O Homem no Matrimônio

(Extraído da edição italiana do livro “A Intimidade Conjugal: o Livro do Marido”, de Pierre Dufoyer, publicado em 1957.)

Tradução: Ana Cândida Tocheton Cristofoletti

Revisão: André Carezia

Marido

A chave para se conhecer a psicologia de uma mulher constitui-se, principalmente, na riqueza de seu coração, de sua vida sentimental e de sua notável sensibilidade psíquica (…). Sua força é o coração. Possui uma capacidade sentimental particularmente aflorada e por causa disso reage de maneira intensa a todas as emoções. Seus modos gentis e atenciosos no trato constituem prova visível desse afeto que lhe proporciona grande alegria (…). Uma mulher que ama possui mil maneiras de ser carinhosa, demonstrar delicadeza e agradar. Nessa arte é extremamente hábil. (…)

O marido deverá recordar-se que fará a esposa feliz, acima de tudo, quando a envolver com um intenso amor vindo de dentro de seu coração, aquele amor que se constitui no grande sonho de qualquer noiva. (…) Sem amor, a alma da mulher atrofia. Naturalmente, espera-se firmeza do marido, mas uma firmeza com amor. Dele emana força, mas uma força unida à delicadeza. É desejada a força masculina, mas entrelaçada com amor e carinho.

Enquanto busca cuidadosamente desvendar a natureza da própria esposa, o homem deve preocupar-se em possuir todas as verdadeiras características masculinas, mas sem os respectivos defeitos. Deve ser calmo, senhor de si, com retidão de caráter, seguro e enérgico em suas maneiras. Com esse comportamento firme nas diversas situações e dificuldades da vida, dá à esposa um reconfortante sentimento de segurança e confiança. (…) Aquele que compreende o segredo da verdadeira autoridade, sabe combinar firmeza com delicadeza, força com suavidade. Mas deverá também desvendar a natureza de sua esposa e fazê-la feliz.

Na convivência com a mulher amada, o homem descobre tesouros do coração que nenhuma outra pessoa pode oferecer. Por isso, deve tolerar, com caridade, suas fraquezas de caráter. (…) Nunca deve o marido perder a calma, nem mesmo em resposta ao temperamento emotivo da esposa. Nesses casos, é necessário um apoio efetivo ao invés de uma reação irritada, uma vez que não existem más intenções. O marido atencioso deve empreender a tarefa que o destina a ser o apoio e a proteção da própria mulher. A característica fundamental de sua natureza, e que o torna encantador, é a capacidade de unir a firmeza com a suavidade.

Padre Pio e sua amiga de Chicago, Illinois: Clarice Bruno

(Traduzido por André Carezia do original em inglês. A história abaixo foi tirada do capítulo 21 do livro “Pray, Hope, and Don’t Worry: True Stories of Padre Pio”, de Diane Allen.)

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Clarice Bruno padrepio1nasceu em Chicago, Illinois, em uma família italiana católica e devota. Na juventude estudou em escolas católicas, e graduou-se no Rosemont College, uma excelente instituição católica em Villanova, Pennsylvania. Clarice, de modo geral, dava pouco valor à sua fé católica. Duvidava de vários ensinamentos da Igreja. Em seu coração havia uma indiferença – uma apatia – para com assuntos religiosos. Embora assistisse às Missas aos domingos, ela não se considerava uma boa católica.

Clarice fez os preparativos para uma viagem a Chiavari, na Itália, com a intenção de visitar seus amigos e parentes. Era para ser uma visita breve, mas a coisa se esticou muito além do que tinha planejado. A viagem a Chiavari foi tão proveitosa que ela decidiu morar lá definitivamente.

Feliz por estar novamente junto a seus parentes, Clarice também se alegrava por fazer novos amigos. Uma noite ela teve um sonho intenso. Ela caminhava, no sonho, em direção à igreja de Nossa Senhora das Graças de Chiavari, quando de repente a estrada ficou coberta de grandes pedras. Ela tentou passar por cima delas, mas a tarefa se mostrou impossível. De repente, uma grande mão surgiu detrás das pedras e ajudou-a. Num piscar de olhos, ela se achou diante da igreja. O grande obstáculo tinha sido ultrapassado.

Na frente da igreja, Clarice viu um Calvário composto de três cruzes de madeira. Por causa da cena que se desenrolava no horizonte, ela não conseguia elevar o olhar acima da base das cruzes. Ao longe, no horizonte, ela viu o mar cintilando com beleza sobrenatural. Os raios do sol dançavam sobre a água, fazendo-a brilhar como diamante. Clarice não conseguia tirar os olhos do cenário beatífico, e sentia uma intensa alegria no coração. Quando acordou, ela refletiu sobre o significado do sonho. Ela nunca tinha experimentado um sonho com tal beleza, e ficou imaginando se poderia ser sinal de algo importante que estava prestes a acontecer na vida dela. Ela não sabia. Naquele tempo, Clarice lutava contra uma cruz pesada, uma tristeza em sua vida. Ao se levantar de manhã, sua cruz já esperava por ela. Ao adormecer à noite, sua cruz ainda estava junto dela. Ela foi perdendo a coragem, até que resolveu contar alguns de seus problemas a uma gentil mulher que havia conhecido pouco tempo antes. A mulher deu-lhe um conselho: peça a intercessão de Padre Pio. E partilhou com Clarice alguns fatos acerca da vida de Padre Pio.

Clarice, de início cética a respeito das palavras da mulher sobre Padre Pio, passou a ficar mais interessada quando a mulher lhe relatou algumas das graças que ela tinha recebido pela intercessão de Padre Pio. “Acho que você deve escrever uma carta ao Padre Pio”, disse a mulher. “Na carta, você explica tudo que a incomoda. E pede ao Padre Pio que reze por você.” Convencida afinal de que era uma boa idéia, Clarice rapidamente escreveu uma carta e enviou-a, assumindo que o Padre Pio logo lhe escreveria de volta. Clarice imaginava que seria uma longa carta repleta de intuições espirituais e sábios conselhos. O que ela não sabia era que quem cuidava de toda a correspondência de Padre Pio eram seus secretários.

Uma noite, enquanto se preparava para deitar na cama, ela notou um perfume muito forte de rosas no quarto. E não conseguiu achar explicação alguma para a adorável fragrância, pois sabia que na casa não havia flores. Certamente não havia flores no quarto. Ela olhou até embaixo da cama para se certificar de que ninguém havia escondido rosas ali, mas, como suspeitava, não achou nada.

Na manhã seguinte, Clarice cumprimentou seu tio, seu pai, e vários outros amigos que estavam sentados à mesa de jantar no térreo. O tio de Clarice, que morava na casa com ela e sua família, contou-lhe a estranhíssima experiência que teve na noite anterior. Enquanto se preparava para deitar na cama, seu quarto foi preenchido pelo doce aroma de flores. Era um perfume fresco e delicioso de gardênias, depois cravos, depois violetas, e permaneceu no quarto por um longo tempo. Aconteceu entre meia-noite e meia e uma da manhã, e ele pensou se tratar de uma premonição da morte de algum amigo ou parente. Clarice disse ao tio que também ela tivera a mesma experiência aquela noite, com o delicioso perfume de rosas tomando conta de seu quarto por volta da meia-noite e meia.

Quando se encontrou novamente com a mulher que tinha lhe contado a história da vida de Padre Pio, Clarice contou-lhe a experiência que ela e seu tio tiveram em casa. A mulher explicou então à Clarice que o Padre Pio tinha o costume de fazer as pessoas saberem que ele estava intercedendo por elas, e o jeito de fazer isso era permitir que elas sentissem uma maravilhosa fragrância.

Clarice nunca tinha ouvido falar de tais dons, e pensou na carta que tinha escrito ao Padre Pio. Ele enviara a carta apenas três dias antes, e estava convencida de que ele tinha recebido e que seu espírito estava com ela, fato que ele demonstrava pelo perfume de rosas. Clarice sentiu que uma grande esperança crescia em seu coração. Tinha fé que o Padre Pio a ajudaria nas dificuldades.

Clarice escreveu uma segunda carta ao Padre Pio. Nela, agradeceu pela fragrância de rosas que ela tinha sentido. E incluiu um donativo dentro da carta. Ela disse-lhe que tinha fé nele, e que aguardava uma resposta. Poucos dias depois desta segunda carta, ela percebeu uma fragrância de lírios à volta dela. A maravilhosa fragrância começou repentinamente e com grande intensidade, desaparecendo tão rápido quanto começou.

Clarice decidiu escrever uma terceira carta ao Padre Pio, na qual agradeceu novamente a ele pela fragrância de rosas e lírios. Escreveu que estava esperando ouvir as palavras de sabedoria dele, e novamente incluiu um donativo dentro da carta. Depois de enviar a carta, os perfumes encantadores sumiram completamente. Não houve mais sinais tangíveis da presença de Padre Pio.

Clarice ia todos os dias ao correio para ver se alguma carta de Padre Pio estava esperando por ela, mas nenhuma carta chegava. Ela pensava muitas vezes em seu sonho, e na mão que a erguera por sobre a barreira de pedras, colocando-a bem na entrada da igreja de Nossa Senhora das Graças. Havia uma barreira em sua própria vida, uma cruz que ela carregava diariamente. Ela queira se livrar disso, mais do que qualquer outra coisa. Ela se apegava à esperança de que o Padre Pio pudesse ajudá-la.

Certa noite, o quarto escuro de Clarice ficou iluminado por uma suave luz, parecida com o luar. Ela viu, por mais incrível que fosse, o Padre Pio parado ao pé da cama. Ele estava usando uma túnica marrom dos capuchinhos. Ao redor da cintura ele usava a corda dos capuchinhos, e apoiava nela uma das mãos. Ele usava luvas cobrindo parcialmente suas mãos. Havia medo no coração de Clarice, ao mesmo tempo que não havia. Padre Pio disse a ela três palavras, mas ela não entendeu o significado das palavras. Ela tentou acender a luz ao lado da cama, mas por alguma razão a luz não funcionou.

Padre Pio repetiu uma segunda vez as três palavras, aquelas que ela não entendeu. E novamente ela apertou o interruptor para ligar a luz, mas a luz não ligava. Uma terceira vez o Padre Pio disse as palavras misteriosas. E então ele desapareceu. O suave brilho que lembrava a luz do luar desapareceu juntamente com ele. Clarice tocou no interruptor de luz e desta vez ela acendeu facilmente. No momento em que a luz acendeu, ela viu a porta do quarto abrir como se alguém estivesse deixando o quarto.

Ver o Padre Pio ao pé de sua cama era algo que Clarice nunca teria julgado possível. Tendo esperado tanto tempo por uma carta dele, e nunca tendo recebido nenhuma, ela já nem se preocupava mais com isso. Ela tinha recebido algo muito maior que uma carta. O Padre Pio tinha vindo pessoalmente. Clarice agora tinha certeza de que o Padre Pio estava ciente das necessidades dela, e de a guiaria pelo bom caminho.

Meses mais tarde, Clarice viajou a Roma para visitar sua grande amiga, Margherita Hamilton. Margherita, ao saber das coisas que Clarice tinha aprendido recentemente sobre o Padre Pio, disse que Clarice tinha que considerar uma visita ao Padre Pio em San Giovanni Rotondo. Depois de discutirem os detalhes, elas decidiram fazer juntas a viagem. Embarcaram em um trem em Roma para Foggia, e de lá pegaram um ônibus para San Giovanni Rotondo.

Quando Clarice e Margherita chegaram a San Giovanni Rotondo, sentiram como se tivessem voltado no tempo. San Giovanni Rotondo era uma vila primitiva naqueles anos após a II Guerra Mundial. Tanto os homens quanto as mulheres montavam em mulas e charretes puxadas a cavalo, e assim andavam pela cidade. Eletricidade e água corrente eram coisas escassas. Em algumas partes da cidade, inexistentes. Para chegar ao poço público, as mulheres locais andavam pela rua principal carregando ânforas. Clarice descreveu San Giovanni Rotondo como “um lugar semi-selvagem”.

Havia dois hotéis na cidadezinha, e nenhum deles estava em boas condições. Clarice e Margherita se consideraram sortudas por achar alojamento no mais limpo deles. Para chegar à Missa matutina do Padre Pio, elas tiveram que acordar no meio da noite e andar no escuro por três quilômetros. Isso porque não havia, para guiá-las até a igreja, nenhuma luz na estrada.

Durante o primeiro dia em San Giovanni Rotondo, Clarice e Margherita conheceram Maria Pyle. Maria morava em uma casa espaçosa, localizada bem perto do mosteiro. Cercada por um bosque de amêndoas, a casa rosada de Maria era um refúgio para inúmeros peregrinos que vinham ver o Padre Pio. Clarice e Margherita tiveram sorte de conseguir alugar dois quartos na casa de Maria e ficar neles até o final da viagem.

Maria Pyle padrepio2sabia que as acomodações eram escassas em San Giovanni Rotondo, e fez o possível para ajudar. Para oferecer hospitalidade aos peregrinos que precisavam de alojamento, ela colocou três camas desmontáveis no porão da casa. Para prover acomodações para mais gente, Maria construiu outro andar em sua casa.

Mesmo sendo muito grata pela hospitalidade, Clarice achava que o quarto oferecido por Maria Pyle deixava muito a desejar. Era úmido e frio, e Clarice não conseguia aquecer nem um pouco o lugar. Havia um forno a lenha no canto do quarto, mas estava lamentavelmente quebrado. A mesinha-de-cabeceira consistia em um pedaço de tábua sobre uma pilha de tijolos. A cama de Clarice era bem curta e bem estreita. O colchão, preenchido por folhas secas e palhas de milho, era no mínimo muito desconfortável. Apesar disso tudo, ela preferia esse quarto ao quarto do porão.

Maria era admirável, com seu verdadeiro espírito franciscano e seu desapego dos confortos e objetos mundanos. Sua própria cama era ainda menos confortável que a cama dada à Clarice. Era mais um baú de madeira do que uma cama. Ninguém conseguia entender como Maria conseguia dormir em uma cama tão dura. Era comum que as pessoas a provocassem em relação à cama, mas nunca conseguiram persuadi-la a trocar a cama por outra mais confortável.

Maria, nascida em uma família rica da cidade de Nova Iorque, visitou o mosteiro do Padre Pio pela primeira vez em 1923. Ficou tão impressionada de assistir à Missa dele e receber sua benção sacerdotal, que decidiu se mudar definitivamente para San Giovanni Rotondo. Maria tinha abandonado realmente seu estilo de vida afluente da cidade de Nova Iorque.

Maria estava em vias de se mudar para um quarto pequeno e modesto perto do porão de sua casa, quando Clarice e Margherita apareceram pela primeira vez. O quarto que Maria vinha usando era grande e confortável, tendo inclusive uma varanda ensolarada. Para oferecer esse agradável quarto aos peregrinos, ela decidiu se mudar para o andar de baixo da casa.

Durante sua estadia em San Giovanni Rotondo, Clarice e Margherita ficaram impressionadas pelas várias obras de caridade de Maria. Muita gente na cidade era analfabeta, e sempre batiam na porta de Maria para que ela escrevesse cartas para elas. Elas ditavam as cartas e Maria escrevia. Ela sempre ficava muito contente por ser útil.

Juntamente com algumas companheiras, Maria assava as hóstias que eram usadas na Sagrada Comunhão no mosteiro, e costurava as vestes sacerdotais dos Capuchinhos. Trabalhava pesado, e tinha pouco tempo de sobra. O Padre Pio conhecia muito bem esse coração generoso de Maria. Ele sempre mandava à casa dela várias pessoas que tinham necessidades de algum tipo, sabendo que Maria daria o melhor de si para as ajudá-las.

As crianças em San Giovanni Rotondo adoravam visitar Maria em sua casa. Ela sempre jogava com elas, e sempre tinha pequenas recompensas para tais ocasiões. Um dos jogos preferidos era “Lotto”[1]. Maria sempre incluía alguma lição do catecismo quando as crianças da cidade a visitavam. Por causa dos esforços contínuos e dedicados dela, as crianças do local possuíam uma compreensão impressionante da fé católica. Quando as crianças estavam prontas para a primeira comunhão, e seus pais não tinham condições financeiras, Maria comprava ternos para os meninos e vestidos brancos para as meninas.

Clarice se considerava muito feliz por poder passar um tempo ao lado de Maria Pyle e de outras almas devotas que ajudavam na obra de Padre Pio. Desde que chegara, Clarice ansiava por ir se confessar com Padre Pio, e finalmente a oportunidade apareceu. Quando Clarice entrou no confessionário e se ajoelhou, ela se deu conta do fato de que a mão de Padre Pio estava pousada na corda de seu hábito capuchinho. E lembrou que a mão dele estava exatamente na mesma posição quando ele a visitou – por bilocação – na casa em Chiavari. Clarice também reparou nos olhos de Padre Pio, que pareciam ver bem lá dentro de sua alma. Havia também uma certa severidade no olhar dele.

No confessionário, Padre Pio disse a Clarice que somente ele iria falar. E começou então a nomear os pecados dela, um por um. A cada vez que ele listava um, ela confirmava que era verdade. Ele deu a ela um conselho em relação ao fardo que ela tinha carregado no coração por tanto tempo, e disse-lhe que ela estava enfrentando um “verdadeiro calvário”. “Mesmo que não consiga sentir alegria ao carregar sua cruz, tente pelo menos praticar a resignação e a paciência”, ele falou a ela.

A confissão com o Padre Pio terminou em menos de três minutos. Ela não precisou explicar coisa alguma a ele. Obviamente ele tinha ciência de tudo na vida dela. Em poucas e curtas palavras, ele foi capaz de aconselhá-la e renovar-lhe as esperanças.

Pelo fato da casa de Maria Pyle ser tão gelada, Clarice tinha o costume de caminhar rapidamente para cima e para baixo na rua defronte à casa, para assim tentar se esquentar. Um dia, enquanto caminhava diante da igreja de Nossa Senhora das Graças, Clarice olhou lá dentro e percebeu várias mulheres da cidade limpando a igreja. E ficou sabendo que elas seguiam regularmente um cronograma de limpeza semanal. Clarice se juntou às mulheres nessa tarefa e considerou isto um grande privilégio.

A igreja monástica de Nossa Senhora das Graças tinha uma simplicidade franciscana e uma beleza que elevava o espírito. Belas estátuas estavam dispostas nos nichos e alcovas, e uma cativante pintura de Nossa Senhora das Graças tinha seu lugar fixo no santuário. Sobre a mesa da comunhão ficava um arco no qual se pintaram rosas e lírios bem delicados. Clarice se lembrava, com isso, de sua experiência em Chiavari, quando a agradável fragrância de rosas e lírios enchera o quarto.

Todas as tardes, os padres e irmãos capuchinhos se reuniam no coro da igreja para recitação de suas preces comunitárias. Nessas horas, Clarice e as outras mulheres que limpavam a igreja observavam um silêncio absoluto, e tomavam todos os cuidados para não atrapalhar os capuchinhos. Clarice conseguia distinguir, dentre todos, a voz de Padre Pio durante as orações em voz alta. Ele nunca se apressava com as orações, mas pronunciava cada palavra lentamente e com muita consideração. Clarice notava sempre uma certa tristeza na voz de Padre Pio quando ele rezava com seus confrades capuchinhos.

Clarice e Margherita conseguiam assistir à Missa do Padre Pio todas as manhãs, e consideravam isso um grande e inestimável dom. No momento da Sagrada Comunhão, as pessoas da assembléia caminhavam até o último degrau da escadaria do presbitério. Ali eles se ajoelhavam diante de Padre Pio para receber a Sagrada Comunhão. Isto evitava que ele tivesse que descer até a mesa da comunhão para distribuir a Sagrada Comunhão. As dolorosas feridas dos estigmas que perfuravam seus pés tornavam o seu caminhar muito difícil.

Após a Missa matutina de Padre Pio, ouviam-se as confissões na igreja até às 10 da manhã. Depois das confissões, cessava toda atividade na igreja, retornando apenas na manhã seguinte. Todos as dias de sua visita, Clarice e Margherita tinham tempo de sobra para explorar a cidade. De vez em quando, elas caminhavam até o cemitério onde os pais de Padre Pio estavam enterrados, e rezavam no túmulo deles.

Enquanto ficaram em San Giovanni Rotondo, Clarice e Margherita conheceram um homem gentil chamado Mário, que possuía um restaurante junto com sua esposa na cidade. O restaurante tinha um chão sujo e – coisa curiosa – um poço bem no meio dele. O restaurante mais parecia um quartinho do que um lugar para refeições. nos dias frios, o vento soprava através das rachaduras nas paredes. Era com certeza um lugar bem primitivo.

A mulher de Mário tinha uma devoção ao Padre Pio. Uma ocasião, ao se confessar com Padre Pio, ela lhe contou sobre sua aflição com seu filho de quatro anos. “Estou preocupada”, ela disse ao Padre Pio. “Tenho que trabalhar no restaurante o tempo todo com o Mário, e não consigo dar ao meu filho o tempo e a atenção de que ele necessita.” Padre Pio disse a ela para não se preocupar. E disse que ele sempre cuidaria do filho dela, e o protegeria dos perigos. A mulher deixou o confessionário muito consolada.

Alguns dias depois, a mulher ouviu o som de um grito vindo da rua. Ao sair correndo do restaurante para descobrir o que havia acontecido, ela viu o filho dela sendo tirado debaixo de um enorme caminhão. Depois, em confissão ao Padre Pio, ela contou a ele sobre o terrível incidente. “Meu filho quase foi morto por um enorme caminhão”, a mulher disse. “Bom, ele se machucou?” perguntou o Padre Pio. “Não, não se machucou”, respondeu a mulher. “Ele teve algum arranhão?” perguntou o Padre Pio. “Não, nem isso”, a mulher replicou. “Então”, disse o Padre Pio. “Eu lhe disse que o protegeria.”

Passaram rápido os dias da visita de Clarice e Margherita em San Giovanni Rotondo. Quando chegou a hora de voltarem para suas casas, elas sabiam que tinham sido abençoadas muito além das expectativas. Elas fizeram muitas viagens a San Giovanni Rotondo nos anos subseqüentes.

Certo verão, padrepio3quando visitava o mosteiro, Clarice caiu muito doente. Era um doloroso problema intestinal, para o qual nenhum dos remédios que ela tentou foi de grande ajuda. Ela então se lembrou da água benta de Padre Pio. Havia um poço no pátio do mosteiro, e tanto o poço quanto a água haviam sido abençoados por Padre Pio. Muitos dos residentes da cidade tinham grande fé em seu poder curativo, e levavam a água para casa em garrafas. Clarice bebeu um pouco dessa água benta e foi imediatamente curada do problema intestinal.

Era comum que Clarice convidasse seus amigos e parentes para acompanhá-la em suas viagens a San Giovanni Rotondo. Ela também começou a organizar peregrinações, e foi importante ao fundar alguns grupos de oração do Padre Pio na região dela. Clarice se manteve dedicada à promoção do Padre Pio pelo resto da vida dela. “Tente ficar sob o olhar de Deus, e Deus vai sempre testemunhar por você”, disse-lhe o Padre Pio em uma ocasião.

Quando Clarice foi diagnosticada com uma doença incurável, sua fé permaneceu firme. Ela tinha esperança de se recuperar, mas estava completamente resignada à vontade divina. Ela dizia que a Divina Providência sempre tinha arranjado para o bem as coisas em sua vida. “Se acontecer de eu morrer logo, eu sei que isso será o melhor para mim”, contou ela à sua querida amiga Margherita Hamilton. Clarice Bruno morreu em paz, em 5 de agosto de 1970.

“Exorto vocês a se unirem a mim. Aproximemo-nos de Jesus para recebermos Seu abraço e um beijo que nos santifica e salva… Não cessemos então de beijar assim este Filho divino, porque se forem estes os beijos dados a Ele agora, Ele mesmo virá para tomar-nos em Seus braços e dar-nos o beijo da paz nos últimos sacramentos na hora da morte”. São Pio de Pietrelcina.

Notas:

[1] Lotto é um jogo tradicional nos EUA; é jogado como Bingo, só que com desenhos ao invés de números.

Santo Agostinho, Bispo e Doutor da Igreja

Autor: Dom Próspero Gueranger, in “O Ano Litúrgico”

Tradução: André Carezia

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A ALMA DOS SANTOS — “Quão admirável é Deus em Seus Santos!”[1] Esta exclamação do Salmo nos é sugerida pela liturgia quase todos os dias. Dentre todos os espetáculos oportunos para alegrar-nos e animar-nos, nenhum há que cause tanta admiração como a alma de um santo. “Que formosa é uma alma!”, dizia o santo Cura d’Ars; e santa Catarina de Gênova exclamou no dia em que recebeu do céu o favor de contemplar uma alma em estado de graça: “Senhor, se eu não soubesse que há um só Deus, creria que esta alma é um deus.” A Igreja se compraz em trazer à nossa memória a recordação dos santos, agrupar-nos junto a seus altares, expor suas relíquias para a nossa veneração, e propor-nos seus exemplos e conselhos. Neles, mostra-nos o que a natureza e a graça têm de mais elevado e mais suave, de mais misterioso e mais atraente.

agostinho

SANTO AGOSTINHO — É muito difícil comparar os méritos dos santos para averiguar quais são os maiores, e talvez seja preferível nem sequer tentá-lo. Contudo, não podemos deixar de reconhecer naquele que a Igreja celebra hoje “o homem que, unido ao corpo místico de Cristo por um milagre, provavelmente não teve nunca, a julgar pela história, em tempo algum e em povo algum, outro que lhe igualasse em grandeza e em sublimidade.”[2]

É destes homens suscitados por Deus para que, com seu talento superior e com suas obras, adaptando-se às necessidades de sua época e de todos os tempos, fortaleçam e continuem sustentando o povo cristão, sobretudo quando o poder das trevas se apresenta mais ameaçador e o erro se propaga com maior facilidade. “É, dizia Leão XIII, um talento vigoroso que, dominando todas as ciências humanas e divinas, combateu todos os erros de seu tempo;”[3] e se a autoridade de sua palavra não pode se colocar acima da autoridade da Igreja docente, sabemos ao menos que “a Igreja romana segue e conserva a doutrina de Santo Agostinho.”

O AMANTE DA SABEDORIA — Santo Agostinho é, em primeiro lugar, o amante da Sabedoria, a qual é Deus: “Ama somente Ela, por Ela mesma, e unicamente por Ela ama o descanso e a vida.[4] Ouçamo-lo por um momento a desafogar seu coração, que foi objeto de tão grande misericórdia: ‘Tarde Te amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde Te amei!’ E Tu estavas dentro de mim e eu fora, e por fora Te buscava…[5] Perguntei à terra e ela me disse: ‘Não sou eu aquele que tu buscas’; e todas as coisas que nela há me confessavam o mesmo. Perguntei ao mar e aos abismos e aos répteis de alma viva, e me responderam: ‘Não somos teu Deus; busca-O acima de nós.’ Interroguei o ar que respiramos, e o vento, com seus moradores, me disse: ‘Engana-se Anaxímenes, eu não sou teu Deus.’ Perguntei ao céu, ao sol, à lua e às estrelas: ‘tampouco somos nós o Deus que buscas’, me responderam. Disse então a todas as coisas que estão fora das portas de minha carne: ‘dizei-me algo de meu Deus, já que vós não O sois; dizei-me algo dEle.’ E exclamaram todas com grande voz: Ele nos fez[6]. Se houvesse alguém no qual silenciasse o tumulto da carne; e silenciassem as imagens da terra, da água e do ar; e silenciasse o próprio céu, e ainda a própria alma silenciasse e se elevasse acima de si, sem pensar em si; se silenciassem os sonhos e revelações imaginárias; e se, enfim, silenciasse por completo toda língua, todo sinal e tudo quanto sucede, posto que todas estas coisas dizem a quem lhes dá ouvidos: ‘Não nos fizemos a nós mesmas, mas Aquele que permanece eternamente foi quem nos fez’; se, dito isto, silenciassem e voltassem o ouvido Àquele que as fez, e somente Ele falasse, não por elas, mas por Ele mesmo, de modo que ouvissem Sua palavra, não por língua de carne, nem por voz de anjo, nem por som de nuvens, nem por enigmas de semelhança, mas sim que O ouvíssemos a Ele mesmo, a quem amamos nestas coisas, a Ele mesmo sem elas, como no presente nos elevamos e tocamos rapidamente com o pensamento a eterna Sabedoria, que permanece sobre todas as coisas; se, por último, este estado continuasse e fossem afastadas dEle as demais visões de índole muito inferior, e estas somente arrebatassem, absorvessem e confundissem os gozos mais íntimos de seu contemplador, de modo que a vida eterna fosse qual este momento de intuição pelo qual suspiramos, não seria isto o Entrar no gozo de teu Senhor[7]? Chamaste e clamaste, Senhor, e rompeste minha surdez; brilhaste e resplandeceste, e afugentaste minha cegueira; exalaste Teu perfume e respirei, e suspiro por Ti; gostei de Ti, e sinto fome e sede; tocaste-me, e me abrasei em Tua paz. Quando me unir a Ti com todo meu ser, já não haverá mais dor nem esforço para mim.”[8]

O DOUTOR DA IGREJA — Por muito tempo, Agostinho foi escravo das concupiscências e das paixões de seu coração; por muito tempo sua inteligência esteve presa pelos horrores maniqueístas, e muito lhe custou romper também estes laços e voltar a falar a verdade da Igreja católica. Porém, uma vez convertido, empreendeu resolutamente a ofensiva contra o erro. Vinha no rastro dos célebres doutores Clemente de Roma, Irineu, Hilário, Atanásio, Ambrósio, Basílio, João Crisóstomo; mas são seus ensinamentos orais e escritos ao longo de quase meio século que mais nos admiram.

Declara-se inimigo do maniqueísmo, do qual em outros tempos fora apóstolo convicto, e reduz a nada essa estranha heresia, que, para explicar a existência do mal, havia imaginado divinizá-lo e colocá-lo contra o Deus bom. Nesta luta, entretanto, Agostinho mostra sua alma repleta de mansidão para com aqueles com quem compartilhou tanto tempo a mesma ilusão: “Que sejam severos convosco os que não sabem quão raro é, e quanto custa, chegar a superar com a serenidade de uma alma piedosa os fantasmas dos sentidos. Mostrem-se duros os que ignoram com que trabalho se cura o olho do homem interior, para olhar para seu sol, o sol de justiça; os que não sabem com que ânsias e com que gemidos se chega a entender um pouco de Deus. Tolero, enfim, a intransigência daqueles que jamais conheceram tal sedução como a que vos faz viver equivocados… De minha parte, de modo algum serei exigente convosco, porque, além do meu espírito procurar fantasias fúteis que lhe arrastaram para todo lado, eu tomei parte nessa vossa miséria, e tive que chorar muito.” [9]

Era-lhe mais agradável demonstrar aos homens seu fim último e o único meio de conseguir a bem-aventurança, como o faz nesta famosa oração: “Fizeste-nos para Ti, ó Deus meu, e nosso coração está inquieto até que descanse em Ti;” [10] e recordar-lhes que inutilmente tentariam alcançar o céu sem a submissão e a obediência que se devem à Igreja católica, que é a única instituída por Deus para levar às almas a luz e a força. O próprio santo tinha supremo empenho em submeter-se à autoridade da Igreja docente, convencido de que, enquanto assim agisse, não se afastaria nem um milímetro da verdadeira doutrina.

De modo especial, agrada-lhe defender a natureza da graça, já que sabe muito bem quanto deve a ela. Sua oração preferida: “Senhor, concede-me o que ordenas, e ordena o que queres”[11], feria o orgulho do monge Pelágio, para quem a natureza era onipotente para fazer o bem, e se bastava totalmente para a salvação, posto que o pecado original não a havia modificado. Fez um estudo sobre a graça, tão completo e perfeito, que passou a ser chamado de “Doutor da Graça”; estudo que os escritores católicos, dali em diante, passaram a consultar ao tratarem desse tema, para, seguindo seus ensinamentos e os ensinamentos da Igreja, verem-se livres de cair em erro.

O ENSINAMENTO DE SUA VIDA — Há, entretanto, outro ensinamento que Agostinho dava aos fiéis: o de sua vida virtuosa. Posídio, seu primeiro biógrafo, assegurava que “os que puderam vê-lo e ouvi-lo pregar na igreja, e sobretudo os que desfrutaram de suas conversas, tiraram muito proveito. Porque não somente era um sábio nas coisas do reino dos céus, mas era daqueles de quem havia dito o Salvador: aquele que praticar e ensinar aos homens desta maneira, este será grande no reino dos céus.” Buscou ardorosamente a caridade como a mais nobre das virtudes, e cultivou-a com tal constância que lhe valeu ser representado com um coração de fogo na mão; sua alma, por vezes, voltava-se a Deus, como ele mesmo nos contou no famoso episódio do êxtase de Óstia. É que se entregava sem interrupção a contemplar a vida de Cristo; além disso, esforçava-se para reproduzir em si o modelo divino, devolvendo amor por amor, como ele aconselhava às virgens: “Esteja gravado em vosso coração Aquele que por vós foi cravado na cruz.”

AS PROVAS — Não podia faltar a provação de dor a esta grande alma. Nem devemos imaginar o santo em amena meditação, ou escrevendo na paz de uma singela cidade episcopal, escolhida para tal pela Providência, essas obras preciosas cujos frutos o mundo colheria até nossos dias. Nesta vida não há fecundidade sem padecimento, sem tribulações públicas ou privadas, sem sacrifícios conhecidos por Deus ou pelos homens; quando, ao ler os escritos dos santos, brotam em nós piedosos pensamentos e resoluções generosas, não devemos nos contentar, como se fossem livros profanos, em render um tributo de admiração ao gênio de seus autores; devemos, ao contrário, pensar ainda mais em quanto lhes custou esse bem sobrenatural que produzem em nossas almas. Antes de Agostinho chegar a Hipona, os donatistas já eram tal maioria que o santo conta que se valiam disso até para proibir assar pães para os católicos[12]. Quando o santo morreu, as coisas haviam mudado notavelmente; mas foi necessário que o pastor, colocando em primeiro lugar o dever de salvar a todo custo as almas que se lhe haviam confiado, gastasse seus dias e suas noites nesta obra essencial, correndo mais de uma vez o feliz perigo do martírio[13]. Os chefes dos cismáticos, temendo mais a força de seus argumentos do que sua eloqüência, negavam-se a disputar com ele, e haviam tornado público que matar Agostinho seria uma obra louvável, merecedora do perdão de todos os pecados de quem se comprometesse a levá-la a cabo[14].

“Rogai por nós”, dizia no início de seu ministério, “rogai por nós, que vivemos de maneira tão precária, entre dentes de lobos furiosos; ovelhas desgarradas, ovelhas obstinadas, que se aborrecem porque vamos atrás delas, como se seus extravios fizessem-nas não ser nossas.”[15]

SEU ZELO — E para com seu rebanho fiel, que abnegação e que bondade manifestava o Pastor! É uma delícia vê-lo em meio a seu povo, falando-lhe familiarmente, deixando-se cercar e cativar por ele. Sua porta sempre aberta a todos os que chegavam, atendia todo pedido, toda dor, todo litígio. Às vezes, ante a insistência das outras igrejas e dos concílios que reivindicavam seus trabalhos e conselhos, Agostinho e seus visitantes faziam um pacto que, por certo, durava muito pouco, porque sobretudo os pobres e os humildes sabiam que a vida e o coração do santo era para eles.

Seria preciso ler todas as suas obras, o relato de suas “Confissões”, seus sermões e suas homilias para chegar a compreender esta alma incomparável. Pio XI, ao encerrar a encíclica que dedicou a seu louvor, dizia que “sua vida e seus méritos, seu agudo talento, a amplitude e a profundidade de sua ciência, a sublimidade de sua santidade, a luta que teve que travar para defender a verdade católica, fazem com que não se possam encontrar, por assim dizer, outros homens, ou muito poucos a quem compará-lo, desde o princípio do mundo até hoje.”

A grandeza dos santos não se parece com a dos poderosos deste mundo; estes nos assustam e aqueles, ao contrário, nos atraem e nos infundem confiança. Não nos desanimam nem a sublimidade de seu talento, nem a santidade de sua vida, nem o rigor de sua penitência, nem o fogo de sua caridade. Pelo dogma da Comunhão dos Santos, sabemos que são nossos irmãos; e, por estarem próximos ao Senhor, parecem-se com Ele, participam de Sua ternura, de Sua benignidade, de Sua misericórdia. Deixaram-nos seus exemplos e seus ensinamentos, e agora oferecem sua oração e seus méritos para que, embora de longe, sigamo-los pelo caminho que leva a Deus. Tomara que cheguemos a nos unir intimamente e para sempre com este Deus, o qual Agostinho se lamentava “de haver conhecido e começado a amar demasiado tarde”!

VIDA — Agostinho nasceu em Tagaste, na Numídia, em 13 de novembro de 354, de pai pagão e de mãe cristã, Santa Mônica. De inteligência brilhante, estudou em Cartago, depois em Roma e em Milão, onde ensinou a retórica. Em sua juventude conheceu a desordem dos sentidos e caiu na heresia maniqueísta. Tocado porém pela graça obtida pelas orações e lágrimas de sua mãe Santa Mônica, iluminado pelos ensinamentos e conselhos de Santo Ambrósio, converteu-se e recebeu o batismo em 25 de abril de 387. Pouco depois chegou à África para ali praticar, com muitos outros discípulos, uma vida monástica totalmente dedicada à oração e ao estudo. Em 391 se ordenou sacerdote. Sua ciência, sua eloqüência, sua santidade, valeram-lhe para substituir Valério, bispo de Hipona. Durante cerca de quarenta anos se entregou ao ensino de seu povo, à conversão dos hereges e a escrever suas inumeráveis obras. Morreu em 430, quando os vândalos cercaram sua cidade.

SÚPLICA — Enfim, após doze séculos, voltamos a ver a Cruz na África tão querida, onde perecera até o nome de muitas igrejas florescentes em outros tempos. Queira Deus que a liberdade de que agora desfruta permita-lhe alcançar rapidamente seu triunfo sobre o Corão! Tomara que a nação que hoje protege teu solo natal possa sentir-se orgulhosa desta nova honra, e compreenda as obrigações que disso derivam!

Teus feitos, contudo, não se amorteceram no decorrer desta noite prolongada. Tuas obras imortais iluminaram as inteligências e despertaram o amor através do mundo inteiro. Nas basílicas atendidas por teus filhos e imitadores, o esplendor do culto divino e a perfeição das santas melodias mantiveram no coração dos povos a alegria sobrenatural que se apoderou de ti ao ressoar pela primeira vez em nosso Ocidente o canto alternado dos salmos e dos hinos litúrgicos[16] sob a direção de Ambrósio. Em todas as épocas, a vida perfeita renovou sua juventude com as mil formas com que o mandamento duplo da caridade exige revesti-la, bebendo nas águas que correm de tuas fontes[17].

Ilumina continuamente a Igreja com tuas luzes incomparáveis. Bendize as muitas famílias religiosas que se amparam em teu insigne patrocínio. Ajuda-nos a todos, alcançando-nos o espírito de amor e de penitência, de confiança e de humildade, que orna tão bem com uma alma resgatada; ensina-nos quão débil e indigna é a natureza depois da queda, mas também dá-nos conhecer a bondade sem limites de nosso Deus, a superabundância de Sua redenção, a onipotência de Sua graça. E que, contigo, todos saibamos não somente reconhecer a verdade, mas também dizer a Deus de modo leal e prático: “Fizeste-nos para Ti, e nosso coração está inquieto até que descanse em Ti.”[18]

[1] Salmo 67, 36.

[2] Encíclica Ad salutem humani, de 20 de abril de 1930.

[3] Encíclica Aeterni Patris.

[4] João II, Registro de Cartas, l. X , c. XXXVII.

[5] Confissões, l. X, c. XXVII.

[6] Confissões, l. X, c. VI.

[7] Confissões, l. IX, c. X.

[8] ibid, l. X, c. XXVII.

[9] Contra epist. Manichael quam vocant fundamenti, 2-3.

[10] Confissões, l. I, c. I.

[11] Confissões, l. X , cc. XXIX, XXXI.

[12] Contra litteras Petiliani, II, 184.

[13] Posidius, Vita Augustini, 13.

[14] ibid., 10.

[15] Sermão XLVI, 14.

[16] Confissões, l. IX , cc. VI, VII.

[17] Prov 5, 16.

[18] Confissões, l. I, c. I.

A Conversão de São Paulo

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At 9, 1-22

Enquanto isso, Saulo só respirava ameaças e morte contra os discípulos do Senhor. Apresentou-se ao príncipe dos sacerdotes, e pediu-lhe cartas para as sinagogas de Damasco, com o fim de levar presos a Jerusalém todos os homens e mulheres que achasse seguindo essa doutrina.

Durante a viagem, estando já perto de Damasco, subitamente o cercou uma luz resplandecente vinda do céu. Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? Saulo disse: Quem és, Senhor? Respondeu ele: Eu sou Jesus, a quem tu persegues. [Duro te é recalcitrar contra o aguilhão. Então, trêmulo e atônito, disse ele: Senhor, que queres que eu faça? Respondeu-lhe o Senhor:] Levanta-te, entra na cidade. Aí te será dito o que deves fazer.

Os homens que o acompanhavam enchiam-se de espanto, pois ouviam perfeitamente a voz, mas não viam ninguém. Saulo levantou-se do chão. Abrindo, porém, os olhos, não via nada. Tomaram-no pela mão e o introduziram em Damasco, onde esteve três dias sem ver, sem comer nem beber. Havia em Damasco um discípulo chamado Ananias. O Senhor, numa visão, lhe disse: Ananias! Eis-me aqui, Senhor, respondeu ele. O Senhor lhe ordenou: Levanta-te e vai à rua Direita, e pergunta em casa de Judas por um homem de Tarso, chamado Saulo; ele está orando.

(Este via numa visão um homem, chamado Ananias, entrar e impor-lhe as mãos para recobrar a vista.) Ananias respondeu: Senhor, muitos já me falaram deste homem, quantos males fez aos teus fiéis em Jerusalém. E aqui ele tem poder dos príncipes dos sacerdotes para prender a todos aqueles que invocam o teu nome.

Mas o Senhor lhe disse: Vai, porque este homem é para mim um instrumento escolhido, que levará o meu nome diante das nações, dos reis e dos filhos de Israel. Eu lhe mostrarei tudo o que terá de padecer pelo meu nome. Ananias foi. Entrou na casa e, impondo-lhe as mãos, disse: Saulo, meu irmão, o Senhor, esse Jesus que te apareceu no caminho, enviou-me para que recobres a vista e fiques cheio do Espírito Santo.

No mesmo instante caíram dos olhos de Saulo umas como escamas, e recuperou a vista. Levantou-se e foi batizado. Depois tomou alimento e sentiu-se fortalecido. Demorou-se por alguns dias com os discípulos que se achavam em Damasco. Imediatamente começou a proclamar pelas sinagogas que Jesus é o Filho de Deus. Todos os seus ouvintes pasmavam e diziam: Este não é aquele que perseguia em Jerusalém os que invocam o nome de Jesus? Não veio cá só para levá-los presos aos sumos sacerdotes?

Saulo, porém, sentia crescer o seu poder e confundia os judeus de Damasco, demonstrando que Jesus é o Cristo.

(A reflexão que segue é retirada das Catequeses Paulinas de Bento XVI, de 3 de setembro de 2008; o original está em https://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2008/documents/hf_ben-xvi_aud_20080903.html)

A catequese de hoje será dedicada à experiência que São Paulo teve no caminho de Damasco, e portanto ao que comumente se chama a sua conversão. Precisamente no caminho de Damasco, nos primeiros anos 30 do século I, e depois de um período no qual tinha perseguido a Igreja, verificou-se o momento decisivo da vida de Paulo.

Sobre ele muito foi escrito e naturalmente sob diversos pontos de vista. O que é certo é que ali aconteceu uma mudança, aliás, uma inversão de perspectiva. Então ele, inesperadamente, começou a considerar “perda” e “esterco” tudo o que antes constituía para ele o máximo ideal, quase a razão de ser da sua existência (cf. Fl 3, 7-8). O que tinha acontecido?

Em relação a isto temos dois tipos de fontes. O primeiro tipo, o mais conhecido, são as narrações pela mão de Lucas, que por três vezes narra o acontecimento nos Atos dos Apóstolos (cf. 9, 1-19; 22, 3-21; 26, 4-23). O leitor médio é talvez tentado a deter-se demasiado nalguns pormenores, como a luz do céu, a queda por terra, a voz que chama, a nova condição de cegueira, a cura e a perda da vista e o jejum.

Mas todos estes pormenores se referem ao centro do acontecimento: Cristo ressuscitado mostra-se como uma luz maravilhosa e fala a Saulo, transforma o seu pensamento e a sua própria vida. O esplendor do Ressuscitado torna-o cego: assim vê-se também exteriormente o que era a sua realidade interior, a sua cegueira em relação à verdade, à luz que é Cristo.

E depois o seu “sim” definitivo a Cristo no batismo volta a abrir os seus olhos, faz com que ele realmente veja. Na Igreja antiga o batismo era chamado também “iluminação”, porque este sacramento realça, faz ver realmente. O que assim se indica teologicamente, em Paulo realiza-se também fisicamente: curado da sua cegueira interior, vê bem.

Portanto, São Paulo foi transformado não por um pensamento mas por um acontecimento, pela presença irresistível do Ressuscitado, da qual nunca poderá sucessivamente duvidar, dado que foi muito forte a evidência do acontecimento, deste encontro. Ele mudou fundamentalmente a vida de Paulo; neste sentido pode e deve falar-se de uma conversão.

Este encontro é o centro da narração de São Lucas, o qual é possível que tenha usado uma narração que provavelmente surgiu na comunidade de Damasco. Leva a pensar isto o entusiasmo local dado à presença de Ananias e dos nomes quer do caminho quer do proprietário da casa em que Paulo esteve hospedado (cf. At 9, 9-11).

O segundo tipo de fontes sobre a conversão é constituído pelas próprias Cartas de São Paulo. Ele nunca falou pormenorizadamente deste acontecimento, talvez porque podia supor que todos conhecessem o essencial desta sua história: todos sabiam que de perseguidor tinha sido transformado em apóstolo fervoroso de Cristo.

E isto tinha acontecido não após uma própria reflexão, mas depois de um acontecimento importante, um encontro com o Ressuscitado. Mesmo sem falar dos pormenores, ele menciona diversas vezes este fato importantíssimo, isto é, que também ele é testemunha da ressurreição de Jesus, do qual recebeu imediatamente a revelação, juntamente com a missão de apóstolo. O texto mais claro sobre este ponto encontra-se na sua narração sobre o que constitui o centro da história da salvação: a morte e a ressurreição de Jesus e as aparições às testemunhas (cf. 1 Cor 15).

Com palavras da tradição antiga, que também ele recebeu da Igreja de Jerusalém, diz que Jesus morto e crucificado, sepultado e ressuscitado apareceu, depois da ressurreição, primeiro a Cefas, isto é a Pedro, depois aos Doze, depois a quinhentos irmãos que em grande parte naquele tempo ainda viviam, depois a Tiago, e depois a todos os Apóstolos. E a esta narração recebida da tradição acrescenta: “E, em último lugar, apareceu-me também a mim” (1 Cor 15, 8).

Assim dá a entender que é este o fundamento do seu apostolado e da sua nova vida. Existem também outros textos nos quais se encontra a mesma coisa: “Por meio de Jesus Cristo recebemos a graça do apostolado” (cf. Rm 1, 5); e ainda: “Não vi eu a Jesus Cristo, Nosso Senhor?” (1 Cor 9, 1), palavras com as quais ele faz alusão a um aspecto que todos conhecem.

E finalmente o texto mais difundido lê-se em Gl 1, 15-17: “Mas, quando aprouve a Deus que me reservou desde o seio de minha mãe e me chamou pela Sua graça revelar o Seu Filho em mim, para que O anunciasse entre os gentios, não consultei a carne nem o sangue, nem voltei a Jerusalém para ir ter com os que foram Apóstolos antes de mim, mas parti para a Arábia e voltei outra vez a Damasco”.

Nesta “auto-apologia” ressalta decididamente que também ele é testemunha verdadeira do Ressuscitado, tem uma missão própria que recebeu imediatamente do Ressuscitado.

Assim podemos ver que as duas fontes, os Atos dos Apóstolos e as Cartas de São Paulo, convergem e convêm sob o ponto fundamental: o Ressuscitado falou a Paulo, chamou-o ao apostolado, fez dele um verdadeiro apóstolo, testemunha da ressurreição, com o encargo específico de anunciar o Evangelho aos pagãos, ao mundo greco-romano.

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E ao mesmo tempo Paulo aprendeu que, apesar da sua relação imediata com o Ressuscitado, ele deve entrar na comunhão da Igreja, deve fazer-se batizar, deve viver em sintonia com os outros apóstolos. Só nesta comunhão com todos ele poderá ser um verdadeiro apóstolo, como escreve explicitamente na primeira Carta aos Coríntios: “Assim é que pregamos e é assim que vós acreditastes” (15, 11). Há só um anúncio do Ressuscitado, porque Cristo é um só.

Como se vê, em todos estes trechos Paulo nunca interpreta este momento como um fato de conversão. Porquê? Existem muitas hipóteses, mas para mim o motivo é muito evidente. Esta mudança da sua vida, esta transformação de todo o seu ser não foi fruto de um processo psicológico, de uma maturação ou evolução intelectual e moral, mas vem de fora: não foi o fruto do seu pensamento, mas do encontro com Cristo Jesus.

Neste sentido não foi simplesmente uma conversão, uma maturação do seu “eu”, mas foi morte e ressurreição para ele mesmo: morreu uma sua existência e outra nova nasceu com Cristo Ressuscitado. De nenhum outro modo se pode explicar esta renovação de Paulo. Todas as análises psicológicas não podem esclarecer e resolver o problema.

Só o acontecimento, o encontro forte com Cristo, é a chave para compreender o que tinha acontecido: morte e ressurreição, renovação por parte d’Aquele que se tinha mostrado e tinha falado com ele. Neste sentido mais profundo podemos e devemos falar de conversão. Este encontro é uma renovação real que mudou todo os seus parâmetros. Agora pode dizer que o que antes era para ele essencial e fundamental, se tornou agora “esterco”; já não é “lucro”, mas perda, porque agora só conta a vida em Cristo.

Contudo não devemos pensar que Paulo assim se tenha fechado num acontecimento cego. É verdade o contrário, porque Cristo Ressuscitado é a luz da verdade, a luz do próprio Deus. Isto alargou o seu coração, tornou-o aberto a todos. Neste momento não perdeu o que havia de bom e verdadeiro na sua vida, na sua herança, mas compreendeu de modo novo a sabedoria, a verdade, a profundidade da lei e dos profetas, e delas se apropriou de modo novo.

Ao mesmo tempo, a sua razão abriu-se à sabedoria dos pagãos; tendo-se aberto a Cristo com todo o coração, tornou-se capaz de um diálogo amplo com todos, tornou-se capaz de se fazer tudo em todos. Assim podia ser realmente o apóstolo dos pagãos.

Voltando a nós, perguntamo-nos o que significa isto para nós? Significa que também para nós o cristianismo não é uma nova filosofia ou uma nova moral. Somos cristãos unicamente se encontramos Cristo. Certamente Ele não se mostra a nós deste modo irresistível, luminoso, como fez com Paulo para fazer dele o apóstolo de todas as nações.

Mas também nós podemos encontrar Cristo, na leitura da Sagrada Escritura, na oração, na vida litúrgica da Igreja. Podemos tocar o coração de Cristo e sentir que Ele toca o nosso. Só nesta relação pessoal com Cristo, só neste encontro com o Ressuscitado nos tornamos realmente cristãos. E assim abre-se a nossa razão, abre-se toda a sabedoria de Cristo e toda a riqueza da verdade.

Portanto rezemos ao Senhor para que nos ilumine, para que nos doe no nosso mundo o encontro com a sua presença: e assim nos conceda uma fé viva, um coração aberto, uma grande caridade para todos, capaz de renovar o mundo.

Oração

Ó São Paulo Apóstolo, pregador da Verdade e Doutor dos Gentios, interceda por nós junto a Deus, que o escolheu. Amém.

Ó Deus, vós que instruístes muitas nações através das pregações do bem-aventurado apóstolo Paulo, dai-nos caminhar para vós seguindo seus exemplos e ser, no mundo, testemunhas do Evangelho. Amém.

Pai-Nosso…

Ave-Maria…

Glória…

Maria e a Medalha Milagrosa

(Este artigo foi traduzido do original italiano https://gloria.tv/media/MnzCGTSqQXw)

Autor: Istruzione Cattolica

Tradução: Ana Cândida Tocheton Cristofoletti

Versão em PDF.

Do Livro do Apocalipse de São João (Ap 12,1-5):

Apareceu em seguida um grande sinal no céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas. Estava grávida e gritava de dores, sentindo as angústias de dar à luz. Depois apareceu outro sinal no céu: um grande Dragão vermelho, com sete cabeças e dez chifres, e nas cabeças sete coroas. Varria com sua cauda uma terça parte das estrelas do céu, e as atirou à terra. Esse Dragão deteve-se diante da Mulher que estava para dar à luz, a fim de que, quando ela desse à luz, lhe devorasse o filho. Ela deu à luz um Filho, um menino, aquele que deve reger todas as nações pagãs com cetro de ferro. Mas seu Filho foi arrebatado para junto de Deus e do seu trono.

O dia era 27 de novembro. Trata-se da aparição mais importante e fundamental, onde a humilde Santa Catarina teve a revelação da célebre Medalha Milagrosa, e Nossa Senhora explicou-lhe em que consistia a missão que lhe confiava. Uma missão tão grande quanto a Terra. Confiava justamente a ela, a humilde e ignorante Irmã Catarina, eleita para que fizesse com que todos os homens viessem a conhecer o celestial penhor de misericórdia que a Imaculada dignava-se dar à humanidade. E Irmã Catarina se lançaria ao serviço, não se poupando das provações e dos sofrimentos aos quais seria exposta. Era segura do auxílio daquela que é a Rainha do Universo, e mais cedo ou mais tarde, então, seria chegada a hora da difusão dessa medalhinha, pequeno tesouro de graça.

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Para Irmã Catarina, deveria haver bem pouca coisa a sacrificar sem reservas pela Rainha Imaculada que a havia inebriado com suas celestiais aparições. Ela mesma descreveu de maneira detalhada também essa segunda e mais célebre aparição. Ela escreve: “No dia 27 de novembro de 1830, que correspondia ao sábado anterior ao primeiro domingo do Advento, às cinco e meia da manhã, fazendo a meditação em profundo silêncio, pareceu-me ouvir ao lado direito da capela um rumor como o roçar de uma veste de seda. Havendo voltado os olhos para aquele lado, vi a Santíssima Virgem na altura do quadro de São José. Sua estatura era mediana, e sua beleza tal que me é impossível descrever. Estava em pé, suas vestes eram nobres, de seda pura e de cor branco-aurora, com mangas longas. Da cabeça descia um véu branco, que ia até os pés. Tinha o cabelo repartido e uma espécie de véu com uma renda de cerca de três centímetros de largura, levemente apoiada na cabeça. Seu rosto estava descoberto; seus pés estavam apoiados sobre um globo, ou melhor, sobre metade de um globo, pelo menos não vi a outra metade.”

Mais tarde a Santa confessará ter visto sob os pés da Virgem também uma serpente de cor esverdeada mesclado com amarelo. Ela prossegue na narrativa: “As suas mãos, elevadas à altura da cintura, mantinham com naturalidade um outro globo menor que representava o universo. Ela tinha os olhos voltados para o céu e seu rosto tornou-se resplandecente enquanto apresentava esse globo para Nosso Senhor.”

“Repentinamente, seus dedos cobriram-se de anéis ornados com pedras preciosas, uma mais bela que a outra, umas maiores e outras menores, das quais saíam raios uns mais belos que os outros. Esses raios partiam das pedras preciosas; as maiores lançavam raios maiores, e as menores lançavam raios menores, de maneira que todos esses raios preencheram sua parte inferior e eu não podia mais ver seus pés”.

Catarina continua o relato assim: “Enquanto eu estava absorta a contemplá-la, a Santíssima Virgem baixou seus olhos para mim e ouvi uma voz que me disse essas palavras: ‘Este globo que vês representa todo o mundo, em particular a França e cada uma das pessoas…‘. Aqui não sou capaz de transmitir o que senti e o que vi, a beleza e o esplendor dos raios deslumbrantes!… E a Virgem Santíssima prosseguiu: ‘São o símbolo das Graças que derramo sobre as pessoas que me pedem‘, fazendo-me, assim, compreender quanto é doce rezarmos para a Santíssima Virgem e quanto ela é generosa com as pessoas que a invocam; quantas graças ela concede às pessoas que dela se aproximam e quanta alegria ela sente ao conceder-lhes. Naquele momento, eu estava ali e não estava… Eu não sei… Apenas apreciava. Então, formou-se ao redor da Santíssima Virgem um quadro oval, onde no alto, em forma de semi-círculo entre as mãos direita e esquerda de Maria, era possível ler essas palavras escritas em letras de ouro: ‘Ó Maria Concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós‘.”

Prossegue Santa Catarina no seu relato: “Então ouvi uma voz que me disse: ‘Faça cunhar uma medalha dessa forma; todas as pessoas que a usarem receberão grandes graças, especialmente levando-as no peito; as graças serão abundantes para as pessoas que a portarem com fé‘. Nesse instante, percebi que o quadro virou-se, e pude ver o verso da Medalha. Havia ali a letra M (inicial do nome de Maria), sobre a qual erguia-se uma cruz (sem o crucificado) cuja base era a letra I (inicial do nome de Jesus, Iesus). Abaixo disso, havia dois corações, um circundado de espinhos (o de Jesus), e outro transpassado por uma espada (o de Maria). Por fim, doze estrelas circulavam tudo.”

Ela encerra o relato assim: “Depois disso, tudo desapareceu, como algo que se apaga, e permaneci ali repleta de bons sentimentos, de alegria, de consolação”.

Oração:

Ó Imaculada Virgem, Mãe de Deus e nossa Mãe, ao contemplar-vos de braços abertos derramando graças sobre os que vo-las pedem, cheios de confiança na vossa poderosa intercessão, inúmeras vezes manifestada pela Medalha Milagrosa, embora reconhecendo a nossa indignidade por causa de nossas inúmeras culpas, acercamo-nos de vossos pés para vos expor, durante esta oração, as nossas mais prementes necessidades. Concedei, pois, ó Virgem da Medalha Milagrosa, este favor que confiantes vos solicitamos, para maior glória de Deus, engrandecimento do vosso nome, e o bem de nossas almas. E para melhor servirmos ao vosso Divino Filho, inspirai-nos profundo ódio ao pecado e dai-nos coragem de nos afirmar sempre verdadeiros cristãos.

Amém.

Um pedido de desculpas para os católicos do passado

(Traduzido do artigo original publicado em 19/agosto/2016 na Crisis Magazine, em http://www.crisismagazine.com/2016/apology-catholics-past)

Autor: Timothy J. Williams

Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

Ao dar aulas de literatura francesa e ocidental, eu noto às vezes a reação perplexa de algum estudante aos pensamentos dos escritores medievais. Os leitores novatos mergulham avidamente em um texto de francês antigo esperando descobrir um panegírico à vida católica, numa época em que a cristandade estava ainda quase toda unida, e a Igreja integrada em cada aspecto da sociedade. Entretanto, quando lemos os grandes poemas católicos daquela época, percebemos imediatamente que as pessoas da Idade Média não se viam como modelos de católicos vivendo em tempos de grande fé. Ao contrário, freqüentemente elas julgavam a sociedade como irremediavelmente corrupta, infiel, hostil às virtudes, e indigna do nome “cristã”.

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Um bom exemplo dessa atitude se acha no poema A Vida de Sto. Aleixo[1], do século XI. Qual século poderia ser mais católico que aquele em que vários milhares responderam com gritos de “Deus vult!” ao apelo do Papa Urbano II para pegarem em armas na defesa dos cristãos na distante Terra Santa? E de fato a Vida de Sto. Aleixo é uma obra rústica de hagiografia, bem edificante, mas com grande força emocional. Entretanto, as linhas iniciais desse poema são marcadas pelo menosprezo, beirando o desespero:

Bons fut li siecles al tens ancienor,
Quer feit i ert e justise ed amor
Si ert credance, dont or n’i at nul prot;
Toz est mudez, perdude at sa color:
Ja mais n’iert tels com fut als ancessors.

O mundo era bom antigamente,
Pois havia fé e justiça e amor,
De fato havia confiança, da qual agora não há nenhuma;
Tudo mudou, e perdeu seu fascínio:
Jamais será como foi para nossos antepassados.

Um mundo arruinado, desprovido até mesmo das virtudes cristãs mais básicas, sem nenhuma esperança de que os homens que virão serão de alguma maneira melhores. O sentimento expresso aqui é muito mais que uma nostalgia de uma “era dourada” perdida no tempo, uma idéia que assombra não apenas o pensamento católico, mas também os mais primitivos pensamentos pagãos, idéia essa que muitos apologistas cristãos interpretaram corretamente como a primeira memória, fraca e fugaz, que nossa raça tem do Éden. Não, este poema (e incontáveis outros da Idade Média católica) revela um profundo senso de angústia, de indignidade, de humildade.

Claro que é exatamente este sentimento que torna a Idade Média muito mais católica que a nossa era. Mais que o poder temporal dos bispos e papas; mais que os sublimes milagres em pedra branca e vitrais coloridos; mais que os antigos rituais e as orações solenes entoadas em linguagem venerável — o verdadeiro espírito católico da Idade Média se encontra no desejo intenso de cauterizar as maldades do dia, de recuperar a virtude perdida, de restabelecer a amizade com os santos.

Não se trata de idealizar ou romancear o senso moral da Idade Média. Não há necessidade de repassar as crueldades da vida medieval. Mesmo levando em conta que a propaganda sobre a “idade das trevas” exagera enormemente sua morbidez e ignorância, não há dúvida de que a vida medieval podia ser “pobre, obscena, brutal e curta” (parafraseando o super-maquiavélico Hobbes). O fato notável é que para muitas pessoas hoje, a obscenidade e a brutalidade são modos atraentes de vida, embora não admitidos como tal. É improvável ouvirmos alguém falar hoje como um personagem de um romance de Mauriac: “Você não acha que a vida de pessoas como nós é horrivelmente similar à morte?

Se a conduta das pessoas do século XI não era necessariamente melhor que a das pessoas do século XXI, pelo menos elas não se gabavam de sua superioridade moral. Os católicos que escreveram, entoaram e ouviram poemas como a Vida de Sto. Aleixo não falavam de maneira untuosa sobre viverem uma “nova primavera” da Igreja, declarando a si mesmos como uma força de “renovação” por meio de métodos iluminados de “nova evangelização”. Eles essencialmente rezavam para evitar as piores calamidades, que eles sabiam merecer devido à sua cultura de pecado. E davam graças ao Deus que pensou neles o suficiente para lhes dar um Filho divino e Sua Mãe como consoladores in hac lacrimarum valle.

Acima de tudo, por estarem ocupados contemplando suas próprias faltas, os católicos dessa época antiga não se empenhavam em lamentar publicamente os supostos pecados das outras pessoas, tipo de “confissão” que parece estar na moda em nossos tempos. Nos três últimos papados, pelo menos, nós vimos uma avalanche de desculpas, quase sempre em nome de católicos de uma época anterior, e sem o contexto histórico necessário para sabermos o sentido das ações ou omissões daqueles fiéis. O papa São João Paulo II pediu desculpas tão freqüentemente, e por uma variedade tão grande de ofensas, que há uma página inteira da Wikipedia[2] dedicada a apenas esse aspecto de seu pontificado (e a página está bem incompleta).

O papa Francisco elevou a novas alturas esse culto à “eorum culpa”, emitindo pedidos de desculpas com estranhas palavras e que condenam os cristãos pelas próprias coisas pelas quais são dignos de louvor na cristandade. Por exemplo, de acordo com o papa[3], os cristãos devem pedir perdão “ao pobre, à mulher explorada, [e] às crianças exploradas como trabalhadoras”, mesmo que, historicamente, nenhuma religião ou outra organização de qualquer tipo tenha algum dia feito mais pelo pobre, pelo explorado, pelas mulheres, e pelas crianças.

Em que consiste, em última análise, esta afeição por emitir pedidos de desculpas em nome de cristãos (e especialmente católicos) de outras épocas? Às vezes, eu me pergunto se esses gestos não são apenas um tipo daquela oração do fariseu, de auto-elogio e de ação de graças pela própria superioridade moral: “O fariseu, em pé, orava no seu interior desta forma: Graças te dou, ó Deus, que não sou como os demais homens: ladrões, injustos e adúlteros; nem como ali aquele publicano.” (Lc 18,11) (Coloque o prefixo “Re-” na última palavra, e voila!aggiornamento moral.)

Alguém consegue realmente imaginar um papa medieval emitindo tais pedidos de desculpas? Certamente que o papa Inocêncio III expressou seu choque e arrependimento pelo resultado horroroso da quarta Cruzada, lançada por ele, mas isso não é nem de longe a mesma coisa que pedir desculpas por cristãos cujos feitos conhecemos apenas através de textos históricos. Inocêncio III (escrevendo em 1205) deveria ter pedido desculpas também pelo assassinato de Hipátia, filósofa pagã do século V, por uma multidão desvairada de cristãos em Alexandria? Ora, o historiador cristão Sócrates de Constantinopla, contemporâneo dela, já tinha condenado os cristãos da época dele por aquele crime. E não esqueçamos que o incitamento de violência dos pagãos contra os cristãos era bem comum naquele tempo.

Se queremos emitir um pedido de desculpas, não o façamos em nome com católicos do passado. Vamos pedir desculpas em nosso nome às gerações futuras que nunca terão chance de existir, devido à indiferença de muitos católicos de hoje em relação ao crime de aborto. Acabamos de testemunhar um católico bem conhecido, senador Tim Kaine, recebendo uma ovação de pé[4] de seus paroquianos e um voto de aprovação moral de seu pároco, apesar do forte apoio de Kaine ao posicionamento mais pró-aborto que um partido político americano jamais teve. Embora alguns bispos[5] tenham se pronunciado contra os católicos votarem em políticos pró-aborto, o mais comum é que políticos como Kaine não sofram nenhuma consequência por sua colaboração com o mal total.

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Os católicos da Idade Média nunca entenderiam este paradoxo: esta profusão de desculpas conjugada com piedosa indiferença. Eles tinham o hábito de falar sem rodeios sobre o mal, e de encontrá-lo neles mesmos, ao invés de apontá-lo nos outros. Faríamos bem se seguíssemos a luz de seu exemplo, nós que vivemos na verdadeira idade das trevas da humanidade.

Notas:

[1] https://archive.org/details/laviedesaintalex00pariuoft

[2] https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_apologies_made_by_Pope_John_Paul_II

[3] https://cruxnow.com/vatican/2016/06/26/pope-backs-apology-gays-says-not-just/

[4] http://www.lifenews.com/2016/07/29/catholic-church-gives-pro-abortion-tim-kaine-a-standing-ovation/

[5] http://www.lifenews.com/2016/04/27/catholic-bishops-pro-life-voters-must-not-support-pro-abortion-candidates/

Santo Inácio, Confessor

Autor: Dom Próspero Gueranger, in O Ano Litúrgico.

Tradução: André Carezia

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LUTERO — Ainda que o ciclo do tempo depois de Pentecostes tenha nos manifestado, em numerosas ocasiões, o zelo com que o Espírito Santo vela pela defesa da Igreja, volta a resplandecer neste dia o ensinamento de uma maneira nova. No século XVI um ataque formidável havia se desencadeado contra a Igreja. Satanás havia escolhido como chefe um homem caído, como ele, das alturas do céu. Lutero, agraciado desde sua juventude por predileções próprias dos perfeitos, não soube, em um dia de descaminho, resistir ao espírito de rebeldia. Como Lúcifer, que pretendia ser igual a Deus, ficou face a face com o Vigário do Altíssimo sobre o monte do Testamento[1]; de repente, rodando de abismo em abismo, arrastou atrás de si a terça parte dos astros do céu da santa Igreja[2]. Lei misteriosa e terrível, aquela que tão freqüentemente deixa nas esferas do mal o homem ou o anjo, vencido o poder que devia exercer para o bem e para o amor! Mas a eterna sabedoria jamais fica frustrada; precisamente então, frente à liberdade pervertida do anjo ou do homem, implanta esta outra lei substitutiva e misericordiosa, da qual foi Miguel o primeiro beneficiado.

VOCAÇÃO DE INÁCIO — A vocação de Inácio à santidade acompanha passo a passo em seu crescimento a apostasia de Lutero. Na primavera do ano de 1521, Lutero, desafiando todos os poderes, acabara de abandonar Worms e de refugiar-se em Wartbourgo[3], quando Inácio recebia em Pamplona a ferida que haveria de afastá-lo do mundo e encaminhá-lo pouco depois a Manresa. Valoroso como seus nobres antepassados, desde seus primeiros anos havia se sentido penetrado pelo ardor belicoso que se mostrava nos campos de batalha da terra de Espanha; mas a campanha contra o Mouro havia chegado ao fim precisamente nos dias de seu nascimento[4]. Poderia crer que para satisfazer seus instintos cavalheirescos teria somente porfias mesquinhas?

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O único e verdadeiro Rei digno de sua grande alma revela-se a ele na prova que detém seus projetos mundanos; uma nova milícia se apresenta para sua ambição: começa outra cruzada. O ano de 1522 contempla, desde os montes da Catalunha até os de Turingia, o crescimento da estratégia divina da qual unicamente os anjos possuem de fato o segredo.

MONTSERRAT — Admirável campina onde se diria que o céu se contenta em observar os poderes do mal, deixando que tomem a dianteira e apenas reservando-se o direito de fazer superabundar a graça ali mesmo onde pretende abundar a iniqüidade[5]. Assim como no ano anterior, três semanas depois de consumada a rebelião de Lutero, havia tido lugar o primeiro chamado de Inácio; a três semanas igualmente de distância, eis aqui o inferno e o céu exibindo seus eleitos sob as diferentes armaduras que correspondem aos dois campos, cujos chefes serão ambos. Dez meses de estranhas manifestações haviam preparado o substituto de satanás no forçado retiro que ele denominou “seu Patmos”; e em 5 de março, contrariando a ordem de desterro, o trânsfuga do sacerdócio e do claustro abandona Wartbourgo transformado, sob a couraça e o casco, em cavaleiro espúrio. No dia 25 do mesmo mês, na noite gloriosa em que o Verbo se fez carne, o flamante soldado das armas do reino católico, o descendente dos Iñigo e dos Loyola, vestido de saco, insígnia da pobreza que revela seus novos projetos, passa a noite em oração em Montserrat velando as armas. Pendura no altar de Maria sua bem temperada espada, e dali se dirige a lutas desconhecidas que o esperam em um combate sem compaixão por si mesmo.

PARIS — Por sobre a bandeira do livre exame [das escrituras] coloca a sua, com uma única divisa: Para maior glória de Deus! Logo se encontra em Paris (onde Calvino recruta secretamente os futuros huguenotes) para alistar, em favor do Deus dos exércitos, a companhia de vanguarda que deve proteger as hostes cristãs iluminando seu caminho, dando e recebendo os primeiros golpes. A Inglaterra, no início do ano de 1534, imita a Alemanha e os países do Norte em sua apostasia. Em 15 de agosto desse mesmo ano os primeiros soldados de Inácio, junto com ele, selam em Montmartre o compromisso definitivo que mais tarde renovarão em São Paulo Extramuros. Porque aquela tropa fixou em Roma o ponto de encontro, tropa que muito rapidamente crescerá de maneira surpreendente, e cuja profissão particular será a de estar sempre dispostos a dirigir-se, ao menor sinal, a todos os pontos onde o chefe da Igreja militante julgar utilizar bem seu selo, em defesa da fé ou para sua propagação, e para o progresso das almas na doutrina e na vida cristã.

A COMPANHIA DE JESUS — Lábios ilustres disseram[6]: “À primeira vista, o que surpreende na Companhia de Jesus é que para ela a idade madura é contemporânea da primeira formação. Quem conhece os primeiros criadores da Companhia conhece a Companhia inteira em seu espírito, em seu objeto, em seus empreendimentos, em seus procedimentos, em seus métodos. Que geração a que preside em suas origens! Que união de ciência e de atividade, de vida interior e de vida militante! Pode-se dizer que são homens universais, homens de raça gigantesca, em companhia dos quais não somos mais que insetos: de genere giganteo, quibus comparan quasi locustae videbamur.”[7]

INÁCIO E A ORAÇÃO DA IGREJA — Quão comovedora se nos parece a sensibilidade tão cheia de encantos destes primeiros padres da Companhia, indo a pé até Roma, a pé e em jejum, esgotados mas com o coração transbordante de alegria e cantando baixinho os Salmos de Davi! Quando foi indispensável, para responder às necessidades da hora presente, abandonar no novo instituto as grandes tradições da oração pública, não se fez isso sem grande sacrifício por parte de muitas destas almas; Maria, com pena, teve de ceder seu posto a Marta nesse ponto. Pelo espaço de tantos séculos a solene celebração dos Ofícios Divinos — dívida social primária — havia parecido tarefa indispensável de toda família religiosa; era o primeiro alimento da santidade individual de seus membros!

Mas a chegada de novos tempos, semeando por toda parte a degradação e a ruína, reclamava uma exceção tão insólita quanto dolorosa da valente companhia que consagrava sua existência à instabilidade de sobressaltos sem conta e de contínuas incursões por terras inimigas. Inácio compreendeu isso. Sacrificou, em benefício do objetivo que se impunha, a atração pessoal que sentiu toda sua vida pelo canto sagrado, cujas menores notas ao chegarem a seus ouvidos faziam verter nele lágrimas de consolo.

Com a chegada dos últimos tempos e de suas emboscadas, havia soado para a Igreja a hora das milícias especiais, organizadas em acampamentos móveis. Mas quanto mais difícil se tornava exigir destas tropas beneméritas, embebidas no contínuo batalhar exterior, os hábitos e costumes dos que protegiam a Cidade Santa, tanto mais Santo Inácio desprezava o estranho contrassenso que pretendia reformar os costumes do povo cristão segundo o modo de vida exigido pelo serviço de reconhecimento e de vanguarda, ao qual ele se sacrificou por todos os demais. A terceira das dezoito regras que assenta, como coroação dos Exercícios Espirituais, “para termos em nós os verdadeiros sentidos da Igreja ortodoxa”, recomenda aos fiéis os cantos da Igreja, os salmos, e as diferentes Horas canônicas no tempo assinalado para cada uma. E, no início do livro, que realmente é o tesouro da Companhia de Jesus, ao estabelecer as condições que permitiriam extrair o melhor fruto possível dos mesmos Exercícios, determina em sua vigésima nota que aquele que puder deve escolher, durante o tempo de sua duração, uma cela que lhe permita facilmente dirigir tanto os Ofícios quanto o Santo Sacrifício. Com isto, que faz pelos outros nosso Santo, senão aconselhar para a prática dos Exercícios o mesmo espírito com que foram compostos, neste retiro bendito de Manresa, onde a participação cotidiana na Missa solene e nos Ofícios do entardecer foram para ele um manancial de delícias celestiais?

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Vida — Inácio nasceu, sem dúvida, em outubro de 1491, em Guipúzcoa, da nobre família dos Loyola. Tendo entrado para o serviço do Rei de Navarra, foi ferido em Pamplona em 20 de maio de 1521. No decurso de sua convalescença, leu a Vita Christi de Ludolfo de Saxônia e, auxiliado pela graça divina, resolveu daí em diante seguir a Cristo. Em fevereiro de 1522, partiu para Montserrat com a finalidade de oferecer sua espada à Virgem; depois se dirigiu a Manresa, onde permaneceu um ano entregue à penitência e à oração. Compôs então seu célebre livro dos Exercícios Espirituais, que obteria a aprovação da Sé Apostólica e faria muito bem a inúmeras almas. Em 1523 fez uma peregrinação à Terra Santa, regressando depois à Espanha com o objetivo de estudar para se achar melhor disposto ao serviço de Deus e da Igreja. Com alguns companheiros partiu a Paris, aonde chegaram em 2 de fevereiro de 1528. Inácio recebeu ali sua graduação universitária e assentou os fundamentos da nova Ordem. Tendo estabelecido a ordem em Roma com aprovação de Paulo III, acrescentou aos votos ordinários o de consagrar-se às missões, se a Santa Sé assim o pedisse. Enviou São Francisco Xavier às Índias; ele mesmo lutou ardorosamente contra a heresia luterana; fundou casas de educação para a juventude; trabalhou na renovação da piedade entre os católicos; suas obras prediletas foram o embelezamento dos templos, o ensino do catecismo e a prática dos sacramentos. Por último, depois de ter trabalhado longo tempo para “a maior glória de Deus”, morreu em 31 de julho de 1556. Foi beatificado em 1609 e canonizado em 1623 junto com São Isidoro Lavrador, Santa Teresa de Ávila e São Francisco Xavier. Em 1922, Pio XI declarou-o patrono de todos os exercícios espirituais.

O SOLDADO DE DEUS — “Esta é a vitória que venceu o mundo: nossa fé.”[8] Tu, por tua vez, mostraste que foste o grande vencedor do mundo, deste mundo no qual o Filho de Deus te elegeu para exaltar Sua bandeira humilhada diante do estandarte de Babel. Estiveste longo tempo quase que sozinho contra os batalhões sempre crescentes dos rebeldes, deixando ao Senhor dos exércitos o cuidado de escolher a hora para que travasses a batalha contra as cortes de Satanás, assim como a escolheu para retirar-te da milícia terrena. Se o mundo tivesse então conhecido teus intentos, teria considerado tudo chacota; e contudo foi um momento tão importante para a história do mundo quanto aquele em que, à semelhança dos mais ilustres capitães a concentrar suas tropas, deste ordem a teus nove companheiros para se dirigirem de três em três à Cidade Santa. Que resultados admiráveis durante aqueles quinze anos em que esta tropa escolhida e recrutada pelo Espírito Santo teve-te como chefe e primeiro general! A heresia varrida da Itália, confundida em Trento, detida em todas as partes, imobilizada até em sua própria casa; imensas conquistas em terras novas, para reparar os danos sofridos em nosso Ocidente; a própria Igreja rejuvenescida em sua beleza, restaurada em seu povo e em seus pastores; assegurada para seus filhos uma educação correspondente aos seus destinos celestiais; por fim, todo lugar onde imprudentemente Satanás havia cantado vitória, em meio a espantosos rugidos, é dominado novamente por este nome de Jesus que faz dobrar todos os joelhos no céu, na terra e nos infernos[9]. Qual glória, ó Inácio, algum dia se igualou a esta, nos exércitos dos reis da terra?

INVOCAÇÃO AO CHEFE GLORIOSO — Vela, do trono que conquistaste com tantas façanhas, sobre estes frutos de tuas obras, e continua mostrando-te como soldado de Deus. Através das contradições que nunca lhes faltaram, mantém teus filhos na posição de honra e valentia que faz deles os sentinelas da vanguarda de tua Igreja. Que sejam fiéis ao espírito de seu glorioso pai, “tendo diante dos olhos, sem cessar, primeiramente o reino de Deus; em seguida, como um caminho que conduz a Ele, a forma de seu instituto, consagrando todas as suas forças para alcançar este objetivo que Deus lhes assinala, seguindo embora cada um a medida da graça que recebeu do Espírito Santo e o grau próprio de sua vocação”[10]. Finalmente, ó cabeça de tão nobre descendência, abraça em teu amor todas as famílias religiosas cuja sorte diante da perseguição veio a ser, nestes dias, tão estreitamente solidária à da tua; bendize particularmente a Ordem monástica que protegeu com suas antigas ramas teus primeiros passos na vida de perfeição, e o nascimento da egrégia Companhia que será tua imperecível coroa nos céus. Protege a Espanha, que te viu nascer não só para a vida terrestre, mas também para a graça da conversão. Roga para que os cristãos aprendam de ti a militar por Deus, a nunca renegar sua bandeira; roga para que todos os homens, debaixo de tuas ordens, recoloquem em Deus seu princípio e seu fim.

Notas:

[1] Isaías, XIV, 13.

[2] Apoc., XII, 4.

[3] A dieta de Worms, onde teve lugar a ruptura oficial do heresiarca, na presença das diversas ordens do império, viu consumar-se esta ruptura nos últimos dias de abril, e foi em 20 de maio que Inácio recebeu a ferida cuja consequência foi sua conversão.

[4] 1491.

[5] Rom., V, 20.

[6] Cardeal Pie, homilia pronunciada nas festas da beatificação de Pedro Fabro.

[7] “da raça dos gigantes, parecíamos gafanhotos comparados com eles”, Números, XIII, 34.

[8] 1 Jo, V, 4.

[9] Fl, II, 10.

[10] Nota de Paulo III.