Tirania e abuso sexual na Igreja Católica: uma tragédia jesuíta

Autor: John R. T. Lamont[*]
Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

1830

Em vista das novas revelações sobre abusos sexuais na Igreja, muitos católicos querem saber como é possível que a situação mostrada por essas revelações viesse a se instalar. A primeira pergunta já vem de longa data: por que os bispos, ao invés de remover os predadores sexuais de seus ministérios, escondem os seus crimes e transferem-nos para novos postos? Nenhuma resposta satisfatória foi dada a esta questão ainda. E agora ela se tornou mais grave por causa de uma segunda pergunta: como é que nomeiam Theodore McCarrick arcebispo de Washington e cardeal, e ainda o fazem planejador-mor da política de abuso sexual dos bispos americanos em 2002, sendo que o seu envolvimento nos abusos sexuais era amplamente conhecido nos círculos clericais e já tinha sido levado ao conhecimento da Santa Sé?

Estas coisas não acontecem por causa da lei da Igreja. Até o dia 27 de novembro de 1983, a lei em vigor na Igreja Latina era o Código de Lei Canônica de 1917. O cânon 2359 deste código, no parágrafo 2, decretava que se os clérigos cometessem, com menores de 16 anos, uma ofensa ao sexto mandamento do decálogo, eles deveriam ser suspensos, declarados infames, destituídos de qualquer cargo, benefício, dignidade ou posto que ocupassem; nos casos mais sérios deveriam ser laicizados.

Este cânon foi substituído pelo cânon 1395 do código de 1983, que no parágrafo 2 declara: ‘o clérigo que de outro modo tenha cometido delito contra o sexto mandamento do Decálogo, […] com menor abaixo de dezesseis anos, seja punido com justas penas, não excluída, se for o caso, a demissão do estado clerical.’ O código de 1983 trata os crimes do tipo cometido pelo cardeal McCarrick no cânon 1395, parágrafo 2: ‘O clérigo que de outro modo tenha cometido delito contra o sexto mandamento do Decálogo, se o delito foi praticado com violência, ou com ameaças, ou publicamente, ou com menor abaixo de dezesseis anos, seja punido com justas penas, não excluída, se for o caso, a demissão do estado clerical.’ Esses cânones não dispõem essas punições como opcionais; eles obrigam que tais crimes sejam punidos pela autoridade eclesiástica. A pergunta então agora é outra: por que as autoridades eclesiásticas violaram a lei e não cumpriram esses cânones?

Sem dúvida uma porção de fatores se juntou para produzir esta situação desastrosa. Um fator, porém, não foi ainda amplamente discutido ou compreendido, mesmo tendo um efeito primário na geração da situação escandalosa que ora prende a nossa atenção. Tal fator é a influência dentro da Igreja de um conceito de autoridade como uma forma de tirania, ao invés de se basear na lei e de ser constituída por ela. Este ensaio apresenta a natureza desse conceito, descreve como ele veio a se tornar influente, e explora alguns de seus resultados mais significativos.

As origens intelectuais desse conceito de autoridade e obediência se encontram principalmente na teologia e filosofia nominalista. Guilherme de Ockham, notoriamente, tomou partido de um dos lados do dilema de Eutífron ao afirmar que as ações boas são boas simplesmente por serem ordenadas por Deus, e que Deus poderia tornar bons a idolatria, o homicídio, a sodomia, e mau o abster-se dessas ações, se Ele ordenasse que elas fossem praticadas. Este conceito de autoridade divina dá força a uma compreensão tirânica da autoridade em geral: ela se basearia na vontade arbitrária daquele que detém o poder, ao invés de se basear na lei.

Uma compreensão da autoridade baseada na lei, por outro lado, sustenta que a lei derivada da natureza do bem é que é a fonte da autoridade de um líder, e delimita a esfera na qual um líder pode emitir ordens. Os estudiosos há muito tempo sabem que o domínio do pensamento nominalista no século quatorze deixou marcas no pensamento católico por vários séculos; importantes teses nominalistas permaneceram incrustadas mesmo em estudiosos que se acreditavam defensores das tradições anti-nominalistas. A natureza da autoridade era uma dessas teses. Todos os teólogos e filósofos católicos durante a contra-reforma sustentavam que a obrigação moral e legal devia ser compreendida como conseqüência da ordem de um superior; [Francisco] Suárez, caracteristicamente, descrevia a lei como ‘o ato pelo qual um superior deseja obrigar um inferior a desempenhar uma ação específica.’

Um dos principais objetivos da contra-reforma era a restauração da disciplina entre os clérigos e os religiosos. As teorias sobre a lei e a autoridade que guiaram essa restauração se distinguiam da posição puramente nominalista, mas estas distinções se perderam quando os princípios práticos de treinamento em obediência foram concebidos. Estes princípios incorporaram uma compreensão tirânica da autoridade, e uma compreensão servil da justa obediência, no sentido de que consistiam na total submissão à vontade do superior. A mais influente formulação destes princípios aparece nos escritos de Santo Inácio de Loyola sobre a obediência. Os elementos centrais da noção de autoridade inaciana são os seguintes:

  • A mera execução da ordem de um superior é o grau mais baixo de obediência, e não merece o nome de obediência, nem constitui um exercício da virtude da obediência.
  • Para que mereça ser chamado de virtude, um exercício de obediência deve alcançar o segundo grau da obediência, que consiste em não apenas fazer o que o superior ordena, mas conformar a vontade à do superior; assim, não apenas se deseja obedecer uma ordem, mas se deseja que aquela ordem específica seja dada – simplesmente porque o superior a deseja.
  • O terceiro (e mais elevado) grau de obediência consiste em conformar não apenas a vontade mas também o intelecto à ordem do superior; assim, não apenas se deseja que a ordem seja dada, mas em verdade se acredita que a ordem é a ordem certa a ser dada, simplesmente porque o superior a deu. ‘Aquele que visa a fazer uma completa e perfeita oblação de si mesmo deve oferecer, além da sua vontade, o seu entendimento; este é o grau seguinte e o mais elevado da obediência. Ele não deve somente desejar, mas deve pensar igual ao superior, submetendo seu julgamento ao do superior, tanto quanto uma vontade devota pode subjugar o entendimento.’
  • No grau mais elevado e meritório da obediência, o fiel não tem mais vontade própria (ao obedecer) do que um objeto inanimado. ‘Todos aqueles que vivem sob obediência devem se permitir ser levados e dirigidos pela divina providência, através da influência do superior, como um corpo sem vida se permite ser levado a qualquer lugar e ser tratado de qualquer maneira; ou como se ele fosse a bengala de um homem idoso que serve em qualquer lugar e é usada da maneira que o seu portador deseje usar.’
  • O sacrifício da vontade e do intelecto que está envolvido nesta forma de obediência é a forma mais elevada de sacrifício possível, já que ela oferece a Deus as faculdades humanas mais elevadas: o intelecto e a vontade.

É preciso dizer que o exercício prático da autoridade de Santo Inácio não estava de acordo com os seus próprios escritos. Ele tinha o costume de enviar jesuítas em missões independentes nas quais eles precisavam ter iniciativa própria. Se interpretados de modo literal, os seus escritos não poderiam ser aplicados nestas situações, já que o superior não estaria ali para dar as ordens às quais se devia esse tipo de obediência.

Podemos explicar a contradição entre teoria e prática pela influência que em Sto. Inácio tiveram as idéias filosóficas e teológicas aceitas em sua época, e pelos objetivos que queria atingir com seus ensinamentos sobre a obediência. Sua doutrina a respeito da obediência foi planejada para proporcionar um treinamento básico em disciplina, do tipo praticado pela profissão militar da qual ele tinha feito parte. Este treinamento também foi planejado para, depois de completado, assegurar que os jesuítas em missões independentes internalizassem o objetivo que seus superiores tinham mandado cumprir, de modo que pudessem levar a cabo, corretamente e de todo o coração, as missões que lhes tinham sido confiadas. Santo Inácio, porém, não tinha a intenção de dar aos superiores um controle totalitário sobre todos os pensamentos e ações de seus subordinados.

Infelizmente, aqueles que interpretaram as suas obras leram os seus escritos de maneira literal, e até lhe deram crédito por defender um controle totalitário desse tipo como o modelo de autoridade religiosa. Algumas apresentações de seus ensinamentos descreveram como algo especialmente elevado e digno de nota obedecer uma ordem sobre a qual paira a suspeita – mas não a certeza – de ser imoral. Esta declaração sobre os méritos excepcionais da obediência às ordens moralmente duvidosas é feita por Santo Inácio em sua carta 150. A carta foi escrita na realidade a pedido dele pelo seu secretário Pe. Polanco; mas já que foi enviada com a assinatura de Santo Inácio, se beneficiou da sua autoridade.

O desenvolvimento pleno de um conceito tirânico da autoridade religiosa e de um conceito servil da obediência encontra-se em Ejercicio de Perfección y Virtudes Cristianas, de Alonso Rodriguez, S.J. Esta obra, o manual de teologia ascética mais lido durante a contra-reforma, foi publicado em 1609. Foi leitura obrigatória para os noviços jesuítas até o Concílio Vaticano II. O conteúdo dele era aceito como a interpretação correta dos ensinamentos de Santo Inácio sobre a obediência. No exame de consciência que propõe, o Pe. Rodriguez (não confundir com Santo Alfonso Rodriguez) exige que o penitente:

  • Obedeça com a vontade e com o coração, tendo uma só intenção e determinação: a mesma do superior.

  • Obedeça também com o entendimento e com o julgamento, adotando a mesma visão e o mesmo sentimento do superior, sem dar lugar a qualquer juízo ou razão para o contrário.

  • Assuma a voz do superior… como a voz de Deus, e obedeça ao superior, quem quer que seja, como a Cristo Nosso Senhor, fazendo o mesmo em relação às autoridades subordinadas.

  • Siga o preceito da obediência cega: que obedeça sem questionar ou examinar, nem buscar motivos para os porquês, considerando como razão suficiente o fato de ser obediência e de ser a ordem do superior.

Rodriguez louva a obediência – do jeito que ele a entende – em termos reveladores:

Um dos maiores confortos e consolos que nós temos na religião é este: o de que, se fizermos o que manda a obediência, estaremos seguros. O superior é que pode se enganar ao ordenar isto ou aquilo, mas você tem a certeza de não estar errado ao fazer o que lhe ordenam, porque a única conta que você deve prestar a Deus é a de ter feito tudo o que lhe ordenaram; com isto a sua prestação de contas estará cumprida a contento diante de Deus. Você não precisa justificar que a coisa ordenada era uma coisa boa, ou que alguma outra coisa teria sido pior; isto não lhe pertence, mas pertence à prestação de contas do superior. Quando você age sob obediência, Deus tira dos seus livros e coloca nos livros do superior.

Rodriguez, assim como outros autores, abre aquela costumeira exceção: não é preciso obedecer ordens manifestamente contrárias à lei divina. Entretanto, já foi observado que a doutrina jesuítica do probabilismo tende a anular esta exceção. De acordo com esta doutrina, não é pecado fazer qualquer ação que uma autoridade respeitável declare ser permitida; e o superior religioso de alguém geralmente conta como autoridade respeitável. Além disto, há um dado psicológico que tende a tornar ineficaz esta exceção. É difícil internalizar e praticar esta noção de obediência; requer tempo, motivação e esforço. Depois de ser executada com sucesso, tem um efeito duradouro. Uma vez que alguém tenha destruído a capacidade de criticar as ações de seus superiores, não consegue mais ressuscitar esta capacidade e exercê-la à vontade. Seguir a diretriz de recusar obediência ao superior, quando suas ordens são manifestamente pecaminosas, se torna então psicologicamente difícil e até mesmo impossível – exceto talvez nos casos mais extremos, como no caso de uma ordem para assassinar alguém, mas este já não é o tipo de ordem ilícita que os superiores religiosos têm interesse em dar.

Este conceito de obediência não se limitou a ser uma peculiaridade da Sociedade de Jesus, mas veio a ser adotado pela Igreja da contra-reforma como um todo. Tornou-se predominante na nova instituição dos seminários da contra-reforma; o Tratado da Obediência do sulpiciano Louis Tronson colocou os ensinamentos e escritos de Santo Inácio no cume da doutrina católica sobre a obediência. A adoção deste conceito pelos sulpicianos foi especialmente importante por causa do seu papel central no treinamento de sacerdotes nos seminários a partir do século XVII. O conceito servil da obediência continuou sendo o padrão no século XX. Adolphe Tanquerey, em sua obra Précis de théologie ascétique et mystique, amplamente lida e traduzida (e, em vários aspectos, excelente), chegou a escrever que as almas perfeitas que atingem o mais alto grau de obediência submetem seu julgamento ao do superior, sem nem mesmo examinar as razões que ele tem para dar as ordens.

A abordagem jesuítica da manifestação da consciência contribuiu para inculcar uma compreensão totalitária da autoridade. Santo Inácio não somente encorajou mas exigiu a manifestação da consciência, e exigiu que a manifestação fosse feita ao superior religioso. A manifestação da consciência incluía ‘as disposições e desejos pela execução do bem, as paixões e tentações que movem a alma, as faltas mais freqüentemente cometidas… o padrão usual de conduta, afeições, inclinações, propensões, tentações e fraquezas.’ Ele exigiu que as manifestações fossem feitas a cada seis meses, e declarou que todos os superiores e até mesmo os seus representantes estavam qualificados para receber tais manifestações. Ao invés de restringir o propósito da manifestação da consciência ao bem-estar espiritual do manifestante, ele não apenas permitiu como exigiu que o superior usasse para propósitos administrativos o conhecimento obtido dos subordinados através da manifestação da consciência.

Não é preciso sublinhar o poder de presunção que esta prática dá ao superior religioso. As antigas ordens religiosas resistiram à introdução de uma manifestação de consciência compulsória no estilo de Santo Inácio, mas vários institutos religiosos modernos a adotaram. Os abusos de tal prática foram tão sérios que o papado teve afinal de aboli-la. Foi proibida pelo cânon 530 do Código de Direito Canônico de 1917 para todos os religiosos (os jesuítas, porém, através de um decreto do Papa Pio XI, receberam uma permissão especial para mantê-la). Nessa altura, entretanto, a prática já tinha tido vários séculos para deixar sua marca na compreensão da autoridade, nos modelos de comportamento, e na psicologia dos superiores e subordinados dentro da Igreja Católica.

Pode-se ver a novidade desta compreensão da obediência no contraste com a posição de Santo Tomás de Aquino. Santo Tomás considera que o objeto próprio da obediência é o preceito do superior (Summa Theologiae, IIa-IIae q. 104 a. 2 co., a. 2 ad. 3). O grau mais baixo de obediência de Santo Inácio, que ele não considera virtuoso, é considerado por Santo Tomás como a única forma de obediência. Ele sustenta que as formas supostamente mais elevadas de obediência de Santo Inácio nem sequer entram na categoria de virtude da obediência:

Diz Sêneca (De Beneficiis iii): Erra quem pensa que a servidão envolve o homem na sua totalidade. Pois a sua melhor parte está isenta dela; porquanto, ao passo que o corpo está adscrito e sujeito ao senhor, o espírito é livre. Portanto, no que respeita ao movimento interior da vontade, ninguém está obrigado a obedecer senão a Deus. (IIa-IIae q. 104 a. 5 co.)

Santo Tomás não considera que a obediência envolva o sacrifício da vontade enquanto tal. Em sua visão, a virtude da obediência envolve apenas o sacrifício da teimosia, definida como a adesão a objetivos contrários à nossa felicidade eterna. Rodriguez, porém, deixa claro que não é a teimosia, mas a própria faculdade humana da vontade que deve ser sacrificada por inteiro. Isto é um sacrifício no sentido de abandono e destruição, já que envolve eliminar o funcionamento da vontade do sujeito para entregá-la à vontade de um outro ser humano. Santo Tomás, além disto, não pensa na obediência como uma forma virtuosa de ascese pessoal. Ele não considera que obedecer uma ordem sem gostar dela seja melhor, em si mesmo, do que obedecer uma ordem cujo cumprimento nos deixa contentes.

Uma pessoa boa vai se alegrar no cumprimento de qualquer ordem apropriada, já que tais ordens concorrem para o bem comum. Ela não considera que todos os atos bons são motivados pela obediência a Deus, porque considera que há virtudes cuja prática antecede à obediência – a obediência religiosa pressupõe, por exemplo, a fé. Nem considera que a essência do pecado consista na desobediência a Deus, ou mesmo que todo pecado envolva o pecado da desobediência. Todo pecado envolve de fato uma desobediência às ordens divinas, mas esta desobediência não é desejada pelo pecador exceto se o pecado envolve uma vontade de desobedecer a ordem somada a uma vontade de fazer o ato proibido (IIa-IIae q. 104 a. 4 ad 3). A obediência é simplesmente um ato da virtude da justiça, que é motivada pelo amor a Deus no caso de ordens divinas e pelo amor ao próximo no caso de ordens de um superior humano. Estes amores são mais fundamentais e mais abrangentes do que a obediência.

O conceito de autoridade religiosa e obediência religiosa que se tornou dominante na Igreja a partir do século XVI foi então uma substancial inovação que se desviou da visão católica anterior. Acabou influenciando a Igreja através do treinamento fornecido nos seminários aos padres diocesanos, e através da abordagem disciplinar nas ordens religiosas. A vida cotidiana dos seminaristas e religiosos foi estruturada como um sem fim de regras a governar as minúcias dos comportamentos, e as atividades à margem dessa rotina só podiam ser executadas em geral com a permissão do superior. Tal permissão era arbitrariamente negada, de tempos em tempos, a fim de encorajar a submissão dos subordinados. Não se davam as razões para as ordens, e não se respondiam as perguntas a respeito das razões para as ordens.

Esta forma de encarar a autoridade teve efeitos daninhos ao clero e aos religiosos. A obediência servil, extraída dos subordinados à força, destruiu o vigor do caráter e a capacidade de pensamento independente. O exercício da autoridade tirânica por parte dos superiores produziu um orgulho arrogante e uma deficiência na auto-crítica. O fato de que todos os superiores começavam algum dia na posição de subordinados significava que a subida era mais fácil para aqueles que eram habilidosos nas artes do escravo – bajulação, dissimulação e manipulação.

Os leigos não podiam almejar subir na hierarquia eclesiástica, de modo que o efeito de se promover a compreensão servil da obediência religiosa foi infantilizá-los na esfera religiosa. Esta infantilização se observa na arte e na devoção religiosas, especialmente a partir do século XIX, e na propensão para a obediência cega ao clero. O resultado foi a dissociação entre a maturidade adulta e a crença religiosa, o que solapou entre os leigos a fé religiosa e o compromisso, contribuindo para a paulatina secularização das sociedades católicas.

Os efeitos desta concepção de obediência foram minimizados por alguns contrapesos. A lei canônica, a disciplina litúrgica, as regras das ordens religiosas, tudo isso continha prescrições detalhadas que limitavam o exercício tirânico da autoridade por parte dos superiores. A filosofia e a teologia escolásticas, a educação clássica, o requisito de proficiência no latim, isso tudo impunha padrões objetivos de conhecimento e de capacidade intelectual exigidos do clero. As escolas secundárias jesuíticas, de longe as mais importantes e bem-sucedidas do seu apostolado, eram governadas por um ratio studiorum formidavelmente desenhado: estabelecia em detalhes o que era para ser estudado, e como. Enquanto o conceito tirânico de autoridade foi contido por esses fatores, ele aleijou mas não matou a Igreja.

Um aspecto pérfido dessa concepção de autoridade é que, no início, ela foi um aparente sucesso. Foi usada para pôr fim às más condutas financeiras e sexuais do clero que colaboraram para gerar a Reforma, contribuindo, assim, para as brilhantes conquistas da Contra-Reforma. A situação da Igreja era similar àquela de Roma sob Augusto, ou àquela da França sob Luís XIV: a paz e a ordem produzidas pelo governo absolutista permitiram o florescimento dos talentos produzidos pela sociedade livre que havia antes do absolutismo. Ao se esgotar a herança da liberdade, e ao se sentirem os efeitos totais do absolutismo, esses talentos mingüaram. A constelação fulgurante de santos e gênios que iluminou a França católica do século XVII foi sucedida, no século XVIII, pelo fracasso e freqüente capitulação diante dos ataques anti-cristãos do Iluminismo.

Esta exposição da história e da natureza do conceito tirânico da autoridade na Igreja explica muitos aspectos da crise de abusos sexuais. Maturidade psicológica é algo necessário para resistir bem às tentações sexuais. A inculcação de uma compreensão servil da autoridade, por atacar esta maturidade, torna muito difícil a castidade. Num sistema de treinamento baseado na inculcação da obediência servil, as personalidades deformadas e inadequadas daqueles que são atraídos por atividades sexuais perversas não são identificadas. Pessoas assim geralmente são boas em servilismo e dissimulação. Elas se desenvolvem tremendamente num sistema baseado na obediência servil, ao passo que homens de inteligência e caráter sofrem com ele.

Os superiores não raciocinam que a sua própria autoridade está presa à autoridade da lei, e não se inclinam a respeitar e obedecer a lei enquanto tal. Eles têm um forte incentivo para encobrir abusos sexuais, porque a autoridade do clero sobre os leigos repousa sobre um conceito infantilizado de clérigos como figuras paternas divinizadas, incapazes de errar. Tal conceito é destruído quando delitos sérios são expostos publicamente. Os leigos que acreditam neste conceito são facilmente persuadidos ou intimidados a manterem sigilo sobre os casos de abusos sexuais que eles encontram. Num sistema tirânico, tanto os superiores quanto os subordinados são ensinados a idolatrar o poder e aqueles que o detém, e a desprezar os inferiores, os fracos e as vítimas. O resultado é a tendência de não sentirem simpatia pelas vítimas de abuso sexual, em particular as crianças. Sua simpatia é dirigida aos predadores, que exercem o poder tirânico na sua forma extrema. Todos esses fenômenos descritos acima já foram observados repetidas vezes nos casos de abusos sexuais que vieram à tona.

A infantilização gerada por essa compreensão da autoridade colaborou de várias maneiras para os abusos sexuais. Uma pessoa infantilizada não consegue exercer um julgamento independente, e não tem a capacidade de se defender ou defender os outros. As criancinhas não são capazes de compreender o mal, e não são capazes de admitir ou mesmo de entender que suas figuras paternas são malignas. Aqueles sacerdotes que levaram a sério a compreensão tirânica da autoridade, ao invés de se adaptar a ela para alcançar suas ambições e usufruir dos prazeres da tirania, ficaram então psicologicamente incapazes de se manifestar contra os abusos sexuais e de correr riscos para corrigi-los. Os ambiciosos não o fizeram porque não havia nisso nenhum proveito para eles.

Quanto aos leigos, a verdade nua e crua é que a maior parte dos abusos sexuais de crianças por padres aconteceram com a conivência dos pais dessas crianças. Sem esta conivência, o abuso sexual de crianças e adolescentes por padres nunca teria alcançado as proporções que alcançou. Observe este testemunho de “Tiago”, garoto abusado sexualmente repetidas vezes pelo cardeal McCarrick:

Tiago afirmou ter tentado, aos 15 ou 16 anos, contar ao seu pai sobre os abusos que estava sofrendo. Mas o padre McCarrick era tão amado pela sua família, disse ele, e considerado tão santo, que a idéia era incomensurável… Tiago disse que quando era menino ele não tinha nenhum lugar seguro para discutir o que estava acontecendo com ele. “Lugar nenhum. Lugar nenhum. Meu pai simplesmente não ouvia.” … “Tentei umas duas vezes com a minha mãe, mas ela dizia ‘você deve estar enganado.’ Meu pai nasceu em 1918, minha mãe em 1920. Cresceram acreditando que a Igreja Católica era tudo. Meu pai era um cara santo. Andava para lá e para cá com o terço na mão o dia inteiro. Meus pais eram muito santos, e os pais deles eram muito santos. Toda a idéia deles sobre a vida era assim.” [**]

Esta concepção errada de santidade não foi resultado da estupidez dos pais desse rapaz. Foi o que o clero lhes ensinou – seguindo uma concepção tirânica da autoridade. Resultou que foram incapazes de imaginar que padres podem ser maus – e ainda acharam que esta incapacidade era uma virtude e um dever religioso.

O caos que tragou a Igreja nos anos 1960 e 1970 provavelmente se deveu em grande parte à rebelião contra o exercício tirânico da autoridade que havia sido infligido aos clérigos e religiosos antes dos anos 60. Porém, assim como aconteceu com outras revoluções registradas na história, esta revolta contra a tirania não levou ao triunfo da liberdade. Ao contrário: ao destruir os elementos do ancien régime que tinha colocado limites ao poder dos superiores, gerou uma tirania ainda mais extensa e completa. Deu um fim nos fatores, listados acima, que tinham contrabalançado a influência do conceito tirânico da autoridade na Igreja da Contra-Reforma.

A facção progressista que assumiu o poder nos seminários e ordens religiosas tinha seu próprio programa e ideologia a demandar adesão total, e isto justificava suprimir brutalmente a oposição. As ferramentas de controle psicológico e de opressão que haviam sido aprendidas pelos progressistas durante a sua própria formação foram colocadas em pleno uso, e aplicadas de modo mais abrangente do que jamais tinham sido antes – sendo a diferença entre os dois regimes muito parecida com a diferença entre a Okhrana e a Cheka.

Uma parte da ideologia progressista era a falsidade e o malefício do ensinamento sexual tradicional católico; não é preciso elaborar os efeitos desta doutrina sobre a crise dos abusos sexuais. Mas seria um engano achar que o progressismo em si é responsável por esta crise, e que a sua derrota resolveria o problema. As raízes da crise vêm de muito antes, e exigem uma reforma nas atitudes para com a lei e a autoridade em todas as áreas da Igreja.


Notas:

[*] Artigo original publicado no site https://rorate-caeli.blogspot.com/2018/10/tyranny-and-sexual-abuse-in-catholic.html em outubro/2018.

[**] Testemunho original: https://www.theamericanconservative.com/dreher/uncle-ted-mccarrick-special-boy/

As Sete Orações de Santa Brígida

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(Estas orações devem ser rezadas por 12 anos, diariamente, sem interrupção. Traduzido do italiano por Ana Cândida Tocheton Cristofoletti. Versão em PDF.)

1) A circuncisão

Pai, pelas mãos puríssimas de Maria e pelo Coração Divino de Jesus, eu Te ofereço a primeira ferida, as primeiras dores e a primeira gota de sangue derramada por Jesus, em expiação dos pecados de todos os jovens e como proteção contra os primeiros pecados mortais, em particular dos meus consangüíneos.

Pai Nosso
Ave-Maria

2) O sofrimento de Jesus sobre o Monte das Oliveiras

Pai Eterno, pelas mãos puríssimas de Maria e pelo Coração Divino de Jesus, eu Te ofereço os terríveis sofrimentos do Coração Divino de Jesus sobre o Monte das Oliveiras, e também Te ofereço cada gota de Seu sangue em expiação de todos os meus pecados de coração e de todos aqueles da humanidade, como proteção contra esses pecados e pela difusão do Amor divino e fraterno.

Pai Nosso
Ave-Maria

3) A flagelação de Jesus

Pai Eterno, pelas mãos puríssimas de Maria e pelo Coração Divino de Jesus, eu Te ofereço os milhares e milhares de golpes, as dores atrozes e o Precioso Sangue derramado na flagelação, em expiação de todos os meus pecados da carne e de todos aqueles da humanidade, como proteção contra esses pecados e pela proteção da inocência, em particular dos meus consangüíneos.

Pai Nosso
Ave-Maria

4) A coroação de espinhos de Jesus

Pai Eterno, pelas mãos puríssimas de Maria e pelo Coração Divino de Jesus, eu Te ofereço as feridas, as dores e o preciosíssimo Sangue escorrido da cabeça de Jesus quando foi coroado de espinhos, em expiação dos meus pecados do espírito e daqueles de toda a humanidade, como proteção contra esses pecados e pela construção do Reino de Deus sobre esta terra.

Pai Nosso
Ave-Maria

5) A subida de Jesus pelo Calvário com a Cruz

Pai Eterno, pelas mãos puríssimas de Maria e pelo Coração Divino de Jesus, eu Te ofereço os sofrimentos suportados por Jesus ao longo da subida do Monte Calvário, e em particular a Santa Chaga do Ombro e o Precioso Sangue dela vertido, em expiação dos meus pecados e dos demais homens de rebelião à cruz, de revolta contra Teus santos desígnios e de todos os outros pecados da língua, como proteção contra esses pecados e por um amor autêntico à Santa Cruz.

Pai Nosso
Ave-Maria

6) A crucificação de Jesus

Pai Eterno, pelas mãos puríssimas de Maria e pelo Coração Divino de Jesus, eu Te ofereço Teu Filho pregado na cruz e nela levantado, as feridas de Suas mãos e pés, o precioso sangue delas vertido por nós, Seus terríveis tormentos do corpo e do espírito, Sua preciosa morte e a incruenta renovação em todas as Santas Missas celebradas sobre a Terra. Ofereço tudo isto em expiação de todas as faltas cometidas contra os votos e as regras das ordens religiosas, em reparação de todos os meus pecados e dos outros homens, pelos doentes e moribundos, pelos sacerdotes e pelos leigos, pelas intenções do Santo Padre relacionadas à família cristã, pelo reforço da fé, pelo nosso país, pela unidade das nações em Cristo no seio da Igreja, e pela diáspora.

Pai Nosso
Ave-Maria

7) A ferida do lado de Jesus

Pai Eterno, aceita, pelas necessidades da Santa Igreja e em expiação dos pecados de toda a humanidade, a Água e o Sangue preciosíssimos derramados na ferida do Coração Divino de Jesus e os infinitos méritos que dele decorrem. Suplicamos que sejas bom e misericordioso conosco! Sangue de Cristo, último e precioso conteúdo do Sagrado Coração de Jesus, purifica-me e purifica todos os irmãos de suas culpas! Água de Cristo, libera-me de todas as penas merecidas em decorrência de meus pecados e apaga as chamas do Purgatório, para mim e para todas as almas penitentes. Amém.

Pai Nosso
Ave-Maria

Sede da Sabedoria

Autor: Michael Hichborn
Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

“Deus pode criar uma pedra tão pesada que nem Ele mesmo pode erguer?”, pergunta em sua essência uma antiga charada medieval.

À primeira vista a questão parece bastante absurda, pois afinal Deus é onipotente: Ele pode fazer qualquer coisa. Porém, quando consideramos as possibilidades, parece impossível responder afirmativamente à pergunta – por qualquer ângulo que se tente.

Deus pode criar qualquer coisa que deseje, de modo que é óbvio que Ele pode criar um objeto infinitamente pesado. Entretanto, Deus é também todo-poderoso, de maneira que Ele pode erguer qualquer coisa que crie. Portanto, qualquer que seja a resposta à questão, ou Ele não consegue criar a pedra, ou Ele não consegue erguê-la.

Ao longo dos séculos os filósofos tentaram encarar de frente a questão. São Tomás de Aquino afirma, por exemplo, que a origem do paradoxo é um mau entendimento ou um abuso da palavra “onipotência”. Na questão 25 da primeira parte da Suma Teológica, o Doutor Angélico diz:

As coisas, porém, que implicam contradição não constituem objeto da divina onipotência, por não poderem ter a natureza de coisas possíveis. Por isso, é mais conveniente dizer que não podem ser feitas, em vez de dizer que Deus não pode fazê-las. Nem isto vai contra as palavras do Anjo: Porque a Deus nada é impossível. Pois, o contraditório, não podendo ser conceito, nenhum intelecto pode concebê-lo.

Em outras palavras, uma contradição sempre implica uma impossibilidade, não importando se Deus é ou não o agente principal no experimento teórico proposto.

C.S. Lewis, ao invés de examinar a charada pelo critério lógico, enfrentou-o como um problema de definição. Em seu livro “A Grief Observed” [Uma Dor em Observação], Lewis escreveu:

Um mortal consegue fazer perguntas que Deus não pode responder? É bem fácil, eu diria. Todas as perguntas nonsense são irrespondíveis. Quantas horas há em um quilômetro? O amarelo é quadrado ou redondo? É provável que metade das questões que levantamos – metade de nossos grandes problemas teológicos e metafísicos – sejam assim.

O Natal já está aí às portas, e nós temos a chance de considerar a questão sob uma outra luz. Já peço desculpas a esses grandes pensadores maiores do que eu, mas humildemente venho aqui propor que não apenas Deus pode criar um objeto tão grande que não possa levantar, como já o fez.

Os grandes pensadores com certeza responderam à questão em seu valor de face, apontando a falta de sentido e de lógica que ela contém. Entretanto, com alguma compreensão das duas naturezas de Deus, notamos que há um elemento que não está sendo considerado.

A Santíssima Virgem Maria é o pináculo da criação de Deus, perfeita em todos os sentidos, sem mancha, e literalmente cheia da Graça Divina. Deus criou Maria para ser a ponte de perfeição entre Ele próprio e o homem. Sem a perfeição dela, não poderia haver uma passagem da divindade para a humanidade. E por meio do “faça-se” de Nossa Senhora, Deus se tornou homem: Nosso Senhor foi concebido em seu ventre.

Naquele exato instante, Nosso Senhor Bendito, que tem duas naturezas, se encontrava em total presença no ventre de Maria. Jesus é 100% Deus e 100% homem.

Sendo Deus, pelo poder do Espírito Santo, Ele se fez homem. E uma vez encarnado no ventre na Puríssima Virgem Maria, Ele se tornou completamente dependente dela para manter Sua vida e Seu sustento. Na verdade, depois de nascido, Ele não somente não podia erguê-la, mas pela primeira vez em toda a história humana, um ser humano foi capaz de olhar para BAIXO e ver o rosto de Deus.

Ao erguer o Cristo Menino para colocá-lo sobre seus joelhos, Nossa Senhora se tornou a Sede da Sabedoria.

Deus criou Maria… mas ao se fazer encarnado no ventre dela, Ele ao mesmo tempo criou algo (ou melhor, alguém) tão grande no tempo e no espaço, que nem Ele podia erguer.

(Traduzido do original publicado em 22/dezembro/2017 no “Catholic Week in Review”, boletim semanal do Instituto Lepanto.)

O Homem no Matrimônio

Autor: Pierre Dufoyer
Tradução: Ana Cândida Tocheton Cristofoletti
Revisão: André Carezia

Marido

A chave para se conhecer a psicologia de uma mulher constitui-se, principalmente, na riqueza de seu coração, de sua vida sentimental e de sua notável sensibilidade psíquica (…).

Sua força é o coração. Possui uma capacidade sentimental particularmente aflorada e por causa disso reage de maneira intensa a todas as emoções. Seus modos gentis e atenciosos no trato constituem prova visível desse afeto que lhe proporciona grande alegria (…). Uma mulher que ama possui mil maneiras de ser carinhosa, demonstrar delicadeza e agradar. Nessa arte é extremamente hábil. (…)

O marido deverá recordar-se que fará a esposa feliz, acima de tudo, quando a envolver com um intenso amor vindo de dentro de seu coração, aquele amor que se constitui no grande sonho de qualquer noiva. (…) Sem amor, a alma da mulher atrofia. Naturalmente, espera-se firmeza do marido, mas uma firmeza com amor. Dele emana força, mas uma força unida à delicadeza. É desejada a força masculina, mas entrelaçada com amor e carinho.

Enquanto busca cuidadosamente desvendar a natureza da própria esposa, o homem deve preocupar-se em possuir todas as verdadeiras características masculinas, mas sem os respectivos defeitos. Deve ser calmo, senhor de si, com retidão de caráter, seguro e enérgico em suas maneiras. Com esse comportamento firme nas diversas situações e dificuldades da vida, dá à esposa um reconfortante sentimento de segurança e confiança. (…) Aquele que compreende o segredo da verdadeira autoridade, sabe combinar firmeza com delicadeza, força com suavidade. Mas deverá também desvendar a natureza de sua esposa e fazê-la feliz.

Na convivência com a mulher amada, o homem descobre tesouros do coração que nenhuma outra pessoa pode oferecer. Por isso, deve tolerar, com caridade, suas fraquezas de caráter. (…) Nunca deve o marido perder a calma, nem mesmo em resposta ao temperamento emotivo da esposa. Nesses casos, é necessário um apoio efetivo ao invés de uma reação irritada, uma vez que não existem más intenções. O marido atencioso deve empreender a tarefa que o destina a ser o apoio e a proteção da própria mulher. A característica fundamental de sua natureza, e que o torna encantador, é a capacidade de unir a firmeza com a suavidade.


(Extraído da edição italiana do livro “A Intimidade Conjugal: o Livro do Marido”, de Pierre Dufoyer, publicado em 1957.)

Padre Pio e sua amiga de Chicago, Illinois: Clarice Bruno

(Traduzido por André Carezia do original em inglês. A história abaixo foi tirada do capítulo 21 do livro “Pray, Hope, and Don’t Worry: True Stories of Padre Pio”, de Diane Allen.)

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Clarice Bruno padrepio1nasceu em Chicago, Illinois, em uma família italiana católica e devota. Na juventude estudou em escolas católicas, e graduou-se no Rosemont College, uma excelente instituição católica em Villanova, Pennsylvania. Clarice, de modo geral, dava pouco valor à sua fé católica. Duvidava de vários ensinamentos da Igreja. Em seu coração havia uma indiferença – uma apatia – para com assuntos religiosos. Embora assistisse às Missas aos domingos, ela não se considerava uma boa católica.

Clarice fez os preparativos para uma viagem a Chiavari, na Itália, com a intenção de visitar seus amigos e parentes. Era para ser uma visita breve, mas a coisa se esticou muito além do que tinha planejado. A viagem a Chiavari foi tão proveitosa que ela decidiu morar lá definitivamente.

Feliz por estar novamente junto a seus parentes, Clarice também se alegrava por fazer novos amigos. Uma noite ela teve um sonho intenso. Ela caminhava, no sonho, em direção à igreja de Nossa Senhora das Graças de Chiavari, quando de repente a estrada ficou coberta de grandes pedras. Ela tentou passar por cima delas, mas a tarefa se mostrou impossível. De repente, uma grande mão surgiu detrás das pedras e ajudou-a. Num piscar de olhos, ela se achou diante da igreja. O grande obstáculo tinha sido ultrapassado.

Na frente da igreja, Clarice viu um Calvário composto de três cruzes de madeira. Por causa da cena que se desenrolava no horizonte, ela não conseguia elevar o olhar acima da base das cruzes. Ao longe, no horizonte, ela viu o mar cintilando com beleza sobrenatural. Os raios do sol dançavam sobre a água, fazendo-a brilhar como diamante. Clarice não conseguia tirar os olhos do cenário beatífico, e sentia uma intensa alegria no coração. Quando acordou, ela refletiu sobre o significado do sonho. Ela nunca tinha experimentado um sonho com tal beleza, e ficou imaginando se poderia ser sinal de algo importante que estava prestes a acontecer na vida dela. Ela não sabia. Naquele tempo, Clarice lutava contra uma cruz pesada, uma tristeza em sua vida. Ao se levantar de manhã, sua cruz já esperava por ela. Ao adormecer à noite, sua cruz ainda estava junto dela. Ela foi perdendo a coragem, até que resolveu contar alguns de seus problemas a uma gentil mulher que havia conhecido pouco tempo antes. A mulher deu-lhe um conselho: peça a intercessão de Padre Pio. E partilhou com Clarice alguns fatos acerca da vida de Padre Pio.

Clarice, de início cética a respeito das palavras da mulher sobre Padre Pio, passou a ficar mais interessada quando a mulher lhe relatou algumas das graças que ela tinha recebido pela intercessão de Padre Pio. “Acho que você deve escrever uma carta ao Padre Pio”, disse a mulher. “Na carta, você explica tudo que a incomoda. E pede ao Padre Pio que reze por você.” Convencida afinal de que era uma boa idéia, Clarice rapidamente escreveu uma carta e enviou-a, assumindo que o Padre Pio logo lhe escreveria de volta. Clarice imaginava que seria uma longa carta repleta de intuições espirituais e sábios conselhos. O que ela não sabia era que quem cuidava de toda a correspondência de Padre Pio eram seus secretários.

Uma noite, enquanto se preparava para deitar na cama, ela notou um perfume muito forte de rosas no quarto. E não conseguiu achar explicação alguma para a adorável fragrância, pois sabia que na casa não havia flores. Certamente não havia flores no quarto. Ela olhou até embaixo da cama para se certificar de que ninguém havia escondido rosas ali, mas, como suspeitava, não achou nada.

Na manhã seguinte, Clarice cumprimentou seu tio, seu pai, e vários outros amigos que estavam sentados à mesa de jantar no térreo. O tio de Clarice, que morava na casa com ela e sua família, contou-lhe a estranhíssima experiência que teve na noite anterior. Enquanto se preparava para deitar na cama, seu quarto foi preenchido pelo doce aroma de flores. Era um perfume fresco e delicioso de gardênias, depois cravos, depois violetas, e permaneceu no quarto por um longo tempo. Aconteceu entre meia-noite e meia e uma da manhã, e ele pensou se tratar de uma premonição da morte de algum amigo ou parente. Clarice disse ao tio que também ela tivera a mesma experiência aquela noite, com o delicioso perfume de rosas tomando conta de seu quarto por volta da meia-noite e meia.

Quando se encontrou novamente com a mulher que tinha lhe contado a história da vida de Padre Pio, Clarice contou-lhe a experiência que ela e seu tio tiveram em casa. A mulher explicou então à Clarice que o Padre Pio tinha o costume de fazer as pessoas saberem que ele estava intercedendo por elas, e o jeito de fazer isso era permitir que elas sentissem uma maravilhosa fragrância.

Clarice nunca tinha ouvido falar de tais dons, e pensou na carta que tinha escrito ao Padre Pio. Ele enviara a carta apenas três dias antes, e estava convencida de que ele tinha recebido e que seu espírito estava com ela, fato que ele demonstrava pelo perfume de rosas. Clarice sentiu que uma grande esperança crescia em seu coração. Tinha fé que o Padre Pio a ajudaria nas dificuldades.

Clarice escreveu uma segunda carta ao Padre Pio. Nela, agradeceu pela fragrância de rosas que ela tinha sentido. E incluiu um donativo dentro da carta. Ela disse-lhe que tinha fé nele, e que aguardava uma resposta. Poucos dias depois desta segunda carta, ela percebeu uma fragrância de lírios à volta dela. A maravilhosa fragrância começou repentinamente e com grande intensidade, desaparecendo tão rápido quanto começou.

Clarice decidiu escrever uma terceira carta ao Padre Pio, na qual agradeceu novamente a ele pela fragrância de rosas e lírios. Escreveu que estava esperando ouvir as palavras de sabedoria dele, e novamente incluiu um donativo dentro da carta. Depois de enviar a carta, os perfumes encantadores sumiram completamente. Não houve mais sinais tangíveis da presença de Padre Pio.

Clarice ia todos os dias ao correio para ver se alguma carta de Padre Pio estava esperando por ela, mas nenhuma carta chegava. Ela pensava muitas vezes em seu sonho, e na mão que a erguera por sobre a barreira de pedras, colocando-a bem na entrada da igreja de Nossa Senhora das Graças. Havia uma barreira em sua própria vida, uma cruz que ela carregava diariamente. Ela queira se livrar disso, mais do que qualquer outra coisa. Ela se apegava à esperança de que o Padre Pio pudesse ajudá-la.

Certa noite, o quarto escuro de Clarice ficou iluminado por uma suave luz, parecida com o luar. Ela viu, por mais incrível que fosse, o Padre Pio parado ao pé da cama. Ele estava usando uma túnica marrom dos capuchinhos. Ao redor da cintura ele usava a corda dos capuchinhos, e apoiava nela uma das mãos. Ele usava luvas cobrindo parcialmente suas mãos. Havia medo no coração de Clarice, ao mesmo tempo que não havia. Padre Pio disse a ela três palavras, mas ela não entendeu o significado das palavras. Ela tentou acender a luz ao lado da cama, mas por alguma razão a luz não funcionou.

Padre Pio repetiu uma segunda vez as três palavras, aquelas que ela não entendeu. E novamente ela apertou o interruptor para ligar a luz, mas a luz não ligava. Uma terceira vez o Padre Pio disse as palavras misteriosas. E então ele desapareceu. O suave brilho que lembrava a luz do luar desapareceu juntamente com ele. Clarice tocou no interruptor de luz e desta vez ela acendeu facilmente. No momento em que a luz acendeu, ela viu a porta do quarto abrir como se alguém estivesse deixando o quarto.

Ver o Padre Pio ao pé de sua cama era algo que Clarice nunca teria julgado possível. Tendo esperado tanto tempo por uma carta dele, e nunca tendo recebido nenhuma, ela já nem se preocupava mais com isso. Ela tinha recebido algo muito maior que uma carta. O Padre Pio tinha vindo pessoalmente. Clarice agora tinha certeza de que o Padre Pio estava ciente das necessidades dela, e de a guiaria pelo bom caminho.

Meses mais tarde, Clarice viajou a Roma para visitar sua grande amiga, Margherita Hamilton. Margherita, ao saber das coisas que Clarice tinha aprendido recentemente sobre o Padre Pio, disse que Clarice tinha que considerar uma visita ao Padre Pio em San Giovanni Rotondo. Depois de discutirem os detalhes, elas decidiram fazer juntas a viagem. Embarcaram em um trem em Roma para Foggia, e de lá pegaram um ônibus para San Giovanni Rotondo.

Quando Clarice e Margherita chegaram a San Giovanni Rotondo, sentiram como se tivessem voltado no tempo. San Giovanni Rotondo era uma vila primitiva naqueles anos após a II Guerra Mundial. Tanto os homens quanto as mulheres montavam em mulas e charretes puxadas a cavalo, e assim andavam pela cidade. Eletricidade e água corrente eram coisas escassas. Em algumas partes da cidade, inexistentes. Para chegar ao poço público, as mulheres locais andavam pela rua principal carregando ânforas. Clarice descreveu San Giovanni Rotondo como “um lugar semi-selvagem”.

Havia dois hotéis na cidadezinha, e nenhum deles estava em boas condições. Clarice e Margherita se consideraram sortudas por achar alojamento no mais limpo deles. Para chegar à Missa matutina do Padre Pio, elas tiveram que acordar no meio da noite e andar no escuro por três quilômetros. Isso porque não havia, para guiá-las até a igreja, nenhuma luz na estrada.

Durante o primeiro dia em San Giovanni Rotondo, Clarice e Margherita conheceram Maria Pyle. Maria morava em uma casa espaçosa, localizada bem perto do mosteiro. Cercada por um bosque de amêndoas, a casa rosada de Maria era um refúgio para inúmeros peregrinos que vinham ver o Padre Pio. Clarice e Margherita tiveram sorte de conseguir alugar dois quartos na casa de Maria e ficar neles até o final da viagem.

Maria Pyle padrepio2sabia que as acomodações eram escassas em San Giovanni Rotondo, e fez o possível para ajudar. Para oferecer hospitalidade aos peregrinos que precisavam de alojamento, ela colocou três camas desmontáveis no porão da casa. Para prover acomodações para mais gente, Maria construiu outro andar em sua casa.

Mesmo sendo muito grata pela hospitalidade, Clarice achava que o quarto oferecido por Maria Pyle deixava muito a desejar. Era úmido e frio, e Clarice não conseguia aquecer nem um pouco o lugar. Havia um forno a lenha no canto do quarto, mas estava lamentavelmente quebrado. A mesinha-de-cabeceira consistia em um pedaço de tábua sobre uma pilha de tijolos. A cama de Clarice era bem curta e bem estreita. O colchão, preenchido por folhas secas e palhas de milho, era no mínimo muito desconfortável. Apesar disso tudo, ela preferia esse quarto ao quarto do porão.

Maria era admirável, com seu verdadeiro espírito franciscano e seu desapego dos confortos e objetos mundanos. Sua própria cama era ainda menos confortável que a cama dada à Clarice. Era mais um baú de madeira do que uma cama. Ninguém conseguia entender como Maria conseguia dormir em uma cama tão dura. Era comum que as pessoas a provocassem em relação à cama, mas nunca conseguiram persuadi-la a trocar a cama por outra mais confortável.

Maria, nascida em uma família rica da cidade de Nova Iorque, visitou o mosteiro do Padre Pio pela primeira vez em 1923. Ficou tão impressionada de assistir à Missa dele e receber sua benção sacerdotal, que decidiu se mudar definitivamente para San Giovanni Rotondo. Maria tinha abandonado realmente seu estilo de vida afluente da cidade de Nova Iorque.

Maria estava em vias de se mudar para um quarto pequeno e modesto perto do porão de sua casa, quando Clarice e Margherita apareceram pela primeira vez. O quarto que Maria vinha usando era grande e confortável, tendo inclusive uma varanda ensolarada. Para oferecer esse agradável quarto aos peregrinos, ela decidiu se mudar para o andar de baixo da casa.

Durante sua estadia em San Giovanni Rotondo, Clarice e Margherita ficaram impressionadas pelas várias obras de caridade de Maria. Muita gente na cidade era analfabeta, e sempre batiam na porta de Maria para que ela escrevesse cartas para elas. Elas ditavam as cartas e Maria escrevia. Ela sempre ficava muito contente por ser útil.

Juntamente com algumas companheiras, Maria assava as hóstias que eram usadas na Sagrada Comunhão no mosteiro, e costurava as vestes sacerdotais dos Capuchinhos. Trabalhava pesado, e tinha pouco tempo de sobra. O Padre Pio conhecia muito bem esse coração generoso de Maria. Ele sempre mandava à casa dela várias pessoas que tinham necessidades de algum tipo, sabendo que Maria daria o melhor de si para as ajudá-las.

As crianças em San Giovanni Rotondo adoravam visitar Maria em sua casa. Ela sempre jogava com elas, e sempre tinha pequenas recompensas para tais ocasiões. Um dos jogos preferidos era “Lotto”[1]. Maria sempre incluía alguma lição do catecismo quando as crianças da cidade a visitavam. Por causa dos esforços contínuos e dedicados dela, as crianças do local possuíam uma compreensão impressionante da fé católica. Quando as crianças estavam prontas para a primeira comunhão, e seus pais não tinham condições financeiras, Maria comprava ternos para os meninos e vestidos brancos para as meninas.

Clarice se considerava muito feliz por poder passar um tempo ao lado de Maria Pyle e de outras almas devotas que ajudavam na obra de Padre Pio. Desde que chegara, Clarice ansiava por ir se confessar com Padre Pio, e finalmente a oportunidade apareceu. Quando Clarice entrou no confessionário e se ajoelhou, ela se deu conta do fato de que a mão de Padre Pio estava pousada na corda de seu hábito capuchinho. E lembrou que a mão dele estava exatamente na mesma posição quando ele a visitou – por bilocação – na casa em Chiavari. Clarice também reparou nos olhos de Padre Pio, que pareciam ver bem lá dentro de sua alma. Havia também uma certa severidade no olhar dele.

No confessionário, Padre Pio disse a Clarice que somente ele iria falar. E começou então a nomear os pecados dela, um por um. A cada vez que ele listava um, ela confirmava que era verdade. Ele deu a ela um conselho em relação ao fardo que ela tinha carregado no coração por tanto tempo, e disse-lhe que ela estava enfrentando um “verdadeiro calvário”. “Mesmo que não consiga sentir alegria ao carregar sua cruz, tente pelo menos praticar a resignação e a paciência”, ele falou a ela.

A confissão com o Padre Pio terminou em menos de três minutos. Ela não precisou explicar coisa alguma a ele. Obviamente ele tinha ciência de tudo na vida dela. Em poucas e curtas palavras, ele foi capaz de aconselhá-la e renovar-lhe as esperanças.

Pelo fato da casa de Maria Pyle ser tão gelada, Clarice tinha o costume de caminhar rapidamente para cima e para baixo na rua defronte à casa, para assim tentar se esquentar. Um dia, enquanto caminhava diante da igreja de Nossa Senhora das Graças, Clarice olhou lá dentro e percebeu várias mulheres da cidade limpando a igreja. E ficou sabendo que elas seguiam regularmente um cronograma de limpeza semanal. Clarice se juntou às mulheres nessa tarefa e considerou isto um grande privilégio.

A igreja monástica de Nossa Senhora das Graças tinha uma simplicidade franciscana e uma beleza que elevava o espírito. Belas estátuas estavam dispostas nos nichos e alcovas, e uma cativante pintura de Nossa Senhora das Graças tinha seu lugar fixo no santuário. Sobre a mesa da comunhão ficava um arco no qual se pintaram rosas e lírios bem delicados. Clarice se lembrava, com isso, de sua experiência em Chiavari, quando a agradável fragrância de rosas e lírios enchera o quarto.

Todas as tardes, os padres e irmãos capuchinhos se reuniam no coro da igreja para recitação de suas preces comunitárias. Nessas horas, Clarice e as outras mulheres que limpavam a igreja observavam um silêncio absoluto, e tomavam todos os cuidados para não atrapalhar os capuchinhos. Clarice conseguia distinguir, dentre todos, a voz de Padre Pio durante as orações em voz alta. Ele nunca se apressava com as orações, mas pronunciava cada palavra lentamente e com muita consideração. Clarice notava sempre uma certa tristeza na voz de Padre Pio quando ele rezava com seus confrades capuchinhos.

Clarice e Margherita conseguiam assistir à Missa do Padre Pio todas as manhãs, e consideravam isso um grande e inestimável dom. No momento da Sagrada Comunhão, as pessoas da assembléia caminhavam até o último degrau da escadaria do presbitério. Ali eles se ajoelhavam diante de Padre Pio para receber a Sagrada Comunhão. Isto evitava que ele tivesse que descer até a mesa da comunhão para distribuir a Sagrada Comunhão. As dolorosas feridas dos estigmas que perfuravam seus pés tornavam o seu caminhar muito difícil.

Após a Missa matutina de Padre Pio, ouviam-se as confissões na igreja até às 10 da manhã. Depois das confissões, cessava toda atividade na igreja, retornando apenas na manhã seguinte. Todos as dias de sua visita, Clarice e Margherita tinham tempo de sobra para explorar a cidade. De vez em quando, elas caminhavam até o cemitério onde os pais de Padre Pio estavam enterrados, e rezavam no túmulo deles.

Enquanto ficaram em San Giovanni Rotondo, Clarice e Margherita conheceram um homem gentil chamado Mário, que possuía um restaurante junto com sua esposa na cidade. O restaurante tinha um chão sujo e – coisa curiosa – um poço bem no meio dele. O restaurante mais parecia um quartinho do que um lugar para refeições. nos dias frios, o vento soprava através das rachaduras nas paredes. Era com certeza um lugar bem primitivo.

A mulher de Mário tinha uma devoção ao Padre Pio. Uma ocasião, ao se confessar com Padre Pio, ela lhe contou sobre sua aflição com seu filho de quatro anos. “Estou preocupada”, ela disse ao Padre Pio. “Tenho que trabalhar no restaurante o tempo todo com o Mário, e não consigo dar ao meu filho o tempo e a atenção de que ele necessita.” Padre Pio disse a ela para não se preocupar. E disse que ele sempre cuidaria do filho dela, e o protegeria dos perigos. A mulher deixou o confessionário muito consolada.

Alguns dias depois, a mulher ouviu o som de um grito vindo da rua. Ao sair correndo do restaurante para descobrir o que havia acontecido, ela viu o filho dela sendo tirado debaixo de um enorme caminhão. Depois, em confissão ao Padre Pio, ela contou a ele sobre o terrível incidente. “Meu filho quase foi morto por um enorme caminhão”, a mulher disse. “Bom, ele se machucou?” perguntou o Padre Pio. “Não, não se machucou”, respondeu a mulher. “Ele teve algum arranhão?” perguntou o Padre Pio. “Não, nem isso”, a mulher replicou. “Então”, disse o Padre Pio. “Eu lhe disse que o protegeria.”

Passaram rápido os dias da visita de Clarice e Margherita em San Giovanni Rotondo. Quando chegou a hora de voltarem para suas casas, elas sabiam que tinham sido abençoadas muito além das expectativas. Elas fizeram muitas viagens a San Giovanni Rotondo nos anos subseqüentes.

Certo verão, padrepio3quando visitava o mosteiro, Clarice caiu muito doente. Era um doloroso problema intestinal, para o qual nenhum dos remédios que ela tentou foi de grande ajuda. Ela então se lembrou da água benta de Padre Pio. Havia um poço no pátio do mosteiro, e tanto o poço quanto a água haviam sido abençoados por Padre Pio. Muitos dos residentes da cidade tinham grande fé em seu poder curativo, e levavam a água para casa em garrafas. Clarice bebeu um pouco dessa água benta e foi imediatamente curada do problema intestinal.

Era comum que Clarice convidasse seus amigos e parentes para acompanhá-la em suas viagens a San Giovanni Rotondo. Ela também começou a organizar peregrinações, e foi importante ao fundar alguns grupos de oração do Padre Pio na região dela. Clarice se manteve dedicada à promoção do Padre Pio pelo resto da vida dela. “Tente ficar sob o olhar de Deus, e Deus vai sempre testemunhar por você”, disse-lhe o Padre Pio em uma ocasião.

Quando Clarice foi diagnosticada com uma doença incurável, sua fé permaneceu firme. Ela tinha esperança de se recuperar, mas estava completamente resignada à vontade divina. Ela dizia que a Divina Providência sempre tinha arranjado para o bem as coisas em sua vida. “Se acontecer de eu morrer logo, eu sei que isso será o melhor para mim”, contou ela à sua querida amiga Margherita Hamilton. Clarice Bruno morreu em paz, em 5 de agosto de 1970.

“Exorto vocês a se unirem a mim. Aproximemo-nos de Jesus para recebermos Seu abraço e um beijo que nos santifica e salva… Não cessemos então de beijar assim este Filho divino, porque se forem estes os beijos dados a Ele agora, Ele mesmo virá para tomar-nos em Seus braços e dar-nos o beijo da paz nos últimos sacramentos na hora da morte”. São Pio de Pietrelcina.

Notas:

[1] Lotto é um jogo tradicional nos EUA; é jogado como Bingo, só que com desenhos ao invés de números.

Santo Agostinho, Bispo e Doutor da Igreja

Autor: Dom Próspero Gueranger, in “O Ano Litúrgico”

Tradução: André Carezia

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A ALMA DOS SANTOS — “Quão admirável é Deus em Seus Santos!”[1] Esta exclamação do Salmo nos é sugerida pela liturgia quase todos os dias. Dentre todos os espetáculos oportunos para alegrar-nos e animar-nos, nenhum há que cause tanta admiração como a alma de um santo. “Que formosa é uma alma!”, dizia o santo Cura d’Ars; e santa Catarina de Gênova exclamou no dia em que recebeu do céu o favor de contemplar uma alma em estado de graça: “Senhor, se eu não soubesse que há um só Deus, creria que esta alma é um deus.” A Igreja se compraz em trazer à nossa memória a recordação dos santos, agrupar-nos junto a seus altares, expor suas relíquias para a nossa veneração, e propor-nos seus exemplos e conselhos. Neles, mostra-nos o que a natureza e a graça têm de mais elevado e mais suave, de mais misterioso e mais atraente.

agostinho

SANTO AGOSTINHO — É muito difícil comparar os méritos dos santos para averiguar quais são os maiores, e talvez seja preferível nem sequer tentá-lo. Contudo, não podemos deixar de reconhecer naquele que a Igreja celebra hoje “o homem que, unido ao corpo místico de Cristo por um milagre, provavelmente não teve nunca, a julgar pela história, em tempo algum e em povo algum, outro que lhe igualasse em grandeza e em sublimidade.”[2]

É destes homens suscitados por Deus para que, com seu talento superior e com suas obras, adaptando-se às necessidades de sua época e de todos os tempos, fortaleçam e continuem sustentando o povo cristão, sobretudo quando o poder das trevas se apresenta mais ameaçador e o erro se propaga com maior facilidade. “É, dizia Leão XIII, um talento vigoroso que, dominando todas as ciências humanas e divinas, combateu todos os erros de seu tempo;”[3] e se a autoridade de sua palavra não pode se colocar acima da autoridade da Igreja docente, sabemos ao menos que “a Igreja romana segue e conserva a doutrina de Santo Agostinho.”

O AMANTE DA SABEDORIA — Santo Agostinho é, em primeiro lugar, o amante da Sabedoria, a qual é Deus: “Ama somente Ela, por Ela mesma, e unicamente por Ela ama o descanso e a vida.[4] Ouçamo-lo por um momento a desafogar seu coração, que foi objeto de tão grande misericórdia: ‘Tarde Te amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde Te amei!’ E Tu estavas dentro de mim e eu fora, e por fora Te buscava…[5] Perguntei à terra e ela me disse: ‘Não sou eu aquele que tu buscas’; e todas as coisas que nela há me confessavam o mesmo. Perguntei ao mar e aos abismos e aos répteis de alma viva, e me responderam: ‘Não somos teu Deus; busca-O acima de nós.’ Interroguei o ar que respiramos, e o vento, com seus moradores, me disse: ‘Engana-se Anaxímenes, eu não sou teu Deus.’ Perguntei ao céu, ao sol, à lua e às estrelas: ‘tampouco somos nós o Deus que buscas’, me responderam. Disse então a todas as coisas que estão fora das portas de minha carne: ‘dizei-me algo de meu Deus, já que vós não O sois; dizei-me algo dEle.’ E exclamaram todas com grande voz: Ele nos fez[6]. Se houvesse alguém no qual silenciasse o tumulto da carne; e silenciassem as imagens da terra, da água e do ar; e silenciasse o próprio céu, e ainda a própria alma silenciasse e se elevasse acima de si, sem pensar em si; se silenciassem os sonhos e revelações imaginárias; e se, enfim, silenciasse por completo toda língua, todo sinal e tudo quanto sucede, posto que todas estas coisas dizem a quem lhes dá ouvidos: ‘Não nos fizemos a nós mesmas, mas Aquele que permanece eternamente foi quem nos fez’; se, dito isto, silenciassem e voltassem o ouvido Àquele que as fez, e somente Ele falasse, não por elas, mas por Ele mesmo, de modo que ouvissem Sua palavra, não por língua de carne, nem por voz de anjo, nem por som de nuvens, nem por enigmas de semelhança, mas sim que O ouvíssemos a Ele mesmo, a quem amamos nestas coisas, a Ele mesmo sem elas, como no presente nos elevamos e tocamos rapidamente com o pensamento a eterna Sabedoria, que permanece sobre todas as coisas; se, por último, este estado continuasse e fossem afastadas dEle as demais visões de índole muito inferior, e estas somente arrebatassem, absorvessem e confundissem os gozos mais íntimos de seu contemplador, de modo que a vida eterna fosse qual este momento de intuição pelo qual suspiramos, não seria isto o Entrar no gozo de teu Senhor[7]? Chamaste e clamaste, Senhor, e rompeste minha surdez; brilhaste e resplandeceste, e afugentaste minha cegueira; exalaste Teu perfume e respirei, e suspiro por Ti; gostei de Ti, e sinto fome e sede; tocaste-me, e me abrasei em Tua paz. Quando me unir a Ti com todo meu ser, já não haverá mais dor nem esforço para mim.”[8]

O DOUTOR DA IGREJA — Por muito tempo, Agostinho foi escravo das concupiscências e das paixões de seu coração; por muito tempo sua inteligência esteve presa pelos horrores maniqueístas, e muito lhe custou romper também estes laços e voltar a falar a verdade da Igreja católica. Porém, uma vez convertido, empreendeu resolutamente a ofensiva contra o erro. Vinha no rastro dos célebres doutores Clemente de Roma, Irineu, Hilário, Atanásio, Ambrósio, Basílio, João Crisóstomo; mas são seus ensinamentos orais e escritos ao longo de quase meio século que mais nos admiram.

Declara-se inimigo do maniqueísmo, do qual em outros tempos fora apóstolo convicto, e reduz a nada essa estranha heresia, que, para explicar a existência do mal, havia imaginado divinizá-lo e colocá-lo contra o Deus bom. Nesta luta, entretanto, Agostinho mostra sua alma repleta de mansidão para com aqueles com quem compartilhou tanto tempo a mesma ilusão: “Que sejam severos convosco os que não sabem quão raro é, e quanto custa, chegar a superar com a serenidade de uma alma piedosa os fantasmas dos sentidos. Mostrem-se duros os que ignoram com que trabalho se cura o olho do homem interior, para olhar para seu sol, o sol de justiça; os que não sabem com que ânsias e com que gemidos se chega a entender um pouco de Deus. Tolero, enfim, a intransigência daqueles que jamais conheceram tal sedução como a que vos faz viver equivocados… De minha parte, de modo algum serei exigente convosco, porque, além do meu espírito procurar fantasias fúteis que lhe arrastaram para todo lado, eu tomei parte nessa vossa miséria, e tive que chorar muito.” [9]

Era-lhe mais agradável demonstrar aos homens seu fim último e o único meio de conseguir a bem-aventurança, como o faz nesta famosa oração: “Fizeste-nos para Ti, ó Deus meu, e nosso coração está inquieto até que descanse em Ti;” [10] e recordar-lhes que inutilmente tentariam alcançar o céu sem a submissão e a obediência que se devem à Igreja católica, que é a única instituída por Deus para levar às almas a luz e a força. O próprio santo tinha supremo empenho em submeter-se à autoridade da Igreja docente, convencido de que, enquanto assim agisse, não se afastaria nem um milímetro da verdadeira doutrina.

De modo especial, agrada-lhe defender a natureza da graça, já que sabe muito bem quanto deve a ela. Sua oração preferida: “Senhor, concede-me o que ordenas, e ordena o que queres”[11], feria o orgulho do monge Pelágio, para quem a natureza era onipotente para fazer o bem, e se bastava totalmente para a salvação, posto que o pecado original não a havia modificado. Fez um estudo sobre a graça, tão completo e perfeito, que passou a ser chamado de “Doutor da Graça”; estudo que os escritores católicos, dali em diante, passaram a consultar ao tratarem desse tema, para, seguindo seus ensinamentos e os ensinamentos da Igreja, verem-se livres de cair em erro.

O ENSINAMENTO DE SUA VIDA — Há, entretanto, outro ensinamento que Agostinho dava aos fiéis: o de sua vida virtuosa. Posídio, seu primeiro biógrafo, assegurava que “os que puderam vê-lo e ouvi-lo pregar na igreja, e sobretudo os que desfrutaram de suas conversas, tiraram muito proveito. Porque não somente era um sábio nas coisas do reino dos céus, mas era daqueles de quem havia dito o Salvador: aquele que praticar e ensinar aos homens desta maneira, este será grande no reino dos céus.” Buscou ardorosamente a caridade como a mais nobre das virtudes, e cultivou-a com tal constância que lhe valeu ser representado com um coração de fogo na mão; sua alma, por vezes, voltava-se a Deus, como ele mesmo nos contou no famoso episódio do êxtase de Óstia. É que se entregava sem interrupção a contemplar a vida de Cristo; além disso, esforçava-se para reproduzir em si o modelo divino, devolvendo amor por amor, como ele aconselhava às virgens: “Esteja gravado em vosso coração Aquele que por vós foi cravado na cruz.”

AS PROVAS — Não podia faltar a provação de dor a esta grande alma. Nem devemos imaginar o santo em amena meditação, ou escrevendo na paz de uma singela cidade episcopal, escolhida para tal pela Providência, essas obras preciosas cujos frutos o mundo colheria até nossos dias. Nesta vida não há fecundidade sem padecimento, sem tribulações públicas ou privadas, sem sacrifícios conhecidos por Deus ou pelos homens; quando, ao ler os escritos dos santos, brotam em nós piedosos pensamentos e resoluções generosas, não devemos nos contentar, como se fossem livros profanos, em render um tributo de admiração ao gênio de seus autores; devemos, ao contrário, pensar ainda mais em quanto lhes custou esse bem sobrenatural que produzem em nossas almas. Antes de Agostinho chegar a Hipona, os donatistas já eram tal maioria que o santo conta que se valiam disso até para proibir assar pães para os católicos[12]. Quando o santo morreu, as coisas haviam mudado notavelmente; mas foi necessário que o pastor, colocando em primeiro lugar o dever de salvar a todo custo as almas que se lhe haviam confiado, gastasse seus dias e suas noites nesta obra essencial, correndo mais de uma vez o feliz perigo do martírio[13]. Os chefes dos cismáticos, temendo mais a força de seus argumentos do que sua eloqüência, negavam-se a disputar com ele, e haviam tornado público que matar Agostinho seria uma obra louvável, merecedora do perdão de todos os pecados de quem se comprometesse a levá-la a cabo[14].

“Rogai por nós”, dizia no início de seu ministério, “rogai por nós, que vivemos de maneira tão precária, entre dentes de lobos furiosos; ovelhas desgarradas, ovelhas obstinadas, que se aborrecem porque vamos atrás delas, como se seus extravios fizessem-nas não ser nossas.”[15]

SEU ZELO — E para com seu rebanho fiel, que abnegação e que bondade manifestava o Pastor! É uma delícia vê-lo em meio a seu povo, falando-lhe familiarmente, deixando-se cercar e cativar por ele. Sua porta sempre aberta a todos os que chegavam, atendia todo pedido, toda dor, todo litígio. Às vezes, ante a insistência das outras igrejas e dos concílios que reivindicavam seus trabalhos e conselhos, Agostinho e seus visitantes faziam um pacto que, por certo, durava muito pouco, porque sobretudo os pobres e os humildes sabiam que a vida e o coração do santo era para eles.

Seria preciso ler todas as suas obras, o relato de suas “Confissões”, seus sermões e suas homilias para chegar a compreender esta alma incomparável. Pio XI, ao encerrar a encíclica que dedicou a seu louvor, dizia que “sua vida e seus méritos, seu agudo talento, a amplitude e a profundidade de sua ciência, a sublimidade de sua santidade, a luta que teve que travar para defender a verdade católica, fazem com que não se possam encontrar, por assim dizer, outros homens, ou muito poucos a quem compará-lo, desde o princípio do mundo até hoje.”

A grandeza dos santos não se parece com a dos poderosos deste mundo; estes nos assustam e aqueles, ao contrário, nos atraem e nos infundem confiança. Não nos desanimam nem a sublimidade de seu talento, nem a santidade de sua vida, nem o rigor de sua penitência, nem o fogo de sua caridade. Pelo dogma da Comunhão dos Santos, sabemos que são nossos irmãos; e, por estarem próximos ao Senhor, parecem-se com Ele, participam de Sua ternura, de Sua benignidade, de Sua misericórdia. Deixaram-nos seus exemplos e seus ensinamentos, e agora oferecem sua oração e seus méritos para que, embora de longe, sigamo-los pelo caminho que leva a Deus. Tomara que cheguemos a nos unir intimamente e para sempre com este Deus, o qual Agostinho se lamentava “de haver conhecido e começado a amar demasiado tarde”!

VIDA — Agostinho nasceu em Tagaste, na Numídia, em 13 de novembro de 354, de pai pagão e de mãe cristã, Santa Mônica. De inteligência brilhante, estudou em Cartago, depois em Roma e em Milão, onde ensinou a retórica. Em sua juventude conheceu a desordem dos sentidos e caiu na heresia maniqueísta. Tocado porém pela graça obtida pelas orações e lágrimas de sua mãe Santa Mônica, iluminado pelos ensinamentos e conselhos de Santo Ambrósio, converteu-se e recebeu o batismo em 25 de abril de 387. Pouco depois chegou à África para ali praticar, com muitos outros discípulos, uma vida monástica totalmente dedicada à oração e ao estudo. Em 391 se ordenou sacerdote. Sua ciência, sua eloqüência, sua santidade, valeram-lhe para substituir Valério, bispo de Hipona. Durante cerca de quarenta anos se entregou ao ensino de seu povo, à conversão dos hereges e a escrever suas inumeráveis obras. Morreu em 430, quando os vândalos cercaram sua cidade.

SÚPLICA — Enfim, após doze séculos, voltamos a ver a Cruz na África tão querida, onde perecera até o nome de muitas igrejas florescentes em outros tempos. Queira Deus que a liberdade de que agora desfruta permita-lhe alcançar rapidamente seu triunfo sobre o Corão! Tomara que a nação que hoje protege teu solo natal possa sentir-se orgulhosa desta nova honra, e compreenda as obrigações que disso derivam!

Teus feitos, contudo, não se amorteceram no decorrer desta noite prolongada. Tuas obras imortais iluminaram as inteligências e despertaram o amor através do mundo inteiro. Nas basílicas atendidas por teus filhos e imitadores, o esplendor do culto divino e a perfeição das santas melodias mantiveram no coração dos povos a alegria sobrenatural que se apoderou de ti ao ressoar pela primeira vez em nosso Ocidente o canto alternado dos salmos e dos hinos litúrgicos[16] sob a direção de Ambrósio. Em todas as épocas, a vida perfeita renovou sua juventude com as mil formas com que o mandamento duplo da caridade exige revesti-la, bebendo nas águas que correm de tuas fontes[17].

Ilumina continuamente a Igreja com tuas luzes incomparáveis. Bendize as muitas famílias religiosas que se amparam em teu insigne patrocínio. Ajuda-nos a todos, alcançando-nos o espírito de amor e de penitência, de confiança e de humildade, que orna tão bem com uma alma resgatada; ensina-nos quão débil e indigna é a natureza depois da queda, mas também dá-nos conhecer a bondade sem limites de nosso Deus, a superabundância de Sua redenção, a onipotência de Sua graça. E que, contigo, todos saibamos não somente reconhecer a verdade, mas também dizer a Deus de modo leal e prático: “Fizeste-nos para Ti, e nosso coração está inquieto até que descanse em Ti.”[18]

[1] Salmo 67, 36.

[2] Encíclica Ad salutem humani, de 20 de abril de 1930.

[3] Encíclica Aeterni Patris.

[4] João II, Registro de Cartas, l. X , c. XXXVII.

[5] Confissões, l. X, c. XXVII.

[6] Confissões, l. X, c. VI.

[7] Confissões, l. IX, c. X.

[8] ibid, l. X, c. XXVII.

[9] Contra epist. Manichael quam vocant fundamenti, 2-3.

[10] Confissões, l. I, c. I.

[11] Confissões, l. X , cc. XXIX, XXXI.

[12] Contra litteras Petiliani, II, 184.

[13] Posidius, Vita Augustini, 13.

[14] ibid., 10.

[15] Sermão XLVI, 14.

[16] Confissões, l. IX , cc. VI, VII.

[17] Prov 5, 16.

[18] Confissões, l. I, c. I.

A Conversão de São Paulo

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At 9, 1-22

Enquanto isso, Saulo só respirava ameaças e morte contra os discípulos do Senhor. Apresentou-se ao príncipe dos sacerdotes, e pediu-lhe cartas para as sinagogas de Damasco, com o fim de levar presos a Jerusalém todos os homens e mulheres que achasse seguindo essa doutrina.

Durante a viagem, estando já perto de Damasco, subitamente o cercou uma luz resplandecente vinda do céu. Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? Saulo disse: Quem és, Senhor? Respondeu ele: Eu sou Jesus, a quem tu persegues. [Duro te é recalcitrar contra o aguilhão. Então, trêmulo e atônito, disse ele: Senhor, que queres que eu faça? Respondeu-lhe o Senhor:] Levanta-te, entra na cidade. Aí te será dito o que deves fazer.

Os homens que o acompanhavam enchiam-se de espanto, pois ouviam perfeitamente a voz, mas não viam ninguém. Saulo levantou-se do chão. Abrindo, porém, os olhos, não via nada. Tomaram-no pela mão e o introduziram em Damasco, onde esteve três dias sem ver, sem comer nem beber. Havia em Damasco um discípulo chamado Ananias. O Senhor, numa visão, lhe disse: Ananias! Eis-me aqui, Senhor, respondeu ele. O Senhor lhe ordenou: Levanta-te e vai à rua Direita, e pergunta em casa de Judas por um homem de Tarso, chamado Saulo; ele está orando.

(Este via numa visão um homem, chamado Ananias, entrar e impor-lhe as mãos para recobrar a vista.) Ananias respondeu: Senhor, muitos já me falaram deste homem, quantos males fez aos teus fiéis em Jerusalém. E aqui ele tem poder dos príncipes dos sacerdotes para prender a todos aqueles que invocam o teu nome.

Mas o Senhor lhe disse: Vai, porque este homem é para mim um instrumento escolhido, que levará o meu nome diante das nações, dos reis e dos filhos de Israel. Eu lhe mostrarei tudo o que terá de padecer pelo meu nome. Ananias foi. Entrou na casa e, impondo-lhe as mãos, disse: Saulo, meu irmão, o Senhor, esse Jesus que te apareceu no caminho, enviou-me para que recobres a vista e fiques cheio do Espírito Santo.

No mesmo instante caíram dos olhos de Saulo umas como escamas, e recuperou a vista. Levantou-se e foi batizado. Depois tomou alimento e sentiu-se fortalecido. Demorou-se por alguns dias com os discípulos que se achavam em Damasco. Imediatamente começou a proclamar pelas sinagogas que Jesus é o Filho de Deus. Todos os seus ouvintes pasmavam e diziam: Este não é aquele que perseguia em Jerusalém os que invocam o nome de Jesus? Não veio cá só para levá-los presos aos sumos sacerdotes?

Saulo, porém, sentia crescer o seu poder e confundia os judeus de Damasco, demonstrando que Jesus é o Cristo.

(A reflexão que segue é retirada das Catequeses Paulinas de Bento XVI, de 3 de setembro de 2008; o original está em https://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2008/documents/hf_ben-xvi_aud_20080903.html)

A catequese de hoje será dedicada à experiência que São Paulo teve no caminho de Damasco, e portanto ao que comumente se chama a sua conversão. Precisamente no caminho de Damasco, nos primeiros anos 30 do século I, e depois de um período no qual tinha perseguido a Igreja, verificou-se o momento decisivo da vida de Paulo.

Sobre ele muito foi escrito e naturalmente sob diversos pontos de vista. O que é certo é que ali aconteceu uma mudança, aliás, uma inversão de perspectiva. Então ele, inesperadamente, começou a considerar “perda” e “esterco” tudo o que antes constituía para ele o máximo ideal, quase a razão de ser da sua existência (cf. Fl 3, 7-8). O que tinha acontecido?

Em relação a isto temos dois tipos de fontes. O primeiro tipo, o mais conhecido, são as narrações pela mão de Lucas, que por três vezes narra o acontecimento nos Atos dos Apóstolos (cf. 9, 1-19; 22, 3-21; 26, 4-23). O leitor médio é talvez tentado a deter-se demasiado nalguns pormenores, como a luz do céu, a queda por terra, a voz que chama, a nova condição de cegueira, a cura e a perda da vista e o jejum.

Mas todos estes pormenores se referem ao centro do acontecimento: Cristo ressuscitado mostra-se como uma luz maravilhosa e fala a Saulo, transforma o seu pensamento e a sua própria vida. O esplendor do Ressuscitado torna-o cego: assim vê-se também exteriormente o que era a sua realidade interior, a sua cegueira em relação à verdade, à luz que é Cristo.

E depois o seu “sim” definitivo a Cristo no batismo volta a abrir os seus olhos, faz com que ele realmente veja. Na Igreja antiga o batismo era chamado também “iluminação”, porque este sacramento realça, faz ver realmente. O que assim se indica teologicamente, em Paulo realiza-se também fisicamente: curado da sua cegueira interior, vê bem.

Portanto, São Paulo foi transformado não por um pensamento mas por um acontecimento, pela presença irresistível do Ressuscitado, da qual nunca poderá sucessivamente duvidar, dado que foi muito forte a evidência do acontecimento, deste encontro. Ele mudou fundamentalmente a vida de Paulo; neste sentido pode e deve falar-se de uma conversão.

Este encontro é o centro da narração de São Lucas, o qual é possível que tenha usado uma narração que provavelmente surgiu na comunidade de Damasco. Leva a pensar isto o entusiasmo local dado à presença de Ananias e dos nomes quer do caminho quer do proprietário da casa em que Paulo esteve hospedado (cf. At 9, 9-11).

O segundo tipo de fontes sobre a conversão é constituído pelas próprias Cartas de São Paulo. Ele nunca falou pormenorizadamente deste acontecimento, talvez porque podia supor que todos conhecessem o essencial desta sua história: todos sabiam que de perseguidor tinha sido transformado em apóstolo fervoroso de Cristo.

E isto tinha acontecido não após uma própria reflexão, mas depois de um acontecimento importante, um encontro com o Ressuscitado. Mesmo sem falar dos pormenores, ele menciona diversas vezes este fato importantíssimo, isto é, que também ele é testemunha da ressurreição de Jesus, do qual recebeu imediatamente a revelação, juntamente com a missão de apóstolo. O texto mais claro sobre este ponto encontra-se na sua narração sobre o que constitui o centro da história da salvação: a morte e a ressurreição de Jesus e as aparições às testemunhas (cf. 1 Cor 15).

Com palavras da tradição antiga, que também ele recebeu da Igreja de Jerusalém, diz que Jesus morto e crucificado, sepultado e ressuscitado apareceu, depois da ressurreição, primeiro a Cefas, isto é a Pedro, depois aos Doze, depois a quinhentos irmãos que em grande parte naquele tempo ainda viviam, depois a Tiago, e depois a todos os Apóstolos. E a esta narração recebida da tradição acrescenta: “E, em último lugar, apareceu-me também a mim” (1 Cor 15, 8).

Assim dá a entender que é este o fundamento do seu apostolado e da sua nova vida. Existem também outros textos nos quais se encontra a mesma coisa: “Por meio de Jesus Cristo recebemos a graça do apostolado” (cf. Rm 1, 5); e ainda: “Não vi eu a Jesus Cristo, Nosso Senhor?” (1 Cor 9, 1), palavras com as quais ele faz alusão a um aspecto que todos conhecem.

E finalmente o texto mais difundido lê-se em Gl 1, 15-17: “Mas, quando aprouve a Deus que me reservou desde o seio de minha mãe e me chamou pela Sua graça revelar o Seu Filho em mim, para que O anunciasse entre os gentios, não consultei a carne nem o sangue, nem voltei a Jerusalém para ir ter com os que foram Apóstolos antes de mim, mas parti para a Arábia e voltei outra vez a Damasco”.

Nesta “auto-apologia” ressalta decididamente que também ele é testemunha verdadeira do Ressuscitado, tem uma missão própria que recebeu imediatamente do Ressuscitado.

Assim podemos ver que as duas fontes, os Atos dos Apóstolos e as Cartas de São Paulo, convergem e convêm sob o ponto fundamental: o Ressuscitado falou a Paulo, chamou-o ao apostolado, fez dele um verdadeiro apóstolo, testemunha da ressurreição, com o encargo específico de anunciar o Evangelho aos pagãos, ao mundo greco-romano.

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E ao mesmo tempo Paulo aprendeu que, apesar da sua relação imediata com o Ressuscitado, ele deve entrar na comunhão da Igreja, deve fazer-se batizar, deve viver em sintonia com os outros apóstolos. Só nesta comunhão com todos ele poderá ser um verdadeiro apóstolo, como escreve explicitamente na primeira Carta aos Coríntios: “Assim é que pregamos e é assim que vós acreditastes” (15, 11). Há só um anúncio do Ressuscitado, porque Cristo é um só.

Como se vê, em todos estes trechos Paulo nunca interpreta este momento como um fato de conversão. Porquê? Existem muitas hipóteses, mas para mim o motivo é muito evidente. Esta mudança da sua vida, esta transformação de todo o seu ser não foi fruto de um processo psicológico, de uma maturação ou evolução intelectual e moral, mas vem de fora: não foi o fruto do seu pensamento, mas do encontro com Cristo Jesus.

Neste sentido não foi simplesmente uma conversão, uma maturação do seu “eu”, mas foi morte e ressurreição para ele mesmo: morreu uma sua existência e outra nova nasceu com Cristo Ressuscitado. De nenhum outro modo se pode explicar esta renovação de Paulo. Todas as análises psicológicas não podem esclarecer e resolver o problema.

Só o acontecimento, o encontro forte com Cristo, é a chave para compreender o que tinha acontecido: morte e ressurreição, renovação por parte d’Aquele que se tinha mostrado e tinha falado com ele. Neste sentido mais profundo podemos e devemos falar de conversão. Este encontro é uma renovação real que mudou todo os seus parâmetros. Agora pode dizer que o que antes era para ele essencial e fundamental, se tornou agora “esterco”; já não é “lucro”, mas perda, porque agora só conta a vida em Cristo.

Contudo não devemos pensar que Paulo assim se tenha fechado num acontecimento cego. É verdade o contrário, porque Cristo Ressuscitado é a luz da verdade, a luz do próprio Deus. Isto alargou o seu coração, tornou-o aberto a todos. Neste momento não perdeu o que havia de bom e verdadeiro na sua vida, na sua herança, mas compreendeu de modo novo a sabedoria, a verdade, a profundidade da lei e dos profetas, e delas se apropriou de modo novo.

Ao mesmo tempo, a sua razão abriu-se à sabedoria dos pagãos; tendo-se aberto a Cristo com todo o coração, tornou-se capaz de um diálogo amplo com todos, tornou-se capaz de se fazer tudo em todos. Assim podia ser realmente o apóstolo dos pagãos.

Voltando a nós, perguntamo-nos o que significa isto para nós? Significa que também para nós o cristianismo não é uma nova filosofia ou uma nova moral. Somos cristãos unicamente se encontramos Cristo. Certamente Ele não se mostra a nós deste modo irresistível, luminoso, como fez com Paulo para fazer dele o apóstolo de todas as nações.

Mas também nós podemos encontrar Cristo, na leitura da Sagrada Escritura, na oração, na vida litúrgica da Igreja. Podemos tocar o coração de Cristo e sentir que Ele toca o nosso. Só nesta relação pessoal com Cristo, só neste encontro com o Ressuscitado nos tornamos realmente cristãos. E assim abre-se a nossa razão, abre-se toda a sabedoria de Cristo e toda a riqueza da verdade.

Portanto rezemos ao Senhor para que nos ilumine, para que nos doe no nosso mundo o encontro com a sua presença: e assim nos conceda uma fé viva, um coração aberto, uma grande caridade para todos, capaz de renovar o mundo.

Oração

Ó São Paulo Apóstolo, pregador da Verdade e Doutor dos Gentios, interceda por nós junto a Deus, que o escolheu. Amém.

Ó Deus, vós que instruístes muitas nações através das pregações do bem-aventurado apóstolo Paulo, dai-nos caminhar para vós seguindo seus exemplos e ser, no mundo, testemunhas do Evangelho. Amém.

Pai-Nosso…

Ave-Maria…

Glória…