer nem um pouco o lugar. Havia um forno a lenha no canto do quarto, mas estava lamentavelmente quebrado. A mesinha-de-cabeceira consistia em um pedaço de tábua sobre uma pilha de tijolos. A cama de Clarice era bem curta e bem estreita. O colchão, preenchido por folhas secas e palhas de milho, era no mínimo muito desconfortável. Apesar disso tudo, ela preferia esse quarto ao quarto do porão.

Maria era admirável, com seu verdadeiro espírito franciscano e seu desapego dos confortos e objetos mundanos. Sua própria cama era ainda menos confortável que a cama dada à Clarice. Era mais um baú de madeira do que uma cama. Ninguém conseguia entender como Maria conseguia dormir em uma cama tão dura. Era comum que as pessoas a provocassem em relação à cama, mas nunca conseguiram persuadi-la a trocar a cama por outra mais confortável.

Maria, nascida em uma família rica da cidade de Nova Iorque, visitou o mosteiro do Padre Pio pela primeira vez em 1923. Ficou tão impressionada de assistir à Missa dele e receber sua benção sacerdotal, que decidiu se mudar definitivamente para San Giovanni Rotondo. Maria tinha abandonado realmente seu estilo de vida afluente da cidade de Nova Iorque.

Maria estava em vias de se mudar para um quarto pequeno e modesto perto do porão de sua casa, quando Clarice e Margherita apareceram pela primeira vez. O quarto que Maria vinha usando era grande e confortável, tendo inclusive uma varanda ensolarada. Para oferecer esse agradável quarto aos peregrinos, ela decidiu se mudar para o andar de baixo da casa.

Durante sua estadia em San Giovanni Rotondo, Clarice e Margherita ficaram impressionadas pelas várias obras de caridade de Maria. Muita gente na cidade era analfabeta, e sempre batiam na porta de Maria para que ela escrevesse cartas para elas. Elas ditavam as cartas e Maria escrevia. Ela sempre ficava muito contente por ser útil.

Juntamente com algumas companheiras, Maria assava as hóstias que eram usadas na Sagrada Comunhão no mosteiro, e costurava as vestes sacerdotais dos Capuchinhos. Trabalhava pesado, e tinha pouco tempo de sobra. O Padre Pio conhecia muito bem esse coração generoso de Maria. Ele sempre mandava à casa dela várias pessoas que tinham necessidades de algum tipo, sabendo que Maria daria o melhor de si para as ajudá-las.

As crianças em San Giovanni Rotondo adoravam visitar Maria em sua casa. Ela sempre jogava com elas, e sempre tinha pequenas recompensas para tais ocasiões. Um dos jogos preferidos era “Lotto”[1]. Maria sempre incluía alguma lição do catecismo quando as crianças da cidade a visitavam. Por causa dos esforços contínuos e dedicados dela, as crianças do local possuíam uma compreensão impressionante da fé católica. Quando as crianças estavam prontas para a primeira comunhão, e seus pais não tinham condições financeiras, Maria comprava ternos para os meninos e vestidos brancos para as meninas.

Clarice se considerava muito feliz por poder passar um tempo ao lado de Maria Pyle e de outras almas devotas que ajudavam na obra de Padre Pio. Desde que chegara, Clarice ansiava por ir se confessar com Padre Pio, e finalmente a oportunidade apareceu. Quando Clarice entrou no confessionário e se ajoelhou, ela se deu conta do fato de que a mão de Padre Pio estava pousada na corda de seu hábito capuchinho. E lembrou que a mão dele estava exatamente na mesma posição quando ele a visitou – por bilocação – na casa em Chiavari. Clarice também reparou nos olhos de Padre Pio, que pareciam ver bem lá dentro de sua alma. Havia também uma certa severidade no olhar dele.

No confessionário, Padre Pio disse a Clarice que somente ele iria falar. E começou então a nomear os pecados dela, um por um. A cada vez que ele listava um, ela confirmava que era verdade. Ele deu a ela um conselho em relação ao fardo que ela tinha carregado no coração por tanto tempo, e disse-lhe que ela estava enfrentando um “verdadeiro calvário”. “Mesmo que não consiga sentir alegria ao carregar sua cruz, tente pelo menos praticar a resignação e a paciência”, ele falou a ela.

A confissão com o Padre Pio terminou em menos de três minutos. Ela não precisou explicar coisa alguma a ele. Obviamente ele tinha ciência de tudo na vida dela. Em poucas e curtas palavras, ele foi capaz de aconselhá-la e renovar-lhe as esperanças.

Pelo fato da casa de Maria Pyle ser tão gelada, Clarice tinha o costume de caminhar rapidamente para cima e para baixo na rua defronte à casa, para assim tentar se esquentar. Um dia, enquanto caminhava diante da igreja de Nossa Senhora das Graças, Clarice olhou lá dentro e percebeu várias mulheres da cidade limpando a igreja. E ficou sabendo que elas seguiam regularmente um cronograma de limpeza semanal. Clarice se juntou às mulheres nessa tarefa e considerou isto um grande privilégio.

A igreja monástica de Nossa Senhora das Graças tinha uma simplicidade franciscana e uma beleza que elevava o espírito. Belas estátuas estavam dispostas nos nichos e alcovas, e uma cativante pintura de Nossa Senhora das Graças tinha seu lugar fixo no santuário. Sobre a mesa da comunhão ficava um arco no qual se pintaram rosas e lírios bem delicados. Clarice se lembrava, com isso, de sua experiência em Chiavari, quando a agradável fragrância de rosas e lírios enchera o quarto.

Todas as tardes, os padres e irmãos capuchinhos se reuniam no coro da igreja para recitação de suas preces comunitárias. Nessas horas, Clarice e as outras mulheres que limpavam a igreja observavam um silêncio absoluto, e tomavam todos os cuidados para não atrapalhar os capuchinhos. Clarice conseguia distinguir, dentre todos, a voz de Padre Pio durante as orações em voz alta. Ele nunca se apressava com as orações, mas pronunciava cada palavra lentamente e com muita consideração. Clarice notava sempre uma certa tristeza na voz de Padre Pio quando ele rezava com seus confrades capuchinhos.

Clarice e Margherita conseguiam assistir à Missa do Padre Pio todas as manhãs, e consideravam isso um grande e inestimável dom. No momento da Sagrada Comunhão, as pessoas da assembléia caminhavam até o último degrau da escadaria do presbitério. Ali eles se ajoelhavam diante de Padre Pio para receber a Sagrada Comunhão. Isto evitava que ele tivesse que descer até a mesa da comunhão para distribuir a Sagrada Comunhão. As dolorosas feridas dos estigmas que perfuravam seus pés tornavam o seu caminhar muito difícil.

Após a Missa matutina de Padre Pio, ouviam-se as confissões na igreja até às 10 da manhã. Depois das confissões, cessava toda atividade na igreja, retornando apenas na manhã seguinte. Todos as dias de sua visita, Clarice e Margherita tinham tempo de sobra para explorar a cidade. De vez em quando, elas caminhavam até o cemitério onde os pais de Padre Pio estavam enterrados, e rezavam no túmulo deles.

Enquanto ficaram em San Giovanni Rotondo, Clarice e Margherita conheceram um homem gentil chamado Mário, que possuía um restaurante junto com sua esposa na cidade. O restaurante tinha um chão sujo e – coisa curiosa – um poço bem no meio dele. O restaurante mais parecia um quartinho do que um lugar para refeições. nos dias frios, o vento soprava através das rachaduras nas paredes. Era com certeza um lugar bem primitivo.

A mulher de Mário tinha uma devoção ao Padre Pio. Uma ocasião, ao se confessar com Padre Pio, ela lhe contou sobre sua aflição com seu filho de quatro anos. “Estou preocupada”, ela disse ao Padre Pio. “Tenho que trabalhar no restaurante o tempo todo com o Mário, e não consigo dar ao meu filho o tempo e a atenção de que ele necessita.” Padre Pio disse a ela para não se preocupar. E disse que ele sempre cuidaria do filho dela, e o protegeria dos perigos. A mulher deixou o confessionário muito consolada.

Alguns dias depois, a mulher ouviu o som de um grito vindo da rua. Ao sair correndo do restaurante para descobrir o que havia acontecido, ela viu o filho dela sendo tirado debaixo de um enorme caminhão. Depois, em confissão ao Padre Pio, ela contou a ele sobre o terrível incidente. “Meu filho quase foi morto por um enorme caminhão”, a mulher disse. “Bom, ele se machucou?” perguntou o Padre Pio. “Não, não se machucou”, respondeu a mulher. “Ele teve algum arranhão?” perguntou o Padre Pio. “Não, nem isso”, a mulher replicou. “Então”, disse o Padre Pio. “Eu lhe disse que o protegeria.”

Passaram rápido os dias da visita de Clarice e Margherita em San Giovanni Rotondo. Quando chegou a hora de voltarem para suas casas, elas sabiam que tinham sido abençoadas muito além das expectativas. Elas fizeram muitas viagens a San Giovanni Rotondo nos anos subseqüentes.

Certo verão, padrepio3quando visitava o mosteiro, Clarice caiu muito doente. Era um doloroso problema intestinal, para o qual nenhum dos remédios que ela tentou foi de grande ajuda. Ela então se lembrou da água benta de Padre Pio. Havia um poço no pátio do mosteiro, e tanto o poço quanto a água haviam sido abençoados por Padre Pio. Muitos dos residentes da cidade tinham grande fé em seu poder curativo, e levavam a água para casa em garrafas. Clarice bebeu um pouco dessa água benta e foi imediatamente curada do problema intestinal.

Era comum que Clarice convidasse seus amigos e parentes para acompanhá-la em suas viagens a San Giovanni Rotondo. Ela também começou a organizar peregrinações, e foi importante ao fundar alguns grupos de oração do Padre Pio na região dela. Clarice se manteve dedicada à promoção do Padre Pio pelo resto da vida dela. “Tente ficar sob o olhar de Deus, e Deus vai sempre testemunhar por você”, disse-lhe o Padre Pio em uma ocasião.

Quando Clarice foi diagnosticada com uma doença incurável, sua fé permaneceu firme. Ela tinha esperança de se recuperar, mas estava completamente resignada à vontade divina. Ela dizia que a Divina Providência sempre tinha arranjado para o bem as coisas em sua vida. “Se acontecer de eu morrer logo, eu sei que isso será o melhor para mim”, contou ela à sua querida amiga Margherita Hamilton. Clarice Bruno morreu em paz, em 5 de agosto de 1970.

“Exorto vocês a se unirem a mim. Aproximemo-nos de Jesus para recebermos Seu abraço e um beijo que nos santifica e salva… Não cessemos então de beijar assim este Filho divino, porque se forem estes os beijos dados a Ele agora, Ele mesmo virá para tomar-nos em Seus braços e dar-nos o beijo da paz nos últimos sacramentos na hora da morte”. São Pio de Pietrelcina.

Notas:

[1] Lotto é um jogo tradicional nos EUA; é jogado como Bingo, só que com desenhos ao invés de números.

Maria e a Medalha Milagrosa

(Este artigo foi traduzido do original italiano https://gloria.tv/media/MnzCGTSqQXw)

Autor: Istruzione Cattolica

Tradução: Ana Cândida Tocheton Cristofoletti

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Do Livro do Apocalipse de São João (Ap 12,1-5):

Apareceu em seguida um grande sinal no céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas. Estava grávida e gritava de dores, sentindo as angústias de dar à luz. Depois apareceu outro sinal no céu: um grande Dragão vermelho, com sete cabeças e dez chifres, e nas cabeças sete coroas. Varria com sua cauda uma terça parte das estrelas do céu, e as atirou à terra. Esse Dragão deteve-se diante da Mulher que estava para dar à luz, a fim de que, quando ela desse à luz, lhe devorasse o filho. Ela deu à luz um Filho, um menino, aquele que deve reger todas as nações pagãs com cetro de ferro. Mas seu Filho foi arrebatado para junto de Deus e do seu trono.

O dia era 27 de novembro. Trata-se da aparição mais importante e fundamental, onde a humilde Santa Catarina teve a revelação da célebre Medalha Milagrosa, e Nossa Senhora explicou-lhe em que consistia a missão que lhe confiava. Uma missão tão grande quanto a Terra. Confiava justamente a ela, a humilde e ignorante Irmã Catarina, eleita para que fizesse com que todos os homens viessem a conhecer o celestial penhor de misericórdia que a Imaculada dignava-se dar à humanidade. E Irmã Catarina se lançaria ao serviço, não se poupando das provações e dos sofrimentos aos quais seria exposta. Era segura do auxílio daquela que é a Rainha do Universo, e mais cedo ou mais tarde, então, seria chegada a hora da difusão dessa medalhinha, pequeno tesouro de graça.

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Para Irmã Catarina, deveria haver bem pouca coisa a sacrificar sem reservas pela Rainha Imaculada que a havia inebriado com suas celestiais aparições. Ela mesma descreveu de maneira detalhada também essa segunda e mais célebre aparição. Ela escreve: “No dia 27 de novembro de 1830, que correspondia ao sábado anterior ao primeiro domingo do Advento, às cinco e meia da manhã, fazendo a meditação em profundo silêncio, pareceu-me ouvir ao lado direito da capela um rumor como o roçar de uma veste de seda. Havendo voltado os olhos para aquele lado, vi a Santíssima Virgem na altura do quadro de São José. Sua estatura era mediana, e sua beleza tal que me é impossível descrever. Estava em pé, suas vestes eram nobres, de seda pura e de cor branco-aurora, com mangas longas. Da cabeça descia um véu branco, que ia até os pés. Tinha o cabelo repartido e uma espécie de véu com uma renda de cerca de três centímetros de largura, levemente apoiada na cabeça. Seu rosto estava descoberto; seus pés estavam apoiados sobre um globo, ou melhor, sobre metade de um globo, pelo menos não vi a outra metade.”

Mais tarde a Santa confessará ter visto sob os pés da Virgem também uma serpente de cor esverdeada mesclado com amarelo. Ela prossegue na narrativa: “As suas mãos, elevadas à altura da cintura, mantinham com naturalidade um outro globo menor que representava o universo. Ela tinha os olhos voltados para o céu e seu rosto tornou-se resplandecente enquanto apresentava esse globo para Nosso Senhor.”

“Repentinamente, seus dedos cobriram-se de anéis ornados com pedras preciosas, uma mais bela que a outra, umas maiores e outras menores, das quais saíam raios uns mais belos que os outros. Esses raios partiam das pedras preciosas; as maiores lançavam raios maiores, e as menores lançavam raios menores, de maneira que todos esses raios preencheram sua parte inferior e eu não podia mais ver seus pés”.

Catarina continua o relato assim: “Enquanto eu estava absorta a contemplá-la, a Santíssima Virgem baixou seus olhos para mim e ouvi uma voz que me disse essas palavras: ‘Este globo que vês representa todo o mundo, em particular a França e cada uma das pessoas…‘. Aqui não sou capaz de transmitir o que senti e o que vi, a beleza e o esplendor dos raios deslumbrantes!… E a Virgem Santíssima prosseguiu: ‘São o símbolo das Graças que derramo sobre as pessoas que me pedem‘, fazendo-me, assim, compreender quanto é doce rezarmos para a Santíssima Virgem e quanto ela é generosa com as pessoas que a invocam; quantas graças ela concede às pessoas que dela se aproximam e quanta alegria ela sente ao conceder-lhes. Naquele momento, eu estava ali e não estava… Eu não sei… Apenas apreciava. Então, formou-se ao redor da Santíssima Virgem um quadro oval, onde no alto, em forma de semi-círculo entre as mãos direita e esquerda de Maria, era possível ler essas palavras escritas em letras de ouro: ‘Ó Maria Concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós‘.”

Prossegue Santa Catarina no seu relato: “Então ouvi uma voz que me disse: ‘Faça cunhar uma medalha dessa forma; todas as pessoas que a usarem receberão grandes graças, especialmente levando-as no peito; as graças serão abundantes para as pessoas que a portarem com fé‘. Nesse instante, percebi que o quadro virou-se, e pude ver o verso da Medalha. Havia ali a letra M (inicial do nome de Maria), sobre a qual erguia-se uma cruz (sem o crucificado) cuja base era a letra I (inicial do nome de Jesus, Iesus). Abaixo disso, havia dois corações, um circundado de espinhos (o de Jesus), e outro transpassado por uma espada (o de Maria). Por fim, doze estrelas circulavam tudo.”

Ela encerra o relato assim: “Depois disso, tudo desapareceu, como algo que se apaga, e permaneci ali repleta de bons sentimentos, de alegria, de consolação”.

Oração:

Ó Imaculada Virgem, Mãe de Deus e nossa Mãe, ao contemplar-vos de braços abertos derramando graças sobre os que vo-las pedem, cheios de confiança na vossa poderosa intercessão, inúmeras vezes manifestada pela Medalha Milagrosa, embora reconhecendo a nossa indignidade por causa de nossas inúmeras culpas, acercamo-nos de vossos pés para vos expor, durante esta oração, as nossas mais prementes necessidades. Concedei, pois, ó Virgem da Medalha Milagrosa, este favor que confiantes vos solicitamos, para maior glória de Deus, engrandecimento do vosso nome, e o bem de nossas almas. E para melhor servirmos ao vosso Divino Filho, inspirai-nos profundo ódio ao pecado e dai-nos coragem de nos afirmar sempre verdadeiros cristãos.

Amém.

O Milagre de Calanda

(Baseado no livro “Il Miracolo”, de Vittorio Messori, ano 1998)

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Em 3 de agosto de 1637, o jovem empregado agrícola Miguel Juan Pellicer, nascido em Calanda (Espanha) no ano 1617, ao cochilar, voltando do trabalho, caiu de um reboque, em Castellón de la Plana. Uma das rodas atingiu-lhe a perna direita, esmagando a tíbia. Foi socorrido e tratado no hospital local, sendo transferido depois para o Hospital Real de Valência, onde permaneceu internado por 5 dias.

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Miguel desejava ardentemente uma transferência para o Hospital Real e Geral de Nossa Senhora da Graça, em Saragoça, porque queria visitar o Santuário de Nossa Senhora do Pilar, sua grande devoção. Mesmo torturado por dores insuportáveis que não lhe davam descanso, Miguel foi autorizado a viajar a Saragoça para se colocar sob a proteção da Santíssima Virgem do Pilar. Paupérrimo, a viagem só lhe foi possível “de carona em carona”, motivo pelo qual demorou cinquenta dias, numa longa ascese pessoal. Além de tudo, era preciso percorrer 300 difíceis quilômetros sob o calor de um sol violento.

No início de outubro, afinal, o jovem chegou ao seu destino. Extenuado, sentia-se próximo da morte. Arrastando-se de joelhos até o Santuário, entregou-se totalmente nas mãos de sua tão amada Virgem do Pilar, a quem suplicou: “Salva-me, pois estou morrendo!”. Somente depois de confessar-se e assistir à santa Missa, foi, enfim, internado no Hospital de Saragoça. Ao final daquele mês, sua perna precisou ser amputada “quatro dedos acima do joelho”, única solução para lhe salvar a vida. Cirurgiões e enfermeiros procederam à cauterização do toco que restara da perna com um ferro em brasa. Só voltou a obter alta um ano após, já na primavera de 1638, recebendo muletas, perna de madeira e uma carteirinha que lhe permitia exercer a atividade da mendicância.

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Assim, “oficialmente” reduzido à condição de mendigo, pedia esmolas em frente ao Santuário. Em sua fé simples, como gesto de devoção, untava diariamente seu toco de perna com o azeite das lâmpadas acesas na Capela do Pilar, embora o médico lhe advertisse de que, além do risco de infecção, o óleo mantinha uma umidade que retardava a completa cicatrização da ferida.

Durante toda sua estadia em Saragoça, Miguel passava os dias pedindo esmolas à porta da Basílica do Pilar. À noite ia dormir no “Mesón de las Tablas”, quando tinha dinheiro para pagar; quando não, dormia num banco do hospital. Meses e anos se passaram. Todos conheciam Miguel, o jovem pedinte de uma perna só. Certo dia, alguns peregrinos vindos de Calanda o incentivaram a voltar à casa dos pais, pois sua vida era sofrida. Afinal, em março de 1640, esgotado pela vida miserável que levava, Miguel decidiu voltar a Calanda, para a casa paterna. Já eram passados dois anos e cinco meses após a amputação.

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Precisamente no dia do 16º centenário da visão que São Tiago Apóstolo teve de Nossa Senhora, e do aparecimento do Pilar que dá título a esta devoção, na quinta feira, 29 de março de 1640, em torno das 22 horas, Miguel Juan Pellicer jantou com seus pais, dois vizinhos e um soldado da cavalaria, que estava de passagem e a quem a família havia oferecido hospedagem. Miguel deixou a conversa e foi se deitar, – porque se sentia especialmente cansado àquela noite, – no quarto dos pais, porque ao soldado havia sido oferecido seu quarto. Pouco depois, entrou a mãe do jovem no aposento; sentiu um intenso e agradabilíssimo perfume, que ela descreveu “como de Paraíso”. Então percebeu que, por baixo da coberta, dois pés se mostravam. Chamou o pai, e logo pensaram que se tratava do soldado, que teria errado de quarto; ao levantarem a coberta, porém, descobriram que era seu filho, – e que a perna amputada reaparecera! Trêmulos, viram marcas e características que a perna tinha antes de ser amputada, e um círculo vermelho no exato local onde fora seccionada!

Miguel só sabia explicar que se havia encomendado, como todas as noites, a Nossa Senhora, sob a invocação da Virgem do Pilar, e que sonhara que estava na Basílica, como de costume, untando seu toco de perna com o óleo das lamparinas do Santuário, – que para ele era sagrado, – como um gesto de fé. Nessa mesma noite, testemunharam o milagre o soldado, Bartolomé Ximeno, e os vizinhos Miguel Barraxina e Úrsula Means. Os três, minutos antes, haviam conversado com o jovem coxo, e viram-no tirar a perna de madeira antes de retirar-se para dormir. Foi chamado e veio, ainda, o pároco Pe. José Herrera.

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Ao amanhecer, espalhou-se a notícia pelo povoado. O Pároco foi à casa dos Pellicer. Estava presente o primeiro magistrado, juiz e responsável pela ordem pública, Martín Corellano; o jurado maior, prefeito Miguel Escobedo; o “jurado segundo”, Martín Galindo; o notário real, Lázaro Macario Gomez. Encontravam-se também os dois cirurgiões locais, que certificaram o fato profissionalmente. Ambos declarariam, depois, que se renderam “à evidência, que deixara por terra sua instintiva incredulidade”. O notário lavrou uma ata constatando o fato ocorrido.

A esta expedição inesperada devemos um documento extraordinário e único: estamos diante de uma intervenção divina autenticada por ata notarial, diante de um milagre com a “garantia” de documento conforme à normativa vigente, e corroborado por dez testemunhas oculares, escolhidas entre as de maior confiança dentre muitíssimas outras disponíveis. Como se não bastasse, a ata notarial foi escrita e autenticada poucas horas depois do sucedido, e no próprio local. Processo e investigação foram abertos apenas 68 dias depois e se prolongaram por meses, presididos pelo Arcebispo de Saragoça, assistido por nove juízes, com dezenas de testemunhos e rigoroso respeito às normas prescritas pelo Direito Canônico.

A Prefeitura de Saragoça, em 8 de maio de 1640, reuniu-se em conselho extraordinário e plenário, e nomeou três procuradores para apurar o caso, além de solicitar ao Sr. Arcebispo que instaurasse um acurado processo canônico, às expensas da Prefeitura, que foi iniciado em 5 de junho de 1640. Conservam-se todas as atas de ambos os inquéritos, com inquéritos detalhadíssimos e com muitas comprovações.

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No dia 22 de abril de 1641, a Câmara Municipal de Calanda elegeu Nossa Senhora do Pilar Padroeira da cidade. No dia 27 do mesmo mês, Monsenhor Apaolaza, Arcebispo de Saragoça, anunciou:

“Nós dizemos, pronunciamos e declaramos que Miguel Juan Pellicer (…) recuperou, milagrosamente, sua perna direita que havia sido amputada; esta restituição não foi obra da natureza, mas operada de maneira admirável e milagrosa e deve ser registrada como um milagre.”

A partir do testemunho do protagonista e outros, conclui-se, como não poderia deixar de ser, que o milagre se deu devido à intercessão de Nossa Senhora do Pilar, de quem o jovem sempre fora devoto, a quem se havia encomendado antes e depois da amputação e em cujo santuário tinha pedido e obtido autorização para esmolar. Quando a notícia do milagre chegou a Saragoça, mandou-se verificar no cemitério do Hospital Real, onde a perna de Miguel Pellicer havia sido enterrada. Sob a direção do Dr. Juan Lorenzo García, comprovou-se que a perna havia desaparecido sem deixar vestígios!

Exames posteriores mostraram que a perna direita, milagrosamente recuperada, conservava marcas de antes de ser amputada, especialmente a da grande ferida provocada pela carroça e que ocasionara a gangrena. Havia também a cicatriz, perfeitamente fechada como todas as outras, onde se havia feito a amputação. Tratava-se da mesma perna que havia sido amputada, a mesma que havia sido enterrada, anos antes! Ficara “a marca”, como condescendência divina para observação científica. Após a conclusão positiva do processo, o rei da Espanha, Felipe IV, ordenou que chamassem ao palácio de Madrid o “jovem do milagre”. Ajoelhando-se em sua presença, beijou-lhe a perna milagrosamente restituída. Um grande tapete que ainda hoje está no Palácio Real de Madri, representa o Rei Felipe IV beijando a perna regenerada de Miguel Juan Pellicer.

São Bernardo de Claraval

Autor: Dom Prósper Gueranger, in O Ano Litúrgico [1]

Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

GLÓRIAS DE SÃO BERNARDO — “Eis aqui a Rainha, que se sentou diante de seu único Filho no festim eterno. Então, como o nardo que difunde seu perfume, Bernardo entregou sua alma a Deus.” [2] Sem dúvida foi para recompensá-lo por ter sido seu cavaleiro tão fiel, e cantador tão amante e eloqüente de todas as suas grandezas, que Maria veio buscar Bernardo durante a Oitava de sua gloriosa Assunção.

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O menológio [3] cisterciense recorda a seus filhos todos os anos a figura gloriosa e os méritos do primeiro Abade de Claraval: “No claustro se exercita maravilhosamente em jejuns, em orações, em vigílias, levando na terra uma vida toda celestial. Sem descuidar de seu trabalho de aperfeiçoamento, ocupa-se com zelo e êxito na santificação dos seus; vê-se, ademais, obrigado a apresentar-se diante do mundo. Aconselha os papas, pacifica os reis, converte os povos; extermina a heresia, abate o cisma, prega a cruzada, recusa bispados, realiza um sem número de milagres, escreve obras admiráveis e mil cartas. Aos 63 anos, quando morre, tinha fundado já 150 mosteiros, e 700 religiosos choram por ele em Claraval. O papa Alexandre III inscreveu-o no livro dos santos, e Pio VIII, em 1830, conferiu a ele o título de Doutor da Igreja Universal. Grande é o elogio, mas não exagerado.

Inumeráveis são os títulos que se deram ao que veio a Claraval para buscar, na humildade da vida monástica, o silêncio, a facilidade de fazer penitência e de rezar enquanto se aproximava a morte que o uniria a seu Deus. Ele, que procurava ser esquecido por todos, chegou a ser, para seu pesar, o homem de quem não podia prescindir seu século, ele que iria ter sobre seus compatriotas uma influência sem par, e que na história ficaria com uma das figuras mais nobres e mais atraentes da Igreja e de sua pátria. Bossuet, em um célebre panegírico, representou-o na cela estudando a cruz de Jesus, depois na cátedra sagrada e através dos caminhos da Europa, pregando essa mesma cruz. Porém, antes dele, Alexandre III o havia chamado “luz de toda a Igreja de Deus pela tocha de sua fé e de sua doutrina”; Santo Tomás de Aquino: “o eleito de Deus, a pérola, o espelho e o modelo da fé; a coluna da Igreja, o vaso precioso, a boca de ouro que embriagou todo o mundo com o vinho de sua doçura”; e São Boaventura lhe chamou “o grande contemplativo, de máxima eloqüência, cheio do espírito de sabedoria e de uma santidade eminente”; e nos estenderíamos demasiado se fôssemos citar os nomes e os elogios dos santos que o veneraram e saborearam sua doutrina “melíflua”, desde Santa Gertrudes e Santa Matilde até São Luiz Gonzaga e Santo Afonso de Ligório.

O CAVALEIRO DE NOSSA SENHORA — Mas o que de modo especial nos deve impressionar nestes dias, o que deveria bastar para dar glória a São Bernardo, é que foi cantador e cavaleiro de Nossa Senhora. “Foi, diz Bossuet, o mais fiel e o mais casto de seus filhos; o que mais honrou dentre todos os homens sua maternidade gloriosa, o que creu que devia aos seus cuidados e à sua caridade materna a influência contínua de graças que recebia de seu divino Filho”. Diz a lenda que um dia os anjos o ensinaram a Salve Rainha na Igreja de São Benigno de Dijon, e que uma vez a Virgem fez cair nos lábios dele algumas gotas do leite com que havia alimentado Jesus. Porém, seja como for, Bernardo se mostrava mais eloqüente e mais persuasivo do que nunca ao falar de Maria. Seus discursos apresentam-na a nós em todos os mistérios de nossa salvação, ocupando junto ao Senhor o posto que Eva havia tido junto a nosso primeiro pai; falou dela em termos tão ternos e comovedores, que fez vibrar o coração dos monges e das multidões que o escutavam, tão grande amor sentia por esta divina Mãe, e contribuiu poderosamente para fazê-la amada em sua nação. Seus sermões sobre a Anunciação se tornaram famosos, e os do mistério da Assunção se diriam ser posteriores à definição do dogma que tanta alegria trouxe ao mundo. Talvez seja isso o que lhe proporcionou tanta popularidade. Porque São Bernardo não é admirado somente pelos que estudam a história do século XII e se encontram com ele em tudo de grande e grave que então sucede, nem somente pelos monges e teólogos que estudam sua doutrina; São Bernardo é amado, e “o segredo de sua popularidade e do amor que se lhe tem, está no amor que ele teve a Jesus e na ternura com que amou a Maria, ternura profunda, amor ardente que nos entusiasma ainda depois de oito séculos” [4] “Jesus e Maria: dois nomes, dois amores que fundem em um só e fazem de seu coração um forno. O amor de Maria dá o movimento, e o amor de Jesus se abre nele como um lírio em seu talo. Este amor o persegue pelas sendas da Escritura, pelas montanhas ásperas da vida monástica, pela prática assídua das virtudes mais varonis, mas sempre por meio de Maria; esforça-se por cantar o Verbo acompanhando-se de Maria como de uma lira.” [5]

Depois de oito séculos, as orações que São Bernardo redigiu ou esboçou servem para que as almas rezem a Maria, para expressar-lhe sua confiança e seu amor. Repetimos-las todos os dias, valorizadas com o fervor de todos os que as pronunciaram antes de nós: a Salve Rainha, o Lembrai-vos. Não conhecemos melhor modo de honrar este grande santo, ser-lhe grato e dar-lhe graças, que repetir, seguindo seu exemplo, as orações que brotaram de seu coração e sobretudo louvar a Nossa Senhora com suas próprias palavras.

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VIDA — Bernardo nasceu em Fontaine-lez-Dijon, em 1090. Aos 16 anos se encontrou sem mãe. Pouco depois pensou em ingressar no Cister, onde o abade Stephen Harding estava desacorçoado por não ter vocações. Mas não chegou sozinho. Na Páscoa de 1112, apresentou-se com trinta parentes e amigos, a quem havia animado a abraçar a vida perfeita. Permaneceu durante três anos nesse mosteiro, entregue à oração e à mais rude penitência. Em 1115 chegou a ser abade de Claraval. A fama de sua doutrina e de sua santidade de pronto lhe trouxe postulantes em grande número; logo teve que fundar mosteiros e aceitar a reforma daqueles que solicitavam sua ajuda. Todo inteiro para todos, teve muitas vezes que deixar seu mosteiro para combater o cisma de Anacleto II na Itália, a heresia no sul da França, ou para pregar a cruzada a pedido de Eugênio III. Para este filho, que chegou a ser Papa, escreveu o tratado da Consideração, e para seus monges sua Apologia do Ideal Cisterciense, o Tratado do Amor de Deus e o Comentário ao Cântico dos Cânticos. Esgotado pelos trabalhos e lidas, consumido por excessiva penitência, acabou por fim seus dias em seu mosteiro, em 20 de agosto de 1153. Foi canonizado vinte anos depois, e declarado por Pio VIII Doutor da Igreja em 23 de julho de 1830.

ORAÇÃO A SÃO BERNARDO — Era conveniente que víssemos o mensageiro da Mãe de Deus seguir de perto sua carruagem triunfal; e, ao entrar no céu nesta oitava radiante, tu te perdes com deleite na glória daquela cujas grandezas enalteceste neste mundo. Ela nos ampara em sua corte; dirige até o Cister seus olhos maternais; em seu nome, salva mais uma vez a Igreja e defende o vigário do Esposo.

Mas neste dia nos convidas a cantar contigo para ela, a rogar-lhe, que é melhor que rezar; a homenagem que mais te agrada, ó Bernardo, é ver que nos aproveitamos de teus escritos sublimes para admirar “aquela que hoje sobe gloriosa e plena de felicidade aos habitantes do céu.”

Ainda que rutilante, o céu resplandece com novo fulgor à luz da tocha virginal. Nas alturas ressoam também a ação de graças e o louvor. Estas alegrias da pátria, não devemos fazê-las nossas em meio a nosso desterro? Sem morada permanente, buscamos a cidade à qual a Virgem bendita sobe neste momento. Cidadãos de Jerusalém, muito justo é que daqui das margens dos rios da Babilônia nos decidamos sobre isso, e dilatemos nossos corações diante do transbordamento do rio de felicidade cujas gotículas hoje saltam à terra. Nossa Rainha tomou hoje a dianteira; a acolhida esplêndida que se fez a ela nos dá confiança a nós que somos seu séquito e seus servidores. Nossa caravana, precedida da Mãe da misericórdia como advogada junto ao Juiz, seu Filho, terá boa acolhida no negócio da salvação. [6]

“Deixe de enaltecer tua misericórdia, ó Virgem Bem-aventurada, aquele que recorda haver-te invocado inutilmente em suas necessidades. Nós, servos teus, te felicitamos, sim, por todas as demais virtudes; mas em tua misericórdia nos felicitamos melhor ainda a nós mesmos. Louvamos em ti a virgindade e admiramos tua humildade; mas a misericórdia tem sabor mais doce aos miseráveis; por isso abraçamos com mais amor a misericórdia, recordamo-nos dela mais vezes, e invocamo-la sem cessar. Quem poderá examinar, ó Virgem bendita, a latitude e a longitude, a altura e profundidade de tua misericórdia? Porque sua latitude alcança até a ultima hora (aos que a invocam); sua longitude enche a terra; sua altura e sua profundidade preencheram o céu e deixaram vazio o inferno. Agora que recuperaste teu Filho e és tão poderosa quanto misericordiosa, manifesta ao mundo a graça que alcançaste nEle: alcança o perdão para o pecador, saúde para o enfermo, fortaleza aos débeis, consolo para os aflitos, amparo e proteção aos ameaçados por algum perigo, ó clementíssima, ó piedosa, ó doce Virgem Maria!” [7]

Notas

[1] A festa litúrgica de São Bernardo é no dia 20 de agosto, no meio da oitava da Assunção de Nossa Senhora, cuja festa litúrgica é no dia 15 de agosto.

[2] Paráfrase da oração de P. Condren, Veni Domine Jesu.

[3] Calendário com a biografia dos mártires e respectivas datas em que são celebrados.

[4] Dom Dominique Nogues: La Mariología de San Bernardo, p. XIV.

[5] Ibid, p. XV.

[6] São Bernardo, Primeiro Sermão sobre a Assunção.

[7] São Bernardo, Quarto Sermão sobre a Assunção.