A Conversão de São Paulo

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At 9, 1-22

Enquanto isso, Saulo só respirava ameaças e morte contra os discípulos do Senhor. Apresentou-se ao príncipe dos sacerdotes, e pediu-lhe cartas para as sinagogas de Damasco, com o fim de levar presos a Jerusalém todos os homens e mulheres que achasse seguindo essa doutrina.

Durante a viagem, estando já perto de Damasco, subitamente o cercou uma luz resplandecente vinda do céu. Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? Saulo disse: Quem és, Senhor? Respondeu ele: Eu sou Jesus, a quem tu persegues. [Duro te é recalcitrar contra o aguilhão. Então, trêmulo e atônito, disse ele: Senhor, que queres que eu faça? Respondeu-lhe o Senhor:] Levanta-te, entra na cidade. Aí te será dito o que deves fazer.

Os homens que o acompanhavam enchiam-se de espanto, pois ouviam perfeitamente a voz, mas não viam ninguém. Saulo levantou-se do chão. Abrindo, porém, os olhos, não via nada. Tomaram-no pela mão e o introduziram em Damasco, onde esteve três dias sem ver, sem comer nem beber. Havia em Damasco um discípulo chamado Ananias. O Senhor, numa visão, lhe disse: Ananias! Eis-me aqui, Senhor, respondeu ele. O Senhor lhe ordenou: Levanta-te e vai à rua Direita, e pergunta em casa de Judas por um homem de Tarso, chamado Saulo; ele está orando.

(Este via numa visão um homem, chamado Ananias, entrar e impor-lhe as mãos para recobrar a vista.) Ananias respondeu: Senhor, muitos já me falaram deste homem, quantos males fez aos teus fiéis em Jerusalém. E aqui ele tem poder dos príncipes dos sacerdotes para prender a todos aqueles que invocam o teu nome.

Mas o Senhor lhe disse: Vai, porque este homem é para mim um instrumento escolhido, que levará o meu nome diante das nações, dos reis e dos filhos de Israel. Eu lhe mostrarei tudo o que terá de padecer pelo meu nome. Ananias foi. Entrou na casa e, impondo-lhe as mãos, disse: Saulo, meu irmão, o Senhor, esse Jesus que te apareceu no caminho, enviou-me para que recobres a vista e fiques cheio do Espírito Santo.

No mesmo instante caíram dos olhos de Saulo umas como escamas, e recuperou a vista. Levantou-se e foi batizado. Depois tomou alimento e sentiu-se fortalecido. Demorou-se por alguns dias com os discípulos que se achavam em Damasco. Imediatamente começou a proclamar pelas sinagogas que Jesus é o Filho de Deus. Todos os seus ouvintes pasmavam e diziam: Este não é aquele que perseguia em Jerusalém os que invocam o nome de Jesus? Não veio cá só para levá-los presos aos sumos sacerdotes?

Saulo, porém, sentia crescer o seu poder e confundia os judeus de Damasco, demonstrando que Jesus é o Cristo.

(A reflexão que segue é retirada das Catequeses Paulinas de Bento XVI, de 3 de setembro de 2008; o original está em https://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2008/documents/hf_ben-xvi_aud_20080903.html)

A catequese de hoje será dedicada à experiência que São Paulo teve no caminho de Damasco, e portanto ao que comumente se chama a sua conversão. Precisamente no caminho de Damasco, nos primeiros anos 30 do século I, e depois de um período no qual tinha perseguido a Igreja, verificou-se o momento decisivo da vida de Paulo.

Sobre ele muito foi escrito e naturalmente sob diversos pontos de vista. O que é certo é que ali aconteceu uma mudança, aliás, uma inversão de perspectiva. Então ele, inesperadamente, começou a considerar “perda” e “esterco” tudo o que antes constituía para ele o máximo ideal, quase a razão de ser da sua existência (cf. Fl 3, 7-8). O que tinha acontecido?

Em relação a isto temos dois tipos de fontes. O primeiro tipo, o mais conhecido, são as narrações pela mão de Lucas, que por três vezes narra o acontecimento nos Atos dos Apóstolos (cf. 9, 1-19; 22, 3-21; 26, 4-23). O leitor médio é talvez tentado a deter-se demasiado nalguns pormenores, como a luz do céu, a queda por terra, a voz que chama, a nova condição de cegueira, a cura e a perda da vista e o jejum.

Mas todos estes pormenores se referem ao centro do acontecimento: Cristo ressuscitado mostra-se como uma luz maravilhosa e fala a Saulo, transforma o seu pensamento e a sua própria vida. O esplendor do Ressuscitado torna-o cego: assim vê-se também exteriormente o que era a sua realidade interior, a sua cegueira em relação à verdade, à luz que é Cristo.

E depois o seu “sim” definitivo a Cristo no batismo volta a abrir os seus olhos, faz com que ele realmente veja. Na Igreja antiga o batismo era chamado também “iluminação”, porque este sacramento realça, faz ver realmente. O que assim se indica teologicamente, em Paulo realiza-se também fisicamente: curado da sua cegueira interior, vê bem.

Portanto, São Paulo foi transformado não por um pensamento mas por um acontecimento, pela presença irresistível do Ressuscitado, da qual nunca poderá sucessivamente duvidar, dado que foi muito forte a evidência do acontecimento, deste encontro. Ele mudou fundamentalmente a vida de Paulo; neste sentido pode e deve falar-se de uma conversão.

Este encontro é o centro da narração de São Lucas, o qual é possível que tenha usado uma narração que provavelmente surgiu na comunidade de Damasco. Leva a pensar isto o entusiasmo local dado à presença de Ananias e dos nomes quer do caminho quer do proprietário da casa em que Paulo esteve hospedado (cf. At 9, 9-11).

O segundo tipo de fontes sobre a conversão é constituído pelas próprias Cartas de São Paulo. Ele nunca falou pormenorizadamente deste acontecimento, talvez porque podia supor que todos conhecessem o essencial desta sua história: todos sabiam que de perseguidor tinha sido transformado em apóstolo fervoroso de Cristo.

E isto tinha acontecido não após uma própria reflexão, mas depois de um acontecimento importante, um encontro com o Ressuscitado. Mesmo sem falar dos pormenores, ele menciona diversas vezes este fato importantíssimo, isto é, que também ele é testemunha da ressurreição de Jesus, do qual recebeu imediatamente a revelação, juntamente com a missão de apóstolo. O texto mais claro sobre este ponto encontra-se na sua narração sobre o que constitui o centro da história da salvação: a morte e a ressurreição de Jesus e as aparições às testemunhas (cf. 1 Cor 15).

Com palavras da tradição antiga, que também ele recebeu da Igreja de Jerusalém, diz que Jesus morto e crucificado, sepultado e ressuscitado apareceu, depois da ressurreição, primeiro a Cefas, isto é a Pedro, depois aos Doze, depois a quinhentos irmãos que em grande parte naquele tempo ainda viviam, depois a Tiago, e depois a todos os Apóstolos. E a esta narração recebida da tradição acrescenta: “E, em último lugar, apareceu-me também a mim” (1 Cor 15, 8).

Assim dá a entender que é este o fundamento do seu apostolado e da sua nova vida. Existem também outros textos nos quais se encontra a mesma coisa: “Por meio de Jesus Cristo recebemos a graça do apostolado” (cf. Rm 1, 5); e ainda: “Não vi eu a Jesus Cristo, Nosso Senhor?” (1 Cor 9, 1), palavras com as quais ele faz alusão a um aspecto que todos conhecem.

E finalmente o texto mais difundido lê-se em Gl 1, 15-17: “Mas, quando aprouve a Deus que me reservou desde o seio de minha mãe e me chamou pela Sua graça revelar o Seu Filho em mim, para que O anunciasse entre os gentios, não consultei a carne nem o sangue, nem voltei a Jerusalém para ir ter com os que foram Apóstolos antes de mim, mas parti para a Arábia e voltei outra vez a Damasco”.

Nesta “auto-apologia” ressalta decididamente que também ele é testemunha verdadeira do Ressuscitado, tem uma missão própria que recebeu imediatamente do Ressuscitado.

Assim podemos ver que as duas fontes, os Atos dos Apóstolos e as Cartas de São Paulo, convergem e convêm sob o ponto fundamental: o Ressuscitado falou a Paulo, chamou-o ao apostolado, fez dele um verdadeiro apóstolo, testemunha da ressurreição, com o encargo específico de anunciar o Evangelho aos pagãos, ao mundo greco-romano.

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E ao mesmo tempo Paulo aprendeu que, apesar da sua relação imediata com o Ressuscitado, ele deve entrar na comunhão da Igreja, deve fazer-se batizar, deve viver em sintonia com os outros apóstolos. Só nesta comunhão com todos ele poderá ser um verdadeiro apóstolo, como escreve explicitamente na primeira Carta aos Coríntios: “Assim é que pregamos e é assim que vós acreditastes” (15, 11). Há só um anúncio do Ressuscitado, porque Cristo é um só.

Como se vê, em todos estes trechos Paulo nunca interpreta este momento como um fato de conversão. Porquê? Existem muitas hipóteses, mas para mim o motivo é muito evidente. Esta mudança da sua vida, esta transformação de todo o seu ser não foi fruto de um processo psicológico, de uma maturação ou evolução intelectual e moral, mas vem de fora: não foi o fruto do seu pensamento, mas do encontro com Cristo Jesus.

Neste sentido não foi simplesmente uma conversão, uma maturação do seu “eu”, mas foi morte e ressurreição para ele mesmo: morreu uma sua existência e outra nova nasceu com Cristo Ressuscitado. De nenhum outro modo se pode explicar esta renovação de Paulo. Todas as análises psicológicas não podem esclarecer e resolver o problema.

Só o acontecimento, o encontro forte com Cristo, é a chave para compreender o que tinha acontecido: morte e ressurreição, renovação por parte d’Aquele que se tinha mostrado e tinha falado com ele. Neste sentido mais profundo podemos e devemos falar de conversão. Este encontro é uma renovação real que mudou todo os seus parâmetros. Agora pode dizer que o que antes era para ele essencial e fundamental, se tornou agora “esterco”; já não é “lucro”, mas perda, porque agora só conta a vida em Cristo.

Contudo não devemos pensar que Paulo assim se tenha fechado num acontecimento cego. É verdade o contrário, porque Cristo Ressuscitado é a luz da verdade, a luz do próprio Deus. Isto alargou o seu coração, tornou-o aberto a todos. Neste momento não perdeu o que havia de bom e verdadeiro na sua vida, na sua herança, mas compreendeu de modo novo a sabedoria, a verdade, a profundidade da lei e dos profetas, e delas se apropriou de modo novo.

Ao mesmo tempo, a sua razão abriu-se à sabedoria dos pagãos; tendo-se aberto a Cristo com todo o coração, tornou-se capaz de um diálogo amplo com todos, tornou-se capaz de se fazer tudo em todos. Assim podia ser realmente o apóstolo dos pagãos.

Voltando a nós, perguntamo-nos o que significa isto para nós? Significa que também para nós o cristianismo não é uma nova filosofia ou uma nova moral. Somos cristãos unicamente se encontramos Cristo. Certamente Ele não se mostra a nós deste modo irresistível, luminoso, como fez com Paulo para fazer dele o apóstolo de todas as nações.

Mas também nós podemos encontrar Cristo, na leitura da Sagrada Escritura, na oração, na vida litúrgica da Igreja. Podemos tocar o coração de Cristo e sentir que Ele toca o nosso. Só nesta relação pessoal com Cristo, só neste encontro com o Ressuscitado nos tornamos realmente cristãos. E assim abre-se a nossa razão, abre-se toda a sabedoria de Cristo e toda a riqueza da verdade.

Portanto rezemos ao Senhor para que nos ilumine, para que nos doe no nosso mundo o encontro com a sua presença: e assim nos conceda uma fé viva, um coração aberto, uma grande caridade para todos, capaz de renovar o mundo.

Oração

Ó São Paulo Apóstolo, pregador da Verdade e Doutor dos Gentios, interceda por nós junto a Deus, que o escolheu. Amém.

Ó Deus, vós que instruístes muitas nações através das pregações do bem-aventurado apóstolo Paulo, dai-nos caminhar para vós seguindo seus exemplos e ser, no mundo, testemunhas do Evangelho. Amém.

Pai-Nosso…

Ave-Maria…

Glória…

Maria e a Medalha Milagrosa

(Este artigo foi traduzido do original italiano https://gloria.tv/media/MnzCGTSqQXw)

Autor: Istruzione Cattolica

Tradução: Ana Cândida Tocheton Cristofoletti

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Do Livro do Apocalipse de São João (Ap 12,1-5):

Apareceu em seguida um grande sinal no céu: uma Mulher revestida do sol, a lua debaixo dos seus pés e na cabeça uma coroa de doze estrelas. Estava grávida e gritava de dores, sentindo as angústias de dar à luz. Depois apareceu outro sinal no céu: um grande Dragão vermelho, com sete cabeças e dez chifres, e nas cabeças sete coroas. Varria com sua cauda uma terça parte das estrelas do céu, e as atirou à terra. Esse Dragão deteve-se diante da Mulher que estava para dar à luz, a fim de que, quando ela desse à luz, lhe devorasse o filho. Ela deu à luz um Filho, um menino, aquele que deve reger todas as nações pagãs com cetro de ferro. Mas seu Filho foi arrebatado para junto de Deus e do seu trono.

O dia era 27 de novembro. Trata-se da aparição mais importante e fundamental, onde a humilde Santa Catarina teve a revelação da célebre Medalha Milagrosa, e Nossa Senhora explicou-lhe em que consistia a missão que lhe confiava. Uma missão tão grande quanto a Terra. Confiava justamente a ela, a humilde e ignorante Irmã Catarina, eleita para que fizesse com que todos os homens viessem a conhecer o celestial penhor de misericórdia que a Imaculada dignava-se dar à humanidade. E Irmã Catarina se lançaria ao serviço, não se poupando das provações e dos sofrimentos aos quais seria exposta. Era segura do auxílio daquela que é a Rainha do Universo, e mais cedo ou mais tarde, então, seria chegada a hora da difusão dessa medalhinha, pequeno tesouro de graça.

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Para Irmã Catarina, deveria haver bem pouca coisa a sacrificar sem reservas pela Rainha Imaculada que a havia inebriado com suas celestiais aparições. Ela mesma descreveu de maneira detalhada também essa segunda e mais célebre aparição. Ela escreve: “No dia 27 de novembro de 1830, que correspondia ao sábado anterior ao primeiro domingo do Advento, às cinco e meia da manhã, fazendo a meditação em profundo silêncio, pareceu-me ouvir ao lado direito da capela um rumor como o roçar de uma veste de seda. Havendo voltado os olhos para aquele lado, vi a Santíssima Virgem na altura do quadro de São José. Sua estatura era mediana, e sua beleza tal que me é impossível descrever. Estava em pé, suas vestes eram nobres, de seda pura e de cor branco-aurora, com mangas longas. Da cabeça descia um véu branco, que ia até os pés. Tinha o cabelo repartido e uma espécie de véu com uma renda de cerca de três centímetros de largura, levemente apoiada na cabeça. Seu rosto estava descoberto; seus pés estavam apoiados sobre um globo, ou melhor, sobre metade de um globo, pelo menos não vi a outra metade.”

Mais tarde a Santa confessará ter visto sob os pés da Virgem também uma serpente de cor esverdeada mesclado com amarelo. Ela prossegue na narrativa: “As suas mãos, elevadas à altura da cintura, mantinham com naturalidade um outro globo menor que representava o universo. Ela tinha os olhos voltados para o céu e seu rosto tornou-se resplandecente enquanto apresentava esse globo para Nosso Senhor.”

“Repentinamente, seus dedos cobriram-se de anéis ornados com pedras preciosas, uma mais bela que a outra, umas maiores e outras menores, das quais saíam raios uns mais belos que os outros. Esses raios partiam das pedras preciosas; as maiores lançavam raios maiores, e as menores lançavam raios menores, de maneira que todos esses raios preencheram sua parte inferior e eu não podia mais ver seus pés”.

Catarina continua o relato assim: “Enquanto eu estava absorta a contemplá-la, a Santíssima Virgem baixou seus olhos para mim e ouvi uma voz que me disse essas palavras: ‘Este globo que vês representa todo o mundo, em particular a França e cada uma das pessoas…‘. Aqui não sou capaz de transmitir o que senti e o que vi, a beleza e o esplendor dos raios deslumbrantes!… E a Virgem Santíssima prosseguiu: ‘São o símbolo das Graças que derramo sobre as pessoas que me pedem‘, fazendo-me, assim, compreender quanto é doce rezarmos para a Santíssima Virgem e quanto ela é generosa com as pessoas que a invocam; quantas graças ela concede às pessoas que dela se aproximam e quanta alegria ela sente ao conceder-lhes. Naquele momento, eu estava ali e não estava… Eu não sei… Apenas apreciava. Então, formou-se ao redor da Santíssima Virgem um quadro oval, onde no alto, em forma de semi-círculo entre as mãos direita e esquerda de Maria, era possível ler essas palavras escritas em letras de ouro: ‘Ó Maria Concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a vós‘.”

Prossegue Santa Catarina no seu relato: “Então ouvi uma voz que me disse: ‘Faça cunhar uma medalha dessa forma; todas as pessoas que a usarem receberão grandes graças, especialmente levando-as no peito; as graças serão abundantes para as pessoas que a portarem com fé‘. Nesse instante, percebi que o quadro virou-se, e pude ver o verso da Medalha. Havia ali a letra M (inicial do nome de Maria), sobre a qual erguia-se uma cruz (sem o crucificado) cuja base era a letra I (inicial do nome de Jesus, Iesus). Abaixo disso, havia dois corações, um circundado de espinhos (o de Jesus), e outro transpassado por uma espada (o de Maria). Por fim, doze estrelas circulavam tudo.”

Ela encerra o relato assim: “Depois disso, tudo desapareceu, como algo que se apaga, e permaneci ali repleta de bons sentimentos, de alegria, de consolação”.

Oração:

Ó Imaculada Virgem, Mãe de Deus e nossa Mãe, ao contemplar-vos de braços abertos derramando graças sobre os que vo-las pedem, cheios de confiança na vossa poderosa intercessão, inúmeras vezes manifestada pela Medalha Milagrosa, embora reconhecendo a nossa indignidade por causa de nossas inúmeras culpas, acercamo-nos de vossos pés para vos expor, durante esta oração, as nossas mais prementes necessidades. Concedei, pois, ó Virgem da Medalha Milagrosa, este favor que confiantes vos solicitamos, para maior glória de Deus, engrandecimento do vosso nome, e o bem de nossas almas. E para melhor servirmos ao vosso Divino Filho, inspirai-nos profundo ódio ao pecado e dai-nos coragem de nos afirmar sempre verdadeiros cristãos.

Amém.

Um pedido de desculpas para os católicos do passado

(Traduzido do artigo original publicado em 19/agosto/2016 na Crisis Magazine, em http://www.crisismagazine.com/2016/apology-catholics-past)

Autor: Timothy J. Williams

Tradução: André Carezia

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Ao dar aulas de literatura francesa e ocidental, eu noto às vezes a reação perplexa de algum estudante aos pensamentos dos escritores medievais. Os leitores novatos mergulham avidamente em um texto de francês antigo esperando descobrir um panegírico à vida católica, numa época em que a cristandade estava ainda quase toda unida, e a Igreja integrada em cada aspecto da sociedade. Entretanto, quando lemos os grandes poemas católicos daquela época, percebemos imediatamente que as pessoas da Idade Média não se viam como modelos de católicos vivendo em tempos de grande fé. Ao contrário, freqüentemente elas julgavam a sociedade como irremediavelmente corrupta, infiel, hostil às virtudes, e indigna do nome “cristã”.

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Um bom exemplo dessa atitude se acha no poema A Vida de Sto. Aleixo[1], do século XI. Qual século poderia ser mais católico que aquele em que vários milhares responderam com gritos de “Deus vult!” ao apelo do Papa Urbano II para pegarem em armas na defesa dos cristãos na distante Terra Santa? E de fato a Vida de Sto. Aleixo é uma obra rústica de hagiografia, bem edificante, mas com grande força emocional. Entretanto, as linhas iniciais desse poema são marcadas pelo menosprezo, beirando o desespero:

Bons fut li siecles al tens ancienor,
Quer feit i ert e justise ed amor
Si ert credance, dont or n’i at nul prot;
Toz est mudez, perdude at sa color:
Ja mais n’iert tels com fut als ancessors.

O mundo era bom antigamente,
Pois havia fé e justiça e amor,
De fato havia confiança, da qual agora não há nenhuma;
Tudo mudou, e perdeu seu fascínio:
Jamais será como foi para nossos antepassados.

Um mundo arruinado, desprovido até mesmo das virtudes cristãs mais básicas, sem nenhuma esperança de que os homens que virão serão de alguma maneira melhores. O sentimento expresso aqui é muito mais que uma nostalgia de uma “era dourada” perdida no tempo, uma idéia que assombra não apenas o pensamento católico, mas também os mais primitivos pensamentos pagãos, idéia essa que muitos apologistas cristãos interpretaram corretamente como a primeira memória, fraca e fugaz, que nossa raça tem do Éden. Não, este poema (e incontáveis outros da Idade Média católica) revela um profundo senso de angústia, de indignidade, de humildade.

Claro que é exatamente este sentimento que torna a Idade Média muito mais católica que a nossa era. Mais que o poder temporal dos bispos e papas; mais que os sublimes milagres em pedra branca e vitrais coloridos; mais que os antigos rituais e as orações solenes entoadas em linguagem venerável — o verdadeiro espírito católico da Idade Média se encontra no desejo intenso de cauterizar as maldades do dia, de recuperar a virtude perdida, de restabelecer a amizade com os santos.

Não se trata de idealizar ou romancear o senso moral da Idade Média. Não há necessidade de repassar as crueldades da vida medieval. Mesmo levando em conta que a propaganda sobre a “idade das trevas” exagera enormemente sua morbidez e ignorância, não há dúvida de que a vida medieval podia ser “pobre, obscena, brutal e curta” (parafraseando o super-maquiavélico Hobbes). O fato notável é que para muitas pessoas hoje, a obscenidade e a brutalidade são modos atraentes de vida, embora não admitidos como tal. É improvável ouvirmos alguém falar hoje como um personagem de um romance de Mauriac: “Você não acha que a vida de pessoas como nós é horrivelmente similar à morte?

Se a conduta das pessoas do século XI não era necessariamente melhor que a das pessoas do século XXI, pelo menos elas não se gabavam de sua superioridade moral. Os católicos que escreveram, entoaram e ouviram poemas como a Vida de Sto. Aleixo não falavam de maneira untuosa sobre viverem uma “nova primavera” da Igreja, declarando a si mesmos como uma força de “renovação” por meio de métodos iluminados de “nova evangelização”. Eles essencialmente rezavam para evitar as piores calamidades, que eles sabiam merecer devido à sua cultura de pecado. E davam graças ao Deus que pensou neles o suficiente para lhes dar um Filho divino e Sua Mãe como consoladores in hac lacrimarum valle.

Acima de tudo, por estarem ocupados contemplando suas próprias faltas, os católicos dessa época antiga não se empenhavam em lamentar publicamente os supostos pecados das outras pessoas, tipo de “confissão” que parece estar na moda em nossos tempos. Nos três últimos papados, pelo menos, nós vimos uma avalanche de desculpas, quase sempre em nome de católicos de uma época anterior, e sem o contexto histórico necessário para sabermos o sentido das ações ou omissões daqueles fiéis. O papa São João Paulo II pediu desculpas tão freqüentemente, e por uma variedade tão grande de ofensas, que há uma página inteira da Wikipedia[2] dedicada a apenas esse aspecto de seu pontificado (e a página está bem incompleta).

O papa Francisco elevou a novas alturas esse culto à “eorum culpa”, emitindo pedidos de desculpas com estranhas palavras e que condenam os cristãos pelas próprias coisas pelas quais são dignos de louvor na cristandade. Por exemplo, de acordo com o papa[3], os cristãos devem pedir perdão “ao pobre, à mulher explorada, [e] às crianças exploradas como trabalhadoras”, mesmo que, historicamente, nenhuma religião ou outra organização de qualquer tipo tenha algum dia feito mais pelo pobre, pelo explorado, pelas mulheres, e pelas crianças.

Em que consiste, em última análise, esta afeição por emitir pedidos de desculpas em nome de cristãos (e especialmente católicos) de outras épocas? Às vezes, eu me pergunto se esses gestos não são apenas um tipo daquela oração do fariseu, de auto-elogio e de ação de graças pela própria superioridade moral: “O fariseu, em pé, orava no seu interior desta forma: Graças te dou, ó Deus, que não sou como os demais homens: ladrões, injustos e adúlteros; nem como ali aquele publicano.” (Lc 18,11) (Coloque o prefixo “Re-” na última palavra, e voila!aggiornamento moral.)

Alguém consegue realmente imaginar um papa medieval emitindo tais pedidos de desculpas? Certamente que o papa Inocêncio III expressou seu choque e arrependimento pelo resultado horroroso da quarta Cruzada, lançada por ele, mas isso não é nem de longe a mesma coisa que pedir desculpas por cristãos cujos feitos conhecemos apenas através de textos históricos. Inocêncio III (escrevendo em 1205) deveria ter pedido desculpas também pelo assassinato de Hipátia, filósofa pagã do século V, por uma multidão desvairada de cristãos em Alexandria? Ora, o historiador cristão Sócrates de Constantinopla, contemporâneo dela, já tinha condenado os cristãos da época dele por aquele crime. E não esqueçamos que o incitamento de violência dos pagãos contra os cristãos era bem comum naquele tempo.

Se queremos emitir um pedido de desculpas, não o façamos em nome com católicos do passado. Vamos pedir desculpas em nosso nome às gerações futuras que nunca terão chance de existir, devido à indiferença de muitos católicos de hoje em relação ao crime de aborto. Acabamos de testemunhar um católico bem conhecido, senador Tim Kaine, recebendo uma ovação de pé[4] de seus paroquianos e um voto de aprovação moral de seu pároco, apesar do forte apoio de Kaine ao posicionamento mais pró-aborto que um partido político americano jamais teve. Embora alguns bispos[5] tenham se pronunciado contra os católicos votarem em políticos pró-aborto, o mais comum é que políticos como Kaine não sofram nenhuma consequência por sua colaboração com o mal total.

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Os católicos da Idade Média nunca entenderiam este paradoxo: esta profusão de desculpas conjugada com piedosa indiferença. Eles tinham o hábito de falar sem rodeios sobre o mal, e de encontrá-lo neles mesmos, ao invés de apontá-lo nos outros. Faríamos bem se seguíssemos a luz de seu exemplo, nós que vivemos na verdadeira idade das trevas da humanidade.

Notas:

[1] https://archive.org/details/laviedesaintalex00pariuoft

[2] https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_apologies_made_by_Pope_John_Paul_II

[3] https://cruxnow.com/vatican/2016/06/26/pope-backs-apology-gays-says-not-just/

[4] http://www.lifenews.com/2016/07/29/catholic-church-gives-pro-abortion-tim-kaine-a-standing-ovation/

[5] http://www.lifenews.com/2016/04/27/catholic-bishops-pro-life-voters-must-not-support-pro-abortion-candidates/

Santo Inácio, Confessor

Autor: Dom Próspero Gueranger, in O Ano Litúrgico.

Tradução: André Carezia

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LUTERO — Ainda que o ciclo do tempo depois de Pentecostes tenha nos manifestado, em numerosas ocasiões, o zelo com que o Espírito Santo vela pela defesa da Igreja, volta a resplandecer neste dia o ensinamento de uma maneira nova. No século XVI um ataque formidável havia se desencadeado contra a Igreja. Satanás havia escolhido como chefe um homem caído, como ele, das alturas do céu. Lutero, agraciado desde sua juventude por predileções próprias dos perfeitos, não soube, em um dia de descaminho, resistir ao espírito de rebeldia. Como Lúcifer, que pretendia ser igual a Deus, ficou face a face com o Vigário do Altíssimo sobre o monte do Testamento[1]; de repente, rodando de abismo em abismo, arrastou atrás de si a terça parte dos astros do céu da santa Igreja[2]. Lei misteriosa e terrível, aquela que tão freqüentemente deixa nas esferas do mal o homem ou o anjo, vencido o poder que devia exercer para o bem e para o amor! Mas a eterna sabedoria jamais fica frustrada; precisamente então, frente à liberdade pervertida do anjo ou do homem, implanta esta outra lei substitutiva e misericordiosa, da qual foi Miguel o primeiro beneficiado.

VOCAÇÃO DE INÁCIO — A vocação de Inácio à santidade acompanha passo a passo em seu crescimento a apostasia de Lutero. Na primavera do ano de 1521, Lutero, desafiando todos os poderes, acabara de abandonar Worms e de refugiar-se em Wartbourgo[3], quando Inácio recebia em Pamplona a ferida que haveria de afastá-lo do mundo e encaminhá-lo pouco depois a Manresa. Valoroso como seus nobres antepassados, desde seus primeiros anos havia se sentido penetrado pelo ardor belicoso que se mostrava nos campos de batalha da terra de Espanha; mas a campanha contra o Mouro havia chegado ao fim precisamente nos dias de seu nascimento[4]. Poderia crer que para satisfazer seus instintos cavalheirescos teria somente porfias mesquinhas?

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O único e verdadeiro Rei digno de sua grande alma revela-se a ele na prova que detém seus projetos mundanos; uma nova milícia se apresenta para sua ambição: começa outra cruzada. O ano de 1522 contempla, desde os montes da Catalunha até os de Turingia, o crescimento da estratégia divina da qual unicamente os anjos possuem de fato o segredo.

MONTSERRAT — Admirável campina onde se diria que o céu se contenta em observar os poderes do mal, deixando que tomem a dianteira e apenas reservando-se o direito de fazer superabundar a graça ali mesmo onde pretende abundar a iniqüidade[5]. Assim como no ano anterior, três semanas depois de consumada a rebelião de Lutero, havia tido lugar o primeiro chamado de Inácio; a três semanas igualmente de distância, eis aqui o inferno e o céu exibindo seus eleitos sob as diferentes armaduras que correspondem aos dois campos, cujos chefes serão ambos. Dez meses de estranhas manifestações haviam preparado o substituto de satanás no forçado retiro que ele denominou “seu Patmos”; e em 5 de março, contrariando a ordem de desterro, o trânsfuga do sacerdócio e do claustro abandona Wartbourgo transformado, sob a couraça e o casco, em cavaleiro espúrio. No dia 25 do mesmo mês, na noite gloriosa em que o Verbo se fez carne, o flamante soldado das armas do reino católico, o descendente dos Iñigo e dos Loyola, vestido de saco, insígnia da pobreza que revela seus novos projetos, passa a noite em oração em Montserrat velando as armas. Pendura no altar de Maria sua bem temperada espada, e dali se dirige a lutas desconhecidas que o esperam em um combate sem compaixão por si mesmo.

PARIS — Por sobre a bandeira do livre exame [das escrituras] coloca a sua, com uma única divisa: Para maior glória de Deus! Logo se encontra em Paris (onde Calvino recruta secretamente os futuros huguenotes) para alistar, em favor do Deus dos exércitos, a companhia de vanguarda que deve proteger as hostes cristãs iluminando seu caminho, dando e recebendo os primeiros golpes. A Inglaterra, no início do ano de 1534, imita a Alemanha e os países do Norte em sua apostasia. Em 15 de agosto desse mesmo ano os primeiros soldados de Inácio, junto com ele, selam em Montmartre o compromisso definitivo que mais tarde renovarão em São Paulo Extramuros. Porque aquela tropa fixou em Roma o ponto de encontro, tropa que muito rapidamente crescerá de maneira surpreendente, e cuja profissão particular será a de estar sempre dispostos a dirigir-se, ao menor sinal, a todos os pontos onde o chefe da Igreja militante julgar utilizar bem seu selo, em defesa da fé ou para sua propagação, e para o progresso das almas na doutrina e na vida cristã.

A COMPANHIA DE JESUS — Lábios ilustres disseram[6]: “À primeira vista, o que surpreende na Companhia de Jesus é que para ela a idade madura é contemporânea da primeira formação. Quem conhece os primeiros criadores da Companhia conhece a Companhia inteira em seu espírito, em seu objeto, em seus empreendimentos, em seus procedimentos, em seus métodos. Que geração a que preside em suas origens! Que união de ciência e de atividade, de vida interior e de vida militante! Pode-se dizer que são homens universais, homens de raça gigantesca, em companhia dos quais não somos mais que insetos: de genere giganteo, quibus comparan quasi locustae videbamur.”[7]

INÁCIO E A ORAÇÃO DA IGREJA — Quão comovedora se nos parece a sensibilidade tão cheia de encantos destes primeiros padres da Companhia, indo a pé até Roma, a pé e em jejum, esgotados mas com o coração transbordante de alegria e cantando baixinho os Salmos de Davi! Quando foi indispensável, para responder às necessidades da hora presente, abandonar no novo instituto as grandes tradições da oração pública, não se fez isso sem grande sacrifício por parte de muitas destas almas; Maria, com pena, teve de ceder seu posto a Marta nesse ponto. Pelo espaço de tantos séculos a solene celebração dos Ofícios Divinos — dívida social primária — havia parecido tarefa indispensável de toda família religiosa; era o primeiro alimento da santidade individual de seus membros!

Mas a chegada de novos tempos, semeando por toda parte a degradação e a ruína, reclamava uma exceção tão insólita quanto dolorosa da valente companhia que consagrava sua existência à instabilidade de sobressaltos sem conta e de contínuas incursões por terras inimigas. Inácio compreendeu isso. Sacrificou, em benefício do objetivo que se impunha, a atração pessoal que sentiu toda sua vida pelo canto sagrado, cujas menores notas ao chegarem a seus ouvidos faziam verter nele lágrimas de consolo.

Com a chegada dos últimos tempos e de suas emboscadas, havia soado para a Igreja a hora das milícias especiais, organizadas em acampamentos móveis. Mas quanto mais difícil se tornava exigir destas tropas beneméritas, embebidas no contínuo batalhar exterior, os hábitos e costumes dos que protegiam a Cidade Santa, tanto mais Santo Inácio desprezava o estranho contrassenso que pretendia reformar os costumes do povo cristão segundo o modo de vida exigido pelo serviço de reconhecimento e de vanguarda, ao qual ele se sacrificou por todos os demais. A terceira das dezoito regras que assenta, como coroação dos Exercícios Espirituais, “para termos em nós os verdadeiros sentidos da Igreja ortodoxa”, recomenda aos fiéis os cantos da Igreja, os salmos, e as diferentes Horas canônicas no tempo assinalado para cada uma. E, no início do livro, que realmente é o tesouro da Companhia de Jesus, ao estabelecer as condições que permitiriam extrair o melhor fruto possível dos mesmos Exercícios, determina em sua vigésima nota que aquele que puder deve escolher, durante o tempo de sua duração, uma cela que lhe permita facilmente dirigir tanto os Ofícios quanto o Santo Sacrifício. Com isto, que faz pelos outros nosso Santo, senão aconselhar para a prática dos Exercícios o mesmo espírito com que foram compostos, neste retiro bendito de Manresa, onde a participação cotidiana na Missa solene e nos Ofícios do entardecer foram para ele um manancial de delícias celestiais?

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Vida — Inácio nasceu, sem dúvida, em outubro de 1491, em Guipúzcoa, da nobre família dos Loyola. Tendo entrado para o serviço do Rei de Navarra, foi ferido em Pamplona em 20 de maio de 1521. No decurso de sua convalescença, leu a Vita Christi de Ludolfo de Saxônia e, auxiliado pela graça divina, resolveu daí em diante seguir a Cristo. Em fevereiro de 1522, partiu para Montserrat com a finalidade de oferecer sua espada à Virgem; depois se dirigiu a Manresa, onde permaneceu um ano entregue à penitência e à oração. Compôs então seu célebre livro dos Exercícios Espirituais, que obteria a aprovação da Sé Apostólica e faria muito bem a inúmeras almas. Em 1523 fez uma peregrinação à Terra Santa, regressando depois à Espanha com o objetivo de estudar para se achar melhor disposto ao serviço de Deus e da Igreja. Com alguns companheiros partiu a Paris, aonde chegaram em 2 de fevereiro de 1528. Inácio recebeu ali sua graduação universitária e assentou os fundamentos da nova Ordem. Tendo estabelecido a ordem em Roma com aprovação de Paulo III, acrescentou aos votos ordinários o de consagrar-se às missões, se a Santa Sé assim o pedisse. Enviou São Francisco Xavier às Índias; ele mesmo lutou ardorosamente contra a heresia luterana; fundou casas de educação para a juventude; trabalhou na renovação da piedade entre os católicos; suas obras prediletas foram o embelezamento dos templos, o ensino do catecismo e a prática dos sacramentos. Por último, depois de ter trabalhado longo tempo para “a maior glória de Deus”, morreu em 31 de julho de 1556. Foi beatificado em 1609 e canonizado em 1623 junto com São Isidoro Lavrador, Santa Teresa de Ávila e São Francisco Xavier. Em 1922, Pio XI declarou-o patrono de todos os exercícios espirituais.

O SOLDADO DE DEUS — “Esta é a vitória que venceu o mundo: nossa fé.”[8] Tu, por tua vez, mostraste que foste o grande vencedor do mundo, deste mundo no qual o Filho de Deus te elegeu para exaltar Sua bandeira humilhada diante do estandarte de Babel. Estiveste longo tempo quase que sozinho contra os batalhões sempre crescentes dos rebeldes, deixando ao Senhor dos exércitos o cuidado de escolher a hora para que travasses a batalha contra as cortes de Satanás, assim como a escolheu para retirar-te da milícia terrena. Se o mundo tivesse então conhecido teus intentos, teria considerado tudo chacota; e contudo foi um momento tão importante para a história do mundo quanto aquele em que, à semelhança dos mais ilustres capitães a concentrar suas tropas, deste ordem a teus nove companheiros para se dirigirem de três em três à Cidade Santa. Que resultados admiráveis durante aqueles quinze anos em que esta tropa escolhida e recrutada pelo Espírito Santo teve-te como chefe e primeiro general! A heresia varrida da Itália, confundida em Trento, detida em todas as partes, imobilizada até em sua própria casa; imensas conquistas em terras novas, para reparar os danos sofridos em nosso Ocidente; a própria Igreja rejuvenescida em sua beleza, restaurada em seu povo e em seus pastores; assegurada para seus filhos uma educação correspondente aos seus destinos celestiais; por fim, todo lugar onde imprudentemente Satanás havia cantado vitória, em meio a espantosos rugidos, é dominado novamente por este nome de Jesus que faz dobrar todos os joelhos no céu, na terra e nos infernos[9]. Qual glória, ó Inácio, algum dia se igualou a esta, nos exércitos dos reis da terra?

INVOCAÇÃO AO CHEFE GLORIOSO — Vela, do trono que conquistaste com tantas façanhas, sobre estes frutos de tuas obras, e continua mostrando-te como soldado de Deus. Através das contradições que nunca lhes faltaram, mantém teus filhos na posição de honra e valentia que faz deles os sentinelas da vanguarda de tua Igreja. Que sejam fiéis ao espírito de seu glorioso pai, “tendo diante dos olhos, sem cessar, primeiramente o reino de Deus; em seguida, como um caminho que conduz a Ele, a forma de seu instituto, consagrando todas as suas forças para alcançar este objetivo que Deus lhes assinala, seguindo embora cada um a medida da graça que recebeu do Espírito Santo e o grau próprio de sua vocação”[10]. Finalmente, ó cabeça de tão nobre descendência, abraça em teu amor todas as famílias religiosas cuja sorte diante da perseguição veio a ser, nestes dias, tão estreitamente solidária à da tua; bendize particularmente a Ordem monástica que protegeu com suas antigas ramas teus primeiros passos na vida de perfeição, e o nascimento da egrégia Companhia que será tua imperecível coroa nos céus. Protege a Espanha, que te viu nascer não só para a vida terrestre, mas também para a graça da conversão. Roga para que os cristãos aprendam de ti a militar por Deus, a nunca renegar sua bandeira; roga para que todos os homens, debaixo de tuas ordens, recoloquem em Deus seu princípio e seu fim.

Notas:

[1] Isaías, XIV, 13.

[2] Apoc., XII, 4.

[3] A dieta de Worms, onde teve lugar a ruptura oficial do heresiarca, na presença das diversas ordens do império, viu consumar-se esta ruptura nos últimos dias de abril, e foi em 20 de maio que Inácio recebeu a ferida cuja consequência foi sua conversão.

[4] 1491.

[5] Rom., V, 20.

[6] Cardeal Pie, homilia pronunciada nas festas da beatificação de Pedro Fabro.

[7] “da raça dos gigantes, parecíamos gafanhotos comparados com eles”, Números, XIII, 34.

[8] 1 Jo, V, 4.

[9] Fl, II, 10.

[10] Nota de Paulo III.

São Bernardo de Claraval

Autor: Dom Prósper Gueranger, in O Ano Litúrgico [1]

Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

GLÓRIAS DE SÃO BERNARDO — “Eis aqui a Rainha, que se sentou diante de seu único Filho no festim eterno. Então, como o nardo que difunde seu perfume, Bernardo entregou sua alma a Deus.” [2] Sem dúvida foi para recompensá-lo por ter sido seu cavaleiro tão fiel, e cantador tão amante e eloqüente de todas as suas grandezas, que Maria veio buscar Bernardo durante a Oitava de sua gloriosa Assunção.

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O menológio [3] cisterciense recorda a seus filhos todos os anos a figura gloriosa e os méritos do primeiro Abade de Claraval: “No claustro se exercita maravilhosamente em jejuns, em orações, em vigílias, levando na terra uma vida toda celestial. Sem descuidar de seu trabalho de aperfeiçoamento, ocupa-se com zelo e êxito na santificação dos seus; vê-se, ademais, obrigado a apresentar-se diante do mundo. Aconselha os papas, pacifica os reis, converte os povos; extermina a heresia, abate o cisma, prega a cruzada, recusa bispados, realiza um sem número de milagres, escreve obras admiráveis e mil cartas. Aos 63 anos, quando morre, tinha fundado já 150 mosteiros, e 700 religiosos choram por ele em Claraval. O papa Alexandre III inscreveu-o no livro dos santos, e Pio VIII, em 1830, conferiu a ele o título de Doutor da Igreja Universal. Grande é o elogio, mas não exagerado.

Inumeráveis são os títulos que se deram ao que veio a Claraval para buscar, na humildade da vida monástica, o silêncio, a facilidade de fazer penitência e de rezar enquanto se aproximava a morte que o uniria a seu Deus. Ele, que procurava ser esquecido por todos, chegou a ser, para seu pesar, o homem de quem não podia prescindir seu século, ele que iria ter sobre seus compatriotas uma influência sem par, e que na história ficaria com uma das figuras mais nobres e mais atraentes da Igreja e de sua pátria. Bossuet, em um célebre panegírico, representou-o na cela estudando a cruz de Jesus, depois na cátedra sagrada e através dos caminhos da Europa, pregando essa mesma cruz. Porém, antes dele, Alexandre III o havia chamado “luz de toda a Igreja de Deus pela tocha de sua fé e de sua doutrina”; Santo Tomás de Aquino: “o eleito de Deus, a pérola, o espelho e o modelo da fé; a coluna da Igreja, o vaso precioso, a boca de ouro que embriagou todo o mundo com o vinho de sua doçura”; e São Boaventura lhe chamou “o grande contemplativo, de máxima eloqüência, cheio do espírito de sabedoria e de uma santidade eminente”; e nos estenderíamos demasiado se fôssemos citar os nomes e os elogios dos santos que o veneraram e saborearam sua doutrina “melíflua”, desde Santa Gertrudes e Santa Matilde até São Luiz Gonzaga e Santo Afonso de Ligório.

O CAVALEIRO DE NOSSA SENHORA — Mas o que de modo especial nos deve impressionar nestes dias, o que deveria bastar para dar glória a São Bernardo, é que foi cantador e cavaleiro de Nossa Senhora. “Foi, diz Bossuet, o mais fiel e o mais casto de seus filhos; o que mais honrou dentre todos os homens sua maternidade gloriosa, o que creu que devia aos seus cuidados e à sua caridade materna a influência contínua de graças que recebia de seu divino Filho”. Diz a lenda que um dia os anjos o ensinaram a Salve Rainha na Igreja de São Benigno de Dijon, e que uma vez a Virgem fez cair nos lábios dele algumas gotas do leite com que havia alimentado Jesus. Porém, seja como for, Bernardo se mostrava mais eloqüente e mais persuasivo do que nunca ao falar de Maria. Seus discursos apresentam-na a nós em todos os mistérios de nossa salvação, ocupando junto ao Senhor o posto que Eva havia tido junto a nosso primeiro pai; falou dela em termos tão ternos e comovedores, que fez vibrar o coração dos monges e das multidões que o escutavam, tão grande amor sentia por esta divina Mãe, e contribuiu poderosamente para fazê-la amada em sua nação. Seus sermões sobre a Anunciação se tornaram famosos, e os do mistério da Assunção se diriam ser posteriores à definição do dogma que tanta alegria trouxe ao mundo. Talvez seja isso o que lhe proporcionou tanta popularidade. Porque São Bernardo não é admirado somente pelos que estudam a história do século XII e se encontram com ele em tudo de grande e grave que então sucede, nem somente pelos monges e teólogos que estudam sua doutrina; São Bernardo é amado, e “o segredo de sua popularidade e do amor que se lhe tem, está no amor que ele teve a Jesus e na ternura com que amou a Maria, ternura profunda, amor ardente que nos entusiasma ainda depois de oito séculos” [4] “Jesus e Maria: dois nomes, dois amores que fundem em um só e fazem de seu coração um forno. O amor de Maria dá o movimento, e o amor de Jesus se abre nele como um lírio em seu talo. Este amor o persegue pelas sendas da Escritura, pelas montanhas ásperas da vida monástica, pela prática assídua das virtudes mais varonis, mas sempre por meio de Maria; esforça-se por cantar o Verbo acompanhando-se de Maria como de uma lira.” [5]

Depois de oito séculos, as orações que São Bernardo redigiu ou esboçou servem para que as almas rezem a Maria, para expressar-lhe sua confiança e seu amor. Repetimos-las todos os dias, valorizadas com o fervor de todos os que as pronunciaram antes de nós: a Salve Rainha, o Lembrai-vos. Não conhecemos melhor modo de honrar este grande santo, ser-lhe grato e dar-lhe graças, que repetir, seguindo seu exemplo, as orações que brotaram de seu coração e sobretudo louvar a Nossa Senhora com suas próprias palavras.

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VIDA — Bernardo nasceu em Fontaine-lez-Dijon, em 1090. Aos 16 anos se encontrou sem mãe. Pouco depois pensou em ingressar no Cister, onde o abade Stephen Harding estava desacorçoado por não ter vocações. Mas não chegou sozinho. Na Páscoa de 1112, apresentou-se com trinta parentes e amigos, a quem havia animado a abraçar a vida perfeita. Permaneceu durante três anos nesse mosteiro, entregue à oração e à mais rude penitência. Em 1115 chegou a ser abade de Claraval. A fama de sua doutrina e de sua santidade de pronto lhe trouxe postulantes em grande número; logo teve que fundar mosteiros e aceitar a reforma daqueles que solicitavam sua ajuda. Todo inteiro para todos, teve muitas vezes que deixar seu mosteiro para combater o cisma de Anacleto II na Itália, a heresia no sul da França, ou para pregar a cruzada a pedido de Eugênio III. Para este filho, que chegou a ser Papa, escreveu o tratado da Consideração, e para seus monges sua Apologia do Ideal Cisterciense, o Tratado do Amor de Deus e o Comentário ao Cântico dos Cânticos. Esgotado pelos trabalhos e lidas, consumido por excessiva penitência, acabou por fim seus dias em seu mosteiro, em 20 de agosto de 1153. Foi canonizado vinte anos depois, e declarado por Pio VIII Doutor da Igreja em 23 de julho de 1830.

ORAÇÃO A SÃO BERNARDO — Era conveniente que víssemos o mensageiro da Mãe de Deus seguir de perto sua carruagem triunfal; e, ao entrar no céu nesta oitava radiante, tu te perdes com deleite na glória daquela cujas grandezas enalteceste neste mundo. Ela nos ampara em sua corte; dirige até o Cister seus olhos maternais; em seu nome, salva mais uma vez a Igreja e defende o vigário do Esposo.

Mas neste dia nos convidas a cantar contigo para ela, a rogar-lhe, que é melhor que rezar; a homenagem que mais te agrada, ó Bernardo, é ver que nos aproveitamos de teus escritos sublimes para admirar “aquela que hoje sobe gloriosa e plena de felicidade aos habitantes do céu.”

Ainda que rutilante, o céu resplandece com novo fulgor à luz da tocha virginal. Nas alturas ressoam também a ação de graças e o louvor. Estas alegrias da pátria, não devemos fazê-las nossas em meio a nosso desterro? Sem morada permanente, buscamos a cidade à qual a Virgem bendita sobe neste momento. Cidadãos de Jerusalém, muito justo é que daqui das margens dos rios da Babilônia nos decidamos sobre isso, e dilatemos nossos corações diante do transbordamento do rio de felicidade cujas gotículas hoje saltam à terra. Nossa Rainha tomou hoje a dianteira; a acolhida esplêndida que se fez a ela nos dá confiança a nós que somos seu séquito e seus servidores. Nossa caravana, precedida da Mãe da misericórdia como advogada junto ao Juiz, seu Filho, terá boa acolhida no negócio da salvação. [6]

“Deixe de enaltecer tua misericórdia, ó Virgem Bem-aventurada, aquele que recorda haver-te invocado inutilmente em suas necessidades. Nós, servos teus, te felicitamos, sim, por todas as demais virtudes; mas em tua misericórdia nos felicitamos melhor ainda a nós mesmos. Louvamos em ti a virgindade e admiramos tua humildade; mas a misericórdia tem sabor mais doce aos miseráveis; por isso abraçamos com mais amor a misericórdia, recordamo-nos dela mais vezes, e invocamo-la sem cessar. Quem poderá examinar, ó Virgem bendita, a latitude e a longitude, a altura e profundidade de tua misericórdia? Porque sua latitude alcança até a ultima hora (aos que a invocam); sua longitude enche a terra; sua altura e sua profundidade preencheram o céu e deixaram vazio o inferno. Agora que recuperaste teu Filho e és tão poderosa quanto misericordiosa, manifesta ao mundo a graça que alcançaste nEle: alcança o perdão para o pecador, saúde para o enfermo, fortaleza aos débeis, consolo para os aflitos, amparo e proteção aos ameaçados por algum perigo, ó clementíssima, ó piedosa, ó doce Virgem Maria!” [7]

Notas

[1] A festa litúrgica de São Bernardo é no dia 20 de agosto, no meio da oitava da Assunção de Nossa Senhora, cuja festa litúrgica é no dia 15 de agosto.

[2] Paráfrase da oração de P. Condren, Veni Domine Jesu.

[3] Calendário com a biografia dos mártires e respectivas datas em que são celebrados.

[4] Dom Dominique Nogues: La Mariología de San Bernardo, p. XIV.

[5] Ibid, p. XV.

[6] São Bernardo, Primeiro Sermão sobre a Assunção.

[7] São Bernardo, Quarto Sermão sobre a Assunção.

Santa Maria Goretti e a Nova Igreja da Misericórdia

(Publicado originalmente em inglês no jornal católico The Remnant, na edição de 25/nov/2015.)

Autor: Tess Mullins

Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

Misericórdia é o nome do jogo. Pelo menos assim é na “nova e melhorada” Igreja Católica de hoje, a qual é uma ouvinte de muita sensibilidade. Claro que a misericórdia é fundamental, mas a nova Igreja deu outra ênfase a ela. Esqueça a necessidade de arrependimento, pois a misericórdia é para todo mundo, quer queiram ou não! Se os anos 60 giravam em torno do “amor livre”, estes agora são dias de “misericórdia livre”. Mas a misericórdia não deveria ter um custo?

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Hoje a Peregrinação da Misericórdia veio à minha cidade. Esse é o nome oficial de um tour pelos EUA das relíquias da mais jovem mártir da Igreja, Santa Maria Goretti. Para esse tour, ela recebeu o título de “Pequena Santa da Grande Misericórdia”, porque ela perdoou seu assassino. Sem querer diminuir esse ato de virtude heróica, há talvez outra lição a ser aprendida da história dela, uma localmente neglicenciada na promoção desse tour; uma lição de dor pelo pecado e de retificação da vida.

Maria Goretti só tinha nove anos quando seu pai morreu, deixando-a no papel de mãe de cinco irmãos e irmãs mais novos enquanto a viúva dele trabalhava no campo. O espírito de Maria fortaleceu e emendou a família despedaçada. Porém, dois anos depois, o garoto vizinho, um rapaz cujo pai era alcoólatra e cuja mãe era doida, tentou violentá-la enquanto estava sozinha na casa. Ela declarou que preferia morrer a permitir que ele cometesse esse pecado. Em um acesso de raiva ele a esfaqueou quatorze vezes e fugiu.

Maria foi achada ainda viva, e os médicos tentaram uma cirurgia nela sem anestesia, por medo de induzirem uma parada cardíaca, mas não conseguiram estancar a hemorragia interna. Ela ofereceu essas dores excruciantes pela conversão dos pecadores, e antes de morrer ela disse à mãe: “Eu perdôo Alessandro Serenelli e quero-o comigo no céu pela eternidade.” Ela foi canonizada 48 anos depois pelo Papa Pio XII, em 1950.

Seu assassino foi convidado para a canonização. Ele era então um outro homem. A inocente moribunda de onze anos sabia que ele se converteria quando disse que queria estar com ele no céu. Pense no que isso quer dizer! Ela entendia a gravidade do pecado dele; ela morreu por isso. E ela sabia que ele não teria permissão de entrar no céu a menos que se arrependesse de seu pecado. Maria Goretti, ao contrário da Igreja “ouvinte” de nosso tempo, pediu uma mudança da parte dele. Houve misericórdia, claro, mas o ponto chave aqui foi o arrependimento; tanto na expectativa quanto depois, na realidade.

Dizem que Alessandro foi para a cadeia como o homem mais irritado da terra. Mas lá dentro a pequena Maria apareceu para ele, e embora sem falar, toda sua aparência era de perdão, e ele entendeu.

Ele se converteu imediatamente.

O restante de sua vida foi dedicado a reparar seu passado. Ele fez as pazes com a pobre mãe de Maria, e entrou para os Frades Capuchinhos como irmão leigo. Ele escreveu uma carta aberta ao mundo, encontrada por seus irmãos Capuchinhos depois de sua morte. Eis as palavras de um homem que aprendeu a visão correta sobre pecado e julgamento; que encontrou dignidade e honra no lamento por seus pecados e na reparação de sua vida:

“Eu tenho agora 80 anos. Estou perto do fim de meus dias. Olhando para meu passado, reconheço que em minha juventude segui uma estrada falsa — um caminho de maldade que levou à minha ruína.

Através do conteúdo de revistas, shows imorais, e maus exemplos na mídia, eu vi a maioria dos jovens da minha época seguir o mal sem pensar duas vezes sobre ele. Despreocupado, fiz a mesma coisa. Havia católicos praticantes ao meu redor, mas não lhes dei atenção. Fui cegado por uma força bruta que me empurrou para baixo, para o mau caminho na vida.

Com vinte anos de idade eu cometi um crime passional, cuja memória ainda me horripila hoje. Maria Goretti, agora santa, foi meu anjo bom que Deus colocou em meu caminho para me salvar. Suas palavras, ao mesmo tempo de repreensão e de perdão, estão ainda impressas em meu coração. Ela rezou por mim, intercedendo por seu assassino. Seguiram-se trinta anos na prisão.

Se eu não fosse menor de idade, de acordo com a lei italiana, eu teria sido sentenciado à prisão perpétua. Apesar disso, aceitei a sentença recebida como algo que eu merecia.

Resignado, expiei meu pecado. A pequena Maria era realmente minha luz, minha protetora. Com a ajuda dela, cumpri bem aqueles 27 anos na prisão. Quando a sociedade me aceitou de volta como seu membro, tentei viver honestamente. Com caridade angélica, os filhos de São Francisco, os frades menores Capuchinhos me acolheram no meio deles não como servo, mas como irmão. Eu vivi com eles por 24 anos. Agora eu anseio serenamente pelo momento em que serei admitido à visão de Deus, para abraçar meus queridos novamente, e para estar perto de meu anjo da guarda, Maria Goretti, e de sua querida mãe Assunta.

Que todos aqueles que lêem esta carta desejem seguir o feliz ensinamento de evitar o mal e seguir o bem. Que possam acreditar, desde a infância, que a religião e seus preceitos não são algo do qual podem prescindir. Ao contrário, é verdadeiro conforto, e único caminho seguro em todas as circunstâncias da vida — mesmo na mais dolorosa. Paz e bem, Alessandro Serenelli, Macerata, Itália, 5 de maio de 1961.”

Este homem entende a coisa. Não é só misericórdia. Na vida há dor, conflito, queda, mas também há reerguimento e recomeço, e honra ganha por tentar. A vergonha vem de permanecer no pecado, não de se acusar e dar a volta por cima. A Igreja de hoje, entretanto, fica perfeitamente à vontade sorrindo misericordiosamente para você enquanto você teimosamente chafurda em seu próprio lamaçal.

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Mas a misericórdia se apóia na justiça. Alessandro Serenelli sabia que a justiça tinha que vir antes, de modo que aceitou sua sentença de prisão e pagou por seus crimes. Somente então ele pôde dizer com a confiança de uma criança: “Anseio serenamente pelo momento em que serei admitido à visão de Deus”.

Santa Maria Goretti (e Alessandro, se estiver aí em cima!), ore por sua Igreja!

 

Mártires em Defesa do Matrimônio Católico

Do livro Remaining in The Truth of Christ:

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“O caso mais famoso é o do rei da Inglaterra, Henrique VIII, que desejava a anulação de seu indubitavelmente válido casamento com Catarina de Aragão, de forma a poder se casar com a dama-de-honra Ana Bolena. Para conseguir isso, ele exigiu, em 1534, o assentimento de bispos, clérigos e súditos a seu chamado Ato de Supremacia, pelo qual ele se declarou o chefe supremo da Igreja da Inglaterra, de modo a sair da jurisdição do Papa, que não podia atender seu pedido.

“Ao mesmo tempo que quase todo o alto clero se submeteu ao rei, houve resistência do bispo [São] João Fisher de Rochester, que tinha sido vice-reitor da Universidade de Cambridge; de [São] Tomás More, que renunciou ao cargo de chanceler do reino devido ao assunto; dos Cartuchos de Londres; dos frades Franciscanos Observantes; e de algumas famílias de nobres. Fisher, More e os Cartuchos de Londres logo sentiram a vingança do rei. Depois de julgamentos espetaculares, cujos veredictos já haviam sido decididos antes de começarem, eles sofreram martírio. As outras testemunhas fiéis sofreram perseguição violenta, que custou a não poucos a vida, e a muitos deles a perda de suas propriedades.

“Nesse contexto, a posição do Papa Clemente VII foi admirável. Sem se importar com a forte pressão política, e com o perigo do cisma da Inglaterra da Igreja Católica, ele insistiu na validade e portanto na indissolubilidade do casamento entre Henrique e Catarina. Para não se precipitar, ele tentou por meio de alguma hesitação, de iniciativas diplomáticas, de procedimentos formais — alguns podem chamá-los evasivas — dar a Henrique tempo para refletir e arrepender-se, mas isso foi inútil. Mesmo a ameaça da separação da Inglaterra da unidade da Igreja não foi suficiente para abalar o Papa.

“Foi um momento de glória na história do papado quando Clemente VII, apesar das consequências, defendeu as verdades da fé e respondeu às ordens do rei com seu famoso ‘non possumus’ (não podemos).”

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(Cardeal Brandmüller, “Unity and Indissolubility of Marriage: From the Middle Ages to the Council of Trent”, trecho final do artigo contra adultério e divórcio)