A Falência do Multiculturalismo

Publicado originalmente em inglês no jornal americano Conservative Chronicle (http://www.conservativechronicle.com/), em 17/fevereiro/2016.

Autor: Cal Thomas

Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

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Do mesmo modo que os radares alertam para tempestades que se aproximam, o fluxo de migrantes entrando na Europa alerta-nos para um dilúvio vindouro, não somente para os europeus, se continuarem permitindo a imigração irrestrita, mas para os Estados Unidos.

Os relatos de que mulheres em Colônia, na Alemanha, foram apalpadas e roubadas por homens descritos pelas autoridades como tendo aparência de “norte-africanos ou árabes” deveria ser aviso suficiente, mas há outros e mais nefastos avisos que sugerem que o pior ainda está por vir, a menos que o problema receba atenção e reação imediatas. E não é apenas Colônia.

O INSTITUTO GATESTONE, um “think-tank” de política internacional, não partidário, sem fins lucrativos, tem em mãos um chamado “documento vazado da inteligência alemã”. Diz esse documento: “estamos importando o extremismo islâmico, o anti-semitismo árabe, os conflitos nacionais e étnicos de outros povos, bem como uma compreensão diferente da sociedade e da lei.”

Em outubro último, relata o Gatestone, Andrew Parker, diretor geral do Serviço de Segurança britânico, afirmou que “a escala e o andamento do perigo para o Reino Unido estão agora num nível que ele nunca viu em sua carreira de 32 anos. A polícia britânica monitora mais de 3000 extremistas islâmicos, criados na Inglaterra, dispostos a perpetrar ataques no Reino Unido”.

Na quarta-feira [10/fev], o presidente Obama visitou uma mesquita em Baltimore. De acordo com o Daily Caller, a mesquita “tem ligações profundas com elementos extremistas, incluindo a Irmandade Muçulmana.” Essa mesquita não é a única, como um mapa no web site do jornal revela.

Ao explicar a visita do presidente, o porta-voz da Casa Branca Keith Maley disse: “o presidente acredita que uma das maiores forças de nossa nação é nossa grande diversidade.”

Duvido que os terroristas acreditem nisso. Eu não acredito que a diversidade, como praticada nos EUA, exista em qualquer país de maioria muçulmana.

Benedicte Bjornland, chefe do Serviço de Segurança da Polícia norueguesa, recentemente alertou contra mais imigração muçulmana. Quando políticos americanos sugerem o mesmo, são denunciados como “preconceituosos” e “islamofóbicos”, mas na Noruega e na Suécia, dois dos países mais liberais na Europa a acolher imigrantes islâmicos, essas acusações dificilmente pegam.

O QUE ESTAMOS testemunhando são os completos colapso e falência do multiculturalismo. O dictionary.com define o multiculturalismo como “a preservação de diferentes culturas ou identidades culturais dentro de uma sociedade unificada, como um Estado ou uma Nação.”

Essa definição contém uma flagrante contradição. Uma sociedade não pode ser unificada se preserva diferentes culturas e identidades culturais dentro dela mesma. É por isso que nosso lema nacional é traduzido como “de muitos, um”. Para o multiculturalista, parece ser “de um, muitos”.

A história demonstra que nenhuma nação pode sobreviver por muito tempo se ela esquece porque existe. Nosso insucesso em inculcar as tradições, crenças e história americanas, mesmo nos nascidos aqui, para não falar nos imigrantes, está destruindo rapidamente o país legado a nos por nossos ancestrais.

Os esquerdistas da Europa e dos EUA promoveram o multiculturalismo, acreditando que, uma vez que os muçulmanos experimentem nossas liberdades e dedicação à igualdade, eles quererão ser como nós. Não parece estar funcionando, e qualquer pessoa acostumada com o Corão e suas instruções para o “reino deste mundo” sabe que provavelmente não vai funcionar.

Os líderes europeus, de Angela Merkel da Alemanha ao primeiro-ministro sueco Stefan Lofven, fecharam deliberadamente os olhos ao que se desenrola em seus países e em outros.

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O presidente Obama está fazendo o mesmo com sua viagem à mesquita de Baltimore. Nossos inimigos vêem nossa fraqueza e insucesso na compreensão de seus objetivos, que incluem destruir o ocidente e estabelecer um califado global. Isso não é informação ultra-secreta. Claro que nem todos os muçulmanos são terroristas, mas um grande número de islâmicos radicais professam lealdade à fé, e eles estão mais que dispostos a causar grandes danos em vista de seus objetivos.

UM PROVÉRBIO antigo nos lembra: “O pior cego é aquele que não quer ver.”

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O plano B de Deus

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Ninguém pode negar completamente a origem divina do Islã. Está lá nas Sagradas Escrituras, na história de Agar e seu filho Ismael, prestes a morrer de sede no deserto. Deus ouve o choro de Agar e responde (Gn 21,17-18):

Que tens, Agar? Nada temas, porque Deus ouviu a voz do menino do lugar onde está. Levanta-te, toma o menino e tem-no pela mão, porque farei dele uma grande nação.

Como os árabes são descendentes de Ismael, a grande nação é o povo islâmico. Mas esse é, como diz Olavo de Carvalho, “o plano B de Deus”.

O plano A é o cristianismo, a religião do manso e pacífico Cordeiro. Se ninguém mais quiser isso, então o plano B será o “jumento bravo” de Gn 16,12:

Estás grávida, e vais dar à luz um filho: dar-te-ás o nome de Ismael, porque o Senhor te ouviu na tua aflição. Este menino será como um jumento bravo: sua mão se levantará contra todos e a mão de todos contra ele, e levantará sua tenda defronte de todos os seus irmãos.

A história de milênios já demonstrou que só existe ordem possível em torno de uma religião. Sem religião é caos. Então, ou é a religião do Verbo Encarnado ou é a religião do pé na bunda.

 

Cuidado com dois perversos roteiros para os deprimidos

Artigo publicado originalmente em inglês, em fevereiro de 2016, no jornal conservador americano Conservative Chronicle (www.conservativechronicle.com)

Autor: Marvin Olasky

Tradução: André Carezia

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“A terra em que vivemos é um globo girante. Embora pareça gigante para nós, é meramente uma partícula de matéria em uma enorme vastidão de espaço.” Esse é o início de The Outline of History, de H. G. Wells, publicado em 1920; é uma história do mundo que ajudou a me inclinar na direção do ateísmo e do socialismo quando eu era adolescente.

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“Um Animal sem Significado”. Noventa e cinco anos mais tarde, esse é o título do capítulo 1 de Sapiens: A Brief History of Humankind, de Yuval Noah Harari, que muitos críticos aplaudiram em 2015. O ano passado foi bem-sucedido para o professor israelense, um ateu que aderiu ao que o Guardian chamou de “TED-cracia global: astros acadêmicos que viajam o mundo dando palestras sobre tópicos da moda.”

EM CERTO SENTIDO, é estranho que Harari seja popular. Afinal, ele insiste que “a vida humana não tem absolutamente nenhum significado. Seres humanos são produtos de processos evolucionários cegos que operam sem objetivo ou propósito. Nossas ações não são parte de algum plano cósmico divino… Qualquer significado que as pessoas atribuam às suas vidas é apenas ilusão.”

Essas cutucadas de Harari soam como sadismo intelectual, e quem além de um masoquista iria querer comprar um livro que berra “você é um idiota”? Ah, mas Harari abre uma pequena e crucial exceção à sua alegação de que o homo sapiens é na verdade Homer Sapiens, mais simplório ainda do que Homer Simpson: Harari diz que “devemos conhecer as pessoas no Google, no Facebook, elas têm visões maravilhosas do futuro, sobre superar a morte, vivendo eternamente, fundindo humanos com computadores.”

O elogio do autor aos potenciais patrocinadores é enorme: Harari interpõe um ataque obrigatório ao movimento do design inteligente, que “alega que a complexidade biológica prova que deve haver um criador que pensou em todos os detalhes biológicos a priori”. Ele diz que são tolos, é claro, “mas os proponentes do design inteligente podem, ironicamente, estar certos sobre o futuro”: googlianos e facebookianos serão os projetistas inteligentes, criando o Homo Google e o Homo Facebook à sua própria imagem.

SURPRESA NENHUMA, então, é que o fundador do Facebook, Mark Zuckerberger, tenha selecionado Sapiens para seu clube online do livro, convidando 38 milhões de seguidores a ler que suas vidas são vazias de significado — a menos que trabalhem para criar o sucessor da humanidade através da engenharia genética, através da engenharia cyborg (combinando partes orgânicas e inorgânicas), ou através da criação de mentes dentro de computadores, mentes que tenham todas as características de vida exceto carne e osso.

O apelo desse mais admirável dos novos mundos é óbvio, numa época em que se pode escrever ISIS num buscador web e instantaneamente ver exemplos da depravação absoluta do homem. Aquilo que Agostinho escreveu em A Cidade de Deus 1600 anos atrás nós vemos em nossas telas de computador e TV: “Os homens pilham seus semelhantes e os levam cativos. Acorrentam e aprisionam, exilam e torturam. Cortam membros, destroem órgãos do sentido, e abusam dos corpos para gratificação da luxúria obscena do opressor.”

A religião de Harari, da salvação pela tecnologia, tem seu apelo, assim como qualquer religião que diz que alguns sapiens podem ascender às alturas dos céus se eles forem espertos e trabalharem bastante. Só que o cristianismo ensina que nossa esperança não está em ascender ao status divino, mas em Deus descer para se tornar homem. Como Gerald Bray escreve na excelente biografia publicada pela Crossway, Augustine on the Christian Life, “quanto mais ele foi conhecendo Deus, menos ele confiou nele mesmo e em seus próprios meios.”

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Sapiens provavelmente se tornará leitura obrigatória em muitos cursos para primeiro-anistas de universidades. Alguns leitores tentarão evitar a perda de sentido aderindo à tecnocracia, assim como eu aderi ao comunismo. “Sereis como deuses”, satanás sussurrou no jardim do Éden. O antídoto contra H. G. Wells ou Harari é o ensinamento bíblico de que todos, incluindo Lenin e Zuckerberg, pecam e se revoltam contra Deus — e que nossa esperança está em Cristo. Qualquer um que oferece uma falsa esperança está vendendo algo: um livro, um programa, talvez uma ideologia, mas sempre um ídolo.

SE CRIARMOS sociedades supostamente igualitárias, ou maravilhas da engenharia genética ou da engenharia de computação, iremos inevitavelmente infectá-los com nosso pecado. Se continuarmos construindo torres de babel, o futuro será mais na linha dos filmes Exterminador do Futuro do que na linha romântica de Harari.

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Turquia proíbe liturgia cristã ortodoxa em monastério histórico

Publicado originalmente em Jihad Watch (https://www.jihadwatch.org/2016/08/turkey-bans-orthodox-christian-liturgy-in-historic-monastery)

Autor: Ralph Sidway

Tradução: André Carezia

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As portas do monastério de Sumela foram reabertas em junho de 2010, depois de 88 anos. O governo turco tinha dado permissão ao Patriarcado Ecumênico para que realizassem a liturgia ortodoxa na Festa da Assunção todos os anos. Essa permissão foi revogada repentinamente, e provavelmente para sempre.

O fato de que os ortodoxos gregos precisem de permissão especial para celebrar ofícios divinos em qualquer de suas igrejas, em locais que hoje estão na Turquia, é um lembrete negro da opressão islâmica que os cristãos orientais sofrem desde meados do século VII até hoje. E, para os gregos em especial, desde a conquista islâmica de Constantinopla em 1453 até a derrota do Império Otomano pelas potências ocidentais na I Guerra Mundial.

Para dar uma idéia do contexto, eis um trecho de meu artigo “Plano para Assassinar o Patriarca Ecumênico Bartholomew: Contexto Histórico”:

Desde a queda de Constantinopla nas mãos dos militares islâmicos em 1453, os cristãos na atual Turquia foram reduzidos a cidadãos de segunda-classe (e perseguidos até a beira da extinção) através da instituição da dhimma, o contrato de proteção que submete os cristãos ao governo muçulmano em termos humilhantes e aviltantes.

Sob a dhimma, os cristãos têm de pagar a taxa exorbitante da jizya, não podem construir novas igrejas, não podem consertar as existentes, não podem demonstrar sua fé fora de seus templos, não podem converter muçulmanos, etc. Um dos aspectos mais terríveis da dhimma é o conceito de “punição coletiva”. Se um cristão viola o contrato da dhimma, os muçulmanos podem atacar todos os cristãos…

Importa lembrar o papel desempenhado não somente pelos patriarcas fiéis e mártires, mas por outros clérigos e mesmo monges na eventual libertação da Grécia [no início do século XIX]… Mais tarde os Sérvios e Búlgaros se livraram do jugo islâmico também.

Foi essa série de derrotas humilhantes durante o século XIX, e as perdas nas guerras dos Bálcãs no início do século XX, que enraiveceram os muçulmanos turcos. E assim eles se voltaram contra os elementos mais fracos de sua população cristã, precipitando o famoso genocídio contra os cristãos da Armênia, da Grécia, do Ponto e da Síria, massacrando mais de 3,6 milhões de homens, mulheres e crianças (alguns morreram de fome, doenças e deportação forçada) entre 1894 e 1922.

As perseguições esporádicas contra os cristãos remanescentes se estenderam até os anos 1950; talvez o exemplo mais cruel seja o pogrom de Istambul de 1955, que deitou um golpe esmagador na comunidade cristã ortodoxa na Turquia.

A população grega da Turquia já tinha sido reduzida para aproximadamente 120 mil em 1927 (após o auge do genocídio dos cristãos ortodoxos); em 1978 tinha caído para apenas 7 mil. De acordo com o Human Rights Watch, em 2006 havia apenas 2.500 gregos na Turquia.

Desse modo vemos que, assim como fazem desde o século XVI, os turcos muçulmanos continuam a aviltar e humilhar a congregação cristã ortodoxa da Turquia, a qual eles já perseguiram quase até a extinção.

Isso é a marca característica do Islã tradicional.

No artigo “Autoridades Turcas Proíbem a Liturgia Cristã no Mosteiro Panagia Sumela”, de Philip Chrysopoulos, do Greek Reporter, de 11 de agosto de 2016, ele escreve:

As autoridades turcas notificaram o Patriarcado Ecumênico, informando que a licença para a Missa anual no mosteiro Panagia Sumela em Trabzon está revogada.

Depois de cinco anos consecutivos, durante os quais foi permitido realizar a liturgia divina cristã ortodoxa no dia 15 de agosto no mosteiro Panagia Sumela em Trabzon, este ano a permissão foi revogada. O motivo oficial alegado é que durante a obra de restauração do monastério, apareceram problemas na estabilidade do prédio.

A proibição causou um desapontamento muito grande nos milhares de gregos pônticos no mundo todo, e em pessoas da Grécia que tinham planejado viajar para a região estes dias, para celebrar a Festa da Assunção em 15 de agosto.

Fontes do Patriarcado de Constantinopla, que preferem se manter anônimas, e muitos gregos pônticos acreditam que os problemas estruturais alegados são um pretexto; eles temem que as Missas nunca mais serão permitidas no histórico mosteiro.

As portas do monastério de Sumela foram reabertas em junho de 2010, depois de 88 anos. O governo turco tinha dado permissão ao Patriarcado Ecumênico para que realizassem a liturgia ortodoxa na Festa da Assunção todos os anos.

A licença para o mosteiro abrir suas portas aos fiéis cristãos uma vez por ano era permanente. Entretanto, no final de maio as autoridades turcas avisaram o Patriarcado Ecumênico que a licença havia sido revogada, e não esclareceram se a revogação se aplicará apenas a este ano.

Situado em um despenhadeiro 1200 metros acima do nível do mar, e com vista para o vale Altindere, o mosteiro é um local de grande significado histórico e cultural, além de ser uma atração turística importante dentro do Parque Nacional Altindere.

https://www.jihadwatch.org/2016/08/turkey-bans-orthodox-christian-liturgy-in-historic-monastery

Santa Maria Goretti e a Nova Igreja da Misericórdia

(Publicado originalmente em inglês no jornal católico The Remnant, na edição de 25/nov/2015.)

Autor: Tess Mullins

Tradução: André Carezia

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Misericórdia é o nome do jogo. Pelo menos assim é na “nova e melhorada” Igreja Católica de hoje, a qual é uma ouvinte de muita sensibilidade. Claro que a misericórdia é fundamental, mas a nova Igreja deu outra ênfase a ela. Esqueça a necessidade de arrependimento, pois a misericórdia é para todo mundo, quer queiram ou não! Se os anos 60 giravam em torno do “amor livre”, estes agora são dias de “misericórdia livre”. Mas a misericórdia não deveria ter um custo?

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Hoje a Peregrinação da Misericórdia veio à minha cidade. Esse é o nome oficial de um tour pelos EUA das relíquias da mais jovem mártir da Igreja, Santa Maria Goretti. Para esse tour, ela recebeu o título de “Pequena Santa da Grande Misericórdia”, porque ela perdoou seu assassino. Sem querer diminuir esse ato de virtude heróica, há talvez outra lição a ser aprendida da história dela, uma localmente neglicenciada na promoção desse tour; uma lição de dor pelo pecado e de retificação da vida.

Maria Goretti só tinha nove anos quando seu pai morreu, deixando-a no papel de mãe de cinco irmãos e irmãs mais novos enquanto a viúva dele trabalhava no campo. O espírito de Maria fortaleceu e emendou a família despedaçada. Porém, dois anos depois, o garoto vizinho, um rapaz cujo pai era alcoólatra e cuja mãe era doida, tentou violentá-la enquanto estava sozinha na casa. Ela declarou que preferia morrer a permitir que ele cometesse esse pecado. Em um acesso de raiva ele a esfaqueou quatorze vezes e fugiu.

Maria foi achada ainda viva, e os médicos tentaram uma cirurgia nela sem anestesia, por medo de induzirem uma parada cardíaca, mas não conseguiram estancar a hemorragia interna. Ela ofereceu essas dores excruciantes pela conversão dos pecadores, e antes de morrer ela disse à mãe: “Eu perdôo Alessandro Serenelli e quero-o comigo no céu pela eternidade.” Ela foi canonizada 48 anos depois pelo Papa Pio XII, em 1950.

Seu assassino foi convidado para a canonização. Ele era então um outro homem. A inocente moribunda de onze anos sabia que ele se converteria quando disse que queria estar com ele no céu. Pense no que isso quer dizer! Ela entendia a gravidade do pecado dele; ela morreu por isso. E ela sabia que ele não teria permissão de entrar no céu a menos que se arrependesse de seu pecado. Maria Goretti, ao contrário da Igreja “ouvinte” de nosso tempo, pediu uma mudança da parte dele. Houve misericórdia, claro, mas o ponto chave aqui foi o arrependimento; tanto na expectativa quanto depois, na realidade.

Dizem que Alessandro foi para a cadeia como o homem mais irritado da terra. Mas lá dentro a pequena Maria apareceu para ele, e embora sem falar, toda sua aparência era de perdão, e ele entendeu.

Ele se converteu imediatamente.

O restante de sua vida foi dedicado a reparar seu passado. Ele fez as pazes com a pobre mãe de Maria, e entrou para os Frades Capuchinhos como irmão leigo. Ele escreveu uma carta aberta ao mundo, encontrada por seus irmãos Capuchinhos depois de sua morte. Eis as palavras de um homem que aprendeu a visão correta sobre pecado e julgamento; que encontrou dignidade e honra no lamento por seus pecados e na reparação de sua vida:

“Eu tenho agora 80 anos. Estou perto do fim de meus dias. Olhando para meu passado, reconheço que em minha juventude segui uma estrada falsa — um caminho de maldade que levou à minha ruína.

Através do conteúdo de revistas, shows imorais, e maus exemplos na mídia, eu vi a maioria dos jovens da minha época seguir o mal sem pensar duas vezes sobre ele. Despreocupado, fiz a mesma coisa. Havia católicos praticantes ao meu redor, mas não lhes dei atenção. Fui cegado por uma força bruta que me empurrou para baixo, para o mau caminho na vida.

Com vinte anos de idade eu cometi um crime passional, cuja memória ainda me horripila hoje. Maria Goretti, agora santa, foi meu anjo bom que Deus colocou em meu caminho para me salvar. Suas palavras, ao mesmo tempo de repreensão e de perdão, estão ainda impressas em meu coração. Ela rezou por mim, intercedendo por seu assassino. Seguiram-se trinta anos na prisão.

Se eu não fosse menor de idade, de acordo com a lei italiana, eu teria sido sentenciado à prisão perpétua. Apesar disso, aceitei a sentença recebida como algo que eu merecia.

Resignado, expiei meu pecado. A pequena Maria era realmente minha luz, minha protetora. Com a ajuda dela, cumpri bem aqueles 27 anos na prisão. Quando a sociedade me aceitou de volta como seu membro, tentei viver honestamente. Com caridade angélica, os filhos de São Francisco, os frades menores Capuchinhos me acolheram no meio deles não como servo, mas como irmão. Eu vivi com eles por 24 anos. Agora eu anseio serenamente pelo momento em que serei admitido à visão de Deus, para abraçar meus queridos novamente, e para estar perto de meu anjo da guarda, Maria Goretti, e de sua querida mãe Assunta.

Que todos aqueles que lêem esta carta desejem seguir o feliz ensinamento de evitar o mal e seguir o bem. Que possam acreditar, desde a infância, que a religião e seus preceitos não são algo do qual podem prescindir. Ao contrário, é verdadeiro conforto, e único caminho seguro em todas as circunstâncias da vida — mesmo na mais dolorosa. Paz e bem, Alessandro Serenelli, Macerata, Itália, 5 de maio de 1961.”

Este homem entende a coisa. Não é só misericórdia. Na vida há dor, conflito, queda, mas também há reerguimento e recomeço, e honra ganha por tentar. A vergonha vem de permanecer no pecado, não de se acusar e dar a volta por cima. A Igreja de hoje, entretanto, fica perfeitamente à vontade sorrindo misericordiosamente para você enquanto você teimosamente chafurda em seu próprio lamaçal.

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Mas a misericórdia se apóia na justiça. Alessandro Serenelli sabia que a justiça tinha que vir antes, de modo que aceitou sua sentença de prisão e pagou por seus crimes. Somente então ele pôde dizer com a confiança de uma criança: “Anseio serenamente pelo momento em que serei admitido à visão de Deus”.

Santa Maria Goretti (e Alessandro, se estiver aí em cima!), ore por sua Igreja!

 

Mártires em Defesa do Matrimônio Católico

Do livro Remaining in The Truth of Christ:

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“O caso mais famoso é o do rei da Inglaterra, Henrique VIII, que desejava a anulação de seu indubitavelmente válido casamento com Catarina de Aragão, de forma a poder se casar com a dama-de-honra Ana Bolena. Para conseguir isso, ele exigiu, em 1534, o assentimento de bispos, clérigos e súditos a seu chamado Ato de Supremacia, pelo qual ele se declarou o chefe supremo da Igreja da Inglaterra, de modo a sair da jurisdição do Papa, que não podia atender seu pedido.

“Ao mesmo tempo que quase todo o alto clero se submeteu ao rei, houve resistência do bispo [São] João Fisher de Rochester, que tinha sido vice-reitor da Universidade de Cambridge; de [São] Tomás More, que renunciou ao cargo de chanceler do reino devido ao assunto; dos Cartuchos de Londres; dos frades Franciscanos Observantes; e de algumas famílias de nobres. Fisher, More e os Cartuchos de Londres logo sentiram a vingança do rei. Depois de julgamentos espetaculares, cujos veredictos já haviam sido decididos antes de começarem, eles sofreram martírio. As outras testemunhas fiéis sofreram perseguição violenta, que custou a não poucos a vida, e a muitos deles a perda de suas propriedades.

“Nesse contexto, a posição do Papa Clemente VII foi admirável. Sem se importar com a forte pressão política, e com o perigo do cisma da Inglaterra da Igreja Católica, ele insistiu na validade e portanto na indissolubilidade do casamento entre Henrique e Catarina. Para não se precipitar, ele tentou por meio de alguma hesitação, de iniciativas diplomáticas, de procedimentos formais — alguns podem chamá-los evasivas — dar a Henrique tempo para refletir e arrepender-se, mas isso foi inútil. Mesmo a ameaça da separação da Inglaterra da unidade da Igreja não foi suficiente para abalar o Papa.

“Foi um momento de glória na história do papado quando Clemente VII, apesar das consequências, defendeu as verdades da fé e respondeu às ordens do rei com seu famoso ‘non possumus’ (não podemos).”

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(Cardeal Brandmüller, “Unity and Indissolubility of Marriage: From the Middle Ages to the Council of Trent”, trecho final do artigo contra adultério e divórcio)

O Domingo do Surdo-Mudo

Autor: Dom Prósper Gueranger, in “O Ano Litúrgico”
Tradução: André Carezia

Evangelho (Mc 7, 31-37)

Jesus saiu de novo da região de Tiro, passou por Sidônia e continuou até o mar da Galiléia, atravessando a região da Decápole. Levaram então a Jesus um homem surdo e que falava com dificuldade e pediram que Jesus pusesse a mão sobre ele.

Jesus se afastou com o homem para longe da multidão; em seguida pôs os dedos no ouvido do homem, cuspiu e com a sua saliva tocou a língua dele. Depois olhou para o céu, suspirou e disse: “Efatá!”, que quer dizer: “Abra-se!”

Imediatamente os ouvidos do homem se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade. Jesus recomendou com insistência que não contassem nada a ninguém. No entanto, quanto mais ele recomendava, mais eles pregavam.

Estavam muito impressionados e diziam: “Jesus faz bem todas as coisas. Faz os surdos ouvir e os mudos falar”.

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O GÊNERO HUMANO ENFERMO — Os santos doutores nos ensinam que este homem representa todo o gênero humano, com exceção do povo judeu. Abandonado há tantíssimo tempo nas regiões tempestuosas, onde somente reinava o príncipe do mundo, experimentou os efeitos desastrosos do esquecimento em que seu Criador e Pai parece tê-lo deixado, como consequência do pecado original. Satanás, cuja astúcia pérfida o fez sair do paraíso, apoderando-se dele, se excedeu a si mesmo na escolha do meio que usou para salvaguardar sua conquista. Com tirania ladina reduziu sua vítima a um estado de mutismo e de surdez, com o que o mantém debaixo de seu poder mais seguro que se estivesse amarrado com correntes de diamante; mudo para implorar a Deus, surdo para ouvir Sua voz; os dois meios de que podia se servir para se libertar, os têm impedidos. Satanás, o adversário de Deus e do homem, pode felicitar-se. Arruinou, pode-se pensar, a última das criaturas do Todo-Poderoso, arruinou o gênero humano, sem distinção de famílias e de povos; pois até essa mesma nação, conservada pelo Altíssimo como parte escolhida em meio à deslealdade dos povos, se aproveitou de suas vantagens para renegar, com mais crueldade que todos os demais, de seu Senhor e seu Rei!

O MILAGRE — O Homem-Deus gemeu ao ver uma miséria tão extrema. E como não iria fazê-lo considerando os estragos realizados pelo inimigo neste ser escolhido? Sendo assim, levantando os olhos sempre misericordiosos de Sua santa humanidade, vê o consentimento do Pai às intenções de Sua misericordiosa compaixão; e, usando aquele poder criador que no princípio fez perfeitas todas as coisas, pronuncia como Deus e como Verbo a palavra onipotente de restauração: Éfeta! O nada, neste caso a ruína que é pior que o nada, obedece a esta voz tão conhecida; o ouvido do desafortunado se desperta; abre-se com prazer aos ensinamentos generosos da triunfante ternura da Igreja, cujas orações maternais obtiveram esta libertação; e, penetrando nele a fé, e produzindo no mesmo instante seus efeitos, sua até então travada língua volta a emitir o cântico de louvor ao Senhor, interrompido pelo pecado séculos antes.

O ENSINAMENTO — Com tudo isso, o Homem-Deus quer mais instruir aos Seus do que manifestar o poder de Sua palavra divina; quer revelar-lhes simbolicamente as realidades invisíveis produzidas por Sua graça no segredo dos sacramentos. Por isso, conduz o homem que Lhe apresentam a um local apartado, leva-o para longe dessa turba tumultuosa de paixões e de pensamentos vãos que haviam-no deixado surdo às coisas do céu: de que serviria, de fato, curá-lo se está em perigo de voltar a cair novamente, por não se acharem distantes as causas de sua enfermidade? Jesus, assegurando o futuro, coloca nos ouvidos do corpo do enfermo Seus dedos sagrados, que carregam o Espírito Santo e fazem penetrar até os ouvidos de seu coração a virtude reparadora deste Espírito de amor. Finalmente, com maior mistério ainda, posto que a verdade que se quer expressar é mais profunda, toca com a saliva de Sua boca divina esta língua que se havia feito impotente para a confissão e para o louvor; e a Sabedoria — pois é ela que está aqui misticamente — a Sabedoria que sai da boca do Altíssimo e, qual onda embriagadora, flui sobre nós a partir da carne do Salvador, abre a boca do mundo do mesmo modo que faz eloqüente a língua das crianças que ainda não sabem falar.

RITOS DO BATISMO — Também a Igreja, para nos fazer ver que o relato evangélico figurado se refere não a um homem isolado mas a todos nós, quis que os ritos do batismo de cada um de seus filhos recordem as circunstâncias da cura que acabamos de ver. Seu ministro, antes de submergir no banho sagrado o escolhido que se apresenta, deve depositar em sua língua o sal da Sabedoria, e tocar os ouvidos do neófito, repetindo a palavra que Cristo disse ao surdo-mudo: Éfeta, que significa: abre-te.