Impedindo um Novo Eixo do Mal

Autor: Constantine C. Menges

Tradução: André Carezia

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(N.T. Este artigo foi traduzido do artigo original em inglês, que é bastante antigo e foi publicado em 7 de agosto de 2002 no jornal conservador The Washington Times.)

 

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Uma nova ameaça terrorista, envolvendo armas nucleares e mísseis balísticos, pode muito bem vir de um novo eixo que inclui a Cuba de Fidel Castro, o regime de Chávez na Venezuela e um presidente radical eleito no Brasil. Tudo isso conectado ao Iraque, Irã e China. Em visita ao Irã no ano passado, o Sr. Castro dizia: “Irã e Cuba podem colocar os EUA de joelhos”, ao mesmo tempo em que Chávez expressava sua admiração por Saddam Hussein durante uma visita ao Iraque.

O novo eixo ainda é evitável, mas se o candidato pró-Castro for eleito presidente do Brasil, os efeitos podem incluir um regime radical no Brasil, com o restabelecimento dos programas de armas nucleares de mísseis balísticos, a criação de fortes laços com financiadores estatais do terrorismo, como Cuba, Iraque e Irã, e a participação na desestabilização das frágeis democracias circunvizinhas. Isso pode fazer com que 300 milhões de pessoas em seis países fiquem sob o controle de regimes radicais e anti-americanos, e pode permitir que milhares de novos terroristas doutrinados tentem atacar os Estados Unidos a partir da América Latina. Apesar disso, o governo em Washington parece estar dando pouca atenção à coisa.

Os brasileiros terão eleições presidenciais em outubro. Se as pesquisas estiverem certas, o vencedor poderá ser um radical pró-Castro com conexões fortes com o terrorismo internacional. O nome dele é Luis Inácio da Silva, o candidato presidencial do Partido dos Trabalhadores, e tem hoje mais ou menos 40% nas pesquisas. O candidato do Partido Comunista tem 25%, e o adversário pró-democracia tem aproximadamente 14%.

O Sr. da Silva não esconde suas simpatias. Ele já é um aliado do Sr. Castro há mais de 25 anos. Em 1990, com o apoio do Sr. Castro, o Sr. da Silva fundou o Foro de São Paulo para ser um encontro anual de organizações comunistas e de outras organizações terroristas radicais e políticas da América Latina, Europa e Oriente Médio. Esse Foro tem sido usado para coordenar e planejar atividades políticas e ataques terroristas ao redor do mundo e contra os Estados Unidos. O último encontro correu em Havana, Cuba, em dezembro de 2001. Envolveu terroristas da América Latina, Europa e Oriente Médio, e condenou agressivamente a administração Bush e suas ações contra o terrorismo internacional.

O Sr. da Silva, assim como o Sr. Castro, culpa os Estados Unidos e o “neoliberalismo” por todos os verdadeiros problemas sociais e econômicos ainda enfrentados pelo Brasil e pela América Latina. O Sr. da Silva afirmou que a Área de Livre Comércio das Américas é um complô americano para “anexar” o Brasil, e chegou a chamar de “terroristas econômicos” os credores internacionais que buscam receber de volta seus empréstimos de 250 bilhões de dólares. Também chamou de “terroristas econômicos” aqueles que estão tirando dinheiro do Brasil por medo de seu governo. Isso dá uma idéia de que tipo de “guerra contra o terrorismo” seu governo vai travar.

O Brasil é um país vasto e rico, quase do tamanho dos Estados Unidos, com cerca de 180 milhões de habitantes, e a oitava economia do mundo (PIB: mais de 1,1 trilhões de dólares). Além disto, pode ser que se junte em breve às potências nucleares do mundo. Entre 1965 e 1994, os militares trabalharam ativamente para desenvolver armas nucleares. Projetaram com sucesso duas bombas atômicas, e aparentemente estavam na iminência de testar um dispositivo nuclear quando um novo governo democrático foi eleito e uma investigação do Congresso fez com que o programa fosse encerrado.

Essa investigação revelou, porém, que os militares haviam vendido oito toneladas de urânio para o Iraque em 1981. Também revelou que, depois do encerramento do programa brasileiro de mísseis balísticos, o general e 24 cientistas passaram a trabalhar para o Iraque. Há relatos de que um certo potencial de armas nucleares foi mantido secretamente, com financiamento do Iraque, contrariando ordens das lideranças democráticas civis.

O Sr. da Silva afirmou que o Brasil deveria ter armas nucleares e se aproximar da China, a qual tem cortejado ativamente os militares brasileiros. A China já vendeu urânio enriquecido para o Brasil, e já investiu na indústria aeroespacial brasileira, tendo como resultado um satélite usado em imagens e reconhecimento.

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O Brasil faz fronteira com dez outros países na América do Sul. Este fato seria de grande auxílio para Lula poder copiar — como ele disse que faria — a política internacional do regime chavista da Venezuela, que é pró-Castro e pró-Iraque, e que já deu apoio aos comunistas e narco-terroristas das FARC na Colômbia e a outros grupos anti-democráticos em outros países da América do Sul. Dois anos atrás, Hugo Chavez trabalhou com o Sr. Castro para desestabilizar temporariamente a frágil democracia do Equador. Agora ambos apóiam o líder socialista dos plantadores de coca, Evo Morales, que espera se tornar o presidente da Bolívia agora em agosto [de 2002].

Além de ajudar as guerrilhas comunistas a chegarem ao poder na conflituosa democracia colombiana, um regime de Da Silva no Brasil estaria muito bem situado para auxiliar os comunistas, os narco-terroristas e outros grupos anti-democráticos a desestabilizar as frágeis democracias da Bolívia, do Equador e do Peru. Também seria de grande valia na exploração [política] da profunda da crise econômica que há na Argentina e no Paraguai.

Um regime de Da Silva, além do mais, provavelmente iria suspender o pagamento de suas dívidas, provocando uma grave crise econômica em toda a América Latina, e deixando portanto suas democracias ainda mais vulneráveis. Com a conseqüente contração dos mercados de exportação, isto poderia também gerar uma segunda fase da crise econômica nos Estados Unidos.

Um eixo Castro-Chavez-da Silva significaria conectar 43 anos da guerra política de Fidel Castro contra os EUA com a riqueza petrolífera da Venezuela e o potencial econômico e de armas nucleares/mísseis balísticos do Brasil.

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Quando chegarem nossas eleições em novembro de 2004, os americanos poderão perguntar: quem deixou a América do Sul se perder? Os Estados Unidos ficaram passivos politicamente durante a administração Clinton, ignorando os clamores dos líderes democráticos venezuelanos por um auxílio na oposição às ações ilegais e anti-constitucionais do Sr. Chavez. Ignoraram também suas alianças públicas com os financiadores estatais do terrorismo. Por que a administração Bush não age antes que 20 anos de vitórias democráticas se percam na América Latina? Por que nada se faz antes que um vasto e novo flanco seja aberto pelo lado sul da ameaça terrorista, e nossa nação seja ameaçada por mais um regime radical anti-americano, com intenções de possuir armamento nuclear e mísseis balísticos?

Este desastre, tanto para a segurança nacional dos EUA quanto para os povos da América Latina, pode ser impedido se os nossos legisladores agirem com rapidez e decisão. Mas tem que ser agora. Os EUA e outras democracias devem dar atenção política e tomar atitudes. Isso inclui o encorajamento aos partidos pró-democracia no Brasil para que se unam um torno de um líder político capaz e honesto, que possa representar as esperanças da maioria dos brasileiros em uma autêntica democracia, e que tenha os recursos para montar uma efetiva campanha nacional.


Artigo original:
http://www.washingtontimes.com/news/2002/aug/7/20020807-035726-4625r/

A Consagração: Última Ceia e Calvário

(Artigo original em inglês, de autoria do Padre Ladis J. Cizik, publicado no jornal americano The Remnant em 23 de março de 2016.)

Tradução: André Carezia

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In Nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti. Amen.

“Ceia do Senhor” é uma expressão bíblica que foi adotada durante a ‘de’-formação protestante da Igreja, com o objetivo de negar a natureza de sacrifício da Missa, e trocá-la por um simples “memorial”. Protestantes e modernistas[1] se esforçam por separar o sacrifício no Calvário, centrado em Cristo, do santo sacrifício da Missa, transformando um evento solene em um “lanche feliz” centrado na comunidade. Entretanto, tanto as sagradas Escrituras quanto a sagrada Tradição afirmam que o Calvário estava onipresente já na primeira Missa oferecida na história. Aquela primeira Missa no Cenáculo foi a última ceia na qual Nosso Senhor e Deus, Jesus Cristo, antecipou Sua morte salvadora no Calvário.

santa ceia

A última ceia, a primeira Missa, não foi uma “refeição memorial” em consideração ao fato de que Cristo ainda não havia morrido na cruz. A última ceia apresenta uma espécie de catequese sobre a presença real de Cristo no Santíssimo Sacramento, a instituição da ordenação sacerdotal e a natureza de sacrifício da Missa. As orações da Consagração no Missal Romano tradicional (Missale Romanum) evocam a morte-sacrifício de Nosso Senhor no Calvário dentro do contexto das palavras e ações de Jesus na última ceia. Na pessoa de Cristo (in persona Christi), o sacerdote católico segue as palavras e gestos de Jesus na última ceia, consagrando e transformando pão e vinho no corpo, sangue, alma e divindade da segunda pessoa da Santíssima Trindade.

Pelo uso de “matéria e forma” apropriadas, as mesmas matéria e forma que Jesus usou na última ceia, e com a “intenção” adequada do sacerdote, o milagre da transubstanciação acontece. Assim, o Rito Romano da Igreja Católica prescreve que a “matéria” adequada à Eucaristia precisa ser o pão ázimo[2] e o vinho de uva natural. Pão ázimo é aquele que Jesus teria usado em Sua última ceia de Páscoa. O Antigo Testamento nos conta que o povo judeu só deveria comer pão ázimo todos os anos durante a Páscoa, como forma de comemorar seu êxodo do cativeiro egípcio[3]. De modo similar, o pão sem fermento que Jesus teria usado na última ceia pascal representaria o êxodo do pecado e da morte, que ocorreu para Seus seguidores após Sua morte salvífica e gloriosa ressurreição. Note que o fermento na bíblia é quase sempre símbolo do pecado[4]. Um pecado grave é o que ocorre quando o pão fermentado é introduzido na Missa católica de rito romano – embora o Concílio de Florença (século 15) confirme o entendimento corrente de que tal Missa ilícita continua sendo válida.

A “forma” apropriada para transformar pão e vinho em corpo e sangue de Cristo são as “palavras da consagração” (também chamadas palavras da instituição). Estas palavras sagradas são o centro espiritual e pináculo da Missa. O coração da Missa é a consagração. O Dr. Nicholas Gihr declara em sua obra clássica, O Santo Sacrifício da Missa: “O momento da consagração é o momento mais importante e solene, o fruto mais sublime e santo de toda a celebração do Sacrifício; pois neste momento é completada aquela obra gloriosa e inapreensivelmente profunda, o Sacrifício Eucarístico, no qual todas as maravilhas do amor de Deus estão concentradas como em um foco de calor e luz. A mudança de pão e vinho no corpo e sangue de Cristo só pode provir dEle, pois ‘só Ele operou maravilhosos prodígios’: é um ato de onipotência criativa. Mas este ato de supremo poder requer um ato humano, um cooperação humana da parte do sacerdote ordenado.”[5] Para uma Missa ser válida, o sacerdote ordenado validamente deve ter a “intenção” de transformar pão e vinho no corpo e sangue de Cristo. São Tomás de Aquino afirma: “a intenção [do sacerdote] é exigida; por meio dela ele se sujeita ao agente principal; ou seja, é necessário que ele tenha a intenção de fazer o que Cristo e a Igreja fazem.”[6]

Imediatamente antes das palavras da consagração vem a oração Qui pridie. O sacerdote nos leva misticamente à “véspera de sua paixão”, quando Jesus tomou o pão em Suas santas e veneráveis mãos (sanctas, ac venerabiles manus suas). Neste instante, o sacerdote já passou seus “dedos canônicos” (polegares e indicadores) no corporal para melhor purificá-los antes de segurar a hóstia com estes quatro dedos apenas. Ao pronunciar elevatis oculis in caelum, o sacerdote, in persona Christi, eleva os olhos para o céu em direção a Deus, o Pai todo-poderoso, dá-Lhe graças (com uma inclinação da cabeça) e abençoa (benedixit) a hóstia. O sacerdote relembra então Jesus partindo o pão e dando-o aos discípulos, enquanto dá voz às palavras de Nosso Senhor: tomai e comei dele, todos (Accipite, et manducate ex hoc omnes).

Observe que o sacerdote não está apenas lendo uma narrativa de um evento do passado; ele está ‘re’-presentando, in persona Christi, o evento por meio das palavras e ações simultâneas do próprio Jesus Cristo. Cristo não está lendo uma “narrativa da instituição” no pretérito. O Cristo-sacerdote não está meramente repetindo as palavras de uma antiga história de uma refeição que está “feita e encerrada”. Cristo está agindo no presente através do sacerdote. É por isso que dizemos que o santo sacrifício da Missa é a ‘re’-presentação incruenta do sacrifício de Cristo no calvário.

Profundamente reclinado sobre o corporal, com os antebraços apoiados na borda do altar (significando sua união com Cristo representado pelo altar), segurando a hóstia com os dedos canônicos de ambas as mãos, o sacerdote pronuncia as palavras da consagração sobre o pão. No missal da Missa Tridentina, as palavras da consagração são impressas com uma letra de tamanho duplo em relação ao resto do texto, e em negrito, para que se destaquem. O sacerdote, com os olhos postos na hóstia, deve dar voz às palavras de Cristo de maneira clara e atenta, sem pausas e num sussurro:

HOC EST ENIM CORPUS MEUM.

Tradução: “Pois isto é o meu corpo.” A hóstia agora É a presença real de Cristo na Eucaristia: Seu corpo, sangue, alma e divindade. Note que, assim como a carne humana contém sangue, também a Igreja ensina que o corpo e o sangue de Jesus Cristo estão presentes em cada espécie eucarística. Ninguém precisa “beber do cálice”, como dizem na Missa Novus Ordo, para receber o precioso sangue de Cristo. Jesus está completo e inteiro na hóstia consagrada. Isto corrobora a prática da Missa Tridentina, na qual a Santa Comunhão é distribuída apenas sob a aparência do pão. As palavras “isto é o meu corpo” aparecem nos quatro relatos bíblicos da Última Ceia[7]. A palavra “pois” não aparece nos relatos bíblicos, mas é considerada como sendo parte da Sagrada Tradição, como uma palavra que o Senhor teria dito.

Note que, depois de consagrar a Sagrada Hóstia, o sacerdote não separará mais seus polegares e indicadores, exceto para segurar o Santíssimo Sacramento, até que eles estejam “purificados” após a santa comunhão. Isto para assegurar que toda partícula da hóstia restante nos dedos seja consumida de maneira reverente durante as abluções. Além do mais, deste momento em diante, o sacerdote fará uma genuflexão honrosa antes e depois de cada toque que fizer na Sagrada Hóstia.

Depois da consagração da hóstia sagrada, o sacerdote segue para a oração simili modo, não sem antes retirar a pala do cálice. A oração inicia seguindo as ações e palavras de Jesus na Última Ceia: do mesmo modo (simili modo), depois da ceia, Ele tomou também o precioso cálice em Suas santas e veneráveis mãos (aqui o sacerdote eleva o cálice ligeiramente acima do corporal com ambas as mãos), deu graças ao Pai (inclinando a cabeça), abençoou-o (o sacerdote faz o sinal da cruz sobre o cálice) e deu-o a Seus discípulos dizendo: tomai e bebei dele todos vós (Accipite, et bibite ex eo omnes). Segurando o cálice nas mãos, um pouco acima do corporal, profundamente inclinado sobre o altar com os antebraços na borda (significando sua união com Cristo, representado pelo altar), o sacerdote dá voz às palavras de Cristo sobre o vinho, de maneira clara e atenta, e num sussurro:

HIC EST ENIM CALIX SANGUINIS MEI, NOVI ET AETERNI TESTAMENTI: MYSTERIUM FIDEI: QUI PRO VOBIS ET PRO MULTIS EFFUNDETUR IN REMISSIONEM PECCATORUM.

Tradução: “Pois este é o cálice do meu sangue, sangue do novo e eterno testamento (mistério da fé), o qual será derramado por vós e por muitos para remissão dos pecados.” Com relação às palavras “pois este é o cálice do meu sangue”, Gihr opina: “De acordo com a opinião geral, estas palavras e somente elas constituem a fórmula essencial da consagração do cálice; pois elas significam e tornam realidade a presença do sangue de Cristo sob a aparência do vinho.”[8] E continua dizendo: “As palavras seguintes… são acrescentadas por serem apropriadas. É aceitação comum que elas foram ditas alguma vez pelo próprio Senhor; além do mais, elas explicam a dignidade e os efeitos deste Sacrifício.”

Todas as outras palavras da consagração do vinho podem ser encontradas em um ou mais relatos da Última Ceia, exceto por “eterno” e “mistério da fé”. Estas palavras que não estão na Bíblia, incluindo “pois” (já mencionada acima na consagração do pão), têm origem na outra fonte da verdade católica: a Tradição Sagrada, tão válida quanto a Sagrada Escritura. Lembre que o santo sacrifício da Missa era celebrado pelos apóstolos antes mesmo da Igreja Católica elaborar a seção do Novo Testamento da Bíblia. Em especial, o papa Leão IX declarou que as palavras mysterium fidei (mistério da fé) são uma “tradição transmitida por São Pedro, o autor da liturgia romana.” De fato, São Pedro, o primeiro papa, escutou Nosso Senhor falar na Última Ceia e presidiu em Roma, onde morreu e está sepultado. As palavras “novo e eterno testamento” (ou seja: nova e eterna aliança) são essenciais ao entendimento católico de que a Nova Aliança, selada pelo sangue de Cristo, aboliu completamente e para sempre a Antiga Aliança, a qual existia para durar apenas temporariamente até a vinda do Messias, nosso Senhor e nosso Deus, Jesus Cristo[9].

As palavras da consagração incluem: qui pro vobis et pro multis effundetur in remissionem peccatorum (o qual será derramado por vós e por muitos para remissão dos pecados). Embora estas palavras nunca tenham mudado na Missa Tridentina, é incrível que as palavras pro multis tenham sido traduzidas incorretamente e de propósito quando da introdução da Missa Novus Ordo na língua inglesa[10], passando a ser lidas como “por todos” (pro omnibus). Mudar as palavras de Cristo foi um insulto feito para apoiar o pensamento modernista e herético de que TODOS são salvos; e para reforçar a heresia do indiferentismo religioso, o qual alega que não importa a religião – ou a falta dela – que o sujeito professa, já que todo mundo vai para o céu. Os estudos feitos levaram muitos a crer que a tradução errada e proposital invalidava a Missa Novus Ordo. Após quarenta longos anos de confusão, escândalo e profunda angústia, a tradução inglesa voltou ao correto “por muitos” (pro multis), por ordem do papa Bento XVI[11]. Isto é um exemplo de como a Missa Tridentina serve de guardiã da fé: pelo Cânon estar livre de erros[12], pelo Cânon nunca ter sido alterado, e pelo Missale Romanum tradicional estar somente em latim.

Note que effundetur in remissionem peccatorum é assim compreendido: o sangue de Cristo foi derramado pela remissão dos pecados: todos os pecados desde o pecado original de Adão e Eva; e todos os outros pecados passados, presentes e futuros. Entretanto, “nem todos recebem o benefício de Sua morte, mas apenas aqueles aos quais o mérito de Sua paixão é comunicado.”[13] Sendo assim, nem todo mundo é salvo: “Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado”[14]; “em nenhum outro há salvação, porque debaixo do céu nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual devamos ser salvos”[15]; “trabalhai na vossa salvação com temor e tremor”[16]; além disto, existe aquele pecado mortal do qual a pessoa não se arrepende e não pede perdão, e que pode levá-la à danação eterna[17]. Note ainda que o “mérito de Sua paixão é comunicado” pelo santo sacrifício da Missa: “Em virtude deste sacrifício, os méritos infinitos de Cristo, obtidos por Seu precioso sangue derramado de uma vez [por todas] na cruz pela salvação dos homens, são aplicados às nossas almas.”[18]

calvario

É importante observar que imediatamente após as palavras da consagração, primeiro sobre o pão, e depois sobre o vinho, em ambos os casos o sacerdote faz a genuflexão (e a sineta soa) antes de levantar as sagradas espécies. Isto colabora para assegurar o entendimento católico de que o milagre da transubstanciação, o qual acaba de acontecer, nada tem a ver com o testemunho da assembléia. Portanto, quando da elevação da hóstia ou cálice para adoração dos fiéis, a sineta toca pela segunda vez, e não pela primeira. Depois de voltar as espécies sagradas sobre o altar, o sacerdote faz nova genuflexão e a sineta toca pela terceira vez – simbolizando a Santíssima Trindade. Em relação ao precioso sangue, neste momento o cálice é coberto com a pala, o que o protege da profanação por insetos e outros elementos estranhos.

Uma nota pessoal sobre as palavras da instituição: quando eu fui empossado como capelão de um instituto público para retardados mentais, duas unidades (das muitas que havia) continham residentes com deficiências severas (físicas e mentais) e que não podiam falar. Em geral eles passavam o dia fazendo ruídos vocais, exceto quando as palavras da consagração eram pronunciadas na Missa e as elevações aconteciam – então havia um completo e incomum silêncio na capela. Eles sabiam! Suas mentes inocentes sentiam que a presença real de Cristo havia entrado ali no local. Em outra unidade com deficiências menos graves, onde a idade mental não passava de quatro anos, havia um menino chamado Joey que gritava durante a elevação da Hóstia sagrada: “Meu Senhor e meu Deus!” E Jesus disse: “Da boca dos meninos e das crianças de peito tirastes o vosso louvor.”[19] O papa São Pio X, com efeito, emitiu uma indulgência de sete anos para todos aqueles que, ao fixarem o olhar sobre a hóstia sagrada sendo elevada durante a Missa, exclamarem com fé e devoção: “Meu Senhor e meu Deus!” No instante da elevação do precioso sangue, o melhor amigo de Joey, Butchie, se unia a ele dizendo: “Meu Jesus, misericórdia!”

Imediatamente após a consagração do precioso sangue, o sacerdote reza: Haec quotiescumque feceritis, in mei memoriam facietis (Todas as vezes que isto fizerdes, fazei-o em memória de mim). A Igreja sempre ensinou que este momento foi a instituição do sacramento das Ordens Sagradas. A Última Ceia na quinta-feira santa foi também a instituição do sacramento da Eucaristia; foi a primeira Missa. A Última Ceia foi coisa seria. Foi uma antecipação sombria do Calvário, e não uma “celebração alegre.” Na Última Ceia o milagre da transubstanciação aconteceu pela primeira vez: Nosso Senhor e Deus, Jesus Cristo, como Sumo-Sacerdote eterno, transformou pão e vinho em Seu corpo, sangue, alma e divindade.

Na Última Ceia, Cristo deixava para a Igreja também Sua vontade e Seu testamento: “Fazei-o em memória de mim.” Com esta oração Haec quotiescumque, Jesus ordenou que os apóstolos e seus sucessores no sacerdócio oferecessem a Santa Missa, e continuassem assim a oferecer o sacrifício a Deus Todo-poderoso, trazendo Sua presença real ao mundo, para adoração e para servir como alimento espiritual. Cristo não ordenou aos sacerdotes que presidissem uma “refeição comunitária.” Cristo, na Última Ceia, mandou que os sacerdotes fizesse aquilo que só eles podem fazer: oferecer o sacrifício de Deus-Filho no calvário a Deus-Pai Todo-poderoso. O padre John Hardon, em seu Dicionário Católico, define assim o sacerdote: “Um mediador autorizado, que oferece o verdadeiro sacrifício em reconhecimento do supremo domínio de Deus sobre os seres humanos, e em expiação por seus pecados.” O sacerdote é ordenado para oferecer o sacrifício, e não para preparar refeições. Ao longo de toda a Bíblia e tradição da Igreja, Deus exige sacrifícios, e não refeições. Enquanto que todos os católicos são obrigados a ir à Missa dominical para prestar culto a Deus no sacrifício, nem todos estão em estado de graça para receber a santa Comunhão.

As duas consagrações separadas, primeiro do corpo e depois do sangue de Jesus na Última Ceia e na Missa, significam ‘misticamente’ a morte do Senhor no calvário. Na Última Ceia, Jesus antecipou Seu sacrifício no calvário. Naquela primeira Sexta-Feira Santa, no calvário, a separação violenta entre Seu precioso sangue e Seu corpo causou uma verdadeira separação entre Sua alma humana e Seu corpo, o que provocou Sua morte. No Santo Sacrifício da Missa, a Sua morte histórica na cruz é recordada e expressa pela dupla consagração, que é a separação mística entre o precioso sangue e o corpo sagrado de Cristo. Jesus morre misticamente a cada Missa oferecida. Entretanto, lembre que, após Sua gloriosa ressurreição, o corpo, o sangue, a alma e a divindade de Cristo não podem na realidade ser jamais separados novamente. A separação na Missa é mística, embora o sacrifício seja real. Cristo não pode morrer de novo. Assim sendo, o Senhor eucarístico está verdadeiramente presente no altar em estado vivo e glorioso, do mesmo jeito que está no céu; e Seu corpo vivo, Seu sangue vivo, Sua alma viva e Sua divindade viva estão presentes nas duas espécies, o tempo todo, imediatamente após as consagrações.

Concluindo: a Última Ceia e o calvário estão intimamente ligados. Como última reflexão, considere uma possível conexão entre a Última Ceia e o calvário que se crê ser do tempo de Cristo, e que ainda não tem explicação segundo a ciência moderna: é o sudário que São Pedro e São João contemplaram no túmulo vazio, e o qual é muito provavelmente o Sudário de Turim, atualmente guardado na capela real da catedral de São João Batista em Turim, na Itália. Muitos, incluindo este escriba, acreditam que o Sudário é a longa mortalha de Cristo, que cobriu todo o corpo de Nosso Senhor. Este Sudário contém imagens notáveis e inexplicáveis, bem como manchas de sangue, de um homem crucificado e coroado de espinhos. O curioso é que, além das manchas de sangue, há também manchas de vinho.

Alguns estudos conectando José de Arimatéia ao Cenáculo e ao sepultamento de Cristo, junto com as manchas de vinho que foram encontradas, dão credibilidade a uma possibilidade impressionante: a de que a toalha de mesa usada para a primeira Missa na Última Ceia seja o próprio Sudário de Turim presente no calvário. A teoria é que, na Sexta-Feira Santa, as lojas que vendiam as grosseiras mortalhas, tecidas com ligação simples 1×1, estariam fechadas para a Páscoa, forçando José de Arimatéia a usar a toalha de mesa da Última Ceia, tecida com ligação mais sofisticada 3×1, como mortalha. Além disto, acredita-se que o Cenáculo, parte de uma sinagoga liderada por José de Arimatéia, e local da Última Ceia, foi construída sobre o túmulo do rei Davi. Seria maravilhosamente apropriado que Nosso Senhor Jesus, o Rei dos Reis, o “Filho de Davi”, oferecesse a primeira Missa sobre o celebrado túmulo do rei Davi; além de aparecer ali depois da Ressurreição no domingo de Páscoa. E que coisa interessante: a conexão católica entre a Última Ceia e o Calvário, que protestantes e modernistas negam, parece ser confirmada em nosso tempo pelo Deus Todo-poderoso através do Santo Sudário de Turim. Deus escreve certo por linhas tortas. Ele deixa a nós, pela fé, a tarefa de conectar os pontos.

In Nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti. Amen.

Notas:

[1] Ver a encíclica Pascendi Dominici Gregis (39), na qual o papa São Pio X define o modernismo como “a síntese de todas as heresias.”

[2] Pão de trigo, sem fermento.

[3] Dt 16,3.

[4] Lc 12,1.

[5] The Holy Sacrifice of the Mass, páginas 666-667.

[6] Suma Teológica, parte III, q64, a8.

[7] Mt 26,26-28; Mc 14,22-24; Lc 22,19-20; e 1 Cor 11,24-25.

[8] Página 675.

[9] Denzinger 712; Ex Quo 61; Mystici Corporis 29 e 31.

[10] N.T.: Idem para a língua portuguesa.

[11] N.T.: A tradução portuguesa, na Missa Novus Ordo, continua errada.

[12] Trento: seção XXII, capítulo IV.

[13] Trento: seção VI, primeiro decreto, capítulo III.

[14] Mc 16,16.

[15] Atos 4,12.

[16] Fl 2,12.

[17] Denzinger, 1002; Catecismo da Igreja Católica, 1035.

[18] Papa Leão XIII, Carta Encíclica “Caritatis Studium”, 9.

[19] Mt 21,16.

O Homem no Matrimônio

(Extraído da edição italiana do livro “A Intimidade Conjugal: o Livro do Marido”, de Pierre Dufoyer, publicado em 1957.)

Tradução: Ana Cândida Tocheton Cristofoletti

Revisão: André Carezia

Marido

A chave para se conhecer a psicologia de uma mulher constitui-se, principalmente, na riqueza de seu coração, de sua vida sentimental e de sua notável sensibilidade psíquica (…). Sua força é o coração. Possui uma capacidade sentimental particularmente aflorada e por causa disso reage de maneira intensa a todas as emoções. Seus modos gentis e atenciosos no trato constituem prova visível desse afeto que lhe proporciona grande alegria (…). Uma mulher que ama possui mil maneiras de ser carinhosa, demonstrar delicadeza e agradar. Nessa arte é extremamente hábil. (…)

O marido deverá recordar-se que fará a esposa feliz, acima de tudo, quando a envolver com um intenso amor vindo de dentro de seu coração, aquele amor que se constitui no grande sonho de qualquer noiva. (…) Sem amor, a alma da mulher atrofia. Naturalmente, espera-se firmeza do marido, mas uma firmeza com amor. Dele emana força, mas uma força unida à delicadeza. É desejada a força masculina, mas entrelaçada com amor e carinho.

Enquanto busca cuidadosamente desvendar a natureza da própria esposa, o homem deve preocupar-se em possuir todas as verdadeiras características masculinas, mas sem os respectivos defeitos. Deve ser calmo, senhor de si, com retidão de caráter, seguro e enérgico em suas maneiras. Com esse comportamento firme nas diversas situações e dificuldades da vida, dá à esposa um reconfortante sentimento de segurança e confiança. (…) Aquele que compreende o segredo da verdadeira autoridade, sabe combinar firmeza com delicadeza, força com suavidade. Mas deverá também desvendar a natureza de sua esposa e fazê-la feliz.

Na convivência com a mulher amada, o homem descobre tesouros do coração que nenhuma outra pessoa pode oferecer. Por isso, deve tolerar, com caridade, suas fraquezas de caráter. (…) Nunca deve o marido perder a calma, nem mesmo em resposta ao temperamento emotivo da esposa. Nesses casos, é necessário um apoio efetivo ao invés de uma reação irritada, uma vez que não existem más intenções. O marido atencioso deve empreender a tarefa que o destina a ser o apoio e a proteção da própria mulher. A característica fundamental de sua natureza, e que o torna encantador, é a capacidade de unir a firmeza com a suavidade.

Os Anjos da Guarda

Autor: Dom Prosper Gueranger, in “O Ano Litúrgico”

Tradução: André Carezia

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HISTÓRIA DA FESTA – Embora a solenidade de 29 de setembro tenha por objetivo honrar a todos os espíritos bem-aventurados dos nove coros, a piedade dos fiéis nestes últimos séculos quis que se consagrasse um dia especial aqui na Terra para celebrar os Anjos da Guarda. Várias igrejas começaram a celebrar esta festa, e puseram-na em diferentes data do ano; Paulo V, embora permitindo-a em 27 de setembro de 1608, achou conveniente não impor sua aceitação; Clemente X acabou com essa variação em torno da nova festa, e a 20 de setembro de 1670 fixou-a em 2 de outubro, primeiro dia livre depois de São Miguel, a cuja festa está como que subordinada.

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DOUTRINA DA IGREJA – É de fé que, neste desterro, Deus encomenda aos anjos a custódia dos homens destinados a contemplá-Lo no céu; e isto as Escrituras asseguram, e a Tradição o afirma unanimemente.

As conclusões mais certas da teologia católica estendem o benefício desta preciosa proteção a todos os membros da raça humana, sem distinção de justos ou pecadores, de infiéis ou batizados. Afastar os perigos, sustentar o homem em sua luta contra o demônio, despertar nele pensamentos virtuosos, apartá-lo do mal e castigá-lo de quando em quando, rogar por ele e apresentar a Deus suas próprias orações: eis aí o ofício do Anjo da Guarda. E é um ministério tão especial que o mesmo Anjo não acumula a custódia simultânea de vários. E é tão assíduo que acompanha seu protegido desde o primeiro dia até o último de sua vida, apanhando a alma que sai deste mundo para conduzi-la depois do juízo ao lugar merecido no céu, ou na mansão temporal de purificação e expiação.

Os NOVE COROS – A santa milícia dos Anjos da Guarda é recrutada principalmente do lado mais próximo de nossa natureza, entre os postos do último dos nove coros. Deus, de fato, reserva aos Serafins, Querubins e Tronos a honra de formar Sua augusta corte. As Dominações presidem do alto de seu trono o governo do universo. As Virtudes velam pela firmeza das leis da natureza, pela conservação das espécies, pelos movimentos dos céus; as Potestades mantêm acorrentado o inferno. A raça humana, em seu conjunto e nos grupos sociais das nações e das Igrejas, está confiada aos Principados; o ofício dos Arcanjos, encarregados das comunidades menores, parece incluir também o de transmitir aos Anjos as ordens do céu, com o amor e a luz que descem até nós da primeira e suprema hierarquia. Ó abismo de sabedoria em Deus![1] Assim é que o conjunto admirável de ministérios, disposto entre os diversos coros de espíritos celestiais, se ordena para o seu fim: guardar o mais humilde deles, o homem, para quem foi criado o universo. O mesmo afirma a Escolástica[2], e também o Apóstolo: Não são todos os anjos espíritos ao serviço de Deus, que lhes confia missões para o bem daqueles que devem herdar a salvação? [3]

OFÍCIO DOS ANJOS DA GUARDA – “Os anjos”, diz São Lourenço Justiano, “observam nossas diversas ações; exortam-nos, incitam-nos, levantam-nos depois de nossas quedas, e mantêm vigília em torno da Igreja militante. Sobem e descem sem cessar; andam sempre contentes, sempre solícitos, do céu à terra e da terra ao céu, oferecendo a Deus nossas obras, nossas lágrimas e nossas orações. Trazem-nos, do altar Deus, por assim dizer, a humanidade de Cristo, o fogo da caridade, o ardor da fé, e a esperança de um dia termos parte na glória dos santos. Mostram-nos o triunfo dos mártires para que tenhamos maior ânimo; a porta aberta do céu, para induzir-nos a desprezar o mundo; a presença contínua de Deus, para encher-nos de respeito; e por fim a imensidão da eterna fortuna, para excitar nossos desejos. Quanto mais oportunidades eles têm de cumprir por nós estas diversas funções, mais felizes e diligentes se sentem. Não invejam de forma alguma nosso progresso no bem, nem diminuem em nada nossos méritos; ao contrário, trabalham pela nossa perfeição, instruem-nos em nossos deveres, e dão-nos coragem para cumpri-los. Não têm outro desejo nem outro fim que não seja a glória do Onipotente e a nossa salvação. São amigos da Sabedoria e vivem próximos ao Verbo, isentos de toda miséria e de toda imperfeição. Mesmo enquanto exercem seu ministério em meio ao mundo, não ficam nem com a mais mínima mancha, e nem sentem fadiga alguma. Ainda que circunscritos pelo espaço, permanecem sempre na presença de Deus; ao mesmo tempo que servem aos homens, não cessam de oferecer amorosamente ao seu Criador o sacrifício de louvor; as funções de seu ministério não se separam da homenagem e da glória que devem tributar ao Rei imortal.”[4]

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Deus, porém, que se mostra extremamente admirável para a estirpe humana, não deixa por menos os governos deste mundo quando se trata de honrar com uma especial atenção os príncipes de Seu povo, os privilegiados de Sua graça, ou os que regem o mundo em nome dEle; como dizem os santos, uma suma perfeição, uma alta comissão do Estado ou da Igreja, exigem para o investido a assistência de um espírito também superior. A anjo da primeira hora – se assim se pode dizer – não precisa necessariamente ser guarda de si mesmo. Não há lugar, no campo das operações de salvação, para que o titular do posto a ele confiado desde o princípio possa temer encontrar-se sozinho; a uma chamada sua, ou a uma ordem do alto, os exércitos dos bem-aventurados companheiros, que enchem os céus e terra, estão sempre dispostos a prestar-lhe ajuda poderosa. Entre estes nobres espíritos, que na presença de Deus aspiram a aumentar por todos os meios seu amor a Ele, há alianças secretas que às vezes originam neste mundo, entre seus devotos, aproximações cujo mistério se descobrirá no dia da eternidade.

OS ANJOS NA CRIAÇÃO – “Profundo mistério”, diz Orígenes, “é a repartição das almas entre os anjos encarregados de sua guarda; segredo divino relacionado com a economia universal que descansa no Homem-Deus! E não é sem inefáveis disposições que se repartem entre as Virtudes dos céus os serviços da terra, os grupos múltiplos da natureza: fontes e rios, ventos e bosques, plantas, seres animados dos continentes e dos mares, cujos ofícios se harmonizam por intermédio dos anjos que dirigem seus variados ofícios ao fim comum.”[5] Deste modo se conserva, em sua forte unidade, a obra do Criador.

E sobre estas palavras de Jeremias, “Até quando permanecerá a terra em luto?”[6], Orígenes prossegue[7]: “A terra se regozija ou chora por cada um de nós; e não somente a terra, mas também a água, o fogo, o ar, e todos os elementos, não da matéria insensível, mas dos anjos que estão à frente de todas as coisas do mundo. Há um anjo da terra, e é este que, juntamente com seus companheiros, chora por nossos crimes. Há um anjo das águas, a quem se aplica o salmo: As águas vos viram, Senhor, as águas vos viram; elas tremeram e as vagas se puseram em movimento. Em torrentes de água as nuvens se tornaram, elas fizeram ouvir a sua voz, de todos os lados fuzilaram vossas flechas.”[8]

A natureza, considerada desta maneira, é grande. A antigüidade, que abundava de verdades e de poesias mais que nossas gerações atuais, deste modo contemplava o universo. Seu erro consistiu em adorar a esses poderosos mistérios, com prejuízo do único Deus, ante o qual se inclinam aqueles que sustentam o mundo.[9] “Ar, terra, oceano, tudo está cheio de anjos”, afirmou por sua vez Santo Ambrósio[10]. “Eliseu, assediado por um exército, não tinha medo algum, pois via que lhe assistiam esquadrões invisíveis. Oxalá o profeta te abra também os olhos, e que o inimigo, ainda que seja legião, não te assuste: crês que estás sitiado, mas estás livre; os que estão conosco são mais numerosos do que os que estão com eles[11].”

CULTO AO ANJO DA GUARDA – Para terminar, escutemos hoje, como a Igreja o faz, o abade de Claraval, em cuja eloqüência parecem nesta ocasião brotar asas: “Mostra-te, em todo lugar, respeitoso para com teu anjo. Disponha-te a render culto à sua grandeza e graças por seus benefícios. Ama este futuro co-herdeiro, que agora é o tutor designado pelo Pai para os dias de tua infância. Porque, ainda que sejamos filhos de Deus, não passamos agora de crianças, e o caminho é longo e perigoso. Mas aos seus anjos Deus mandou que te guardem em todos os teus caminhos. Eles te sustentarão em suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra. Sobre serpente e víbora andarás, calcarás aos pés o leão e o dragão[12]. Certamente, por onde o caminho é fácil para uma criança, sua ajuda se reduzirá a ser simplesmente um guia, a sustentar-te como se faz às crianças. Mas a provação corre o risco de exceder tuas forças? Eles te levarão em suas mãos. Mãos de anjos! Quantos atoleiros temíveis, ultrapassados quase que sem se dar conta à mercê destas mãos, só deixaram no homem a impressão de um pesadelo rapidamente desvanecido!” [13]

AGRADECIMENTO AOS ANJOS – Santos Anjos, benditos sejais porque os crimes dos homens não cansam a vossa caridade; damos graças a vós pelo benefício – entre muitos outros – de conservar a terra habitável, dignando-nos permanecer sempre nela. Muitas vezes há perigo de que a solidão se torne pesada no coração dos filhos de Deus nas grandes cidades e nos caminhos do mundo, onde se acotovelam apenas desconhecidos ou inimigos; porém, se diminuiu o número dos justos, não diminui o vosso. E em meio à multidão entusiasmada, como também no deserto, não há um ser humano que não tenha junto de si seu anjo, representante da Providência universal sobre os bons e os maus. Espíritos bem-aventurados, temos a mesma pátria que vós, o mesmo pensamento e o mesmo amor; por que os ruídos confusos de uma turba frívola hão de turbar a vida do céu que desde agora podemos viver já convosco? O tumulto das praças públicas impede-vos por acaso de formar no além vossos coros, ou impede o Todo-poderoso de perceber nelas as vossas harmonias? Também nós queremos cantar por toda parte ao Senhor, e unir continuamente as nossas adorações às vossas, vivendo pela fé na face oculta do Pai[14], cuja contínua contemplação provoca arroubos em vós[15]. Se formos tomados por este modo angélico de viver, a vida presente não nos oferecerá nenhuma inquietude. E nem a eterna surpresa alguma.

Notas:

[1] Rm 11,33.

[2] Suárez, De Angelis, 1, Cap. VI , XVIII, 5.

[3] Hb 1,14.

[4] Da Agonia Triunfante.

[5] Comentário sobre Josué, Homilia 23.

[6] Jeremias 12, 4.

[7] Homilia 10.

[8] Salmo 76, 17-18

[9] Jó 9, 13.

[10] Comentário do Salmo 118; Sermão I, 9, 11, 12.

[11] 2Re 6, 16.

[12] Salmo 90, 11-13.

[13] Comentário ao Salmo 40; Sermão XII.

[14] Salmo 30, 21; Colossenses 3, 3.

[15] Mt 18, 10.

A Catástrofe do Suicídio

(Traduzido do original em inglês, publicado em maio de 2014 na revista americana de cultura The New Criterion. O artigo original está disponível para assinantes no seguinte link: http://www.newcriterion.com/articles.cfm/The-catastrophe-of-suicide-7902)

Autora: Emily Esfahani Smith

Tradução: André Carezia

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Nos últimos meses, houve vários acontecimentos desoladores a nos lembrar o aumento, por todo o país, dos suicídios, um tema sobre o qual escrevi em minha primeira coluna “Modos & Moral” em outubro (“Life on the island”, A Vida na Ilha). Destes, o mais falado de todos foi o de LWren Scott. A designer de moda de 49 anos foi achada morta em seu apartamento na cidade de Nova Iorque, apartamento este que foi aparentemente comprado para ela por Mick Jagger, seu namorado da época.

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Uma semana depois, a secretária de educação da cidade de Nova Iorque, Carmen Fariña, convocou uma reunião fechada com os diretores para discutir a epidemia de suicídios entre os alunos da cidade. Graças ao fato do New York Post ter publicado a estória, sabemos agora que os suicídios estão em alta no meio juvenil da cidade: há dois anos atrás, nove alunos cometeram suicídio; no último ano, quatorze; e, nestes primeiros meses de 2014, doze já cometeram suicídio em Nova Iorque.

Em março, alguns voluntários se reuniram em Washington para instalar 1892 bandeiras americanas no [parque] National Mall, lembrando cada veterano que cometeu suicídio desde o início de 2014. Faça a conta: são vinte e dois veteranos se suicidando por dia. Outro número trágico: desde 2001, o ano que marca o início das guerras no Iraque e Afeganistão, mais soldados da ativa se mataram do que morreram em combate.

O aumento no número de suicídios veio acompanhado pelo sumiço das questões morais que antigamente cercavam aqueles. G. K. Chesterton foi um dos nossos últimos críticos vigorosos do suicídio. Sua insistência em dizer que o suicídio é imoral soa estranha aos nossos ouvidos individualistas: “O suicídio não é apenas um pecado; é o pecado”, escreveu Chesterton. “É o mal final e absoluto, a recusa em se interessar pela existência; a recusa em fazer o juramento de lealdade à vida. O homem que mata um homem, mata um homem. O homem que mata a si mesmo, mata todos os homens; do seu ponto de vista, ele aniquila o mundo”. Chesterton prossegue dizendo que o ato suicida é egoísta: “Um suicida é um homem que dá tão pouca importância a qualquer coisa além dele, que ele quer ver o fim de tudo”. Seria difícil imaginar alguém escrevendo coisas assim polêmicas hoje. Não consideramos que o suicídio é a catástrofe moral que pessoas como Chesterton antigamente pensavam.

Nossa cultura contemporânea, ao contrário, trata o suicídio como um problema médico – uma “questão de saúde pública”, como o psicólogo e pesquisador Joshua Rottman afirmou recentemente ao The Atlantic. De acordo com seu novo estudo, tanto as pessoas religiosas quanto as não-religiosas possuem uma inclinação moral contrária ao suicídio, e a inclinação nasce das “reações de repugnância” que elas têm quando confrontadas com estórias de suicídios. Cometer suicídio, elas pensam, contamina a alma. Para Rottman, isto é um problema. Estas reações são irracionais e portanto nocivas: “A questão valendo 1 milhão de dólares”, diz Rottman, é “como tirar do suicídio o estigma de coisa impura”. E continua: “Isto não quer dizer que devemos começar a achar que suicídios são uma coisa completamente boa, mas não acho que devemos tratá-los como tabu (sendo assim assunto proibido em conversas educadas). Ao invés disso, devemos lidar como eles como se fossem uma questão de saúde pública, e buscar maneiras de efetivamente aumentar a prevenção.” Mas Rottman está errado ao desmoralizar a noção de suicídio. Se queremos seriamente ajudar as pessoas a superar suas noites escuras da alma, devemos insistir – com Chesterton – que o suicídio é um problema moral, e não apenas clínico.

É exatamente isso que faz um novo e importante livro. Stay: A History of Suicide and the Philosophies Against It [“Fique: Uma História do Suicídio e as Filosofias Contrárias a Ele”], da poeta e filósofa Jennifer Michael Hecht, desafia a nossa cultura de aceitação do suicídio, e revigora os argumentos morais contrários a ele. Em uma época em que poucos filósofos e intelectuais oferecem argumentos não religiosos fortes e convincentes contra o suicídio, o livro de Hecht surge como uma advertência de que nossa abordagem liberal em relação ao suicídio é relativamente nova, e na verdade bastante radical, e deve ser claramente contestada. Em parte uma história intelectual, em parte uma polêmica – e branda – contra o suicídio, o livro preenche um vazio no diálogo cultural a respeito da escolha de terminar a vida de alguém. Hecht escreve: “Os argumentos contra o suicídio, os quais pretendo reviver na consciência pública, afirmam que o suicídio é errado, que ele prejudica a comunidade, que ele estraga a humanidade, que ele antecipa injustamente seu próprio eu.”

Hecht staynos recorda que através da história – no ocidente ao menos – sempre houve forte pressão social e argumentos filosóficos contra o suicídio. Embora os antigos em geral já escrevessem contra o suicídio, suas posições foram defendidas com máximo vigor por pensadores cristãos, que encaravam o suicídio como um pecado – uma violação da lei moral de Deus. A crença cristã sobre o suicídio foi articulada de modo mais claro por Santo Tomás de Aquino, que achava, como escreve Hecht, que “o suicídio é cruel para com a comunidade, é cruel para consigo mesmo, e Deus mandou não fazer.” Aqueles que violavam a lei moral, tirando as próprias vidas, enfrentavam um destino póstumo pavoroso. Seus corpos eram torturados e arrastados pelas ruas. Suas propriedades eram confiscadas pela Igreja, e suas famílias eram deixadas sem nada.

Esta visão começou a mudar durante o Iluminismo. Os filósofos seculares daquela época, como David Hume e o Barão d’Holbach, fizeram tudo que puderam para empurrar o cristianismo para a irrelevância filosófica. Uma nas baixas na guerra contra a religião foi a proibição moral contra o suicídio, que Hume associava, como aponta Hecht, com a “superstição da Europa moderna.” Foi um caso clássico de jogar o bebê junto com a água do banho. Para Hume e d’Holbach, o suicídio era um caminho permitido para escapar ao sofrimento, e a justificativa deles era quase sempre assustadoramente desumana. Pergunta d’Holbach: “Além do mais, que auxílio ou que vantagem uma sociedade pode obter de um miserável desgraçado reduzido ao desespero, de um misantropo sufocado de dor, de um miserável atormentado pelo remorso, que não tem mais nenhum motivo para se considerar útil aos outros, que abandonou-se, e que não se interessa mais em preservar sua vida?”

A visão pró-suicida, que “agora é uma atitude que define a cultura secular, é um erro e precisa ser repensada”, escreve Hecht. Produziu uma confusão moral. Os seculares que estão entre nós rejeitam o cristianismo e as idéias cristãs sobre o suicídio – e certamente a resposta medieval a ele – mas isto não quer dizer que devemos concluir que o suicídio é permitido. O argumento não-religioso contra o suicídio, afinal, já foi encampado por um grupo admirável de pensadores, desde Kant até Durkheim até (o suicida) Wittgenstein. Como cultura, esquecemos seus argumentos, mas precisamos revivê-los e encampá-los de modo a salvar as pessoas suicidas da tirania de suas emoções. O suicida precisa perceber que o sofrimento é parte natural e passageira da vida, que ele precisa persistir, e que ele vive não apenas para si mesmo mas para os outros.

O peso moral do argumento de Hecht fica claro quando consideramos os efeitos de longo alcance do suicídio. Eles se estendem além da morte do suicida, e da dor de seus amados. O suicídio é contagioso como uma doença infecciosa. Quando uma pessoa em uma comunidade tira sua vida, não é incomum que outras pessoas sigam seu exemplo, criando o que os cientistas chamam de “suicídio em série”. Por isso é que, usando um potente floreio retórico, Hecht chama o suicídio de assassinato “retardado”. Quando você decide tirar a sua vida, ela alega, você não mata apenas você mesmo, mas também seu vizinho, seu colega de escola, seu irmão de luta.

A própria idéia de suicídio pode levar ao auto-assassinato. O romance de Goethe, Os Sofrimentos do Jovem Werther (1774) – sobre um jovem que se mata quando a mulher que ele ama o rejeita – iniciou após sua publicação uma onda de suicídios em série na Europa. O chamado “efeito Werther” deve fazer-nos parar e refletir sobre o modo como a mídia faz a cobertura dos suicídios reais, e sobre a maneira dos artistas e criadores abordarem o suicídio em suas obras. Neste sentido, Hecht cita um estudo do New England Journal of Medicine a respeito de três filmes cujos aspectos centrais do enredo são suicídios. O estudo “descobriu que os suicídios aumentaram depois de dois deles, ambos com foco na vítima de suicídio. O outro filme, não associado ao crescimento na taxa de suicídio, se concentrou nos pais e em sua angústia.” Idéias têm conseqüências: “Elas podem influenciar as pessoas tanto em direção à morte quanto para longe dela.” Hecht cita uma pesquisa que mostra que, das pessoas que tentaram cometer suicídio e falharam, a maior parte é grata pela falha. Elas não tentam mais tirar suas vidas, e admitem que “a tentativa inicial foi um ato impulsivo.”

Em minha coluna de outubro passado, indiquei uma pesquisa – de Durkheim e da ciência social moderna – que mostra que o crescimento do suicídio veio acompanhado pelo crescimento do individualismo. O papel do indivíduo na sociedade mudou dramaticamente desde o Iluminismo. Antes, a influência da tradição judaico-cristã no ocidente colocava restrições na vontade do indivíduo. A moralidade estava organizada em torno da vontade de Deus e de nossos deveres comunitários – e o suicídio era considerado uma afronta a ambos. Hoje, porém, nosso sentido de certo e errado está organizado mais em torno da experiência individual do que no bem da comunidade.

O famoso filme A Sociedade dos Poetas Mortos (1989) é um bom exemplo da resposta moderna e individualista ao suicídio. O filme gira em torno de um grupo de colegiais veteranos em uma escola de elite, um internato apenas para meninos, em New England. O líder do problemático grupo, Neil, enfrenta um dilema comum de adolescente. Seus pais querem que ele faça medicina, mas ele quer ser ator. Contrariando o desejo de seu pai, Neil faz o papel de Puck na montagem de Sonho de Uma Noite de Verão que a escola realiza. Seu pai decide removê-lo do idílico internato e mandá-lo para a academia militar, a fim de prepará-lo melhor para Harvard e uma carreira de médico. Quando Neil volta para sua casa, ele está em um turbilhão emocional. Acha que sua vida acabou. Acha que não será capaz de concretizar seu sonho de ser um ator. Ele se convence de que a solução para o problema é se matar na casa de seus pais, os quais encontram seu corpo mais tarde naquela noite.

Lamentavelmente, a estória romantiza o suicídio dele. Neil veste uma coroa de espinhos antes de tirar a própria vida, estabelecendo uma ligação espúria entre seu último ato de vontade e a submissão de Cristo à vontade do Pai. Somos levados a concluir que o adolescente é uma vítima – e seu pai é o vilão, responsável por sua morte e merecedor do sofrimento que sente ao ver seu filho morto. O filme convida-nos a simpatizar com a situação infeliz de Neil. A morte de Neil é apresentada como se fosse uma expressão da liberdade, uma fuga da infelicidade extrema, do sofrimento, e de outras barreiras que o impediriam de viver a vida do jeito que ele gostaria. Mas o fato é que a decisão de Neil é impetuosa e acima de tudo egoísta. Ao contrário de Cristo, ele não entrega sua vida por amor aos outros; seu suicídio, ao invés disso, é um ato de vingança. Mesmo assim, somos levados a concluir que ele é uma espécie de herói que morre porque o mundo é imperfeito e ele não consegue atingir a plenitude de seu ideal artístico.

Hecht impele-nos a “aposentar a idéia de que cada um é livre para tirar sua própria vida.” Hecht aqui realmente insiste em que repensemos o relacionamento do indivíduo com sua comunidade. O suicídio, que pode acabar com a infelicidade do indivíduo, é causa de incontáveis infelicidades na comunidade. Tirar a própria vida não é, portanto, uma escolha puramente pessoal, cujos efeitos são sentidos apenas pelo morto. Impõe um julgamento profundo contra o mundo partilhado por todos.

Nossa atitude perante o suicídio diz muito sobre o quanto valorizamos a vida e as comunidades que nos sustentam. Para nós não deveria ser surpresa que o suicídio tenha ganhado aceitação em nossa cultura; nossas comunidades estão se dissolvendo; o indivíduo, livre das muitas amarras tradicionais, se considera o senhor de seu próprio destino. Embora haja certamente casos em que a morte é com justiça considerada uma libertação do sofrimento, já é tempo de reconsiderar nossa crença de que, como indivíduos, somos livres para escolher a hora e o lugar desta libertação. Como assinala Hecht: “O sentido da vida é maior do que o indivíduo.”

Padre Pio e sua amiga de Chicago, Illinois: Clarice Bruno

(Traduzido por André Carezia do original em inglês. A história abaixo foi tirada do capítulo 21 do livro “Pray, Hope, and Don’t Worry: True Stories of Padre Pio”, de Diane Allen.)

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Clarice Bruno padrepio1nasceu em Chicago, Illinois, em uma família italiana católica e devota. Na juventude estudou em escolas católicas, e graduou-se no Rosemont College, uma excelente instituição católica em Villanova, Pennsylvania. Clarice, de modo geral, dava pouco valor à sua fé católica. Duvidava de vários ensinamentos da Igreja. Em seu coração havia uma indiferença – uma apatia – para com assuntos religiosos. Embora assistisse às Missas aos domingos, ela não se considerava uma boa católica.

Clarice fez os preparativos para uma viagem a Chiavari, na Itália, com a intenção de visitar seus amigos e parentes. Era para ser uma visita breve, mas a coisa se esticou muito além do que tinha planejado. A viagem a Chiavari foi tão proveitosa que ela decidiu morar lá definitivamente.

Feliz por estar novamente junto a seus parentes, Clarice também se alegrava por fazer novos amigos. Uma noite ela teve um sonho intenso. Ela caminhava, no sonho, em direção à igreja de Nossa Senhora das Graças de Chiavari, quando de repente a estrada ficou coberta de grandes pedras. Ela tentou passar por cima delas, mas a tarefa se mostrou impossível. De repente, uma grande mão surgiu detrás das pedras e ajudou-a. Num piscar de olhos, ela se achou diante da igreja. O grande obstáculo tinha sido ultrapassado.

Na frente da igreja, Clarice viu um Calvário composto de três cruzes de madeira. Por causa da cena que se desenrolava no horizonte, ela não conseguia elevar o olhar acima da base das cruzes. Ao longe, no horizonte, ela viu o mar cintilando com beleza sobrenatural. Os raios do sol dançavam sobre a água, fazendo-a brilhar como diamante. Clarice não conseguia tirar os olhos do cenário beatífico, e sentia uma intensa alegria no coração. Quando acordou, ela refletiu sobre o significado do sonho. Ela nunca tinha experimentado um sonho com tal beleza, e ficou imaginando se poderia ser sinal de algo importante que estava prestes a acontecer na vida dela. Ela não sabia. Naquele tempo, Clarice lutava contra uma cruz pesada, uma tristeza em sua vida. Ao se levantar de manhã, sua cruz já esperava por ela. Ao adormecer à noite, sua cruz ainda estava junto dela. Ela foi perdendo a coragem, até que resolveu contar alguns de seus problemas a uma gentil mulher que havia conhecido pouco tempo antes. A mulher deu-lhe um conselho: peça a intercessão de Padre Pio. E partilhou com Clarice alguns fatos acerca da vida de Padre Pio.

Clarice, de início cética a respeito das palavras da mulher sobre Padre Pio, passou a ficar mais interessada quando a mulher lhe relatou algumas das graças que ela tinha recebido pela intercessão de Padre Pio. “Acho que você deve escrever uma carta ao Padre Pio”, disse a mulher. “Na carta, você explica tudo que a incomoda. E pede ao Padre Pio que reze por você.” Convencida afinal de que era uma boa idéia, Clarice rapidamente escreveu uma carta e enviou-a, assumindo que o Padre Pio logo lhe escreveria de volta. Clarice imaginava que seria uma longa carta repleta de intuições espirituais e sábios conselhos. O que ela não sabia era que quem cuidava de toda a correspondência de Padre Pio eram seus secretários.

Uma noite, enquanto se preparava para deitar na cama, ela notou um perfume muito forte de rosas no quarto. E não conseguiu achar explicação alguma para a adorável fragrância, pois sabia que na casa não havia flores. Certamente não havia flores no quarto. Ela olhou até embaixo da cama para se certificar de que ninguém havia escondido rosas ali, mas, como suspeitava, não achou nada.

Na manhã seguinte, Clarice cumprimentou seu tio, seu pai, e vários outros amigos que estavam sentados à mesa de jantar no térreo. O tio de Clarice, que morava na casa com ela e sua família, contou-lhe a estranhíssima experiência que teve na noite anterior. Enquanto se preparava para deitar na cama, seu quarto foi preenchido pelo doce aroma de flores. Era um perfume fresco e delicioso de gardênias, depois cravos, depois violetas, e permaneceu no quarto por um longo tempo. Aconteceu entre meia-noite e meia e uma da manhã, e ele pensou se tratar de uma premonição da morte de algum amigo ou parente. Clarice disse ao tio que também ela tivera a mesma experiência aquela noite, com o delicioso perfume de rosas tomando conta de seu quarto por volta da meia-noite e meia.

Quando se encontrou novamente com a mulher que tinha lhe contado a história da vida de Padre Pio, Clarice contou-lhe a experiência que ela e seu tio tiveram em casa. A mulher explicou então à Clarice que o Padre Pio tinha o costume de fazer as pessoas saberem que ele estava intercedendo por elas, e o jeito de fazer isso era permitir que elas sentissem uma maravilhosa fragrância.

Clarice nunca tinha ouvido falar de tais dons, e pensou na carta que tinha escrito ao Padre Pio. Ele enviara a carta apenas três dias antes, e estava convencida de que ele tinha recebido e que seu espírito estava com ela, fato que ele demonstrava pelo perfume de rosas. Clarice sentiu que uma grande esperança crescia em seu coração. Tinha fé que o Padre Pio a ajudaria nas dificuldades.

Clarice escreveu uma segunda carta ao Padre Pio. Nela, agradeceu pela fragrância de rosas que ela tinha sentido. E incluiu um donativo dentro da carta. Ela disse-lhe que tinha fé nele, e que aguardava uma resposta. Poucos dias depois desta segunda carta, ela percebeu uma fragrância de lírios à volta dela. A maravilhosa fragrância começou repentinamente e com grande intensidade, desaparecendo tão rápido quanto começou.

Clarice decidiu escrever uma terceira carta ao Padre Pio, na qual agradeceu novamente a ele pela fragrância de rosas e lírios. Escreveu que estava esperando ouvir as palavras de sabedoria dele, e novamente incluiu um donativo dentro da carta. Depois de enviar a carta, os perfumes encantadores sumiram completamente. Não houve mais sinais tangíveis da presença de Padre Pio.

Clarice ia todos os dias ao correio para ver se alguma carta de Padre Pio estava esperando por ela, mas nenhuma carta chegava. Ela pensava muitas vezes em seu sonho, e na mão que a erguera por sobre a barreira de pedras, colocando-a bem na entrada da igreja de Nossa Senhora das Graças. Havia uma barreira em sua própria vida, uma cruz que ela carregava diariamente. Ela queira se livrar disso, mais do que qualquer outra coisa. Ela se apegava à esperança de que o Padre Pio pudesse ajudá-la.

Certa noite, o quarto escuro de Clarice ficou iluminado por uma suave luz, parecida com o luar. Ela viu, por mais incrível que fosse, o Padre Pio parado ao pé da cama. Ele estava usando uma túnica marrom dos capuchinhos. Ao redor da cintura ele usava a corda dos capuchinhos, e apoiava nela uma das mãos. Ele usava luvas cobrindo parcialmente suas mãos. Havia medo no coração de Clarice, ao mesmo tempo que não havia. Padre Pio disse a ela três palavras, mas ela não entendeu o significado das palavras. Ela tentou acender a luz ao lado da cama, mas por alguma razão a luz não funcionou.

Padre Pio repetiu uma segunda vez as três palavras, aquelas que ela não entendeu. E novamente ela apertou o interruptor para ligar a luz, mas a luz não ligava. Uma terceira vez o Padre Pio disse as palavras misteriosas. E então ele desapareceu. O suave brilho que lembrava a luz do luar desapareceu juntamente com ele. Clarice tocou no interruptor de luz e desta vez ela acendeu facilmente. No momento em que a luz acendeu, ela viu a porta do quarto abrir como se alguém estivesse deixando o quarto.

Ver o Padre Pio ao pé de sua cama era algo que Clarice nunca teria julgado possível. Tendo esperado tanto tempo por uma carta dele, e nunca tendo recebido nenhuma, ela já nem se preocupava mais com isso. Ela tinha recebido algo muito maior que uma carta. O Padre Pio tinha vindo pessoalmente. Clarice agora tinha certeza de que o Padre Pio estava ciente das necessidades dela, e de a guiaria pelo bom caminho.

Meses mais tarde, Clarice viajou a Roma para visitar sua grande amiga, Margherita Hamilton. Margherita, ao saber das coisas que Clarice tinha aprendido recentemente sobre o Padre Pio, disse que Clarice tinha que considerar uma visita ao Padre Pio em San Giovanni Rotondo. Depois de discutirem os detalhes, elas decidiram fazer juntas a viagem. Embarcaram em um trem em Roma para Foggia, e de lá pegaram um ônibus para San Giovanni Rotondo.

Quando Clarice e Margherita chegaram a San Giovanni Rotondo, sentiram como se tivessem voltado no tempo. San Giovanni Rotondo era uma vila primitiva naqueles anos após a II Guerra Mundial. Tanto os homens quanto as mulheres montavam em mulas e charretes puxadas a cavalo, e assim andavam pela cidade. Eletricidade e água corrente eram coisas escassas. Em algumas partes da cidade, inexistentes. Para chegar ao poço público, as mulheres locais andavam pela rua principal carregando ânforas. Clarice descreveu San Giovanni Rotondo como “um lugar semi-selvagem”.

Havia dois hotéis na cidadezinha, e nenhum deles estava em boas condições. Clarice e Margherita se consideraram sortudas por achar alojamento no mais limpo deles. Para chegar à Missa matutina do Padre Pio, elas tiveram que acordar no meio da noite e andar no escuro por três quilômetros. Isso porque não havia, para guiá-las até a igreja, nenhuma luz na estrada.

Durante o primeiro dia em San Giovanni Rotondo, Clarice e Margherita conheceram Maria Pyle. Maria morava em uma casa espaçosa, localizada bem perto do mosteiro. Cercada por um bosque de amêndoas, a casa rosada de Maria era um refúgio para inúmeros peregrinos que vinham ver o Padre Pio. Clarice e Margherita tiveram sorte de conseguir alugar dois quartos na casa de Maria e ficar neles até o final da viagem.

Maria Pyle padrepio2sabia que as acomodações eram escassas em San Giovanni Rotondo, e fez o possível para ajudar. Para oferecer hospitalidade aos peregrinos que precisavam de alojamento, ela colocou três camas desmontáveis no porão da casa. Para prover acomodações para mais gente, Maria construiu outro andar em sua casa.

Mesmo sendo muito grata pela hospitalidade, Clarice achava que o quarto oferecido por Maria Pyle deixava muito a desejar. Era úmido e frio, e Clarice não conseguia aquecer nem um pouco o lugar. Havia um forno a lenha no canto do quarto, mas estava lamentavelmente quebrado. A mesinha-de-cabeceira consistia em um pedaço de tábua sobre uma pilha de tijolos. A cama de Clarice era bem curta e bem estreita. O colchão, preenchido por folhas secas e palhas de milho, era no mínimo muito desconfortável. Apesar disso tudo, ela preferia esse quarto ao quarto do porão.

Maria era admirável, com seu verdadeiro espírito franciscano e seu desapego dos confortos e objetos mundanos. Sua própria cama era ainda menos confortável que a cama dada à Clarice. Era mais um baú de madeira do que uma cama. Ninguém conseguia entender como Maria conseguia dormir em uma cama tão dura. Era comum que as pessoas a provocassem em relação à cama, mas nunca conseguiram persuadi-la a trocar a cama por outra mais confortável.

Maria, nascida em uma família rica da cidade de Nova Iorque, visitou o mosteiro do Padre Pio pela primeira vez em 1923. Ficou tão impressionada de assistir à Missa dele e receber sua benção sacerdotal, que decidiu se mudar definitivamente para San Giovanni Rotondo. Maria tinha abandonado realmente seu estilo de vida afluente da cidade de Nova Iorque.

Maria estava em vias de se mudar para um quarto pequeno e modesto perto do porão de sua casa, quando Clarice e Margherita apareceram pela primeira vez. O quarto que Maria vinha usando era grande e confortável, tendo inclusive uma varanda ensolarada. Para oferecer esse agradável quarto aos peregrinos, ela decidiu se mudar para o andar de baixo da casa.

Durante sua estadia em San Giovanni Rotondo, Clarice e Margherita ficaram impressionadas pelas várias obras de caridade de Maria. Muita gente na cidade era analfabeta, e sempre batiam na porta de Maria para que ela escrevesse cartas para elas. Elas ditavam as cartas e Maria escrevia. Ela sempre ficava muito contente por ser útil.

Juntamente com algumas companheiras, Maria assava as hóstias que eram usadas na Sagrada Comunhão no mosteiro, e costurava as vestes sacerdotais dos Capuchinhos. Trabalhava pesado, e tinha pouco tempo de sobra. O Padre Pio conhecia muito bem esse coração generoso de Maria. Ele sempre mandava à casa dela várias pessoas que tinham necessidades de algum tipo, sabendo que Maria daria o melhor de si para as ajudá-las.

As crianças em San Giovanni Rotondo adoravam visitar Maria em sua casa. Ela sempre jogava com elas, e sempre tinha pequenas recompensas para tais ocasiões. Um dos jogos preferidos era “Lotto”[1]. Maria sempre incluía alguma lição do catecismo quando as crianças da cidade a visitavam. Por causa dos esforços contínuos e dedicados dela, as crianças do local possuíam uma compreensão impressionante da fé católica. Quando as crianças estavam prontas para a primeira comunhão, e seus pais não tinham condições financeiras, Maria comprava ternos para os meninos e vestidos brancos para as meninas.

Clarice se considerava muito feliz por poder passar um tempo ao lado de Maria Pyle e de outras almas devotas que ajudavam na obra de Padre Pio. Desde que chegara, Clarice ansiava por ir se confessar com Padre Pio, e finalmente a oportunidade apareceu. Quando Clarice entrou no confessionário e se ajoelhou, ela se deu conta do fato de que a mão de Padre Pio estava pousada na corda de seu hábito capuchinho. E lembrou que a mão dele estava exatamente na mesma posição quando ele a visitou – por bilocação – na casa em Chiavari. Clarice também reparou nos olhos de Padre Pio, que pareciam ver bem lá dentro de sua alma. Havia também uma certa severidade no olhar dele.

No confessionário, Padre Pio disse a Clarice que somente ele iria falar. E começou então a nomear os pecados dela, um por um. A cada vez que ele listava um, ela confirmava que era verdade. Ele deu a ela um conselho em relação ao fardo que ela tinha carregado no coração por tanto tempo, e disse-lhe que ela estava enfrentando um “verdadeiro calvário”. “Mesmo que não consiga sentir alegria ao carregar sua cruz, tente pelo menos praticar a resignação e a paciência”, ele falou a ela.

A confissão com o Padre Pio terminou em menos de três minutos. Ela não precisou explicar coisa alguma a ele. Obviamente ele tinha ciência de tudo na vida dela. Em poucas e curtas palavras, ele foi capaz de aconselhá-la e renovar-lhe as esperanças.

Pelo fato da casa de Maria Pyle ser tão gelada, Clarice tinha o costume de caminhar rapidamente para cima e para baixo na rua defronte à casa, para assim tentar se esquentar. Um dia, enquanto caminhava diante da igreja de Nossa Senhora das Graças, Clarice olhou lá dentro e percebeu várias mulheres da cidade limpando a igreja. E ficou sabendo que elas seguiam regularmente um cronograma de limpeza semanal. Clarice se juntou às mulheres nessa tarefa e considerou isto um grande privilégio.

A igreja monástica de Nossa Senhora das Graças tinha uma simplicidade franciscana e uma beleza que elevava o espírito. Belas estátuas estavam dispostas nos nichos e alcovas, e uma cativante pintura de Nossa Senhora das Graças tinha seu lugar fixo no santuário. Sobre a mesa da comunhão ficava um arco no qual se pintaram rosas e lírios bem delicados. Clarice se lembrava, com isso, de sua experiência em Chiavari, quando a agradável fragrância de rosas e lírios enchera o quarto.

Todas as tardes, os padres e irmãos capuchinhos se reuniam no coro da igreja para recitação de suas preces comunitárias. Nessas horas, Clarice e as outras mulheres que limpavam a igreja observavam um silêncio absoluto, e tomavam todos os cuidados para não atrapalhar os capuchinhos. Clarice conseguia distinguir, dentre todos, a voz de Padre Pio durante as orações em voz alta. Ele nunca se apressava com as orações, mas pronunciava cada palavra lentamente e com muita consideração. Clarice notava sempre uma certa tristeza na voz de Padre Pio quando ele rezava com seus confrades capuchinhos.

Clarice e Margherita conseguiam assistir à Missa do Padre Pio todas as manhãs, e consideravam isso um grande e inestimável dom. No momento da Sagrada Comunhão, as pessoas da assembléia caminhavam até o último degrau da escadaria do presbitério. Ali eles se ajoelhavam diante de Padre Pio para receber a Sagrada Comunhão. Isto evitava que ele tivesse que descer até a mesa da comunhão para distribuir a Sagrada Comunhão. As dolorosas feridas dos estigmas que perfuravam seus pés tornavam o seu caminhar muito difícil.

Após a Missa matutina de Padre Pio, ouviam-se as confissões na igreja até às 10 da manhã. Depois das confissões, cessava toda atividade na igreja, retornando apenas na manhã seguinte. Todos as dias de sua visita, Clarice e Margherita tinham tempo de sobra para explorar a cidade. De vez em quando, elas caminhavam até o cemitério onde os pais de Padre Pio estavam enterrados, e rezavam no túmulo deles.

Enquanto ficaram em San Giovanni Rotondo, Clarice e Margherita conheceram um homem gentil chamado Mário, que possuía um restaurante junto com sua esposa na cidade. O restaurante tinha um chão sujo e – coisa curiosa – um poço bem no meio dele. O restaurante mais parecia um quartinho do que um lugar para refeições. nos dias frios, o vento soprava através das rachaduras nas paredes. Era com certeza um lugar bem primitivo.

A mulher de Mário tinha uma devoção ao Padre Pio. Uma ocasião, ao se confessar com Padre Pio, ela lhe contou sobre sua aflição com seu filho de quatro anos. “Estou preocupada”, ela disse ao Padre Pio. “Tenho que trabalhar no restaurante o tempo todo com o Mário, e não consigo dar ao meu filho o tempo e a atenção de que ele necessita.” Padre Pio disse a ela para não se preocupar. E disse que ele sempre cuidaria do filho dela, e o protegeria dos perigos. A mulher deixou o confessionário muito consolada.

Alguns dias depois, a mulher ouviu o som de um grito vindo da rua. Ao sair correndo do restaurante para descobrir o que havia acontecido, ela viu o filho dela sendo tirado debaixo de um enorme caminhão. Depois, em confissão ao Padre Pio, ela contou a ele sobre o terrível incidente. “Meu filho quase foi morto por um enorme caminhão”, a mulher disse. “Bom, ele se machucou?” perguntou o Padre Pio. “Não, não se machucou”, respondeu a mulher. “Ele teve algum arranhão?” perguntou o Padre Pio. “Não, nem isso”, a mulher replicou. “Então”, disse o Padre Pio. “Eu lhe disse que o protegeria.”

Passaram rápido os dias da visita de Clarice e Margherita em San Giovanni Rotondo. Quando chegou a hora de voltarem para suas casas, elas sabiam que tinham sido abençoadas muito além das expectativas. Elas fizeram muitas viagens a San Giovanni Rotondo nos anos subseqüentes.

Certo verão, padrepio3quando visitava o mosteiro, Clarice caiu muito doente. Era um doloroso problema intestinal, para o qual nenhum dos remédios que ela tentou foi de grande ajuda. Ela então se lembrou da água benta de Padre Pio. Havia um poço no pátio do mosteiro, e tanto o poço quanto a água haviam sido abençoados por Padre Pio. Muitos dos residentes da cidade tinham grande fé em seu poder curativo, e levavam a água para casa em garrafas. Clarice bebeu um pouco dessa água benta e foi imediatamente curada do problema intestinal.

Era comum que Clarice convidasse seus amigos e parentes para acompanhá-la em suas viagens a San Giovanni Rotondo. Ela também começou a organizar peregrinações, e foi importante ao fundar alguns grupos de oração do Padre Pio na região dela. Clarice se manteve dedicada à promoção do Padre Pio pelo resto da vida dela. “Tente ficar sob o olhar de Deus, e Deus vai sempre testemunhar por você”, disse-lhe o Padre Pio em uma ocasião.

Quando Clarice foi diagnosticada com uma doença incurável, sua fé permaneceu firme. Ela tinha esperança de se recuperar, mas estava completamente resignada à vontade divina. Ela dizia que a Divina Providência sempre tinha arranjado para o bem as coisas em sua vida. “Se acontecer de eu morrer logo, eu sei que isso será o melhor para mim”, contou ela à sua querida amiga Margherita Hamilton. Clarice Bruno morreu em paz, em 5 de agosto de 1970.

“Exorto vocês a se unirem a mim. Aproximemo-nos de Jesus para recebermos Seu abraço e um beijo que nos santifica e salva… Não cessemos então de beijar assim este Filho divino, porque se forem estes os beijos dados a Ele agora, Ele mesmo virá para tomar-nos em Seus braços e dar-nos o beijo da paz nos últimos sacramentos na hora da morte”. São Pio de Pietrelcina.

Notas:

[1] Lotto é um jogo tradicional nos EUA; é jogado como Bingo, só que com desenhos ao invés de números.

Por Que Deus Permite as Doenças?

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Muitos católicos se perguntam: se Deus nos ama, porque permite as doenças? São Beda Venerável, doutor da Igreja que viveu nos séculos VII e VIII onde hoje é a Inglaterra, explica:

“Principalmente são cinco as causas das enfermidades que afligem os homens:

  1. Aumentar seus méritos, como aconteceu com Jó (cap. 1) e com os mártires;
  2. Conservar sua humildade, da qual é exemplo São Paulo atormentado por Satanás (2Cor, 12);
  3. Conhecermos nossos pecados e nos emendarmos, como sucedeu a Maria, irmã de Moisés (Num 12) e a este paralítico [de Mc 2,1-12];
  4. Para maior glória de Deus, como ocorreu com o cego de nascimento (Jo 9) e com Lázaro (Jo 11); e
  5. Aquela que é, enfim, um princípio de condenação, como se demonstra em Herodes (Atos 12) e em Antíoco (2Mac 9).

Digna de admiração é, pois, a virtude do poder divino, que faz com que à ordem do Salvador se siga instantaneamente a cura.”

(Os comentários de São Beda foram traduzidos por mim da Catena Aurea, de São Tomás de Aquino, versão espanhola: http://hjg.com.ar/catena/c298.html)