Vida é Sexo

Autor: Dr. Howard Glicksman(*)
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Como é que eu me tornei macho/fêmea?

Mesmo que o sexo de uma pessoa não afete a sua capacidade de sobreviver, sem os machos e as fêmeas a raça humana não existiria. Você talvez tenha interesse em saber que, seja macho ou fêmea, todo embrião humano começa com o mesmo arranjo pré-sexual. O desenvolvimento desse tecido até se tornar um macho fértil é governado por seis moléculas importantes. Se qualquer uma delas faltar, o embrião humano se torna fêmea – ou um macho infértil. Dito de outro modo: para se obter um macho fértil, cada uma dessas seis moléculas precisa estar presente; e nele a existência da raça humana fica suspensa por um fio.

No início, quando o esperma do seu pai encontrou o óvulo da sua mãe, eles se fundiram para se tornarem você: um zigoto unicelular no útero da sua mãe. Você tinha 23 pares de cromossomos, cada um deles vindo do seu pai e da sua mãe. Um par, X e Y, eram os cromossomos sexuais, que decidiram qual sexo você teria. Uma fêmea geralmente tem dois cromossomos X. Assim, seja você macho ou fêmea, a sua mãe forneceu a você um X. Um macho geralmente tem um X e um Y. Assim, se você é fêmea, o seu pai lhe deu um X; se é macho, ele lhe deu um Y.

Tão logo você passou a existir como um zigoto, a sua única célula começou a se dividir até se tornar um embrião. Os seus tecidos pré-sexuais eram iguais aos de todos os embriões humanos. Você tinha gônadas não desenvolvidas, que iriam se tornar ovários ou testículos. Tinha uma genitália feminina interna não desenvolvida que, se ativada, iria se tornar o útero e a vagina superior. Tinha também uma genitália masculina interna não desenvolvida que, se ativada, viraria o epidídimo, as vesículas seminais e os canais deferentes (tecidos que se encarregam do esperma). E você tinha uma genitália externa não desenvolvida, que se tornaria a vagina inferior e a vulva, ou o pênis, a próstata e o escroto. Assim, neste ponto, você estava pronto(a) para se tornar tanto um macho quanto uma fêmea. Então o que acontece depois? Vamos ver como essas seis moléculas realizam a sua tarefa.

A primeira molécula, a mais importante, aquela que coloca o embrião na trilha masculina em vez da trilha feminina, vem do cromossomo Y. Sem esta molécula, o embrião se tornará automaticamente uma fêmea. É por isto que uma pessoa que é XX se torna fêmea, e uma pessoa que é XY se torna macho. Esta molécula é chamada de Fator Determinante de Testículos. Se você é um macho, com mais ou menos sete semanas de vida esta molécula foi até as suas gônadas não desenvolvidas e ordenou que elas se tornassem testículos. Se você é uma fêmea, por não ter esta molécula as suas gônadas não desenvolvidas viraram ovários automaticamente.

A segunda molécula necessária para produzir um macho fértil é a Testosterona. Tão logo as gônadas não desenvolvidas se tornam testículos, eles começam a produzir este hormônio sexual masculino. Eles fazem isto tomando o colesterol e aplicando-lhe seis diferentes enzimas até convertê-lo em testosterona. Nenhuma destas seis enzimas vem do cromossomo Y. Elas vêm dos outros 22 pares. Você percebe, então, que o cromossomo Y é necessário para ter um macho, mas não é o único.

A terceira molécula importante é chamada Receptor Androgênico. É nela que a testosterona se prende para fazer efeito. A testosterona se prende nos receptores androgênicos das células que formam a genitália masculina não desenvolvida, ordenando que elas se tornem o epidídimo, as vesículas seminais e os canais deferentes. Sem a testosterona ou os receptores androgênicos, estas células morrem automaticamente. Agora você nota porque ambas são importantes para se obter um macho fértil. A informação para a produção do receptor androgênico está no cromossomo X. Assim, mesmo que o cromossomo Y coloque o embrião na trilha masculina, ele ainda necessita do cromossomo X para se sair bem.

Havendo ou não testosterona e receptores androgênicos, a genitália feminina interna (ductos de Müller) se transforma automaticamente em útero e vagina superior, exceto se for impedida de fazê-lo. Se isto acontecesse no macho, ele se tornaria infértil porque os dois conjuntos de genitália interna ficariam emaranhados. É aí que entram a quarta e a quinta moléculas para produzir um macho fértil. Os testículos não fabricam apenas a testosterona, mas também uma outra molécula chamada Hormônio Anti-Mülleriano. Ela se prende a receptores específicos nas células que formam a genitália feminina não desenvolvida, e ordena que morram. A informação para produzir o hormônio anti-mülleriano está no cromossomo 19; para produzir o seu receptor, no cromossomo 12. Perceba, então, como a informação genética toda é necessária para se obter um macho fértil, e não apenas X e Y.

Sem a testosterona e os receptores androgênicos, a genitália externa não desenvolvida se torna automaticamente a vagina inferior e a vulva. Mas, para se obter uma genitália externa masculina de verdade, que permita ao macho atuar sexualmente, é preciso mais um truque. Acontece que esses receptores androgênicos em particular não respondem muito bem à testosterona, não o suficiente para executar o serviço direito. Para isto eles precisam ser estimulados pela Di-hidrotestosterona, do contrário o pênis, a próstata e o escroto ficarão deformados. Assim, a sexta molécula necessária para se obter um macho fértil é a enzima que transforma a testosterona em Di-hidrotestosterona. A informação para isto está no cromossomo 2.

Sem o Fator Determinante de Testículos, ou qualquer uma das seis enzimas necessárias para transformar o colesterol em testosterona, ou o receptor androgênico, o embrião humano automaticamente se torna uma fêmea. E sem o Hormônio Anti-Mülleriano, ou o seu receptor, ou a enzima que converte a testosterona em Di-hidrotestosterona, você obtém um macho infértil. Estas seis moléculas – todas elas – têm de estar presentes para se obter um macho fértil e, com ele, a raça humana.

Entretanto, às vezes a vida pode ser uma surpresa. Veja, por exemplo, a fêmea XY. Uma fêmea XY é uma pessoa que aparenta ser uma fêmea perfeitamente normal, mas em vez de ser XX é XY. Quando nascem, elas parecem femininas, e amadurecem como uma fêmea normal, com desenvolvimento normal dos seios. É só quando não menstruam que procuram auxílio médico. E daí descobrem que possuem uma vagina curta que leva a lugar nenhum, não possuem útero, e por dentro elas possuem testículos em vez de ovários. O problema com a fêmea XY é que os seus receptores androgênicos não funcionam. Dito de outro modo: elas têm um montão de testosterona, mas não faz efeito sobre elas.

Eis como funciona.

A fêmea XY tem um cromossomo Y, e portanto tem o Fator Determinante de Testículos, que vai até as gônadas não desenvolvidas e ordena que elas se tornem testículos. Os testículos fabricam testosterona, mas não conseguem fazer efeito sobre as células da genitália masculina interna porque os seus receptores androgênicos não funcionam; portanto elas morrem. Os testículos, porém, enviam também o Hormônio Anti-Mülleriano, que se prende aos receptores específicos nas células da genitália feminina interna não desenvolvida; elas morrem também. Então é por isto que a fêmea XY não tem genitália interna, nem masculina nem feminina. E, já que a testosterona não consegue fazer efeito – os receptores androgênicos não funcionam – a sua genitália externa não desenvolvida se torna feminina. Então é por isto que, quando amadurece, ela tem a aparência de uma mulher normal.

Se você é uma pessoa que raciocina, deve estar se perguntando como a fêmea XY pode ter seios femininos, já que tem testículos que produzem testosterona em vez de ovários que produzem estrogênio. Acontece que o desenvolvimento dos seios femininos não depende das quantidades absolutas de estrogênio e testosterona, mas da razão entre eles (E/T). Um macho maduro geralmente tem um nível muito elevado de testosterona e um nível muito baixo de estrogênio (derivado da testosterona), de modo que a razão E/T nele é muito baixa; é por isto que os seus seios não se desenvolvem. Uma mulher madura geralmente tem um nível muito elevado de estrogênio e um nível muito baixo de testosterona, de modo que a razão E/T é muito alta nela; é por isto que os seus seios se desenvolvem. A fêmea XY é como o macho maduro nesse aspecto: nível muito elevado de testosterona e nível muito baixo de estrogênio. Porém, no caso dela, os seus receptores androgênicos não funcionam; é como se ela não tivesse testosterona nenhuma. Isto quer dizer que a razão E/T nela é E/0, que se aproxima do infinito; é por isto que os seus seios se desenvolvem. Conta-se por aí que algumas fêmeas XY são as mulheres mais bonitas e femininas do mundo, porque o hormônio masculino dentro delas não tem absolutamente nenhum efeito.

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Três perguntas para o Sr. Darwin:

  1. Como é que a vida descobriu que basicamente precisava dividir o material genético, colocá-los em gametas masculinos e femininos, e então juntá-los para produzir uma nova vida?

  2. Como é que a vida antecipou a necessidade de cada uma das partes requeridas para a reprodução humana, de onde veio a informação para criar os tecidos sexuais não desenvolvidos, e em qual ordem eles passaram a existir?

  3. De onde veio a informação para as seis moléculas diferentes e necessárias para se obter um macho fértil em vez de um infértil ou uma fêmea, e, na ausência de uma ou mais delas, como é que a reprodução sexual ocorreu nas formas de vida que nos precederam?

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Como é que um macho/uma fêmea amadurece?

A seção anterior explicou como você se torna um macho ou uma fêmea. Mostrou que, na ausência de seis moléculas específicas, o embrião humano se torna uma fêmea – ou um macho infértil. Dito de outro modo: sem qualquer uma dessas seis substâncias químicas, a reprodução é impossível e, portanto, a existência da humanidade é impossível. Porém, mesmo que no nascimento os humanos sejam machos ou fêmeas, nós sabemos que eles ainda não são capazes de se reproduzir. Assim, parece que este potencial vem embutido para ser ativado quando a hora chegar.

A maioria das crianças começa a demonstrar sinais do seu futuro desenvolvimento sexual no final da primeira década. Ao longo dos anos seguintes, elas passam por um desenvolvimento sexual e físico em um processo chamado puberdade. A puberdade é uma constelação de alterações fisiológicas que torna os humanos capazes de se reproduzir, além de prepará-los para o seu papel natural na família. Vamos ver como funciona.

O hipotálamo, dentro do seu cérebro, e a pituitária, que fica perto, trabalham juntos para controlar uma porção de hormônios no seu corpo. O hipotálamo envia o Hormônio Liberador de Hormônio do Crescimento, que estimula a pituitária a liberar o Hormônio do Crescimento (HC). Como o nome diz, o HC é importante no crescimento e no desenvolvimento geral do corpo. O hipotálamo também envia o Hormônio Liberador de Tireotrofina (HLT), que ordena à pituitária que envie o Hormônio Estimulante da Tireóide (HET). É o HET que controla a produção do Hormônio da Tireóide pela glândula tireóide no seu pescoço, a qual afeta principalmente a taxa de metabolismo do corpo. E essas duas glândulas enviam, além desses, muitos outros hormônios.

É importante compreender que o hipotálamo e a pituitária trabalham juntos para controlar a produção de um determinado hormônio, e fazem isso por inibição reativa. Imagine a inibição reativa como aquilo que ocorre quando você enche o tanque de gasolina. Há um sensor no bico que você insere na abertura do tanque de gasolina, e esse sensor detecta quando o tanque está cheio, provocando o desligamento automático da bomba. Do mesmo modo, o hipotálamo e a pituitária têm sensores que lhes permitem detectar o nível sangüíneo dos hormônios que eles essencialmente controlam.

Veja, por exemplo, o Hormônio da Tireóide. Se ele aumenta acima do necessário, o hipotálamo reduz a saída de HLT e a pituitária diminui a saída de HET. E quando o nível de Hormônio da Tireóide fica abaixo do necessário, o hipotálamo aumenta a saída de HLT e a pituitária a saída de HET. A reação do hipotálamo e da pituitária ao nível de hormônio da tireóide, quando muito elevado, é inibir a liberação de HLT e HET, respectivamente; quando muito baixo, é reverter essa inibição.

A produção dos hormônios sexuais é regulada do mesmo modo. O hipotálamo envia o Hormônio Liberador de Gonadotrofina (HLG). O HLG se prende aos receptores específicos nas células da pituitária, e ordena que elas enviem as gonadotropinas, que são o Hormônio Folículo-Estimulante (HFE) e o Hormônio Luteinizante (HL). São o HFE e o HL que se prendem aos receptores específicos nas células dos testículos ou dos ovários para que produzam os hormônios sexuais: testosterona ou estrogênio, respectivamente.

Na primeira década de vida, o hipotálamo e a pituitária são muito sensíveis à inibição reativa dos hormônios sexuais. Isto quer dizer que, antes da puberdade, níveis muito baixos de testosterona e estrogênio são capazes de impedir que o hipotálamo libere mais HLG e que a pituitária libere mais HFE e HL. O resultado é que os níveis sangüíneos de testosterona e estrogênio ficam muito baixos.

Poucos anos antes da puberdade, as supra-renais aumentam a saída de hormônios androgênicos (masculinos). Isto provoca um pequeno pico de crescimento e o desenvolvimento de pêlos pubianos e axilares. Não se compreende muito bem a verdadeira causa do início da puberdade. O que se sabe, entretanto, é que acontece do hipotálamo e da pituitária começarem a ficar menos sensíveis aos hormônios sexuais. A diminuição gradual da inibição reativa dos hormônios sexuais no hipotálamo e na pituitária resulta em um gradual aumento na saída de HLG, HFE e HL. Na hora em que a puberdade chega com força total, os níveis desses hormônios sexuais já aumentaram significativamente.

Durante a puberdade masculina, mais HFE e HL se prende aos receptores específicos nos testículos. Isto causa um aumento na produção de testosterona, e a capacidade de produzir esperma. A puberdade, no macho, também resulta no aumento e no engrossamento dos pêlos do rosto, do peito, das axilas, do abdômen, das extremidades e da região pubiana; junto com isto ocorre o alargamento das cordas vocais, com o conseqüente engrossamento da voz. Por causa do aumento correspondente na saída de Hormônio do Crescimento da pituitária, o macho experimenta também um pico de crescimento linear e o desenvolvimento do sistema músculo-esquelético. Junto com a capacidade de produção de esperma, a puberdade acarreta um aumento do pênis, do escroto e dos testículos. Por fim, a testosterona não cumpre apenas um papel essencial na diferenciação, no desenvolvimento e no amadurecimento sexuais, mas também no desejo pelas relações sexuais. A testosterona, além disto, é importante para dar ao macho a capacidade de manter uma ereção que permita, durante a relação sexual, a penetração adequada para dentro da vagina e a ejaculação. Todos esses desenvolvimentos preparam o garoto para que se torne um homem e, mais tarde, um pai.

Durante a puberdade na fêmea, mais HFE e HL se prende aos receptores específicos nos ovários. Isto provoca um aumento na produção de estrogênio, e a capacidade de desenvolver óvulos. A puberdade, na fêmea, resulta em aumento dos pêlos pubianos e axilares, mas eles não ficam grossos como no macho. Ocorre o desenvolvimento dos seios para que a mãe em potencial seja capaz de fornecer leite para o seu bebê. Assim como no macho, o aumento no Hormônio do Crescimento resulta num pico de crescimento linear e no desenvolvimento do sistema músculo-esquelético. A puberdade também acarreta um aumento da genitália externa e da produção de muco no interior da vagina e do útero. Junto com a capacidade de desenvolvimento de óvulos, o aumento de HFE, HL e estrogênio propicia a ovulação, onde um óvulo é liberado para poder entrar em uma das trompas de Falópio.

Dentro da trompa de Falópio, um óvulo pode encontrar o esperma e se fundir com ele para formar uma nova vida humana. Isto ocorre após o esperma ter sido depositado na vagina pelo macho, durante a relação sexual. Após a ovulação, os ovários secretam principalmente a Progesterona, o hormônio da gravidez. O estrogênio, antes da ovulação, e a progesterona, após a ovulação, se prendem aos receptores específicos na parede do útero, tornando-a mais espessa e produzindo mais muco em preparação para a gravidez. Se a gravidez não se dá, os níveis de estrogênio e progesterona caem vertiginosamente. Sem este suporte hormonal, a parede do útero descama num processo chamado menstruação. O primeiro período menstrual geralmente marca o início da fertilidade feminina. Normalmente ocorre mensalmente pelos trinta ou quarenta anos seguintes. Todo esse desenvolvimento prepara a garota para se tornar uma mulher e, mais tarde, uma mãe.

Veja, então, que são necessários muitos sensores, hormônios, receptores e tecidos não desenvolvidos para atingir a puberdade e o amadurecimento sexual. Mas sem eles a raça humana não existiria.

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Três perguntas para o Sr. Darwin:

  1. Como é que o meu corpo obteve o manual de instruções de como e quando ativar a puberdade?

  2. Uma vez que são necessários tantos fatores, como é que o amadurecimento sexual pode ter evoluído gradualmente?

  3. Como é que as minhas glândulas sabem a quantidade de hormônio que precisam enviar para que o serviço seja feito direito?

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Como é que a função sexual masculina concorre para uma nova vida humana?

Depois dos órgãos sexuais terem amadurecido, permitindo ao macho produzir esperma e à fêmea liberar um óvulo, o que falta para uma nova vida humana é uni-los na formação de um zigoto (fertilização). O modo natural de ocorrer a reprodução humana é através da relação sexual entre o macho e a fêmea. Esta união íntima e física exige que o homem insira profundamente o pênis ereto na vagina da mulher, e libere o sêmen (com esperma suficiente e saudável) próximo à abertura do colo do útero. O esperma pode então nadar até o útero e tentar fertilizar um óvulo.

Para o macho, fertilidade significa ele ser capaz de produzir esperma suficiente e saudável para causar a fertilização e a nova vida humana. Isto é feito pelos testículos do homem. Exige que ele tenha Hormônio Folículo-Estimulante (HFE), Hormônio Luteinizante (HL) e seus respectivos receptores, os três em quantidade suficiente nas células específicas dos testículos. Estes hormônios ordenam aos testículos que produzam testosterona e esperma. O esperma é colocado em líquidos nutritivos que vêm das vesículas seminais e da próstata, formando o sêmen. Durante a relação sexual, como já observamos acima, o sêmen é liberado pelo pênis ereto no fundo da vagina da mulher, a fim de depositar o esperma onde ele precisa estar, para haver uma chance de nova vida humana.

Geralmente, a quantidade normal de sêmen necessária para uma fertilidade adequada é de pelo menos 2 mililitros, e deve haver mais de 20 milhões por mililitro. A aparência (morfologia) e a habilidade de se mover bem (motilidade) são fatores muito importantes que afetam a fertilidade. Se a maior parte do esperma tem aspecto anormal, e/ou são incapazes de nadar vigorosamente, então a fertilização tem poucas chances de ocorrer.

A experiência ensina que só o fato do macho ter as partes certas, e ter passado pela puberdade, não quer dizer que ele seja fértil. Há várias razões pelas quais um homem pode não possuir esperma saudável e suficiente, o que resulta na infertilidade masculina. Estas incluem stress emocional, fumo, uso de álcool, infecções transmitidas sexualmente, deficiências em vitaminas e minerais, radiação, trauma, diabetes, doença na tireóide, envelhecimento e obesidade. Além disto, a produção de esperma requer uma temperatura mais baixa, e por isto os testículos são acomodados no escroto que fica fora do corpo. O superaquecimento dos testículos, devido a saunas freqüentes ou ao uso de cuecas justas, também pode resultar na infertilidade masculina.

Potência é a capacidade de depositar o esperma no fundo da vagina da fêmea. Isto implica ter uma ereção firme o suficiente para penetrar profundamente na vagina e ser capaz de ejacular o sêmen. Depende de ele ter um pênis normal e funções nervosas e vasculares normais.

Uma ereção se obtém por pressão hidráulica. Estendendo-se pelo tamanho do pênis (acima da uretra e nas suas laterais) estão o corpus spongiosa e o corpus cavernosa. Estas câmaras venosas tubulares são cercadas por um poderoso tecido fibroso. Os pensamentos sexuais e a estimulação do pênis e da região pélvica ativam alguns nervos autônomos que enviam um neuro-hormônio chamado acetilcolina. Ela se prende aos receptores específicos nos vasos sangüíneos do pênis. Isto provoca um aumento no fluxo de sangue arterial para dentro dessas câmaras, e uma diminuição do fluxo de sangue venoso para fora delas. O resultado final é um acúmulo de sangue no interior dessas câmaras: uma ereção.

Após a ereção, com o estímulo contínuo, o sistema nervoso autônomo envia um neuro-hormônio diferente chamado norepinefrina. Ele se prende aos receptores específicos na região pélvica, o que provoca as contrações coordenadas e a ejaculação do sêmen. Geralmente isto é acompanhado da sensação prazerosa do orgasmo. Assim que isto acontece, o sistema nervoso autônomo desativa a acetilcolina e o pênis perde a sua ereção, se tornando flácido.

Como já observado acima, uma ereção peniana adequada que resulte em ejaculação é um processo bem coordenado que envolve a presença de um fluxo adequado de sangue na região pélvica, além do funcionamento adequado dos nervos. Quando existem problemas significativos, o resultado é uma disfunção erétil, ou uma impotência. Dito de outro modo: mesmo que o macho fabrique sêmen suficiente, com esperma saudável e ativo, se ele não puder depositá-lo onde precisa estar, então isto irá resultar também na infertilidade masculina.

A fadiga e as causas emocionais da disfunção erétil normalmente são passageiras, mas existem muitas doenças que podem levar a uma impotência permanente. Aterosclerose (endurecimento das artérias, em geral relacionado ao fumo), hipertensão, diabetes e hiperlipidemia podem causar mau funcionamento dos vasos periféricos, limitando o fluxo de sangue para o pênis. Além do mais, outras doenças associadas a problemas vasculares (como doença arterial coronária, insuficiência cardíaca e insuficiência renal) podem também levar à impotência. O diabetes, em particular, afeta não somente o fluxo de sangue mas também as funções nervosas; homens diabéticos, portanto, correm mais risco de sofrerem impotência.

Finalmente, embora a maioria das doenças que causam impotência e infertilidade masculina seja relacionada a uma disfunção vascular e/ou nervosa, existe uma que se relaciona a um defeito na estrutura do pênis. A doença de Peyronie é uma enfermidade na qual se formam tecidos fibrosos de cicatrização por dentro das paredes do pênis, resultando em ereções deformadas e quase sempre dolorosas. Isto geralmente torna a relação sexual muito desconfortável e, quase sempre, fisicamente impossível.

Veja que tudo tem de estar exatamente nos conformes para que o macho produza sêmen suficiente, com esperma suficiente e saudável, e que o deposite bem no fundo, próximo ao útero da fêmea, possibilitando assim a fertilização.

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Três perguntas para o Sr. Darwin:

  1. De onde veio a informação para ordenar aos testículos masculinos que fabriquem esperma suficiente?

  2. De onde vieram as partes e o mecanismo que torna o pênis ereto?

  3. Como é que o macho desenvolveu a capacidade de ejacular o sêmen?

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Como é que a função sexual feminina concorre para uma nova vida humana?

Após os órgãos sexuais terem amadurecido de tal modo que o macho possa produzir esperma e a fêmea possa liberar um óvulo, o que é necessário para gerar uma nova vida humana é uni-los a fim de formar um zigoto (fecundação). O modo natural de acontecer a reprodução humana é que o macho e a fêmea se juntem numa relação sexual. Esta união física, íntima, requer que o homem introduza o pênis ereto no fundo da vagina da mulher e libere o sêmen (contendo esperma) próximo à abertura do colo do útero. Em seguida, durante várias horas e auxiliado pelo muco cervical, os espermatozóides usam os flagelos para nadar pelo corpo uterino em direção às trompas de Falópio. Se, por este tempo, um dos ovários da mulher tiver liberado um óvulo, então um dos espermatozóides pode conseguir penetrar a sua camada externa para formar um zigoto. Em seguida, durante várias horas, o zigoto se desenvolve até virar um embrião; este, ao longo dos dias seguintes, se move até o corpo do útero e se implanta em sua parede. Após ocorrer a implantação, o embrião continua se desenvolvendo num processo chamado gestação, transformando-se em um feto que cresce e sai do corpo da mãe nove meses depois, na forma de um bebê recém-nascido.

Para a fêmea, fertilidade significa o ovário liberar um óvulo, fazê-lo entrar na trompa de Falópio, receber o sêmen próximo à abertura do colo do útero, ajudar o esperma chegar ao óvulo e sustentar o desenvolvimento da nova vida humana após a implantação na parede do útero.

Uma fêmea possui, ao nascer, um suprimento completo de óvulos imaturos em seus ovários. Para que o ovário libere um óvulo (ovulação), é preciso que ela tenha uma quantidade suficiente de Hormônio Folículo-Estimulante (HFE), de Hormônio Luteinizante (HL) e de estrogênio, além dos respectivos receptores nas células do ovário. A ovulação mensal depende da delicada interação entre o hipotálamo, a pituitária e o ovário.

Este balanço pode ser perturbado por stress emocional crônico, nutrição ruim, flutuações significativas no peso, enfermidades sérias ou recorrentes, e excesso de exercício físico; o resultado é a anovulação. Há também doenças glandulares que podem causar isto. Além do mais, a fêmea possui, ao nascer, um número finito de óvulos imaturos, o que significa que algum dia ela perde a fertilidade. Isto ocorre aproximadamente depois de trinta ou quarenta anos, e se chama menopausa.

Se a mulher teve relações sexuais no período da ovulação, então entra em cena o seguinte: fazer com que o óvulo vá até a trompa de Falópio; e auxiliar o esperma a alcançá-lo. O estrogênio, ao se ligar aos receptores específicos, faz com que as células da abertura do colo do útero secretem grandes quantidades de um muco aquoso. Isto ajuda o esperma a nadar, através do corpo uterino, em direção às trompas de Falópio. O estrogênio também causa um aumento na movimentação dos cílios (pequenas projeções, como fios de cabelo) das trompas de Falópio, além de provocar contrações musculares que empurram o óvulo para dentro. Uma vez lá dentro, o óvulo é empurrado em direção ao corpo do útero. É aqui, no confinamento da trompa de Falópio, que geralmente o esperma se encontra com o óvulo, e a fecundação acontece. O zigoto, então, é empurrado através da trompa de Falópio até o interior do corpo uterino para a implantação.

Um motivo comum de infertilidade feminina são as infecções sexualmente transmitidas. Elas causam dano às trompas de Falópio e ao colo do útero. As primeiras não conseguem capturar o óvulo, ou não deixam o óvulo e o esperma se encontrarem, ou não deixam o zigoto passar através do corpo uterino. O último se torna estreito e produz muco irregular, impedindo que o esperma suba ao útero.

Se um espermatozóide é capaz de fecundar um óvulo na trompa de Falópio, e o zigoto resultante é capaz de se mover até o corpo uterino, então se torna necessário abastecer de nutrientes a nova vida humana em desenvolvimento tão logo ela se implante no endométrio, a parede uterina interna. Isto só ocorre se houver quantidade suficiente de estrogênio e progesterona, além de seus respectivos receptores, na parede do útero. Esses hormônios ordenam que a parede se desenvolva para poder cuidar do embrião. Na realidade, se não acontecer a gravidez, os níveis desses hormônios sexuais caem de modo significativo, provocando a descamação da parede do útero num processo que se chama menstruação.

A incapacidade do ovário produzir, nesta etapa, quantidades suficientes de estrogênio e progesterona; e defeitos no útero que interfiram com a implantação ou com a continuidade da gestação, são as razões mais comuns de infertilidade feminina.

Veja: tudo tem que estar certinho para que o ovário feminino libere um óvulo, empurre-o na direção da trompa de Falópio, ajude o esperma a nadar até ele desde o colo do útero, e daí forneça um refúgio para o embrião se desenvolver em uma nova vida humana.

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Três perguntas para o Sr. Darwin:

  1. Como é que o ovário aprendeu a desenvolver e liberar um óvulo para obter uma nova vida humana?

  2. O que é que ensinou às trompas de Falópio como capturar um óvulo, e ao colo do útero a ajudar o esperma?

  3. Se os dois hormônios sexuais, e os seus receptores, são necessários para o desenvolvimento da parede uterina, como é que isto pode ter surgido gradualmente, um passo de cada vez, sem impedir novas vidas a cada passo do caminho?


(*) Howard Glicksman é um médico canadense com 40 anos de experiência clínica. Traduzido por André Carezia a partir de artigos originais publicados no website do autor:
http://arn.org/docs/glicksman/oba.html

Focolares e a Idolatria da “Unidade” sem Dogmas

Autora: Hilary White [1]
Tradução: André Carezia

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Em fevereiro deste ano, a servir de prosseguimento ao ‘Sínodo dos Jovens’, foi organizada em Florença, por um dos ‘novos movimentos’ da Igreja, uma conferência dos bispos católicos do país.

O tema da conferência foi “Uma nova etapa de evangelização e sinodalidade: renovação eclesial à luz da Evangelii Gaudium.” Tendo por anfitrião o bispo de Fiesole e presidente da Conferência dos Bispos da Itália (CEI) Mario Meini, o encontro incluiu alguns palestrantes do alto escalão da cúria romana.

Algumas breves citações darão uma idéia do sentido geral das conversações.

O cardeal Giuseppe Petrocchi, arcebispo de L’Aquila e presidente do conselho científico do Centro Evangelii Gaudium, no Instituto Universitário Sophia, falou o seguinte no encontro: “O período conturbado de mudanças que experimentamos requer que demos vida a uma nova etapa. Procedimento evangélico: fiel, criativo e alegre, e deve atrever-se a todas as experiências da Igreja como um sínodo, e assim é que podemos caminhar juntos.” Reunidos na “cidadela dos focolares”, em Loppiano[2], os quarenta bispos presentes ouviram Piero Coda, membro da Comissão Teológica Internacional e reitor do Instituto Universitário Sophia, identificar a “sinodalidade” como o fio condutor do programa pontifício de Francisco, a direção à qual a Igreja avança.

Em sua palestra, intitulada “A Sinodalidade do Exercício da Igreja,” o monsenhor Coda afirmou que a meta não é a salvação mas “uma democracia verdadeiramente participativa e popular.”

“‘Sínodo’ é o termo usado para a Igreja antiga, mas o adjetivo ‘sinodal’ é um amadurecimento da consciência eclesial…” Propõe, diz ele, cinco “caminhos a seguir”: “pastores, artistas e artesãos da sinodalidade; estruturação de cursos de treinamento em comum para jovens leigos(as), jovens religiosos(as) e seminaristas; educação para aquilo que o papa Francisco descreve como uma ‘cultura do encontro’ e uma ‘coragem da alteridade’; inauguração de ‘uma nova época na construção coletiva de uma democracia popular e verdadeiramente participativa.’”

Isto, disse ele, exige que “todas as nossas igrejas particulares na Itália” sigam um caminho comum. “Como se programa a Igreja na Itália? Estamos agora no limiar de uma década pastoral. Qual é o momento ideal?”

(Imagine ficar escutando um fim-de-semana inteiro disto.)

O “misticismo do nós” – Focolares e a nova religião bergogliana

Deixando de lado o palavrório eclesiástico da moda, a conferência foi notável por uma coisa: esses prelados de alto escalão têm em comum mais do que a nacionalidade italiana. Cada um deles é um adepto do movimento dos focolares, e todos estão completamente dedicados ao uso de seus cargos para espalhar as doutrinas deste movimento – que, não por coincidência, combinam perfeitamente com as do papa Francisco – pelas estruturas da Igreja tanto quanto seja possível, “através do engajamento em comum nas diversas realidades eclesiais: paróquias, dioceses e organizações diocesanas.” Em outras palavras, por meio da infiltração.

No ano passado, no encontro geral dos focolarinos em Loppiano, intitulado “Caminhos da sinodalidade em andamento,” os participantes receberam do papa alguns dos seus mais incompreensíveis elogios.

Num “diálogo” publicado pelos focolares, o papa lhes disse:

“O carisma da unidade é um estímulo providencial e um auxílio poderoso para viver este misticismo evangélico do nós, isto é, caminhar juntos na história dos homens e mulheres do nosso tempo… É esta espiritualidade do nós, que vocês devem levar adiante, que nos salva de todo egoísmo e de cada interesse egoísta. A espiritualidade do nós.”

Como veremos, e por mais absurdo que pareça, isto não foi, infelizmente, completa algaravia. A identificação que o papa fez do “carisma da unidade” como o centro da doutrina dos focolares é precisa, e os resultados – uma “espiritualidade” e um “misticismo do nós” – são o objetivo último; é a implementação final da “Igreja do nós” em lugar da Igreja de Cristo que havia antes.

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“Carisma da unidade”: apenas o velho indiferentismo religioso

Todo este jargão estranho, que na maior parte não faz sentido para os católicos comuns, é na verdade uma recitação dos princípios que norteiam os focolares. Em bom português, estes pronunciamentos querem dizer que o atual pontificado lhes deu a oportunidade de usar o conceito de “sinodalidade” – isto é, a delegação ao nível local da autoridade papal em matéria doutrinal – como um canal para introduzir a ideologia focolarina em todos os aspectos da vida católica.

O “carisma da unidade” significa não apenas “unidade” entre os católicos, mas com os protestantes, ortodoxos, budistas, hindus, muçulmanos e todas as outras religiões e os secularistas descrentes, em uma grande… como direi… “fraternidade universal da humanidade.”

É essencial compreender que, no movimento dos focolares, este “carisma da unidade” não significa unidade na verdade de Cristo do modo explicado e defendido pelas doutrinas da Igreja Católica. Longe disto: a verdade de Cristo – em particular o dogma católico “extra ecclesiam nulla salus” – é para eles algo que divide demais. A doutrina central dos focolares é apenas a “unidade” em si mesma.

Em 1997, a fundadora do movimento, Chiara Lubich, “pregou” a um grupo de monges budistas na Tailândia, afirmando que qualquer um dedicado ao “carisma da unidade” pode ser um focolarino: “Temos 30 mil que não são cristãos.”

Um “carisma do Espírito Santo” que rejeita uma doutrina católica fundamental

Parece claro que o “carisma da unidade” dos focolares é meramente um termo cortês para o “indiferentismo”: a idéia, condenada explicitamente pelos papas, de que uma religião é tão boa quanto qualquer outra desde que estejamos todos juntos como descrentes.

O próprio movimento dos focolares alega que o seu objetivo não é arrancar as pessoas das suas crenças particulares, ou das suas não-crenças, como às vezes é o caso.

Do seu site web:

“A mensagem [que o movimento] quer trazer ao mundo é a da unidade. O objetivo, portanto, é cooperar para a construção de um mundo mais unido, guiado pela oração que Jesus faz ao Pai “para que todos sejam um” (Jo 17,21), em respeito e em apreço à diversidade. E, para atingir esta meta, o diálogo é favorecido, no compromisso constante de construir pontes e relações de fraternidade entre os indivíduos, povos e esferas culturais.

“O movimento enxerga cristãos de várias igrejas e comunidades cristãs, fiéis de outras grandes religiões mundiais e pessoas sem qualquer convicção religiosa. Cada um adere a ele através da colaboração com o objetivo e o espírito do movimento, na fidelidade aos preceitos da sua própria igreja, da sua fé e da sua consciência.”

A página descreve Chiara Lubich como “uma figura excepcional e carismática do nosso tempo, muito conhecida por seu esforço incansável para aumentar a comunhão, a fraternidade e a paz entre pessoas de diferentes igrejas, entre seguidores de diversas religiões mundiais e entre pessoas que não têm crenças religiosas.” A combinação perfeita entre o “bergoglianismo” e os focolares parece nascer da mútua rejeição (na prática) da transcendência, do primado (e, mais importante, da exclusividade) da Verdade, e finalmente do autor encarnado da Verdade.

Para os focolares e Bergoglio, o que importa realmente é o poder

Também é importante compreender o quão poderoso é o movimento no episcopado italiano, e portanto no Vaticano. Em 2012, Sandro Magister escreveu que os focolarinos são “onipresentes” na cúria romana e no episcopado italiano, confirmando que “centenas” de bispos são membros.

Muitos nomes que Magister lista se tornaram famosos no pontificado atual; e nenhum deles por fazer o bem: os cardeais Turkson, Becciu e Antonelli, e o arcebispo Celestino Migliore, ex-representante da Santa Sé na ONU. Entre eles está também o cardeal João Braz de Aviz, prefeito da Congregação para os Religiosos, cujo objetivo de criação de uma nova espécie de vida religiosa parece perfeitamente coerente com os objetivos do movimento ao qual pertence, e a quem retornaremos mais adiante.

Obviamente, a obra dos focolares não está confinada à Itália, nem tampouco à Igreja Católica. Recentemente o movimento publicou um relatório da reunião de 40 bispos “de diversas igrejas” na Suécia em 2018 – a 37a. que o grupo realizou por lá. O tema: “A Igreja no mundo de hoje.”

O encontro “ecumênico” na Suécia foi moderado pelo cardeal Francis Kriengsak Kovithavanij, arcebispo de Bangkok, e enfocou “A sinodalidade na vida e na missão da Igreja”:

“O sínodo é considerado um instrumento eclesiástico fundamental para caminharmos juntos sob a orientação do Cristo Ressuscitado. Daí que ‘uma Igreja sinodal seja uma Igreja participativa e co-responsável,’ uma noção que se relaciona aos conceitos de comunhão e colegialidade que estão no coração da doutrina eclesiológica do Vaticano II.”

A mesma toada é repetida pelos focolarinos eclesiásticos ao redor do mundo.

O movimento de Lubich, além do mais, fornece uma hierarquia alternativa de liderança que é usada para exercer o poder sobre os indivíduos do próprio movimento. Ex-membros já trouxeram a público as técnicas de isolamento social e manipulação psicológica, como as usadas em cultos, feitas para fazer desmoronar a personalidade e criar uma dependência emocional e psicológica do movimento e de seus líderes.

Eles afirmam que os membros não têm liberdade para criticar o movimento ou as suas lideranças, que a espiritualidade e a batalha pela santidade e os vínculos emocionais, com ameaças subseqüentes de retração do amor, são usados como métodos de controle e manipulação.

O autor diz algo que é típico de cultos: “Aqueles que se afastam do movimento freqüentemente ficam sozinhos. Quem quer que saia quase sempre perde todas as amizades que tinha lá dentro,” e aqueles que saem são “geralmente considerados sacrílegos.”

“As pessoas que alimentam fantasias de poder facilmente acham nesses movimentos as bases ideológicas que podem ser usadas para este propósito.”

Ao relatar, no ano passado, a provável e iminente beatificação de Lubich, Sandro Magister observou friamente que o prefeito da Congregação para as Causas dos Santos é um focolarino bastante conhecido, “de longa data,” na Cúria Romana: o cardeal Giovanni Angelo Becciu. Deve ser certamente muito mais fácil pedir, e até mesmo obter, a total aprovação das autoridades da Igreja quando o seu movimento já as cooptou completamente.

A cruzada de Chiara Lubich pela “unidade” ecumênica: uma “Nova Humanidade para um Mundo Unido”

Ficará a cargo dos futuros historiadores do catolicismo decidir exatamente como é que a Igreja Católica resolveu se dedicar à doutrina do “ecumenismo,” mas esta história certamente terá de levar em conta a enorme influência do movimento dos focolares, para quem a “unidade,” acima da verdade, é a doutrina central. Grande parte da culpa recai sobre as costas do papa João Paulo II, cujas notórias inclinações para o indiferentismo ficaram expostas nos encontros “ecumênicos” e “inter-religiosos” de Assis. O seu apoio à organização era inabalável, e o sentimento era mútuo. Testemunhas da época relataram que foram grupos organizados e bem-preparados de focolarinos que iniciaram os famosos coros de “santo subito” no funeral do papa.

Chiara (nascida Silvia) Lubich, que morreu em 2008 e teve um funeral católico na Basílica São Paulo Extramuros, em Roma, foi uma professora que viveu em Trento durante a segunda guerra mundial. A história oficial da fundação dos focolares (“lareira”, “lar”, em italiano) é contada em palavras simples pela diocese de Mântua, onde existem 150 membros ativos do movimento:

“O movimento nasceu em Trento, com Chiara Lubich, em 1943, sob o bombardeio da Segunda Guerra Mundial. Conforme palavras que a própria fundadora sempre repete, numa época em que tudo fracassava devido à guerra, ela sentiu que todas as coisas materiais podiam entrar em colapso, mas não Deus, compreendido como amor. Nos abrigos, Chiara trazia o Evangelho consigo, e à luz de velas lia com um pequeno grupo de amigos. Ao deixar o abrigo, eles tentavam colocar em prática as palavras de Jesus, e logo o seu exemplo foi seguido por pessoas de todas as idades e de todas as classes.”

O movimento, chamado oficialmente de Obra de Maria e cujos estatutos foram aprovados por João Paulo II em 1990 na forma de uma associação internacional de direito pontifício, tem seguidores na casa dos milhões e delegações em 182 países.

Os comentários de Chiara Lubich sobre as Escrituras já foram traduzidos em mais de 80 línguas, e o movimento se gaba de possuir 27 editoras para disseminar as suas obras. Ele conta com adeptos casados e solteiros que fizeram votos – bem como sacerdotes e bispos – e colaboradores leigos que não fizeram votos.

Da matriz dos focolares surgiram alguns sub-movimentos com foco na família e na economia, incluindo o “Movimento para uma Nova Sociedade” e o “Escritório Internacional de Economia e Trabalho”. A partir dos anos 50, os focolares começaram a se envolver no movimento internacionalista (ou globalista), promovendo um conceito de Estado global unificado. A ONG “Nova Humanidade para um Mundo Unido”, derivada dos focolares, tem um cargo consultivo na ONU e ganhou o Prêmio da Paz de Luxemburgo em 2015.

Um dos braços [dos focolares] é uma organização chamada “Jovens por um Mundo Unido”, que realiza um evento anual chamado “Semana da Unidade Mundial”. O site web do grupo diz: “O objetivo da associação é contribuir para a criação de unidade na família humana, respeitando integralmente as identidades individuais de todos os seus membros. Por este motivo ela propaga a idéia de um mundo unido em todas as esferas da sociedade e em todos os níveis.”

Eis onde a coisa fica assustadora

Sobre o movimento, Lubich afirmava que “não tinha sido pensado por uma mente humana, mas que era fruto de um carisma que vinha do Alto.” Alegava – e pelo menos dois papas concordaram – que eram guiados pelo Espírito Santo para uma “nova corrente” de espiritualidade: a da “unidade”.

Afirmando ter a sua própria teologia e interpretações especialmente inspiradas, o movimento se baseia em três textos bíblicos: a oração de Jesus “ut unum sint”, mal-traduzida como “para que sejam perfeitos na unidade” (Jo 17,23); “Porque onde dois ou três estão reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles.” (Mt 18,20); e “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27,46).

Lubich relata a história dos primórdios do movimento, em que ela e os seus seguidores não consultavam ninguém além de si mesmos:

“Estávamos lendo o Evangelho num abrigo iluminado por uma vela. Sentimo-nos particularmente atraídos pela oração de Jesus ‘ut unum sint’. Ficamos mesmo surpreendidos, já que estas palavras não mais pareciam difíceis de compreender; ao contrário, tivemos a impressão de compreendê-las um pouco melhor. Tínhamos a certeza: era a carta, a Magna Carta da nossa nova vida.”

Seus seguidores, ela dizia, “colocavam as vidas a serviço da unidade mundial,” e “a unidade é o que resulta da busca em comum pela mesma verdade luminosa.” Qual verdade, exatamente, ela não especifica nunca.

Em 1950, Lubich revelou a essência do movimento: ela mesma.

“Cada alma dos focolares tem de ser uma expressão da minha, e nada mais. A minha Palavra contém todas aquelas dos focolarinos e focolarinas. Eu resumo todos eles. Daí que, quando eu apareço, eles tenham de se deixar ser gerados por mim, comungar comigo. Também eu, como Jesus, devo lhes dizer: ‘Quem come a minha carne…’”

Em 1977, ao receber o Prêmio Templeton para o Progresso da Religião – um prêmio secular – Lubich se atribuiu a extraordinária façanha de ter realizado os desejos de Cristo. Ela afirmou: “Todos os que estavam presentes e que aderiam a religiões diferentes me pareciam unidos.”

“Eu me perguntei: ‘Como é que isto pode ter acontecido?’ Será que o motivo era que praticamente todos acreditavam em Deus, e que, naquele momento, Ele nos acolhia a todos?

“Quando eu saí, os primeiros a se aproximarem foram alguns membros de outras religiões: um monge tibetano me contou que escreveria imediatamente ao Dalai Lama para que me contatasse. Quatro judeus expressaram a sua alegria ao me dizerem que, basicamente, o Antigo Testamento é o tronco da árvore no qual o cristianismo foi enxertado. Evidentemente, eles queriam dizer que o desenvolvimento do nosso movimento veio dessa mesma árvore. Depois vieram os hindus, os sikhs, e outros.”

Cornelia Ferreira e John Vennari, no livro World Youth Day: From Catholicism to Counterchurch[3], observam em particular que foram Lubich e os focolares que criaram o conceito moderno de paróquia como unidade igualitária e democrática, governada por meio da “co-responsabilidade.” “Essa comunidade paroquial igualitária desenvolve a ‘fraternidade’ e o ‘corpo único’ (no qual são bem-vindos os não-católicos).”

“Na elite dos focolares, o anti-clericalismo e o desprezo pelos padres com ‘mentalidade sacerdotal’ (i.e. falta de submissão ao igualitarismo dos focolares) são ostensivos. A obediência pública à hierarquia e o ‘bombardeio de amor’[4] que lhe é dirigido, em especial ao papa, são apenas relações públicas. Arregimentar membros do episcopado ou protetores faz silenciar os críticos e contribui para a expansão. Mas em 1966, em Roma, na inauguração de uma escola para a formação de padres na espiritualidade da unidade dos focolares, Chiara propôs com ousadia o desmanche da autoridade sacerdotal:

‘Se os padres puderem aprender a deixar de lado tudo, inclusive o seu próprio sacerdócio, para assegurar a presença de Jesus em seu meio [cada pessoa da comunidade, e a comunidade como um todo, se tornando então um alter Christus], … daí Jesus vai enfim transformá-los em ‘novos’ padres com uma ‘nova’ abordagem pastoral, e haverá ‘novos’ seminários. … E se também eles se unirem [como iguais] ao setor laico do movimento, disto surgirá o que eu chamaria de ‘Igreja-Cidade’ ou ‘Igreja-Sociedade’ … Podemos oferecer ao mundo ‘novos padres’ que são ‘novos’ porque vivem o Novo Mandamento [da igualdade]…’”

Cornelia Ferreira e John Vennari prosseguem:

“Quase que a partir da sua fundação, quando o ecumenismo era proibido para os católicos, os focolares eram não-denominacionais… os focolares, assim, operavam como uma contra-igreja indiferentista muito antes do Concílio…

“Os focolarinos (membros dos focolares) buscam Jesus apenas na unidade uns com os outros, e afirmam ‘poder gerar a presença de Cristo’ em seu próprio meio. Assim como o Unitário-Universalismo, eles transformam ‘Deus é amor’ em ‘amor é Deus,’ onde ‘amor’ denota uma unidade derivada de igualdade e unanimidade completas.”

Sandro Magister escreveu em 1997 que os focolares eram o maior dos “novos movimentos”. Ele cita Gordon Urquhart, um informante inglês cujo livro de 1999, The Pope’s Armadas: Unlocking the secrets of mysterious and powerful new sects in the Church[5], fala de uma “gnose” dos focolares, com seus “mistérios reservados aos iniciados.”

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Urquhart ficou sabendo, durante o tempo em que era focolarino, que Lubich afirmava ter tido uma visão na qual Deus lhe revelava o futuro do movimento. Magister escreve: “Tudo gira em torno da experiência da fundadora, cuja autobiografia é considerada escrita por mão celestial e não pode, portanto, ser contrariada.”

Urquhart descreve as características em comum que existem nas seitas da Igreja, incluindo os Focolares, o Caminho Neocatecumenal e Comunhão e Libertação: “um sistema interno super eficiente de comunicações; ensinamentos secretos revelados por etapas; uma vasta operação de recrutamento usando técnicas sectárias; ambições ilimitadas de influenciar a igreja e a sociedade.” Além disto, essas seitas, diz ele, têm efeitos similares em seus adeptos: “a destruição do ego, causando depressão e colapso nervoso numa escala alarmante.”

Focolares: maçonaria com matiz católico

O livro World Youth Day: From Catholicism to Counterchurch equipara, sem rodeios, as metas dos focolares aos objetivos da maçonaria. Mesmo que o movimento não queira admitir, os objetivos dos focolares – fraternidade universal da humanidade, “unidade” como meta acima de todas as outras, inclusive acima da adesão à Verdade divina – são idênticos aos dos maçons. As doutrinas de Chiara Lubich são meros retoques, com ar católico, do humanismo “liberdade, igualdade, fraternidade” da maçonaria, tudo compreendido sem relação com Deus ou com os Seus preceitos.

Os maçons também afirmam não exigir que os membros abandonem as suas crenças religiosas. O site web da Associação Maçônica Norte Americana (MSANA) descreve as relações com os membros das várias crenças religiosas em termos muito similares aos de Lubich.

A maçonaria, diz o site, está aberta a homens de qualquer fé, e “exige de seus membros uma crença em Deus como parte da obrigação de todo adulto responsável, mas não defende nenhuma fé ou prática em particular. As cerimônias maçônicas incluem orações, tanto tradicionais quanto espontâneas, que reafirmam a dependência de cada indivíduo em relação a Deus e que servem para buscar orientação divina…”

“Os maçons acreditam que há um só Deus e que as pessoas empregam diversos modos diferentes para buscar Deus e para expressar o que conhecem dEle… Assim, pessoas de diferentes crenças podem se unir em oração, concentrando-se em Deus e não nas diferenças entre si. A maçonaria acredita em liberdade religiosa, e acredita que a relação entre o indivíduo e Deus é pessoal, íntima e sagrada.”

Tanto faz que as idéias de Chiara Lubich tenham surgido totalmente dela mesma, como ela alega, ou que tenham sofrido influência dos princípios maçônicos que o pai e o irmão absorveram em seu envolvimento com o comunismo e com o socialismo; o resultado final parece tornar esta questão irrelevante. De qualquer jeito, podemos apostar tranqüilamente que não vieram de Deus.

Os focolares, o ecumenismo e a nova vida religiosa

O estranho messianismo de Chiara Lubich parece ser contagioso, com os adeptos quase sempre falando em recriar a humanidade – ou a democracia, ou a Igreja, ou o que estiver na agenda – conforme uma nova imagem. Considerando o que vimos anteriormente, começamos a compreender melhor quando clérigos como o cardeal João Braz de Aviz se pronunciam de modos que prima facie parecem opostos aos ensinamentos católicos e à práxis imemorial. Como já vimos no episódio anterior[6], o prefeito da Congregação para os Religiosos é um adepto fervoroso da missão dos focolares: derrubar as barreiras entre as religiões e recriar a vida consagrada de acordo com um novo padrão; essencialmente, de acordo com a “unidade acima da verdade”, o dogma central dos focolares. As suas palestras em encontros “inter-religiosos” já eram uma característica conhecida do seu ministério antes que ele fosse trazido a Roma pelo papa Bento XVI, e nunca houve nenhum sinal de censura a elas. O cardeal brasileiro parece nem pestanejar ao partilhar o palco com “espíritas”, maçons do Grande Oriente e praticantes de vodu, fora a enfiada mais convencional de budistas, judeus e muçulmanos.

Não faltam evidências da ideologia focolarina nas tarefas curiais que o cardeal brasileiro exerce no Vaticano. Conhecido pela proximidade com a comunidade de Bose, no Piemonte, que é mista, “monástica e ecumênica”, e com o seu ícone e fundador Enzo Bianchi, Braz de Aviz sugeriu em 2015 a criação de uma nova forma de vida consagrada que incluiria tanto homens quanto mulheres “numa atmosfera familiar.” Para realizar isto, disse ele, é preciso abandonar as idéias “antiquadas”: “No passado nós tínhamos dificuldades quando se tratava de viver juntos, porque se dizia que é preciso ter cuidado, que a mulher está em perigo, que o homem está em perigo…”

Ele acrescentou, recordando que o voto de castidade ainda é importante na vida consagrada, que essas comunidades “mistas” não devem alojar homens e mulheres “na mesma casa.”

Outros conceitos “antiquados” a serem descartados são as idéias de obediência religiosa, de autoridade e de recursos financeiros. Todos estes conceitos são abordados nos documentos Vultum dei Quaerere e Cor orans, os quais removem a maior parte da autoridade dos superiores escolhidos pela comunidade, exigindo que todas as comunidades monásticas se filiem a “federações” que terão um governo centralizado – respondendo apenas à Congregação para os Religiosos – e terão o controle último sobre os bens materiais de cada comunidade individual.

Numa entrevista ao jornal paraguaio Hora, em julho deste ano, ao tratar dos “desafios” encarados pela vida consagrada em nossos dias, o cardeal disse: “Estamos trabalhando firme na transformação do treinamento. Temos de pensar na formação desde o ventre até o último suspiro.”

E não interessa que você goste da sua vida religiosa do jeito que está; eles sabem mais do que você. Tudo o que é antigo tem de sumir:

“Muitas coisas da tradição, muitas delas da cultura passada, não servem mais.

“Por exemplo, temos modos de vida ligados aos nossos fundadores e que não são essenciais: um jeito de rezar, um jeito de se vestir, de dar mais importância a certas coisas pouco importantes, e a outras importantes se dedicar só um pouco. Essa visão mais globalizada de tudo… não tínhamos isso, e agora temos.

“Que a minha cultura seja mais importante do que a cultura do outro… isto não é mais verdade porque as culturas são todas iguais, mas têm de buscar os valores do Evangelho.”

A influência dos focolares nesse dicastério explica o favoritismo categórico do cardeal pelas ordens religiosas do tipo LCWR[7], comunidades que não usam hábitos, seguem o Novo Paradigma e adotaram há muito tempo a ideologia “verdade, não.” Em 2015, os defensores da LCWR rejubilaram quando a “visita” que a Congregação realizou por 6 anos terminou “em uma lamúria,” nas palavras do jesuíta Thomas Reese, em vez de acabar num estrondo. Braz de Aviz criticou o seu antecessor, cardeal Franc Rode, por ter entrado no processo “unilateralmente” e sem consultar ninguém.

Rode tinha especulado educadamente que talvez a LCWR houvesse adotado “uma certa mentalidade secular” e até mesmo, “talvez, um certo espírito ‘feminista’.” Os comentários provocaram um furor histérico na imprensa católica esquerdista. Mas Rode se aposentou e Braz de Aviz transformou a “inquisição” à LCWR – notória e escandalosamente heterodoxa – em um “diálogo afirmativo.”

Ele e o seu número dois, José Rodrigues Carballo, se orgulham de fazer ameaças não muito veladas às comunidades que desejam manter as tradições de fé e de vida religiosa anteriores ao Vaticano II. Em 2015, num encontro de formação de diretores religiosos, ele afirmou novamente que era o caminho do Vaticano II ou o caminho da rua: “Na verdade, os que se distanciam do Concílio para seguir outro percurso estão se matando – mais cedo ou mais tarde, morrerão. Não terão bom senso. Estarão fora da Igreja. Precisamos construir usando o Evangelho e o Concílio como pontos de partida.”

“Deus não é estático. Deus é sempre um movimento novo – de luz, de calor, de demonstração. Ele fala em cada época aos homens e mulheres com a verdadeira linguagem da época,” disse o cardeal.

Focolares ou Cristo: uma escolha que é uma necessidade lógica

O catolicismo e os focolares são logicamente incompatíveis. Portanto, um homem que alega ser um bispo “focolarino” já escolheu o lado. Depois que compreendemos esta necessidade lógica, um homem como o cardeal João Braz de Aviz começa a fazer muito mais sentido. “Que a minha cultura seja mais importante do que a cultura do outro… isto não é mais verdade porque as culturas são todas iguais” é uma recitação do “carisma da unidade”, o indiferentismo focolarino, aplicado a toda cultura humana. Este é, em essência, o mundo que eles querem criar, e que estão construindo mediante o uso das instituições da Igreja.

Ao compreendermos isto, torna-se evidente a urgência em recriar a vida consagrada de acordo com a visão dos focolares. Uma doutrina que nega o primado da verdade e alega que todas as idéias têm igual valor precisa, por força de sua própria lógica, sempre rejeitar qualquer comunidade de religiosos que afirma seguir Cristo e a fé católica e nada mais.


Notas:

[1] N.T.: Artigo original publicado na edição de 15/setembro/2019 da revista católica The Remnant.

[2] Loppiano é uma cidade fundada em 1964. Foi construída pelos focolares em um território doado ao movimento. Atualmente possui uma população de mais ou menos 900 almas. Há outras 32 cidades focolares espalhadas pelo mundo.

[3] N.T.: “Dia Mundial da Juventude: do Catolicismo à Contra-igreja”. Livro publicado pela Canisius em 2005, sem tradução em português.

[4] Técnica de lavagem cerebral empregada comumente por cultos; é feita para dobrar a resistência de uma pessoa aos objetivos de um grupo e criar vínculos emocionais e psicológicos.

[5] N.T.: “As Armadas do Papa: Desvendando os Segredos das Misteriosas e Poderosas Novas Seitas na Igreja”. Livro sem tradução em português.

[6] N.T.: a autora se refere ao artigo “Something wicked this way comes: what the contemplative life might look like under the New Bergoglian Paradigm” [“Algo perverso vem aí: como pode ficar a vida contemplativa sob o novo paradigma bergogliano”], também de sua autoria, publicado no The Remnant, edição de 26 de agosto de 2019.

[7] N.T.: sigla em inglês para a Conferência de Lideranças das Ordens Femininas, uma associação com 1300 membros fundada em 1956 nos EUA.

Plantas Brutais

Autor: Anthony Daniels [*]
Tradução: André Carezia

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teatro nacional brasilia

Aos dez anos de idade, mais ou menos, eu tinha o costume de desenhar cidades. Era muito fácil, e eu ficava espantado com a confusão que todos tinham feito antes de mim. A única conclusão que eu pude tirar foi que, até então, o mundo era povoado de idiotas. Bem no meio da cidade ficava o prédio do parlamento, que era como a basílica de São Pedro, só que em escala maior e mais grandiosa. Dava-lhe a volta uma rua circular de oito faixas, da qual irradiavam, simetricamente, seis largas avenidas. O que os deputados deviam fazer para chegar ao parlamento – driblar o tráfego, suponho – não era questão que me dizia respeito. Eu estava projetando cidades e edifícios, e não conveniência para seres humanos. Ao longo das avenidas se localizavam as instituições que, então, eu considerava essenciais para as cidades: o museu de história natural, a galeria de arte, o palácio real. Tudo era em grande escala, e não era nem planejada nem permitida nenhuma bagunça do tipo criado por comércios e outros estabelecimentos não-essenciais.

Enquanto eu desenhava as minhas cidades, Brasília estava sendo construída, embora com um vocabulário arquitetônico diferente: em vez de fachadas neoclássicas de mármore, concreto armado. Em termos de design e planejamento urbanístico, entretanto, não estava muito à frente das minhas; porém, ao contrário dos meus projetos, foi posto em prática.

A primeira coisa a dizer sobre Brasília é que se trata de uma assombrosa conquista, uma façanha; e isto independe de você achar que é ruim, boa, ou alguma coisa intermediária. No local onde, até pouco mais de meio século atrás, nada existia além de um planalto remoto, quente e cheio de arbustos, agora se encontra uma cidade funcional de mais de três milhões de pessoas. É o suficiente para suscitar admiração.

Talvez ainda mais surpreendente seja o fato de Brasília ficar pronta e funcional em menos de quatro anos após o lançamento da primeira fundação. O sonho de transferir a capital do litoral para o interior era quase tão antigo quanto o próprio Brasil; na verdade, tal transferência já era um requisito constitucional de longa data, ainda que fosse letra-morta. A idéia era tanto econômica quanto estratégica: a mudança desenvolveria o interior, ao mesmo tempo que protegeria o país contra a ocupação estrangeira.

Quem finalmente ordenou a construção de Brasília foi o presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, um ex-urologista formado em Paris. De acordo com a história, antes das eleições um homem perguntou ao Kubitschek se ele cumpriria, caso eleito, o requisito constitucional de transferir a capital, e ele afirmou que sim. Não sei se por motivos de probidade nada universal entre políticos, ou se por motivos mais pragmáticos, Kubitschek manteve a palavra, mas impôs a condição de que a nova capital fosse completada em seu mandato presidencial. Assim como muitos, talvez a maioria, ou mesmo todos os projetos grandiosos, o custo econômico não foi levado em conta: Kubitschek foi, com efeito, um “Pedro, o Grande” brasileiro, mas sem a crueldade e a indiferença para com a vida humana. Infelizmente, sem o bom-gosto também.

Esta diferença, sem dúvida, teve mais a ver com o Zeitgeist artístico do que com as qualidades individuais dos dois homens. Kubitschek tem um mausoléu em Brasília. O seu corpo está preservado em um sarcófago de pedra, dentro de uma rotunda pouco iluminada, completa, com um museu de memorabilia que inclui o seu traje vespertino de gravata branca e decorações estrangeiras. A coisa toda é estranhamente soviética para um país que parece tão insovietizável como o Brasil; tem cara de um híbrido do túmulo de Lenin com o museu das “provas de amor” de Bucareste, dedicado aos presentes que Nicolae e Elena Ceausescu receberam de vários lugares do mundo, tais como os cálices e tigelas feitos de casca de coco e entalhados pelos seus fervorosos admiradores em Samoa.

No mausoléu há uma fotografia de Belo Horizonte, onde Kubitschek foi prefeito em 1940. Era evidentemente um local muito prazeroso em termos arquitetônicos, uma cidade européia com bulevares cercados de árvores, ao longo dos quais seria agradável passar o dia de café em café. Tudo tinha uma escala humana, mas, em certo sentido, era indigno de nota, porque nenhum arquiteto tinha pensado em construir com o objetivo de tornar Belo Horizonte completamente diferente das outras cidades. Não havia nada no quadro que dissesse: “Aqui é Belo Horizonte, e mais lugar nenhum.”

Menos de vinte anos depois, a mudança de bom-gosto manifesta na construção de Brasília é surpreendente; representa uma revolução mais profunda do que muitas revoluções políticas. Foi, é claro, uma revolução de cima, não de baixo; e aliás, em grande parte, insincera. Sobrevoando Brasília de helicóptero, eu não pude deixar de notar que, nos subúrbios mais abastados da cidade, os ricos se apressaram em construir residências neo-coloniais (algumas de gosto duvidoso), e quase nenhuma no estilo ultra-modernista. Pode-se discutir os papéis que a economia e a necessidade social desempenharam na revolução, mas a alteração no bom-gosto foi certamente de acordo com as doutrinas arquitetônicas dos mandarins em voga na época.

As três maiores personalidades na construção de Brasília foram o urbanista Lúcio Costa, o arquiteto Oscar Niemeyer, e o paisagista Burle Marx. Este último, que conhecia a flora de todas as regiões do Brasil, e criou os jardins planejados no interior e no exterior de vários prédios importantes da cidade, fez uma obra de grande beleza e elegância. Infelizmente, o seu talento e o seu bom-gosto acabaram quase sempre desperdiçados pelo brutalismo dos outros dois.

Costa e Niemeyer eram ambos admiradores e seguidores de Le Corbusier e dos comunistas – daí a estética desumana. Niemeyer, ainda vivo aos 103 anos [**], é, sem dúvida, um homem desinteressado financeiramente (embora ninguém nunca tenha sugerido que Lenin, Stalin, ou mesmo Hitler, estivessem nisso pelo dinheiro – eram monstros desinteressados); porém, é preciso certamente uma dose considerável de estupidez, uma deficiência na imaginação moral, ou um egoísmo mais pronunciado do que o mais voraz banqueiro de Wall Street para se proclamar comunista depois de todo o desastre humano que a doutrina provocou no século passado. Na verdade, há um pronunciamento de Niemeyer que representa não apenas o seu egoísmo, mas sintetiza grande parte do egoísmo doentio de muitos artistas e arquitetos modernos: “Quem quer que vá a Brasília pode gostar ou não dos seus palácios, mas não pode dizer que um dia já viu alguma coisa semelhante.” Isto continuaria sendo verdade, evidentemente, se Brasília tivesse sido construída com manteiga congelada, mas a originalidade de Brasília não é a questão.

A absoluta incompetência de Costa como planejador de cidades, ao menos do ponto de vista de toda a humanidade urbanizada que existiu antes, beira o ridículo. É claro que o julgamento da competência de um homem depende do que se crê que ele esteja tentando fazer. Aprendi esta difícil lição na Tanzânia, onde o presidente Julius Nyerere (atualmente em processo de canonização) tinha reduzido o país, através das suas políticas, a níveis inéditos de mendicância, ao mesmo tempo em que pregava sem cessar a necessidade de desenvolvimento econômico. Daí eu, ingênuo, concluí que ele era incompetente ao extremo, mas as escamas caíram dos meus olhos quando eu assumi que a sua meta era permanecer como líder supremo por vinte e cinco anos sem muita coisa que lhe fizesse oposição. Na verdade, ele era supremo na competência.

O que é que Costa fez, então (vamos esquecer, por ora, as suas intenções)? Ele organizou uma cidade de acordo com os conceitos de Le Corbusier: aqui, embaixadas; ali, hotéis; acolá, locais de lazer – cada quarteirão com uma função, separados por enormes campos abertos, e acessíveis apenas por meios motorizados de transporte. Tampouco foram deixadas áreas de sombra, já que alguns excêntricos poderiam querer caminhar ou andar de bicicleta: era preciso desencorajá-los diante da perspectiva de insolação – a temperatura costuma passar dos 38 graus sob o sol escaldante (o mesmo problema, por sinal, existe na cidade de Chandigarh, na Índia, planejada por Le Corbusier; o que sugere, para empregar uma frase que os marxistas adoram, que não se trata de uma coincidência).

Os poucos bancos de concreto – na Praça dos Três Poderes, por exemplo – deviam ser construídos de modo a provocar, em cinco minutos, dor nas costas ou no traseiro de eventuais mendigos; não se pode evitar a lembrança do comentário profético do Marquês de Custine sobre os espaços públicos de São Petersburgo: uma aglomeração de gente neles seria uma revolução. A possibilidade de uma aglomeração espontânea de pessoas em Brasília é praticamente inexistente, porém; é uma cidade para golpes de Estado, e não para revoluções. Talvez isto seja uma das razões ocultas do seu projeto, do mesmo modo que os bulevares de Haussmann foram projetados para que os soldados pudessem mirar facilmente na turba revolucionária.

O homem, em Brasília, é essencialmente um inseto, uma espécie de formiga, ou ainda uma bactéria nociva. Há um plano em andamento para garantir que, antes da Copa do Mundo de 2014, os carros na área central não estacionem na rua, e sim no subsolo: carros estacionados na rua são um sinal da espontaneidade humana e da tendência para o caos. Le Corbusier chegou a escrever certa vez em tom de exclamação: “O plano, o plano é tudo! O plano precisa ser a lei.” Que é a humanidade, e que dirá um homem, se comparada à espécie de cidade que eu desenhava aos dez anos de idade?

Quanto aos edifícios propriamente ditos, eu devo assinalar, por questão de justiça, que uma meia dúzia são admiráveis; e um deles, o Palácio Itamaraty (o Ministério das Relações Exteriores) é mesmo bonito, por certo um dos melhores edifícios da segunda metade do século XX. De modo quase excepcional, é adaptado ao clima, com o seu imponente andar superior aberto ao ar que nunca esfria. Bem proporcionado, elegante, e feito de um concreto bem trabalhado, sem aparência bruta, como eu jamais vi em outra parte, se assenta em meio a um adorável espelho d’água ajardinado. O salão de recepções, revestido em pedra branca, com uma graciosa escada helicoidal feita da mesma pedra, é de uma elegante frieza – quase anti-séptico, eu diria.

Será que um arquiteto, à maneira de um escritor, deve ser julgado por sua melhor obra? É tão pouco provável, afinal, um arquiteto construir por acaso um belo edifício quanto um escritor produzir por acaso um grande romance. O talento é necessário em ambos os casos. Só que a analogia não é bem exata: se não for por mais nada, um edifício ruim não pode ser descartado com a mesma facilidade de um livro ruim. Uma arquitetura de má qualidade é inevitável; livros de má qualidade, não. Edifícios ruins não ficam escondidos, mofando em prateleiras de bibliotecas: eles desfiguram cidades inteiras. E o fato é que Niemeyer é ruim na maior parte do tempo. Na realidade, bem ruim.

O seu longo desfile militar de prédios retangulares de vidro – os ministérios – ao longo do eixo central da cidade é uma celebração arquitetônica do cruel poder burocrático. Caixotes de vidro são especialmente mal-adaptados a um clima quente, no qual o sol brilha quase o tempo todo, e poucas sensações são mais desagradáveis do que a da luz solar golpeando a pele coberta de roupas após ter atravessado um vidro. A solução de Niemeyer para o problema técnico que ele mesmo criou foram os hediondos brise-soleil do Le Corbusier: lâminas ajustáveis de metal que desviam os raios, e que em pouco tempo dão aos edifícios a aparência de favela. E, de fato, quando se observa através do vidro que há no lado que não precisa dos brise-soleil, esta impressão é reforçada pela desordem singular do que se vê: diversos arranjos com espécies diferentes de cortinas e uma variedade arbitrária de móveis e equipamentos; em resumo, a impressão estética de um projeto de moradia num bairro sinistro de Chicago.

O funcionalismo, como de costume, não funciona; e o repúdio à ornamentação, em parte puritano e em parte ditado por uma ideologia estética, é derrotado pela necessidade humana. Alguns palácios – a Suprema Corte, por exemplo – têm uma aparência elegante quando inundados de luz à noite (estão entre as melhores obras de Niemeyer), mas causam uma impressão completamente diferente à luz do dia. O concreto da estrutura futurista já se deteriorou, conforme o esperado; a caixa de vidro por dentro da varanda aranhosa é uma bagunça precisamente porque abriga pessoas que têm de trabalhar, e elas usam cadeiras, mesas e outros acessórios. A caixa de vidro, obviamente, foi imaginada sem nada disto: a sua perfeição era tão abstrata quanto, digamos, um esquema de coletivização da agricultura.

Na sua pior parte, a arquitetura de Niemeyer é tão ruim que é quase cômica; ou melhor, seria engraçada se não fosse tão permanente, e não tivesse sido declarada patrimônio da humanidade pela UNESCO. O Teatro Nacional, por exemplo, é uma pirâmide truncada, feita de cimento queimado, cuja feiúra não vem deste mundo. Se o inferno precisasse de um arquiteto, Niemeyer teria boas chances. Se me pedissem para adivinhar o que é, a partir do exterior e do interior do edifício, eu acho que arriscaria dizer que se trata de um abrigo anti-nuclear, e não de um teatro. Os corredores recordam, em menor escala, aqueles túneis de guerra que os nazistas construíram na lateral de uma colina quando ocuparam Jersey. A equipe de Costa e Niemeyer conseguiram combinar as conseqüências desagradáveis do gigantismo com as claustrofóbicas de O Poço e o Pêndulo[***]: não é pouca proeza, mas também não é uma que eu queira ver repetida.

Dito tudo isto, a sinceridade me impele a registrar um fato que me colocou num estado desconfortável de dissonância cognitiva. Muitas pessoas me contaram que a população de Brasília, metade da qual já nasceu ali, gosta muito de viver na cidade, e não tenho motivos para duvidar. O primeiro pensamento que me ocorreu foi que isto acontece porque, mesmo com todas as falhas estéticas da cidade, a vida ali é relativamente fácil e conveniente quando comparada a outras cidades brasileiras que estão sempre com o trânsito congestionado e a taxa de crimes em alta. Mas a criminalidade não é exatamente desconhecida em Brasília; na verdade, os blocos de apartamento corbusianos, construídos sobre pilares para que os andares térreos sejam áreas abertas, poderiam ter sido projetados para tornar mais fácil a vida do assaltante e do estuprador. O fato de que os outros brasileiros, ao se mudarem para Brasília, detestem-na vigorosamente, sugere que a mera conveniência corporal de se viver numa cidade moderna (boa parte da qual, aliás, está distante do projeto original, sendo composta de torres de vidro que poderiam estar em qualquer lugar), que é tão boa para eles quanto para os nativos do local, não explica o apreço destes últimos por ela. E isto é um pensamento bastante incômodo, já que transforma os arquitetos naquilo que Stalin, ídolo de Niemeyer, achava que os escritores eram ou deviam ser: engenheiros da alma.


Notas:

[*] O artigo original, em inglês, foi publicado na edição de outubro de 2011 da revista de cultura The New Criterion. Link para o original: https://newcriterion.com/issues/2011/10/brutal-blueprints.

[**] N.T.: Em 2011, data da publicação do artigo original.

[***] Conto de Edgar Allan Poe, publicado originalmente em 1842. Há uma tradução brasileira, publicada pela Companhia das Letras em 2008.

O Roteiro Feminista de Vida e as Mulheres Infelizes

Autora: Joy Pullmann (*)
Tradução: André Carezia

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A nossa cultura é tão saturada de feminismo que até mesmo as pessoas conservadoras e devotamente religiosas como eu não conseguem raciocinar fora dos sulcos que as suas rodas criaram. Isto não seria um problema se o feminismo não fosse, graças à visão falsa da natureza humana, diametralmente oposto ao florescimento humano, tanto individual quanto coletivo.

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Mesmo com as evidências se acumulando de desgosto em desgosto, muitas mulheres continuam se entregando à dissonância cognitiva. Nós todos queremos crer que somos excepcionais, que os padrões do comportamento humano não se aplicam a nós; que coisas ruins aconteceram a outras pessoas que fizeram as mesmas coisas que nós fazemos ou queremos fazer, mas estas coisas ruins não vão acontecer também conosco. Somos especiais. Somos diferentes.

A recusa em aprender com a história e com a experiência apenas dessensibiliza as pessoas para a realidade que lhes bate na cara, e da qual precisam para tomar decisões mais inteligentes e viver melhor. Ter em mente que a experiência e a sabedoria dos seres humanos ao longo do tempo pode pesar no nosso comportamento presente permite uma forma de diagnóstico e tomada de decisões que utiliza bilhões de pontos de amostragem acumulados. Sim, é preciso ter humildade para julgar se as suas condutas e pressuposições são equivocadas, mas você deixa de marcar pontos no feminismo para colher cem vezes mais numa vida abundantemente feliz. Como é que eu sei? Aconteceu comigo.

Comecei a abandonar o feminismo no dia em que vi um teste de gravidez

Fui premiada com uma gravidez não planejada e não desejada. Éramos casados, mas eu fiquei arrasada, porque o que eu queria era fazer o que todo mundo dizia que se deve fazer: sair da faculdade e me concentrar imediatamente na carreira. Eu e o meu marido chamamos o bebê de “nosso bolo de frutas”: um mimo com o qual ninguém sabe exatamente o que fazer. Um bebê enjoado que mereceu ficar com este apelido por dois anos. Agora, não lhe cabe mais.

Com o tempo, eu aprendi que, em vez de ter me angustiado com este milagre, devia ter ficado – e acabei ficando, devagar – profundamente grata. Este menininho me salvou, mostrando-se lentamente na minha vida como uma flor rara e preciosa. Mais uma pétala se abriu esta semana: eu li dois relatos recentes de mulheres com as quais eu me pareceria muito mais se tivesse descoberto antes um jeito de esterilizar o meu útero, que era o que eu planejava.

Uma mulher de 35 anos escreveu no mês passado, imensamente angustiada, para a coluna de conselhos do The Cut, tornando-se uma das histórias mais lidas dos últimos tempos. Ela começou na vida como uma “inovadora” na costa oeste, pulando de cidade em cidade e de namorado em namorado: pode parecer glamouroso, mas hoje, em retrospectiva, ela vê o desperdício de potencial para formar uma família.

Eu não tenho familiares por perto. Nenhum relacionamento construído sobre anos de amadurecimento mútuo e experiências partilhadas. Nenhum filho. Amigos eu faço, facilmente, mas já deixei quase todos eles para trás; cada vez que eu me mudei para outras cidades, eles continuaram a criar raízes profundas: casamentos, propriedades, carreiras, comunidades, famílias, filhos. Tenho poucas amigas íntimas. Sou grata por elas, mas a vida prossegue cada vez mais atarefada, e hoje ficamos meses sem conversar. Grande parte das noites eu passo sozinha com o meu gato (olhe o clichê)…

A minha apatia está se manifestando de modos estranhos. Eu bebo demais, e, quando aparece a ocasião de encontrar os meus amigos, acabo ficando bêbada e irritada, ou triste (ou as duas coisas), e afastando-os. E eu sinto, com os homens que namoro, um ímpeto de obter algo cedo demais da relação – morar junto, me casar, ‘preciso ter filhos em dois ou três anos’; momentos divertidos! Tudo isto enquanto tento ser a gostosa de 25 anos que eu imaginava ser até pouco tempo atrás.

Eu pensava que era uma sabe-tudo. Vida de aventuras na cidade! Viajar o mundo! Criar recordações! Me sinto incrivelmente vazia agora. E tola.

A colunista respondeu com empatia e papo de auto-estima, mas não reconheceu e nem corroborou a verdadeira perda desta mulher. Aos 35 anos, a fertilidade feminina começa uma queda livre até a menopausa. É a idade na qual os médicos classificam uma gravidez como de alto risco, o que significa que a mulher tem maiores chances de complicações, que só aumentam à medida que a idade avança; são maiores também as chances de intervenção médica durante a gravidez e o parto, com mais riscos para a mãe e para a criança.

Assim, com toda a probabilidade, esta mulher já perdeu a capacidade de ter mais de um filho; se ela tiver sorte, pode conseguir um, apesar da falta de potencial para tal no horizonte em vista. Lembre que são precisos dois anos para ter cada bebê e se recuperar dele. Portanto, se você quer dois filhos, precisa de pelo menos cinco anos de fertilidade para tê-los. Se quer três filhos, precisa de pelo menos sete anos de fertilidade.

Subtraia isto de 35, e você obtém 28. Hoje, esta é a idade média para o primeiro casamento das mulheres, mas em geral elas não se casam pensando imediatamente em garantir ao menos um bebê. Isto quer dizer que milhões de casais estão, sem necessidade, arrumando encrencas para ter filhos, simplesmente por não escolherem os melhores momentos para tê-los.

Afastando as mulheres do nosso sonho americano

Hoje, 86% dos americanos querem ter pelo menos dois filhos. Mas adiar o casamento, e colocar a universidade e a carreira em primeiro lugar, faz com que eles não vivam à altura dos seus sonhos familiares. O New York Times registrou em fevereiro que “a distância entre o número de filhos que as mulheres dizem querer (2,7) e o número de filhos que provavelmente terão de fato (1,8) já é a maior em 40 anos.” Isto está criando um número cada vez maior de mulheres profundamente, irreparavelmente frustradas, como ilustra não apenas a escritora do The Cut, mas uma outra mulher esta mesma semana.

Uma mulher de carreira, com 50 anos e quatro diplomas universitários, ligou recentemente para o programa de rádio do Dennis Prager. Seu conselho para as mulheres jovens pode ser resumido no seguinte: não façam o que eu fiz. “Fui programada para entrar no mercado de trabalho, competir com os homens e ganhar dinheiro,” disse ela. “Supostamente seria uma vida de realizações. Mas quem me disse isto foi uma mãe feminista, divorciada, e que odiava o marido – meu pai.”

…é solitário ver os seus amigos tendo filhos, saindo de férias, planejando as vidas dos filhos, e você não tem mais nada para fazer à noite exceto ir para casa, para os seus cães e gatos…

Quando você envelhece e mora sozinha, surgem outras preocupações. Quem vai levá-la ao médico? Se alguma coisa lhe acontecer, não haverá outra renda para ajudá-la. São estas coisas que você não compreende quando tem os seus 20 e poucos anos; você não imagina que algum dia vai ficar velha e ter problemas de saúde…

Quero dizer às mulheres: encontrem alguém quando tiverem 20. Então vocês ainda são muito lindas. Então vocês ainda acham agradável resolver as coisas com alguém. Será muito mais difícil, quando chegarem nos 50 e já tendo morado sozinhas, vocês se comprometerem com alguém, terem alguém dentro de casa; cada mínimo detalhe deles é irritante, acostumadas que estão a serem sozinhas.

O famoso (ou infame) psicólogo e guru dos conselhos Jordan Peterson ouve isto o tempo todo das suas clientes femininas mais inteligentes e motivadas. Quando têm os seus 20 anos, elas acham que querem a carreira. Mas quando chegam aos 30, elas começam a perceber que também querem uma família, e que isto lhes é, na verdade, mais importante do que as marcas abstratas nos degraus de alguma carreira. Neste ponto, porém, dados os caprichos de encontrar alguém, de passar pelo casamento e de chegar depois na reta final da gravidez, é muito mais difícil que elas consigam a vida desejada.

Um dos vídeos populares de Peterson se chama “Mulheres de 30,” e contém comentários que ele repete em outros lugares.

“De fato não é evidente para mim que as mulheres jovens da nossa sociedade sejam informadas da verdade sobre como as suas vidas provavelmente serão,” diz ele. “Ensinam a elas, tanto de modo explícito quanto de modo implícito, que ficarão interessadas em primeiro lugar na busca de uma carreira dinâmica; há alguns sérios problemas com isto… A minha experiência tem sido a de que as mulheres de alto desempenho, quando chegam aos 30, decidem que o relacionamento e a família são as coisas mais importantes na vida.”

Peterson argumenta que a nossa sociedade “mente para as mulheres,” e ele tem razão. Somos instruídas a “buscar a nós mesmas” e procurar a felicidade em quase todos os lugares, menos onde a história humana já demonstrou que iremos colhê-la de modo mais generoso. O que ele não menciona aqui (nem em outros lugares, até onde eu vi) é a associação destas mentiras com os problemas de fertilidade, que tanta tristeza causam às mulheres.

Geralmente não é fácil encontrar alguém para casar, e mais do que um em cada dez casais experimentam infertilidade. Os problemas de infertilidade, além disto, aumentam e ficam mais difíceis de resolver com a idade. Aquele namorado que você descartou aos 25, porque “ainda não se achava pronta para casar,” não estará por perto aos 30, ou 35; os substitutos dele também já estarão sumindo de vista nesta idade.

A beleza feminina atinge o pico por volta dos 20 anos, e não surpreende que coincida (de um ponto de vista biológico) com a sua fertilidade. Eis um gráfico feito com dados do site OKCupid, mostrando a idade em que os homens acham uma mulher mais atraente:

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Aaron Renn, que postou este gráfico na sua lista de e-mail Masculinist, resume assim uma montanha de informações relacionadas ao romance e aos sexos: “Para a média das mulheres, a beleza geral provavelmente atingirá o pico por volta dos 25 anos, quando começará a decair então por praticamente o resto da vida. Para os homens, a aparência também entra em declínio. Mas o seu poder, status, dinheiro, começam no baixo e sobem com o tempo, compensando (ou às vezes mais do que compensando) por um certo tempo a perda na aparência… Na juventude, as mulheres estão na sua melhor forma, e os homens estão ainda se aprimorando. Daí que a mulher, em média, tenha muito mais poder de atração que o homem, em média. Quando chegamos aos 30 anos, esta situação começa a se inverter.”

Isto quer dizer que as mulheres detêm o maior poder de barganha nupcial por volta dos 20 anos. A estratégia feminina mais inteligente, portanto, é casar cedo, e se amarrar num marido antes que precisem competir com mulheres mais jovens e sexy. É exatamente o oposto do que a nossa sociedade manda as mulheres fazerem. Ela manda as mulheres fazerem a mesma coisa que os homens fazem. Mas as mulheres não são homens. Os nossos corpos são diferentes, a nossa fertilidade é diferente, as nossas prioridades são diferentes. Logo, enquanto os homens conseguem se recuperar (e até mesmo se beneficiar) de um casamento tardio, as mulheres em geral são extremamente prejudicadas por ele.

Nós, mulheres, necessitamos de um roteiro de vida próprio; merecemos um que se ajuste em nós. Para construir um, precisamos conhecer e precisamos que nos contem a verdade sobre aquilo que faz as mulheres felizes, aquilo que as mulheres querem com toda a força na vida, e os limites biológicos para realizarmos os nossos sonhos. Precisamos, depois, agir sobre este conhecimento para dar à luz os nossos sonhos.

Você pode dar sorte, como eu, e ter um bebê-surpresa precoce que transforme todos os seus planos de vida em algo melhor. Entretanto, se eu fosse você, não esperaria por um milagre. Eu sairia e arrumaria um de propósito.


(*) Tradução do artigo publicado em dezembro de 2018 na revista The Federalist. O link para o artigo original: https://thefederalist.com/2018/12/11/the-feminist-life-script-has-made-many-women-miserable-dont-let-it-sucker-you/

A Culpa Está Matando o Ocidente desde Dentro?

Autor: Giulio Meotti[1]
Tradução: André Carezia

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De acordo com o professor Bruce Gilley, uma ‘sensação de culpa’ pelo colonialismo está degradando o ocidente de dentro para fora, e regimes autoritários como Irã, Rússia, China e Turquia estão lucrando com esta fraqueza.

Os romanos chamavam de damnatio memoriae: a condenação da memória que resultava na destruição dos retratos dos imperadores decaídos, e até dos seus nomes. O mesmo processo está agora em curso no ocidente em relação ao seu passado colonial. A elite cultural no ocidente parece hoje tão assombrada por sentimentos de culpa imperialista que não tem mais a certeza de que a nossa civilização é um motivo de orgulho.

O sentimento de culpa parece agora uma espécie de religião substituta pós-cristã que seduz muitos ocidentais. O estudioso francês Shmuel Trigano sugeriu que esta ideologia está transformando os ocidentais em “sujeitos pós-coloniais” que já não crêem mais em sua própria civilização, e sim naquilo que vai destruí-la: o multiculturalismo. Na França, por exemplo, lançou-se um manifesto por uma “república multicultural e pós-racial.” O resultado será, nas palavras do antropólogo Jean-Loup Amselle, uma “guerra de identidades” e conflitos entre as comunidades. Jeremy Corbyn, líder do Partido dos Trabalhadores britânico, disse no mês passado que se eleito primeiro-ministro iria ordenar que o Museu Britânico devolvesse para a Grécia os mármores de Elgin, o friso que um dia envolveu o Partenon em Atenas e uma das maiores atrações do Museu Britânico. “Toda esta campanha é uma completa demência,” escreveu Richard Dorment. É uma demência, contudo, que se espalha por toda a Europa.

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O presidente francês Emmanuel Macron anunciou que deseja modificar as normas que tornam intocáveis as coleções públicas francesas, permitindo o retorno à África de dezenas de artefatos históricos que hoje ficam no Museu do Louvre. Macron já incumbiu dois comissários – o escritor senegalês Felwine Sarr e o especialista em arte Bénédicte Savoy – de prepararem um relatório.

A Tanzânia solicita a devolução do famoso esqueleto de um Braquiossauro pré-histórico, a principal atração do Museu de História Natural em Berlim. Novas regras a respeito da restituição de “objetos coloniais” foram anunciadas pela ministra da cultura da Alemanha, Monika Grütters.

A maioria dos historiadores hoje é favorável à campanha pela devolução destes objetos. David Olusoga é um deles. Historiador de origem nigeriana, ele alega que estes artefatos coloniais são “roubos” cometidos pelas potências coloniais da época. Opinião diversa tem Zareer Masani, um historiador de origem indiana. Escrevendo para o The Telegraph, ele afirma que foram os colonizadores que tiveram um papel decisivo na preservação das antigüidades da civilização:

“Foi a dedicação deles, freqüentemente com enormes sacrifícios pessoais, que desvendou as maravilhas de muitas civilizações clássicas perdidas… A realidade é que não temos nenhuma idéia do que aconteceria com as antigüidades ‘saqueadas’ pelo mundo se não tivessem sido preservadas em coleções do ocidente. Será que os tesouros do palácio de verão de Pequim teriam sobrevivido à revolução cultural de Mao? Será que os mármores de Elgin teriam sobrevivido aos guias turísticos turcos, que quebravam pedacinhos para vender como souvenir? Será que o Daesh [Estado Islâmico] teria poupado os artefatos que sobrevivem nos museus europeus?”

Em 1969, a BBC levou ao ar “Civilization”, uma série de Kenneth Clark que explorava a arte e a cultura ocidentais. A civilização, então, era algo a ser glorificado. Em 2018, a BBC colocou no ar uma nova versão do clássico de Clark, “Civilizations” – note o plural. “Este ano, a versão século XXI do consagrado programa vai lançar um olhar crítico à história da civilização britânica, questionando se foi construída mediante ‘o saque e a fraude’ e quem são, de verdade, os bárbaros,” escreve Hannah Furness no The Telegraph. Um dos novos apresentadores é David Olusoga, o historiador que chamou os mármores de Elgin “um claríssimo caso de roubo”.

Há trinta anos, num livro, “As Lágrimas do Homem Branco”, o filósofo francês Pascal Bruckner escreveu que “o crítico fanático que denuncia sem interrupção e sem remorso as mentiras da democracia parlamentar é repentinamente arrebatado pela admiração diante das atrocidades cometidas em nome do Corão, das Vedas, do Grande Timoneiro…” Desde então, as elites ocidentais já desculparam muitos crimes cometidos em nome do Islã político, como se fossem conseqüências de nossos próprios crimes coloniais.

Quando os cristãos no Iraque foram exilados, assassinados ou perseguidos en masse pelo chamado Estado Islâmico, o ocidente quedou em silêncio – como se esses cristãos fossem os agentes do colonialismo ocidental, e não os habitantes legítimos e mais antigos do Oriente Médio, muito antes dos árabes se converterem ao Islã. Quando uma turba destruiu o Instituto Francês no Cairo, queimando livros e coleções, aqueles que agora querem devolver os “artefatos coloniais” quedaram em silêncio. Quando o presidente Rouhani do Irã visitou Roma, as autoridades italianas cobriram as estátuas nuas nos Museus Capitolinos. Será que estamos encobrindo a nossa própria cultura para agradar o mundo islâmico?

Infelizmente, o que estamos “devolvendo” não são apenas os artefatos coloniais, mas o nosso orgulho mesmo da civilização ocidental. Uma nova “condenação da memória” está ocorrendo em nossos próprios museus, academia e classes falantes – e tem profundas repercussões em nossa capacidade de lidar com os inimigos da civilização. “O material pós-colonial fornece um combustível importante para o jihadismo,” declarou o estudioso de Islamismo mais importante da França, Gilles Kepel.

The Monuments Men”[2] é um filme feito em 2014 por George Clooney. É sobre um grupo de curadores ocidentais e especialistas em arte que viajam à Europa para resgatar obras-primas roubadas pelos nazistas. Foi uma estória de bravura e clareza moral ocidental durante a 2a. Guerra Mundial. Em 2015, o Estado Islâmico destruiu Palmira, uma das mais importantes cidades do mundo antigo. Mas o ocidente assistiu passivamente a esta destruição cultural, e nenhum “caçador de obra-prima” foi enviado para salvar Palmira e outros sítios ameaçados. Os russos, tirando vantagem da passividade do ocidente, entraram em Palmira; o maestro mais famoso da Rússia, Valery Gergiev, durante a apresentação de um concerto triunfal na arena de Palmira, disse: “Protestamos contra os bárbaros que destruíram monumentos maravilhosos da cultura mundial”. Daí os ocidentais recriaram em Londres uma cópia vulgar do arco de Palmira.

Cadê os nossos caçadores de obras-primas de hoje?


Notas:

[1] Traduzido do original publicado em 1/julho/2018 no site do Gatestone Institute. O autor Giulio Meotti é jornalista italiano e editor de cultura do jornal Il Foglio. Link para o artigo original: https://www.gatestoneinstitute.org/12569/guilt-museums-artifacts

[2] Lançado no Brasil com o título “Caçadores de Obras-Primas”

 

Tirania e abuso sexual na Igreja Católica: uma tragédia jesuíta

Autor: John R. T. Lamont[*]
Tradução: André Carezia

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1830

Em vista das novas revelações sobre abusos sexuais na Igreja, muitos católicos querem saber como é possível que a situação mostrada por essas revelações viesse a se instalar. A primeira pergunta já vem de longa data: por que os bispos, ao invés de remover os predadores sexuais de seus ministérios, escondem os seus crimes e transferem-nos para novos postos? Nenhuma resposta satisfatória foi dada a esta questão ainda. E agora ela se tornou mais grave por causa de uma segunda pergunta: como é que nomeiam Theodore McCarrick arcebispo de Washington e cardeal, e ainda o fazem planejador-mor da política de abuso sexual dos bispos americanos em 2002, sendo que o seu envolvimento nos abusos sexuais era amplamente conhecido nos círculos clericais e já tinha sido levado ao conhecimento da Santa Sé?

Estas coisas não acontecem por causa da lei da Igreja. Até o dia 27 de novembro de 1983, a lei em vigor na Igreja Latina era o Código de Lei Canônica de 1917. O cânon 2359 deste código, no parágrafo 2, decretava que se os clérigos cometessem, com menores de 16 anos, uma ofensa ao sexto mandamento do decálogo, eles deveriam ser suspensos, declarados infames, destituídos de qualquer cargo, benefício, dignidade ou posto que ocupassem; nos casos mais sérios deveriam ser laicizados.

Este cânon foi substituído pelo cânon 1395 do código de 1983, que no parágrafo 2 declara: ‘o clérigo que de outro modo tenha cometido delito contra o sexto mandamento do Decálogo, […] com menor abaixo de dezesseis anos, seja punido com justas penas, não excluída, se for o caso, a demissão do estado clerical.’ O código de 1983 trata os crimes do tipo cometido pelo cardeal McCarrick no cânon 1395, parágrafo 2: ‘O clérigo que de outro modo tenha cometido delito contra o sexto mandamento do Decálogo, se o delito foi praticado com violência, ou com ameaças, ou publicamente, ou com menor abaixo de dezesseis anos, seja punido com justas penas, não excluída, se for o caso, a demissão do estado clerical.’ Esses cânones não dispõem essas punições como opcionais; eles obrigam que tais crimes sejam punidos pela autoridade eclesiástica. A pergunta então agora é outra: por que as autoridades eclesiásticas violaram a lei e não cumpriram esses cânones?

Sem dúvida uma porção de fatores se juntou para produzir esta situação desastrosa. Um fator, porém, não foi ainda amplamente discutido ou compreendido, mesmo tendo um efeito primário na geração da situação escandalosa que ora prende a nossa atenção. Tal fator é a influência dentro da Igreja de um conceito de autoridade como uma forma de tirania, ao invés de se basear na lei e de ser constituída por ela. Este ensaio apresenta a natureza desse conceito, descreve como ele veio a se tornar influente, e explora alguns de seus resultados mais significativos.

As origens intelectuais desse conceito de autoridade e obediência se encontram principalmente na teologia e filosofia nominalista. Guilherme de Ockham, notoriamente, tomou partido de um dos lados do dilema de Eutífron ao afirmar que as ações boas são boas simplesmente por serem ordenadas por Deus, e que Deus poderia tornar bons a idolatria, o homicídio, a sodomia, e mau o abster-se dessas ações, se Ele ordenasse que elas fossem praticadas. Este conceito de autoridade divina dá força a uma compreensão tirânica da autoridade em geral: ela se basearia na vontade arbitrária daquele que detém o poder, ao invés de se basear na lei.

Uma compreensão da autoridade baseada na lei, por outro lado, sustenta que a lei derivada da natureza do bem é que é a fonte da autoridade de um líder, e delimita a esfera na qual um líder pode emitir ordens. Os estudiosos há muito tempo sabem que o domínio do pensamento nominalista no século quatorze deixou marcas no pensamento católico por vários séculos; importantes teses nominalistas permaneceram incrustadas mesmo em estudiosos que se acreditavam defensores das tradições anti-nominalistas. A natureza da autoridade era uma dessas teses. Todos os teólogos e filósofos católicos durante a contra-reforma sustentavam que a obrigação moral e legal devia ser compreendida como conseqüência da ordem de um superior; [Francisco] Suárez, caracteristicamente, descrevia a lei como ‘o ato pelo qual um superior deseja obrigar um inferior a desempenhar uma ação específica.’

Um dos principais objetivos da contra-reforma era a restauração da disciplina entre os clérigos e os religiosos. As teorias sobre a lei e a autoridade que guiaram essa restauração se distinguiam da posição puramente nominalista, mas estas distinções se perderam quando os princípios práticos de treinamento em obediência foram concebidos. Estes princípios incorporaram uma compreensão tirânica da autoridade, e uma compreensão servil da justa obediência, no sentido de que consistiam na total submissão à vontade do superior. A mais influente formulação destes princípios aparece nos escritos de Santo Inácio de Loyola sobre a obediência. Os elementos centrais da noção de autoridade inaciana são os seguintes:

  • A mera execução da ordem de um superior é o grau mais baixo de obediência, e não merece o nome de obediência, nem constitui um exercício da virtude da obediência.
  • Para que mereça ser chamado de virtude, um exercício de obediência deve alcançar o segundo grau da obediência, que consiste em não apenas fazer o que o superior ordena, mas conformar a vontade à do superior; assim, não apenas se deseja obedecer uma ordem, mas se deseja que aquela ordem específica seja dada – simplesmente porque o superior a deseja.
  • O terceiro (e mais elevado) grau de obediência consiste em conformar não apenas a vontade mas também o intelecto à ordem do superior; assim, não apenas se deseja que a ordem seja dada, mas em verdade se acredita que a ordem é a ordem certa a ser dada, simplesmente porque o superior a deu. ‘Aquele que visa a fazer uma completa e perfeita oblação de si mesmo deve oferecer, além da sua vontade, o seu entendimento; este é o grau seguinte e o mais elevado da obediência. Ele não deve somente desejar, mas deve pensar igual ao superior, submetendo seu julgamento ao do superior, tanto quanto uma vontade devota pode subjugar o entendimento.’
  • No grau mais elevado e meritório da obediência, o fiel não tem mais vontade própria (ao obedecer) do que um objeto inanimado. ‘Todos aqueles que vivem sob obediência devem se permitir ser levados e dirigidos pela divina providência, através da influência do superior, como um corpo sem vida se permite ser levado a qualquer lugar e ser tratado de qualquer maneira; ou como se ele fosse a bengala de um homem idoso que serve em qualquer lugar e é usada da maneira que o seu portador deseje usar.’
  • O sacrifício da vontade e do intelecto que está envolvido nesta forma de obediência é a forma mais elevada de sacrifício possível, já que ela oferece a Deus as faculdades humanas mais elevadas: o intelecto e a vontade.

É preciso dizer que o exercício prático da autoridade de Santo Inácio não estava de acordo com os seus próprios escritos. Ele tinha o costume de enviar jesuítas em missões independentes nas quais eles precisavam ter iniciativa própria. Se interpretados de modo literal, os seus escritos não poderiam ser aplicados nestas situações, já que o superior não estaria ali para dar as ordens às quais se devia esse tipo de obediência.

Podemos explicar a contradição entre teoria e prática pela influência que em Sto. Inácio tiveram as idéias filosóficas e teológicas aceitas em sua época, e pelos objetivos que queria atingir com seus ensinamentos sobre a obediência. Sua doutrina a respeito da obediência foi planejada para proporcionar um treinamento básico em disciplina, do tipo praticado pela profissão militar da qual ele tinha feito parte. Este treinamento também foi planejado para, depois de completado, assegurar que os jesuítas em missões independentes internalizassem o objetivo que seus superiores tinham mandado cumprir, de modo que pudessem levar a cabo, corretamente e de todo o coração, as missões que lhes tinham sido confiadas. Santo Inácio, porém, não tinha a intenção de dar aos superiores um controle totalitário sobre todos os pensamentos e ações de seus subordinados.

Infelizmente, aqueles que interpretaram as suas obras leram os seus escritos de maneira literal, e até lhe deram crédito por defender um controle totalitário desse tipo como o modelo de autoridade religiosa. Algumas apresentações de seus ensinamentos descreveram como algo especialmente elevado e digno de nota obedecer uma ordem sobre a qual paira a suspeita – mas não a certeza – de ser imoral. Esta declaração sobre os méritos excepcionais da obediência às ordens moralmente duvidosas é feita por Santo Inácio em sua carta 150. A carta foi escrita na realidade a pedido dele pelo seu secretário Pe. Polanco; mas já que foi enviada com a assinatura de Santo Inácio, se beneficiou da sua autoridade.

O desenvolvimento pleno de um conceito tirânico da autoridade religiosa e de um conceito servil da obediência encontra-se em Ejercicio de Perfección y Virtudes Cristianas, de Alonso Rodriguez, S.J. Esta obra, o manual de teologia ascética mais lido durante a contra-reforma, foi publicado em 1609. Foi leitura obrigatória para os noviços jesuítas até o Concílio Vaticano II. O conteúdo dele era aceito como a interpretação correta dos ensinamentos de Santo Inácio sobre a obediência. No exame de consciência que propõe, o Pe. Rodriguez (não confundir com Santo Alfonso Rodriguez) exige que o penitente:

  • Obedeça com a vontade e com o coração, tendo uma só intenção e determinação: a mesma do superior.

  • Obedeça também com o entendimento e com o julgamento, adotando a mesma visão e o mesmo sentimento do superior, sem dar lugar a qualquer juízo ou razão para o contrário.

  • Assuma a voz do superior… como a voz de Deus, e obedeça ao superior, quem quer que seja, como a Cristo Nosso Senhor, fazendo o mesmo em relação às autoridades subordinadas.

  • Siga o preceito da obediência cega: que obedeça sem questionar ou examinar, nem buscar motivos para os porquês, considerando como razão suficiente o fato de ser obediência e de ser a ordem do superior.

Rodriguez louva a obediência – do jeito que ele a entende – em termos reveladores:

Um dos maiores confortos e consolos que nós temos na religião é este: o de que, se fizermos o que manda a obediência, estaremos seguros. O superior é que pode se enganar ao ordenar isto ou aquilo, mas você tem a certeza de não estar errado ao fazer o que lhe ordenam, porque a única conta que você deve prestar a Deus é a de ter feito tudo o que lhe ordenaram; com isto a sua prestação de contas estará cumprida a contento diante de Deus. Você não precisa justificar que a coisa ordenada era uma coisa boa, ou que alguma outra coisa teria sido pior; isto não lhe pertence, mas pertence à prestação de contas do superior. Quando você age sob obediência, Deus tira dos seus livros e coloca nos livros do superior.

Rodriguez, assim como outros autores, abre aquela costumeira exceção: não é preciso obedecer ordens manifestamente contrárias à lei divina. Entretanto, já foi observado que a doutrina jesuítica do probabilismo tende a anular esta exceção. De acordo com esta doutrina, não é pecado fazer qualquer ação que uma autoridade respeitável declare ser permitida; e o superior religioso de alguém geralmente conta como autoridade respeitável. Além disto, há um dado psicológico que tende a tornar ineficaz esta exceção. É difícil internalizar e praticar esta noção de obediência; requer tempo, motivação e esforço. Depois de ser executada com sucesso, tem um efeito duradouro. Uma vez que alguém tenha destruído a capacidade de criticar as ações de seus superiores, não consegue mais ressuscitar esta capacidade e exercê-la à vontade. Seguir a diretriz de recusar obediência ao superior, quando suas ordens são manifestamente pecaminosas, se torna então psicologicamente difícil e até mesmo impossível – exceto talvez nos casos mais extremos, como no caso de uma ordem para assassinar alguém, mas este já não é o tipo de ordem ilícita que os superiores religiosos têm interesse em dar.

Este conceito de obediência não se limitou a ser uma peculiaridade da Sociedade de Jesus, mas veio a ser adotado pela Igreja da contra-reforma como um todo. Tornou-se predominante na nova instituição dos seminários da contra-reforma; o Tratado da Obediência do sulpiciano Louis Tronson colocou os ensinamentos e escritos de Santo Inácio no cume da doutrina católica sobre a obediência. A adoção deste conceito pelos sulpicianos foi especialmente importante por causa do seu papel central no treinamento de sacerdotes nos seminários a partir do século XVII. O conceito servil da obediência continuou sendo o padrão no século XX. Adolphe Tanquerey, em sua obra Précis de théologie ascétique et mystique, amplamente lida e traduzida (e, em vários aspectos, excelente), chegou a escrever que as almas perfeitas que atingem o mais alto grau de obediência submetem seu julgamento ao do superior, sem nem mesmo examinar as razões que ele tem para dar as ordens.

A abordagem jesuítica da manifestação da consciência contribuiu para inculcar uma compreensão totalitária da autoridade. Santo Inácio não somente encorajou mas exigiu a manifestação da consciência, e exigiu que a manifestação fosse feita ao superior religioso. A manifestação da consciência incluía ‘as disposições e desejos pela execução do bem, as paixões e tentações que movem a alma, as faltas mais freqüentemente cometidas… o padrão usual de conduta, afeições, inclinações, propensões, tentações e fraquezas.’ Ele exigiu que as manifestações fossem feitas a cada seis meses, e declarou que todos os superiores e até mesmo os seus representantes estavam qualificados para receber tais manifestações. Ao invés de restringir o propósito da manifestação da consciência ao bem-estar espiritual do manifestante, ele não apenas permitiu como exigiu que o superior usasse para propósitos administrativos o conhecimento obtido dos subordinados através da manifestação da consciência.

Não é preciso sublinhar o poder de presunção que esta prática dá ao superior religioso. As antigas ordens religiosas resistiram à introdução de uma manifestação de consciência compulsória no estilo de Santo Inácio, mas vários institutos religiosos modernos a adotaram. Os abusos de tal prática foram tão sérios que o papado teve afinal de aboli-la. Foi proibida pelo cânon 530 do Código de Direito Canônico de 1917 para todos os religiosos (os jesuítas, porém, através de um decreto do Papa Pio XI, receberam uma permissão especial para mantê-la). Nessa altura, entretanto, a prática já tinha tido vários séculos para deixar sua marca na compreensão da autoridade, nos modelos de comportamento, e na psicologia dos superiores e subordinados dentro da Igreja Católica.

Pode-se ver a novidade desta compreensão da obediência no contraste com a posição de Santo Tomás de Aquino. Santo Tomás considera que o objeto próprio da obediência é o preceito do superior (Summa Theologiae, IIa-IIae q. 104 a. 2 co., a. 2 ad. 3). O grau mais baixo de obediência de Santo Inácio, que ele não considera virtuoso, é considerado por Santo Tomás como a única forma de obediência. Ele sustenta que as formas supostamente mais elevadas de obediência de Santo Inácio nem sequer entram na categoria de virtude da obediência:

Diz Sêneca (De Beneficiis iii): Erra quem pensa que a servidão envolve o homem na sua totalidade. Pois a sua melhor parte está isenta dela; porquanto, ao passo que o corpo está adscrito e sujeito ao senhor, o espírito é livre. Portanto, no que respeita ao movimento interior da vontade, ninguém está obrigado a obedecer senão a Deus. (IIa-IIae q. 104 a. 5 co.)

Santo Tomás não considera que a obediência envolva o sacrifício da vontade enquanto tal. Em sua visão, a virtude da obediência envolve apenas o sacrifício da teimosia, definida como a adesão a objetivos contrários à nossa felicidade eterna. Rodriguez, porém, deixa claro que não é a teimosia, mas a própria faculdade humana da vontade que deve ser sacrificada por inteiro. Isto é um sacrifício no sentido de abandono e destruição, já que envolve eliminar o funcionamento da vontade do sujeito para entregá-la à vontade de um outro ser humano. Santo Tomás, além disto, não pensa na obediência como uma forma virtuosa de ascese pessoal. Ele não considera que obedecer uma ordem sem gostar dela seja melhor, em si mesmo, do que obedecer uma ordem cujo cumprimento nos deixa contentes.

Uma pessoa boa vai se alegrar no cumprimento de qualquer ordem apropriada, já que tais ordens concorrem para o bem comum. Ela não considera que todos os atos bons são motivados pela obediência a Deus, porque considera que há virtudes cuja prática antecede à obediência – a obediência religiosa pressupõe, por exemplo, a fé. Nem considera que a essência do pecado consista na desobediência a Deus, ou mesmo que todo pecado envolva o pecado da desobediência. Todo pecado envolve de fato uma desobediência às ordens divinas, mas esta desobediência não é desejada pelo pecador exceto se o pecado envolve uma vontade de desobedecer a ordem somada a uma vontade de fazer o ato proibido (IIa-IIae q. 104 a. 4 ad 3). A obediência é simplesmente um ato da virtude da justiça, que é motivada pelo amor a Deus no caso de ordens divinas e pelo amor ao próximo no caso de ordens de um superior humano. Estes amores são mais fundamentais e mais abrangentes do que a obediência.

O conceito de autoridade religiosa e obediência religiosa que se tornou dominante na Igreja a partir do século XVI foi então uma substancial inovação que se desviou da visão católica anterior. Acabou influenciando a Igreja através do treinamento fornecido nos seminários aos padres diocesanos, e através da abordagem disciplinar nas ordens religiosas. A vida cotidiana dos seminaristas e religiosos foi estruturada como um sem fim de regras a governar as minúcias dos comportamentos, e as atividades à margem dessa rotina só podiam ser executadas em geral com a permissão do superior. Tal permissão era arbitrariamente negada, de tempos em tempos, a fim de encorajar a submissão dos subordinados. Não se davam as razões para as ordens, e não se respondiam as perguntas a respeito das razões para as ordens.

Esta forma de encarar a autoridade teve efeitos daninhos ao clero e aos religiosos. A obediência servil, extraída dos subordinados à força, destruiu o vigor do caráter e a capacidade de pensamento independente. O exercício da autoridade tirânica por parte dos superiores produziu um orgulho arrogante e uma deficiência na auto-crítica. O fato de que todos os superiores começavam algum dia na posição de subordinados significava que a subida era mais fácil para aqueles que eram habilidosos nas artes do escravo – bajulação, dissimulação e manipulação.

Os leigos não podiam almejar subir na hierarquia eclesiástica, de modo que o efeito de se promover a compreensão servil da obediência religiosa foi infantilizá-los na esfera religiosa. Esta infantilização se observa na arte e na devoção religiosas, especialmente a partir do século XIX, e na propensão para a obediência cega ao clero. O resultado foi a dissociação entre a maturidade adulta e a crença religiosa, o que solapou entre os leigos a fé religiosa e o compromisso, contribuindo para a paulatina secularização das sociedades católicas.

Os efeitos desta concepção de obediência foram minimizados por alguns contrapesos. A lei canônica, a disciplina litúrgica, as regras das ordens religiosas, tudo isso continha prescrições detalhadas que limitavam o exercício tirânico da autoridade por parte dos superiores. A filosofia e a teologia escolásticas, a educação clássica, o requisito de proficiência no latim, isso tudo impunha padrões objetivos de conhecimento e de capacidade intelectual exigidos do clero. As escolas secundárias jesuíticas, de longe as mais importantes e bem-sucedidas do seu apostolado, eram governadas por um ratio studiorum formidavelmente desenhado: estabelecia em detalhes o que era para ser estudado, e como. Enquanto o conceito tirânico de autoridade foi contido por esses fatores, ele aleijou mas não matou a Igreja.

Um aspecto pérfido dessa concepção de autoridade é que, no início, ela foi um aparente sucesso. Foi usada para pôr fim às más condutas financeiras e sexuais do clero que colaboraram para gerar a Reforma, contribuindo, assim, para as brilhantes conquistas da Contra-Reforma. A situação da Igreja era similar àquela de Roma sob Augusto, ou àquela da França sob Luís XIV: a paz e a ordem produzidas pelo governo absolutista permitiram o florescimento dos talentos produzidos pela sociedade livre que havia antes do absolutismo. Ao se esgotar a herança da liberdade, e ao se sentirem os efeitos totais do absolutismo, esses talentos mingüaram. A constelação fulgurante de santos e gênios que iluminou a França católica do século XVII foi sucedida, no século XVIII, pelo fracasso e freqüente capitulação diante dos ataques anti-cristãos do Iluminismo.

Esta exposição da história e da natureza do conceito tirânico da autoridade na Igreja explica muitos aspectos da crise de abusos sexuais. Maturidade psicológica é algo necessário para resistir bem às tentações sexuais. A inculcação de uma compreensão servil da autoridade, por atacar esta maturidade, torna muito difícil a castidade. Num sistema de treinamento baseado na inculcação da obediência servil, as personalidades deformadas e inadequadas daqueles que são atraídos por atividades sexuais perversas não são identificadas. Pessoas assim geralmente são boas em servilismo e dissimulação. Elas se desenvolvem tremendamente num sistema baseado na obediência servil, ao passo que homens de inteligência e caráter sofrem com ele.

Os superiores não raciocinam que a sua própria autoridade está presa à autoridade da lei, e não se inclinam a respeitar e obedecer a lei enquanto tal. Eles têm um forte incentivo para encobrir abusos sexuais, porque a autoridade do clero sobre os leigos repousa sobre um conceito infantilizado de clérigos como figuras paternas divinizadas, incapazes de errar. Tal conceito é destruído quando delitos sérios são expostos publicamente. Os leigos que acreditam neste conceito são facilmente persuadidos ou intimidados a manterem sigilo sobre os casos de abusos sexuais que eles encontram. Num sistema tirânico, tanto os superiores quanto os subordinados são ensinados a idolatrar o poder e aqueles que o detém, e a desprezar os inferiores, os fracos e as vítimas. O resultado é a tendência de não sentirem simpatia pelas vítimas de abuso sexual, em particular as crianças. Sua simpatia é dirigida aos predadores, que exercem o poder tirânico na sua forma extrema. Todos esses fenômenos descritos acima já foram observados repetidas vezes nos casos de abusos sexuais que vieram à tona.

A infantilização gerada por essa compreensão da autoridade colaborou de várias maneiras para os abusos sexuais. Uma pessoa infantilizada não consegue exercer um julgamento independente, e não tem a capacidade de se defender ou defender os outros. As criancinhas não são capazes de compreender o mal, e não são capazes de admitir ou mesmo de entender que suas figuras paternas são malignas. Aqueles sacerdotes que levaram a sério a compreensão tirânica da autoridade, ao invés de se adaptar a ela para alcançar suas ambições e usufruir dos prazeres da tirania, ficaram então psicologicamente incapazes de se manifestar contra os abusos sexuais e de correr riscos para corrigi-los. Os ambiciosos não o fizeram porque não havia nisso nenhum proveito para eles.

Quanto aos leigos, a verdade nua e crua é que a maior parte dos abusos sexuais de crianças por padres aconteceram com a conivência dos pais dessas crianças. Sem esta conivência, o abuso sexual de crianças e adolescentes por padres nunca teria alcançado as proporções que alcançou. Observe este testemunho de “Tiago”, garoto abusado sexualmente repetidas vezes pelo cardeal McCarrick:

Tiago afirmou ter tentado, aos 15 ou 16 anos, contar ao seu pai sobre os abusos que estava sofrendo. Mas o padre McCarrick era tão amado pela sua família, disse ele, e considerado tão santo, que a idéia era incomensurável… Tiago disse que quando era menino ele não tinha nenhum lugar seguro para discutir o que estava acontecendo com ele. “Lugar nenhum. Lugar nenhum. Meu pai simplesmente não ouvia.” … “Tentei umas duas vezes com a minha mãe, mas ela dizia ‘você deve estar enganado.’ Meu pai nasceu em 1918, minha mãe em 1920. Cresceram acreditando que a Igreja Católica era tudo. Meu pai era um cara santo. Andava para lá e para cá com o terço na mão o dia inteiro. Meus pais eram muito santos, e os pais deles eram muito santos. Toda a idéia deles sobre a vida era assim.” [**]

Esta concepção errada de santidade não foi resultado da estupidez dos pais desse rapaz. Foi o que o clero lhes ensinou – seguindo uma concepção tirânica da autoridade. Resultou que foram incapazes de imaginar que padres podem ser maus – e ainda acharam que esta incapacidade era uma virtude e um dever religioso.

O caos que tragou a Igreja nos anos 1960 e 1970 provavelmente se deveu em grande parte à rebelião contra o exercício tirânico da autoridade que havia sido infligido aos clérigos e religiosos antes dos anos 60. Porém, assim como aconteceu com outras revoluções registradas na história, esta revolta contra a tirania não levou ao triunfo da liberdade. Ao contrário: ao destruir os elementos do ancien régime que tinha colocado limites ao poder dos superiores, gerou uma tirania ainda mais extensa e completa. Deu um fim nos fatores, listados acima, que tinham contrabalançado a influência do conceito tirânico da autoridade na Igreja da Contra-Reforma.

A facção progressista que assumiu o poder nos seminários e ordens religiosas tinha seu próprio programa e ideologia a demandar adesão total, e isto justificava suprimir brutalmente a oposição. As ferramentas de controle psicológico e de opressão que haviam sido aprendidas pelos progressistas durante a sua própria formação foram colocadas em pleno uso, e aplicadas de modo mais abrangente do que jamais tinham sido antes – sendo a diferença entre os dois regimes muito parecida com a diferença entre a Okhrana e a Cheka.

Uma parte da ideologia progressista era a falsidade e o malefício do ensinamento sexual tradicional católico; não é preciso elaborar os efeitos desta doutrina sobre a crise dos abusos sexuais. Mas seria um engano achar que o progressismo em si é responsável por esta crise, e que a sua derrota resolveria o problema. As raízes da crise vêm de muito antes, e exigem uma reforma nas atitudes para com a lei e a autoridade em todas as áreas da Igreja.


Notas:

[*] Artigo original publicado no site https://rorate-caeli.blogspot.com/2018/10/tyranny-and-sexual-abuse-in-catholic.html em outubro/2018.

[**] Testemunho original: https://www.theamericanconservative.com/dreher/uncle-ted-mccarrick-special-boy/

Design Inteligente dos Evangelhos

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Até onde se conhece, ninguém nunca chegou a propor uma evidência científica de um design inteligente – nem causal, nem combinado com design humano – de material bíblico. Este artigo é o relatório de um estudo feito sobre os evangelhos para demonstrar uma evidência científica da “inspiração” na Bíblia. Sendo uma amostra representativa dos evangelhos, a história do Domingo de Ramos, com Jesus entrando em Jerusalém montado em um jumento e expulsando os mercadores do templo, foi a escolhida para servir de laboratório experimental. O estudo estabeleceu que os relatos desse evento feitos pelos quatro evangelhos permitem dois cenários significativamente diferentes. Esses dois cenários de Jesus chegando a Jerusalém foram comparados usando o método científico da “melhor alternativa”, para estabelecer qual representa com maior probabilidade a história do “Domingo de Ramos”. O autor proporciona uma análise complexa da contribuição dos quatro evangelhos para o evento histórico, concluindo que o material de todos os quatro evangelhos é necessário para a história completa. Além do mais, os quatro evangelhos são integrados de uma maneira específica para contar a história, e isso seria impossível sem o auxílio de um coordenador-supervisor, ou seja, um designer inteligente.”

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