Tirania e abuso sexual na Igreja Católica: uma tragédia jesuíta

Autor: John R. T. Lamont[*]
Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

1830

Em vista das novas revelações sobre abusos sexuais na Igreja, muitos católicos querem saber como é possível que a situação mostrada por essas revelações viesse a se instalar. A primeira pergunta já vem de longa data: por que os bispos, ao invés de remover os predadores sexuais de seus ministérios, escondem os seus crimes e transferem-nos para novos postos? Nenhuma resposta satisfatória foi dada a esta questão ainda. E agora ela se tornou mais grave por causa de uma segunda pergunta: como é que nomeiam Theodore McCarrick arcebispo de Washington e cardeal, e ainda o fazem planejador-mor da política de abuso sexual dos bispos americanos em 2002, sendo que o seu envolvimento nos abusos sexuais era amplamente conhecido nos círculos clericais e já tinha sido levado ao conhecimento da Santa Sé?

Estas coisas não acontecem por causa da lei da Igreja. Até o dia 27 de novembro de 1983, a lei em vigor na Igreja Latina era o Código de Lei Canônica de 1917. O cânon 2359 deste código, no parágrafo 2, decretava que se os clérigos cometessem, com menores de 16 anos, uma ofensa ao sexto mandamento do decálogo, eles deveriam ser suspensos, declarados infames, destituídos de qualquer cargo, benefício, dignidade ou posto que ocupassem; nos casos mais sérios deveriam ser laicizados.

Este cânon foi substituído pelo cânon 1395 do código de 1983, que no parágrafo 2 declara: ‘o clérigo que de outro modo tenha cometido delito contra o sexto mandamento do Decálogo, […] com menor abaixo de dezesseis anos, seja punido com justas penas, não excluída, se for o caso, a demissão do estado clerical.’ O código de 1983 trata os crimes do tipo cometido pelo cardeal McCarrick no cânon 1395, parágrafo 2: ‘O clérigo que de outro modo tenha cometido delito contra o sexto mandamento do Decálogo, se o delito foi praticado com violência, ou com ameaças, ou publicamente, ou com menor abaixo de dezesseis anos, seja punido com justas penas, não excluída, se for o caso, a demissão do estado clerical.’ Esses cânones não dispõem essas punições como opcionais; eles obrigam que tais crimes sejam punidos pela autoridade eclesiástica. A pergunta então agora é outra: por que as autoridades eclesiásticas violaram a lei e não cumpriram esses cânones?

Sem dúvida uma porção de fatores se juntou para produzir esta situação desastrosa. Um fator, porém, não foi ainda amplamente discutido ou compreendido, mesmo tendo um efeito primário na geração da situação escandalosa que ora prende a nossa atenção. Tal fator é a influência dentro da Igreja de um conceito de autoridade como uma forma de tirania, ao invés de se basear na lei e de ser constituída por ela. Este ensaio apresenta a natureza desse conceito, descreve como ele veio a se tornar influente, e explora alguns de seus resultados mais significativos.

As origens intelectuais desse conceito de autoridade e obediência se encontram principalmente na teologia e filosofia nominalista. Guilherme de Ockham, notoriamente, tomou partido de um dos lados do dilema de Eutífron ao afirmar que as ações boas são boas simplesmente por serem ordenadas por Deus, e que Deus poderia tornar bons a idolatria, o homicídio, a sodomia, e mau o abster-se dessas ações, se Ele ordenasse que elas fossem praticadas. Este conceito de autoridade divina dá força a uma compreensão tirânica da autoridade em geral: ela se basearia na vontade arbitrária daquele que detém o poder, ao invés de se basear na lei.

Uma compreensão da autoridade baseada na lei, por outro lado, sustenta que a lei derivada da natureza do bem é que é a fonte da autoridade de um líder, e delimita a esfera na qual um líder pode emitir ordens. Os estudiosos há muito tempo sabem que o domínio do pensamento nominalista no século quatorze deixou marcas no pensamento católico por vários séculos; importantes teses nominalistas permaneceram incrustadas mesmo em estudiosos que se acreditavam defensores das tradições anti-nominalistas. A natureza da autoridade era uma dessas teses. Todos os teólogos e filósofos católicos durante a contra-reforma sustentavam que a obrigação moral e legal devia ser compreendida como conseqüência da ordem de um superior; [Francisco] Suárez, caracteristicamente, descrevia a lei como ‘o ato pelo qual um superior deseja obrigar um inferior a desempenhar uma ação específica.’

Um dos principais objetivos da contra-reforma era a restauração da disciplina entre os clérigos e os religiosos. As teorias sobre a lei e a autoridade que guiaram essa restauração se distinguiam da posição puramente nominalista, mas estas distinções se perderam quando os princípios práticos de treinamento em obediência foram concebidos. Estes princípios incorporaram uma compreensão tirânica da autoridade, e uma compreensão servil da justa obediência, no sentido de que consistiam na total submissão à vontade do superior. A mais influente formulação destes princípios aparece nos escritos de Santo Inácio de Loyola sobre a obediência. Os elementos centrais da noção de autoridade inaciana são os seguintes:

  • A mera execução da ordem de um superior é o grau mais baixo de obediência, e não merece o nome de obediência, nem constitui um exercício da virtude da obediência.
  • Para que mereça ser chamado de virtude, um exercício de obediência deve alcançar o segundo grau da obediência, que consiste em não apenas fazer o que o superior ordena, mas conformar a vontade à do superior; assim, não apenas se deseja obedecer uma ordem, mas se deseja que aquela ordem específica seja dada – simplesmente porque o superior a deseja.
  • O terceiro (e mais elevado) grau de obediência consiste em conformar não apenas a vontade mas também o intelecto à ordem do superior; assim, não apenas se deseja que a ordem seja dada, mas em verdade se acredita que a ordem é a ordem certa a ser dada, simplesmente porque o superior a deu. ‘Aquele que visa a fazer uma completa e perfeita oblação de si mesmo deve oferecer, além da sua vontade, o seu entendimento; este é o grau seguinte e o mais elevado da obediência. Ele não deve somente desejar, mas deve pensar igual ao superior, submetendo seu julgamento ao do superior, tanto quanto uma vontade devota pode subjugar o entendimento.’
  • No grau mais elevado e meritório da obediência, o fiel não tem mais vontade própria (ao obedecer) do que um objeto inanimado. ‘Todos aqueles que vivem sob obediência devem se permitir ser levados e dirigidos pela divina providência, através da influência do superior, como um corpo sem vida se permite ser levado a qualquer lugar e ser tratado de qualquer maneira; ou como se ele fosse a bengala de um homem idoso que serve em qualquer lugar e é usada da maneira que o seu portador deseje usar.’
  • O sacrifício da vontade e do intelecto que está envolvido nesta forma de obediência é a forma mais elevada de sacrifício possível, já que ela oferece a Deus as faculdades humanas mais elevadas: o intelecto e a vontade.

É preciso dizer que o exercício prático da autoridade de Santo Inácio não estava de acordo com os seus próprios escritos. Ele tinha o costume de enviar jesuítas em missões independentes nas quais eles precisavam ter iniciativa própria. Se interpretados de modo literal, os seus escritos não poderiam ser aplicados nestas situações, já que o superior não estaria ali para dar as ordens às quais se devia esse tipo de obediência.

Podemos explicar a contradição entre teoria e prática pela influência que em Sto. Inácio tiveram as idéias filosóficas e teológicas aceitas em sua época, e pelos objetivos que queria atingir com seus ensinamentos sobre a obediência. Sua doutrina a respeito da obediência foi planejada para proporcionar um treinamento básico em disciplina, do tipo praticado pela profissão militar da qual ele tinha feito parte. Este treinamento também foi planejado para, depois de completado, assegurar que os jesuítas em missões independentes internalizassem o objetivo que seus superiores tinham mandado cumprir, de modo que pudessem levar a cabo, corretamente e de todo o coração, as missões que lhes tinham sido confiadas. Santo Inácio, porém, não tinha a intenção de dar aos superiores um controle totalitário sobre todos os pensamentos e ações de seus subordinados.

Infelizmente, aqueles que interpretaram as suas obras leram os seus escritos de maneira literal, e até lhe deram crédito por defender um controle totalitário desse tipo como o modelo de autoridade religiosa. Algumas apresentações de seus ensinamentos descreveram como algo especialmente elevado e digno de nota obedecer uma ordem sobre a qual paira a suspeita – mas não a certeza – de ser imoral. Esta declaração sobre os méritos excepcionais da obediência às ordens moralmente duvidosas é feita por Santo Inácio em sua carta 150. A carta foi escrita na realidade a pedido dele pelo seu secretário Pe. Polanco; mas já que foi enviada com a assinatura de Santo Inácio, se beneficiou da sua autoridade.

O desenvolvimento pleno de um conceito tirânico da autoridade religiosa e de um conceito servil da obediência encontra-se em Ejercicio de Perfección y Virtudes Cristianas, de Alonso Rodriguez, S.J. Esta obra, o manual de teologia ascética mais lido durante a contra-reforma, foi publicado em 1609. Foi leitura obrigatória para os noviços jesuítas até o Concílio Vaticano II. O conteúdo dele era aceito como a interpretação correta dos ensinamentos de Santo Inácio sobre a obediência. No exame de consciência que propõe, o Pe. Rodriguez (não confundir com Santo Alfonso Rodriguez) exige que o penitente:

  • Obedeça com a vontade e com o coração, tendo uma só intenção e determinação: a mesma do superior.

  • Obedeça também com o entendimento e com o julgamento, adotando a mesma visão e o mesmo sentimento do superior, sem dar lugar a qualquer juízo ou razão para o contrário.

  • Assuma a voz do superior… como a voz de Deus, e obedeça ao superior, quem quer que seja, como a Cristo Nosso Senhor, fazendo o mesmo em relação às autoridades subordinadas.

  • Siga o preceito da obediência cega: que obedeça sem questionar ou examinar, nem buscar motivos para os porquês, considerando como razão suficiente o fato de ser obediência e de ser a ordem do superior.

Rodriguez louva a obediência – do jeito que ele a entende – em termos reveladores:

Um dos maiores confortos e consolos que nós temos na religião é este: o de que, se fizermos o que manda a obediência, estaremos seguros. O superior é que pode se enganar ao ordenar isto ou aquilo, mas você tem a certeza de não estar errado ao fazer o que lhe ordenam, porque a única conta que você deve prestar a Deus é a de ter feito tudo o que lhe ordenaram; com isto a sua prestação de contas estará cumprida a contento diante de Deus. Você não precisa justificar que a coisa ordenada era uma coisa boa, ou que alguma outra coisa teria sido pior; isto não lhe pertence, mas pertence à prestação de contas do superior. Quando você age sob obediência, Deus tira dos seus livros e coloca nos livros do superior.

Rodriguez, assim como outros autores, abre aquela costumeira exceção: não é preciso obedecer ordens manifestamente contrárias à lei divina. Entretanto, já foi observado que a doutrina jesuítica do probabilismo tende a anular esta exceção. De acordo com esta doutrina, não é pecado fazer qualquer ação que uma autoridade respeitável declare ser permitida; e o superior religioso de alguém geralmente conta como autoridade respeitável. Além disto, há um dado psicológico que tende a tornar ineficaz esta exceção. É difícil internalizar e praticar esta noção de obediência; requer tempo, motivação e esforço. Depois de ser executada com sucesso, tem um efeito duradouro. Uma vez que alguém tenha destruído a capacidade de criticar as ações de seus superiores, não consegue mais ressuscitar esta capacidade e exercê-la à vontade. Seguir a diretriz de recusar obediência ao superior, quando suas ordens são manifestamente pecaminosas, se torna então psicologicamente difícil e até mesmo impossível – exceto talvez nos casos mais extremos, como no caso de uma ordem para assassinar alguém, mas este já não é o tipo de ordem ilícita que os superiores religiosos têm interesse em dar.

Este conceito de obediência não se limitou a ser uma peculiaridade da Sociedade de Jesus, mas veio a ser adotado pela Igreja da contra-reforma como um todo. Tornou-se predominante na nova instituição dos seminários da contra-reforma; o Tratado da Obediência do sulpiciano Louis Tronson colocou os ensinamentos e escritos de Santo Inácio no cume da doutrina católica sobre a obediência. A adoção deste conceito pelos sulpicianos foi especialmente importante por causa do seu papel central no treinamento de sacerdotes nos seminários a partir do século XVII. O conceito servil da obediência continuou sendo o padrão no século XX. Adolphe Tanquerey, em sua obra Précis de théologie ascétique et mystique, amplamente lida e traduzida (e, em vários aspectos, excelente), chegou a escrever que as almas perfeitas que atingem o mais alto grau de obediência submetem seu julgamento ao do superior, sem nem mesmo examinar as razões que ele tem para dar as ordens.

A abordagem jesuítica da manifestação da consciência contribuiu para inculcar uma compreensão totalitária da autoridade. Santo Inácio não somente encorajou mas exigiu a manifestação da consciência, e exigiu que a manifestação fosse feita ao superior religioso. A manifestação da consciência incluía ‘as disposições e desejos pela execução do bem, as paixões e tentações que movem a alma, as faltas mais freqüentemente cometidas… o padrão usual de conduta, afeições, inclinações, propensões, tentações e fraquezas.’ Ele exigiu que as manifestações fossem feitas a cada seis meses, e declarou que todos os superiores e até mesmo os seus representantes estavam qualificados para receber tais manifestações. Ao invés de restringir o propósito da manifestação da consciência ao bem-estar espiritual do manifestante, ele não apenas permitiu como exigiu que o superior usasse para propósitos administrativos o conhecimento obtido dos subordinados através da manifestação da consciência.

Não é preciso sublinhar o poder de presunção que esta prática dá ao superior religioso. As antigas ordens religiosas resistiram à introdução de uma manifestação de consciência compulsória no estilo de Santo Inácio, mas vários institutos religiosos modernos a adotaram. Os abusos de tal prática foram tão sérios que o papado teve afinal de aboli-la. Foi proibida pelo cânon 530 do Código de Direito Canônico de 1917 para todos os religiosos (os jesuítas, porém, através de um decreto do Papa Pio XI, receberam uma permissão especial para mantê-la). Nessa altura, entretanto, a prática já tinha tido vários séculos para deixar sua marca na compreensão da autoridade, nos modelos de comportamento, e na psicologia dos superiores e subordinados dentro da Igreja Católica.

Pode-se ver a novidade desta compreensão da obediência no contraste com a posição de Santo Tomás de Aquino. Santo Tomás considera que o objeto próprio da obediência é o preceito do superior (Summa Theologiae, IIa-IIae q. 104 a. 2 co., a. 2 ad. 3). O grau mais baixo de obediência de Santo Inácio, que ele não considera virtuoso, é considerado por Santo Tomás como a única forma de obediência. Ele sustenta que as formas supostamente mais elevadas de obediência de Santo Inácio nem sequer entram na categoria de virtude da obediência:

Diz Sêneca (De Beneficiis iii): Erra quem pensa que a servidão envolve o homem na sua totalidade. Pois a sua melhor parte está isenta dela; porquanto, ao passo que o corpo está adscrito e sujeito ao senhor, o espírito é livre. Portanto, no que respeita ao movimento interior da vontade, ninguém está obrigado a obedecer senão a Deus. (IIa-IIae q. 104 a. 5 co.)

Santo Tomás não considera que a obediência envolva o sacrifício da vontade enquanto tal. Em sua visão, a virtude da obediência envolve apenas o sacrifício da teimosia, definida como a adesão a objetivos contrários à nossa felicidade eterna. Rodriguez, porém, deixa claro que não é a teimosia, mas a própria faculdade humana da vontade que deve ser sacrificada por inteiro. Isto é um sacrifício no sentido de abandono e destruição, já que envolve eliminar o funcionamento da vontade do sujeito para entregá-la à vontade de um outro ser humano. Santo Tomás, além disto, não pensa na obediência como uma forma virtuosa de ascese pessoal. Ele não considera que obedecer uma ordem sem gostar dela seja melhor, em si mesmo, do que obedecer uma ordem cujo cumprimento nos deixa contentes.

Uma pessoa boa vai se alegrar no cumprimento de qualquer ordem apropriada, já que tais ordens concorrem para o bem comum. Ela não considera que todos os atos bons são motivados pela obediência a Deus, porque considera que há virtudes cuja prática antecede à obediência – a obediência religiosa pressupõe, por exemplo, a fé. Nem considera que a essência do pecado consista na desobediência a Deus, ou mesmo que todo pecado envolva o pecado da desobediência. Todo pecado envolve de fato uma desobediência às ordens divinas, mas esta desobediência não é desejada pelo pecador exceto se o pecado envolve uma vontade de desobedecer a ordem somada a uma vontade de fazer o ato proibido (IIa-IIae q. 104 a. 4 ad 3). A obediência é simplesmente um ato da virtude da justiça, que é motivada pelo amor a Deus no caso de ordens divinas e pelo amor ao próximo no caso de ordens de um superior humano. Estes amores são mais fundamentais e mais abrangentes do que a obediência.

O conceito de autoridade religiosa e obediência religiosa que se tornou dominante na Igreja a partir do século XVI foi então uma substancial inovação que se desviou da visão católica anterior. Acabou influenciando a Igreja através do treinamento fornecido nos seminários aos padres diocesanos, e através da abordagem disciplinar nas ordens religiosas. A vida cotidiana dos seminaristas e religiosos foi estruturada como um sem fim de regras a governar as minúcias dos comportamentos, e as atividades à margem dessa rotina só podiam ser executadas em geral com a permissão do superior. Tal permissão era arbitrariamente negada, de tempos em tempos, a fim de encorajar a submissão dos subordinados. Não se davam as razões para as ordens, e não se respondiam as perguntas a respeito das razões para as ordens.

Esta forma de encarar a autoridade teve efeitos daninhos ao clero e aos religiosos. A obediência servil, extraída dos subordinados à força, destruiu o vigor do caráter e a capacidade de pensamento independente. O exercício da autoridade tirânica por parte dos superiores produziu um orgulho arrogante e uma deficiência na auto-crítica. O fato de que todos os superiores começavam algum dia na posição de subordinados significava que a subida era mais fácil para aqueles que eram habilidosos nas artes do escravo – bajulação, dissimulação e manipulação.

Os leigos não podiam almejar subir na hierarquia eclesiástica, de modo que o efeito de se promover a compreensão servil da obediência religiosa foi infantilizá-los na esfera religiosa. Esta infantilização se observa na arte e na devoção religiosas, especialmente a partir do século XIX, e na propensão para a obediência cega ao clero. O resultado foi a dissociação entre a maturidade adulta e a crença religiosa, o que solapou entre os leigos a fé religiosa e o compromisso, contribuindo para a paulatina secularização das sociedades católicas.

Os efeitos desta concepção de obediência foram minimizados por alguns contrapesos. A lei canônica, a disciplina litúrgica, as regras das ordens religiosas, tudo isso continha prescrições detalhadas que limitavam o exercício tirânico da autoridade por parte dos superiores. A filosofia e a teologia escolásticas, a educação clássica, o requisito de proficiência no latim, isso tudo impunha padrões objetivos de conhecimento e de capacidade intelectual exigidos do clero. As escolas secundárias jesuíticas, de longe as mais importantes e bem-sucedidas do seu apostolado, eram governadas por um ratio studiorum formidavelmente desenhado: estabelecia em detalhes o que era para ser estudado, e como. Enquanto o conceito tirânico de autoridade foi contido por esses fatores, ele aleijou mas não matou a Igreja.

Um aspecto pérfido dessa concepção de autoridade é que, no início, ela foi um aparente sucesso. Foi usada para pôr fim às más condutas financeiras e sexuais do clero que colaboraram para gerar a Reforma, contribuindo, assim, para as brilhantes conquistas da Contra-Reforma. A situação da Igreja era similar àquela de Roma sob Augusto, ou àquela da França sob Luís XIV: a paz e a ordem produzidas pelo governo absolutista permitiram o florescimento dos talentos produzidos pela sociedade livre que havia antes do absolutismo. Ao se esgotar a herança da liberdade, e ao se sentirem os efeitos totais do absolutismo, esses talentos mingüaram. A constelação fulgurante de santos e gênios que iluminou a França católica do século XVII foi sucedida, no século XVIII, pelo fracasso e freqüente capitulação diante dos ataques anti-cristãos do Iluminismo.

Esta exposição da história e da natureza do conceito tirânico da autoridade na Igreja explica muitos aspectos da crise de abusos sexuais. Maturidade psicológica é algo necessário para resistir bem às tentações sexuais. A inculcação de uma compreensão servil da autoridade, por atacar esta maturidade, torna muito difícil a castidade. Num sistema de treinamento baseado na inculcação da obediência servil, as personalidades deformadas e inadequadas daqueles que são atraídos por atividades sexuais perversas não são identificadas. Pessoas assim geralmente são boas em servilismo e dissimulação. Elas se desenvolvem tremendamente num sistema baseado na obediência servil, ao passo que homens de inteligência e caráter sofrem com ele.

Os superiores não raciocinam que a sua própria autoridade está presa à autoridade da lei, e não se inclinam a respeitar e obedecer a lei enquanto tal. Eles têm um forte incentivo para encobrir abusos sexuais, porque a autoridade do clero sobre os leigos repousa sobre um conceito infantilizado de clérigos como figuras paternas divinizadas, incapazes de errar. Tal conceito é destruído quando delitos sérios são expostos publicamente. Os leigos que acreditam neste conceito são facilmente persuadidos ou intimidados a manterem sigilo sobre os casos de abusos sexuais que eles encontram. Num sistema tirânico, tanto os superiores quanto os subordinados são ensinados a idolatrar o poder e aqueles que o detém, e a desprezar os inferiores, os fracos e as vítimas. O resultado é a tendência de não sentirem simpatia pelas vítimas de abuso sexual, em particular as crianças. Sua simpatia é dirigida aos predadores, que exercem o poder tirânico na sua forma extrema. Todos esses fenômenos descritos acima já foram observados repetidas vezes nos casos de abusos sexuais que vieram à tona.

A infantilização gerada por essa compreensão da autoridade colaborou de várias maneiras para os abusos sexuais. Uma pessoa infantilizada não consegue exercer um julgamento independente, e não tem a capacidade de se defender ou defender os outros. As criancinhas não são capazes de compreender o mal, e não são capazes de admitir ou mesmo de entender que suas figuras paternas são malignas. Aqueles sacerdotes que levaram a sério a compreensão tirânica da autoridade, ao invés de se adaptar a ela para alcançar suas ambições e usufruir dos prazeres da tirania, ficaram então psicologicamente incapazes de se manifestar contra os abusos sexuais e de correr riscos para corrigi-los. Os ambiciosos não o fizeram porque não havia nisso nenhum proveito para eles.

Quanto aos leigos, a verdade nua e crua é que a maior parte dos abusos sexuais de crianças por padres aconteceram com a conivência dos pais dessas crianças. Sem esta conivência, o abuso sexual de crianças e adolescentes por padres nunca teria alcançado as proporções que alcançou. Observe este testemunho de “Tiago”, garoto abusado sexualmente repetidas vezes pelo cardeal McCarrick:

Tiago afirmou ter tentado, aos 15 ou 16 anos, contar ao seu pai sobre os abusos que estava sofrendo. Mas o padre McCarrick era tão amado pela sua família, disse ele, e considerado tão santo, que a idéia era incomensurável… Tiago disse que quando era menino ele não tinha nenhum lugar seguro para discutir o que estava acontecendo com ele. “Lugar nenhum. Lugar nenhum. Meu pai simplesmente não ouvia.” … “Tentei umas duas vezes com a minha mãe, mas ela dizia ‘você deve estar enganado.’ Meu pai nasceu em 1918, minha mãe em 1920. Cresceram acreditando que a Igreja Católica era tudo. Meu pai era um cara santo. Andava para lá e para cá com o terço na mão o dia inteiro. Meus pais eram muito santos, e os pais deles eram muito santos. Toda a idéia deles sobre a vida era assim.” [**]

Esta concepção errada de santidade não foi resultado da estupidez dos pais desse rapaz. Foi o que o clero lhes ensinou – seguindo uma concepção tirânica da autoridade. Resultou que foram incapazes de imaginar que padres podem ser maus – e ainda acharam que esta incapacidade era uma virtude e um dever religioso.

O caos que tragou a Igreja nos anos 1960 e 1970 provavelmente se deveu em grande parte à rebelião contra o exercício tirânico da autoridade que havia sido infligido aos clérigos e religiosos antes dos anos 60. Porém, assim como aconteceu com outras revoluções registradas na história, esta revolta contra a tirania não levou ao triunfo da liberdade. Ao contrário: ao destruir os elementos do ancien régime que tinha colocado limites ao poder dos superiores, gerou uma tirania ainda mais extensa e completa. Deu um fim nos fatores, listados acima, que tinham contrabalançado a influência do conceito tirânico da autoridade na Igreja da Contra-Reforma.

A facção progressista que assumiu o poder nos seminários e ordens religiosas tinha seu próprio programa e ideologia a demandar adesão total, e isto justificava suprimir brutalmente a oposição. As ferramentas de controle psicológico e de opressão que haviam sido aprendidas pelos progressistas durante a sua própria formação foram colocadas em pleno uso, e aplicadas de modo mais abrangente do que jamais tinham sido antes – sendo a diferença entre os dois regimes muito parecida com a diferença entre a Okhrana e a Cheka.

Uma parte da ideologia progressista era a falsidade e o malefício do ensinamento sexual tradicional católico; não é preciso elaborar os efeitos desta doutrina sobre a crise dos abusos sexuais. Mas seria um engano achar que o progressismo em si é responsável por esta crise, e que a sua derrota resolveria o problema. As raízes da crise vêm de muito antes, e exigem uma reforma nas atitudes para com a lei e a autoridade em todas as áreas da Igreja.


Notas:

[*] Artigo original publicado no site https://rorate-caeli.blogspot.com/2018/10/tyranny-and-sexual-abuse-in-catholic.html em outubro/2018.

[**] Testemunho original: https://www.theamericanconservative.com/dreher/uncle-ted-mccarrick-special-boy/

Design Inteligente dos Evangelhos

entry

Até onde se conhece, ninguém nunca chegou a propor uma evidência científica de um design inteligente – nem causal, nem combinado com design humano – de material bíblico. Este artigo é o relatório de um estudo feito sobre os evangelhos para demonstrar uma evidência científica da “inspiração” na Bíblia. Sendo uma amostra representativa dos evangelhos, a história do Domingo de Ramos, com Jesus entrando em Jerusalém montado em um jumento e expulsando os mercadores do templo, foi a escolhida para servir de laboratório experimental. O estudo estabeleceu que os relatos desse evento feitos pelos quatro evangelhos permitem dois cenários significativamente diferentes. Esses dois cenários de Jesus chegando a Jerusalém foram comparados usando o método científico da “melhor alternativa”, para estabelecer qual representa com maior probabilidade a história do “Domingo de Ramos”. O autor proporciona uma análise complexa da contribuição dos quatro evangelhos para o evento histórico, concluindo que o material de todos os quatro evangelhos é necessário para a história completa. Além do mais, os quatro evangelhos são integrados de uma maneira específica para contar a história, e isso seria impossível sem o auxílio de um coordenador-supervisor, ou seja, um designer inteligente.”

Ler o texto completo (33 páginas, PDF).

Se Eu Fosse O Diabo

f78c28cfec8b9c3b86b9f572babcb5bf

Autor: Paul Harvey, 1965
Tradução: André Carezia
Versão em PDF

Se eu fosse o diabo… se eu fosse o príncipe das trevas, eu iria querer mergulhar o mundo inteiro na escuridão, ser dono de um terço de suas terras e mandar em quatro quintos de sua população, mas não ficaria feliz enquanto não tivesse me apropriado da maçã mais madura da árvore: Tu.

Assim, eu iniciaria pelo que fosse necessário para assumir o controle dos Estados Unidos. Subverteria primeiro as igrejas. Começaria com uma campanha de sussurros. Com a sabedoria de uma serpente, sussurraria a ti como sussurrei a Eva: ‘Faze o que te agrada.’

Aos jovens, eu sussurraria que a Bíblia é um mito. Eu os convenceria de que o homem criou Deus, e não o inverso. Contaria um segredo: o que mau é bom, e o que é bom é ‘quadrado’.

Aos velhos, eu ensinaria a rezar comigo: ‘Pai Nosso, que estais em Washington.’

Então eu iria para as coisas organizadas. Educaria os autores para tornar excitante a literatura sinistra, de modo a fazer todo o resto parecer tedioso e pouco interessante. Ameaçaria a TV com filmes mais sujos, e vice-versa. Venderia drogas para quem eu pudesse. Venderia álcool para senhoras e senhores ilustres. Doparia o resto com pílulas.

Se eu fosse o diabo, logo as famílias entrariam em guerra com elas mesmas, as igrejas entrariam em guerra com elas mesmas, e nações entrariam em guerra com elas mesmas, até que se consumissem uma a uma. E, com promessas de maiores audiências, eu hipnotizaria a mídia para que atiçassem as chamas.

Se eu fosse o diabo, encorajaria as escolas a refinar os jovens intelectos mas a negligenciar a disciplina das emoções – que estas corram soltas – até que, sem perceber, tu tivesses que botar cães farejadores e detectores de metal em cada porta de escola.

Em uma década, as prisões estariam lotadas, e os juízes promoveriam a pornografia. Em pouco tempo eu poderia expulsar Deus dos tribunais, depois da escola, e então do Congresso. E em Suas próprias igrejas eu trocaria a religião pela psicologia, e endeusaria a ciência. Eu colocaria iscas para atrair padres e pastores, para que abusassem de meninos, de meninas e do dinheiro da igreja.

Se eu fosse o diabo, o símbolo da Páscoa seria um ovo; o símbolo do Natal, uma garrafa.

Se eu fosse o diabo, tiraria daqueles que têm para dar àqueles que querem, até que eu tivesse arruinado todo o incentivo dos arrojados. Queres apostar que eu faria estados inteiros promoverem a jogatina como modo de enriquecer?

Eu colocaria advertências contra os extremos: no trabalho duro, no patriotismo, na conduta moral.

Convenceria os jovens de que o casamento é antiquado, de que a troca de casais é mais divertida, de que o que se vê na TV é o caminho a seguir. E assim eu poderia despir-te em público, e poderia atrair-te para a cama com doenças que não têm cura.

Em outras palavras, se eu fosse o diabo, eu simplesmente continuaria fazendo exatamente o que ele está fazendo.

Trump e o Ocidente

IMG_0456

Artigo escrito em 2017 pelo diplomata brilhante Ernesto Araújo, futuro Ministro das Relações Exteriores do governo Bolsonaro. É essencial para a compreensão do fenômeno Trump e sua importância na possível reversão do que parecia ser o final do jogo para o Ocidente. O abstract é o seguinte:

“O presidente Donald Trump propõe uma visão do Ocidente não baseada no capitalismo e na democracia liberal, mas na recuperação do passado simbólico, da história e da cultura das nações ocidentais. A visão de Trump tem lastro em uma longa tradição intelectual e sentimental, que vai de Ésquilo a Oswald Spengler, e mostra o nacionalismo como indissociável da essência do Ocidente. Em seu centro, está não uma doutrina econômica e política, mas o anseio por Deus, o Deus que age na história. Não se trata tampouco de uma proposta de expansionismo ocidental, mas de um pan ‐nacionalismo. O Brasil necessita refetir e definir se faz parte desse Ocidente.”

O artigo completo de 35 páginas pode ser lido AQUI.

 

As Sete Orações de Santa Brígida

bridget

(Estas orações devem ser rezadas por 12 anos, diariamente, sem interrupção. Traduzido do italiano por Ana Cândida Tocheton Cristofoletti. Versão em PDF.)

1) A circuncisão

Pai, pelas mãos puríssimas de Maria e pelo Coração Divino de Jesus, eu Te ofereço a primeira ferida, as primeiras dores e a primeira gota de sangue derramada por Jesus, em expiação dos pecados de todos os jovens e como proteção contra os primeiros pecados mortais, em particular dos meus consangüíneos.

Pai Nosso
Ave-Maria

2) O sofrimento de Jesus sobre o Monte das Oliveiras

Pai Eterno, pelas mãos puríssimas de Maria e pelo Coração Divino de Jesus, eu Te ofereço os terríveis sofrimentos do Coração Divino de Jesus sobre o Monte das Oliveiras, e também Te ofereço cada gota de Seu sangue em expiação de todos os meus pecados de coração e de todos aqueles da humanidade, como proteção contra esses pecados e pela difusão do Amor divino e fraterno.

Pai Nosso
Ave-Maria

3) A flagelação de Jesus

Pai Eterno, pelas mãos puríssimas de Maria e pelo Coração Divino de Jesus, eu Te ofereço os milhares e milhares de golpes, as dores atrozes e o Precioso Sangue derramado na flagelação, em expiação de todos os meus pecados da carne e de todos aqueles da humanidade, como proteção contra esses pecados e pela proteção da inocência, em particular dos meus consangüíneos.

Pai Nosso
Ave-Maria

4) A coroação de espinhos de Jesus

Pai Eterno, pelas mãos puríssimas de Maria e pelo Coração Divino de Jesus, eu Te ofereço as feridas, as dores e o preciosíssimo Sangue escorrido da cabeça de Jesus quando foi coroado de espinhos, em expiação dos meus pecados do espírito e daqueles de toda a humanidade, como proteção contra esses pecados e pela construção do Reino de Deus sobre esta terra.

Pai Nosso
Ave-Maria

5) A subida de Jesus pelo Calvário com a Cruz

Pai Eterno, pelas mãos puríssimas de Maria e pelo Coração Divino de Jesus, eu Te ofereço os sofrimentos suportados por Jesus ao longo da subida do Monte Calvário, e em particular a Santa Chaga do Ombro e o Precioso Sangue dela vertido, em expiação dos meus pecados e dos demais homens de rebelião à cruz, de revolta contra Teus santos desígnios e de todos os outros pecados da língua, como proteção contra esses pecados e por um amor autêntico à Santa Cruz.

Pai Nosso
Ave-Maria

6) A crucificação de Jesus

Pai Eterno, pelas mãos puríssimas de Maria e pelo Coração Divino de Jesus, eu Te ofereço Teu Filho pregado na cruz e nela levantado, as feridas de Suas mãos e pés, o precioso sangue delas vertido por nós, Seus terríveis tormentos do corpo e do espírito, Sua preciosa morte e a incruenta renovação em todas as Santas Missas celebradas sobre a Terra. Ofereço tudo isto em expiação de todas as faltas cometidas contra os votos e as regras das ordens religiosas, em reparação de todos os meus pecados e dos outros homens, pelos doentes e moribundos, pelos sacerdotes e pelos leigos, pelas intenções do Santo Padre relacionadas à família cristã, pelo reforço da fé, pelo nosso país, pela unidade das nações em Cristo no seio da Igreja, e pela diáspora.

Pai Nosso
Ave-Maria

7) A ferida do lado de Jesus

Pai Eterno, aceita, pelas necessidades da Santa Igreja e em expiação dos pecados de toda a humanidade, a Água e o Sangue preciosíssimos derramados na ferida do Coração Divino de Jesus e os infinitos méritos que dele decorrem. Suplicamos que sejas bom e misericordioso conosco! Sangue de Cristo, último e precioso conteúdo do Sagrado Coração de Jesus, purifica-me e purifica todos os irmãos de suas culpas! Água de Cristo, libera-me de todas as penas merecidas em decorrência de meus pecados e apaga as chamas do Purgatório, para mim e para todas as almas penitentes. Amém.

Pai Nosso
Ave-Maria

Minha Coleção de Arte para Rezar o Rosário

fra-angelico-the-annunciation1
Anunciação – Fra Angelico – 1440
visitation-1434
Visitação – Fra Angelico – 1432
osmagos1634peter_paul_rubens
Nascimento – Rubens – 1617
ambrogio_lorenzetti_21_presentation_in_the_temple
Apresentação – Lorenzetti – 1342
1024px-jesus_and_the_doctors_of_the_faith_dsc01783
Encontro – Ribera – 1630
tumblr_mbwnz5lghd1qbhp9xo1_1280
Agonia – Veronese – 1583
an_ivory_group_of_the_flagellation_of_christ_by_jacobus_agnesius_calvi_d6046628g
Flagelação – Agnesius – 1640
karavadzho-koronovanie-ternovym-ventsom-kartina-mifologiia-m
Coroação – Caravaggio – 1603
raphael_11_christ_falling_on_the_way_to_calvary
Calvário – Rafael – 1516
die-kreuzigung
Crucificação – Rubens – 1620
by Raphael
Ressurreição – Rafael – 1502
1200px-pietro_perugino_cat48c
Ascensão – Perugino – 1495
pentecost
Pentecostes – Ticiano – 1545
1assunt0
Assunção – Ticiano – 1516
diego_velazquez_coroacao_virgem
Rainha – Velázquez – 1644

Et tu, Bento?

Autora: Hilary White[1]
Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

two_popes

Recentemente, o editor de uma revista católica “conservadora” me perguntou se eu estava interessada em escrever um artigo sobre a renúncia do papa Bento XVI, agora que se passaram cinco anos. Recusei dizendo-lhe que eu estava moralmente certa de que nada do que eu tinha para contar estaria de acordo com a sua linha editorial. Depois destes cinco anos eu já percebo que há muito menos gente se referindo ao abandono do pontificado como um ato “corajoso”. As conseqüências daquele ato têm se mostrado tão bizarras – mesmo para quem, no geral, está de acordo com Francisco – que muito poucas pessoas ainda se dispõem a emitir ruídos educados sobre isto.

Na verdade, após cinco anos da renúncia do papa Bento, a maioria dos fiéis católicos quer saber o porquê. Por que um papa – um homem com décadas de experiência íntima e pessoal com a “sujeira” na cúria e em toda a Igreja – decidiria sair de repente? Por que ele escolheria ir embora sabendo que a sua tarefa não estava completa? Tanto na época quanto agora, especialmente à luz do que vem acontecendo, as razões oferecidas são tão triviais, tão inapropriadas, tão desproporcionalmente mesquinhas, que parecem ser um dos aspectos mais bizarros de toda esta situação bizarra.

Essas respostas absurdas a perguntas sérias e graves levantaram de modo inescapável a suspeita de que Bento simplesmente não levou o papado tão a sério como nós aqui levamos. Não é possível evitar a ponderação: será que essas respostas trivializadas revelam algum profundo defeito nunca antes suspeitado? Será que estivemos errados sobre ele? Em caso positivo, será que estivemos tão errados assim?

As razões que ouvimos na época eram todas, em essência, “estou cansado”. Havia uma certa sugestão de que ele não se sentia mais apto para viagens internacionais, de modo que não podia ir ao Dia Internacional da Juventude e a eventos similares. A trivialização da renúncia parecia estar de mãos dadas com o conceito moderno do “papa como pop star”, coisa em que um homem tão sério – um católico tão sério – quanto Bento não poderia acreditar. Assim pensávamos. Assumimos que Bento XVI, mais do que todos, levava o papado a sério.

E desde então, enquanto todos os venenos que ficaram à espreita por cinqüenta anos na lama da Nova Igreja estão agora eclodindo freneticamente, muitos católicos querem saber: por que não ouvimos nada dele? Deste homem que acreditávamos ser o “campeão da ortodoxia”, que pensávamos conhecer. O erro, e até mesmo a heresia e a blasfêmia, escorrem diariamente da boca de seu sucessor – o qual, literalmente, transformou o Vaticano em um covil de ladrões – e não ouvimos nada além dos pronunciamentos ocasionais, feitos com palavras cuidadosamente escolhidas, para dizer que está tudo muito bem. Quão contente ele está com a sua decisão, e quão feliz com a sua vida atual!

Depois de três anos de desmonte sistemático de tudo que ele tinha tentado fazer em seu pontificado, o que obtemos de um Ratzinger que parece absolutamente tranqüilo é isto: “Sua bondade é o meu lar, é o lugar onde me sinto seguro.” Todo mundo que já tenha lido qualquer coisa escrita por ele ficou admirado dele ser capaz de emitir um disparate tão piegas quanto este, mas o vídeo não mente.

bento-2016

Este novo tom foi tão estranho que começou a circular uma especulação de que ele estava sob algum tipo de pressão externa, sem liberdade para falar o que pensa. Mas isto não é o que nós vemos. Ele está ali claramente feliz, lendo aquilo em voz alta. “Pode ter sido escrito para ele.” Mas então por que repetir? Se ele tem algum receio, por que se deixar guiar em ocasiões assim, por que ler esta propaganda descarada? Se é uma fraude, por que participar dela?

Todos os que comentam esperançosamente em blogs e outras mídias sociais, dizendo-me sempre o quanto “sentem falta” dele, na verdade deixam de respeitá-lo numa coisa: eles não aceitam a sua palavra. Alguns insistem que a sua renúncia foi feita sob algum tipo de coação e é portanto inválida. Mas nós o ouvimos dizer várias vezes que ninguém o estava constrangendo, que ele tinha renunciado livremente. E de fato ele está longe de ser um “prisioneiro do Vaticano”. Ao contrário de ser um isolado, Bento já recebeu muitos convidados, os quais sempre relatam que, embora frágil, ele parece contente e nunca abre a boca para reclamar. Ainda estamos esperando alguma notícia de algum bilhete escondido debaixo de um jogo americano na mesa de jantar, implorando por socorro.

Não há dúvida de que esta é uma situação extremamente esquisita e, francamente, suspeita; alguma coisa não bate, esta é que é a verdade. Todas as perguntas ou foram desconsideradas ou receberam respostas frívolas e jocosas:

Por que o Senhor renunciou?

Ratzinger: “Eu estava meio cansado, sem muita vontade de festejar com a criançada no Dia Mundial da Juventude.”

Se o Sr. não é papa, por que ainda se veste de branco?

Ratzinger: “Ah, não tinha uma batina preta que me servisse.”

Por que o Sr. continua a se chamar Bento XVI, se não é mais papa?

Ratzinger: “Bom, eu sou um ‘emérito’, entende…?”

E de onde é que veio este negócio de “emérito”? Existe algum precedente para isto na história católica? Em termos canônicos e doutrinais, o que significa?

Ratzinger: “…”

O que foi aquela besteira do Gänswein sobre haver um “munus” dividido – um membro ativo e um “membro contemplativo”? Quer dizer que agora há dois papas?

Ratzinger: “…”

E provavelmente a mais agonizante de todas: “Como é que o Sr. pode ficar aí sorridente, pronunciando platitudes e tolices insossas, enquanto este lunático empurra as ovelhas para um precipício?”

Alguns dias atrás, o meu amigo Steve Skojec, do website tradicionalista/restauracionista One Peter Five, resumiu a consternação daqueles que ainda sentem uma afeição pelo (homem que costumávamos chamar) papa Bento. Talvez muitos de nós ainda nos sintamos relutantes em expressar publicamente toda a raiva e todo o devastador desapontamento que aparece resumido nesta breve postagem do Steve:

“O papa Bento XVI abdicou do papado há exatamente cinco anos atrás. E, através do abandono do dever de pastorear a Igreja, ele abriu espaço para o pior papado de todos os tempos – ao qual ele obstinadamente recusa se opor por palavras, atos ou até mesmo algum gesto por mais sutil que seja.

“Você pode amá-lo por razões diversas, pode sentir falta dele pelo contraste, mas não pode dispensá-lo da responsabilidade que ele tem. Ele se afastou de sua família, deixando a porta aberta para um padrasto abusador, e assiste não apenas em silêncio seus filhos serem surrados e desencaminhados, mas em aparente contentamento.

“Mesmo assim, ele foi o melhor dos papas pós-conciliares, motivo pelo qual ele será o único a não ser canonizado.”

Quem é o verdadeiro Joseph Ratzinger?

Observadores experientes do Vaticano já me disseram mais de uma vez: “Provavelmente ele apenas não era quem pensávamos que fosse”. Eu suspeito haver mais coisas nesta história do que a maioria das pessoas pode imaginar. Acho que cometemos o erro de acreditar na imprensa. Ficamos contentes porque a mídia, que é extremamente anti-católica, o odiava e temia. Esquecemos que eles não sabem absolutamente nada de catolicismo. O que os jornais nunca nos contaram foi que o teólogo Joseph Ratzinger, no início de seu sacerdócio em 1962, era conhecido pelo termo “progressista”. Esta reputação foi solidificada durante os trabalhos dele como peritus (conselheiro teológico) de um dos mais influentes bispos na ala progressista do Concílio, o cardeal Josef Frings, de Colônia. O que fez a fama de Frings naquele grande drama foi um pronunciamento criticando a CDF – e seu prefeito, o cardeal Alfredo Ottaviani – pelo “conservadorismo” presente no “schema” (os documentos preparados pela CDF para servirem de guia às discussões dos bispos.

Após o pronunciamento, houve uma revolta entre os bispos da comissão preparatória, e eles exigiram que o schema – que havia levado anos para ficar pronto – fosse abandonado. E isto foi feito, apesar das objeções de Ottaviani. Novos documentos foram improvisados por uma coalizão de “progressistas” alemães e franceses, os quais se rejubilaram por ter, na prática, tomado o controle do Concílio a partir daquele instante, mesmo antes de ter começado.

Hoje em dia se sabe que foi Joseph Ratzinger – o “progressista” rebelde trazido pelo teólogo e acadêmico Frings a Roma como seu secretário – que escreveu esse pronunciamento.

O cardeal Henri de Lubac, escrevendo em 1985 para recordar aquele drama, afirmou:

“Joseph Ratzinger, um perito conciliar, era também o secretário pessoal do cardeal Frings, arcebispo de Colônia. O idoso e já cego cardeal se utilizava amplamente de seu secretário para escrever suas intervenções. Ora, uma destas intervenções se tornou memorável: a crítica radical (embora serena) dos métodos do Santo Ofício. Malgrado uma resposta do cardeal Ottaviani, Frings manteve a sua crítica.

“Não é exagero dizer que o Santo Ofício, tal como se apresentava até então, foi naquele dia destruído por Ratzinger em conjunto com seu arcebispo.

“O cardeal Seper, homem cheio de bondade, iniciou a renovação. Ratzinger, que não mudou, a continua.”

A reputação de Ratzinger como um “progressista” não se baseava em um incidente, e nem se restringia às suas primeiras obras. Na gritaria que fizeram devido à sua liderança da CDF, ninguém notou que ele tinha escrito em 1982 uma convocação para que a Igreja “nunca retornasse” ao Sílabo dos Erros de Pio IX. No livro “Princípios de Teologia Católica”, Ratzinger propôs a questão “O Concílio deve ser revogado?”, e respondeu sua própria pergunta recomendando a “demolição dos bastiões” da Igreja Católica em relação ao mundo moderno:

“Portanto, o dever não é suprimir o Concílio, mas sim descobrir o verdadeiro Concílio, cavoucando em profundidade aquilo que ele realmente deseja em relação ao que já aconteceu desde então.

“Isto implica em não haver um possível retorno ao Syllabus, que pode muito bem ter sido um primeiro passo no combate ao liberalismo e ao marxismo nascente, mas nunca a palavra final. Nem o abraço, nem o gueto, podem resolver o problema do mundo moderno para o cristão. Por isto é que a ‘demolição dos bastiões’, convocada já em 1952 por Hans Urs von Balthasar, era na verdade uma obrigação urgente.

“Era necessário que ela [a Igreja] demolisse os velhos bastiões, confiando apenas na proteção da fé: o poder da palavra, que é sua força única, verdadeira e permanente. Mas demolir os bastiões não significa que ela não tem mais nada a proteger, ou que ela vive em dívida para com forças diferentes daquelas que a engendraram: a água e o sangue que brotaram do lado aberto do Senhor crucificado.”

Sua tese – um estai da ideologia “conservadora” – era a de que o Concílio “verdadeiro”, desde que corretamente implementado, seria a salvação da Igreja e do mundo; e ele nunca abandonou este tema.

Para aqueles que se lembravam desta história, quão irônico deve ter parecido que se entregasse ao próprio Ratzinger o cargo que ele tinha “destruído”, e que ele ganhasse a reputação midiática de um “arqui-conservador”. Isto é o indício de uma resposta, ou pelo menos de uma linha de investigação, para as seguintes perguntas: Por que tão pouca coisa se realizou em seu longo mandato? Por que, com o rottweiler “arqui-conservador” Ratzinger na CDF, temos a situação que temos hoje? O que ele fez para impedir a explosão do neo-modernismo, que queimou como um fogo descontrolado por todo o mundo católico ao longo do reinado de João Paulo II?

O que o “silêncio” imposto pela CDF de Ratzinger fez para impedir Hans Küng de se tornar um célebre “padre-teólogo”, cortejado pela mídia por sua aversão ao catolicismo? Küng, que nunca foi removido do sacerdócio apesar de sua manifesta heresia? Será que conseguimos pensar em outros nomes que foram corrigidos pelo menos nesta medida? Bem poucos.

Certamente, porém, nós conseguimos pensar em muitos e muitos que passaram a vida negando e solapando abertamente a fé católica – teólogos acadêmicos, religiosos, padres, bispos e cardeais ao redor do mundo – sem nem um pio de protesto vindo de Roma. Mais ainda: a escandalosa montanha de fraudes que hoje temos no episcopado é, em sua totalidade, fruto dos pontificados do “arqui-conservador” João Paulo II e do “rottweiler” Bento XVI.

Por que é que nós achávamos que Ratzinger, em seu papel crucial como prefeito da CDF, era um baluarte da ortodoxia? Será que é simplesmente porque nos afastamos tanto da antiga fé que já não temos mais uma noção realista da fé que permita uma comparação, um julgamento objetivo? O destruidor “progressista” de Ottaviani herdando o seu cargo… O epíteto de “arqui-conservador”…

O próprio Ratzinger, para dizer a verdade, sustentava que nunca havia mudado de opinião teológica. Ele dizia que eram seus velhos colegas acadêmicos como Küng e Kasper que tinham se deslocado ainda mais na direção da “esquerda” ideológica depois dos anos 60, enquanto ele tinha ficado no mesmo lugar. Talvez possamos agora finalmente aceitar a sua palavra nisto, como uma peça que se encaixa em nosso quebra-cabeças aparentemente contraditório. Talvez o mundo acadêmico da teologia católica tenha se tornado tão corrupto que um homem considerado “progressista” em 1963 pareceria um “campeão da ortodoxia tradicional católica” em 2005, mesmo sem mudar nenhuma de suas idéias.

Será que foi por isto que ele renunciou? Será que a sua concepção da Igreja, do papado, simplesmente nunca foi aquilo que os católicos acreditavam ser? Talvez um indício de resposta venha do La Stampa de 2015, que publicou algumas das memórias de Silvano Fausti, SJ, confessor e guia espiritual do cardeal Carlo Maria Martini, o chefão da Igreja Católica européia “liberal”[2] e suposto líder da “máfia de Sankt Gallen”, a qual conspirou contra o papa Bento por anos, conforme admitiu o cardeal Danneels.

Fausti disse que Bento se encontrou com Martini no palácio dos bispos em Milão, em junho de 2012. Disse ainda que Martini insistiu que Bento renunciasse ao papado. Aparentemente, na época da sua eleição em 2005, Martini havia dito que sua principal tarefa seria reformar a Curia, coisa que se demonstrou impossível por volta de 2012.

Por que Bento aceitaria conselhos de um homem como Martini – o “chefão” da “ala liberal” do catolicismo europeu? Eu acho que a pergunta nem mesmo ocorreria a um homem como Ratzinger. Eles eram bons colegas na academia. Eram irmãos no episcopado. Qualquer aparência de divisão ideológica entre ambos era, essencialmente, um produto da narrativa midiática. Por que o papa não levaria em conta o conselho do seu mais velho e respeitado cardeal?

Por que Walter Kasper é um cardeal?

Uma das peças mais proeminentes desse quebra-cabeças é que aparentemente os tais prelados “conservadores” não conseguem detectar (e muito menos barrar) os insolentes inimigos da fé em meio ao episcopado e ao colégio de cardeais. É impossível explicar a pessoas comuns como, depois de tantos anos ouvindo e lendo essa gente, Ratzinger ainda manteria tão boa amizade com homens como Walter Kasper e Carlo Maria Martini, os supostos cérebros da máfia de Sankt Gallen.

Quando o papa Francisco, no seu primeiro Angelus, em 2013, contou à multidão o quanto adorava os escritos de Walter Kasper, quase todos nós que tínhamos passado vários anos acompanhando o Vaticano começamos a entender para onde estávamos indo com o novo papa. Jorge Bergoglio podia até ser um desconhecido aos olhos do mundo católico, mas Walter Kasper era um herege célebre; ele era a fachada midiática da “ala ultra-liberal” da Igreja pós-Vaticano II.

Em um artigo sobre a obra do cardeal, Thomas Jansen, editor-chefe do Katholisch.de, observou recentemente que Walter Kasper não teria conseguido fazer o estrago que fez sem a assistência direta de João Paulo II e do papa Bento. O debacle monstruoso da Amoris Laetitia é tanto obra do Kasper quanto do Bergoglio. Este é um homem que, por 40 anos, nunca se incomodou em esconder suas opiniões heterodoxas, tendo devotado a maior parte de sua vida a uma campanha para produzir justamente este resultado.

Jansen chama a atenção para o fato de que Kasper, em 1993, já tinha tentado avançar a mesma proposta de comunhão para divorciados e recasados, junto com Karl Lehmann, outro membro de “Sankt Gallen”. Foi barrado por Ratzinger e a CDF. Mas então vem a próxima pergunta: se Ratzinger sabia muito bem que tipo de criatura era Kasper, por que não o catou pela orelha e lançou-o para fora do episcopado? Por que não lhe deu, no mínimo, o mesmo “tratamento de silêncio” dado a Küng? Kasper foi na mídia recentemente para reclamar por ter sido chamado de herege. Mas é a pura verdade: ele é herege. Todo mundo sabe que ele é herege, porque nós já o escutamos trombetear por décadas as suas heresias descaradas de cima de todos os telhados que ele conseguiu encontrar.

Após trabalhar abertamente contra a fé, ele ganhou de João Paulo II o título de cardeal, ao invés de ser rebaixado, silenciado, laicizado e/ou excomungado. O seu esquema de Amoris-Laetitia-ar a Igreja, lembre-se, foi barrado em 1993 pela CDF de Ratzinger. Ele não foi, porém, nem rebaixado, nem admoestado, nem corrigido em nada. Também não foi removido de postos de influência. Ao contrário: em 1994, Kasper foi enxertado na Cúria Vaticana ao ser nomeado co-presidente da Comissão Internacional para o Diálogo Luterano-Católico. Em 1999, subindo mais um degrau, foi nomeado secretário do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, o departamento “ecumênico” no qual o seu manifesto indiferentismo religioso pôde reinar livremente. Em 2001 ele foi sagrado cardeal-diácono, com a incrível responsabilidade de votar em um conclave.

Bento, então, permitiu-lhe permanecer cardeal. E, como um toque final ao bolo envenenado que é o envolvimento de Ratzinger na criação do “novo paradigma católico”, agora há o rumor de que Bento calculou o momento exato de sua renúncia de modo a permitir a participação de seu velho colega de academia no conclave de 2013. Jansen chamou a atenção – e Maike Hickson citou num artigo para o One Peter Five – para o seguinte:

“O cardeal Kasper quase não conseguiu entrar no último conclave, porque tinha acabado de fazer 80 anos. Porém, como a data da morte (ou abdicação, como foi o caso em 2013) do papa é decisiva, ele ainda pôde participar e votar naquela eleição. (Alguns observadores notaram que isto foi um gesto de generosidade de Bento XVI em relação ao cardeal Kasper: a renúncia na hora certa.)”

Maike que me desculpe, mas não acho que isto seja um assunto parentético. É mesmo de admirar que tantos católicos tenham ficado ressentidos?

Cardeal Ratzinger, Papa “emérito” Bento – chame-se como quiser – eu tenho uma pergunta muito importante para você responder: Por que este homem ainda é um cardeal? Por que ainda é um bispo? Por que ainda deixam que ele se proclame um “teólogo católico”? Por que você, aparentemente de propósito, assegurou a participação dele no conclave que iria decidir o seu sucessor?

Será que ninguém mais quer saber isto? Não queremos todos saber porque Hans Küng ainda é um sacerdote? Por que deixaram que o cardeal Mahony se aposentasse em boa reputação? Por que um homem como Weakland, aquele homossexual ativo que comprou seu ex-amante, não foi excomungado? Quais são os nomes que todos nós recordamos só assim de cabeça? Meu próprio bispo em Victoria, o ocultista Remi de Roo, o Raymond Hunthausen de Seattle, o Favalora de Miami, o Matthew Clark de Rochester, o Derek Worlock de Liverpool… Às vezes eu fico pensando no tamanho que esta lista vai ter quando tudo isso acabar.

Faz cinqüenta anos que os católicos querem saber porque nada nunca foi feito. Por que deixaram estes lobos no episcopado, atacando continuamente a Igreja ano após ano? Por que nós sempre vimos estes homens – comprometidos intelectual e moralmente – serem elevados a degraus superiores, apesar da insolência inacreditável do seu ódio à fé católica?

O fim do “catolicismo guarda-chuva”

Ross Douhat, do New York Times, é um dos que estão começando a fazer esse tipo de pergunta. Maike Hickson cita um escrito dele sobre esta situação bizarra, na qual cada um dos chamados prelados “da máfia de Sankt Gallen”, inclusive Kasper, que fez campanha pela abolição de fato do ensinamento moral da Igreja[3]: “Algo característico da efetiva trégua na Igreja [entre conservadores e progressistas] foi que o próprio João Paulo II entregou à maioria deles os barretes vermelhos, promovendo-os apesar do desacordo que eles mantinham em relação à sua abordagem restauracionista.”

Quando os jornalistas falam de catolicismo, é comum se referirem a homens tipo Kasper como – está em sua página na Wikipédia – “uma das principais figuras da ala liberal da Igreja Católica.” E supostamente isto deve fazer algum sentido para os católicos, e supostamente temos que aceitar isto como uma realidade de nossos tempos: há uma “ala liberal” e uma “ala conservadora”, e ambas são católicas.

Steve Skojec me disse que a nossa disposição de aceitar toda aquela charada de “papa emérito” foi um erro: “Acho que o problema é termos aceitado o jogo de faz-de-conta deles, quando não deveríamos ter aceitado.” Na verdade, estou começando a achar que a disposição de aceitar toda a charada do catolicismo pós-conciliar, que muitos católicos tiveram, foi um sério erro. Ao entrar no jogo, ao fingir que podíamos ser “católicos conservadores” neste novo paradigma que inclui também “católicos liberais”, nós os ajudamos a perpetrar uma [das] mais monstruosas fraudes da história humana.

Devido a esta mentalidade esquizofrênica da liderança da Igreja desde 1965, acabamos por aceitar a premissa oculta: a de que a Igreja é um “imenso guarda-chuva” com um montão de espaço para pessoas de todas as opiniões pessoais… que temas como a liturgia são questões de “gosto” pessoal… que duas coisas opostas podem ambas ser a verdade católica.

Esta esquizofrenia é o modelo sob o qual os “conservadores” operaram todo esse tempo, e pelo qual eles julgaram que um homem como Joseph Ratzinger é um “conservador e campeão da ortodoxia”. E qual o resultado disto? Isto criou uma fachada para os homens da panelinha de Kasper manobrarem seu homem no trono de Pedro cinco anos atrás.

E assim, de repente, o jargão da “tolerância” e do “imenso guarda-chuva” chega ao fim, e o expurgo dos religiosos, seminaristas, padres e acadêmicos fiéis começa. E tinha que ser assim. Eles ao menos não alimentam esta contradição insana, e entendem – e freqüentemente dizem em voz alta – que o novo paradigma e a Igreja Católica não são a mesma coisa. E sua Nova Igreja é a única que resta.

Por cinco décadas nós brincamos de jogo anglicano: se não falamos sobre o assunto, não existe problema algum. O Santo Ofício de Ottaviani e o schema eram o último suspiro da velha Igreja – que, como de Lubac escreveu acima, foi destruída por Joseph Ratzinger. Depois de um longo hiato, no qual os papas fingiram que nada de essencial estava mudando, enquanto a instituição à sua volta sucumbia ao novo paradigma, uma única coisa ainda restava: o papado.

Uma das coisas que eu venho dizendo a respeito da era Bergoglio – e que é uma benção disfarçada, um enorme alívio – é que finalmente nós podemos abandonar a situação absurda da era Wojtyla/Ratzinger. Todos estes anos nós tivemos que fingir estar em uma “nova primavera do Vaticano II”, enquanto assistíamos a esses lobos em pele de pastor devorando as ovelhas.

Agora, enfim, podemos pelo menos parar de fingir que tudo é fantástico sob o novo paradigma da misericordiosa maravilha conciliar. Para quem ainda está em dúvida, Bergoglio não é um escândalo, e nem mesmo uma surpresa; ele é somente a conclusão lógica. Este pontificado não é uma anomalia; é o único resultado possível, e foi uma obra tanto de Walter Kasper quanto de Joseph Ratzinger.

[1] Tradução de artigo originalmente publicado em 12 de março de 2018 no jornal americano católico The Remnant. Link original: https://remnantnewspaper.com/web/index.php/articles/item/3786-et-tu-benedict-some-final-thoughts-on-joseph-ratzinger

[2] A palavra “liberal”, seguindo a tradição americana, é usada neste artigo como sinônimo de “esquerdista”.

[3] N.T. A frase aqui está aparentemente cortada no original. A idéia é clara, entretanto.