A Culpa Está Matando o Ocidente desde Dentro?

Autor: Giulio Meotti[1]
Tradução: André Carezia

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De acordo com o professor Bruce Gilley, uma ‘sensação de culpa’ pelo colonialismo está degradando o ocidente de dentro para fora, e regimes autoritários como Irã, Rússia, China e Turquia estão lucrando com esta fraqueza.

Os romanos chamavam de damnatio memoriae: a condenação da memória que resultava na destruição dos retratos dos imperadores decaídos, e até dos seus nomes. O mesmo processo está agora em curso no ocidente em relação ao seu passado colonial. A elite cultural no ocidente parece hoje tão assombrada por sentimentos de culpa imperialista que não tem mais a certeza de que a nossa civilização é um motivo de orgulho.

O sentimento de culpa parece agora uma espécie de religião substituta pós-cristã que seduz muitos ocidentais. O estudioso francês Shmuel Trigano sugeriu que esta ideologia está transformando os ocidentais em “sujeitos pós-coloniais” que já não crêem mais em sua própria civilização, e sim naquilo que vai destruí-la: o multiculturalismo. Na França, por exemplo, lançou-se um manifesto por uma “república multicultural e pós-racial.” O resultado será, nas palavras do antropólogo Jean-Loup Amselle, uma “guerra de identidades” e conflitos entre as comunidades. Jeremy Corbyn, líder do Partido dos Trabalhadores britânico, disse no mês passado que se eleito primeiro-ministro iria ordenar que o Museu Britânico devolvesse para a Grécia os mármores de Elgin, o friso que um dia envolveu o Partenon em Atenas e uma das maiores atrações do Museu Britânico. “Toda esta campanha é uma completa demência,” escreveu Richard Dorment. É uma demência, contudo, que se espalha por toda a Europa.

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O presidente francês Emmanuel Macron anunciou que deseja modificar as normas que tornam intocáveis as coleções públicas francesas, permitindo o retorno à África de dezenas de artefatos históricos que hoje ficam no Museu do Louvre. Macron já incumbiu dois comissários – o escritor senegalês Felwine Sarr e o especialista em arte Bénédicte Savoy – de prepararem um relatório.

A Tanzânia solicita a devolução do famoso esqueleto de um Braquiossauro pré-histórico, a principal atração do Museu de História Natural em Berlim. Novas regras a respeito da restituição de “objetos coloniais” foram anunciadas pela ministra da cultura da Alemanha, Monika Grütters.

A maioria dos historiadores hoje é favorável à campanha pela devolução destes objetos. David Olusoga é um deles. Historiador de origem nigeriana, ele alega que estes artefatos coloniais são “roubos” cometidos pelas potências coloniais da época. Opinião diversa tem Zareer Masani, um historiador de origem indiana. Escrevendo para o The Telegraph, ele afirma que foram os colonizadores que tiveram um papel decisivo na preservação das antigüidades da civilização:

“Foi a dedicação deles, freqüentemente com enormes sacrifícios pessoais, que desvendou as maravilhas de muitas civilizações clássicas perdidas… A realidade é que não temos nenhuma idéia do que aconteceria com as antigüidades ‘saqueadas’ pelo mundo se não tivessem sido preservadas em coleções do ocidente. Será que os tesouros do palácio de verão de Pequim teriam sobrevivido à revolução cultural de Mao? Será que os mármores de Elgin teriam sobrevivido aos guias turísticos turcos, que quebravam pedacinhos para vender como souvenir? Será que o Daesh [Estado Islâmico] teria poupado os artefatos que sobrevivem nos museus europeus?”

Em 1969, a BBC levou ao ar “Civilization”, uma série de Kenneth Clark que explorava a arte e a cultura ocidentais. A civilização, então, era algo a ser glorificado. Em 2018, a BBC colocou no ar uma nova versão do clássico de Clark, “Civilizations” – note o plural. “Este ano, a versão século XXI do consagrado programa vai lançar um olhar crítico à história da civilização britânica, questionando se foi construída mediante ‘o saque e a fraude’ e quem são, de verdade, os bárbaros,” escreve Hannah Furness no The Telegraph. Um dos novos apresentadores é David Olusoga, o historiador que chamou os mármores de Elgin “um claríssimo caso de roubo”.

Há trinta anos, num livro, “As Lágrimas do Homem Branco”, o filósofo francês Pascal Bruckner escreveu que “o crítico fanático que denuncia sem interrupção e sem remorso as mentiras da democracia parlamentar é repentinamente arrebatado pela admiração diante das atrocidades cometidas em nome do Corão, das Vedas, do Grande Timoneiro…” Desde então, as elites ocidentais já desculparam muitos crimes cometidos em nome do Islã político, como se fossem conseqüências de nossos próprios crimes coloniais.

Quando os cristãos no Iraque foram exilados, assassinados ou perseguidos en masse pelo chamado Estado Islâmico, o ocidente quedou em silêncio – como se esses cristãos fossem os agentes do colonialismo ocidental, e não os habitantes legítimos e mais antigos do Oriente Médio, muito antes dos árabes se converterem ao Islã. Quando uma turba destruiu o Instituto Francês no Cairo, queimando livros e coleções, aqueles que agora querem devolver os “artefatos coloniais” quedaram em silêncio. Quando o presidente Rouhani do Irã visitou Roma, as autoridades italianas cobriram as estátuas nuas nos Museus Capitolinos. Será que estamos encobrindo a nossa própria cultura para agradar o mundo islâmico?

Infelizmente, o que estamos “devolvendo” não são apenas os artefatos coloniais, mas o nosso orgulho mesmo da civilização ocidental. Uma nova “condenação da memória” está ocorrendo em nossos próprios museus, academia e classes falantes – e tem profundas repercussões em nossa capacidade de lidar com os inimigos da civilização. “O material pós-colonial fornece um combustível importante para o jihadismo,” declarou o estudioso de Islamismo mais importante da França, Gilles Kepel.

The Monuments Men”[2] é um filme feito em 2014 por George Clooney. É sobre um grupo de curadores ocidentais e especialistas em arte que viajam à Europa para resgatar obras-primas roubadas pelos nazistas. Foi uma estória de bravura e clareza moral ocidental durante a 2a. Guerra Mundial. Em 2015, o Estado Islâmico destruiu Palmira, uma das mais importantes cidades do mundo antigo. Mas o ocidente assistiu passivamente a esta destruição cultural, e nenhum “caçador de obra-prima” foi enviado para salvar Palmira e outros sítios ameaçados. Os russos, tirando vantagem da passividade do ocidente, entraram em Palmira; o maestro mais famoso da Rússia, Valery Gergiev, durante a apresentação de um concerto triunfal na arena de Palmira, disse: “Protestamos contra os bárbaros que destruíram monumentos maravilhosos da cultura mundial”. Daí os ocidentais recriaram em Londres uma cópia vulgar do arco de Palmira.

Cadê os nossos caçadores de obras-primas de hoje?


Notas:

[1] Traduzido do original publicado em 1/julho/2018 no site do Gatestone Institute. O autor Giulio Meotti é jornalista italiano e editor de cultura do jornal Il Foglio. Link para o artigo original: https://www.gatestoneinstitute.org/12569/guilt-museums-artifacts

[2] Lançado no Brasil com o título “Caçadores de Obras-Primas”

 

Tirania e abuso sexual na Igreja Católica: uma tragédia jesuíta

Autor: John R. T. Lamont[*]
Tradução: André Carezia

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Em vista das novas revelações sobre abusos sexuais na Igreja, muitos católicos querem saber como é possível que a situação mostrada por essas revelações viesse a se instalar. A primeira pergunta já vem de longa data: por que os bispos, ao invés de remover os predadores sexuais de seus ministérios, escondem os seus crimes e transferem-nos para novos postos? Nenhuma resposta satisfatória foi dada a esta questão ainda. E agora ela se tornou mais grave por causa de uma segunda pergunta: como é que nomeiam Theodore McCarrick arcebispo de Washington e cardeal, e ainda o fazem planejador-mor da política de abuso sexual dos bispos americanos em 2002, sendo que o seu envolvimento nos abusos sexuais era amplamente conhecido nos círculos clericais e já tinha sido levado ao conhecimento da Santa Sé?

Estas coisas não acontecem por causa da lei da Igreja. Até o dia 27 de novembro de 1983, a lei em vigor na Igreja Latina era o Código de Lei Canônica de 1917. O cânon 2359 deste código, no parágrafo 2, decretava que se os clérigos cometessem, com menores de 16 anos, uma ofensa ao sexto mandamento do decálogo, eles deveriam ser suspensos, declarados infames, destituídos de qualquer cargo, benefício, dignidade ou posto que ocupassem; nos casos mais sérios deveriam ser laicizados.

Este cânon foi substituído pelo cânon 1395 do código de 1983, que no parágrafo 2 declara: ‘o clérigo que de outro modo tenha cometido delito contra o sexto mandamento do Decálogo, […] com menor abaixo de dezesseis anos, seja punido com justas penas, não excluída, se for o caso, a demissão do estado clerical.’ O código de 1983 trata os crimes do tipo cometido pelo cardeal McCarrick no cânon 1395, parágrafo 2: ‘O clérigo que de outro modo tenha cometido delito contra o sexto mandamento do Decálogo, se o delito foi praticado com violência, ou com ameaças, ou publicamente, ou com menor abaixo de dezesseis anos, seja punido com justas penas, não excluída, se for o caso, a demissão do estado clerical.’ Esses cânones não dispõem essas punições como opcionais; eles obrigam que tais crimes sejam punidos pela autoridade eclesiástica. A pergunta então agora é outra: por que as autoridades eclesiásticas violaram a lei e não cumpriram esses cânones?

Sem dúvida uma porção de fatores se juntou para produzir esta situação desastrosa. Um fator, porém, não foi ainda amplamente discutido ou compreendido, mesmo tendo um efeito primário na geração da situação escandalosa que ora prende a nossa atenção. Tal fator é a influência dentro da Igreja de um conceito de autoridade como uma forma de tirania, ao invés de se basear na lei e de ser constituída por ela. Este ensaio apresenta a natureza desse conceito, descreve como ele veio a se tornar influente, e explora alguns de seus resultados mais significativos.

As origens intelectuais desse conceito de autoridade e obediência se encontram principalmente na teologia e filosofia nominalista. Guilherme de Ockham, notoriamente, tomou partido de um dos lados do dilema de Eutífron ao afirmar que as ações boas são boas simplesmente por serem ordenadas por Deus, e que Deus poderia tornar bons a idolatria, o homicídio, a sodomia, e mau o abster-se dessas ações, se Ele ordenasse que elas fossem praticadas. Este conceito de autoridade divina dá força a uma compreensão tirânica da autoridade em geral: ela se basearia na vontade arbitrária daquele que detém o poder, ao invés de se basear na lei.

Uma compreensão da autoridade baseada na lei, por outro lado, sustenta que a lei derivada da natureza do bem é que é a fonte da autoridade de um líder, e delimita a esfera na qual um líder pode emitir ordens. Os estudiosos há muito tempo sabem que o domínio do pensamento nominalista no século quatorze deixou marcas no pensamento católico por vários séculos; importantes teses nominalistas permaneceram incrustadas mesmo em estudiosos que se acreditavam defensores das tradições anti-nominalistas. A natureza da autoridade era uma dessas teses. Todos os teólogos e filósofos católicos durante a contra-reforma sustentavam que a obrigação moral e legal devia ser compreendida como conseqüência da ordem de um superior; [Francisco] Suárez, caracteristicamente, descrevia a lei como ‘o ato pelo qual um superior deseja obrigar um inferior a desempenhar uma ação específica.’

Um dos principais objetivos da contra-reforma era a restauração da disciplina entre os clérigos e os religiosos. As teorias sobre a lei e a autoridade que guiaram essa restauração se distinguiam da posição puramente nominalista, mas estas distinções se perderam quando os princípios práticos de treinamento em obediência foram concebidos. Estes princípios incorporaram uma compreensão tirânica da autoridade, e uma compreensão servil da justa obediência, no sentido de que consistiam na total submissão à vontade do superior. A mais influente formulação destes princípios aparece nos escritos de Santo Inácio de Loyola sobre a obediência. Os elementos centrais da noção de autoridade inaciana são os seguintes:

  • A mera execução da ordem de um superior é o grau mais baixo de obediência, e não merece o nome de obediência, nem constitui um exercício da virtude da obediência.
  • Para que mereça ser chamado de virtude, um exercício de obediência deve alcançar o segundo grau da obediência, que consiste em não apenas fazer o que o superior ordena, mas conformar a vontade à do superior; assim, não apenas se deseja obedecer uma ordem, mas se deseja que aquela ordem específica seja dada – simplesmente porque o superior a deseja.
  • O terceiro (e mais elevado) grau de obediência consiste em conformar não apenas a vontade mas também o intelecto à ordem do superior; assim, não apenas se deseja que a ordem seja dada, mas em verdade se acredita que a ordem é a ordem certa a ser dada, simplesmente porque o superior a deu. ‘Aquele que visa a fazer uma completa e perfeita oblação de si mesmo deve oferecer, além da sua vontade, o seu entendimento; este é o grau seguinte e o mais elevado da obediência. Ele não deve somente desejar, mas deve pensar igual ao superior, submetendo seu julgamento ao do superior, tanto quanto uma vontade devota pode subjugar o entendimento.’
  • No grau mais elevado e meritório da obediência, o fiel não tem mais vontade própria (ao obedecer) do que um objeto inanimado. ‘Todos aqueles que vivem sob obediência devem se permitir ser levados e dirigidos pela divina providência, através da influência do superior, como um corpo sem vida se permite ser levado a qualquer lugar e ser tratado de qualquer maneira; ou como se ele fosse a bengala de um homem idoso que serve em qualquer lugar e é usada da maneira que o seu portador deseje usar.’
  • O sacrifício da vontade e do intelecto que está envolvido nesta forma de obediência é a forma mais elevada de sacrifício possível, já que ela oferece a Deus as faculdades humanas mais elevadas: o intelecto e a vontade.

É preciso dizer que o exercício prático da autoridade de Santo Inácio não estava de acordo com os seus próprios escritos. Ele tinha o costume de enviar jesuítas em missões independentes nas quais eles precisavam ter iniciativa própria. Se interpretados de modo literal, os seus escritos não poderiam ser aplicados nestas situações, já que o superior não estaria ali para dar as ordens às quais se devia esse tipo de obediência.

Podemos explicar a contradição entre teoria e prática pela influência que em Sto. Inácio tiveram as idéias filosóficas e teológicas aceitas em sua época, e pelos objetivos que queria atingir com seus ensinamentos sobre a obediência. Sua doutrina a respeito da obediência foi planejada para proporcionar um treinamento básico em disciplina, do tipo praticado pela profissão militar da qual ele tinha feito parte. Este treinamento também foi planejado para, depois de completado, assegurar que os jesuítas em missões independentes internalizassem o objetivo que seus superiores tinham mandado cumprir, de modo que pudessem levar a cabo, corretamente e de todo o coração, as missões que lhes tinham sido confiadas. Santo Inácio, porém, não tinha a intenção de dar aos superiores um controle totalitário sobre todos os pensamentos e ações de seus subordinados.

Infelizmente, aqueles que interpretaram as suas obras leram os seus escritos de maneira literal, e até lhe deram crédito por defender um controle totalitário desse tipo como o modelo de autoridade religiosa. Algumas apresentações de seus ensinamentos descreveram como algo especialmente elevado e digno de nota obedecer uma ordem sobre a qual paira a suspeita – mas não a certeza – de ser imoral. Esta declaração sobre os méritos excepcionais da obediência às ordens moralmente duvidosas é feita por Santo Inácio em sua carta 150. A carta foi escrita na realidade a pedido dele pelo seu secretário Pe. Polanco; mas já que foi enviada com a assinatura de Santo Inácio, se beneficiou da sua autoridade.

O desenvolvimento pleno de um conceito tirânico da autoridade religiosa e de um conceito servil da obediência encontra-se em Ejercicio de Perfección y Virtudes Cristianas, de Alonso Rodriguez, S.J. Esta obra, o manual de teologia ascética mais lido durante a contra-reforma, foi publicado em 1609. Foi leitura obrigatória para os noviços jesuítas até o Concílio Vaticano II. O conteúdo dele era aceito como a interpretação correta dos ensinamentos de Santo Inácio sobre a obediência. No exame de consciência que propõe, o Pe. Rodriguez (não confundir com Santo Alfonso Rodriguez) exige que o penitente:

  • Obedeça com a vontade e com o coração, tendo uma só intenção e determinação: a mesma do superior.

  • Obedeça também com o entendimento e com o julgamento, adotando a mesma visão e o mesmo sentimento do superior, sem dar lugar a qualquer juízo ou razão para o contrário.

  • Assuma a voz do superior… como a voz de Deus, e obedeça ao superior, quem quer que seja, como a Cristo Nosso Senhor, fazendo o mesmo em relação às autoridades subordinadas.

  • Siga o preceito da obediência cega: que obedeça sem questionar ou examinar, nem buscar motivos para os porquês, considerando como razão suficiente o fato de ser obediência e de ser a ordem do superior.

Rodriguez louva a obediência – do jeito que ele a entende – em termos reveladores:

Um dos maiores confortos e consolos que nós temos na religião é este: o de que, se fizermos o que manda a obediência, estaremos seguros. O superior é que pode se enganar ao ordenar isto ou aquilo, mas você tem a certeza de não estar errado ao fazer o que lhe ordenam, porque a única conta que você deve prestar a Deus é a de ter feito tudo o que lhe ordenaram; com isto a sua prestação de contas estará cumprida a contento diante de Deus. Você não precisa justificar que a coisa ordenada era uma coisa boa, ou que alguma outra coisa teria sido pior; isto não lhe pertence, mas pertence à prestação de contas do superior. Quando você age sob obediência, Deus tira dos seus livros e coloca nos livros do superior.

Rodriguez, assim como outros autores, abre aquela costumeira exceção: não é preciso obedecer ordens manifestamente contrárias à lei divina. Entretanto, já foi observado que a doutrina jesuítica do probabilismo tende a anular esta exceção. De acordo com esta doutrina, não é pecado fazer qualquer ação que uma autoridade respeitável declare ser permitida; e o superior religioso de alguém geralmente conta como autoridade respeitável. Além disto, há um dado psicológico que tende a tornar ineficaz esta exceção. É difícil internalizar e praticar esta noção de obediência; requer tempo, motivação e esforço. Depois de ser executada com sucesso, tem um efeito duradouro. Uma vez que alguém tenha destruído a capacidade de criticar as ações de seus superiores, não consegue mais ressuscitar esta capacidade e exercê-la à vontade. Seguir a diretriz de recusar obediência ao superior, quando suas ordens são manifestamente pecaminosas, se torna então psicologicamente difícil e até mesmo impossível – exceto talvez nos casos mais extremos, como no caso de uma ordem para assassinar alguém, mas este já não é o tipo de ordem ilícita que os superiores religiosos têm interesse em dar.

Este conceito de obediência não se limitou a ser uma peculiaridade da Sociedade de Jesus, mas veio a ser adotado pela Igreja da contra-reforma como um todo. Tornou-se predominante na nova instituição dos seminários da contra-reforma; o Tratado da Obediência do sulpiciano Louis Tronson colocou os ensinamentos e escritos de Santo Inácio no cume da doutrina católica sobre a obediência. A adoção deste conceito pelos sulpicianos foi especialmente importante por causa do seu papel central no treinamento de sacerdotes nos seminários a partir do século XVII. O conceito servil da obediência continuou sendo o padrão no século XX. Adolphe Tanquerey, em sua obra Précis de théologie ascétique et mystique, amplamente lida e traduzida (e, em vários aspectos, excelente), chegou a escrever que as almas perfeitas que atingem o mais alto grau de obediência submetem seu julgamento ao do superior, sem nem mesmo examinar as razões que ele tem para dar as ordens.

A abordagem jesuítica da manifestação da consciência contribuiu para inculcar uma compreensão totalitária da autoridade. Santo Inácio não somente encorajou mas exigiu a manifestação da consciência, e exigiu que a manifestação fosse feita ao superior religioso. A manifestação da consciência incluía ‘as disposições e desejos pela execução do bem, as paixões e tentações que movem a alma, as faltas mais freqüentemente cometidas… o padrão usual de conduta, afeições, inclinações, propensões, tentações e fraquezas.’ Ele exigiu que as manifestações fossem feitas a cada seis meses, e declarou que todos os superiores e até mesmo os seus representantes estavam qualificados para receber tais manifestações. Ao invés de restringir o propósito da manifestação da consciência ao bem-estar espiritual do manifestante, ele não apenas permitiu como exigiu que o superior usasse para propósitos administrativos o conhecimento obtido dos subordinados através da manifestação da consciência.

Não é preciso sublinhar o poder de presunção que esta prática dá ao superior religioso. As antigas ordens religiosas resistiram à introdução de uma manifestação de consciência compulsória no estilo de Santo Inácio, mas vários institutos religiosos modernos a adotaram. Os abusos de tal prática foram tão sérios que o papado teve afinal de aboli-la. Foi proibida pelo cânon 530 do Código de Direito Canônico de 1917 para todos os religiosos (os jesuítas, porém, através de um decreto do Papa Pio XI, receberam uma permissão especial para mantê-la). Nessa altura, entretanto, a prática já tinha tido vários séculos para deixar sua marca na compreensão da autoridade, nos modelos de comportamento, e na psicologia dos superiores e subordinados dentro da Igreja Católica.

Pode-se ver a novidade desta compreensão da obediência no contraste com a posição de Santo Tomás de Aquino. Santo Tomás considera que o objeto próprio da obediência é o preceito do superior (Summa Theologiae, IIa-IIae q. 104 a. 2 co., a. 2 ad. 3). O grau mais baixo de obediência de Santo Inácio, que ele não considera virtuoso, é considerado por Santo Tomás como a única forma de obediência. Ele sustenta que as formas supostamente mais elevadas de obediência de Santo Inácio nem sequer entram na categoria de virtude da obediência:

Diz Sêneca (De Beneficiis iii): Erra quem pensa que a servidão envolve o homem na sua totalidade. Pois a sua melhor parte está isenta dela; porquanto, ao passo que o corpo está adscrito e sujeito ao senhor, o espírito é livre. Portanto, no que respeita ao movimento interior da vontade, ninguém está obrigado a obedecer senão a Deus. (IIa-IIae q. 104 a. 5 co.)

Santo Tomás não considera que a obediência envolva o sacrifício da vontade enquanto tal. Em sua visão, a virtude da obediência envolve apenas o sacrifício da teimosia, definida como a adesão a objetivos contrários à nossa felicidade eterna. Rodriguez, porém, deixa claro que não é a teimosia, mas a própria faculdade humana da vontade que deve ser sacrificada por inteiro. Isto é um sacrifício no sentido de abandono e destruição, já que envolve eliminar o funcionamento da vontade do sujeito para entregá-la à vontade de um outro ser humano. Santo Tomás, além disto, não pensa na obediência como uma forma virtuosa de ascese pessoal. Ele não considera que obedecer uma ordem sem gostar dela seja melhor, em si mesmo, do que obedecer uma ordem cujo cumprimento nos deixa contentes.

Uma pessoa boa vai se alegrar no cumprimento de qualquer ordem apropriada, já que tais ordens concorrem para o bem comum. Ela não considera que todos os atos bons são motivados pela obediência a Deus, porque considera que há virtudes cuja prática antecede à obediência – a obediência religiosa pressupõe, por exemplo, a fé. Nem considera que a essência do pecado consista na desobediência a Deus, ou mesmo que todo pecado envolva o pecado da desobediência. Todo pecado envolve de fato uma desobediência às ordens divinas, mas esta desobediência não é desejada pelo pecador exceto se o pecado envolve uma vontade de desobedecer a ordem somada a uma vontade de fazer o ato proibido (IIa-IIae q. 104 a. 4 ad 3). A obediência é simplesmente um ato da virtude da justiça, que é motivada pelo amor a Deus no caso de ordens divinas e pelo amor ao próximo no caso de ordens de um superior humano. Estes amores são mais fundamentais e mais abrangentes do que a obediência.

O conceito de autoridade religiosa e obediência religiosa que se tornou dominante na Igreja a partir do século XVI foi então uma substancial inovação que se desviou da visão católica anterior. Acabou influenciando a Igreja através do treinamento fornecido nos seminários aos padres diocesanos, e através da abordagem disciplinar nas ordens religiosas. A vida cotidiana dos seminaristas e religiosos foi estruturada como um sem fim de regras a governar as minúcias dos comportamentos, e as atividades à margem dessa rotina só podiam ser executadas em geral com a permissão do superior. Tal permissão era arbitrariamente negada, de tempos em tempos, a fim de encorajar a submissão dos subordinados. Não se davam as razões para as ordens, e não se respondiam as perguntas a respeito das razões para as ordens.

Esta forma de encarar a autoridade teve efeitos daninhos ao clero e aos religiosos. A obediência servil, extraída dos subordinados à força, destruiu o vigor do caráter e a capacidade de pensamento independente. O exercício da autoridade tirânica por parte dos superiores produziu um orgulho arrogante e uma deficiência na auto-crítica. O fato de que todos os superiores começavam algum dia na posição de subordinados significava que a subida era mais fácil para aqueles que eram habilidosos nas artes do escravo – bajulação, dissimulação e manipulação.

Os leigos não podiam almejar subir na hierarquia eclesiástica, de modo que o efeito de se promover a compreensão servil da obediência religiosa foi infantilizá-los na esfera religiosa. Esta infantilização se observa na arte e na devoção religiosas, especialmente a partir do século XIX, e na propensão para a obediência cega ao clero. O resultado foi a dissociação entre a maturidade adulta e a crença religiosa, o que solapou entre os leigos a fé religiosa e o compromisso, contribuindo para a paulatina secularização das sociedades católicas.

Os efeitos desta concepção de obediência foram minimizados por alguns contrapesos. A lei canônica, a disciplina litúrgica, as regras das ordens religiosas, tudo isso continha prescrições detalhadas que limitavam o exercício tirânico da autoridade por parte dos superiores. A filosofia e a teologia escolásticas, a educação clássica, o requisito de proficiência no latim, isso tudo impunha padrões objetivos de conhecimento e de capacidade intelectual exigidos do clero. As escolas secundárias jesuíticas, de longe as mais importantes e bem-sucedidas do seu apostolado, eram governadas por um ratio studiorum formidavelmente desenhado: estabelecia em detalhes o que era para ser estudado, e como. Enquanto o conceito tirânico de autoridade foi contido por esses fatores, ele aleijou mas não matou a Igreja.

Um aspecto pérfido dessa concepção de autoridade é que, no início, ela foi um aparente sucesso. Foi usada para pôr fim às más condutas financeiras e sexuais do clero que colaboraram para gerar a Reforma, contribuindo, assim, para as brilhantes conquistas da Contra-Reforma. A situação da Igreja era similar àquela de Roma sob Augusto, ou àquela da França sob Luís XIV: a paz e a ordem produzidas pelo governo absolutista permitiram o florescimento dos talentos produzidos pela sociedade livre que havia antes do absolutismo. Ao se esgotar a herança da liberdade, e ao se sentirem os efeitos totais do absolutismo, esses talentos mingüaram. A constelação fulgurante de santos e gênios que iluminou a França católica do século XVII foi sucedida, no século XVIII, pelo fracasso e freqüente capitulação diante dos ataques anti-cristãos do Iluminismo.

Esta exposição da história e da natureza do conceito tirânico da autoridade na Igreja explica muitos aspectos da crise de abusos sexuais. Maturidade psicológica é algo necessário para resistir bem às tentações sexuais. A inculcação de uma compreensão servil da autoridade, por atacar esta maturidade, torna muito difícil a castidade. Num sistema de treinamento baseado na inculcação da obediência servil, as personalidades deformadas e inadequadas daqueles que são atraídos por atividades sexuais perversas não são identificadas. Pessoas assim geralmente são boas em servilismo e dissimulação. Elas se desenvolvem tremendamente num sistema baseado na obediência servil, ao passo que homens de inteligência e caráter sofrem com ele.

Os superiores não raciocinam que a sua própria autoridade está presa à autoridade da lei, e não se inclinam a respeitar e obedecer a lei enquanto tal. Eles têm um forte incentivo para encobrir abusos sexuais, porque a autoridade do clero sobre os leigos repousa sobre um conceito infantilizado de clérigos como figuras paternas divinizadas, incapazes de errar. Tal conceito é destruído quando delitos sérios são expostos publicamente. Os leigos que acreditam neste conceito são facilmente persuadidos ou intimidados a manterem sigilo sobre os casos de abusos sexuais que eles encontram. Num sistema tirânico, tanto os superiores quanto os subordinados são ensinados a idolatrar o poder e aqueles que o detém, e a desprezar os inferiores, os fracos e as vítimas. O resultado é a tendência de não sentirem simpatia pelas vítimas de abuso sexual, em particular as crianças. Sua simpatia é dirigida aos predadores, que exercem o poder tirânico na sua forma extrema. Todos esses fenômenos descritos acima já foram observados repetidas vezes nos casos de abusos sexuais que vieram à tona.

A infantilização gerada por essa compreensão da autoridade colaborou de várias maneiras para os abusos sexuais. Uma pessoa infantilizada não consegue exercer um julgamento independente, e não tem a capacidade de se defender ou defender os outros. As criancinhas não são capazes de compreender o mal, e não são capazes de admitir ou mesmo de entender que suas figuras paternas são malignas. Aqueles sacerdotes que levaram a sério a compreensão tirânica da autoridade, ao invés de se adaptar a ela para alcançar suas ambições e usufruir dos prazeres da tirania, ficaram então psicologicamente incapazes de se manifestar contra os abusos sexuais e de correr riscos para corrigi-los. Os ambiciosos não o fizeram porque não havia nisso nenhum proveito para eles.

Quanto aos leigos, a verdade nua e crua é que a maior parte dos abusos sexuais de crianças por padres aconteceram com a conivência dos pais dessas crianças. Sem esta conivência, o abuso sexual de crianças e adolescentes por padres nunca teria alcançado as proporções que alcançou. Observe este testemunho de “Tiago”, garoto abusado sexualmente repetidas vezes pelo cardeal McCarrick:

Tiago afirmou ter tentado, aos 15 ou 16 anos, contar ao seu pai sobre os abusos que estava sofrendo. Mas o padre McCarrick era tão amado pela sua família, disse ele, e considerado tão santo, que a idéia era incomensurável… Tiago disse que quando era menino ele não tinha nenhum lugar seguro para discutir o que estava acontecendo com ele. “Lugar nenhum. Lugar nenhum. Meu pai simplesmente não ouvia.” … “Tentei umas duas vezes com a minha mãe, mas ela dizia ‘você deve estar enganado.’ Meu pai nasceu em 1918, minha mãe em 1920. Cresceram acreditando que a Igreja Católica era tudo. Meu pai era um cara santo. Andava para lá e para cá com o terço na mão o dia inteiro. Meus pais eram muito santos, e os pais deles eram muito santos. Toda a idéia deles sobre a vida era assim.” [**]

Esta concepção errada de santidade não foi resultado da estupidez dos pais desse rapaz. Foi o que o clero lhes ensinou – seguindo uma concepção tirânica da autoridade. Resultou que foram incapazes de imaginar que padres podem ser maus – e ainda acharam que esta incapacidade era uma virtude e um dever religioso.

O caos que tragou a Igreja nos anos 1960 e 1970 provavelmente se deveu em grande parte à rebelião contra o exercício tirânico da autoridade que havia sido infligido aos clérigos e religiosos antes dos anos 60. Porém, assim como aconteceu com outras revoluções registradas na história, esta revolta contra a tirania não levou ao triunfo da liberdade. Ao contrário: ao destruir os elementos do ancien régime que tinha colocado limites ao poder dos superiores, gerou uma tirania ainda mais extensa e completa. Deu um fim nos fatores, listados acima, que tinham contrabalançado a influência do conceito tirânico da autoridade na Igreja da Contra-Reforma.

A facção progressista que assumiu o poder nos seminários e ordens religiosas tinha seu próprio programa e ideologia a demandar adesão total, e isto justificava suprimir brutalmente a oposição. As ferramentas de controle psicológico e de opressão que haviam sido aprendidas pelos progressistas durante a sua própria formação foram colocadas em pleno uso, e aplicadas de modo mais abrangente do que jamais tinham sido antes – sendo a diferença entre os dois regimes muito parecida com a diferença entre a Okhrana e a Cheka.

Uma parte da ideologia progressista era a falsidade e o malefício do ensinamento sexual tradicional católico; não é preciso elaborar os efeitos desta doutrina sobre a crise dos abusos sexuais. Mas seria um engano achar que o progressismo em si é responsável por esta crise, e que a sua derrota resolveria o problema. As raízes da crise vêm de muito antes, e exigem uma reforma nas atitudes para com a lei e a autoridade em todas as áreas da Igreja.


Notas:

[*] Artigo original publicado no site https://rorate-caeli.blogspot.com/2018/10/tyranny-and-sexual-abuse-in-catholic.html em outubro/2018.

[**] Testemunho original: https://www.theamericanconservative.com/dreher/uncle-ted-mccarrick-special-boy/

Minha Coleção de Arte para Rezar o Rosário

fra-angelico-the-annunciation1
Anunciação – Fra Angelico – 1440
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Visitação – Fra Angelico – 1432
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Nascimento – Rubens – 1617
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Apresentação – Lorenzetti – 1342
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Encontro – Ribera – 1630
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Agonia – Veronese – 1583
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Flagelação – Agnesius – 1640
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Coroação – Caravaggio – 1603
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Calvário – Rafael – 1516
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Crucificação – Rubens – 1620
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Ressurreição – Rafael – 1502
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Ascensão – Perugino – 1495
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Pentecostes – Ticiano – 1545
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Assunção – Ticiano – 1516
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Rainha – Velázquez – 1644

Et tu, Bento?

Autora: Hilary White[1]
Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

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Recentemente, o editor de uma revista católica “conservadora” me perguntou se eu estava interessada em escrever um artigo sobre a renúncia do papa Bento XVI, agora que se passaram cinco anos. Recusei dizendo-lhe que eu estava moralmente certa de que nada do que eu tinha para contar estaria de acordo com a sua linha editorial. Depois destes cinco anos eu já percebo que há muito menos gente se referindo ao abandono do pontificado como um ato “corajoso”. As conseqüências daquele ato têm se mostrado tão bizarras – mesmo para quem, no geral, está de acordo com Francisco – que muito poucas pessoas ainda se dispõem a emitir ruídos educados sobre isto.

Na verdade, após cinco anos da renúncia do papa Bento, a maioria dos fiéis católicos quer saber o porquê. Por que um papa – um homem com décadas de experiência íntima e pessoal com a “sujeira” na cúria e em toda a Igreja – decidiria sair de repente? Por que ele escolheria ir embora sabendo que a sua tarefa não estava completa? Tanto na época quanto agora, especialmente à luz do que vem acontecendo, as razões oferecidas são tão triviais, tão inapropriadas, tão desproporcionalmente mesquinhas, que parecem ser um dos aspectos mais bizarros de toda esta situação bizarra.

Essas respostas absurdas a perguntas sérias e graves levantaram de modo inescapável a suspeita de que Bento simplesmente não levou o papado tão a sério como nós aqui levamos. Não é possível evitar a ponderação: será que essas respostas trivializadas revelam algum profundo defeito nunca antes suspeitado? Será que estivemos errados sobre ele? Em caso positivo, será que estivemos tão errados assim?

As razões que ouvimos na época eram todas, em essência, “estou cansado”. Havia uma certa sugestão de que ele não se sentia mais apto para viagens internacionais, de modo que não podia ir ao Dia Internacional da Juventude e a eventos similares. A trivialização da renúncia parecia estar de mãos dadas com o conceito moderno do “papa como pop star”, coisa em que um homem tão sério – um católico tão sério – quanto Bento não poderia acreditar. Assim pensávamos. Assumimos que Bento XVI, mais do que todos, levava o papado a sério.

E desde então, enquanto todos os venenos que ficaram à espreita por cinqüenta anos na lama da Nova Igreja estão agora eclodindo freneticamente, muitos católicos querem saber: por que não ouvimos nada dele? Deste homem que acreditávamos ser o “campeão da ortodoxia”, que pensávamos conhecer. O erro, e até mesmo a heresia e a blasfêmia, escorrem diariamente da boca de seu sucessor – o qual, literalmente, transformou o Vaticano em um covil de ladrões – e não ouvimos nada além dos pronunciamentos ocasionais, feitos com palavras cuidadosamente escolhidas, para dizer que está tudo muito bem. Quão contente ele está com a sua decisão, e quão feliz com a sua vida atual!

Depois de três anos de desmonte sistemático de tudo que ele tinha tentado fazer em seu pontificado, o que obtemos de um Ratzinger que parece absolutamente tranqüilo é isto: “Sua bondade é o meu lar, é o lugar onde me sinto seguro.” Todo mundo que já tenha lido qualquer coisa escrita por ele ficou admirado dele ser capaz de emitir um disparate tão piegas quanto este, mas o vídeo não mente.

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Este novo tom foi tão estranho que começou a circular uma especulação de que ele estava sob algum tipo de pressão externa, sem liberdade para falar o que pensa. Mas isto não é o que nós vemos. Ele está ali claramente feliz, lendo aquilo em voz alta. “Pode ter sido escrito para ele.” Mas então por que repetir? Se ele tem algum receio, por que se deixar guiar em ocasiões assim, por que ler esta propaganda descarada? Se é uma fraude, por que participar dela?

Todos os que comentam esperançosamente em blogs e outras mídias sociais, dizendo-me sempre o quanto “sentem falta” dele, na verdade deixam de respeitá-lo numa coisa: eles não aceitam a sua palavra. Alguns insistem que a sua renúncia foi feita sob algum tipo de coação e é portanto inválida. Mas nós o ouvimos dizer várias vezes que ninguém o estava constrangendo, que ele tinha renunciado livremente. E de fato ele está longe de ser um “prisioneiro do Vaticano”. Ao contrário de ser um isolado, Bento já recebeu muitos convidados, os quais sempre relatam que, embora frágil, ele parece contente e nunca abre a boca para reclamar. Ainda estamos esperando alguma notícia de algum bilhete escondido debaixo de um jogo americano na mesa de jantar, implorando por socorro.

Não há dúvida de que esta é uma situação extremamente esquisita e, francamente, suspeita; alguma coisa não bate, esta é que é a verdade. Todas as perguntas ou foram desconsideradas ou receberam respostas frívolas e jocosas:

Por que o Senhor renunciou?

Ratzinger: “Eu estava meio cansado, sem muita vontade de festejar com a criançada no Dia Mundial da Juventude.”

Se o Sr. não é papa, por que ainda se veste de branco?

Ratzinger: “Ah, não tinha uma batina preta que me servisse.”

Por que o Sr. continua a se chamar Bento XVI, se não é mais papa?

Ratzinger: “Bom, eu sou um ‘emérito’, entende…?”

E de onde é que veio este negócio de “emérito”? Existe algum precedente para isto na história católica? Em termos canônicos e doutrinais, o que significa?

Ratzinger: “…”

O que foi aquela besteira do Gänswein sobre haver um “munus” dividido – um membro ativo e um “membro contemplativo”? Quer dizer que agora há dois papas?

Ratzinger: “…”

E provavelmente a mais agonizante de todas: “Como é que o Sr. pode ficar aí sorridente, pronunciando platitudes e tolices insossas, enquanto este lunático empurra as ovelhas para um precipício?”

Alguns dias atrás, o meu amigo Steve Skojec, do website tradicionalista/restauracionista One Peter Five, resumiu a consternação daqueles que ainda sentem uma afeição pelo (homem que costumávamos chamar) papa Bento. Talvez muitos de nós ainda nos sintamos relutantes em expressar publicamente toda a raiva e todo o devastador desapontamento que aparece resumido nesta breve postagem do Steve:

“O papa Bento XVI abdicou do papado há exatamente cinco anos atrás. E, através do abandono do dever de pastorear a Igreja, ele abriu espaço para o pior papado de todos os tempos – ao qual ele obstinadamente recusa se opor por palavras, atos ou até mesmo algum gesto por mais sutil que seja.

“Você pode amá-lo por razões diversas, pode sentir falta dele pelo contraste, mas não pode dispensá-lo da responsabilidade que ele tem. Ele se afastou de sua família, deixando a porta aberta para um padrasto abusador, e assiste não apenas em silêncio seus filhos serem surrados e desencaminhados, mas em aparente contentamento.

“Mesmo assim, ele foi o melhor dos papas pós-conciliares, motivo pelo qual ele será o único a não ser canonizado.”

Quem é o verdadeiro Joseph Ratzinger?

Observadores experientes do Vaticano já me disseram mais de uma vez: “Provavelmente ele apenas não era quem pensávamos que fosse”. Eu suspeito haver mais coisas nesta história do que a maioria das pessoas pode imaginar. Acho que cometemos o erro de acreditar na imprensa. Ficamos contentes porque a mídia, que é extremamente anti-católica, o odiava e temia. Esquecemos que eles não sabem absolutamente nada de catolicismo. O que os jornais nunca nos contaram foi que o teólogo Joseph Ratzinger, no início de seu sacerdócio em 1962, era conhecido pelo termo “progressista”. Esta reputação foi solidificada durante os trabalhos dele como peritus (conselheiro teológico) de um dos mais influentes bispos na ala progressista do Concílio, o cardeal Josef Frings, de Colônia. O que fez a fama de Frings naquele grande drama foi um pronunciamento criticando a CDF – e seu prefeito, o cardeal Alfredo Ottaviani – pelo “conservadorismo” presente no “schema” (os documentos preparados pela CDF para servirem de guia às discussões dos bispos.

Após o pronunciamento, houve uma revolta entre os bispos da comissão preparatória, e eles exigiram que o schema – que havia levado anos para ficar pronto – fosse abandonado. E isto foi feito, apesar das objeções de Ottaviani. Novos documentos foram improvisados por uma coalizão de “progressistas” alemães e franceses, os quais se rejubilaram por ter, na prática, tomado o controle do Concílio a partir daquele instante, mesmo antes de ter começado.

Hoje em dia se sabe que foi Joseph Ratzinger – o “progressista” rebelde trazido pelo teólogo e acadêmico Frings a Roma como seu secretário – que escreveu esse pronunciamento.

O cardeal Henri de Lubac, escrevendo em 1985 para recordar aquele drama, afirmou:

“Joseph Ratzinger, um perito conciliar, era também o secretário pessoal do cardeal Frings, arcebispo de Colônia. O idoso e já cego cardeal se utilizava amplamente de seu secretário para escrever suas intervenções. Ora, uma destas intervenções se tornou memorável: a crítica radical (embora serena) dos métodos do Santo Ofício. Malgrado uma resposta do cardeal Ottaviani, Frings manteve a sua crítica.

“Não é exagero dizer que o Santo Ofício, tal como se apresentava até então, foi naquele dia destruído por Ratzinger em conjunto com seu arcebispo.

“O cardeal Seper, homem cheio de bondade, iniciou a renovação. Ratzinger, que não mudou, a continua.”

A reputação de Ratzinger como um “progressista” não se baseava em um incidente, e nem se restringia às suas primeiras obras. Na gritaria que fizeram devido à sua liderança da CDF, ninguém notou que ele tinha escrito em 1982 uma convocação para que a Igreja “nunca retornasse” ao Sílabo dos Erros de Pio IX. No livro “Princípios de Teologia Católica”, Ratzinger propôs a questão “O Concílio deve ser revogado?”, e respondeu sua própria pergunta recomendando a “demolição dos bastiões” da Igreja Católica em relação ao mundo moderno:

“Portanto, o dever não é suprimir o Concílio, mas sim descobrir o verdadeiro Concílio, cavoucando em profundidade aquilo que ele realmente deseja em relação ao que já aconteceu desde então.

“Isto implica em não haver um possível retorno ao Syllabus, que pode muito bem ter sido um primeiro passo no combate ao liberalismo e ao marxismo nascente, mas nunca a palavra final. Nem o abraço, nem o gueto, podem resolver o problema do mundo moderno para o cristão. Por isto é que a ‘demolição dos bastiões’, convocada já em 1952 por Hans Urs von Balthasar, era na verdade uma obrigação urgente.

“Era necessário que ela [a Igreja] demolisse os velhos bastiões, confiando apenas na proteção da fé: o poder da palavra, que é sua força única, verdadeira e permanente. Mas demolir os bastiões não significa que ela não tem mais nada a proteger, ou que ela vive em dívida para com forças diferentes daquelas que a engendraram: a água e o sangue que brotaram do lado aberto do Senhor crucificado.”

Sua tese – um estai da ideologia “conservadora” – era a de que o Concílio “verdadeiro”, desde que corretamente implementado, seria a salvação da Igreja e do mundo; e ele nunca abandonou este tema.

Para aqueles que se lembravam desta história, quão irônico deve ter parecido que se entregasse ao próprio Ratzinger o cargo que ele tinha “destruído”, e que ele ganhasse a reputação midiática de um “arqui-conservador”. Isto é o indício de uma resposta, ou pelo menos de uma linha de investigação, para as seguintes perguntas: Por que tão pouca coisa se realizou em seu longo mandato? Por que, com o rottweiler “arqui-conservador” Ratzinger na CDF, temos a situação que temos hoje? O que ele fez para impedir a explosão do neo-modernismo, que queimou como um fogo descontrolado por todo o mundo católico ao longo do reinado de João Paulo II?

O que o “silêncio” imposto pela CDF de Ratzinger fez para impedir Hans Küng de se tornar um célebre “padre-teólogo”, cortejado pela mídia por sua aversão ao catolicismo? Küng, que nunca foi removido do sacerdócio apesar de sua manifesta heresia? Será que conseguimos pensar em outros nomes que foram corrigidos pelo menos nesta medida? Bem poucos.

Certamente, porém, nós conseguimos pensar em muitos e muitos que passaram a vida negando e solapando abertamente a fé católica – teólogos acadêmicos, religiosos, padres, bispos e cardeais ao redor do mundo – sem nem um pio de protesto vindo de Roma. Mais ainda: a escandalosa montanha de fraudes que hoje temos no episcopado é, em sua totalidade, fruto dos pontificados do “arqui-conservador” João Paulo II e do “rottweiler” Bento XVI.

Por que é que nós achávamos que Ratzinger, em seu papel crucial como prefeito da CDF, era um baluarte da ortodoxia? Será que é simplesmente porque nos afastamos tanto da antiga fé que já não temos mais uma noção realista da fé que permita uma comparação, um julgamento objetivo? O destruidor “progressista” de Ottaviani herdando o seu cargo… O epíteto de “arqui-conservador”…

O próprio Ratzinger, para dizer a verdade, sustentava que nunca havia mudado de opinião teológica. Ele dizia que eram seus velhos colegas acadêmicos como Küng e Kasper que tinham se deslocado ainda mais na direção da “esquerda” ideológica depois dos anos 60, enquanto ele tinha ficado no mesmo lugar. Talvez possamos agora finalmente aceitar a sua palavra nisto, como uma peça que se encaixa em nosso quebra-cabeças aparentemente contraditório. Talvez o mundo acadêmico da teologia católica tenha se tornado tão corrupto que um homem considerado “progressista” em 1963 pareceria um “campeão da ortodoxia tradicional católica” em 2005, mesmo sem mudar nenhuma de suas idéias.

Será que foi por isto que ele renunciou? Será que a sua concepção da Igreja, do papado, simplesmente nunca foi aquilo que os católicos acreditavam ser? Talvez um indício de resposta venha do La Stampa de 2015, que publicou algumas das memórias de Silvano Fausti, SJ, confessor e guia espiritual do cardeal Carlo Maria Martini, o chefão da Igreja Católica européia “liberal”[2] e suposto líder da “máfia de Sankt Gallen”, a qual conspirou contra o papa Bento por anos, conforme admitiu o cardeal Danneels.

Fausti disse que Bento se encontrou com Martini no palácio dos bispos em Milão, em junho de 2012. Disse ainda que Martini insistiu que Bento renunciasse ao papado. Aparentemente, na época da sua eleição em 2005, Martini havia dito que sua principal tarefa seria reformar a Curia, coisa que se demonstrou impossível por volta de 2012.

Por que Bento aceitaria conselhos de um homem como Martini – o “chefão” da “ala liberal” do catolicismo europeu? Eu acho que a pergunta nem mesmo ocorreria a um homem como Ratzinger. Eles eram bons colegas na academia. Eram irmãos no episcopado. Qualquer aparência de divisão ideológica entre ambos era, essencialmente, um produto da narrativa midiática. Por que o papa não levaria em conta o conselho do seu mais velho e respeitado cardeal?

Por que Walter Kasper é um cardeal?

Uma das peças mais proeminentes desse quebra-cabeças é que aparentemente os tais prelados “conservadores” não conseguem detectar (e muito menos barrar) os insolentes inimigos da fé em meio ao episcopado e ao colégio de cardeais. É impossível explicar a pessoas comuns como, depois de tantos anos ouvindo e lendo essa gente, Ratzinger ainda manteria tão boa amizade com homens como Walter Kasper e Carlo Maria Martini, os supostos cérebros da máfia de Sankt Gallen.

Quando o papa Francisco, no seu primeiro Angelus, em 2013, contou à multidão o quanto adorava os escritos de Walter Kasper, quase todos nós que tínhamos passado vários anos acompanhando o Vaticano começamos a entender para onde estávamos indo com o novo papa. Jorge Bergoglio podia até ser um desconhecido aos olhos do mundo católico, mas Walter Kasper era um herege célebre; ele era a fachada midiática da “ala ultra-liberal” da Igreja pós-Vaticano II.

Em um artigo sobre a obra do cardeal, Thomas Jansen, editor-chefe do Katholisch.de, observou recentemente que Walter Kasper não teria conseguido fazer o estrago que fez sem a assistência direta de João Paulo II e do papa Bento. O debacle monstruoso da Amoris Laetitia é tanto obra do Kasper quanto do Bergoglio. Este é um homem que, por 40 anos, nunca se incomodou em esconder suas opiniões heterodoxas, tendo devotado a maior parte de sua vida a uma campanha para produzir justamente este resultado.

Jansen chama a atenção para o fato de que Kasper, em 1993, já tinha tentado avançar a mesma proposta de comunhão para divorciados e recasados, junto com Karl Lehmann, outro membro de “Sankt Gallen”. Foi barrado por Ratzinger e a CDF. Mas então vem a próxima pergunta: se Ratzinger sabia muito bem que tipo de criatura era Kasper, por que não o catou pela orelha e lançou-o para fora do episcopado? Por que não lhe deu, no mínimo, o mesmo “tratamento de silêncio” dado a Küng? Kasper foi na mídia recentemente para reclamar por ter sido chamado de herege. Mas é a pura verdade: ele é herege. Todo mundo sabe que ele é herege, porque nós já o escutamos trombetear por décadas as suas heresias descaradas de cima de todos os telhados que ele conseguiu encontrar.

Após trabalhar abertamente contra a fé, ele ganhou de João Paulo II o título de cardeal, ao invés de ser rebaixado, silenciado, laicizado e/ou excomungado. O seu esquema de Amoris-Laetitia-ar a Igreja, lembre-se, foi barrado em 1993 pela CDF de Ratzinger. Ele não foi, porém, nem rebaixado, nem admoestado, nem corrigido em nada. Também não foi removido de postos de influência. Ao contrário: em 1994, Kasper foi enxertado na Cúria Vaticana ao ser nomeado co-presidente da Comissão Internacional para o Diálogo Luterano-Católico. Em 1999, subindo mais um degrau, foi nomeado secretário do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, o departamento “ecumênico” no qual o seu manifesto indiferentismo religioso pôde reinar livremente. Em 2001 ele foi sagrado cardeal-diácono, com a incrível responsabilidade de votar em um conclave.

Bento, então, permitiu-lhe permanecer cardeal. E, como um toque final ao bolo envenenado que é o envolvimento de Ratzinger na criação do “novo paradigma católico”, agora há o rumor de que Bento calculou o momento exato de sua renúncia de modo a permitir a participação de seu velho colega de academia no conclave de 2013. Jansen chamou a atenção – e Maike Hickson citou num artigo para o One Peter Five – para o seguinte:

“O cardeal Kasper quase não conseguiu entrar no último conclave, porque tinha acabado de fazer 80 anos. Porém, como a data da morte (ou abdicação, como foi o caso em 2013) do papa é decisiva, ele ainda pôde participar e votar naquela eleição. (Alguns observadores notaram que isto foi um gesto de generosidade de Bento XVI em relação ao cardeal Kasper: a renúncia na hora certa.)”

Maike que me desculpe, mas não acho que isto seja um assunto parentético. É mesmo de admirar que tantos católicos tenham ficado ressentidos?

Cardeal Ratzinger, Papa “emérito” Bento – chame-se como quiser – eu tenho uma pergunta muito importante para você responder: Por que este homem ainda é um cardeal? Por que ainda é um bispo? Por que ainda deixam que ele se proclame um “teólogo católico”? Por que você, aparentemente de propósito, assegurou a participação dele no conclave que iria decidir o seu sucessor?

Será que ninguém mais quer saber isto? Não queremos todos saber porque Hans Küng ainda é um sacerdote? Por que deixaram que o cardeal Mahony se aposentasse em boa reputação? Por que um homem como Weakland, aquele homossexual ativo que comprou seu ex-amante, não foi excomungado? Quais são os nomes que todos nós recordamos só assim de cabeça? Meu próprio bispo em Victoria, o ocultista Remi de Roo, o Raymond Hunthausen de Seattle, o Favalora de Miami, o Matthew Clark de Rochester, o Derek Worlock de Liverpool… Às vezes eu fico pensando no tamanho que esta lista vai ter quando tudo isso acabar.

Faz cinqüenta anos que os católicos querem saber porque nada nunca foi feito. Por que deixaram estes lobos no episcopado, atacando continuamente a Igreja ano após ano? Por que nós sempre vimos estes homens – comprometidos intelectual e moralmente – serem elevados a degraus superiores, apesar da insolência inacreditável do seu ódio à fé católica?

O fim do “catolicismo guarda-chuva”

Ross Douhat, do New York Times, é um dos que estão começando a fazer esse tipo de pergunta. Maike Hickson cita um escrito dele sobre esta situação bizarra, na qual cada um dos chamados prelados “da máfia de Sankt Gallen”, inclusive Kasper, que fez campanha pela abolição de fato do ensinamento moral da Igreja[3]: “Algo característico da efetiva trégua na Igreja [entre conservadores e progressistas] foi que o próprio João Paulo II entregou à maioria deles os barretes vermelhos, promovendo-os apesar do desacordo que eles mantinham em relação à sua abordagem restauracionista.”

Quando os jornalistas falam de catolicismo, é comum se referirem a homens tipo Kasper como – está em sua página na Wikipédia – “uma das principais figuras da ala liberal da Igreja Católica.” E supostamente isto deve fazer algum sentido para os católicos, e supostamente temos que aceitar isto como uma realidade de nossos tempos: há uma “ala liberal” e uma “ala conservadora”, e ambas são católicas.

Steve Skojec me disse que a nossa disposição de aceitar toda aquela charada de “papa emérito” foi um erro: “Acho que o problema é termos aceitado o jogo de faz-de-conta deles, quando não deveríamos ter aceitado.” Na verdade, estou começando a achar que a disposição de aceitar toda a charada do catolicismo pós-conciliar, que muitos católicos tiveram, foi um sério erro. Ao entrar no jogo, ao fingir que podíamos ser “católicos conservadores” neste novo paradigma que inclui também “católicos liberais”, nós os ajudamos a perpetrar uma [das] mais monstruosas fraudes da história humana.

Devido a esta mentalidade esquizofrênica da liderança da Igreja desde 1965, acabamos por aceitar a premissa oculta: a de que a Igreja é um “imenso guarda-chuva” com um montão de espaço para pessoas de todas as opiniões pessoais… que temas como a liturgia são questões de “gosto” pessoal… que duas coisas opostas podem ambas ser a verdade católica.

Esta esquizofrenia é o modelo sob o qual os “conservadores” operaram todo esse tempo, e pelo qual eles julgaram que um homem como Joseph Ratzinger é um “conservador e campeão da ortodoxia”. E qual o resultado disto? Isto criou uma fachada para os homens da panelinha de Kasper manobrarem seu homem no trono de Pedro cinco anos atrás.

E assim, de repente, o jargão da “tolerância” e do “imenso guarda-chuva” chega ao fim, e o expurgo dos religiosos, seminaristas, padres e acadêmicos fiéis começa. E tinha que ser assim. Eles ao menos não alimentam esta contradição insana, e entendem – e freqüentemente dizem em voz alta – que o novo paradigma e a Igreja Católica não são a mesma coisa. E sua Nova Igreja é a única que resta.

Por cinco décadas nós brincamos de jogo anglicano: se não falamos sobre o assunto, não existe problema algum. O Santo Ofício de Ottaviani e o schema eram o último suspiro da velha Igreja – que, como de Lubac escreveu acima, foi destruída por Joseph Ratzinger. Depois de um longo hiato, no qual os papas fingiram que nada de essencial estava mudando, enquanto a instituição à sua volta sucumbia ao novo paradigma, uma única coisa ainda restava: o papado.

Uma das coisas que eu venho dizendo a respeito da era Bergoglio – e que é uma benção disfarçada, um enorme alívio – é que finalmente nós podemos abandonar a situação absurda da era Wojtyla/Ratzinger. Todos estes anos nós tivemos que fingir estar em uma “nova primavera do Vaticano II”, enquanto assistíamos a esses lobos em pele de pastor devorando as ovelhas.

Agora, enfim, podemos pelo menos parar de fingir que tudo é fantástico sob o novo paradigma da misericordiosa maravilha conciliar. Para quem ainda está em dúvida, Bergoglio não é um escândalo, e nem mesmo uma surpresa; ele é somente a conclusão lógica. Este pontificado não é uma anomalia; é o único resultado possível, e foi uma obra tanto de Walter Kasper quanto de Joseph Ratzinger.

[1] Tradução de artigo originalmente publicado em 12 de março de 2018 no jornal americano católico The Remnant. Link original: https://remnantnewspaper.com/web/index.php/articles/item/3786-et-tu-benedict-some-final-thoughts-on-joseph-ratzinger

[2] A palavra “liberal”, seguindo a tradição americana, é usada neste artigo como sinônimo de “esquerdista”.

[3] N.T. A frase aqui está aparentemente cortada no original. A idéia é clara, entretanto.

As Finalidades da Santa Missa

Este texto é uma adaptação de um material que elaborei em 2016 para reflexão em um grupo de estudos na capela do meu bairro. Reformatei para adequar a este blog.

Versão em PDF.

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Hoje vamos meditar sobre as finalidades e vantagens da Santa Missa, usando trechos de um pequeno livro escrito por São Leonardo de Porto-Maurício no século XVIII, “As Excelências da Santa Missa.”

Diz ele no prefácio do livro:

“Os tesouros, por grandes e preciosos que sejam, não podem ser estimados se não forem conhecidos. Eis porque, muitos não têm pelo santo Sacrifício da Missa o amor que deveriam ter, porque este tesouro, A MAIOR MARAVILHA e a MAIOR RIQUEZA da IGREJA DE DEUS é um TESOURO OCULTO um tesouro muito pouco conhecido. Ah! se todos conhecessem esta preciosidade celeste, tudo sacrificariam para adquiri-lo. A exemplo do mercador do Evangelho, cada um, de boa vontade, daria tudo que possuísse para obter tão precioso tesouro (Mt 13, 46).”

Mais adiante ele escreve:

“São Tomás de Aquino, o Doutor angélico, nos ensina quais são as dívidas que temos com DEUS. Ele diz que há especialmente quatro. Todas as quatro ilimitadas.”

“A primeira é de adorar, louvar e honrar este DEUS de majestade infinita e digno de infinitos louvores e homenagens. A segunda é dar-lhe satisfação pelos pecados que cometemos. A terceira, render-Lhe graças pelos benefícios recebidos. A quarta, implorar-Lhe, como fonte de todas as graças.”

“Ora, como é possível que pobres criaturas como nós, que nada possuímos, nem mesmo o ar que respiramos, possam jamais satisfazer obrigações tão grandes? Consolemo-nos, pois aqui está um meio facílimo. Façamos o possível para participar de muitas Missas e com a máxima devoção; e, se bem que nossas dívidas sejam enormes e inumeráveis, não há dúvida de que, com o tesouro contido na Santa Missa, poderemos solvê-las inteiramente.”

São Leonardo explica então a primeira finalidade: PELA SANTA MISSA ADORAMOS DIGNAMENTE A DEUS.

E diz:

“Nossa primeira obrigação para com DEUS é adorá-Lo e honrá-Lo. É preceito da própria lei natural que todo inferior deve homenagem a seu superior. E quanto maior a dignidade deste, tanto maiores devem ser as honras que se lhes prestam. Daí resulta que, sendo DEUS de majestade infinita, homenagens infinitas Lhe devemos.”

“Infelizes que somos! Onde encontraremos oferenda digna de nosso Criador? Passei vós em revista todas as criaturas do Universo: coisa alguma encontrareis digna Dele.”

“Ah! é que uma oferenda digna de DEUS não pode ser senão o próprio DEUS. Necessário é que Aquele, que está sentado no trono de Sua Majestade, desça para oferecer-se como vítima sobre os nossos altares, a fim de que a homenagem corresponda perfeitamente à Excelência de sua grandeza infinita.”

“Isto é o que se realiza na Santa Missa, pela qual DEUS é adorado na medida que merece, porque é adorado por DEUS mesmo, isto é, por JESUS que, pondo-se sobre o altar em estado de vítima, adora a SANTISSÍMA TRINDADE por um ato de inefável dependência e tanto quanto Ela merece.”

“Nós, que concorremos com Ele no oferecimento deste grande Sacrifício, damos também de nossa parte, a DEUS, honra e homenagem infinitas. Oh! Que coisa sublime! Digamos uma vez ainda, pois importantíssimo é sabê-lo: Sim, assistindo à Santa Missa, prestamos a DEUS adoração, honra e homenagem infinitas.”

“Sendo assim, como quitaremos bem a nossa primeira dívida com DEUS, assistindo à Santa Missa! Ó mundo obcecado, quando abrirás os olhos para compreender verdade tão importante. E vós cristãos negligentes, tereis ainda a coragem de dizer: ‘Uma missa a mais, uma missa a menos, pouco importa’? Que triste cegueira!”

missa

São Leonardo explica então a segunda finalidade: PELA SANTA MISSA PODEMOS SATISFAZER A JUSTIÇA DIVINA PELOS PECADOS COMETIDOS.

Continua ele:

“A segunda obrigação que temos para com DEUS é de satisfazer à sua justiça por tantos pecados cometidos. Oh! Que dívida imensa esta! Um único pecado mortal pesa tanto na balança da Justiça Divina que não bastariam, para expiá-lo, todas as boas obras de todos os mártires e de todos os santos passados, presentes e futuros. No entanto com o Santo Sacrifício da Missa, se considerarmos o seu valor intrínseco e seu preço, pode-se satisfazer plenamente por todos os pecados cometidos.”

“E aqui buscai compreender quanto de reconhecimento deveis a JESUS. Pensai-o bem: é Ele o ofendido; entretanto, não contente de no Calvário ter satisfeito por nós à Justiça Divina, deu-nos e continua a dar-nos incessantemente o meio de apaziguá-la no sacrifício da Santa Missa, pois aí renova a oferenda que, na Cruz, fez a DEUS PAI, pelos pecados do Mundo inteiro.”

“O mesmo sangue que derramou para resgatar o gênero humano é aplicado e oferecido especialmente na Santa Missa pelos pecados daquele que a celebra ou manda celebrar, e de todos os que participam deste augusto Sacrifício.”

“Não que o Sacrifício da Santa Missa apague por si mesmo e imediatamente nossos pecados, como é o caso do sacramento da Confissão; mas obtém que eles nos sejam apagados, proporcionando-nos, seja no momento mesmo da Santa Missa, seja em outra ocasião oportuna, boas inspirações, movimentos salutares e graças atuais que nos são indispensáveis para nos arrependermos dignamente de nossas faltas.”

“Conquanto às almas em estado de pecado mortal não lhes aproveite o valor no que tem de propiciatório, todos os pecadores deviam assistir muitas vezes à Santa Missa para alcançar mais facilmente a graça da conversão.”

“Quanto às almas vivendo em paz com DEUS, o Sacrifício da Santa Missa lhes dá uma força surpreendente para se manterem nesse estado e, conforme a opinião comum, são apagados todos os pecados veniais, caso tenham ao mesmo tempo um arrependimento geral. Ó bem-aventurada Santa Missa, que nos restitui a liberdade de filhos de DEUS, e satisfaz todas as penas devidas por nossos pecados!”

“Realmente, se bem que o valor do Santo Sacrifício seja infinito, deveis saber entretanto, que DEUS o aceita numa medida limitada e finita, mais ou menos, conforme a devoção maior ou menor de quem o celebra, manda celebrar, ou a ele assiste.”

“Note-se aqui o erro daqueles que preferem as missas mais curtas e menos devotas, ou, o que é pior, que a elas assistem com pouca ou nenhuma devoção. É verdade que todas as Missas são iguais do ponto de vista do Sacramento, como ensina São Tomás; não o são, porém, quanto aos efeitos que delas provêm. Quanto maior a piedade atual ou habitual do celebrante, maior será o fruto de seu sacrifício.”

São Leonardo continua, explicando agora a terceira finalidade: PELA SANTA MISSA AGRADECEMOS DIGNAMENTE A DEUS TODOS OS BENEFÍCIOS.

Do livro:

“A terceira dívida é a do reconhecimento pelos benefícios de que nos cumulou carinhosamente nosso DEUS. Computai todos os favores que dele tendes recebido, os bens da natureza e da graça, o corpo, a alma, os sentidos, as faculdades, a saúde, a vida. Como poderemos agradecer-Lhe suficientemente?”

“Nossa miséria é tão grande que não temos sequer o meio de satisfazer pelos menores benefícios recebidos de DEUS. Pois o menor de todos, provindo das mãos de tão grande Rei e acompanhado dum amor infinito, adquire um preço infinito e nos obriga a um reconhecimento também infinito. Infelizes que somos! Se não podemos suportar o peso de um só benefício, como poderemos arcar com o fardo de graças inumeráveis?”

“Consolai-vos, pois o meio de dar ações de graças suficientes ao boníssimo DEUS nos é ensinado pelo rei Davi, que, contemplando com espírito profético o divino sacrifício, confessava que só ele bastava para dar a DEUS ações de graças adequadas. Perguntava: ‘Que retribuirei ao Senhor por todos os benefícios que me tem feito?’”

“E responde: ‘Oferecer-Lhe-ei um sacrifício que será infinitamente agradável, e com o qual, somente, satisfarei a minha dívida por tantos e tão grandes benefícios.’ Este Sacrifício foi instituído pelo nosso Redentor, principalmente para este fim, quero dizer, para reconhecer a divina munificência e agradecer-Lhe, e por isso chama-se Eucaristia por excelência, o que significa ‘ação de graças’.”

“E vós, que fazeis? Abristes enfim os olhos para reconhecer tão preciosíssimo tesouro?”

São Leonardo comenta em seguida a quarta finalidade: PELA SANTA MISSA PODEMOS OBTER TODAS AS GRAÇAS QUE NECESSITAMOS.

Explica ele:

“Já sabeis quão grandes são vossas misérias, tanto de corpo como de alma, e por consequência, a necessidade que tendes de recorrer a DEUS, a fim de que a todo momento Ele vos assista e vos socorra, pois só Ele é o autor e o princípio de todos os nossos bens temporais e eternos.”

“Mas, doutra parte, ousaríeis pedir-Lhe novos benefícios, vendo a suprema ingratidão com que tendes correspondido às suas graças anteriores? Todavia, tende confiança; pois se não mereceis essas graças, JESUS mereceu-as por vós, e para este fim.”

“Na Santa Missa, nosso adorável JESUS, o primeiro e Sumo Pontífice, recomenda a Seu PAI a nossa causa, intercede por nós constituindo-se nosso amoroso advogado. Oh! Que riquezas de graças, bênçãos, virtudes e de socorros nos obtém a Santa Missa! Em primeiro lugar, ela nos alcança todas as graças espirituais e os bens que se relacionam com a alma, como a contrição por nossos pecados, a vitória sobre as tentações, sejam vindas de fora, das más companhias e do demônio, sejam produzidas no interior pelas revoltas da carne.”

“Além disso, a Santa Missa nos obtém todos os bens temporais, contanto que concorram à salvação da alma, por exemplo, a saúde, a abundância, a paz, e nos preserva dos males que se lhe opõem, como seja: epidemias, terremotos, guerras, fomes, perseguições, processos, inimizades, miséria, calúnias e injustiças.”

“E vós, por que não despertais, por que não pedis graças importantes? Se quiserdes confirmação, pedis a DEUS em cada Santa Missa, que faça de vós um grande santo.”

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Rezemos a Deus, hoje e em cada Santa Missa, para que nos faça grandes santos no céu. E peçamos que a Virgem Maria interceda por nós e por nossas necessidades.

Amém.

***

A Origem da Canção ‘Noite Feliz’

Autor: John Horvat II
Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

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A música ‘Noite Feliz’ é, de longe, a mais simbólica das cantigas de Natal. É compreensível, assim, que fiquemos a refletir sobre a origem de canção tão extraordinária. Para contar a história de suas origens, precisamos voltar à côrte de Frederico Guilherme da Prússia, o quarto rei com esse nome, logo após sua ascensão ao trono em 1840.

Era véspera de Natal. Em Berlim, o rei e seus cortesãos comemoravam o nascimento de Cristo. O coro da catedral, regido por Felix Mendelsohn, executava uma das peças de seu repertório. A música era ‘Noite Feliz’. O rei ficou bem impressionado pela bela canção e imaginou quem seria o autor. Examinou o programa com a lista de hinos sendo cantados e ficou surpreso ao saber que o autor era desconhecido. O rei da Prússia não podia permitir tal imprecisão.

Imediatamente, assim, após a cerimônia, ele fez o maestro vir vê-lo. Mendelsohn, porém, não foi capaz de iluminar em nada o assunto. Ele então chamou o chefe dos concertos reais, Ludovico, cuja reputação era a de descobridor da origem de canções desconhecidas. Mas, para frustração de Frederico Guilherme, ele também não sabia de nada. O rei então ordenou que Ludovico se virasse para descobrir, porque os livros de hinos da Prússia não podiam ficar em desordem!

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Agora que a sua reputação estava em jogo, Ludovico não tinha escolha senão descobrir quem era o compositor da canção. Escarafunchou as bibliotecas, cidades, principados e reinos daquelas terras que eram a Alemanha de então. Nada encontrou, porém.

Já tinham começado a chamar Ludovico de ‘o caçador de canções’, quando ele reparou no estilo da música, que parecia austríaca. Foi para Viena, mas novamente deu com os burros n’água. Então um velho músico dos tempos de Haydn lhe deu uma dica. Michael Haydn, o irmão do músico famoso, compôs muitas obras que se tinham perdido. “Talvez essa canção de Natal seja uma daquelas?” sugeriu o velho. Era um tiro no escuro, e Ludovico não se sentiu encorajado pela dica. Desistiu da busca e decidiu retornar à côrte.

Na viagem de volta, enquanto descansava em uma hospedaria, ouviu um passarinho em uma gaiola a cantar uma música familiar. Deu um pulo de tão surpreso. Ludovico percebeu que o pássaro cantava aquela música de Natal misteriosa cujo autor ele procurava; estava cantando ‘Noite Feliz!’

“Que foi?” perguntou o estalajadeiro.

“Este pássaro,” respondeu Ludovico. “Quem ensinou esta canção ao pássaro?”

O estalajadeiro não sabia. Mas acrescentou que um amigo tinha comprado o bicho na abadia de Salzburgo, e deixado ali na pousada para diversão dos hóspedes.

A Abadia de Salzburgo! Ludovico se sentiu de repente como aquele caçador que, depois de muitas buscas infrutíferas, encontra alguns rastros frescos na neve. A pista tinha esquentado de novo! Ele sabia que Michael Haydn tinha morado naquela abadia por muitos anos. Era quase certo que a canção era de Michael Haydn. Ludovico não perdeu tempo: mudou os planos de viagem e partiu para a abadia.

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Quando chegou, o chefe dos concertos reais da côrte prussiana foi recebido com todas as honrarias que seu posto merecia. O abade e os monges lhe ofereceram um bom jantar e confortáveis acomodações. Infelizmente, porém, ninguém sabia de onde a canção tinha vindo. Também não acreditavam que o autor fosse Michael Haydn.

Quando o ‘caçador de canções’ lhes contou a respeito do pássaro na gaiola, sugerindo que os monges tinham-lhe ensinado a cantar a música, o abade se mostrou ofendido, já que tais caprichos eram proibidos no mosteiro.

Ludovico examinou, então, todos os manuscritos que havia na cela onde Michael Haydn antigamente trabalhara. E, exatamente como os monges haviam previsto, não encontrou nada. A pista tinha esfriado de novo. Desanimado, Ludovico decidiu retomar sua jornada de volta à côrte prussiana.

Entretanto, por acaso, dentre aqueles que estavam presentes ao jantar oferecido pelo abade, havia um professor chamado Ambrósio Prestainer, que ficou particularmente interessado na estória do pássaro.

“Isto pode ser obra de algum dos meninos do coral da abadia”, matutou ele.

Então, já que o professor conseguia imitar com perfeição o passarinho, ele decidiu tentar um truque para ver se descobria quem havia ensinado esta canção ao animal. Alguns dias depois, ele se ajeitou em uma janela que dava para o pátio interno da escola. E assobiou, imitando o pássaro a cantar ‘Noite Feliz’.

O ardil deu certo, pois logo ele ouviu a voz de um menino: “Ah, passarinho, você voltou!” E um garoto de nove anos de idade veio correndo, saindo da aula. Mas quão surpreso o menino ficou ao ver que tinha caído em uma armadilha!

“Como se chama?”, perguntou o professor.

“Felix Gruber,” respondeu o garoto.

“Muito bem. Diga-me, Felix: onde você aprendeu essa música?”

“Meu pai me ensinou.”

“E de onde ele a tirou?”

“Ele a compôs, senhor.”

Prestainer, sem perder um minuto, foi até a casa do menino em uma vila próxima. Lá ele conheceu o professor de uma escola local, Franz Gruber, que confirmou ter de fato composto a música. Mas a letra, ele disse, tinha sido escrita pelo seu amigo Josef Mohr, que fora pároco na vila de Bagran, e que tinha morrido não fazia muito tempo.

Mal podendo conter a alegria por finalmente ter achado a origem da canção, Prestainer escreveu a Ludovico, “O Caçador de Canções”, contando que sua missão de busca das origens da música tinha acabado. Enviou a Ludovico um relato completo de como a canção surgiu. O relato foi assim:

É véspera de Natal, e a torre da pequena igreja da vila domina as casas cobertas pela neve, como uma galinha que protege seus pintinhos. No presbitério, o jovem Padre Josef Mohr, com 26 anos, se prepara para as cerimônias daquela noite relendo o Evangelho, quando uma batida na porta rompe o silêncio. É uma camponesa que pede ao pároco ajuda para um bebê que acabara de nascer.

Sem demora, o padre deixa o conforto da casa e, depois de uma íngreme subida pela montanha, chega a um casebre humilde onde estava a criança recém-nascida. Ao retornar, as estrelas brilham no céu e o branco da neve reflete sua luz.

Ele começa a refletir sobre a cena que acabara de testemunhar. A criança, o casal de camponeses, o casebre, tudo causou-lhe impressão. Lembravam uma outra criança, um outro casal, uma outra moradia rústica em Belém de Judá.

Após a Missa do Galo, o padre Mohr não consegue dormir. Toma uma caneta e uma folha de papel, e começa a escrever um poema que se tornaria a letra da canção ‘Noite Feliz’.

Na manhã seguinte, o Natal de 1818, o piedoso sacerdote vai atrás de um amigo chamado Franz Gruber, então com 31 anos. Depois de ler o poema, Gruber exclama:

“Padre, era exatamente essa a canção de Natal que eu procurava! Louvado seja Deus!” E naquele mesmo dia ele compôs a música que acompanha a letra.

E assim, dessa maneira singela, imitando os acontecimentos de Belém, nasceu a mais popular e bela canção de Natal de todos os tempos.

FIM.


Traduzido do original em inglês, publicado em dezembro/2016 no site http://www.returntoorder.org/

A Consagração: Última Ceia e Calvário

Autor: Padre Ladis J. Cizik[*]
Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

In Nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti. Amen.

“Ceia do Senhor” é uma expressão bíblica que foi adotada durante a ‘de’-formação protestante da Igreja, com o objetivo de negar a natureza de sacrifício da Missa, e trocá-la por um simples “memorial”. Protestantes e modernistas[1] se esforçam por separar o sacrifício no Calvário, centrado em Cristo, do santo sacrifício da Missa, transformando um evento solene em um “lanche feliz” centrado na comunidade. Entretanto, tanto as sagradas Escrituras quanto a sagrada Tradição afirmam que o Calvário estava onipresente já na primeira Missa oferecida na história. Aquela primeira Missa no Cenáculo foi a última ceia na qual Nosso Senhor e Deus, Jesus Cristo, antecipou Sua morte salvadora no Calvário.

santa ceia

A última ceia, a primeira Missa, não foi uma “refeição memorial” em consideração ao fato de que Cristo ainda não havia morrido na cruz. A última ceia apresenta uma espécie de catequese sobre a presença real de Cristo no Santíssimo Sacramento, a instituição da ordenação sacerdotal e a natureza de sacrifício da Missa. As orações da Consagração no Missal Romano tradicional (Missale Romanum) evocam a morte-sacrifício de Nosso Senhor no Calvário dentro do contexto das palavras e ações de Jesus na última ceia. Na pessoa de Cristo (in persona Christi), o sacerdote católico segue as palavras e gestos de Jesus na última ceia, consagrando e transformando pão e vinho no corpo, sangue, alma e divindade da segunda pessoa da Santíssima Trindade.

Pelo uso de “matéria e forma” apropriadas, as mesmas matéria e forma que Jesus usou na última ceia, e com a “intenção” adequada do sacerdote, o milagre da transubstanciação acontece. Assim, o Rito Romano da Igreja Católica prescreve que a “matéria” adequada à Eucaristia precisa ser o pão ázimo[2] e o vinho de uva natural. Pão ázimo é aquele que Jesus teria usado em Sua última ceia de Páscoa. O Antigo Testamento nos conta que o povo judeu só deveria comer pão ázimo todos os anos durante a Páscoa, como forma de comemorar seu êxodo do cativeiro egípcio[3]. De modo similar, o pão sem fermento que Jesus teria usado na última ceia pascal representaria o êxodo do pecado e da morte, que ocorreu para Seus seguidores após Sua morte salvífica e gloriosa ressurreição. Note que o fermento na bíblia é quase sempre símbolo do pecado[4]. Um pecado grave é o que ocorre quando o pão fermentado é introduzido na Missa católica de rito romano – embora o Concílio de Florença (século 15) confirme o entendimento corrente de que tal Missa ilícita continua sendo válida.

A “forma” apropriada para transformar pão e vinho em corpo e sangue de Cristo são as “palavras da consagração” (também chamadas palavras da instituição). Estas palavras sagradas são o centro espiritual e pináculo da Missa. O coração da Missa é a consagração. O Dr. Nicholas Gihr declara em sua obra clássica, O Santo Sacrifício da Missa: “O momento da consagração é o momento mais importante e solene, o fruto mais sublime e santo de toda a celebração do Sacrifício; pois neste momento é completada aquela obra gloriosa e inapreensivelmente profunda, o Sacrifício Eucarístico, no qual todas as maravilhas do amor de Deus estão concentradas como em um foco de calor e luz. A mudança de pão e vinho no corpo e sangue de Cristo só pode provir dEle, pois ‘só Ele operou maravilhosos prodígios’: é um ato de onipotência criativa. Mas este ato de supremo poder requer um ato humano, um cooperação humana da parte do sacerdote ordenado.”[5] Para uma Missa ser válida, o sacerdote ordenado validamente deve ter a “intenção” de transformar pão e vinho no corpo e sangue de Cristo. São Tomás de Aquino afirma: “a intenção [do sacerdote] é exigida; por meio dela ele se sujeita ao agente principal; ou seja, é necessário que ele tenha a intenção de fazer o que Cristo e a Igreja fazem.”[6]

Imediatamente antes das palavras da consagração vem a oração Qui pridie. O sacerdote nos leva misticamente à “véspera de sua paixão”, quando Jesus tomou o pão em Suas santas e veneráveis mãos (sanctas, ac venerabiles manus suas). Neste instante, o sacerdote já passou seus “dedos canônicos” (polegares e indicadores) no corporal para melhor purificá-los antes de segurar a hóstia com estes quatro dedos apenas. Ao pronunciar elevatis oculis in caelum, o sacerdote, in persona Christi, eleva os olhos para o céu em direção a Deus, o Pai todo-poderoso, dá-Lhe graças (com uma inclinação da cabeça) e abençoa (benedixit) a hóstia. O sacerdote relembra então Jesus partindo o pão e dando-o aos discípulos, enquanto dá voz às palavras de Nosso Senhor: tomai e comei dele, todos (Accipite, et manducate ex hoc omnes).

Observe que o sacerdote não está apenas lendo uma narrativa de um evento do passado; ele está ‘re’-presentando, in persona Christi, o evento por meio das palavras e ações simultâneas do próprio Jesus Cristo. Cristo não está lendo uma “narrativa da instituição” no pretérito. O Cristo-sacerdote não está meramente repetindo as palavras de uma antiga história de uma refeição que está “feita e encerrada”. Cristo está agindo no presente através do sacerdote. É por isso que dizemos que o santo sacrifício da Missa é a ‘re’-presentação incruenta do sacrifício de Cristo no calvário.

Profundamente reclinado sobre o corporal, com os antebraços apoiados na borda do altar (significando sua união com Cristo representado pelo altar), segurando a hóstia com os dedos canônicos de ambas as mãos, o sacerdote pronuncia as palavras da consagração sobre o pão. No missal da Missa Tridentina, as palavras da consagração são impressas com uma letra de tamanho duplo em relação ao resto do texto, e em negrito, para que se destaquem. O sacerdote, com os olhos postos na hóstia, deve dar voz às palavras de Cristo de maneira clara e atenta, sem pausas e num sussurro:

HOC EST ENIM CORPUS MEUM.

Tradução: “Pois isto é o meu corpo.” A hóstia agora É a presença real de Cristo na Eucaristia: Seu corpo, sangue, alma e divindade. Note que, assim como a carne humana contém sangue, também a Igreja ensina que o corpo e o sangue de Jesus Cristo estão presentes em cada espécie eucarística. Ninguém precisa “beber do cálice”, como dizem na Missa Novus Ordo, para receber o precioso sangue de Cristo. Jesus está completo e inteiro na hóstia consagrada. Isto corrobora a prática da Missa Tridentina, na qual a Santa Comunhão é distribuída apenas sob a aparência do pão. As palavras “isto é o meu corpo” aparecem nos quatro relatos bíblicos da Última Ceia[7]. A palavra “pois” não aparece nos relatos bíblicos, mas é considerada como sendo parte da Sagrada Tradição, como uma palavra que o Senhor teria dito.

Note que, depois de consagrar a Sagrada Hóstia, o sacerdote não separará mais seus polegares e indicadores, exceto para segurar o Santíssimo Sacramento, até que eles estejam “purificados” após a santa comunhão. Isto para assegurar que toda partícula da hóstia restante nos dedos seja consumida de maneira reverente durante as abluções. Além do mais, deste momento em diante, o sacerdote fará uma genuflexão honrosa antes e depois de cada toque que fizer na Sagrada Hóstia.

Depois da consagração da hóstia sagrada, o sacerdote segue para a oração simili modo, não sem antes retirar a pala do cálice. A oração inicia seguindo as ações e palavras de Jesus na Última Ceia: do mesmo modo (simili modo), depois da ceia, Ele tomou também o precioso cálice em Suas santas e veneráveis mãos (aqui o sacerdote eleva o cálice ligeiramente acima do corporal com ambas as mãos), deu graças ao Pai (inclinando a cabeça), abençoou-o (o sacerdote faz o sinal da cruz sobre o cálice) e deu-o a Seus discípulos dizendo: tomai e bebei dele todos vós (Accipite, et bibite ex eo omnes). Segurando o cálice nas mãos, um pouco acima do corporal, profundamente inclinado sobre o altar com os antebraços na borda (significando sua união com Cristo, representado pelo altar), o sacerdote dá voz às palavras de Cristo sobre o vinho, de maneira clara e atenta, e num sussurro:

HIC EST ENIM CALIX SANGUINIS MEI, NOVI ET AETERNI TESTAMENTI: MYSTERIUM FIDEI: QUI PRO VOBIS ET PRO MULTIS EFFUNDETUR IN REMISSIONEM PECCATORUM.

Tradução: “Pois este é o cálice do meu sangue, sangue do novo e eterno testamento (mistério da fé), o qual será derramado por vós e por muitos para remissão dos pecados.” Com relação às palavras “pois este é o cálice do meu sangue”, Gihr opina: “De acordo com a opinião geral, estas palavras e somente elas constituem a fórmula essencial da consagração do cálice; pois elas significam e tornam realidade a presença do sangue de Cristo sob a aparência do vinho.”[8] E continua dizendo: “As palavras seguintes… são acrescentadas por serem apropriadas. É aceitação comum que elas foram ditas alguma vez pelo próprio Senhor; além do mais, elas explicam a dignidade e os efeitos deste Sacrifício.”

Todas as outras palavras da consagração do vinho podem ser encontradas em um ou mais relatos da Última Ceia, exceto por “eterno” e “mistério da fé”. Estas palavras que não estão na Bíblia, incluindo “pois” (já mencionada acima na consagração do pão), têm origem na outra fonte da verdade católica: a Tradição Sagrada, tão válida quanto a Sagrada Escritura. Lembre que o santo sacrifício da Missa era celebrado pelos apóstolos antes mesmo da Igreja Católica elaborar a seção do Novo Testamento da Bíblia. Em especial, o papa Leão IX declarou que as palavras mysterium fidei (mistério da fé) são uma “tradição transmitida por São Pedro, o autor da liturgia romana.” De fato, São Pedro, o primeiro papa, escutou Nosso Senhor falar na Última Ceia e presidiu em Roma, onde morreu e está sepultado. As palavras “novo e eterno testamento” (ou seja: nova e eterna aliança) são essenciais ao entendimento católico de que a Nova Aliança, selada pelo sangue de Cristo, aboliu completamente e para sempre a Antiga Aliança, a qual existia para durar apenas temporariamente até a vinda do Messias, nosso Senhor e nosso Deus, Jesus Cristo[9].

As palavras da consagração incluem: qui pro vobis et pro multis effundetur in remissionem peccatorum (o qual será derramado por vós e por muitos para remissão dos pecados). Embora estas palavras nunca tenham mudado na Missa Tridentina, é incrível que as palavras pro multis tenham sido traduzidas incorretamente e de propósito quando da introdução da Missa Novus Ordo na língua inglesa[10], passando a ser lidas como “por todos” (pro omnibus). Mudar as palavras de Cristo foi um insulto feito para apoiar o pensamento modernista e herético de que TODOS são salvos; e para reforçar a heresia do indiferentismo religioso, o qual alega que não importa a religião – ou a falta dela – que o sujeito professa, já que todo mundo vai para o céu. Os estudos feitos levaram muitos a crer que a tradução errada e proposital invalidava a Missa Novus Ordo. Após quarenta longos anos de confusão, escândalo e profunda angústia, a tradução inglesa voltou ao correto “por muitos” (pro multis), por ordem do papa Bento XVI[11]. Isto é um exemplo de como a Missa Tridentina serve de guardiã da fé: pelo Cânon estar livre de erros[12], pelo Cânon nunca ter sido alterado, e pelo Missale Romanum tradicional estar somente em latim.

Note que effundetur in remissionem peccatorum é assim compreendido: o sangue de Cristo foi derramado pela remissão dos pecados: todos os pecados desde o pecado original de Adão e Eva; e todos os outros pecados passados, presentes e futuros. Entretanto, “nem todos recebem o benefício de Sua morte, mas apenas aqueles aos quais o mérito de Sua paixão é comunicado.”[13] Sendo assim, nem todo mundo é salvo: “Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado”[14]; “em nenhum outro há salvação, porque debaixo do céu nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual devamos ser salvos”[15]; “trabalhai na vossa salvação com temor e tremor”[16]; além disto, existe aquele pecado mortal do qual a pessoa não se arrepende e não pede perdão, e que pode levá-la à danação eterna[17]. Note ainda que o “mérito de Sua paixão é comunicado” pelo santo sacrifício da Missa: “Em virtude deste sacrifício, os méritos infinitos de Cristo, obtidos por Seu precioso sangue derramado de uma vez [por todas] na cruz pela salvação dos homens, são aplicados às nossas almas.”[18]

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É importante observar que imediatamente após as palavras da consagração, primeiro sobre o pão, e depois sobre o vinho, em ambos os casos o sacerdote faz a genuflexão (e a sineta soa) antes de levantar as sagradas espécies. Isto colabora para assegurar o entendimento católico de que o milagre da transubstanciação, o qual acaba de acontecer, nada tem a ver com o testemunho da assembléia. Portanto, quando da elevação da hóstia ou cálice para adoração dos fiéis, a sineta toca pela segunda vez, e não pela primeira. Depois de voltar as espécies sagradas sobre o altar, o sacerdote faz nova genuflexão e a sineta toca pela terceira vez – simbolizando a Santíssima Trindade. Em relação ao precioso sangue, neste momento o cálice é coberto com a pala, o que o protege da profanação por insetos e outros elementos estranhos.

Uma nota pessoal sobre as palavras da instituição: quando eu fui empossado como capelão de um instituto público para retardados mentais, duas unidades (das muitas que havia) continham residentes com deficiências severas (físicas e mentais) e que não podiam falar. Em geral eles passavam o dia fazendo ruídos vocais, exceto quando as palavras da consagração eram pronunciadas na Missa e as elevações aconteciam – então havia um completo e incomum silêncio na capela. Eles sabiam! Suas mentes inocentes sentiam que a presença real de Cristo havia entrado ali no local. Em outra unidade com deficiências menos graves, onde a idade mental não passava de quatro anos, havia um menino chamado Joey que gritava durante a elevação da Hóstia sagrada: “Meu Senhor e meu Deus!” E Jesus disse: “Da boca dos meninos e das crianças de peito tirastes o vosso louvor.”[19] O papa São Pio X, com efeito, emitiu uma indulgência de sete anos para todos aqueles que, ao fixarem o olhar sobre a hóstia sagrada sendo elevada durante a Missa, exclamarem com fé e devoção: “Meu Senhor e meu Deus!” No instante da elevação do precioso sangue, o melhor amigo de Joey, Butchie, se unia a ele dizendo: “Meu Jesus, misericórdia!”

Imediatamente após a consagração do precioso sangue, o sacerdote reza: Haec quotiescumque feceritis, in mei memoriam facietis (Todas as vezes que isto fizerdes, fazei-o em memória de mim). A Igreja sempre ensinou que este momento foi a instituição do sacramento das Ordens Sagradas. A Última Ceia na quinta-feira santa foi também a instituição do sacramento da Eucaristia; foi a primeira Missa. A Última Ceia foi coisa seria. Foi uma antecipação sombria do Calvário, e não uma “celebração alegre.” Na Última Ceia o milagre da transubstanciação aconteceu pela primeira vez: Nosso Senhor e Deus, Jesus Cristo, como Sumo-Sacerdote eterno, transformou pão e vinho em Seu corpo, sangue, alma e divindade.

Na Última Ceia, Cristo deixava para a Igreja também Sua vontade e Seu testamento: “Fazei-o em memória de mim.” Com esta oração Haec quotiescumque, Jesus ordenou que os apóstolos e seus sucessores no sacerdócio oferecessem a Santa Missa, e continuassem assim a oferecer o sacrifício a Deus Todo-poderoso, trazendo Sua presença real ao mundo, para adoração e para servir como alimento espiritual. Cristo não ordenou aos sacerdotes que presidissem uma “refeição comunitária.” Cristo, na Última Ceia, mandou que os sacerdotes fizesse aquilo que só eles podem fazer: oferecer o sacrifício de Deus-Filho no calvário a Deus-Pai Todo-poderoso. O padre John Hardon, em seu Dicionário Católico, define assim o sacerdote: “Um mediador autorizado, que oferece o verdadeiro sacrifício em reconhecimento do supremo domínio de Deus sobre os seres humanos, e em expiação por seus pecados.” O sacerdote é ordenado para oferecer o sacrifício, e não para preparar refeições. Ao longo de toda a Bíblia e tradição da Igreja, Deus exige sacrifícios, e não refeições. Enquanto que todos os católicos são obrigados a ir à Missa dominical para prestar culto a Deus no sacrifício, nem todos estão em estado de graça para receber a santa Comunhão.

As duas consagrações separadas, primeiro do corpo e depois do sangue de Jesus na Última Ceia e na Missa, significam ‘misticamente’ a morte do Senhor no calvário. Na Última Ceia, Jesus antecipou Seu sacrifício no calvário. Naquela primeira Sexta-Feira Santa, no calvário, a separação violenta entre Seu precioso sangue e Seu corpo causou uma verdadeira separação entre Sua alma humana e Seu corpo, o que provocou Sua morte. No Santo Sacrifício da Missa, a Sua morte histórica na cruz é recordada e expressa pela dupla consagração, que é a separação mística entre o precioso sangue e o corpo sagrado de Cristo. Jesus morre misticamente a cada Missa oferecida. Entretanto, lembre que, após Sua gloriosa ressurreição, o corpo, o sangue, a alma e a divindade de Cristo não podem na realidade ser jamais separados novamente. A separação na Missa é mística, embora o sacrifício seja real. Cristo não pode morrer de novo. Assim sendo, o Senhor eucarístico está verdadeiramente presente no altar em estado vivo e glorioso, do mesmo jeito que está no céu; e Seu corpo vivo, Seu sangue vivo, Sua alma viva e Sua divindade viva estão presentes nas duas espécies, o tempo todo, imediatamente após as consagrações.

Concluindo: a Última Ceia e o calvário estão intimamente ligados. Como última reflexão, considere uma possível conexão entre a Última Ceia e o calvário que se crê ser do tempo de Cristo, e que ainda não tem explicação segundo a ciência moderna: é o sudário que São Pedro e São João contemplaram no túmulo vazio, e o qual é muito provavelmente o Sudário de Turim, atualmente guardado na capela real da catedral de São João Batista em Turim, na Itália. Muitos, incluindo este escriba, acreditam que o Sudário é a longa mortalha de Cristo, que cobriu todo o corpo de Nosso Senhor. Este Sudário contém imagens notáveis e inexplicáveis, bem como manchas de sangue, de um homem crucificado e coroado de espinhos. O curioso é que, além das manchas de sangue, há também manchas de vinho.

Alguns estudos conectando José de Arimatéia ao Cenáculo e ao sepultamento de Cristo, junto com as manchas de vinho que foram encontradas, dão credibilidade a uma possibilidade impressionante: a de que a toalha de mesa usada para a primeira Missa na Última Ceia seja o próprio Sudário de Turim presente no calvário. A teoria é que, na Sexta-Feira Santa, as lojas que vendiam as grosseiras mortalhas, tecidas com ligação simples 1×1, estariam fechadas para a Páscoa, forçando José de Arimatéia a usar a toalha de mesa da Última Ceia, tecida com ligação mais sofisticada 3×1, como mortalha. Além disto, acredita-se que o Cenáculo, parte de uma sinagoga liderada por José de Arimatéia, e local da Última Ceia, foi construída sobre o túmulo do rei Davi. Seria maravilhosamente apropriado que Nosso Senhor Jesus, o Rei dos Reis, o “Filho de Davi”, oferecesse a primeira Missa sobre o celebrado túmulo do rei Davi; além de aparecer ali depois da Ressurreição no domingo de Páscoa. E que coisa interessante: a conexão católica entre a Última Ceia e o Calvário, que protestantes e modernistas negam, parece ser confirmada em nosso tempo pelo Deus Todo-poderoso através do Santo Sudário de Turim. Deus escreve certo por linhas tortas. Ele deixa a nós, pela fé, a tarefa de conectar os pontos.

In Nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti. Amen.


[*] Traduzido do original em inglês, publicado no jornal católico americano The Remnant, edição de 23 de março de 2016.

[1] Ver a encíclica Pascendi Dominici Gregis (39), na qual o papa São Pio X define o modernismo como “a síntese de todas as heresias.”

[2] Pão de trigo, sem fermento.

[3] Dt 16,3.

[4] Lc 12,1.

[5] The Holy Sacrifice of the Mass, páginas 666-667.

[6] Suma Teológica, parte III, q64, a8.

[7] Mt 26,26-28; Mc 14,22-24; Lc 22,19-20; e 1 Cor 11,24-25.

[8] Página 675.

[9] Denzinger 712; Ex Quo 61; Mystici Corporis 29 e 31.

[10] N.T.: Idem para a língua portuguesa.

[11] N.T.: A tradução portuguesa, na Missa Novus Ordo, continua errada.

[12] Trento: seção XXII, capítulo IV.

[13] Trento: seção VI, primeiro decreto, capítulo III.

[14] Mc 16,16.

[15] Atos 4,12.

[16] Fl 2,12.

[17] Denzinger, 1002; Catecismo da Igreja Católica, 1035.

[18] Papa Leão XIII, Carta Encíclica “Caritatis Studium”, 9.

[19] Mt 21,16.