A Consagração: Última Ceia e Calvário

(Artigo original em inglês, de autoria do Padre Ladis J. Cizik, publicado no jornal americano The Remnant em 23 de março de 2016.)

Tradução: André Carezia

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In Nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti. Amen.

“Ceia do Senhor” é uma expressão bíblica que foi adotada durante a ‘de’-formação protestante da Igreja, com o objetivo de negar a natureza de sacrifício da Missa, e trocá-la por um simples “memorial”. Protestantes e modernistas[1] se esforçam por separar o sacrifício no Calvário, centrado em Cristo, do santo sacrifício da Missa, transformando um evento solene em um “lanche feliz” centrado na comunidade. Entretanto, tanto as sagradas Escrituras quanto a sagrada Tradição afirmam que o Calvário estava onipresente já na primeira Missa oferecida na história. Aquela primeira Missa no Cenáculo foi a última ceia na qual Nosso Senhor e Deus, Jesus Cristo, antecipou Sua morte salvadora no Calvário.

santa ceia

A última ceia, a primeira Missa, não foi uma “refeição memorial” em consideração ao fato de que Cristo ainda não havia morrido na cruz. A última ceia apresenta uma espécie de catequese sobre a presença real de Cristo no Santíssimo Sacramento, a instituição da ordenação sacerdotal e a natureza de sacrifício da Missa. As orações da Consagração no Missal Romano tradicional (Missale Romanum) evocam a morte-sacrifício de Nosso Senhor no Calvário dentro do contexto das palavras e ações de Jesus na última ceia. Na pessoa de Cristo (in persona Christi), o sacerdote católico segue as palavras e gestos de Jesus na última ceia, consagrando e transformando pão e vinho no corpo, sangue, alma e divindade da segunda pessoa da Santíssima Trindade.

Pelo uso de “matéria e forma” apropriadas, as mesmas matéria e forma que Jesus usou na última ceia, e com a “intenção” adequada do sacerdote, o milagre da transubstanciação acontece. Assim, o Rito Romano da Igreja Católica prescreve que a “matéria” adequada à Eucaristia precisa ser o pão ázimo[2] e o vinho de uva natural. Pão ázimo é aquele que Jesus teria usado em Sua última ceia de Páscoa. O Antigo Testamento nos conta que o povo judeu só deveria comer pão ázimo todos os anos durante a Páscoa, como forma de comemorar seu êxodo do cativeiro egípcio[3]. De modo similar, o pão sem fermento que Jesus teria usado na última ceia pascal representaria o êxodo do pecado e da morte, que ocorreu para Seus seguidores após Sua morte salvífica e gloriosa ressurreição. Note que o fermento na bíblia é quase sempre símbolo do pecado[4]. Um pecado grave é o que ocorre quando o pão fermentado é introduzido na Missa católica de rito romano – embora o Concílio de Florença (século 15) confirme o entendimento corrente de que tal Missa ilícita continua sendo válida.

A “forma” apropriada para transformar pão e vinho em corpo e sangue de Cristo são as “palavras da consagração” (também chamadas palavras da instituição). Estas palavras sagradas são o centro espiritual e pináculo da Missa. O coração da Missa é a consagração. O Dr. Nicholas Gihr declara em sua obra clássica, O Santo Sacrifício da Missa: “O momento da consagração é o momento mais importante e solene, o fruto mais sublime e santo de toda a celebração do Sacrifício; pois neste momento é completada aquela obra gloriosa e inapreensivelmente profunda, o Sacrifício Eucarístico, no qual todas as maravilhas do amor de Deus estão concentradas como em um foco de calor e luz. A mudança de pão e vinho no corpo e sangue de Cristo só pode provir dEle, pois ‘só Ele operou maravilhosos prodígios’: é um ato de onipotência criativa. Mas este ato de supremo poder requer um ato humano, um cooperação humana da parte do sacerdote ordenado.”[5] Para uma Missa ser válida, o sacerdote ordenado validamente deve ter a “intenção” de transformar pão e vinho no corpo e sangue de Cristo. São Tomás de Aquino afirma: “a intenção [do sacerdote] é exigida; por meio dela ele se sujeita ao agente principal; ou seja, é necessário que ele tenha a intenção de fazer o que Cristo e a Igreja fazem.”[6]

Imediatamente antes das palavras da consagração vem a oração Qui pridie. O sacerdote nos leva misticamente à “véspera de sua paixão”, quando Jesus tomou o pão em Suas santas e veneráveis mãos (sanctas, ac venerabiles manus suas). Neste instante, o sacerdote já passou seus “dedos canônicos” (polegares e indicadores) no corporal para melhor purificá-los antes de segurar a hóstia com estes quatro dedos apenas. Ao pronunciar elevatis oculis in caelum, o sacerdote, in persona Christi, eleva os olhos para o céu em direção a Deus, o Pai todo-poderoso, dá-Lhe graças (com uma inclinação da cabeça) e abençoa (benedixit) a hóstia. O sacerdote relembra então Jesus partindo o pão e dando-o aos discípulos, enquanto dá voz às palavras de Nosso Senhor: tomai e comei dele, todos (Accipite, et manducate ex hoc omnes).

Observe que o sacerdote não está apenas lendo uma narrativa de um evento do passado; ele está ‘re’-presentando, in persona Christi, o evento por meio das palavras e ações simultâneas do próprio Jesus Cristo. Cristo não está lendo uma “narrativa da instituição” no pretérito. O Cristo-sacerdote não está meramente repetindo as palavras de uma antiga história de uma refeição que está “feita e encerrada”. Cristo está agindo no presente através do sacerdote. É por isso que dizemos que o santo sacrifício da Missa é a ‘re’-presentação incruenta do sacrifício de Cristo no calvário.

Profundamente reclinado sobre o corporal, com os antebraços apoiados na borda do altar (significando sua união com Cristo representado pelo altar), segurando a hóstia com os dedos canônicos de ambas as mãos, o sacerdote pronuncia as palavras da consagração sobre o pão. No missal da Missa Tridentina, as palavras da consagração são impressas com uma letra de tamanho duplo em relação ao resto do texto, e em negrito, para que se destaquem. O sacerdote, com os olhos postos na hóstia, deve dar voz às palavras de Cristo de maneira clara e atenta, sem pausas e num sussurro:

HOC EST ENIM CORPUS MEUM.

Tradução: “Pois isto é o meu corpo.” A hóstia agora É a presença real de Cristo na Eucaristia: Seu corpo, sangue, alma e divindade. Note que, assim como a carne humana contém sangue, também a Igreja ensina que o corpo e o sangue de Jesus Cristo estão presentes em cada espécie eucarística. Ninguém precisa “beber do cálice”, como dizem na Missa Novus Ordo, para receber o precioso sangue de Cristo. Jesus está completo e inteiro na hóstia consagrada. Isto corrobora a prática da Missa Tridentina, na qual a Santa Comunhão é distribuída apenas sob a aparência do pão. As palavras “isto é o meu corpo” aparecem nos quatro relatos bíblicos da Última Ceia[7]. A palavra “pois” não aparece nos relatos bíblicos, mas é considerada como sendo parte da Sagrada Tradição, como uma palavra que o Senhor teria dito.

Note que, depois de consagrar a Sagrada Hóstia, o sacerdote não separará mais seus polegares e indicadores, exceto para segurar o Santíssimo Sacramento, até que eles estejam “purificados” após a santa comunhão. Isto para assegurar que toda partícula da hóstia restante nos dedos seja consumida de maneira reverente durante as abluções. Além do mais, deste momento em diante, o sacerdote fará uma genuflexão honrosa antes e depois de cada toque que fizer na Sagrada Hóstia.

Depois da consagração da hóstia sagrada, o sacerdote segue para a oração simili modo, não sem antes retirar a pala do cálice. A oração inicia seguindo as ações e palavras de Jesus na Última Ceia: do mesmo modo (simili modo), depois da ceia, Ele tomou também o precioso cálice em Suas santas e veneráveis mãos (aqui o sacerdote eleva o cálice ligeiramente acima do corporal com ambas as mãos), deu graças ao Pai (inclinando a cabeça), abençoou-o (o sacerdote faz o sinal da cruz sobre o cálice) e deu-o a Seus discípulos dizendo: tomai e bebei dele todos vós (Accipite, et bibite ex eo omnes). Segurando o cálice nas mãos, um pouco acima do corporal, profundamente inclinado sobre o altar com os antebraços na borda (significando sua união com Cristo, representado pelo altar), o sacerdote dá voz às palavras de Cristo sobre o vinho, de maneira clara e atenta, e num sussurro:

HIC EST ENIM CALIX SANGUINIS MEI, NOVI ET AETERNI TESTAMENTI: MYSTERIUM FIDEI: QUI PRO VOBIS ET PRO MULTIS EFFUNDETUR IN REMISSIONEM PECCATORUM.

Tradução: “Pois este é o cálice do meu sangue, sangue do novo e eterno testamento (mistério da fé), o qual será derramado por vós e por muitos para remissão dos pecados.” Com relação às palavras “pois este é o cálice do meu sangue”, Gihr opina: “De acordo com a opinião geral, estas palavras e somente elas constituem a fórmula essencial da consagração do cálice; pois elas significam e tornam realidade a presença do sangue de Cristo sob a aparência do vinho.”[8] E continua dizendo: “As palavras seguintes… são acrescentadas por serem apropriadas. É aceitação comum que elas foram ditas alguma vez pelo próprio Senhor; além do mais, elas explicam a dignidade e os efeitos deste Sacrifício.”

Todas as outras palavras da consagração do vinho podem ser encontradas em um ou mais relatos da Última Ceia, exceto por “eterno” e “mistério da fé”. Estas palavras que não estão na Bíblia, incluindo “pois” (já mencionada acima na consagração do pão), têm origem na outra fonte da verdade católica: a Tradição Sagrada, tão válida quanto a Sagrada Escritura. Lembre que o santo sacrifício da Missa era celebrado pelos apóstolos antes mesmo da Igreja Católica elaborar a seção do Novo Testamento da Bíblia. Em especial, o papa Leão IX declarou que as palavras mysterium fidei (mistério da fé) são uma “tradição transmitida por São Pedro, o autor da liturgia romana.” De fato, São Pedro, o primeiro papa, escutou Nosso Senhor falar na Última Ceia e presidiu em Roma, onde morreu e está sepultado. As palavras “novo e eterno testamento” (ou seja: nova e eterna aliança) são essenciais ao entendimento católico de que a Nova Aliança, selada pelo sangue de Cristo, aboliu completamente e para sempre a Antiga Aliança, a qual existia para durar apenas temporariamente até a vinda do Messias, nosso Senhor e nosso Deus, Jesus Cristo[9].

As palavras da consagração incluem: qui pro vobis et pro multis effundetur in remissionem peccatorum (o qual será derramado por vós e por muitos para remissão dos pecados). Embora estas palavras nunca tenham mudado na Missa Tridentina, é incrível que as palavras pro multis tenham sido traduzidas incorretamente e de propósito quando da introdução da Missa Novus Ordo na língua inglesa[10], passando a ser lidas como “por todos” (pro omnibus). Mudar as palavras de Cristo foi um insulto feito para apoiar o pensamento modernista e herético de que TODOS são salvos; e para reforçar a heresia do indiferentismo religioso, o qual alega que não importa a religião – ou a falta dela – que o sujeito professa, já que todo mundo vai para o céu. Os estudos feitos levaram muitos a crer que a tradução errada e proposital invalidava a Missa Novus Ordo. Após quarenta longos anos de confusão, escândalo e profunda angústia, a tradução inglesa voltou ao correto “por muitos” (pro multis), por ordem do papa Bento XVI[11]. Isto é um exemplo de como a Missa Tridentina serve de guardiã da fé: pelo Cânon estar livre de erros[12], pelo Cânon nunca ter sido alterado, e pelo Missale Romanum tradicional estar somente em latim.

Note que effundetur in remissionem peccatorum é assim compreendido: o sangue de Cristo foi derramado pela remissão dos pecados: todos os pecados desde o pecado original de Adão e Eva; e todos os outros pecados passados, presentes e futuros. Entretanto, “nem todos recebem o benefício de Sua morte, mas apenas aqueles aos quais o mérito de Sua paixão é comunicado.”[13] Sendo assim, nem todo mundo é salvo: “Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado”[14]; “em nenhum outro há salvação, porque debaixo do céu nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual devamos ser salvos”[15]; “trabalhai na vossa salvação com temor e tremor”[16]; além disto, existe aquele pecado mortal do qual a pessoa não se arrepende e não pede perdão, e que pode levá-la à danação eterna[17]. Note ainda que o “mérito de Sua paixão é comunicado” pelo santo sacrifício da Missa: “Em virtude deste sacrifício, os méritos infinitos de Cristo, obtidos por Seu precioso sangue derramado de uma vez [por todas] na cruz pela salvação dos homens, são aplicados às nossas almas.”[18]

calvario

É importante observar que imediatamente após as palavras da consagração, primeiro sobre o pão, e depois sobre o vinho, em ambos os casos o sacerdote faz a genuflexão (e a sineta soa) antes de levantar as sagradas espécies. Isto colabora para assegurar o entendimento católico de que o milagre da transubstanciação, o qual acaba de acontecer, nada tem a ver com o testemunho da assembléia. Portanto, quando da elevação da hóstia ou cálice para adoração dos fiéis, a sineta toca pela segunda vez, e não pela primeira. Depois de voltar as espécies sagradas sobre o altar, o sacerdote faz nova genuflexão e a sineta toca pela terceira vez – simbolizando a Santíssima Trindade. Em relação ao precioso sangue, neste momento o cálice é coberto com a pala, o que o protege da profanação por insetos e outros elementos estranhos.

Uma nota pessoal sobre as palavras da instituição: quando eu fui empossado como capelão de um instituto público para retardados mentais, duas unidades (das muitas que havia) continham residentes com deficiências severas (físicas e mentais) e que não podiam falar. Em geral eles passavam o dia fazendo ruídos vocais, exceto quando as palavras da consagração eram pronunciadas na Missa e as elevações aconteciam – então havia um completo e incomum silêncio na capela. Eles sabiam! Suas mentes inocentes sentiam que a presença real de Cristo havia entrado ali no local. Em outra unidade com deficiências menos graves, onde a idade mental não passava de quatro anos, havia um menino chamado Joey que gritava durante a elevação da Hóstia sagrada: “Meu Senhor e meu Deus!” E Jesus disse: “Da boca dos meninos e das crianças de peito tirastes o vosso louvor.”[19] O papa São Pio X, com efeito, emitiu uma indulgência de sete anos para todos aqueles que, ao fixarem o olhar sobre a hóstia sagrada sendo elevada durante a Missa, exclamarem com fé e devoção: “Meu Senhor e meu Deus!” No instante da elevação do precioso sangue, o melhor amigo de Joey, Butchie, se unia a ele dizendo: “Meu Jesus, misericórdia!”

Imediatamente após a consagração do precioso sangue, o sacerdote reza: Haec quotiescumque feceritis, in mei memoriam facietis (Todas as vezes que isto fizerdes, fazei-o em memória de mim). A Igreja sempre ensinou que este momento foi a instituição do sacramento das Ordens Sagradas. A Última Ceia na quinta-feira santa foi também a instituição do sacramento da Eucaristia; foi a primeira Missa. A Última Ceia foi coisa seria. Foi uma antecipação sombria do Calvário, e não uma “celebração alegre.” Na Última Ceia o milagre da transubstanciação aconteceu pela primeira vez: Nosso Senhor e Deus, Jesus Cristo, como Sumo-Sacerdote eterno, transformou pão e vinho em Seu corpo, sangue, alma e divindade.

Na Última Ceia, Cristo deixava para a Igreja também Sua vontade e Seu testamento: “Fazei-o em memória de mim.” Com esta oração Haec quotiescumque, Jesus ordenou que os apóstolos e seus sucessores no sacerdócio oferecessem a Santa Missa, e continuassem assim a oferecer o sacrifício a Deus Todo-poderoso, trazendo Sua presença real ao mundo, para adoração e para servir como alimento espiritual. Cristo não ordenou aos sacerdotes que presidissem uma “refeição comunitária.” Cristo, na Última Ceia, mandou que os sacerdotes fizesse aquilo que só eles podem fazer: oferecer o sacrifício de Deus-Filho no calvário a Deus-Pai Todo-poderoso. O padre John Hardon, em seu Dicionário Católico, define assim o sacerdote: “Um mediador autorizado, que oferece o verdadeiro sacrifício em reconhecimento do supremo domínio de Deus sobre os seres humanos, e em expiação por seus pecados.” O sacerdote é ordenado para oferecer o sacrifício, e não para preparar refeições. Ao longo de toda a Bíblia e tradição da Igreja, Deus exige sacrifícios, e não refeições. Enquanto que todos os católicos são obrigados a ir à Missa dominical para prestar culto a Deus no sacrifício, nem todos estão em estado de graça para receber a santa Comunhão.

As duas consagrações separadas, primeiro do corpo e depois do sangue de Jesus na Última Ceia e na Missa, significam ‘misticamente’ a morte do Senhor no calvário. Na Última Ceia, Jesus antecipou Seu sacrifício no calvário. Naquela primeira Sexta-Feira Santa, no calvário, a separação violenta entre Seu precioso sangue e Seu corpo causou uma verdadeira separação entre Sua alma humana e Seu corpo, o que provocou Sua morte. No Santo Sacrifício da Missa, a Sua morte histórica na cruz é recordada e expressa pela dupla consagração, que é a separação mística entre o precioso sangue e o corpo sagrado de Cristo. Jesus morre misticamente a cada Missa oferecida. Entretanto, lembre que, após Sua gloriosa ressurreição, o corpo, o sangue, a alma e a divindade de Cristo não podem na realidade ser jamais separados novamente. A separação na Missa é mística, embora o sacrifício seja real. Cristo não pode morrer de novo. Assim sendo, o Senhor eucarístico está verdadeiramente presente no altar em estado vivo e glorioso, do mesmo jeito que está no céu; e Seu corpo vivo, Seu sangue vivo, Sua alma viva e Sua divindade viva estão presentes nas duas espécies, o tempo todo, imediatamente após as consagrações.

Concluindo: a Última Ceia e o calvário estão intimamente ligados. Como última reflexão, considere uma possível conexão entre a Última Ceia e o calvário que se crê ser do tempo de Cristo, e que ainda não tem explicação segundo a ciência moderna: é o sudário que São Pedro e São João contemplaram no túmulo vazio, e o qual é muito provavelmente o Sudário de Turim, atualmente guardado na capela real da catedral de São João Batista em Turim, na Itália. Muitos, incluindo este escriba, acreditam que o Sudário é a longa mortalha de Cristo, que cobriu todo o corpo de Nosso Senhor. Este Sudário contém imagens notáveis e inexplicáveis, bem como manchas de sangue, de um homem crucificado e coroado de espinhos. O curioso é que, além das manchas de sangue, há também manchas de vinho.

Alguns estudos conectando José de Arimatéia ao Cenáculo e ao sepultamento de Cristo, junto com as manchas de vinho que foram encontradas, dão credibilidade a uma possibilidade impressionante: a de que a toalha de mesa usada para a primeira Missa na Última Ceia seja o próprio Sudário de Turim presente no calvário. A teoria é que, na Sexta-Feira Santa, as lojas que vendiam as grosseiras mortalhas, tecidas com ligação simples 1×1, estariam fechadas para a Páscoa, forçando José de Arimatéia a usar a toalha de mesa da Última Ceia, tecida com ligação mais sofisticada 3×1, como mortalha. Além disto, acredita-se que o Cenáculo, parte de uma sinagoga liderada por José de Arimatéia, e local da Última Ceia, foi construída sobre o túmulo do rei Davi. Seria maravilhosamente apropriado que Nosso Senhor Jesus, o Rei dos Reis, o “Filho de Davi”, oferecesse a primeira Missa sobre o celebrado túmulo do rei Davi; além de aparecer ali depois da Ressurreição no domingo de Páscoa. E que coisa interessante: a conexão católica entre a Última Ceia e o Calvário, que protestantes e modernistas negam, parece ser confirmada em nosso tempo pelo Deus Todo-poderoso através do Santo Sudário de Turim. Deus escreve certo por linhas tortas. Ele deixa a nós, pela fé, a tarefa de conectar os pontos.

In Nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti. Amen.

Notas:

[1] Ver a encíclica Pascendi Dominici Gregis (39), na qual o papa São Pio X define o modernismo como “a síntese de todas as heresias.”

[2] Pão de trigo, sem fermento.

[3] Dt 16,3.

[4] Lc 12,1.

[5] The Holy Sacrifice of the Mass, páginas 666-667.

[6] Suma Teológica, parte III, q64, a8.

[7] Mt 26,26-28; Mc 14,22-24; Lc 22,19-20; e 1 Cor 11,24-25.

[8] Página 675.

[9] Denzinger 712; Ex Quo 61; Mystici Corporis 29 e 31.

[10] N.T.: Idem para a língua portuguesa.

[11] N.T.: A tradução portuguesa, na Missa Novus Ordo, continua errada.

[12] Trento: seção XXII, capítulo IV.

[13] Trento: seção VI, primeiro decreto, capítulo III.

[14] Mc 16,16.

[15] Atos 4,12.

[16] Fl 2,12.

[17] Denzinger, 1002; Catecismo da Igreja Católica, 1035.

[18] Papa Leão XIII, Carta Encíclica “Caritatis Studium”, 9.

[19] Mt 21,16.

Os Anjos da Guarda

Autor: Dom Prosper Gueranger, in “O Ano Litúrgico”

Tradução: André Carezia

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HISTÓRIA DA FESTA – Embora a solenidade de 29 de setembro tenha por objetivo honrar a todos os espíritos bem-aventurados dos nove coros, a piedade dos fiéis nestes últimos séculos quis que se consagrasse um dia especial aqui na Terra para celebrar os Anjos da Guarda. Várias igrejas começaram a celebrar esta festa, e puseram-na em diferentes data do ano; Paulo V, embora permitindo-a em 27 de setembro de 1608, achou conveniente não impor sua aceitação; Clemente X acabou com essa variação em torno da nova festa, e a 20 de setembro de 1670 fixou-a em 2 de outubro, primeiro dia livre depois de São Miguel, a cuja festa está como que subordinada.

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DOUTRINA DA IGREJA – É de fé que, neste desterro, Deus encomenda aos anjos a custódia dos homens destinados a contemplá-Lo no céu; e isto as Escrituras asseguram, e a Tradição o afirma unanimemente.

As conclusões mais certas da teologia católica estendem o benefício desta preciosa proteção a todos os membros da raça humana, sem distinção de justos ou pecadores, de infiéis ou batizados. Afastar os perigos, sustentar o homem em sua luta contra o demônio, despertar nele pensamentos virtuosos, apartá-lo do mal e castigá-lo de quando em quando, rogar por ele e apresentar a Deus suas próprias orações: eis aí o ofício do Anjo da Guarda. E é um ministério tão especial que o mesmo Anjo não acumula a custódia simultânea de vários. E é tão assíduo que acompanha seu protegido desde o primeiro dia até o último de sua vida, apanhando a alma que sai deste mundo para conduzi-la depois do juízo ao lugar merecido no céu, ou na mansão temporal de purificação e expiação.

Os NOVE COROS – A santa milícia dos Anjos da Guarda é recrutada principalmente do lado mais próximo de nossa natureza, entre os postos do último dos nove coros. Deus, de fato, reserva aos Serafins, Querubins e Tronos a honra de formar Sua augusta corte. As Dominações presidem do alto de seu trono o governo do universo. As Virtudes velam pela firmeza das leis da natureza, pela conservação das espécies, pelos movimentos dos céus; as Potestades mantêm acorrentado o inferno. A raça humana, em seu conjunto e nos grupos sociais das nações e das Igrejas, está confiada aos Principados; o ofício dos Arcanjos, encarregados das comunidades menores, parece incluir também o de transmitir aos Anjos as ordens do céu, com o amor e a luz que descem até nós da primeira e suprema hierarquia. Ó abismo de sabedoria em Deus![1] Assim é que o conjunto admirável de ministérios, disposto entre os diversos coros de espíritos celestiais, se ordena para o seu fim: guardar o mais humilde deles, o homem, para quem foi criado o universo. O mesmo afirma a Escolástica[2], e também o Apóstolo: Não são todos os anjos espíritos ao serviço de Deus, que lhes confia missões para o bem daqueles que devem herdar a salvação? [3]

OFÍCIO DOS ANJOS DA GUARDA – “Os anjos”, diz São Lourenço Justiano, “observam nossas diversas ações; exortam-nos, incitam-nos, levantam-nos depois de nossas quedas, e mantêm vigília em torno da Igreja militante. Sobem e descem sem cessar; andam sempre contentes, sempre solícitos, do céu à terra e da terra ao céu, oferecendo a Deus nossas obras, nossas lágrimas e nossas orações. Trazem-nos, do altar Deus, por assim dizer, a humanidade de Cristo, o fogo da caridade, o ardor da fé, e a esperança de um dia termos parte na glória dos santos. Mostram-nos o triunfo dos mártires para que tenhamos maior ânimo; a porta aberta do céu, para induzir-nos a desprezar o mundo; a presença contínua de Deus, para encher-nos de respeito; e por fim a imensidão da eterna fortuna, para excitar nossos desejos. Quanto mais oportunidades eles têm de cumprir por nós estas diversas funções, mais felizes e diligentes se sentem. Não invejam de forma alguma nosso progresso no bem, nem diminuem em nada nossos méritos; ao contrário, trabalham pela nossa perfeição, instruem-nos em nossos deveres, e dão-nos coragem para cumpri-los. Não têm outro desejo nem outro fim que não seja a glória do Onipotente e a nossa salvação. São amigos da Sabedoria e vivem próximos ao Verbo, isentos de toda miséria e de toda imperfeição. Mesmo enquanto exercem seu ministério em meio ao mundo, não ficam nem com a mais mínima mancha, e nem sentem fadiga alguma. Ainda que circunscritos pelo espaço, permanecem sempre na presença de Deus; ao mesmo tempo que servem aos homens, não cessam de oferecer amorosamente ao seu Criador o sacrifício de louvor; as funções de seu ministério não se separam da homenagem e da glória que devem tributar ao Rei imortal.”[4]

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Deus, porém, que se mostra extremamente admirável para a estirpe humana, não deixa por menos os governos deste mundo quando se trata de honrar com uma especial atenção os príncipes de Seu povo, os privilegiados de Sua graça, ou os que regem o mundo em nome dEle; como dizem os santos, uma suma perfeição, uma alta comissão do Estado ou da Igreja, exigem para o investido a assistência de um espírito também superior. A anjo da primeira hora – se assim se pode dizer – não precisa necessariamente ser guarda de si mesmo. Não há lugar, no campo das operações de salvação, para que o titular do posto a ele confiado desde o princípio possa temer encontrar-se sozinho; a uma chamada sua, ou a uma ordem do alto, os exércitos dos bem-aventurados companheiros, que enchem os céus e terra, estão sempre dispostos a prestar-lhe ajuda poderosa. Entre estes nobres espíritos, que na presença de Deus aspiram a aumentar por todos os meios seu amor a Ele, há alianças secretas que às vezes originam neste mundo, entre seus devotos, aproximações cujo mistério se descobrirá no dia da eternidade.

OS ANJOS NA CRIAÇÃO – “Profundo mistério”, diz Orígenes, “é a repartição das almas entre os anjos encarregados de sua guarda; segredo divino relacionado com a economia universal que descansa no Homem-Deus! E não é sem inefáveis disposições que se repartem entre as Virtudes dos céus os serviços da terra, os grupos múltiplos da natureza: fontes e rios, ventos e bosques, plantas, seres animados dos continentes e dos mares, cujos ofícios se harmonizam por intermédio dos anjos que dirigem seus variados ofícios ao fim comum.”[5] Deste modo se conserva, em sua forte unidade, a obra do Criador.

E sobre estas palavras de Jeremias, “Até quando permanecerá a terra em luto?”[6], Orígenes prossegue[7]: “A terra se regozija ou chora por cada um de nós; e não somente a terra, mas também a água, o fogo, o ar, e todos os elementos, não da matéria insensível, mas dos anjos que estão à frente de todas as coisas do mundo. Há um anjo da terra, e é este que, juntamente com seus companheiros, chora por nossos crimes. Há um anjo das águas, a quem se aplica o salmo: As águas vos viram, Senhor, as águas vos viram; elas tremeram e as vagas se puseram em movimento. Em torrentes de água as nuvens se tornaram, elas fizeram ouvir a sua voz, de todos os lados fuzilaram vossas flechas.”[8]

A natureza, considerada desta maneira, é grande. A antigüidade, que abundava de verdades e de poesias mais que nossas gerações atuais, deste modo contemplava o universo. Seu erro consistiu em adorar a esses poderosos mistérios, com prejuízo do único Deus, ante o qual se inclinam aqueles que sustentam o mundo.[9] “Ar, terra, oceano, tudo está cheio de anjos”, afirmou por sua vez Santo Ambrósio[10]. “Eliseu, assediado por um exército, não tinha medo algum, pois via que lhe assistiam esquadrões invisíveis. Oxalá o profeta te abra também os olhos, e que o inimigo, ainda que seja legião, não te assuste: crês que estás sitiado, mas estás livre; os que estão conosco são mais numerosos do que os que estão com eles[11].”

CULTO AO ANJO DA GUARDA – Para terminar, escutemos hoje, como a Igreja o faz, o abade de Claraval, em cuja eloqüência parecem nesta ocasião brotar asas: “Mostra-te, em todo lugar, respeitoso para com teu anjo. Disponha-te a render culto à sua grandeza e graças por seus benefícios. Ama este futuro co-herdeiro, que agora é o tutor designado pelo Pai para os dias de tua infância. Porque, ainda que sejamos filhos de Deus, não passamos agora de crianças, e o caminho é longo e perigoso. Mas aos seus anjos Deus mandou que te guardem em todos os teus caminhos. Eles te sustentarão em suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra. Sobre serpente e víbora andarás, calcarás aos pés o leão e o dragão[12]. Certamente, por onde o caminho é fácil para uma criança, sua ajuda se reduzirá a ser simplesmente um guia, a sustentar-te como se faz às crianças. Mas a provação corre o risco de exceder tuas forças? Eles te levarão em suas mãos. Mãos de anjos! Quantos atoleiros temíveis, ultrapassados quase que sem se dar conta à mercê destas mãos, só deixaram no homem a impressão de um pesadelo rapidamente desvanecido!” [13]

AGRADECIMENTO AOS ANJOS – Santos Anjos, benditos sejais porque os crimes dos homens não cansam a vossa caridade; damos graças a vós pelo benefício – entre muitos outros – de conservar a terra habitável, dignando-nos permanecer sempre nela. Muitas vezes há perigo de que a solidão se torne pesada no coração dos filhos de Deus nas grandes cidades e nos caminhos do mundo, onde se acotovelam apenas desconhecidos ou inimigos; porém, se diminuiu o número dos justos, não diminui o vosso. E em meio à multidão entusiasmada, como também no deserto, não há um ser humano que não tenha junto de si seu anjo, representante da Providência universal sobre os bons e os maus. Espíritos bem-aventurados, temos a mesma pátria que vós, o mesmo pensamento e o mesmo amor; por que os ruídos confusos de uma turba frívola hão de turbar a vida do céu que desde agora podemos viver já convosco? O tumulto das praças públicas impede-vos por acaso de formar no além vossos coros, ou impede o Todo-poderoso de perceber nelas as vossas harmonias? Também nós queremos cantar por toda parte ao Senhor, e unir continuamente as nossas adorações às vossas, vivendo pela fé na face oculta do Pai[14], cuja contínua contemplação provoca arroubos em vós[15]. Se formos tomados por este modo angélico de viver, a vida presente não nos oferecerá nenhuma inquietude. E nem a eterna surpresa alguma.

Notas:

[1] Rm 11,33.

[2] Suárez, De Angelis, 1, Cap. VI , XVIII, 5.

[3] Hb 1,14.

[4] Da Agonia Triunfante.

[5] Comentário sobre Josué, Homilia 23.

[6] Jeremias 12, 4.

[7] Homilia 10.

[8] Salmo 76, 17-18

[9] Jó 9, 13.

[10] Comentário do Salmo 118; Sermão I, 9, 11, 12.

[11] 2Re 6, 16.

[12] Salmo 90, 11-13.

[13] Comentário ao Salmo 40; Sermão XII.

[14] Salmo 30, 21; Colossenses 3, 3.

[15] Mt 18, 10.

A Conversão de São Paulo

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At 9, 1-22

Enquanto isso, Saulo só respirava ameaças e morte contra os discípulos do Senhor. Apresentou-se ao príncipe dos sacerdotes, e pediu-lhe cartas para as sinagogas de Damasco, com o fim de levar presos a Jerusalém todos os homens e mulheres que achasse seguindo essa doutrina.

Durante a viagem, estando já perto de Damasco, subitamente o cercou uma luz resplandecente vinda do céu. Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? Saulo disse: Quem és, Senhor? Respondeu ele: Eu sou Jesus, a quem tu persegues. [Duro te é recalcitrar contra o aguilhão. Então, trêmulo e atônito, disse ele: Senhor, que queres que eu faça? Respondeu-lhe o Senhor:] Levanta-te, entra na cidade. Aí te será dito o que deves fazer.

Os homens que o acompanhavam enchiam-se de espanto, pois ouviam perfeitamente a voz, mas não viam ninguém. Saulo levantou-se do chão. Abrindo, porém, os olhos, não via nada. Tomaram-no pela mão e o introduziram em Damasco, onde esteve três dias sem ver, sem comer nem beber. Havia em Damasco um discípulo chamado Ananias. O Senhor, numa visão, lhe disse: Ananias! Eis-me aqui, Senhor, respondeu ele. O Senhor lhe ordenou: Levanta-te e vai à rua Direita, e pergunta em casa de Judas por um homem de Tarso, chamado Saulo; ele está orando.

(Este via numa visão um homem, chamado Ananias, entrar e impor-lhe as mãos para recobrar a vista.) Ananias respondeu: Senhor, muitos já me falaram deste homem, quantos males fez aos teus fiéis em Jerusalém. E aqui ele tem poder dos príncipes dos sacerdotes para prender a todos aqueles que invocam o teu nome.

Mas o Senhor lhe disse: Vai, porque este homem é para mim um instrumento escolhido, que levará o meu nome diante das nações, dos reis e dos filhos de Israel. Eu lhe mostrarei tudo o que terá de padecer pelo meu nome. Ananias foi. Entrou na casa e, impondo-lhe as mãos, disse: Saulo, meu irmão, o Senhor, esse Jesus que te apareceu no caminho, enviou-me para que recobres a vista e fiques cheio do Espírito Santo.

No mesmo instante caíram dos olhos de Saulo umas como escamas, e recuperou a vista. Levantou-se e foi batizado. Depois tomou alimento e sentiu-se fortalecido. Demorou-se por alguns dias com os discípulos que se achavam em Damasco. Imediatamente começou a proclamar pelas sinagogas que Jesus é o Filho de Deus. Todos os seus ouvintes pasmavam e diziam: Este não é aquele que perseguia em Jerusalém os que invocam o nome de Jesus? Não veio cá só para levá-los presos aos sumos sacerdotes?

Saulo, porém, sentia crescer o seu poder e confundia os judeus de Damasco, demonstrando que Jesus é o Cristo.

(A reflexão que segue é retirada das Catequeses Paulinas de Bento XVI, de 3 de setembro de 2008; o original está em https://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2008/documents/hf_ben-xvi_aud_20080903.html)

A catequese de hoje será dedicada à experiência que São Paulo teve no caminho de Damasco, e portanto ao que comumente se chama a sua conversão. Precisamente no caminho de Damasco, nos primeiros anos 30 do século I, e depois de um período no qual tinha perseguido a Igreja, verificou-se o momento decisivo da vida de Paulo.

Sobre ele muito foi escrito e naturalmente sob diversos pontos de vista. O que é certo é que ali aconteceu uma mudança, aliás, uma inversão de perspectiva. Então ele, inesperadamente, começou a considerar “perda” e “esterco” tudo o que antes constituía para ele o máximo ideal, quase a razão de ser da sua existência (cf. Fl 3, 7-8). O que tinha acontecido?

Em relação a isto temos dois tipos de fontes. O primeiro tipo, o mais conhecido, são as narrações pela mão de Lucas, que por três vezes narra o acontecimento nos Atos dos Apóstolos (cf. 9, 1-19; 22, 3-21; 26, 4-23). O leitor médio é talvez tentado a deter-se demasiado nalguns pormenores, como a luz do céu, a queda por terra, a voz que chama, a nova condição de cegueira, a cura e a perda da vista e o jejum.

Mas todos estes pormenores se referem ao centro do acontecimento: Cristo ressuscitado mostra-se como uma luz maravilhosa e fala a Saulo, transforma o seu pensamento e a sua própria vida. O esplendor do Ressuscitado torna-o cego: assim vê-se também exteriormente o que era a sua realidade interior, a sua cegueira em relação à verdade, à luz que é Cristo.

E depois o seu “sim” definitivo a Cristo no batismo volta a abrir os seus olhos, faz com que ele realmente veja. Na Igreja antiga o batismo era chamado também “iluminação”, porque este sacramento realça, faz ver realmente. O que assim se indica teologicamente, em Paulo realiza-se também fisicamente: curado da sua cegueira interior, vê bem.

Portanto, São Paulo foi transformado não por um pensamento mas por um acontecimento, pela presença irresistível do Ressuscitado, da qual nunca poderá sucessivamente duvidar, dado que foi muito forte a evidência do acontecimento, deste encontro. Ele mudou fundamentalmente a vida de Paulo; neste sentido pode e deve falar-se de uma conversão.

Este encontro é o centro da narração de São Lucas, o qual é possível que tenha usado uma narração que provavelmente surgiu na comunidade de Damasco. Leva a pensar isto o entusiasmo local dado à presença de Ananias e dos nomes quer do caminho quer do proprietário da casa em que Paulo esteve hospedado (cf. At 9, 9-11).

O segundo tipo de fontes sobre a conversão é constituído pelas próprias Cartas de São Paulo. Ele nunca falou pormenorizadamente deste acontecimento, talvez porque podia supor que todos conhecessem o essencial desta sua história: todos sabiam que de perseguidor tinha sido transformado em apóstolo fervoroso de Cristo.

E isto tinha acontecido não após uma própria reflexão, mas depois de um acontecimento importante, um encontro com o Ressuscitado. Mesmo sem falar dos pormenores, ele menciona diversas vezes este fato importantíssimo, isto é, que também ele é testemunha da ressurreição de Jesus, do qual recebeu imediatamente a revelação, juntamente com a missão de apóstolo. O texto mais claro sobre este ponto encontra-se na sua narração sobre o que constitui o centro da história da salvação: a morte e a ressurreição de Jesus e as aparições às testemunhas (cf. 1 Cor 15).

Com palavras da tradição antiga, que também ele recebeu da Igreja de Jerusalém, diz que Jesus morto e crucificado, sepultado e ressuscitado apareceu, depois da ressurreição, primeiro a Cefas, isto é a Pedro, depois aos Doze, depois a quinhentos irmãos que em grande parte naquele tempo ainda viviam, depois a Tiago, e depois a todos os Apóstolos. E a esta narração recebida da tradição acrescenta: “E, em último lugar, apareceu-me também a mim” (1 Cor 15, 8).

Assim dá a entender que é este o fundamento do seu apostolado e da sua nova vida. Existem também outros textos nos quais se encontra a mesma coisa: “Por meio de Jesus Cristo recebemos a graça do apostolado” (cf. Rm 1, 5); e ainda: “Não vi eu a Jesus Cristo, Nosso Senhor?” (1 Cor 9, 1), palavras com as quais ele faz alusão a um aspecto que todos conhecem.

E finalmente o texto mais difundido lê-se em Gl 1, 15-17: “Mas, quando aprouve a Deus que me reservou desde o seio de minha mãe e me chamou pela Sua graça revelar o Seu Filho em mim, para que O anunciasse entre os gentios, não consultei a carne nem o sangue, nem voltei a Jerusalém para ir ter com os que foram Apóstolos antes de mim, mas parti para a Arábia e voltei outra vez a Damasco”.

Nesta “auto-apologia” ressalta decididamente que também ele é testemunha verdadeira do Ressuscitado, tem uma missão própria que recebeu imediatamente do Ressuscitado.

Assim podemos ver que as duas fontes, os Atos dos Apóstolos e as Cartas de São Paulo, convergem e convêm sob o ponto fundamental: o Ressuscitado falou a Paulo, chamou-o ao apostolado, fez dele um verdadeiro apóstolo, testemunha da ressurreição, com o encargo específico de anunciar o Evangelho aos pagãos, ao mundo greco-romano.

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E ao mesmo tempo Paulo aprendeu que, apesar da sua relação imediata com o Ressuscitado, ele deve entrar na comunhão da Igreja, deve fazer-se batizar, deve viver em sintonia com os outros apóstolos. Só nesta comunhão com todos ele poderá ser um verdadeiro apóstolo, como escreve explicitamente na primeira Carta aos Coríntios: “Assim é que pregamos e é assim que vós acreditastes” (15, 11). Há só um anúncio do Ressuscitado, porque Cristo é um só.

Como se vê, em todos estes trechos Paulo nunca interpreta este momento como um fato de conversão. Porquê? Existem muitas hipóteses, mas para mim o motivo é muito evidente. Esta mudança da sua vida, esta transformação de todo o seu ser não foi fruto de um processo psicológico, de uma maturação ou evolução intelectual e moral, mas vem de fora: não foi o fruto do seu pensamento, mas do encontro com Cristo Jesus.

Neste sentido não foi simplesmente uma conversão, uma maturação do seu “eu”, mas foi morte e ressurreição para ele mesmo: morreu uma sua existência e outra nova nasceu com Cristo Ressuscitado. De nenhum outro modo se pode explicar esta renovação de Paulo. Todas as análises psicológicas não podem esclarecer e resolver o problema.

Só o acontecimento, o encontro forte com Cristo, é a chave para compreender o que tinha acontecido: morte e ressurreição, renovação por parte d’Aquele que se tinha mostrado e tinha falado com ele. Neste sentido mais profundo podemos e devemos falar de conversão. Este encontro é uma renovação real que mudou todo os seus parâmetros. Agora pode dizer que o que antes era para ele essencial e fundamental, se tornou agora “esterco”; já não é “lucro”, mas perda, porque agora só conta a vida em Cristo.

Contudo não devemos pensar que Paulo assim se tenha fechado num acontecimento cego. É verdade o contrário, porque Cristo Ressuscitado é a luz da verdade, a luz do próprio Deus. Isto alargou o seu coração, tornou-o aberto a todos. Neste momento não perdeu o que havia de bom e verdadeiro na sua vida, na sua herança, mas compreendeu de modo novo a sabedoria, a verdade, a profundidade da lei e dos profetas, e delas se apropriou de modo novo.

Ao mesmo tempo, a sua razão abriu-se à sabedoria dos pagãos; tendo-se aberto a Cristo com todo o coração, tornou-se capaz de um diálogo amplo com todos, tornou-se capaz de se fazer tudo em todos. Assim podia ser realmente o apóstolo dos pagãos.

Voltando a nós, perguntamo-nos o que significa isto para nós? Significa que também para nós o cristianismo não é uma nova filosofia ou uma nova moral. Somos cristãos unicamente se encontramos Cristo. Certamente Ele não se mostra a nós deste modo irresistível, luminoso, como fez com Paulo para fazer dele o apóstolo de todas as nações.

Mas também nós podemos encontrar Cristo, na leitura da Sagrada Escritura, na oração, na vida litúrgica da Igreja. Podemos tocar o coração de Cristo e sentir que Ele toca o nosso. Só nesta relação pessoal com Cristo, só neste encontro com o Ressuscitado nos tornamos realmente cristãos. E assim abre-se a nossa razão, abre-se toda a sabedoria de Cristo e toda a riqueza da verdade.

Portanto rezemos ao Senhor para que nos ilumine, para que nos doe no nosso mundo o encontro com a sua presença: e assim nos conceda uma fé viva, um coração aberto, uma grande caridade para todos, capaz de renovar o mundo.

Oração

Ó São Paulo Apóstolo, pregador da Verdade e Doutor dos Gentios, interceda por nós junto a Deus, que o escolheu. Amém.

Ó Deus, vós que instruístes muitas nações através das pregações do bem-aventurado apóstolo Paulo, dai-nos caminhar para vós seguindo seus exemplos e ser, no mundo, testemunhas do Evangelho. Amém.

Pai-Nosso…

Ave-Maria…

Glória…

Você vê o que eu vejo?

(Publicado originalmente no jornal católico The Remnant, edição de 31/dez/2015.)

Autora: Susan Claire Potts

Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

A neve caía fraca, congelando a guirlanda de folha de cedro na sacada do apartamento de Tom e Angelina Reynolds. Angelina estava em pé junto ao guarda-corpo, de roupão de banho bem amarrado, olhando para baixo, para o Rio Detroit. Um único cargueiro avançava lentamente em direção ao Lago Saint Clair, silencioso como uma jangada, seu casco amarelo queimado a única cor no rio.

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Era véspera de Natal, e o sol se elevava no oriente. Ela ouviu a porta se abrir por trás dela.

“Ei! Angie!”, exclamou Tom.

Ela se virou.

“Que está fazendo aqui fora?”

“Pensando.”

“Ninguém lhe contou que está nevando?”

Ela ignorou a pergunta. “Você levantou cedo”, ela disse.

“A emissora acabou de ligar”, ele respondeu. “Tenho que ir a Holly.”

“Pensei que estava de folga hoje.”

“Também pensei”. Ele fez uma careta. “Meu, está congelando. Você vem?”

“Claro.”

Ela o ouvia resmungar enquanto o seguia até a cozinha. “Tinha que me chamar. Não podia mandar outro… acaba com meu dia de folga…”, ele reclamou enquanto se servia de uma xícara de café.”

“O que há em Holly?”, ela perguntou.

“Umas crianças da fazenda montando um presépio vivo, ou algo do tipo”, ele respondeu dando de ombros. “Markowitz achou que daria uma boa história. Crianças, animais, Natal… muitas emoções.”

Ele abriu a geladeira para pegar o creme de leite. “Bom quando terminar.”

“Tom…”

Ele não queria ouvir. “Então o que vai fazer agora pela manhã?”, perguntou.

“Ensaio do coral”. Ela fez uma pausa. “Para a Missa da meia-noite. Quer ir comigo?”

“Não”. Ele virou a cabeça. Não queria ver a reprovação que ele sabia estar no rosto dela. “Mas levarei você de carro.”

“Obrigada.”

“De nada.”

Ela estava quieta. Exceto pelo próprio casamento, Tom não ia à Missa desde a faculdade. Ele era um repórter de TV e só acreditava no que via com seus próprios olhos. Sua mãe a alertara. Angelina, ele não vai à igreja, ela dissera, enxugando as mãos no avental. Que vai fazer quando os bebês vierem?

“Vou pensar nisso quando chegar a hora”, respondeu Angelina. Nada bom. Nada bom mesmo.

Mas Angelina era teimosa. Ela amava Tom e pensava que as coisas seriam diferentes depois de casados. Ela estava certa de que ele iria à igreja com ela. Mas ele não foi. Não faz sentido, ele dissera.

“O que não faz?”

“A coisa toda.”

Ela não tinha nada para dizer. Nada podia fazer, exceto rezar. “Quando você tem que sair?”, ela perguntou.

“Vou encontrar o Josh na fazenda às onze. Vamos preparar e entrar ao vivo meio-dia.”

“A essa hora já estarei de volta. Assistirei.”

Tom se refugiou em seu canto para se preparar para a história. Lá pelas oito horas, Angelina estava na cozinha, assando bolinhos de Natal. Cantava Tu Scendi dalle Stelle, a música que cantava desde criança, a música natalina de seus ancestrais italianos. Ela traduzira para ele uma noite:

Vós desceis das estrelas, Ó Rei dos Céus, para uma gruta… para o frio… para o gelo… quanto custa a Vós me amar!

Ele parara de trabalhar para escutar. As palavras o tocaram de uma maneira que ele não entendera. Mas ainda assim ele não acreditara.

***

A antiga casa da fazenda ficava afastada da estrada de cascalho. Perto do celeiro, no meio de uma área aberta, estava um estábulo simples de madeira, construído para a cena do presépio, seu telhado coberto de neve. Uma estrela cintilante, feita de cartolina, pendia de uma macieira. Atrás disso tudo ficavam acres e acres de abetos e pinheiros.

O ar tinha perfume de Natal. Tom estacionou seu carro e correu pela área aberta até o estábulo. Josh Evans, seu câmera, já estava lá, montando o equipamento. Juntou-se uma multidão. Às cinco para meio-dia, um homem — Tom supôs ser o dono da fazenda — trouxe animais para o estábulo. A vaca e o burro, lembrou-se Tom. Ele não havia esquecido tudo. O fazendeiro pôs os animais atrás da manjedoura. Batendo em seus dorsos, ele se abaixou, sussurrou algo em seus ouvidos, e então saiu, enquanto um coro de crianças, vestidas como anjos, vinham em fila da casa da fazenda.

A Sagrada Família tomou seus lugares. Maria, delicada com seu manto azul e um véu, carregava um nenê, embalando-o nos braços. Ela sorriu para os animais e depositou o nenê na manjedoura, envolvendo-o carinhosamente com um grosso cobertor de lã. A criança balbuciou de leve. Tom segurou a respiração. Ele pensara que era um boneco. Mas era real. No frio como o Menino Jesus. Maria se ajoelhou, seu véu recaindo sobre seu rosto, enquanto José se colocou a seu lado. Será que aconteceu mesmo? Tom ponderou, e então afastou o pensamento. Indo para a lateral do estábulo, ele ligou seu microfone e virou-se para Josh. “Vamos gravar”, disse.

“Já.”

Tom limpou a garganta e olhou para a câmera. “Aqui é Tom Reynolds”, começou, “transmitindo ao vivo da Fazenda Hauzenberg, onde um grupo de crianças está encenando o Natal de Jesus Cristo”. O coro cantou Gloria in excelsis Deo! Tom estremeceu, sem saber se do vento batendo em seu rosto ou da música dos anjos. Meninos pastores chegaram então, trazendo um pequeno rebanho de carneiros. Depois de entrarem no estábulo, ajoelharam-se na manjedoura. Tom fez uma mímica para Josh. Dê um close, falou sem emitir som. O câmera se posicionou para filmar.

Tom terminou a gravação. “Está feito”, disse com um aceno do braço.

“Acho que não acabou”, disse Josh.

“Por que?”

“Olhe lá.”

Os três Reis Magos — meninos ricamente vestidos com casacos de pele e coroas nas cabeças — estavam aguardando ao longe na área aberta. Um camelo estava atrás deles. O camelo era alto, com mais de 1,80m, e tinha uma corcova só. Um cobertor bordado, com pendões nos cantos, e pedras cintilantes costuradas na bainha, estava estendido sobre suas costas. Pendia de seu pescoço uma corrente de pequenos sinetes de bronze. Os pequenos sinos soaram à medida que o camelo acompanhou os Magos ao estábulo, trazendo presentes para o recém-nascido Rei.

“Acho que temos aqui uma outra história”, disse Tom.

Quando a peça terminou, um dos reis meninos, trajando veludo vermelho, levou o camelo até o celeiro. Ele estava amarrando o camelo a um poste quando Tom se aproximou. O camelo se virou e considerou Tom serenamente, seus olhos inteligentes cercados por cílios duplos.

“Belo animal”, disse Tom. “Você pode nos falar sobre ele?”

“Claro”, o menino respondeu. “Ele pertence a meu tio, que tem uma fazenda lá no ‘Polegar’[1]. Quando eu lhe contei sobre o presépio vivo, ele me perguntou se eu queria usar seu camelo. Não é legal?”

“Muito legal.”

“Ele é um dromedário. Sabia que os dromedários conseguem correr a 50 km/h?”, ele perguntou.

“Não sabia”, respondeu Tom. “Isso seria algo interessante de se ver.”

“Veja isto”, disse o menino. Ele bateu três palmas, e o camelo se abaixou mantendo a cabeça ereta.

“Parece que ele está se ajoelhando”, disse Tom.

“E está. Eles treinam os camelos para fazerem isso”, respondeu o menino. “Assim é mais fácil de carregá-lo — e de montar nele”. Ele abriu um largo sorriso. “Parece que está rezando, não parece?”

Tom deu risada. “Acho que sim.”

“O nome dele é Naveed”, o menino falou ao dar um tapinha no pescoço do camelo. “Quer dizer Boa Nova.”

***

Tom levou Angelina à igreja, a tempo para um ensaio de última hora antes do recital de Natal às onze. Ele estacionou o carro e andou com ela pela neve até os degraus da frente.

“A que horas você quer que eu volte?”, ele perguntou.

“1:30h?”

“Estarei aqui.”

“Queria que viesse à meia-noite… para a Missa…”

Ele deu um beijo no rosto dela. “Até mais tarde.”

Tom esperou até que Angelina estivesse segura lá dentro. Ao invés de voltar para casa, ele foi ao Sinbad’s, o restaurante beira-rio perto do apartamento deles. Ele não queria ficar sozinho. O restaurante estava cheio e barulhento, bem do jeito que ele queria. Algo o estava incomodando. O que era? O presépio? A Missa? O pedido de Angelina? Ele chegou à conclusão que era tudo isso junto. Até o camelo.

Ele sentou junto ao bar, pediu uma cerveja e um prato de lula. Uma música de Natal estava tocando no alto-falante. Uma voz de menino: Você vê o que eu vejo?

“Não, eu não”, disse Tom.

“Hein?”, exclamou o atendente do bar.

“Nada. Só pensando.”

Seria bom se ele pudesse ver, mas ele não via. Ele se lembrou do Natal quando era criança. Ele acreditava naquela época? Ele não sabia. Não lembrava. Ele agitou sua cerveja e tentou imaginar como Angelina fazia — como ela podia ter tanta certeza de ser verdade. A garçonete tinha acabado de trazer sua janta quando seu telefone vibrou, e depois tocou tão alto que o homem sentado ao lado quase derramou a bebida. Tom fez um gesto de desculpas, tirou o telefone do bolso e atendeu.

“Reynolds”, ele disse.

“Tom. Aqui é Markowitz. Escute, arrumei uma reportagem.”

“Angelina está na igreja. Tenho que pegá-la à uma, uma e meia.”

“Tempo de sobra.”

“O que há?”

“Você não vai acreditar.”

“Tente.”

“Sabe aquela coisa do presépio que você fez hoje lá em Holly? Com os animais e tudo aquilo?”

“Sim…”

“O camelo escapou. Rompeu a corda e saiu em disparada. Parece que ele se enfiou por umas estradinhas, e depois foi para o sul, como se soubesse para onde ir. Alguém o avistou no Lago White. O camelo desapareceu, mas depois outro cara ligou do carro, gaguejando sobre um camelo correndo a 50 ou 60 km/h, ao longo da I-75, em direção a Detroit.” Markowitz fez uma pausa para tomar fôlego. “Um camelo corredor! No Natal! Que reportagem!”

“Aonde devo ir?”

“Josh está esperando você no drive-in do Mack. Espere lá. Pelo que vejo, o camelo vai aparecer a qualquer momento.” Tom enfiou o telefone no bolso, pagou a conta, e saiu. Quinze minutos depois, ele avistou o furgão da emissora. Ele parou atrás dele e saltou para fora. Josh abaixou a janela. “Ei”, ele gritou. “Outra reportagem de camelo! Coisa estranha.”

“Estranho mesmo”, disse Tom enquanto subia no furgão. Eles esperaram, mas o camelo não apareceu. Tom ligou na emissora. “Eu acho que o perdemos. Olhe, tenho que ir buscar Angelina.”

“Onde ela está?”

“Sagrada Família. Saindo da Lafayette. Josh vai ficar aqui. Ele vai me mandar mensagem se vir algo, e eu voltarei imediatamente aqui.”

“Mantenha-me informado”, Markowitz ordenou. “Vamos saber logo, logo. O controle de animais está à procura. Os tiras também. Quer dizer, quão difícil pode ser avistar um camelo?”

Estava nevando forte enquanto Tom dirigia de volta à igreja. Ele estacionou o carro e estava saindo dele quando ouviu algo se mexendo atrás do prédio, no canto. Ele esperou, escutando, mas não voltou a ouvir. Um gato, provavelmente, ele pensou, ou um cachorro perdido.

Ao abrir a porta lateral para entrar na igreja, ele ouviu o tilintar de sinos. Deve estar vindo do coral, pensou ele ao entrar e se esgueirar por um banco do fundo. As pessoas estavam se ajoelhando, cantaram o Sanctus, e depois tudo ficou quieto. O sacerdote rezava em latim no altar, com a voz baixa, quase inaudível. Tom correu os olhos do altar às pessoas cheias de adoração. Ele queria saber o que eles sabiam, queria ver o que eles viam naquele antigo Sacrifício.

O alter Christus se inclinou profundamente, sussurrando. A sineta tocou, então, os triplos sons dourados, enquanto o sacerdote pronunciava as Palavras do Salvador, chamando Deus para descer dos Céus.

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O mistério da fé. O silêncio manifestou-se na igreja, mais pesado que o som, uma quietude sagrada, envolvendo-se em Tom como os braços de uma mãe. Tom sentiu uma punhalada no coração. Sentiu como nunca tinha sentido antes. Conforto e paz. E acima de tudo, uma alegria maravilhosa. O padre se virou para o povo, segurando a Hóstia diante deles, para que pudessem contemplar seu Deus. Ecce Agnus Dei.

E então Tom viu. Não com o corpo, mas com os olhos da alma, ele viu o Menino na Hóstia, olhando para ele. Não sorrindo. Não abrindo os braços. Apenas olhando. Tom olhou de volta com reverência, seu coração pulando, enquanto ouvia as palavras de humildade e desejo, há muito esquecidas.

Domine non sum dignus, sussurrou ele.

Enquanto as longas filas de pessoas enchiam o corredor para receber a comunhão, o coro começou a cantar. Tom escutava a voz de Angelina acima das outras, cantando o Senhor Deus descido das estrelas. Tu scendi dalle stellae, ela cantava, O re del cielo. Ó Rei dos Céus, sussurrava Tom, à medida que a dura casca da incredulidade se despedaçava.

A Missa terminou e o povo saiu. As pesadas portas foram abertas completamente, e Tom podia ouvir a comoção na frente da igreja — as pessoas rindo e conversando. Tom ignorou tudo isso. Ficou onde estava, subjugado, com a cabeça entre as mãos.

Olhando para ele do alto do coro, Angelina tentou imaginar qual era o problema. “Será que ele está doente?”, pensou ela ao descer as escadas e entrar no banco ao lado dele. Você está bem?, sussurrou ela. Ele olhou para ela e apertou sua mão. Ele não precisou dizer uma palavra. Ela entendeu. Lágrimas escorreram de seu rosto.

Eles ficaram ali, sozinhos, rezando. Então Tom ouviu um ruído suave de passos atrás dele. Ele se virou para ver quem era, e seu queixo caiu. Ele cutucou Angelina.

Era o camelo.

Do presépio?, Angelina mexeu os lábios. Ele fez que sim com a cabeça.

Mas como…?

Ele escapou. Depois eu conto.

Enquanto eles assistiam, o camelo andou pelo corredor central, majestoso como um rei, os olhos fixos no tabernáculo. E parou a um metro da mesa de comunhão.

Você tem que fazer algo?, sussurrou Angelina.

Espere aqui. Tenho que enviar mensagem a Josh. Tom saiu do banco e foi ao hall de entrada da igreja, e avisou o câmera. Depois chamou a polícia e o pessoal de controle de animais. Seu telefone vibrou.

Uma mensagem de Josh. Chegando com a câmera.

Tom voltou para dentro da igreja. Entrou no banco perto de Angelina, e o camelo se mexeu. Os sinos soaram em seu pescoço, enquanto Naveed se virava e andava lentamente em direção ao Presépio no altar lateral. Ele ficou parado por uns instantes diante da manjedoura, e então vagarosamente, lentamente, abaixou-se até ficar de joelhos.

Lá fora, o vento soprou. As nuvens se dissiparam, e uma estrela solitária iluminou o céu.

***

Notas:

[1] O estado do Michigan tem o formato de uma luva, e a região entre o Lago St. Clair, Port Austin e Bay City tem o formato do polegar da luva.

Hino a São Rafael Arcanjo

(extraído do livro “Ano Litúrgico”, de Dom Próspero Gueranger)

Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

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Rafael, guia divino,
recebe bondosamente o hino sagrado
que nossas vozes suplicantes e alegres te dedicam.

Guia-nos pelo caminho da salvação,
vigia nossos passos;
faze que nunca caminhemos a esmo,
por haver perdido a trilha do céu.

Mira-nos do céu;
enche nossas almas do esplendor reluzente
que descende do santo Pai das luzes.

Dá a saúde aos enfermos,
ponde fim à noite dos cegos;
ao curar os corpos, fortifica os corações.

Tu, que te encontras diante do soberano Juiz,
advoga pela causa de nossos crimes;
aplaca tu, a quem confiamos nossos rogos,
a cólera vingadora do Onipotente.

Confunde tu, que novamente inicias o grande combate,
nosso soberbo inimigo;
para triunfar sobre os espíritos rebeldes,
dá-nos a força, aumenta em nós a graça.

Glória seja dada a Deus Pai, bem como a Seu único Filho,
com o Espírito Consolador, agora e sempre.

Amém.

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Mártires em Defesa do Matrimônio Católico

Do livro Remaining in The Truth of Christ:

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“O caso mais famoso é o do rei da Inglaterra, Henrique VIII, que desejava a anulação de seu indubitavelmente válido casamento com Catarina de Aragão, de forma a poder se casar com a dama-de-honra Ana Bolena. Para conseguir isso, ele exigiu, em 1534, o assentimento de bispos, clérigos e súditos a seu chamado Ato de Supremacia, pelo qual ele se declarou o chefe supremo da Igreja da Inglaterra, de modo a sair da jurisdição do Papa, que não podia atender seu pedido.

“Ao mesmo tempo que quase todo o alto clero se submeteu ao rei, houve resistência do bispo [São] João Fisher de Rochester, que tinha sido vice-reitor da Universidade de Cambridge; de [São] Tomás More, que renunciou ao cargo de chanceler do reino devido ao assunto; dos Cartuchos de Londres; dos frades Franciscanos Observantes; e de algumas famílias de nobres. Fisher, More e os Cartuchos de Londres logo sentiram a vingança do rei. Depois de julgamentos espetaculares, cujos veredictos já haviam sido decididos antes de começarem, eles sofreram martírio. As outras testemunhas fiéis sofreram perseguição violenta, que custou a não poucos a vida, e a muitos deles a perda de suas propriedades.

“Nesse contexto, a posição do Papa Clemente VII foi admirável. Sem se importar com a forte pressão política, e com o perigo do cisma da Inglaterra da Igreja Católica, ele insistiu na validade e portanto na indissolubilidade do casamento entre Henrique e Catarina. Para não se precipitar, ele tentou por meio de alguma hesitação, de iniciativas diplomáticas, de procedimentos formais — alguns podem chamá-los evasivas — dar a Henrique tempo para refletir e arrepender-se, mas isso foi inútil. Mesmo a ameaça da separação da Inglaterra da unidade da Igreja não foi suficiente para abalar o Papa.

“Foi um momento de glória na história do papado quando Clemente VII, apesar das consequências, defendeu as verdades da fé e respondeu às ordens do rei com seu famoso ‘non possumus’ (não podemos).”

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(Cardeal Brandmüller, “Unity and Indissolubility of Marriage: From the Middle Ages to the Council of Trent”, trecho final do artigo contra adultério e divórcio)