A Origem da Canção ‘Noite Feliz’

Autor: John Horvat II
Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

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A música ‘Noite Feliz’ é, de longe, a mais simbólica das cantigas de Natal. É compreensível, assim, que fiquemos a refletir sobre a origem de canção tão extraordinária. Para contar a história de suas origens, precisamos voltar à côrte de Frederico Guilherme da Prússia, o quarto rei com esse nome, logo após sua ascensão ao trono em 1840.

Era véspera de Natal. Em Berlim, o rei e seus cortesãos comemoravam o nascimento de Cristo. O coro da catedral, regido por Felix Mendelsohn, executava uma das peças de seu repertório. A música era ‘Noite Feliz’. O rei ficou bem impressionado pela bela canção e imaginou quem seria o autor. Examinou o programa com a lista de hinos sendo cantados e ficou surpreso ao saber que o autor era desconhecido. O rei da Prússia não podia permitir tal imprecisão.

Imediatamente, assim, após a cerimônia, ele fez o maestro vir vê-lo. Mendelsohn, porém, não foi capaz de iluminar em nada o assunto. Ele então chamou o chefe dos concertos reais, Ludovico, cuja reputação era a de descobridor da origem de canções desconhecidas. Mas, para frustração de Frederico Guilherme, ele também não sabia de nada. O rei então ordenou que Ludovico se virasse para descobrir, porque os livros de hinos da Prússia não podiam ficar em desordem!

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Agora que a sua reputação estava em jogo, Ludovico não tinha escolha senão descobrir quem era o compositor da canção. Escarafunchou as bibliotecas, cidades, principados e reinos daquelas terras que eram a Alemanha de então. Nada encontrou, porém.

Já tinham começado a chamar Ludovico de ‘o caçador de canções’, quando ele reparou no estilo da música, que parecia austríaca. Foi para Viena, mas novamente deu com os burros n’água. Então um velho músico dos tempos de Haydn lhe deu uma dica. Michael Haydn, o irmão do músico famoso, compôs muitas obras que se tinham perdido. “Talvez essa canção de Natal seja uma daquelas?” sugeriu o velho. Era um tiro no escuro, e Ludovico não se sentiu encorajado pela dica. Desistiu da busca e decidiu retornar à côrte.

Na viagem de volta, enquanto descansava em uma hospedaria, ouviu um passarinho em uma gaiola a cantar uma música familiar. Deu um pulo de tão surpreso. Ludovico percebeu que o pássaro cantava aquela música de Natal misteriosa cujo autor ele procurava; estava cantando ‘Noite Feliz!’

“Que foi?” perguntou o estalajadeiro.

“Este pássaro,” respondeu Ludovico. “Quem ensinou esta canção ao pássaro?”

O estalajadeiro não sabia. Mas acrescentou que um amigo tinha comprado o bicho na abadia de Salzburgo, e deixado ali na pousada para diversão dos hóspedes.

A Abadia de Salzburgo! Ludovico se sentiu de repente como aquele caçador que, depois de muitas buscas infrutíferas, encontra alguns rastros frescos na neve. A pista tinha esquentado de novo! Ele sabia que Michael Haydn tinha morado naquela abadia por muitos anos. Era quase certo que a canção era de Michael Haydn. Ludovico não perdeu tempo: mudou os planos de viagem e partiu para a abadia.

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Quando chegou, o chefe dos concertos reais da côrte prussiana foi recebido com todas as honrarias que seu posto merecia. O abade e os monges lhe ofereceram um bom jantar e confortáveis acomodações. Infelizmente, porém, ninguém sabia de onde a canção tinha vindo. Também não acreditavam que o autor fosse Michael Haydn.

Quando o ‘caçador de canções’ lhes contou a respeito do pássaro na gaiola, sugerindo que os monges tinham-lhe ensinado a cantar a música, o abade se mostrou ofendido, já que tais caprichos eram proibidos no mosteiro.

Ludovico examinou, então, todos os manuscritos que havia na cela onde Michael Haydn antigamente trabalhara. E, exatamente como os monges haviam previsto, não encontrou nada. A pista tinha esfriado de novo. Desanimado, Ludovico decidiu retomar sua jornada de volta à côrte prussiana.

Entretanto, por acaso, dentre aqueles que estavam presentes ao jantar oferecido pelo abade, havia um professor chamado Ambrósio Prestainer, que ficou particularmente interessado na estória do pássaro.

“Isto pode ser obra de algum dos meninos do coral da abadia”, matutou ele.

Então, já que o professor conseguia imitar com perfeição o passarinho, ele decidiu tentar um truque para ver se descobria quem havia ensinado esta canção ao animal. Alguns dias depois, ele se ajeitou em uma janela que dava para o pátio interno da escola. E assobiou, imitando o pássaro a cantar ‘Noite Feliz’.

O ardil deu certo, pois logo ele ouviu a voz de um menino: “Ah, passarinho, você voltou!” E um garoto de nove anos de idade veio correndo, saindo da aula. Mas quão surpreso o menino ficou ao ver que tinha caído em uma armadilha!

“Como se chama?”, perguntou o professor.

“Felix Gruber,” respondeu o garoto.

“Muito bem. Diga-me, Felix: onde você aprendeu essa música?”

“Meu pai me ensinou.”

“E de onde ele a tirou?”

“Ele a compôs, senhor.”

Prestainer, sem perder um minuto, foi até a casa do menino em uma vila próxima. Lá ele conheceu o professor de uma escola local, Franz Gruber, que confirmou ter de fato composto a música. Mas a letra, ele disse, tinha sido escrita pelo seu amigo Josef Mohr, que fora pároco na vila de Bagran, e que tinha morrido não fazia muito tempo.

Mal podendo conter a alegria por finalmente ter achado a origem da canção, Prestainer escreveu a Ludovico, “O Caçador de Canções”, contando que sua missão de busca das origens da música tinha acabado. Enviou a Ludovico um relato completo de como a canção surgiu. O relato foi assim:

É véspera de Natal, e a torre da pequena igreja da vila domina as casas cobertas pela neve, como uma galinha que protege seus pintinhos. No presbitério, o jovem Padre Josef Mohr, com 26 anos, se prepara para as cerimônias daquela noite relendo o Evangelho, quando uma batida na porta rompe o silêncio. É uma camponesa que pede ao pároco ajuda para um bebê que acabara de nascer.

Sem demora, o padre deixa o conforto da casa e, depois de uma íngreme subida pela montanha, chega a um casebre humilde onde estava a criança recém-nascida. Ao retornar, as estrelas brilham no céu e o branco da neve reflete sua luz.

Ele começa a refletir sobre a cena que acabara de testemunhar. A criança, o casal de camponeses, o casebre, tudo causou-lhe impressão. Lembravam uma outra criança, um outro casal, uma outra moradia rústica em Belém de Judá.

Após a Missa do Galo, o padre Mohr não consegue dormir. Toma uma caneta e uma folha de papel, e começa a escrever um poema que se tornaria a letra da canção ‘Noite Feliz’.

Na manhã seguinte, o Natal de 1818, o piedoso sacerdote vai atrás de um amigo chamado Franz Gruber, então com 31 anos. Depois de ler o poema, Gruber exclama:

“Padre, era exatamente essa a canção de Natal que eu procurava! Louvado seja Deus!” E naquele mesmo dia ele compôs a música que acompanha a letra.

E assim, dessa maneira singela, imitando os acontecimentos de Belém, nasceu a mais popular e bela canção de Natal de todos os tempos.

FIM.


Traduzido do original em inglês, publicado em dezembro/2016 no site http://www.returntoorder.org/

Sol, Lua e Talia

Autor: Giambattista Basile, século XVI
Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

Era uma vez um grande senhor que foi agraciado com o nascimento de uma filha, a quem deu o nome de Talia. Chamou os homens sábios e astrônomos de suas terras para que predissessem o seu futuro. Encontraram-se e, assessorando-se mutuamente, consultaram seu horóscopo e chegaram à conclusão de que ela correria um grande perigo devido a uma farpa de linho. Seu pai então proibiu qualquer planta de linho, cânhamo, ou qualquer outro material desse tipo em sua casa, esperando assim que escapasse do perigo.

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Um dia, quando se havia convertido em uma bela jovem, Talia estava olhando através da janela e viu passar uma velha mulher fiando. Talia, que nunca tinha visto nem uma roca nem um fuso, quis ver como girava, e era tal a sua curiosidade que pediu à velha mulher que fosse até ela. Tomando a roca em sua mão, a garota começou a fiar o linho. Desgraçadamente, cravou-se uma farpa de linho debaixo da unha de Talia, e ela caiu morta ao solo. Quando a velha mulher viu o acontecido, assustou-se tanto que saiu pelas escadas e está fugindo até hoje.

Tão logo seu desgraçado pai viu o desastre que havia ocorrido, tomou-a e, depois de ser inundado pela tristeza e de derramar rios de lágrimas, tirou dali a belíssima Talia e levou-a até um de seus palácios no campo. Ali sentou-a em um trono de veludo debaixo de um dossel de brocado. Desejando apagar da memória todo o seu infortúnio, fechou todas as portas e abandonou para sempre o palácio onde havia sofrido sua grande perda.

Depois de muito tempo aconteceu que um rei caçava ali por perto. Um de seus falcões escapou de sua mão e voou ao interior do palácio através de uma janela. Como não acudisse ao chamado, o rei teve que bater à porta, crendo que o lugar fosse habitado. Mas ninguém atendeu, e então o rei mandou trazerem uma escada de vindimador, pois desejava descobrir o que havia dentro do palácio. Percorreu todos os quartos, salas e recantos, surpreendendo-se grandemente por não encontrar viva alma. Por fim abriu a porta do quarto onde Talia se achava sob o encantamento e, crendo que apenas dormia, chamou-a. Como ela continuasse inconsciente, ele tentou reanimar a bela moça, pensando que estivesse passando mal, mas não teve sucesso. Sentindo então inflamar-se seu sangue pela beleza dela, carregou-a nos braços, deitou-a na cama, beijou-a e lhe deu todo o seu amor. Deixando-a assim deitada, voltou para o seu reino e para as suas ocupações, e por um longo tempo não pensou mais naquilo que tinha acontecido.

Nove meses depois, Talia deu à luz dois filhos, um menino e uma menina, formosos como duas jóias. Duas fadas apareceram no palácio e cuidaram deles, colocando-os sobre os peitos de sua mãe. Certa vez, querendo mamar e não encontrando o mamilo, começaram a sugar o dedo de Talia. Fizeram-no tão forte que arrancaram a farpa de linho. Talia despertou assim de um longo sono e, vendo seus belíssimos filhos sobre ela, toda contente lhes deu o leite. Os bebês eram a coisa que mais queria na vida.

Talia se viu sozinha no palácio, com os gêmeos ao lado, e não sabia o que tinha acontecido com ela. Mas notou que a mesa estava posta, com comida e bebida, embora não conseguisse ver quem as tinha trazido. Enquanto isso, o rei se lembrou da bela adormecida. Tornou a caçar e, voltando ao palácio, entrou para vê-la e encontrou-a desperta com aqueles dois lindos e alegres bonequinhos. Ele se regozijou como nunca antes na vida.

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Contou a Talia quem era, e como a tinha visto e entrado naquele lugar. Eles então se conheceram melhor, a amizade de ambos imediatamente se estreitou, e ele permaneceu com ela durante alguns dias. Depois desse tempo ele se despediu, prometendo que regressaria para levá-la com ele ao seu reino. E voltou ao seu reino, onde a todo momento tinha nos lábios os nomes de Talia, Sol e Lua – pois era assim que se chamavam seus filhos. Até mesmo quando estava comendo chamava-os pelos nomes. E não dormia nem acordava sem pronunciar seus nomes.

A rainha, vendo que algo estranho havia ocorrido ao seu marido durante a caçada, começou a suspeitar. Percebendo que ele não fazia outra coisa além de chamar pelos nomes de Talia, Sol e Lua, ficou furiosa de ciúmes. Chamou seu secretário e disse-lhe:

– Escuta, meu querido, tu estás entre a cruz e a espada. Se me disseres de quem o rei, meu marido, está enamorado, te farei enriquecer; e se me esconderes a verdade, te farei morrer.

O secretário, por um lado, estava assustado; por outro lado, estava ávido pela riqueza. A avareza e o medo lhe fizeram esquecer a honra, a justiça e a lealdade, e contou-lhe tudo que sabia.

Então a rainha ordenou que o secretário fosse até Talia, e lhe dissesse que o rei queria as crianças no palácio. Talia, com grande contentamento, obedeceu e enviou Sol e Lua pelo secretário, que os entregou nas mãos da rainha. Esta, que era mais venenosa que uma víbora, pediu ao cozinheiro que os matasse e cozinhasse em vários e apetitosos molhos, e os servisse para o rei comer. Mas o cozinheiro, tendo um coração terno, ao ver aquelas duas jóias formosas, sentiu compaixão e os entregou à sua esposa para que cuidasse deles. No palácio, ele preparou dois cordeiros de acordo com cem receitas diferentes.

Quando o rei chegou, a rainha, toda satisfeita, mandou servir a comida. O rei comeu com gosto, exclamando:

– Oh, como isto é bom! Que requinte! Que primor!

E ela, de quando em quando, lhe dizia:

– Come! Pois a carne que comes é tua!

Depois de ouvir isto algumas vezes, o rei se entristeceu e disse-lhe:

– Sei muito bem que eu como a carne que é minha, porque sou rei e tudo é meu, enquanto tu nada trouxeste a esta casa.

E se levantou, e foi dar uma volta pelo seu país para fazer a raiva passar.

Mas à rainha ainda não bastava o que tinha feito, e então ordenou ao secretário que trouxesse Talia ao palácio, com a desculpa de que o rei a esperava. Talia se arrumou, toda contente, e partiu o mais rápido que pôde, pois desejava com todas as forças ver o rei, sem desconfiar do que sua inimiga lhe estava preparando.

Encontrou-se diante da rainha, e esta, com o rosto deformado pela crueldade, disse-lhe com voz perversa e zombeteira:

– Ah! Ah! Bem-vinda, senhora vagabunda! Então tu és a cachorra que enganou o rei! Tu, com esse sorriso insinuante, querias tê-lo todo para ti! Já chega, madame porcina! Chegaste ao teu tribunal, pois agora vou te dar o castigo que mereces!

Talia começou a desculpar-se, dizendo que não era culpa dela, que o rei havia tomado posse das suas coisas enquanto ela estava enfeitiçada, mas a rainha não quis saber das desculpas. Acendeu uma grande fogueira no pátio do palácio, e deu ordens de botar a moça para arder. Ao ver que as coisas iam mal, Talia se ajoelhou diante da rainha e lhe disse:

– Por favor, dá-me tempo ao menos para eu tirar estas belas roupas que uso!

Não por piedade, mas porque queria ficar com aqueles vestidos bordados de ouro e pérolas, a rainha respondeu:

– Está bem, vai te despir!

Talia, então, foi se despir lentamente, e soltava um grito para cada parte da vestimenta que tirava. Tirou o manto, o casaco e a saia. No momento de remover a anágua, lançou um último grito. Depois disto, tomaram-na novamente e prepararam-se para prendê-la na estaca onde a rainha pretendia transformá-la em um montículo de cinzas. De repente, o rei apareceu e, diante daquela cena, mandou que ninguém se movesse. Queria saber o que se passava. Ao perguntar por seus filhos, a cruel rainha lhe disse:

– A isto tu não darás remédio, porque eu te fiz comê-los, e tu adoraste!

Quando o rei ouviu isto, caiu em desespero, chorando e gritando:

– Ai! Meus pobres cordeiros, então eu mesmo fui vosso lobo! Ai! Como é possível que eu não tenha reconhecido vossas carnes que tanto cheguei a acariciar? E tu, bruxa pérfida e renegada, como é que pudeste ser mais feroz do que bestas selvagens? Mas eu não te darei tempo nem para que peças perdão pelos teus pecados!

E ordenou que a rainha fosse queimada na fogueira que havia preparado para Talia, fazendo queimar também o secretário, seu cúmplice. Mandou queimar até o cozinheiro, por haver picado e cozinhado os seus filhos. Mas o cozinheiro se atirou aos seus pés e disse:

– Senhor, seria uma fogueira a recompensa pelo serviço que prestei a ti? Farás festa de mim, enquanto sou assado preso a uma estaca? É este o bom lugar que me darás, em uma grelha com a rainha? Eu esperava algo melhor por ter salvado as tuas crianças, desobedecendo àquele coração de pedra que queria te fazer comê-las!

Ao ouvir estas palavras, o rei ficou atônito. Pensou estar sonhando, porque não podia crer no que seus próprios ouvidos lhe diziam. Voltou-se então para o cozinheiro e lhe disse:

– Se é verdade que salvaste os meus filhos, então estejas seguro de que te impedirei de girar no espeto, e te darei o poder de fazer girar o meu coração, porque quero contentar-te em todos os teus desejos, e te darei uma recompensa tão grande que serás o homem mais feliz do mundo!

Enquanto o rei pronunciava estas palavras, a esposa do cozinheiro, que tinha visto seu marido em perigo, trouxe Sol e Lua. O rei abraçou-os juntamente com Talia e, chorando de alegria, não se fartava nunca de beijá-los e acariciá-los.

Depois de haver destinado uma grande renda ao cozinheiro, e de havê-lo nomeado camareiro-mor do palácio, o rei se casou com Talia, que viveu feliz e contente para sempre com seu marido e filhos, depois de ter experimentado que até mesmo dormindo é possível ser favorecida com a sorte.


Traduzido das versões italiana e espanhola:
http://www.alaaddin.it/_TESORO_FIABE/FA_1996/FA_XVII_Sole_Luna_Talia.html
https://bibliotecadeloscuentos.wordpress.com/2016/02/20/sol-luna-y-talia/

Sede da Sabedoria

Autor: Michael Hichborn
Tradução: André Carezia

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“Deus pode criar uma pedra tão pesada que nem Ele mesmo pode erguer?”, pergunta em sua essência uma antiga charada medieval.

À primeira vista a questão parece bastante absurda, pois afinal Deus é onipotente: Ele pode fazer qualquer coisa. Porém, quando consideramos as possibilidades, parece impossível responder afirmativamente à pergunta – por qualquer ângulo que se tente.

Deus pode criar qualquer coisa que deseje, de modo que é óbvio que Ele pode criar um objeto infinitamente pesado. Entretanto, Deus é também todo-poderoso, de maneira que Ele pode erguer qualquer coisa que crie. Portanto, qualquer que seja a resposta à questão, ou Ele não consegue criar a pedra, ou Ele não consegue erguê-la.

Ao longo dos séculos os filósofos tentaram encarar de frente a questão. São Tomás de Aquino afirma, por exemplo, que a origem do paradoxo é um mau entendimento ou um abuso da palavra “onipotência”. Na questão 25 da primeira parte da Suma Teológica, o Doutor Angélico diz:

As coisas, porém, que implicam contradição não constituem objeto da divina onipotência, por não poderem ter a natureza de coisas possíveis. Por isso, é mais conveniente dizer que não podem ser feitas, em vez de dizer que Deus não pode fazê-las. Nem isto vai contra as palavras do Anjo: Porque a Deus nada é impossível. Pois, o contraditório, não podendo ser conceito, nenhum intelecto pode concebê-lo.

Em outras palavras, uma contradição sempre implica uma impossibilidade, não importando se Deus é ou não o agente principal no experimento teórico proposto.

C.S. Lewis, ao invés de examinar a charada pelo critério lógico, enfrentou-o como um problema de definição. Em seu livro “A Grief Observed” [Uma Dor em Observação], Lewis escreveu:

Um mortal consegue fazer perguntas que Deus não pode responder? É bem fácil, eu diria. Todas as perguntas nonsense são irrespondíveis. Quantas horas há em um quilômetro? O amarelo é quadrado ou redondo? É provável que metade das questões que levantamos – metade de nossos grandes problemas teológicos e metafísicos – sejam assim.

O Natal já está aí às portas, e nós temos a chance de considerar a questão sob uma outra luz. Já peço desculpas a esses grandes pensadores maiores do que eu, mas humildemente venho aqui propor que não apenas Deus pode criar um objeto tão grande que não possa levantar, como já o fez.

Os grandes pensadores com certeza responderam à questão em seu valor de face, apontando a falta de sentido e de lógica que ela contém. Entretanto, com alguma compreensão das duas naturezas de Deus, notamos que há um elemento que não está sendo considerado.

A Santíssima Virgem Maria é o pináculo da criação de Deus, perfeita em todos os sentidos, sem mancha, e literalmente cheia da Graça Divina. Deus criou Maria para ser a ponte de perfeição entre Ele próprio e o homem. Sem a perfeição dela, não poderia haver uma passagem da divindade para a humanidade. E por meio do “faça-se” de Nossa Senhora, Deus se tornou homem: Nosso Senhor foi concebido em seu ventre.

Naquele exato instante, Nosso Senhor Bendito, que tem duas naturezas, se encontrava em total presença no ventre de Maria. Jesus é 100% Deus e 100% homem.

Sendo Deus, pelo poder do Espírito Santo, Ele se fez homem. E uma vez encarnado no ventre na Puríssima Virgem Maria, Ele se tornou completamente dependente dela para manter Sua vida e Seu sustento. Na verdade, depois de nascido, Ele não somente não podia erguê-la, mas pela primeira vez em toda a história humana, um ser humano foi capaz de olhar para BAIXO e ver o rosto de Deus.

Ao erguer o Cristo Menino para colocá-lo sobre seus joelhos, Nossa Senhora se tornou a Sede da Sabedoria.

Deus criou Maria… mas ao se fazer encarnado no ventre dela, Ele ao mesmo tempo criou algo (ou melhor, alguém) tão grande no tempo e no espaço, que nem Ele podia erguer.

(Traduzido do original publicado em 22/dezembro/2017 no “Catholic Week in Review”, boletim semanal do Instituto Lepanto.)

O Papa Francisco é um Protestante Esquerdista?

Autor: Gerald McDermott[*]
Tradução: André Carezia

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“O papa é católico?” Por mais de um século, era assim que nós os anglicanos brincávamos a respeito de qualquer coisa que parecesse muito óbvia. Mas agora precisamos perguntar – a sério – se o papa é ou não um protestante esquerdista.

No começo deste mês, um teólogo americano foi pressionado a pedir demissão de seu cargo de conselheiro teológico na Conferência dos Bispos Católicos dos EUA (USCCB). O que o Pe. Thomas Weinandy fez para merecer esta reprimenda pública? Ele tornou pública uma carta de julho ao papa, na qual ele acusava o Santo Padre de estar causando uma “confusão crônica”. A exortação apostólica Amoris Laetitia, escrita pelo papa, é “intencionalmente ambígua” em temas importantes de moral e doutrina. Ela “corre o risco de pecar contra o Espírito Santo, o Espírito da verdade”, e “diminui a importância da doutrina cristã” ao incentivar mudanças no ensino tradicional católico a respeito do matrimônio e do divórcio. O papa “ressente-se” com as críticas, e “zomba” daqueles que contestam a Amoris Laetitia chamando-os de “fariseus atiradores de pedras”.

Eu, sendo alguém de fora, não posso deixar de me perguntar se o papa e a USCCB não se sentiram especialmente provocados pela sugestão, feita por Weinandy, de que Jesus permitiu esta polêmica com a intenção “tornar manifesta a fraqueza de fé de muitos dentro da Igreja, mesmo entre muitos de seus bispos”. Os católicos que se decidam – mas eu admito que tenho muitas dúvidas a respeito da fé do papa Francisco, a qual parece, se não fraca, ao menos diferente daquela que se acha na tradição católica.

Antes mesmo da publicação de Amoris Laetitia em março de 2016, Francisco já tinha levado muitos a duvidarem de sua fidelidade a esta tradição. Em 2014, o relatório intermediário do Sínodo Extraordinário da Família recomendava aos pastores enfatizarem os “aspectos positivos” da coabitação e de um novo casamento civil após um divórcio. Ele afirmou que a multiplicação dos pães e peixes, feita por Jesus, era na verdade um milagre de partilha, e não de multiplicação (2013); disse a uma mulher que ela podia receber a Sagrada Comunhão mesmo sendo casada invalidamente (2014); postulou que as almas perdidas não vão para o inferno (2015); e afirmou que Jesus havia suplicado o perdão de seus pais (2015). Em 2016, ele disse que Deus havia sido “injusto com Seu filho”, anunciou suas orações pela intenção de construir uma sociedade que “coloque a pessoa humana no centro”, e declarou que a desigualdade é “o maior mal que existe”. Em 2017, fez uma piada: “no interior da Santíssima Trindade eles discutem a portas fechadas, mas externamente dão a impressão de unidade”. Jesus Cristo, afirmou, “se fez de diabo”. “Nenhuma guerra é justa”, pronunciou. Ao final da história, “tudo será salvo. Tudo”.

Weinandy e outros críticos católicos já destacaram afirmações e sugestões alarmantes na própria Amoris Laetitia. A exortação declara que “ninguém pode ser condenado para sempre, porque esta não é a lógica do Evangelho!” Em dezembro de 2016, os filósofos católicos John Finnis e Germain Grisez argumentaram em “Abusando de Amoris Laetitia” que, muito embora essa afirmação reflita uma tendência entre pensadores católicos desde Karl Rahner e Hans Urs von Balthasar, ela contradiz as claras afirmações dos Evangelhos e os ensinamentos tradicionais católicos: há sim “punição sem fim” no inferno. Finnis e Grisez criticam o raciocínio de Amoris Laetitia quando afirma que alguns fiéis são muito fracos para obedecer os mandamentos de Deus, e que podem viver em estado de graça mesmo cometendo, habitual e continuamente, pecados “em matéria grave”. Imitando o que Joseph Fletcher – um episcopaliano – ensinava em suas aulas de “ética situacional” em 1960, a exortação sugere que há exceções em todas as regras morais, e que simplesmente não existe algo como um “ato intrinsecamente mau”.

Não sinto prazer com a agonia de Roma. Por décadas, os anglicanos ortodoxos e outros protestantes em luta para resistir às apostasias do cristianismo esquerdista acostumaram a olhar para Roma em busca de apoio moral e teológico. A maioria dos anglicanos reconhecia estar lutando contra a revolução sexual, que se apropriou da Igreja Episcopal – e também da sua matriz do outro lado do oceano – e corrompeu-a. Primeiro foi a santidade da vida e a eutanásia. Depois foi a prática homossexual. E agora o casamento gay e a ideologia transgênera. Durante os pontificados de João Paulo II e Bento XVI, nós que não somos católicos e estávamos debatendo teologia moral podíamos nos apoiar em argumentos embasados e convincentes emanando de Roma e dizer: com efeito, “a porção mais velha e maior do corpo de Cristo concorda conosco, e o faz com notável sofisticação.”

Aqueles de nós que continuam a lutar pela ortodoxia, tanto em teologia dogmática quanto em teologia moral, sentem falta dos dias em que havia um farol claro brilhando do outro lado do Tibre. Porque agora, ao que parece, até Roma foi infiltrada pela revolução sexual. O centro não está aguentando[**].

Embora perturbados, nós não devemos desesperar. Pois a demonstração de coragem e de princípios feita por Tom Weinandy nos recorda que Deus acende luzes proféticas quando dias obscuros rondam a Sua Igreja.


[*] Traduzido do artigo original “Is Pope Francis a Liberal Protestant?”, escrito por um teólogo anglicano e publicado em novembro/2017 na revista First Things.

[**] No original: “the center is not holding”. A frase é do poema “The Second Coming”, publicado em 1920 pelo poeta irlandês William Butler Yeats.

Impedindo um Novo Eixo do Mal

Autor: Constantine C. Menges
Tradução: André Carezia

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Uma nova ameaça terrorista, envolvendo armas nucleares e mísseis balísticos, pode muito bem vir de um novo eixo que inclui a Cuba de Fidel Castro, o regime de Chávez na Venezuela e um presidente radical eleito no Brasil. Tudo isso conectado ao Iraque, Irã e China. Em visita ao Irã no ano passado, o Sr. Castro dizia: “Irã e Cuba podem colocar os EUA de joelhos”, ao mesmo tempo em que Chávez expressava sua admiração por Saddam Hussein durante uma visita ao Iraque.

O novo eixo ainda é evitável, mas se o candidato pró-Castro for eleito presidente do Brasil, os efeitos podem incluir um regime radical no Brasil, com o restabelecimento dos programas de armas nucleares de mísseis balísticos, a criação de fortes laços com financiadores estatais do terrorismo, como Cuba, Iraque e Irã, e a participação na desestabilização das frágeis democracias circunvizinhas. Isso pode fazer com que 300 milhões de pessoas em seis países fiquem sob o controle de regimes radicais e anti-americanos, e pode permitir que milhares de novos terroristas doutrinados tentem atacar os Estados Unidos a partir da América Latina. Apesar disso, o governo em Washington parece estar dando pouca atenção à coisa.

Os brasileiros terão eleições presidenciais em outubro. Se as pesquisas estiverem certas, o vencedor poderá ser um radical pró-Castro com conexões fortes com o terrorismo internacional. O nome dele é Luis Inácio da Silva, o candidato presidencial do Partido dos Trabalhadores, e tem hoje mais ou menos 40% nas pesquisas. O candidato do Partido Comunista tem 25%, e o adversário pró-democracia tem aproximadamente 14%.

O Sr. da Silva não esconde suas simpatias. Ele já é um aliado do Sr. Castro há mais de 25 anos. Em 1990, com o apoio do Sr. Castro, o Sr. da Silva fundou o Foro de São Paulo para ser um encontro anual de organizações comunistas e de outras organizações terroristas radicais e políticas da América Latina, Europa e Oriente Médio. Esse Foro tem sido usado para coordenar e planejar atividades políticas e ataques terroristas ao redor do mundo e contra os Estados Unidos. O último encontro correu em Havana, Cuba, em dezembro de 2001. Envolveu terroristas da América Latina, Europa e Oriente Médio, e condenou agressivamente a administração Bush e suas ações contra o terrorismo internacional.

O Sr. da Silva, assim como o Sr. Castro, culpa os Estados Unidos e o “neoliberalismo” por todos os verdadeiros problemas sociais e econômicos ainda enfrentados pelo Brasil e pela América Latina. O Sr. da Silva afirmou que a Área de Livre Comércio das Américas é um complô americano para “anexar” o Brasil, e chegou a chamar de “terroristas econômicos” os credores internacionais que buscam receber de volta seus empréstimos de 250 bilhões de dólares. Também chamou de “terroristas econômicos” aqueles que estão tirando dinheiro do Brasil por medo de seu governo. Isso dá uma idéia de que tipo de “guerra contra o terrorismo” seu governo vai travar.

O Brasil é um país vasto e rico, quase do tamanho dos Estados Unidos, com cerca de 180 milhões de habitantes, e a oitava economia do mundo (PIB: mais de 1,1 trilhões de dólares). Além disto, pode ser que se junte em breve às potências nucleares do mundo. Entre 1965 e 1994, os militares trabalharam ativamente para desenvolver armas nucleares. Projetaram com sucesso duas bombas atômicas, e aparentemente estavam na iminência de testar um dispositivo nuclear quando um novo governo democrático foi eleito e uma investigação do Congresso fez com que o programa fosse encerrado.

Essa investigação revelou, porém, que os militares haviam vendido oito toneladas de urânio para o Iraque em 1981. Também revelou que, depois do encerramento do programa brasileiro de mísseis balísticos, o general e 24 cientistas passaram a trabalhar para o Iraque. Há relatos de que um certo potencial de armas nucleares foi mantido secretamente, com financiamento do Iraque, contrariando ordens das lideranças democráticas civis.

O Sr. da Silva afirmou que o Brasil deveria ter armas nucleares e se aproximar da China, a qual tem cortejado ativamente os militares brasileiros. A China já vendeu urânio enriquecido para o Brasil, e já investiu na indústria aeroespacial brasileira, tendo como resultado um satélite usado em imagens e reconhecimento.

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O Brasil faz fronteira com dez outros países na América do Sul. Este fato seria de grande auxílio para Lula poder copiar — como ele disse que faria — a política internacional do regime chavista da Venezuela, que é pró-Castro e pró-Iraque, e que já deu apoio aos comunistas e narco-terroristas das FARC na Colômbia e a outros grupos anti-democráticos em outros países da América do Sul. Dois anos atrás, Hugo Chavez trabalhou com o Sr. Castro para desestabilizar temporariamente a frágil democracia do Equador. Agora ambos apóiam o líder socialista dos plantadores de coca, Evo Morales, que espera se tornar o presidente da Bolívia agora em agosto [de 2002].

Além de ajudar as guerrilhas comunistas a chegarem ao poder na conflituosa democracia colombiana, um regime de Da Silva no Brasil estaria muito bem situado para auxiliar os comunistas, os narco-terroristas e outros grupos anti-democráticos a desestabilizar as frágeis democracias da Bolívia, do Equador e do Peru. Também seria de grande valia na exploração [política] da profunda da crise econômica que há na Argentina e no Paraguai.

Um regime de Da Silva, além do mais, provavelmente iria suspender o pagamento de suas dívidas, provocando uma grave crise econômica em toda a América Latina, e deixando portanto suas democracias ainda mais vulneráveis. Com a conseqüente contração dos mercados de exportação, isto poderia também gerar uma segunda fase da crise econômica nos Estados Unidos.

Um eixo Castro-Chavez-da Silva significaria conectar 43 anos da guerra política de Fidel Castro contra os EUA com a riqueza petrolífera da Venezuela e o potencial econômico e de armas nucleares/mísseis balísticos do Brasil.

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Quando chegarem nossas eleições em novembro de 2004, os americanos poderão perguntar: quem deixou a América do Sul se perder? Os Estados Unidos ficaram passivos politicamente durante a administração Clinton, ignorando os clamores dos líderes democráticos venezuelanos por um auxílio na oposição às ações ilegais e anti-constitucionais do Sr. Chavez. Ignoraram também suas alianças públicas com os financiadores estatais do terrorismo. Por que a administração Bush não age antes que 20 anos de vitórias democráticas se percam na América Latina? Por que nada se faz antes que um vasto e novo flanco seja aberto pelo lado sul da ameaça terrorista, e nossa nação seja ameaçada por mais um regime radical anti-americano, com intenções de possuir armamento nuclear e mísseis balísticos?

Este desastre, tanto para a segurança nacional dos EUA quanto para os povos da América Latina, pode ser impedido se os nossos legisladores agirem com rapidez e decisão. Mas tem que ser agora. Os EUA e outras democracias devem dar atenção política e tomar atitudes. Isso inclui o encorajamento aos partidos pró-democracia no Brasil para que se unam um torno de um líder político capaz e honesto, que possa representar as esperanças da maioria dos brasileiros em uma autêntica democracia, e que tenha os recursos para montar uma efetiva campanha nacional.


Traduzido do original em inglês, publicado em 7 de agosto de 2002 no jornal conservador The Washington Times.

A Consagração: Última Ceia e Calvário

Autor: Padre Ladis J. Cizik[*]
Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

In Nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti. Amen.

“Ceia do Senhor” é uma expressão bíblica que foi adotada durante a ‘de’-formação protestante da Igreja, com o objetivo de negar a natureza de sacrifício da Missa, e trocá-la por um simples “memorial”. Protestantes e modernistas[1] se esforçam por separar o sacrifício no Calvário, centrado em Cristo, do santo sacrifício da Missa, transformando um evento solene em um “lanche feliz” centrado na comunidade. Entretanto, tanto as sagradas Escrituras quanto a sagrada Tradição afirmam que o Calvário estava onipresente já na primeira Missa oferecida na história. Aquela primeira Missa no Cenáculo foi a última ceia na qual Nosso Senhor e Deus, Jesus Cristo, antecipou Sua morte salvadora no Calvário.

santa ceia

A última ceia, a primeira Missa, não foi uma “refeição memorial” em consideração ao fato de que Cristo ainda não havia morrido na cruz. A última ceia apresenta uma espécie de catequese sobre a presença real de Cristo no Santíssimo Sacramento, a instituição da ordenação sacerdotal e a natureza de sacrifício da Missa. As orações da Consagração no Missal Romano tradicional (Missale Romanum) evocam a morte-sacrifício de Nosso Senhor no Calvário dentro do contexto das palavras e ações de Jesus na última ceia. Na pessoa de Cristo (in persona Christi), o sacerdote católico segue as palavras e gestos de Jesus na última ceia, consagrando e transformando pão e vinho no corpo, sangue, alma e divindade da segunda pessoa da Santíssima Trindade.

Pelo uso de “matéria e forma” apropriadas, as mesmas matéria e forma que Jesus usou na última ceia, e com a “intenção” adequada do sacerdote, o milagre da transubstanciação acontece. Assim, o Rito Romano da Igreja Católica prescreve que a “matéria” adequada à Eucaristia precisa ser o pão ázimo[2] e o vinho de uva natural. Pão ázimo é aquele que Jesus teria usado em Sua última ceia de Páscoa. O Antigo Testamento nos conta que o povo judeu só deveria comer pão ázimo todos os anos durante a Páscoa, como forma de comemorar seu êxodo do cativeiro egípcio[3]. De modo similar, o pão sem fermento que Jesus teria usado na última ceia pascal representaria o êxodo do pecado e da morte, que ocorreu para Seus seguidores após Sua morte salvífica e gloriosa ressurreição. Note que o fermento na bíblia é quase sempre símbolo do pecado[4]. Um pecado grave é o que ocorre quando o pão fermentado é introduzido na Missa católica de rito romano – embora o Concílio de Florença (século 15) confirme o entendimento corrente de que tal Missa ilícita continua sendo válida.

A “forma” apropriada para transformar pão e vinho em corpo e sangue de Cristo são as “palavras da consagração” (também chamadas palavras da instituição). Estas palavras sagradas são o centro espiritual e pináculo da Missa. O coração da Missa é a consagração. O Dr. Nicholas Gihr declara em sua obra clássica, O Santo Sacrifício da Missa: “O momento da consagração é o momento mais importante e solene, o fruto mais sublime e santo de toda a celebração do Sacrifício; pois neste momento é completada aquela obra gloriosa e inapreensivelmente profunda, o Sacrifício Eucarístico, no qual todas as maravilhas do amor de Deus estão concentradas como em um foco de calor e luz. A mudança de pão e vinho no corpo e sangue de Cristo só pode provir dEle, pois ‘só Ele operou maravilhosos prodígios’: é um ato de onipotência criativa. Mas este ato de supremo poder requer um ato humano, um cooperação humana da parte do sacerdote ordenado.”[5] Para uma Missa ser válida, o sacerdote ordenado validamente deve ter a “intenção” de transformar pão e vinho no corpo e sangue de Cristo. São Tomás de Aquino afirma: “a intenção [do sacerdote] é exigida; por meio dela ele se sujeita ao agente principal; ou seja, é necessário que ele tenha a intenção de fazer o que Cristo e a Igreja fazem.”[6]

Imediatamente antes das palavras da consagração vem a oração Qui pridie. O sacerdote nos leva misticamente à “véspera de sua paixão”, quando Jesus tomou o pão em Suas santas e veneráveis mãos (sanctas, ac venerabiles manus suas). Neste instante, o sacerdote já passou seus “dedos canônicos” (polegares e indicadores) no corporal para melhor purificá-los antes de segurar a hóstia com estes quatro dedos apenas. Ao pronunciar elevatis oculis in caelum, o sacerdote, in persona Christi, eleva os olhos para o céu em direção a Deus, o Pai todo-poderoso, dá-Lhe graças (com uma inclinação da cabeça) e abençoa (benedixit) a hóstia. O sacerdote relembra então Jesus partindo o pão e dando-o aos discípulos, enquanto dá voz às palavras de Nosso Senhor: tomai e comei dele, todos (Accipite, et manducate ex hoc omnes).

Observe que o sacerdote não está apenas lendo uma narrativa de um evento do passado; ele está ‘re’-presentando, in persona Christi, o evento por meio das palavras e ações simultâneas do próprio Jesus Cristo. Cristo não está lendo uma “narrativa da instituição” no pretérito. O Cristo-sacerdote não está meramente repetindo as palavras de uma antiga história de uma refeição que está “feita e encerrada”. Cristo está agindo no presente através do sacerdote. É por isso que dizemos que o santo sacrifício da Missa é a ‘re’-presentação incruenta do sacrifício de Cristo no calvário.

Profundamente reclinado sobre o corporal, com os antebraços apoiados na borda do altar (significando sua união com Cristo representado pelo altar), segurando a hóstia com os dedos canônicos de ambas as mãos, o sacerdote pronuncia as palavras da consagração sobre o pão. No missal da Missa Tridentina, as palavras da consagração são impressas com uma letra de tamanho duplo em relação ao resto do texto, e em negrito, para que se destaquem. O sacerdote, com os olhos postos na hóstia, deve dar voz às palavras de Cristo de maneira clara e atenta, sem pausas e num sussurro:

HOC EST ENIM CORPUS MEUM.

Tradução: “Pois isto é o meu corpo.” A hóstia agora É a presença real de Cristo na Eucaristia: Seu corpo, sangue, alma e divindade. Note que, assim como a carne humana contém sangue, também a Igreja ensina que o corpo e o sangue de Jesus Cristo estão presentes em cada espécie eucarística. Ninguém precisa “beber do cálice”, como dizem na Missa Novus Ordo, para receber o precioso sangue de Cristo. Jesus está completo e inteiro na hóstia consagrada. Isto corrobora a prática da Missa Tridentina, na qual a Santa Comunhão é distribuída apenas sob a aparência do pão. As palavras “isto é o meu corpo” aparecem nos quatro relatos bíblicos da Última Ceia[7]. A palavra “pois” não aparece nos relatos bíblicos, mas é considerada como sendo parte da Sagrada Tradição, como uma palavra que o Senhor teria dito.

Note que, depois de consagrar a Sagrada Hóstia, o sacerdote não separará mais seus polegares e indicadores, exceto para segurar o Santíssimo Sacramento, até que eles estejam “purificados” após a santa comunhão. Isto para assegurar que toda partícula da hóstia restante nos dedos seja consumida de maneira reverente durante as abluções. Além do mais, deste momento em diante, o sacerdote fará uma genuflexão honrosa antes e depois de cada toque que fizer na Sagrada Hóstia.

Depois da consagração da hóstia sagrada, o sacerdote segue para a oração simili modo, não sem antes retirar a pala do cálice. A oração inicia seguindo as ações e palavras de Jesus na Última Ceia: do mesmo modo (simili modo), depois da ceia, Ele tomou também o precioso cálice em Suas santas e veneráveis mãos (aqui o sacerdote eleva o cálice ligeiramente acima do corporal com ambas as mãos), deu graças ao Pai (inclinando a cabeça), abençoou-o (o sacerdote faz o sinal da cruz sobre o cálice) e deu-o a Seus discípulos dizendo: tomai e bebei dele todos vós (Accipite, et bibite ex eo omnes). Segurando o cálice nas mãos, um pouco acima do corporal, profundamente inclinado sobre o altar com os antebraços na borda (significando sua união com Cristo, representado pelo altar), o sacerdote dá voz às palavras de Cristo sobre o vinho, de maneira clara e atenta, e num sussurro:

HIC EST ENIM CALIX SANGUINIS MEI, NOVI ET AETERNI TESTAMENTI: MYSTERIUM FIDEI: QUI PRO VOBIS ET PRO MULTIS EFFUNDETUR IN REMISSIONEM PECCATORUM.

Tradução: “Pois este é o cálice do meu sangue, sangue do novo e eterno testamento (mistério da fé), o qual será derramado por vós e por muitos para remissão dos pecados.” Com relação às palavras “pois este é o cálice do meu sangue”, Gihr opina: “De acordo com a opinião geral, estas palavras e somente elas constituem a fórmula essencial da consagração do cálice; pois elas significam e tornam realidade a presença do sangue de Cristo sob a aparência do vinho.”[8] E continua dizendo: “As palavras seguintes… são acrescentadas por serem apropriadas. É aceitação comum que elas foram ditas alguma vez pelo próprio Senhor; além do mais, elas explicam a dignidade e os efeitos deste Sacrifício.”

Todas as outras palavras da consagração do vinho podem ser encontradas em um ou mais relatos da Última Ceia, exceto por “eterno” e “mistério da fé”. Estas palavras que não estão na Bíblia, incluindo “pois” (já mencionada acima na consagração do pão), têm origem na outra fonte da verdade católica: a Tradição Sagrada, tão válida quanto a Sagrada Escritura. Lembre que o santo sacrifício da Missa era celebrado pelos apóstolos antes mesmo da Igreja Católica elaborar a seção do Novo Testamento da Bíblia. Em especial, o papa Leão IX declarou que as palavras mysterium fidei (mistério da fé) são uma “tradição transmitida por São Pedro, o autor da liturgia romana.” De fato, São Pedro, o primeiro papa, escutou Nosso Senhor falar na Última Ceia e presidiu em Roma, onde morreu e está sepultado. As palavras “novo e eterno testamento” (ou seja: nova e eterna aliança) são essenciais ao entendimento católico de que a Nova Aliança, selada pelo sangue de Cristo, aboliu completamente e para sempre a Antiga Aliança, a qual existia para durar apenas temporariamente até a vinda do Messias, nosso Senhor e nosso Deus, Jesus Cristo[9].

As palavras da consagração incluem: qui pro vobis et pro multis effundetur in remissionem peccatorum (o qual será derramado por vós e por muitos para remissão dos pecados). Embora estas palavras nunca tenham mudado na Missa Tridentina, é incrível que as palavras pro multis tenham sido traduzidas incorretamente e de propósito quando da introdução da Missa Novus Ordo na língua inglesa[10], passando a ser lidas como “por todos” (pro omnibus). Mudar as palavras de Cristo foi um insulto feito para apoiar o pensamento modernista e herético de que TODOS são salvos; e para reforçar a heresia do indiferentismo religioso, o qual alega que não importa a religião – ou a falta dela – que o sujeito professa, já que todo mundo vai para o céu. Os estudos feitos levaram muitos a crer que a tradução errada e proposital invalidava a Missa Novus Ordo. Após quarenta longos anos de confusão, escândalo e profunda angústia, a tradução inglesa voltou ao correto “por muitos” (pro multis), por ordem do papa Bento XVI[11]. Isto é um exemplo de como a Missa Tridentina serve de guardiã da fé: pelo Cânon estar livre de erros[12], pelo Cânon nunca ter sido alterado, e pelo Missale Romanum tradicional estar somente em latim.

Note que effundetur in remissionem peccatorum é assim compreendido: o sangue de Cristo foi derramado pela remissão dos pecados: todos os pecados desde o pecado original de Adão e Eva; e todos os outros pecados passados, presentes e futuros. Entretanto, “nem todos recebem o benefício de Sua morte, mas apenas aqueles aos quais o mérito de Sua paixão é comunicado.”[13] Sendo assim, nem todo mundo é salvo: “Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado”[14]; “em nenhum outro há salvação, porque debaixo do céu nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual devamos ser salvos”[15]; “trabalhai na vossa salvação com temor e tremor”[16]; além disto, existe aquele pecado mortal do qual a pessoa não se arrepende e não pede perdão, e que pode levá-la à danação eterna[17]. Note ainda que o “mérito de Sua paixão é comunicado” pelo santo sacrifício da Missa: “Em virtude deste sacrifício, os méritos infinitos de Cristo, obtidos por Seu precioso sangue derramado de uma vez [por todas] na cruz pela salvação dos homens, são aplicados às nossas almas.”[18]

calvario

É importante observar que imediatamente após as palavras da consagração, primeiro sobre o pão, e depois sobre o vinho, em ambos os casos o sacerdote faz a genuflexão (e a sineta soa) antes de levantar as sagradas espécies. Isto colabora para assegurar o entendimento católico de que o milagre da transubstanciação, o qual acaba de acontecer, nada tem a ver com o testemunho da assembléia. Portanto, quando da elevação da hóstia ou cálice para adoração dos fiéis, a sineta toca pela segunda vez, e não pela primeira. Depois de voltar as espécies sagradas sobre o altar, o sacerdote faz nova genuflexão e a sineta toca pela terceira vez – simbolizando a Santíssima Trindade. Em relação ao precioso sangue, neste momento o cálice é coberto com a pala, o que o protege da profanação por insetos e outros elementos estranhos.

Uma nota pessoal sobre as palavras da instituição: quando eu fui empossado como capelão de um instituto público para retardados mentais, duas unidades (das muitas que havia) continham residentes com deficiências severas (físicas e mentais) e que não podiam falar. Em geral eles passavam o dia fazendo ruídos vocais, exceto quando as palavras da consagração eram pronunciadas na Missa e as elevações aconteciam – então havia um completo e incomum silêncio na capela. Eles sabiam! Suas mentes inocentes sentiam que a presença real de Cristo havia entrado ali no local. Em outra unidade com deficiências menos graves, onde a idade mental não passava de quatro anos, havia um menino chamado Joey que gritava durante a elevação da Hóstia sagrada: “Meu Senhor e meu Deus!” E Jesus disse: “Da boca dos meninos e das crianças de peito tirastes o vosso louvor.”[19] O papa São Pio X, com efeito, emitiu uma indulgência de sete anos para todos aqueles que, ao fixarem o olhar sobre a hóstia sagrada sendo elevada durante a Missa, exclamarem com fé e devoção: “Meu Senhor e meu Deus!” No instante da elevação do precioso sangue, o melhor amigo de Joey, Butchie, se unia a ele dizendo: “Meu Jesus, misericórdia!”

Imediatamente após a consagração do precioso sangue, o sacerdote reza: Haec quotiescumque feceritis, in mei memoriam facietis (Todas as vezes que isto fizerdes, fazei-o em memória de mim). A Igreja sempre ensinou que este momento foi a instituição do sacramento das Ordens Sagradas. A Última Ceia na quinta-feira santa foi também a instituição do sacramento da Eucaristia; foi a primeira Missa. A Última Ceia foi coisa seria. Foi uma antecipação sombria do Calvário, e não uma “celebração alegre.” Na Última Ceia o milagre da transubstanciação aconteceu pela primeira vez: Nosso Senhor e Deus, Jesus Cristo, como Sumo-Sacerdote eterno, transformou pão e vinho em Seu corpo, sangue, alma e divindade.

Na Última Ceia, Cristo deixava para a Igreja também Sua vontade e Seu testamento: “Fazei-o em memória de mim.” Com esta oração Haec quotiescumque, Jesus ordenou que os apóstolos e seus sucessores no sacerdócio oferecessem a Santa Missa, e continuassem assim a oferecer o sacrifício a Deus Todo-poderoso, trazendo Sua presença real ao mundo, para adoração e para servir como alimento espiritual. Cristo não ordenou aos sacerdotes que presidissem uma “refeição comunitária.” Cristo, na Última Ceia, mandou que os sacerdotes fizesse aquilo que só eles podem fazer: oferecer o sacrifício de Deus-Filho no calvário a Deus-Pai Todo-poderoso. O padre John Hardon, em seu Dicionário Católico, define assim o sacerdote: “Um mediador autorizado, que oferece o verdadeiro sacrifício em reconhecimento do supremo domínio de Deus sobre os seres humanos, e em expiação por seus pecados.” O sacerdote é ordenado para oferecer o sacrifício, e não para preparar refeições. Ao longo de toda a Bíblia e tradição da Igreja, Deus exige sacrifícios, e não refeições. Enquanto que todos os católicos são obrigados a ir à Missa dominical para prestar culto a Deus no sacrifício, nem todos estão em estado de graça para receber a santa Comunhão.

As duas consagrações separadas, primeiro do corpo e depois do sangue de Jesus na Última Ceia e na Missa, significam ‘misticamente’ a morte do Senhor no calvário. Na Última Ceia, Jesus antecipou Seu sacrifício no calvário. Naquela primeira Sexta-Feira Santa, no calvário, a separação violenta entre Seu precioso sangue e Seu corpo causou uma verdadeira separação entre Sua alma humana e Seu corpo, o que provocou Sua morte. No Santo Sacrifício da Missa, a Sua morte histórica na cruz é recordada e expressa pela dupla consagração, que é a separação mística entre o precioso sangue e o corpo sagrado de Cristo. Jesus morre misticamente a cada Missa oferecida. Entretanto, lembre que, após Sua gloriosa ressurreição, o corpo, o sangue, a alma e a divindade de Cristo não podem na realidade ser jamais separados novamente. A separação na Missa é mística, embora o sacrifício seja real. Cristo não pode morrer de novo. Assim sendo, o Senhor eucarístico está verdadeiramente presente no altar em estado vivo e glorioso, do mesmo jeito que está no céu; e Seu corpo vivo, Seu sangue vivo, Sua alma viva e Sua divindade viva estão presentes nas duas espécies, o tempo todo, imediatamente após as consagrações.

Concluindo: a Última Ceia e o calvário estão intimamente ligados. Como última reflexão, considere uma possível conexão entre a Última Ceia e o calvário que se crê ser do tempo de Cristo, e que ainda não tem explicação segundo a ciência moderna: é o sudário que São Pedro e São João contemplaram no túmulo vazio, e o qual é muito provavelmente o Sudário de Turim, atualmente guardado na capela real da catedral de São João Batista em Turim, na Itália. Muitos, incluindo este escriba, acreditam que o Sudário é a longa mortalha de Cristo, que cobriu todo o corpo de Nosso Senhor. Este Sudário contém imagens notáveis e inexplicáveis, bem como manchas de sangue, de um homem crucificado e coroado de espinhos. O curioso é que, além das manchas de sangue, há também manchas de vinho.

Alguns estudos conectando José de Arimatéia ao Cenáculo e ao sepultamento de Cristo, junto com as manchas de vinho que foram encontradas, dão credibilidade a uma possibilidade impressionante: a de que a toalha de mesa usada para a primeira Missa na Última Ceia seja o próprio Sudário de Turim presente no calvário. A teoria é que, na Sexta-Feira Santa, as lojas que vendiam as grosseiras mortalhas, tecidas com ligação simples 1×1, estariam fechadas para a Páscoa, forçando José de Arimatéia a usar a toalha de mesa da Última Ceia, tecida com ligação mais sofisticada 3×1, como mortalha. Além disto, acredita-se que o Cenáculo, parte de uma sinagoga liderada por José de Arimatéia, e local da Última Ceia, foi construída sobre o túmulo do rei Davi. Seria maravilhosamente apropriado que Nosso Senhor Jesus, o Rei dos Reis, o “Filho de Davi”, oferecesse a primeira Missa sobre o celebrado túmulo do rei Davi; além de aparecer ali depois da Ressurreição no domingo de Páscoa. E que coisa interessante: a conexão católica entre a Última Ceia e o Calvário, que protestantes e modernistas negam, parece ser confirmada em nosso tempo pelo Deus Todo-poderoso através do Santo Sudário de Turim. Deus escreve certo por linhas tortas. Ele deixa a nós, pela fé, a tarefa de conectar os pontos.

In Nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti. Amen.


[*] Traduzido do original em inglês, publicado no jornal católico americano The Remnant, edição de 23 de março de 2016.

[1] Ver a encíclica Pascendi Dominici Gregis (39), na qual o papa São Pio X define o modernismo como “a síntese de todas as heresias.”

[2] Pão de trigo, sem fermento.

[3] Dt 16,3.

[4] Lc 12,1.

[5] The Holy Sacrifice of the Mass, páginas 666-667.

[6] Suma Teológica, parte III, q64, a8.

[7] Mt 26,26-28; Mc 14,22-24; Lc 22,19-20; e 1 Cor 11,24-25.

[8] Página 675.

[9] Denzinger 712; Ex Quo 61; Mystici Corporis 29 e 31.

[10] N.T.: Idem para a língua portuguesa.

[11] N.T.: A tradução portuguesa, na Missa Novus Ordo, continua errada.

[12] Trento: seção XXII, capítulo IV.

[13] Trento: seção VI, primeiro decreto, capítulo III.

[14] Mc 16,16.

[15] Atos 4,12.

[16] Fl 2,12.

[17] Denzinger, 1002; Catecismo da Igreja Católica, 1035.

[18] Papa Leão XIII, Carta Encíclica “Caritatis Studium”, 9.

[19] Mt 21,16.

O Homem no Matrimônio

Autor: Pierre Dufoyer
Tradução: Ana Cândida Tocheton Cristofoletti
Revisão: André Carezia

Marido

A chave para se conhecer a psicologia de uma mulher constitui-se, principalmente, na riqueza de seu coração, de sua vida sentimental e de sua notável sensibilidade psíquica (…).

Sua força é o coração. Possui uma capacidade sentimental particularmente aflorada e por causa disso reage de maneira intensa a todas as emoções. Seus modos gentis e atenciosos no trato constituem prova visível desse afeto que lhe proporciona grande alegria (…). Uma mulher que ama possui mil maneiras de ser carinhosa, demonstrar delicadeza e agradar. Nessa arte é extremamente hábil. (…)

O marido deverá recordar-se que fará a esposa feliz, acima de tudo, quando a envolver com um intenso amor vindo de dentro de seu coração, aquele amor que se constitui no grande sonho de qualquer noiva. (…) Sem amor, a alma da mulher atrofia. Naturalmente, espera-se firmeza do marido, mas uma firmeza com amor. Dele emana força, mas uma força unida à delicadeza. É desejada a força masculina, mas entrelaçada com amor e carinho.

Enquanto busca cuidadosamente desvendar a natureza da própria esposa, o homem deve preocupar-se em possuir todas as verdadeiras características masculinas, mas sem os respectivos defeitos. Deve ser calmo, senhor de si, com retidão de caráter, seguro e enérgico em suas maneiras. Com esse comportamento firme nas diversas situações e dificuldades da vida, dá à esposa um reconfortante sentimento de segurança e confiança. (…) Aquele que compreende o segredo da verdadeira autoridade, sabe combinar firmeza com delicadeza, força com suavidade. Mas deverá também desvendar a natureza de sua esposa e fazê-la feliz.

Na convivência com a mulher amada, o homem descobre tesouros do coração que nenhuma outra pessoa pode oferecer. Por isso, deve tolerar, com caridade, suas fraquezas de caráter. (…) Nunca deve o marido perder a calma, nem mesmo em resposta ao temperamento emotivo da esposa. Nesses casos, é necessário um apoio efetivo ao invés de uma reação irritada, uma vez que não existem más intenções. O marido atencioso deve empreender a tarefa que o destina a ser o apoio e a proteção da própria mulher. A característica fundamental de sua natureza, e que o torna encantador, é a capacidade de unir a firmeza com a suavidade.


(Extraído da edição italiana do livro “A Intimidade Conjugal: o Livro do Marido”, de Pierre Dufoyer, publicado em 1957.)