Imunidade é Vida

Autor: Dr. Howard Glicksman(*)
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Parte I

Você tem que se cuidar para não se machucar seriamente. Tem que saber aonde vai e o que faz, usando o bom senso e os cinco sentidos. Normalmente, a capacidade que o seu corpo possui de interromper os sangramentos e de se curar é suficiente para mantê-lo em funcionamento. Mas viver no mundo significa também que o seu corpo tem que se defender de inimigos que não pode detectar pelos sentidos, e dos quais não pode fugir correndo. Você está constantemente exposto a micro-organismos: bactérias, vírus e fungos, pequenos demais para serem vistos a olho nu. A experiência clínica mostra que se estes micróbios infectam o corpo e se espalham, então pode sobrevir uma doença séria, ou uma deficiência permanente, ou até mesmo a morte.

As infecções podem ocorrer em quase todos os órgãos do seu corpo. Se os pulmões pegam uma infecção por pneumonia bacteriana, ela pode reduzir a sua capacidade de injetar a quantidade necessária de oxigênio e de expelir a quantidade necessária de dióxido de carbono, o que pode levar à insuficiência respiratória e à morte. Se o sistema gastro-intestinal pega uma infecção por gastroenterite viral, a redução na ingestão oral e os vômitos e diarréia associados podem levar a uma severa perda de água, causando desidratação, desequilíbrio químico e morte. Se o cérebro pega uma infecção por meningite fúngica, a perda de função no sistema nervoso central pode provocar fraqueza e confusão, levando ao coma e à morte. Acho que você entendeu perfeitamente bem o recado….

Em se tratando de um ataque microbiano, como acontecia numa cidade medieval, o seu corpo usa uma dupla estratégia defensiva. Primeiro, assim como a barreira passiva das muralhas e do fosso cheio de obstáculos servia para repelir invasões, o seu corpo possui células especializadas (epitélio) na superfície da pele e no revestimento dos tratos respiratório, gastro-intestinal e genito-urinário, que agem como barreiras passivas contra a entrada de micróbios. Se os micro-organismos invasores rompem essa primeira linha de defesa, então a segunda linha de defesa (o sistema imunológico), consistindo de diferentes células e proteínas, entra em ação para tentar destruí-los exatamente como faziam os defensores da cidade.

Em tempos idos, quando os intrusos rompiam as defesas de uma cidade, usando armas e escudos para proteção, eles mutilavam e matavam para pilhá-la e conquistá-la. Do mesmo modo, depois de romper a barreira passiva da sua pele (geralmente com um arranhão ou corte) ou do sistema respiratório, os micróbios invasores podem pilhar o seu corpo, usando os nutrientes contidos nos fluidos ou vivendo e crescendo dentro das células. Assim, ao contrário de uma cidade que era assaltada por um número finito de atacantes, uma infecção microbiana normalmente envolve uma pequena força invasora que, uma vez dentro do corpo, pode se multiplicar rapidamente usando os recursos do seu hospedeiro. A tarefa do sistema imunológico é limitar a difusão da infecção microbiana pelo corpo, preservando as funções dos órgãos e permitindo que você viva.

Há muitos tipos diferentes de bactérias, vírus e fungos, e os poucos que desenvolveram a capacidade de romper a sua primeira linha de defesa e entrar em guerra com o seu sistema imunológico são chamados de patógenos. Se os patógenos não são retidos nos tecidos através dos quais eles entram no corpo (e.g. a pele, o sistema respiratório), eles podem migrar para os vasos linfáticos. O sistema linfático consiste em minúsculos canais com finíssimas paredes que carregam linfa, um líquido originado dos fluidos que não são recolhidos de volta às veias ao final da capilaridade. Todo tecido e órgão do seu corpo é drenado por vasos linfáticos que, eventualmente, acabam escoados para o sistema venoso. É através do sistema linfático que os micróbios invasores conseguem acesso à corrente sangüínea e, através dela, a todos os outros tecidos e órgãos do corpo. Isto pode provocar uma situação potencialmente fatal, chamada sepse, que causa a morte de meio milhão de pessoas nos EUA todo ano.

Aqui é importante notar o que a experiência clínica demonstra: para que os nossos primitivos ancestrais tivessem sobrevivido tempo suficiente para se reproduzirem, eles precisariam ter esse duplo sistema defensivo. Porque nem as barreiras passivas que protegem os tecidos subjacentes e nem o sistema imunológico são capazes, por si mesmos, de proteger o corpo contra infecções potencialmente letais. Ambos têm que estar presentes e perfeitamente funcionais para que o corpo sobreviva na natureza.

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Três perguntas para o Sr. Darwin:

  1. Como é que o meu corpo antecipou a necessidade de se proteger da invasão microbiana, criando barreiras passivas como as células epiteliais na superfície da minha pele e revestindo os meus tratos respiratório, gastro-intestinal e genito-urinário, e de onde veio esta informação?

  2. Como é que o meu corpo soube que ter apenas barreiras passivas contra a invasão microbiana, embora vital para a sobrevivência, não seria suficiente, e de onde veio a informação para produzir as diferentes células e proteínas que compõem o meu sistema imunológico?

  3. De onde é que veio a informação que diz às diferentes células e proteínas do meu sistema imunológico quais células são intrusos que precisam ser destruídos e quais fazem parte do meu corpo e devem ser deixadas em paz?

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Parte II

Vivendo no mundo, o seu corpo corre o risco de ser infectado por micro-organismos – bactérias, vírus e fungos – causadores de doenças (patogênicos). Se conseguirem se espalhar, estes micróbios causarão deficiências permanentes e até mesmo a morte. Da mesma forma que uma cidade medieval usava muralhas e um fosso como barreiras passivas contra invasões, o seu corpo usa células especializadas (epitélio) na superfície da pele e revestimentos nos tratos respiratório, gastro-intestinal e genito-urinário como barreiras passivas contra a entrada de micróbios. Se os micro-organismos rompem esta primeira linha defensiva e entram nos tecidos logo abaixo, se deparam com o sistema imunológico, o qual consiste em diferentes células e proteínas. Os socorristas em uma invasão microbiana consistem nas células e proteínas do sistema imunológico inato (natural), com o qual todos nós nascemos. E, à semelhança das sentinelas em tempos passados, o sistema imunológico inato tem quatro tarefas importantes a desempenhar.

A primeira tarefa é identificar a força microbiana invasora que precisa ser destruída. Dito de outro modo: são células do hospedeiro (próprias) ou células estranhas (não próprias)? Afinal, como o serviço do seu sistema imunológico é matar os micróbios invasores, é melhor ter certeza de que aquilo que ele está encontrando é de fato estranho e de fato precisa ser destruído; do contrário, ele pode acabar matando acidentalmente as suas próprias células. Em vez de usar olhos e orelhas para ver e ouvir o inimigo, as suas células interagem com outras células, tanto estranhas quanto domésticas, por meio da superfície das suas membranas plasmáticas. Para detectar um conjunto específico de substâncias químicas na superfície de uma outra célula (um micróbio patogênico, por exemplo), a membrana plasmática nas células imunológicas possui receptores específicos que se prendem a eles (como a chave num cadeado). As células imunológicas do sistema nativo têm aproximadamente 1000 diferentes receptores na membrana plasmática, os quais lhes permitem se prender às proteínas estranhas (não presentes nas células humanas) que estão na superfície dos micróbios patogênicos. Assim elas conseguem não só identificá-los como invasores a serem destruídos, mas também ativar seus mecanismos de defesa.

A segunda tarefa das células imunológicas do sistema inato é enviar mensagens para trazer outros defensores ao campo de batalha. Estas células imunológicas ativadas fazem isto liberando substâncias químicas (citocinas). As citocinas não apenas aumentam o fluxo sangüíneo no local da infecção, como também atraem diversas células imunológicas e proteínas ao campo de batalha, permitindo que vazem do sangue pelos vasos capilares. Isto provoca inchaço e vermelhidão na área em volta da infecção, um processo chamado “inflamação”.

A terceira tarefa é mandar informações sobre o inimigo para os reservas. Alguns dos socorristas ativos fazem isto recortando pedaços dos micróbios que encontram (quase sempre mortos por eles) e colocando-os na superfície da célula. As células de reserva então podem aparecer e conferir a informação, de modo a se prepararem melhor para o que as aguarda.

A quarta tarefa é usar diversas armas para matar os invasores e impedir que a infecção se espalhe mais.

Um defensor importante contra as infecções é um tipo de glóbulo branco chamado “neutrófilo”, que faz parte do sistema imunológico inato. Os neutrófilos, assim como outras células sangüíneas (glóbulos vermelhos, plaquetas), são fabricados na medula óssea. Depois de serem equipados com os armamentos de que precisam, entram no sangue para ficar de ronda contra os micróbios invasores. Quando a batalha na superfície se enfurece, ativando as outras células imunológicas do sistema inato, eles liberam citocinas (conforme já descrito acima na segunda tarefa). Estas substâncias químicas deixam porosas as paredes dos vasos capilares, permitindo aos neutrófilos saírem escondidos do sangue para surgirem no campo de batalha dos tecidos. Usando receptores específicos, os neutrófilos se movem rapidamente até o local no campo de batalha onde a concentração dessas citocinas está se elevando. Algo semelhante ao que ocorre quando o cachorro bloodhound se desloca na direção da presa farejando a maior concentração de odor, ou quando o tubarão vai na direção da vítima seguindo a maior concentração de sangue. Chegando aos micróbios invasores, os neutrófilos se tornam ativos e usam os receptores na membrana plasmática para se prenderem aos padrões químicos específicos da superfície do invasor (conforme descrito acima na primeira tarefa). Daí, os neutrófilos ativos geralmente cercam e engolem o micróbio num processo chamado “fagocitose”. Depois liberam diversas substâncias químicas e enzimas para matá-lo e digeri-lo (como descrito acima na quarta tarefa). Após executarem o seu serviço, os neutrófilos geralmente morrem; são estes neutrófilos mortos que formam a maior parte do pus.

O que determinava a sobrevivência de uma cidade medieval era ter um número suficiente de defensores capazes de se mover rapidamente, com poder de fogo suficiente para se proteger contra uma força invasora. Do mesmo modo, seu corpo precisa ter um número suficiente de neutrófilos capazes de se mover rapidamente do sangue para os tecidos, com poder de fogo suficiente para protegê-lo contra uma infecção que ponha a sua vida em risco. A experiência clínica nos ensina que o sangue deve ter pelo menos 1,5 bilhões de neutrófilos por litro para uma defesa adequada contra infecções sérias. Como os neutrófilos não podem se multiplicar (como os micróbios) e normalmente vivem apenas algumas horas no sangue e nos tecidos, a medula óssea precisa produzir aproximadamente cem bilhões por dia (ou seja, um milhão por segundo!). Para manter esta produção constante, as células de suporte na medula óssea liberam uma citocina chamada Fator Estimulador de Colônias de Granulócitos (FECG), que se prende a receptores específicos nas células imaturas (células-tronco) da medula óssea e lhes ordena que se transformem em neutrófilos. Além disto, em resposta a uma infecção, algumas células imunológicas ativas liberam FECG, freqüentemente dobrando ou triplicando o número de neutrófilos no sangue. Assim, mesmo que os neutrófilos não possam se multiplicar por conta própria, algumas células imunológicas estimulam a medula óssea para aumentar a produção de neutrófilos; isto permite que o seu corpo envie um número suficiente deles ao campo de batalha, de modo que você possa viver para lutar um dia a mais.

Entretanto, em se tratando de vida e de ser capaz de se defender de micróbios invasores para não morrer de uma infecção devastadora, os números reais têm conseqüências reais. A experiência clínica demonstra que se o corpo não tem um número suficiente de neutrófilos funcionais, que possam caçar e matar um número suficiente de micróbios invasores, ele morre. A causa mais comum para isto é um problema na medula óssea chamado “neutropenia”, geralmente relacionado ao câncer e aos seus tratamentos. Neutropenia grave é ter uma contagem de neutrófilos abaixo de 500 milhões por litro de sangue, e quase sempre está associada a um elevadíssimo risco de sepse e morte. Isto porque simplesmente não há um número suficiente de neutrófilos para patrulhar o corpo contra os invasores. É como não ter um número suficiente de defensores para impedir que os invasores escalem as paredes e tomem controle de uma cidade medieval. O resultado mais provável, como se pode esperar, é a morte e a destruição.

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Três perguntas para o Sr. Darwin:

  1. De onde veio a informação para prover as células do meu sistema imunológico inato com receptores que detectam mil padrões químicos diferentes na superfície dos micro-organismos invasores, de modo que possam reconhecê-los como estranhos a serem destruídos?

  2. De onde veio a informação para equipar os meus neutrófilos com tudo aquilo de que precisam para ir na direção dos micro-organismos invasores, detectá-los, engoli-los e matá-los para que eu possa permanecer vivo?

  3. Como é que o meu corpo sabe quantos neutrófilos precisa fabricar por segundo para que possa me defender da morte por infecção, e de onde é que veio esta informação?

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Parte III

Seu corpo está sob constante ataque de poderosos micróbios causadores de doenças (patogênicos). Geralmente são bactérias, vírus e fungos que, se tiverem a chance, vão provocar uma infecção e a morte. A sua primeira linha de defesa é a pele e o tecido epitelial que reveste os tratos respiratório, gastro-intestinal e genito-urinário. Quando os micro-organismos atravessam esta barreira passiva, se deparam com o sistema imunológico. As células imunológicas e proteínas que reagem em primeiro lugar a esta invasão de micróbios compõem o sistema imunológico inato, que todos possuem no nascimento. Elas percebem que uma invasão está em andamento, soam o alarme, enviam informações aos reservas e tentam matar os invasores. As células e proteínas do sistema imunológico nativo têm em sua superfície receptores que podem identificar cerca de mil padrões químicos estranhos na superfície dos micróbios invasores. Elas se ativam pelo uso dos receptores para travar nestas substâncias químicas estranhas, e depois usam o seu arsenal para tentar incapacitá-los e matá-los. Assim, mesmo que o sistema imunológico inato só possa identificar um número limitado de invasores, ele é capaz de colocar rapidamente um grande contingente no campo de batalha e iniciar a defesa do corpo.

Muitos micróbios patogênicos, porém, encontraram modos de escapar das células e proteínas do sistema imunológico inato, ou de se defender delas. Para se defender destes invasores mais agressivos, as células e proteínas do sistema imunológico adaptativo precisam entrar em ação com uma dose extra de inteligência, poder de fogo e precisão de mira. Ao contrário do sistema imunológico inato, que se acha presente no nascimento, este sistema se desenvolve com o tempo. Constitui-se nos reservas aos quais se recorre para estruturar uma resposta mais específica depois de alguns dias. A experiência clínica demonstra que sem a barreira passiva do epitélio, sem os socorristas do sistema imunológico inato, e sem os reservas do sistema imunológico adaptativo, os nossos ancestrais mais antigos não poderiam ter vivido tempo suficiente para se reproduzir; teriam morrido de infecção.

As células do sistema imunológico adaptativo se denominam linfócitos, e são produzidas na medula óssea. Uma parte delas (células T) migra para o timo e ali amadurece. Outra parte (células B) permanece na medula óssea. Todas acabam por entrar no sangue até chegarem aos linfáticos, os minúsculos vasos que contêm o fluido que não é posto de volta em circulação pelos capilares. Daqui elas vão aos gânglios linfáticos e depois retornam através das veias para a corrente sangüínea, em busca de proteínas estranhas. Uma das principais diferenças entre estas células e as células do sistema imunológico inato é que, em vez de ter receptores capazes de detectar cerca de mil padrões químicos diferentes, cada uma delas tem cerca de cem mil receptores capazes de detectar um único padrão químico específico. Estima-se que, no seu conjunto, as células e proteínas do sistema imunológico adaptativo sejam capazes de detectar aproximadamente dez bilhões de padrões químicos diferentes. Portanto, em contraste com as células e proteínas do sistema imunológico inato, que têm mil receptores diferentes e são capazes de detectar e neutralizar um monte de invasores diferentes, cada uma das células e proteínas do sistema imunológico adaptativo é capaz somente de detectar e neutralizar alguns poucos invasores diferentes. São os socorristas do sistema imunológico inato que fornecem a informação sobre o inimigo, e que ativam no sistema imunológico adaptativo as células e proteínas corretas que auxiliam na defesa.

As proteínas do sistema imunológico adaptativo são denominadas anticorpos. Também são conhecidas como gama-globulinas ou imunoglobulinas (Ig). Quando as células e proteínas do sistema imunológico inato liberam citocinas para provocar uma inflamação, o resultado é que os anticorpos extravasam do sangue para o campo de batalha. Sua especialidade é ajudar outras células e proteínas imunológicas na identificação e eliminação de micróbios, na neutralização de toxinas e na prevenção do alastramento da infecção. Eis como operam.

As células B contêm cerca de cem mil receptores específicos na superfície celular. Quando encontram uma proteína estranha (antígeno) num micróbio, uma que combina com o receptor específico, prendem-se a ela, tratam dela, e depois a recolocam na superfície. Quando uma célula T, previamente ativada pelo encontro com o mesmo antígeno, se prende àquele que está na célula B, envia citocinas para fazer a célula B amadurecer e se transformar num plasmócito que fabrica milhões de anticorpos. Estes anticorpos têm o mesmo padrão químico que lhes permite se prender aos mesmos antígenos que os ativaram e ativaram a célula T (auxiliar) da primeira vez.

Os anticorpos são proteínas em formato de Y. As pontas dos dois braços contêm o padrão químico específico que lhes permitem se prender a um antígeno em particular no invasor estranho; é chamado de Fragmento de Ligação ao Antígeno (fragmento FLA). Alguns micróbios possuem defesas com as quais eles desafiam as células e proteínas do sistema imunológico inato. Porém, quando os anticorpos se ativam e prendem os seus fragmentos FLA à superfície destes patógenos, estes perdem a capacidade de evasão e resistência àquelas células. Quando isto acontece, a base do anticorpo, chamado Fragmento Constante (FC), também se ativa. As células do sistema imunológico inato possuem na superfície receptores que podem se prender aos fragmentos FC dos anticorpos que agora cobrem literalmente esses patógenos; isto lhes permite vê-los e capturá-los.

Os anticorpos auxiliam de várias outras maneiras as células e proteínas do sistema imunológico inato, que assim dão conta do serviço de defender o corpo contra as infecções que podem matá-lo. Tanto é assim que a experiência clínica mostra que a vida humana depende de haver um número suficiente de anticorpos.

As imunodeficiências primárias são doenças genéticas: a pessoa nasce com uma resposta imunológica fraca às infecções. Um exemplo é a agamaglobulinemia, que envolve um defeito na função das células B e uma ausência quase completa de anticorpos. Os bebês recebem das mães, através dos anticorpos que atravessam a placenta até suas correntes sangüíneas, uma imunidade temporária. Depois de seis meses, porém, eles começam a contrair infecções que, sem a medicina moderna, levariam rapidamente à morte. Isto mostra que, sem anticorpos, os nossos primeiros ancestrais jamais teriam sobrevivido, mesmo tendo em pleno funcionamento as outras peças todas do sistema imunológico.

Por fim, é bom estar ciente daquilo que a experiência clínica demonstra: assim como a seqüência de coagulação deve se ativar apenas quando necessária e ficar inativa caso contrário, também os anticorpos não devem levar o corpo a reagir exageradamente contra si mesmo ou contra antígenos relativamente inofensivos; quando isto acontece, o resultado pode ser uma enfermidade severa ou até a morte. As alergias, como rinite e asma, são provocadas por determinadas respostas dos anticorpos ao pólen, a uma picada de abelha ou a outras substâncias químicas; as alergias podem causar até choque anafilático e morte. A reação inadequada dos anticorpos ao tecido normal, pela ativação do sistema imunológico, se chama doença auto-imune e causa inflamação, lesão e até mesmo a destruição de diferentes órgãos e tecidos. Exemplos disto são a artrite reumatóide e o lúpus. Portanto, é vital que não somente estejam presentes todos os componentes do sistema imunológico, mas também que estejam devidamente controlados.

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Três perguntas para o Sr. Darwin:

  1. De onde veio a informação para dar às células e proteínas do meu sistema imunológico adaptativo a capacidade de detectar cerca de dez bilhões de padrões químicos diferentes?

  2. Como é que as células B passaram a depender das células T (auxiliares) para se converter em plasmócitos capazes de produzir anticorpos, e como os organismos intermediários sobreviveram sem uma das duas?

  3. Como é que o meu corpo sabe quantas células e proteínas são necessárias para o sistema imunológico adaptativo funcionar perfeitamente, me mantendo assim saudável e livre da morte por infecção?


(*) Traduzido por André Carezia a partir de artigos originais publicados no website do autor:
http://arn.org/docs/glicksman/oba.html

Vida é Sexo

Autor: Dr. Howard Glicksman(*)
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Como é que eu me tornei macho/fêmea?

Mesmo que o sexo de uma pessoa não afete a sua capacidade de sobreviver, sem os machos e as fêmeas a raça humana não existiria. Você talvez tenha interesse em saber que, seja macho ou fêmea, todo embrião humano começa com o mesmo arranjo pré-sexual. O desenvolvimento desse tecido até se tornar um macho fértil é governado por seis moléculas importantes. Se qualquer uma delas faltar, o embrião humano se torna fêmea – ou um macho infértil. Dito de outro modo: para se obter um macho fértil, cada uma dessas seis moléculas precisa estar presente; e nele a existência da raça humana fica suspensa por um fio.

No início, quando o esperma do seu pai encontrou o óvulo da sua mãe, eles se fundiram para se tornarem você: um zigoto unicelular no útero da sua mãe. Você tinha 23 pares de cromossomos, cada um deles vindo do seu pai e da sua mãe. Um par, X e Y, eram os cromossomos sexuais, que decidiram qual sexo você teria. Uma fêmea geralmente tem dois cromossomos X. Assim, seja você macho ou fêmea, a sua mãe forneceu a você um X. Um macho geralmente tem um X e um Y. Assim, se você é fêmea, o seu pai lhe deu um X; se é macho, ele lhe deu um Y.

Tão logo você passou a existir como um zigoto, a sua única célula começou a se dividir até se tornar um embrião. Os seus tecidos pré-sexuais eram iguais aos de todos os embriões humanos. Você tinha gônadas não desenvolvidas, que iriam se tornar ovários ou testículos. Tinha uma genitália feminina interna não desenvolvida que, se ativada, iria se tornar o útero e a vagina superior. Tinha também uma genitália masculina interna não desenvolvida que, se ativada, viraria o epidídimo, as vesículas seminais e os canais deferentes (tecidos que se encarregam do esperma). E você tinha uma genitália externa não desenvolvida, que se tornaria a vagina inferior e a vulva, ou o pênis, a próstata e o escroto. Assim, neste ponto, você estava pronto(a) para se tornar tanto um macho quanto uma fêmea. Então o que acontece depois? Vamos ver como essas seis moléculas realizam a sua tarefa.

A primeira molécula, a mais importante, aquela que coloca o embrião na trilha masculina em vez da trilha feminina, vem do cromossomo Y. Sem esta molécula, o embrião se tornará automaticamente uma fêmea. É por isto que uma pessoa que é XX se torna fêmea, e uma pessoa que é XY se torna macho. Esta molécula é chamada de Fator Determinante de Testículos. Se você é um macho, com mais ou menos sete semanas de vida esta molécula foi até as suas gônadas não desenvolvidas e ordenou que elas se tornassem testículos. Se você é uma fêmea, por não ter esta molécula as suas gônadas não desenvolvidas viraram ovários automaticamente.

A segunda molécula necessária para produzir um macho fértil é a Testosterona. Tão logo as gônadas não desenvolvidas se tornam testículos, eles começam a produzir este hormônio sexual masculino. Eles fazem isto tomando o colesterol e aplicando-lhe seis diferentes enzimas até convertê-lo em testosterona. Nenhuma destas seis enzimas vem do cromossomo Y. Elas vêm dos outros 22 pares. Você percebe, então, que o cromossomo Y é necessário para ter um macho, mas não é o único.

A terceira molécula importante é chamada Receptor Androgênico. É nela que a testosterona se prende para fazer efeito. A testosterona se prende nos receptores androgênicos das células que formam a genitália masculina não desenvolvida, ordenando que elas se tornem o epidídimo, as vesículas seminais e os canais deferentes. Sem a testosterona ou os receptores androgênicos, estas células morrem automaticamente. Agora você nota porque ambas são importantes para se obter um macho fértil. A informação para a produção do receptor androgênico está no cromossomo X. Assim, mesmo que o cromossomo Y coloque o embrião na trilha masculina, ele ainda necessita do cromossomo X para se sair bem.

Havendo ou não testosterona e receptores androgênicos, a genitália feminina interna (ductos de Müller) se transforma automaticamente em útero e vagina superior, exceto se for impedida de fazê-lo. Se isto acontecesse no macho, ele se tornaria infértil porque os dois conjuntos de genitália interna ficariam emaranhados. É aí que entram a quarta e a quinta moléculas para produzir um macho fértil. Os testículos não fabricam apenas a testosterona, mas também uma outra molécula chamada Hormônio Anti-Mülleriano. Ela se prende a receptores específicos nas células que formam a genitália feminina não desenvolvida, e ordena que morram. A informação para produzir o hormônio anti-mülleriano está no cromossomo 19; para produzir o seu receptor, no cromossomo 12. Perceba, então, como a informação genética toda é necessária para se obter um macho fértil, e não apenas X e Y.

Sem a testosterona e os receptores androgênicos, a genitália externa não desenvolvida se torna automaticamente a vagina inferior e a vulva. Mas, para se obter uma genitália externa masculina de verdade, que permita ao macho atuar sexualmente, é preciso mais um truque. Acontece que esses receptores androgênicos em particular não respondem muito bem à testosterona, não o suficiente para executar o serviço direito. Para isto eles precisam ser estimulados pela Di-hidrotestosterona, do contrário o pênis, a próstata e o escroto ficarão deformados. Assim, a sexta molécula necessária para se obter um macho fértil é a enzima que transforma a testosterona em Di-hidrotestosterona. A informação para isto está no cromossomo 2.

Sem o Fator Determinante de Testículos, ou qualquer uma das seis enzimas necessárias para transformar o colesterol em testosterona, ou o receptor androgênico, o embrião humano automaticamente se torna uma fêmea. E sem o Hormônio Anti-Mülleriano, ou o seu receptor, ou a enzima que converte a testosterona em Di-hidrotestosterona, você obtém um macho infértil. Estas seis moléculas – todas elas – têm de estar presentes para se obter um macho fértil e, com ele, a raça humana.

Entretanto, às vezes a vida pode ser uma surpresa. Veja, por exemplo, a fêmea XY. Uma fêmea XY é uma pessoa que aparenta ser uma fêmea perfeitamente normal, mas em vez de ser XX é XY. Quando nascem, elas parecem femininas, e amadurecem como uma fêmea normal, com desenvolvimento normal dos seios. É só quando não menstruam que procuram auxílio médico. E daí descobrem que possuem uma vagina curta que leva a lugar nenhum, não possuem útero, e por dentro elas possuem testículos em vez de ovários. O problema com a fêmea XY é que os seus receptores androgênicos não funcionam. Dito de outro modo: elas têm um montão de testosterona, mas não faz efeito sobre elas.

Eis como funciona.

A fêmea XY tem um cromossomo Y, e portanto tem o Fator Determinante de Testículos, que vai até as gônadas não desenvolvidas e ordena que elas se tornem testículos. Os testículos fabricam testosterona, mas não conseguem fazer efeito sobre as células da genitália masculina interna porque os seus receptores androgênicos não funcionam; portanto elas morrem. Os testículos, porém, enviam também o Hormônio Anti-Mülleriano, que se prende aos receptores específicos nas células da genitália feminina interna não desenvolvida; elas morrem também. Então é por isto que a fêmea XY não tem genitália interna, nem masculina nem feminina. E, já que a testosterona não consegue fazer efeito – os receptores androgênicos não funcionam – a sua genitália externa não desenvolvida se torna feminina. Então é por isto que, quando amadurece, ela tem a aparência de uma mulher normal.

Se você é uma pessoa que raciocina, deve estar se perguntando como a fêmea XY pode ter seios femininos, já que tem testículos que produzem testosterona em vez de ovários que produzem estrogênio. Acontece que o desenvolvimento dos seios femininos não depende das quantidades absolutas de estrogênio e testosterona, mas da razão entre eles (E/T). Um macho maduro geralmente tem um nível muito elevado de testosterona e um nível muito baixo de estrogênio (derivado da testosterona), de modo que a razão E/T nele é muito baixa; é por isto que os seus seios não se desenvolvem. Uma mulher madura geralmente tem um nível muito elevado de estrogênio e um nível muito baixo de testosterona, de modo que a razão E/T é muito alta nela; é por isto que os seus seios se desenvolvem. A fêmea XY é como o macho maduro nesse aspecto: nível muito elevado de testosterona e nível muito baixo de estrogênio. Porém, no caso dela, os seus receptores androgênicos não funcionam; é como se ela não tivesse testosterona nenhuma. Isto quer dizer que a razão E/T nela é E/0, que se aproxima do infinito; é por isto que os seus seios se desenvolvem. Conta-se por aí que algumas fêmeas XY são as mulheres mais bonitas e femininas do mundo, porque o hormônio masculino dentro delas não tem absolutamente nenhum efeito.

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Três perguntas para o Sr. Darwin:

  1. Como é que a vida descobriu que basicamente precisava dividir o material genético, colocá-los em gametas masculinos e femininos, e então juntá-los para produzir uma nova vida?

  2. Como é que a vida antecipou a necessidade de cada uma das partes requeridas para a reprodução humana, de onde veio a informação para criar os tecidos sexuais não desenvolvidos, e em qual ordem eles passaram a existir?

  3. De onde veio a informação para as seis moléculas diferentes e necessárias para se obter um macho fértil em vez de um infértil ou uma fêmea, e, na ausência de uma ou mais delas, como é que a reprodução sexual ocorreu nas formas de vida que nos precederam?

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Como é que um macho/uma fêmea amadurece?

A seção anterior explicou como você se torna um macho ou uma fêmea. Mostrou que, na ausência de seis moléculas específicas, o embrião humano se torna uma fêmea – ou um macho infértil. Dito de outro modo: sem qualquer uma dessas seis substâncias químicas, a reprodução é impossível e, portanto, a existência da humanidade é impossível. Porém, mesmo que no nascimento os humanos sejam machos ou fêmeas, nós sabemos que eles ainda não são capazes de se reproduzir. Assim, parece que este potencial vem embutido para ser ativado quando a hora chegar.

A maioria das crianças começa a demonstrar sinais do seu futuro desenvolvimento sexual no final da primeira década. Ao longo dos anos seguintes, elas passam por um desenvolvimento sexual e físico em um processo chamado puberdade. A puberdade é uma constelação de alterações fisiológicas que torna os humanos capazes de se reproduzir, além de prepará-los para o seu papel natural na família. Vamos ver como funciona.

O hipotálamo, dentro do seu cérebro, e a pituitária, que fica perto, trabalham juntos para controlar uma porção de hormônios no seu corpo. O hipotálamo envia o Hormônio Liberador de Hormônio do Crescimento, que estimula a pituitária a liberar o Hormônio do Crescimento (HC). Como o nome diz, o HC é importante no crescimento e no desenvolvimento geral do corpo. O hipotálamo também envia o Hormônio Liberador de Tireotrofina (HLT), que ordena à pituitária que envie o Hormônio Estimulante da Tireóide (HET). É o HET que controla a produção do Hormônio da Tireóide pela glândula tireóide no seu pescoço, a qual afeta principalmente a taxa de metabolismo do corpo. E essas duas glândulas enviam, além desses, muitos outros hormônios.

É importante compreender que o hipotálamo e a pituitária trabalham juntos para controlar a produção de um determinado hormônio, e fazem isso por inibição reativa. Imagine a inibição reativa como aquilo que ocorre quando você enche o tanque de gasolina. Há um sensor no bico que você insere na abertura do tanque de gasolina, e esse sensor detecta quando o tanque está cheio, provocando o desligamento automático da bomba. Do mesmo modo, o hipotálamo e a pituitária têm sensores que lhes permitem detectar o nível sangüíneo dos hormônios que eles essencialmente controlam.

Veja, por exemplo, o Hormônio da Tireóide. Se ele aumenta acima do necessário, o hipotálamo reduz a saída de HLT e a pituitária diminui a saída de HET. E quando o nível de Hormônio da Tireóide fica abaixo do necessário, o hipotálamo aumenta a saída de HLT e a pituitária a saída de HET. A reação do hipotálamo e da pituitária ao nível de hormônio da tireóide, quando muito elevado, é inibir a liberação de HLT e HET, respectivamente; quando muito baixo, é reverter essa inibição.

A produção dos hormônios sexuais é regulada do mesmo modo. O hipotálamo envia o Hormônio Liberador de Gonadotrofina (HLG). O HLG se prende aos receptores específicos nas células da pituitária, e ordena que elas enviem as gonadotropinas, que são o Hormônio Folículo-Estimulante (HFE) e o Hormônio Luteinizante (HL). São o HFE e o HL que se prendem aos receptores específicos nas células dos testículos ou dos ovários para que produzam os hormônios sexuais: testosterona ou estrogênio, respectivamente.

Na primeira década de vida, o hipotálamo e a pituitária são muito sensíveis à inibição reativa dos hormônios sexuais. Isto quer dizer que, antes da puberdade, níveis muito baixos de testosterona e estrogênio são capazes de impedir que o hipotálamo libere mais HLG e que a pituitária libere mais HFE e HL. O resultado é que os níveis sangüíneos de testosterona e estrogênio ficam muito baixos.

Poucos anos antes da puberdade, as supra-renais aumentam a saída de hormônios androgênicos (masculinos). Isto provoca um pequeno pico de crescimento e o desenvolvimento de pêlos pubianos e axilares. Não se compreende muito bem a verdadeira causa do início da puberdade. O que se sabe, entretanto, é que acontece do hipotálamo e da pituitária começarem a ficar menos sensíveis aos hormônios sexuais. A diminuição gradual da inibição reativa dos hormônios sexuais no hipotálamo e na pituitária resulta em um gradual aumento na saída de HLG, HFE e HL. Na hora em que a puberdade chega com força total, os níveis desses hormônios sexuais já aumentaram significativamente.

Durante a puberdade masculina, mais HFE e HL se prende aos receptores específicos nos testículos. Isto causa um aumento na produção de testosterona, e a capacidade de produzir esperma. A puberdade, no macho, também resulta no aumento e no engrossamento dos pêlos do rosto, do peito, das axilas, do abdômen, das extremidades e da região pubiana; junto com isto ocorre o alargamento das cordas vocais, com o conseqüente engrossamento da voz. Por causa do aumento correspondente na saída de Hormônio do Crescimento da pituitária, o macho experimenta também um pico de crescimento linear e o desenvolvimento do sistema músculo-esquelético. Junto com a capacidade de produção de esperma, a puberdade acarreta um aumento do pênis, do escroto e dos testículos. Por fim, a testosterona não cumpre apenas um papel essencial na diferenciação, no desenvolvimento e no amadurecimento sexuais, mas também no desejo pelas relações sexuais. A testosterona, além disto, é importante para dar ao macho a capacidade de manter uma ereção que permita, durante a relação sexual, a penetração adequada para dentro da vagina e a ejaculação. Todos esses desenvolvimentos preparam o garoto para que se torne um homem e, mais tarde, um pai.

Durante a puberdade na fêmea, mais HFE e HL se prende aos receptores específicos nos ovários. Isto provoca um aumento na produção de estrogênio, e a capacidade de desenvolver óvulos. A puberdade, na fêmea, resulta em aumento dos pêlos pubianos e axilares, mas eles não ficam grossos como no macho. Ocorre o desenvolvimento dos seios para que a mãe em potencial seja capaz de fornecer leite para o seu bebê. Assim como no macho, o aumento no Hormônio do Crescimento resulta num pico de crescimento linear e no desenvolvimento do sistema músculo-esquelético. A puberdade também acarreta um aumento da genitália externa e da produção de muco no interior da vagina e do útero. Junto com a capacidade de desenvolvimento de óvulos, o aumento de HFE, HL e estrogênio propicia a ovulação, onde um óvulo é liberado para poder entrar em uma das trompas de Falópio.

Dentro da trompa de Falópio, um óvulo pode encontrar o esperma e se fundir com ele para formar uma nova vida humana. Isto ocorre após o esperma ter sido depositado na vagina pelo macho, durante a relação sexual. Após a ovulação, os ovários secretam principalmente a Progesterona, o hormônio da gravidez. O estrogênio, antes da ovulação, e a progesterona, após a ovulação, se prendem aos receptores específicos na parede do útero, tornando-a mais espessa e produzindo mais muco em preparação para a gravidez. Se a gravidez não se dá, os níveis de estrogênio e progesterona caem vertiginosamente. Sem este suporte hormonal, a parede do útero descama num processo chamado menstruação. O primeiro período menstrual geralmente marca o início da fertilidade feminina. Normalmente ocorre mensalmente pelos trinta ou quarenta anos seguintes. Todo esse desenvolvimento prepara a garota para se tornar uma mulher e, mais tarde, uma mãe.

Veja, então, que são necessários muitos sensores, hormônios, receptores e tecidos não desenvolvidos para atingir a puberdade e o amadurecimento sexual. Mas sem eles a raça humana não existiria.

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Três perguntas para o Sr. Darwin:

  1. Como é que o meu corpo obteve o manual de instruções de como e quando ativar a puberdade?

  2. Uma vez que são necessários tantos fatores, como é que o amadurecimento sexual pode ter evoluído gradualmente?

  3. Como é que as minhas glândulas sabem a quantidade de hormônio que precisam enviar para que o serviço seja feito direito?

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Como é que a função sexual masculina concorre para uma nova vida humana?

Depois dos órgãos sexuais terem amadurecido, permitindo ao macho produzir esperma e à fêmea liberar um óvulo, o que falta para uma nova vida humana é uni-los na formação de um zigoto (fertilização). O modo natural de ocorrer a reprodução humana é através da relação sexual entre o macho e a fêmea. Esta união íntima e física exige que o homem insira profundamente o pênis ereto na vagina da mulher, e libere o sêmen (com esperma suficiente e saudável) próximo à abertura do colo do útero. O esperma pode então nadar até o útero e tentar fertilizar um óvulo.

Para o macho, fertilidade significa ele ser capaz de produzir esperma suficiente e saudável para causar a fertilização e a nova vida humana. Isto é feito pelos testículos do homem. Exige que ele tenha Hormônio Folículo-Estimulante (HFE), Hormônio Luteinizante (HL) e seus respectivos receptores, os três em quantidade suficiente nas células específicas dos testículos. Estes hormônios ordenam aos testículos que produzam testosterona e esperma. O esperma é colocado em líquidos nutritivos que vêm das vesículas seminais e da próstata, formando o sêmen. Durante a relação sexual, como já observamos acima, o sêmen é liberado pelo pênis ereto no fundo da vagina da mulher, a fim de depositar o esperma onde ele precisa estar, para haver uma chance de nova vida humana.

Geralmente, a quantidade normal de sêmen necessária para uma fertilidade adequada é de pelo menos 2 mililitros, e deve haver mais de 20 milhões por mililitro. A aparência (morfologia) e a habilidade de se mover bem (motilidade) são fatores muito importantes que afetam a fertilidade. Se a maior parte do esperma tem aspecto anormal, e/ou são incapazes de nadar vigorosamente, então a fertilização tem poucas chances de ocorrer.

A experiência ensina que só o fato do macho ter as partes certas, e ter passado pela puberdade, não quer dizer que ele seja fértil. Há várias razões pelas quais um homem pode não possuir esperma saudável e suficiente, o que resulta na infertilidade masculina. Estas incluem stress emocional, fumo, uso de álcool, infecções transmitidas sexualmente, deficiências em vitaminas e minerais, radiação, trauma, diabetes, doença na tireóide, envelhecimento e obesidade. Além disto, a produção de esperma requer uma temperatura mais baixa, e por isto os testículos são acomodados no escroto que fica fora do corpo. O superaquecimento dos testículos, devido a saunas freqüentes ou ao uso de cuecas justas, também pode resultar na infertilidade masculina.

Potência é a capacidade de depositar o esperma no fundo da vagina da fêmea. Isto implica ter uma ereção firme o suficiente para penetrar profundamente na vagina e ser capaz de ejacular o sêmen. Depende de ele ter um pênis normal e funções nervosas e vasculares normais.

Uma ereção se obtém por pressão hidráulica. Estendendo-se pelo tamanho do pênis (acima da uretra e nas suas laterais) estão o corpus spongiosa e o corpus cavernosa. Estas câmaras venosas tubulares são cercadas por um poderoso tecido fibroso. Os pensamentos sexuais e a estimulação do pênis e da região pélvica ativam alguns nervos autônomos que enviam um neuro-hormônio chamado acetilcolina. Ela se prende aos receptores específicos nos vasos sangüíneos do pênis. Isto provoca um aumento no fluxo de sangue arterial para dentro dessas câmaras, e uma diminuição do fluxo de sangue venoso para fora delas. O resultado final é um acúmulo de sangue no interior dessas câmaras: uma ereção.

Após a ereção, com o estímulo contínuo, o sistema nervoso autônomo envia um neuro-hormônio diferente chamado norepinefrina. Ele se prende aos receptores específicos na região pélvica, o que provoca as contrações coordenadas e a ejaculação do sêmen. Geralmente isto é acompanhado da sensação prazerosa do orgasmo. Assim que isto acontece, o sistema nervoso autônomo desativa a acetilcolina e o pênis perde a sua ereção, se tornando flácido.

Como já observado acima, uma ereção peniana adequada que resulte em ejaculação é um processo bem coordenado que envolve a presença de um fluxo adequado de sangue na região pélvica, além do funcionamento adequado dos nervos. Quando existem problemas significativos, o resultado é uma disfunção erétil, ou uma impotência. Dito de outro modo: mesmo que o macho fabrique sêmen suficiente, com esperma saudável e ativo, se ele não puder depositá-lo onde precisa estar, então isto irá resultar também na infertilidade masculina.

A fadiga e as causas emocionais da disfunção erétil normalmente são passageiras, mas existem muitas doenças que podem levar a uma impotência permanente. Aterosclerose (endurecimento das artérias, em geral relacionado ao fumo), hipertensão, diabetes e hiperlipidemia podem causar mau funcionamento dos vasos periféricos, limitando o fluxo de sangue para o pênis. Além do mais, outras doenças associadas a problemas vasculares (como doença arterial coronária, insuficiência cardíaca e insuficiência renal) podem também levar à impotência. O diabetes, em particular, afeta não somente o fluxo de sangue mas também as funções nervosas; homens diabéticos, portanto, correm mais risco de sofrerem impotência.

Finalmente, embora a maioria das doenças que causam impotência e infertilidade masculina seja relacionada a uma disfunção vascular e/ou nervosa, existe uma que se relaciona a um defeito na estrutura do pênis. A doença de Peyronie é uma enfermidade na qual se formam tecidos fibrosos de cicatrização por dentro das paredes do pênis, resultando em ereções deformadas e quase sempre dolorosas. Isto geralmente torna a relação sexual muito desconfortável e, quase sempre, fisicamente impossível.

Veja que tudo tem de estar exatamente nos conformes para que o macho produza sêmen suficiente, com esperma suficiente e saudável, e que o deposite bem no fundo, próximo ao útero da fêmea, possibilitando assim a fertilização.

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Três perguntas para o Sr. Darwin:

  1. De onde veio a informação para ordenar aos testículos masculinos que fabriquem esperma suficiente?

  2. De onde vieram as partes e o mecanismo que torna o pênis ereto?

  3. Como é que o macho desenvolveu a capacidade de ejacular o sêmen?

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Como é que a função sexual feminina concorre para uma nova vida humana?

Após os órgãos sexuais terem amadurecido de tal modo que o macho possa produzir esperma e a fêmea possa liberar um óvulo, o que é necessário para gerar uma nova vida humana é uni-los a fim de formar um zigoto (fecundação). O modo natural de acontecer a reprodução humana é que o macho e a fêmea se juntem numa relação sexual. Esta união física, íntima, requer que o homem introduza o pênis ereto no fundo da vagina da mulher e libere o sêmen (contendo esperma) próximo à abertura do colo do útero. Em seguida, durante várias horas e auxiliado pelo muco cervical, os espermatozóides usam os flagelos para nadar pelo corpo uterino em direção às trompas de Falópio. Se, por este tempo, um dos ovários da mulher tiver liberado um óvulo, então um dos espermatozóides pode conseguir penetrar a sua camada externa para formar um zigoto. Em seguida, durante várias horas, o zigoto se desenvolve até virar um embrião; este, ao longo dos dias seguintes, se move até o corpo do útero e se implanta em sua parede. Após ocorrer a implantação, o embrião continua se desenvolvendo num processo chamado gestação, transformando-se em um feto que cresce e sai do corpo da mãe nove meses depois, na forma de um bebê recém-nascido.

Para a fêmea, fertilidade significa o ovário liberar um óvulo, fazê-lo entrar na trompa de Falópio, receber o sêmen próximo à abertura do colo do útero, ajudar o esperma chegar ao óvulo e sustentar o desenvolvimento da nova vida humana após a implantação na parede do útero.

Uma fêmea possui, ao nascer, um suprimento completo de óvulos imaturos em seus ovários. Para que o ovário libere um óvulo (ovulação), é preciso que ela tenha uma quantidade suficiente de Hormônio Folículo-Estimulante (HFE), de Hormônio Luteinizante (HL) e de estrogênio, além dos respectivos receptores nas células do ovário. A ovulação mensal depende da delicada interação entre o hipotálamo, a pituitária e o ovário.

Este balanço pode ser perturbado por stress emocional crônico, nutrição ruim, flutuações significativas no peso, enfermidades sérias ou recorrentes, e excesso de exercício físico; o resultado é a anovulação. Há também doenças glandulares que podem causar isto. Além do mais, a fêmea possui, ao nascer, um número finito de óvulos imaturos, o que significa que algum dia ela perde a fertilidade. Isto ocorre aproximadamente depois de trinta ou quarenta anos, e se chama menopausa.

Se a mulher teve relações sexuais no período da ovulação, então entra em cena o seguinte: fazer com que o óvulo vá até a trompa de Falópio; e auxiliar o esperma a alcançá-lo. O estrogênio, ao se ligar aos receptores específicos, faz com que as células da abertura do colo do útero secretem grandes quantidades de um muco aquoso. Isto ajuda o esperma a nadar, através do corpo uterino, em direção às trompas de Falópio. O estrogênio também causa um aumento na movimentação dos cílios (pequenas projeções, como fios de cabelo) das trompas de Falópio, além de provocar contrações musculares que empurram o óvulo para dentro. Uma vez lá dentro, o óvulo é empurrado em direção ao corpo do útero. É aqui, no confinamento da trompa de Falópio, que geralmente o esperma se encontra com o óvulo, e a fecundação acontece. O zigoto, então, é empurrado através da trompa de Falópio até o interior do corpo uterino para a implantação.

Um motivo comum de infertilidade feminina são as infecções sexualmente transmitidas. Elas causam dano às trompas de Falópio e ao colo do útero. As primeiras não conseguem capturar o óvulo, ou não deixam o óvulo e o esperma se encontrarem, ou não deixam o zigoto passar através do corpo uterino. O último se torna estreito e produz muco irregular, impedindo que o esperma suba ao útero.

Se um espermatozóide é capaz de fecundar um óvulo na trompa de Falópio, e o zigoto resultante é capaz de se mover até o corpo uterino, então se torna necessário abastecer de nutrientes a nova vida humana em desenvolvimento tão logo ela se implante no endométrio, a parede uterina interna. Isto só ocorre se houver quantidade suficiente de estrogênio e progesterona, além de seus respectivos receptores, na parede do útero. Esses hormônios ordenam que a parede se desenvolva para poder cuidar do embrião. Na realidade, se não acontecer a gravidez, os níveis desses hormônios sexuais caem de modo significativo, provocando a descamação da parede do útero num processo que se chama menstruação.

A incapacidade do ovário produzir, nesta etapa, quantidades suficientes de estrogênio e progesterona; e defeitos no útero que interfiram com a implantação ou com a continuidade da gestação, são as razões mais comuns de infertilidade feminina.

Veja: tudo tem que estar certinho para que o ovário feminino libere um óvulo, empurre-o na direção da trompa de Falópio, ajude o esperma a nadar até ele desde o colo do útero, e daí forneça um refúgio para o embrião se desenvolver em uma nova vida humana.

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Três perguntas para o Sr. Darwin:

  1. Como é que o ovário aprendeu a desenvolver e liberar um óvulo para obter uma nova vida humana?

  2. O que é que ensinou às trompas de Falópio como capturar um óvulo, e ao colo do útero a ajudar o esperma?

  3. Se os dois hormônios sexuais, e os seus receptores, são necessários para o desenvolvimento da parede uterina, como é que isto pode ter surgido gradualmente, um passo de cada vez, sem impedir novas vidas a cada passo do caminho?


(*) Howard Glicksman é um médico canadense com 40 anos de experiência clínica. Traduzido por André Carezia a partir de artigos originais publicados no website do autor:
http://arn.org/docs/glicksman/oba.html

Focolares e a Idolatria da “Unidade” sem Dogmas

Autora: Hilary White [1]
Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

Em fevereiro deste ano, a servir de prosseguimento ao ‘Sínodo dos Jovens’, foi organizada em Florença, por um dos ‘novos movimentos’ da Igreja, uma conferência dos bispos católicos do país.

O tema da conferência foi “Uma nova etapa de evangelização e sinodalidade: renovação eclesial à luz da Evangelii Gaudium.” Tendo por anfitrião o bispo de Fiesole e presidente da Conferência dos Bispos da Itália (CEI) Mario Meini, o encontro incluiu alguns palestrantes do alto escalão da cúria romana.

Algumas breves citações darão uma idéia do sentido geral das conversações.

O cardeal Giuseppe Petrocchi, arcebispo de L’Aquila e presidente do conselho científico do Centro Evangelii Gaudium, no Instituto Universitário Sophia, falou o seguinte no encontro: “O período conturbado de mudanças que experimentamos requer que demos vida a uma nova etapa. Procedimento evangélico: fiel, criativo e alegre, e deve atrever-se a todas as experiências da Igreja como um sínodo, e assim é que podemos caminhar juntos.” Reunidos na “cidadela dos focolares”, em Loppiano[2], os quarenta bispos presentes ouviram Piero Coda, membro da Comissão Teológica Internacional e reitor do Instituto Universitário Sophia, identificar a “sinodalidade” como o fio condutor do programa pontifício de Francisco, a direção à qual a Igreja avança.

Em sua palestra, intitulada “A Sinodalidade do Exercício da Igreja,” o monsenhor Coda afirmou que a meta não é a salvação mas “uma democracia verdadeiramente participativa e popular.”

“‘Sínodo’ é o termo usado para a Igreja antiga, mas o adjetivo ‘sinodal’ é um amadurecimento da consciência eclesial…” Propõe, diz ele, cinco “caminhos a seguir”: “pastores, artistas e artesãos da sinodalidade; estruturação de cursos de treinamento em comum para jovens leigos(as), jovens religiosos(as) e seminaristas; educação para aquilo que o papa Francisco descreve como uma ‘cultura do encontro’ e uma ‘coragem da alteridade’; inauguração de ‘uma nova época na construção coletiva de uma democracia popular e verdadeiramente participativa.’”

Isto, disse ele, exige que “todas as nossas igrejas particulares na Itália” sigam um caminho comum. “Como se programa a Igreja na Itália? Estamos agora no limiar de uma década pastoral. Qual é o momento ideal?”

(Imagine ficar escutando um fim-de-semana inteiro disto.)

O “misticismo do nós” – Focolares e a nova religião bergogliana

Deixando de lado o palavrório eclesiástico da moda, a conferência foi notável por uma coisa: esses prelados de alto escalão têm em comum mais do que a nacionalidade italiana. Cada um deles é um adepto do movimento dos focolares, e todos estão completamente dedicados ao uso de seus cargos para espalhar as doutrinas deste movimento – que, não por coincidência, combinam perfeitamente com as do papa Francisco – pelas estruturas da Igreja tanto quanto seja possível, “através do engajamento em comum nas diversas realidades eclesiais: paróquias, dioceses e organizações diocesanas.” Em outras palavras, por meio da infiltração.

No ano passado, no encontro geral dos focolarinos em Loppiano, intitulado “Caminhos da sinodalidade em andamento,” os participantes receberam do papa alguns dos seus mais incompreensíveis elogios.

Num “diálogo” publicado pelos focolares, o papa lhes disse:

“O carisma da unidade é um estímulo providencial e um auxílio poderoso para viver este misticismo evangélico do nós, isto é, caminhar juntos na história dos homens e mulheres do nosso tempo… É esta espiritualidade do nós, que vocês devem levar adiante, que nos salva de todo egoísmo e de cada interesse egoísta. A espiritualidade do nós.”

Como veremos, e por mais absurdo que pareça, isto não foi, infelizmente, completa algaravia. A identificação que o papa fez do “carisma da unidade” como o centro da doutrina dos focolares é precisa, e os resultados – uma “espiritualidade” e um “misticismo do nós” – são o objetivo último; é a implementação final da “Igreja do nós” em lugar da Igreja de Cristo que havia antes.

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“Carisma da unidade”: apenas o velho indiferentismo religioso

Todo este jargão estranho, que na maior parte não faz sentido para os católicos comuns, é na verdade uma recitação dos princípios que norteiam os focolares. Em bom português, estes pronunciamentos querem dizer que o atual pontificado lhes deu a oportunidade de usar o conceito de “sinodalidade” – isto é, a delegação ao nível local da autoridade papal em matéria doutrinal – como um canal para introduzir a ideologia focolarina em todos os aspectos da vida católica.

O “carisma da unidade” significa não apenas “unidade” entre os católicos, mas com os protestantes, ortodoxos, budistas, hindus, muçulmanos e todas as outras religiões e os secularistas descrentes, em uma grande… como direi… “fraternidade universal da humanidade.”

É essencial compreender que, no movimento dos focolares, este “carisma da unidade” não significa unidade na verdade de Cristo do modo explicado e defendido pelas doutrinas da Igreja Católica. Longe disto: a verdade de Cristo – em particular o dogma católico “extra ecclesiam nulla salus” – é para eles algo que divide demais. A doutrina central dos focolares é apenas a “unidade” em si mesma.

Em 1997, a fundadora do movimento, Chiara Lubich, “pregou” a um grupo de monges budistas na Tailândia, afirmando que qualquer um dedicado ao “carisma da unidade” pode ser um focolarino: “Temos 30 mil que não são cristãos.”

Um “carisma do Espírito Santo” que rejeita uma doutrina católica fundamental

Parece claro que o “carisma da unidade” dos focolares é meramente um termo cortês para o “indiferentismo”: a idéia, condenada explicitamente pelos papas, de que uma religião é tão boa quanto qualquer outra desde que estejamos todos juntos como descrentes.

O próprio movimento dos focolares alega que o seu objetivo não é arrancar as pessoas das suas crenças particulares, ou das suas não-crenças, como às vezes é o caso.

Do seu site web:

“A mensagem [que o movimento] quer trazer ao mundo é a da unidade. O objetivo, portanto, é cooperar para a construção de um mundo mais unido, guiado pela oração que Jesus faz ao Pai “para que todos sejam um” (Jo 17,21), em respeito e em apreço à diversidade. E, para atingir esta meta, o diálogo é favorecido, no compromisso constante de construir pontes e relações de fraternidade entre os indivíduos, povos e esferas culturais.

“O movimento enxerga cristãos de várias igrejas e comunidades cristãs, fiéis de outras grandes religiões mundiais e pessoas sem qualquer convicção religiosa. Cada um adere a ele através da colaboração com o objetivo e o espírito do movimento, na fidelidade aos preceitos da sua própria igreja, da sua fé e da sua consciência.”

A página descreve Chiara Lubich como “uma figura excepcional e carismática do nosso tempo, muito conhecida por seu esforço incansável para aumentar a comunhão, a fraternidade e a paz entre pessoas de diferentes igrejas, entre seguidores de diversas religiões mundiais e entre pessoas que não têm crenças religiosas.” A combinação perfeita entre o “bergoglianismo” e os focolares parece nascer da mútua rejeição (na prática) da transcendência, do primado (e, mais importante, da exclusividade) da Verdade, e finalmente do autor encarnado da Verdade.

Para os focolares e Bergoglio, o que importa realmente é o poder

Também é importante compreender o quão poderoso é o movimento no episcopado italiano, e portanto no Vaticano. Em 2012, Sandro Magister escreveu que os focolarinos são “onipresentes” na cúria romana e no episcopado italiano, confirmando que “centenas” de bispos são membros.

Muitos nomes que Magister lista se tornaram famosos no pontificado atual; e nenhum deles por fazer o bem: os cardeais Turkson, Becciu e Antonelli, e o arcebispo Celestino Migliore, ex-representante da Santa Sé na ONU. Entre eles está também o cardeal João Braz de Aviz, prefeito da Congregação para os Religiosos, cujo objetivo de criação de uma nova espécie de vida religiosa parece perfeitamente coerente com os objetivos do movimento ao qual pertence, e a quem retornaremos mais adiante.

Obviamente, a obra dos focolares não está confinada à Itália, nem tampouco à Igreja Católica. Recentemente o movimento publicou um relatório da reunião de 40 bispos “de diversas igrejas” na Suécia em 2018 – a 37a. que o grupo realizou por lá. O tema: “A Igreja no mundo de hoje.”

O encontro “ecumênico” na Suécia foi moderado pelo cardeal Francis Kriengsak Kovithavanij, arcebispo de Bangkok, e enfocou “A sinodalidade na vida e na missão da Igreja”:

“O sínodo é considerado um instrumento eclesiástico fundamental para caminharmos juntos sob a orientação do Cristo Ressuscitado. Daí que ‘uma Igreja sinodal seja uma Igreja participativa e co-responsável,’ uma noção que se relaciona aos conceitos de comunhão e colegialidade que estão no coração da doutrina eclesiológica do Vaticano II.”

A mesma toada é repetida pelos focolarinos eclesiásticos ao redor do mundo.

O movimento de Lubich, além do mais, fornece uma hierarquia alternativa de liderança que é usada para exercer o poder sobre os indivíduos do próprio movimento. Ex-membros já trouxeram a público as técnicas de isolamento social e manipulação psicológica, como as usadas em cultos, feitas para fazer desmoronar a personalidade e criar uma dependência emocional e psicológica do movimento e de seus líderes.

Eles afirmam que os membros não têm liberdade para criticar o movimento ou as suas lideranças, que a espiritualidade e a batalha pela santidade e os vínculos emocionais, com ameaças subseqüentes de retração do amor, são usados como métodos de controle e manipulação.

O autor diz algo que é típico de cultos: “Aqueles que se afastam do movimento freqüentemente ficam sozinhos. Quem quer que saia quase sempre perde todas as amizades que tinha lá dentro,” e aqueles que saem são “geralmente considerados sacrílegos.”

“As pessoas que alimentam fantasias de poder facilmente acham nesses movimentos as bases ideológicas que podem ser usadas para este propósito.”

Ao relatar, no ano passado, a provável e iminente beatificação de Lubich, Sandro Magister observou friamente que o prefeito da Congregação para as Causas dos Santos é um focolarino bastante conhecido, “de longa data,” na Cúria Romana: o cardeal Giovanni Angelo Becciu. Deve ser certamente muito mais fácil pedir, e até mesmo obter, a total aprovação das autoridades da Igreja quando o seu movimento já as cooptou completamente.

A cruzada de Chiara Lubich pela “unidade” ecumênica: uma “Nova Humanidade para um Mundo Unido”

Ficará a cargo dos futuros historiadores do catolicismo decidir exatamente como é que a Igreja Católica resolveu se dedicar à doutrina do “ecumenismo,” mas esta história certamente terá de levar em conta a enorme influência do movimento dos focolares, para quem a “unidade,” acima da verdade, é a doutrina central. Grande parte da culpa recai sobre as costas do papa João Paulo II, cujas notórias inclinações para o indiferentismo ficaram expostas nos encontros “ecumênicos” e “inter-religiosos” de Assis. O seu apoio à organização era inabalável, e o sentimento era mútuo. Testemunhas da época relataram que foram grupos organizados e bem-preparados de focolarinos que iniciaram os famosos coros de “santo subito” no funeral do papa.

Chiara (nascida Silvia) Lubich, que morreu em 2008 e teve um funeral católico na Basílica São Paulo Extramuros, em Roma, foi uma professora que viveu em Trento durante a segunda guerra mundial. A história oficial da fundação dos focolares (“lareira”, “lar”, em italiano) é contada em palavras simples pela diocese de Mântua, onde existem 150 membros ativos do movimento:

“O movimento nasceu em Trento, com Chiara Lubich, em 1943, sob o bombardeio da Segunda Guerra Mundial. Conforme palavras que a própria fundadora sempre repete, numa época em que tudo fracassava devido à guerra, ela sentiu que todas as coisas materiais podiam entrar em colapso, mas não Deus, compreendido como amor. Nos abrigos, Chiara trazia o Evangelho consigo, e à luz de velas lia com um pequeno grupo de amigos. Ao deixar o abrigo, eles tentavam colocar em prática as palavras de Jesus, e logo o seu exemplo foi seguido por pessoas de todas as idades e de todas as classes.”

O movimento, chamado oficialmente de Obra de Maria e cujos estatutos foram aprovados por João Paulo II em 1990 na forma de uma associação internacional de direito pontifício, tem seguidores na casa dos milhões e delegações em 182 países.

Os comentários de Chiara Lubich sobre as Escrituras já foram traduzidos em mais de 80 línguas, e o movimento se gaba de possuir 27 editoras para disseminar as suas obras. Ele conta com adeptos casados e solteiros que fizeram votos – bem como sacerdotes e bispos – e colaboradores leigos que não fizeram votos.

Da matriz dos focolares surgiram alguns sub-movimentos com foco na família e na economia, incluindo o “Movimento para uma Nova Sociedade” e o “Escritório Internacional de Economia e Trabalho”. A partir dos anos 50, os focolares começaram a se envolver no movimento internacionalista (ou globalista), promovendo um conceito de Estado global unificado. A ONG “Nova Humanidade para um Mundo Unido”, derivada dos focolares, tem um cargo consultivo na ONU e ganhou o Prêmio da Paz de Luxemburgo em 2015.

Um dos braços [dos focolares] é uma organização chamada “Jovens por um Mundo Unido”, que realiza um evento anual chamado “Semana da Unidade Mundial”. O site web do grupo diz: “O objetivo da associação é contribuir para a criação de unidade na família humana, respeitando integralmente as identidades individuais de todos os seus membros. Por este motivo ela propaga a idéia de um mundo unido em todas as esferas da sociedade e em todos os níveis.”

Eis onde a coisa fica assustadora

Sobre o movimento, Lubich afirmava que “não tinha sido pensado por uma mente humana, mas que era fruto de um carisma que vinha do Alto.” Alegava – e pelo menos dois papas concordaram – que eram guiados pelo Espírito Santo para uma “nova corrente” de espiritualidade: a da “unidade”.

Afirmando ter a sua própria teologia e interpretações especialmente inspiradas, o movimento se baseia em três textos bíblicos: a oração de Jesus “ut unum sint”, mal-traduzida como “para que sejam perfeitos na unidade” (Jo 17,23); “Porque onde dois ou três estão reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles.” (Mt 18,20); e “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mt 27,46).

Lubich relata a história dos primórdios do movimento, em que ela e os seus seguidores não consultavam ninguém além de si mesmos:

“Estávamos lendo o Evangelho num abrigo iluminado por uma vela. Sentimo-nos particularmente atraídos pela oração de Jesus ‘ut unum sint’. Ficamos mesmo surpreendidos, já que estas palavras não mais pareciam difíceis de compreender; ao contrário, tivemos a impressão de compreendê-las um pouco melhor. Tínhamos a certeza: era a carta, a Magna Carta da nossa nova vida.”

Seus seguidores, ela dizia, “colocavam as vidas a serviço da unidade mundial,” e “a unidade é o que resulta da busca em comum pela mesma verdade luminosa.” Qual verdade, exatamente, ela não especifica nunca.

Em 1950, Lubich revelou a essência do movimento: ela mesma.

“Cada alma dos focolares tem de ser uma expressão da minha, e nada mais. A minha Palavra contém todas aquelas dos focolarinos e focolarinas. Eu resumo todos eles. Daí que, quando eu apareço, eles tenham de se deixar ser gerados por mim, comungar comigo. Também eu, como Jesus, devo lhes dizer: ‘Quem come a minha carne…’”

Em 1977, ao receber o Prêmio Templeton para o Progresso da Religião – um prêmio secular – Lubich se atribuiu a extraordinária façanha de ter realizado os desejos de Cristo. Ela afirmou: “Todos os que estavam presentes e que aderiam a religiões diferentes me pareciam unidos.”

“Eu me perguntei: ‘Como é que isto pode ter acontecido?’ Será que o motivo era que praticamente todos acreditavam em Deus, e que, naquele momento, Ele nos acolhia a todos?

“Quando eu saí, os primeiros a se aproximarem foram alguns membros de outras religiões: um monge tibetano me contou que escreveria imediatamente ao Dalai Lama para que me contatasse. Quatro judeus expressaram a sua alegria ao me dizerem que, basicamente, o Antigo Testamento é o tronco da árvore no qual o cristianismo foi enxertado. Evidentemente, eles queriam dizer que o desenvolvimento do nosso movimento veio dessa mesma árvore. Depois vieram os hindus, os sikhs, e outros.”

Cornelia Ferreira e John Vennari, no livro World Youth Day: From Catholicism to Counterchurch[3], observam em particular que foram Lubich e os focolares que criaram o conceito moderno de paróquia como unidade igualitária e democrática, governada por meio da “co-responsabilidade.” “Essa comunidade paroquial igualitária desenvolve a ‘fraternidade’ e o ‘corpo único’ (no qual são bem-vindos os não-católicos).”

“Na elite dos focolares, o anti-clericalismo e o desprezo pelos padres com ‘mentalidade sacerdotal’ (i.e. falta de submissão ao igualitarismo dos focolares) são ostensivos. A obediência pública à hierarquia e o ‘bombardeio de amor’[4] que lhe é dirigido, em especial ao papa, são apenas relações públicas. Arregimentar membros do episcopado ou protetores faz silenciar os críticos e contribui para a expansão. Mas em 1966, em Roma, na inauguração de uma escola para a formação de padres na espiritualidade da unidade dos focolares, Chiara propôs com ousadia o desmanche da autoridade sacerdotal:

‘Se os padres puderem aprender a deixar de lado tudo, inclusive o seu próprio sacerdócio, para assegurar a presença de Jesus em seu meio [cada pessoa da comunidade, e a comunidade como um todo, se tornando então um alter Christus], … daí Jesus vai enfim transformá-los em ‘novos’ padres com uma ‘nova’ abordagem pastoral, e haverá ‘novos’ seminários. … E se também eles se unirem [como iguais] ao setor laico do movimento, disto surgirá o que eu chamaria de ‘Igreja-Cidade’ ou ‘Igreja-Sociedade’ … Podemos oferecer ao mundo ‘novos padres’ que são ‘novos’ porque vivem o Novo Mandamento [da igualdade]…’”

Cornelia Ferreira e John Vennari prosseguem:

“Quase que a partir da sua fundação, quando o ecumenismo era proibido para os católicos, os focolares eram não-denominacionais… os focolares, assim, operavam como uma contra-igreja indiferentista muito antes do Concílio…

“Os focolarinos (membros dos focolares) buscam Jesus apenas na unidade uns com os outros, e afirmam ‘poder gerar a presença de Cristo’ em seu próprio meio. Assim como o Unitário-Universalismo, eles transformam ‘Deus é amor’ em ‘amor é Deus,’ onde ‘amor’ denota uma unidade derivada de igualdade e unanimidade completas.”

Sandro Magister escreveu em 1997 que os focolares eram o maior dos “novos movimentos”. Ele cita Gordon Urquhart, um informante inglês cujo livro de 1999, The Pope’s Armadas: Unlocking the secrets of mysterious and powerful new sects in the Church[5], fala de uma “gnose” dos focolares, com seus “mistérios reservados aos iniciados.”

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Urquhart ficou sabendo, durante o tempo em que era focolarino, que Lubich afirmava ter tido uma visão na qual Deus lhe revelava o futuro do movimento. Magister escreve: “Tudo gira em torno da experiência da fundadora, cuja autobiografia é considerada escrita por mão celestial e não pode, portanto, ser contrariada.”

Urquhart descreve as características em comum que existem nas seitas da Igreja, incluindo os Focolares, o Caminho Neocatecumenal e Comunhão e Libertação: “um sistema interno super eficiente de comunicações; ensinamentos secretos revelados por etapas; uma vasta operação de recrutamento usando técnicas sectárias; ambições ilimitadas de influenciar a igreja e a sociedade.” Além disto, essas seitas, diz ele, têm efeitos similares em seus adeptos: “a destruição do ego, causando depressão e colapso nervoso numa escala alarmante.”

Focolares: maçonaria com matiz católico

O livro World Youth Day: From Catholicism to Counterchurch equipara, sem rodeios, as metas dos focolares aos objetivos da maçonaria. Mesmo que o movimento não queira admitir, os objetivos dos focolares – fraternidade universal da humanidade, “unidade” como meta acima de todas as outras, inclusive acima da adesão à Verdade divina – são idênticos aos dos maçons. As doutrinas de Chiara Lubich são meros retoques, com ar católico, do humanismo “liberdade, igualdade, fraternidade” da maçonaria, tudo compreendido sem relação com Deus ou com os Seus preceitos.

Os maçons também afirmam não exigir que os membros abandonem as suas crenças religiosas. O site web da Associação Maçônica Norte Americana (MSANA) descreve as relações com os membros das várias crenças religiosas em termos muito similares aos de Lubich.

A maçonaria, diz o site, está aberta a homens de qualquer fé, e “exige de seus membros uma crença em Deus como parte da obrigação de todo adulto responsável, mas não defende nenhuma fé ou prática em particular. As cerimônias maçônicas incluem orações, tanto tradicionais quanto espontâneas, que reafirmam a dependência de cada indivíduo em relação a Deus e que servem para buscar orientação divina…”

“Os maçons acreditam que há um só Deus e que as pessoas empregam diversos modos diferentes para buscar Deus e para expressar o que conhecem dEle… Assim, pessoas de diferentes crenças podem se unir em oração, concentrando-se em Deus e não nas diferenças entre si. A maçonaria acredita em liberdade religiosa, e acredita que a relação entre o indivíduo e Deus é pessoal, íntima e sagrada.”

Tanto faz que as idéias de Chiara Lubich tenham surgido totalmente dela mesma, como ela alega, ou que tenham sofrido influência dos princípios maçônicos que o pai e o irmão absorveram em seu envolvimento com o comunismo e com o socialismo; o resultado final parece tornar esta questão irrelevante. De qualquer jeito, podemos apostar tranqüilamente que não vieram de Deus.

Os focolares, o ecumenismo e a nova vida religiosa

O estranho messianismo de Chiara Lubich parece ser contagioso, com os adeptos quase sempre falando em recriar a humanidade – ou a democracia, ou a Igreja, ou o que estiver na agenda – conforme uma nova imagem. Considerando o que vimos anteriormente, começamos a compreender melhor quando clérigos como o cardeal João Braz de Aviz se pronunciam de modos que prima facie parecem opostos aos ensinamentos católicos e à práxis imemorial. Como já vimos no episódio anterior[6], o prefeito da Congregação para os Religiosos é um adepto fervoroso da missão dos focolares: derrubar as barreiras entre as religiões e recriar a vida consagrada de acordo com um novo padrão; essencialmente, de acordo com a “unidade acima da verdade”, o dogma central dos focolares. As suas palestras em encontros “inter-religiosos” já eram uma característica conhecida do seu ministério antes que ele fosse trazido a Roma pelo papa Bento XVI, e nunca houve nenhum sinal de censura a elas. O cardeal brasileiro parece nem pestanejar ao partilhar o palco com “espíritas”, maçons do Grande Oriente e praticantes de vodu, fora a enfiada mais convencional de budistas, judeus e muçulmanos.

Não faltam evidências da ideologia focolarina nas tarefas curiais que o cardeal brasileiro exerce no Vaticano. Conhecido pela proximidade com a comunidade de Bose, no Piemonte, que é mista, “monástica e ecumênica”, e com o seu ícone e fundador Enzo Bianchi, Braz de Aviz sugeriu em 2015 a criação de uma nova forma de vida consagrada que incluiria tanto homens quanto mulheres “numa atmosfera familiar.” Para realizar isto, disse ele, é preciso abandonar as idéias “antiquadas”: “No passado nós tínhamos dificuldades quando se tratava de viver juntos, porque se dizia que é preciso ter cuidado, que a mulher está em perigo, que o homem está em perigo…”

Ele acrescentou, recordando que o voto de castidade ainda é importante na vida consagrada, que essas comunidades “mistas” não devem alojar homens e mulheres “na mesma casa.”

Outros conceitos “antiquados” a serem descartados são as idéias de obediência religiosa, de autoridade e de recursos financeiros. Todos estes conceitos são abordados nos documentos Vultum dei Quaerere e Cor orans, os quais removem a maior parte da autoridade dos superiores escolhidos pela comunidade, exigindo que todas as comunidades monásticas se filiem a “federações” que terão um governo centralizado – respondendo apenas à Congregação para os Religiosos – e terão o controle último sobre os bens materiais de cada comunidade individual.

Numa entrevista ao jornal paraguaio Hora, em julho deste ano, ao tratar dos “desafios” encarados pela vida consagrada em nossos dias, o cardeal disse: “Estamos trabalhando firme na transformação do treinamento. Temos de pensar na formação desde o ventre até o último suspiro.”

E não interessa que você goste da sua vida religiosa do jeito que está; eles sabem mais do que você. Tudo o que é antigo tem de sumir:

“Muitas coisas da tradição, muitas delas da cultura passada, não servem mais.

“Por exemplo, temos modos de vida ligados aos nossos fundadores e que não são essenciais: um jeito de rezar, um jeito de se vestir, de dar mais importância a certas coisas pouco importantes, e a outras importantes se dedicar só um pouco. Essa visão mais globalizada de tudo… não tínhamos isso, e agora temos.

“Que a minha cultura seja mais importante do que a cultura do outro… isto não é mais verdade porque as culturas são todas iguais, mas têm de buscar os valores do Evangelho.”

A influência dos focolares nesse dicastério explica o favoritismo categórico do cardeal pelas ordens religiosas do tipo LCWR[7], comunidades que não usam hábitos, seguem o Novo Paradigma e adotaram há muito tempo a ideologia “verdade, não.” Em 2015, os defensores da LCWR rejubilaram quando a “visita” que a Congregação realizou por 6 anos terminou “em uma lamúria,” nas palavras do jesuíta Thomas Reese, em vez de acabar num estrondo. Braz de Aviz criticou o seu antecessor, cardeal Franc Rode, por ter entrado no processo “unilateralmente” e sem consultar ninguém.

Rode tinha especulado educadamente que talvez a LCWR houvesse adotado “uma certa mentalidade secular” e até mesmo, “talvez, um certo espírito ‘feminista’.” Os comentários provocaram um furor histérico na imprensa católica esquerdista. Mas Rode se aposentou e Braz de Aviz transformou a “inquisição” à LCWR – notória e escandalosamente heterodoxa – em um “diálogo afirmativo.”

Ele e o seu número dois, José Rodrigues Carballo, se orgulham de fazer ameaças não muito veladas às comunidades que desejam manter as tradições de fé e de vida religiosa anteriores ao Vaticano II. Em 2015, num encontro de formação de diretores religiosos, ele afirmou novamente que era o caminho do Vaticano II ou o caminho da rua: “Na verdade, os que se distanciam do Concílio para seguir outro percurso estão se matando – mais cedo ou mais tarde, morrerão. Não terão bom senso. Estarão fora da Igreja. Precisamos construir usando o Evangelho e o Concílio como pontos de partida.”

“Deus não é estático. Deus é sempre um movimento novo – de luz, de calor, de demonstração. Ele fala em cada época aos homens e mulheres com a verdadeira linguagem da época,” disse o cardeal.

Focolares ou Cristo: uma escolha que é uma necessidade lógica

O catolicismo e os focolares são logicamente incompatíveis. Portanto, um homem que alega ser um bispo “focolarino” já escolheu o lado. Depois que compreendemos esta necessidade lógica, um homem como o cardeal João Braz de Aviz começa a fazer muito mais sentido. “Que a minha cultura seja mais importante do que a cultura do outro… isto não é mais verdade porque as culturas são todas iguais” é uma recitação do “carisma da unidade”, o indiferentismo focolarino, aplicado a toda cultura humana. Este é, em essência, o mundo que eles querem criar, e que estão construindo mediante o uso das instituições da Igreja.

Ao compreendermos isto, torna-se evidente a urgência em recriar a vida consagrada de acordo com a visão dos focolares. Uma doutrina que nega o primado da verdade e alega que todas as idéias têm igual valor precisa, por força de sua própria lógica, sempre rejeitar qualquer comunidade de religiosos que afirma seguir Cristo e a fé católica e nada mais.


Notas:

[1] N.T.: Artigo original publicado na edição de 15/setembro/2019 da revista católica The Remnant.

[2] Loppiano é uma cidade fundada em 1964. Foi construída pelos focolares em um território doado ao movimento. Atualmente possui uma população de mais ou menos 900 almas. Há outras 32 cidades focolares espalhadas pelo mundo.

[3] N.T.: “Dia Mundial da Juventude: do Catolicismo à Contra-igreja”. Livro publicado pela Canisius em 2005, sem tradução em português.

[4] Técnica de lavagem cerebral empregada comumente por cultos; é feita para dobrar a resistência de uma pessoa aos objetivos de um grupo e criar vínculos emocionais e psicológicos.

[5] N.T.: “As Armadas do Papa: Desvendando os Segredos das Misteriosas e Poderosas Novas Seitas na Igreja”. Livro sem tradução em português.

[6] N.T.: a autora se refere ao artigo “Something wicked this way comes: what the contemplative life might look like under the New Bergoglian Paradigm” [“Algo perverso vem aí: como pode ficar a vida contemplativa sob o novo paradigma bergogliano”], também de sua autoria, publicado no The Remnant, edição de 26 de agosto de 2019.

[7] N.T.: sigla em inglês para a Conferência de Lideranças das Ordens Femininas, uma associação com 1300 membros fundada em 1956 nos EUA.

Plantas Brutais

Autor: Anthony Daniels [*]
Tradução: André Carezia

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Aos dez anos de idade, mais ou menos, eu tinha o costume de desenhar cidades. Era muito fácil, e eu ficava espantado com a confusão que todos tinham feito antes de mim. A única conclusão que eu pude tirar foi que, até então, o mundo era povoado de idiotas. Bem no meio da cidade ficava o prédio do parlamento, que era como a basílica de São Pedro, só que em escala maior e mais grandiosa. Dava-lhe a volta uma rua circular de oito faixas, da qual irradiavam, simetricamente, seis largas avenidas. O que os deputados deviam fazer para chegar ao parlamento – driblar o tráfego, suponho – não era questão que me dizia respeito. Eu estava projetando cidades e edifícios, e não conveniência para seres humanos. Ao longo das avenidas se localizavam as instituições que, então, eu considerava essenciais para as cidades: o museu de história natural, a galeria de arte, o palácio real. Tudo era em grande escala, e não era nem planejada nem permitida nenhuma bagunça do tipo criado por comércios e outros estabelecimentos não-essenciais.

Enquanto eu desenhava as minhas cidades, Brasília estava sendo construída, embora com um vocabulário arquitetônico diferente: em vez de fachadas neoclássicas de mármore, concreto armado. Em termos de design e planejamento urbanístico, entretanto, não estava muito à frente das minhas; porém, ao contrário dos meus projetos, foi posto em prática.

A primeira coisa a dizer sobre Brasília é que se trata de uma assombrosa conquista, uma façanha; e isto independe de você achar que é ruim, boa, ou alguma coisa intermediária. No local onde, até pouco mais de meio século atrás, nada existia além de um planalto remoto, quente e cheio de arbustos, agora se encontra uma cidade funcional de mais de três milhões de pessoas. É o suficiente para suscitar admiração.

Talvez ainda mais surpreendente seja o fato de Brasília ficar pronta e funcional em menos de quatro anos após o lançamento da primeira fundação. O sonho de transferir a capital do litoral para o interior era quase tão antigo quanto o próprio Brasil; na verdade, tal transferência já era um requisito constitucional de longa data, ainda que fosse letra-morta. A idéia era tanto econômica quanto estratégica: a mudança desenvolveria o interior, ao mesmo tempo que protegeria o país contra a ocupação estrangeira.

Quem finalmente ordenou a construção de Brasília foi o presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, um ex-urologista formado em Paris. De acordo com a história, antes das eleições um homem perguntou ao Kubitschek se ele cumpriria, caso eleito, o requisito constitucional de transferir a capital, e ele afirmou que sim. Não sei se por motivos de probidade nada universal entre políticos, ou se por motivos mais pragmáticos, Kubitschek manteve a palavra, mas impôs a condição de que a nova capital fosse completada em seu mandato presidencial. Assim como muitos, talvez a maioria, ou mesmo todos os projetos grandiosos, o custo econômico não foi levado em conta: Kubitschek foi, com efeito, um “Pedro, o Grande” brasileiro, mas sem a crueldade e a indiferença para com a vida humana. Infelizmente, sem o bom-gosto também.

Esta diferença, sem dúvida, teve mais a ver com o Zeitgeist artístico do que com as qualidades individuais dos dois homens. Kubitschek tem um mausoléu em Brasília. O seu corpo está preservado em um sarcófago de pedra, dentro de uma rotunda pouco iluminada, completa, com um museu de memorabilia que inclui o seu traje vespertino de gravata branca e decorações estrangeiras. A coisa toda é estranhamente soviética para um país que parece tão insovietizável como o Brasil; tem cara de um híbrido do túmulo de Lenin com o museu das “provas de amor” de Bucareste, dedicado aos presentes que Nicolae e Elena Ceausescu receberam de vários lugares do mundo, tais como os cálices e tigelas feitos de casca de coco e entalhados pelos seus fervorosos admiradores em Samoa.

No mausoléu há uma fotografia de Belo Horizonte, onde Kubitschek foi prefeito em 1940. Era evidentemente um local muito prazeroso em termos arquitetônicos, uma cidade européia com bulevares cercados de árvores, ao longo dos quais seria agradável passar o dia de café em café. Tudo tinha uma escala humana, mas, em certo sentido, era indigno de nota, porque nenhum arquiteto tinha pensado em construir com o objetivo de tornar Belo Horizonte completamente diferente das outras cidades. Não havia nada no quadro que dissesse: “Aqui é Belo Horizonte, e mais lugar nenhum.”

Menos de vinte anos depois, a mudança de bom-gosto manifesta na construção de Brasília é surpreendente; representa uma revolução mais profunda do que muitas revoluções políticas. Foi, é claro, uma revolução de cima, não de baixo; e aliás, em grande parte, insincera. Sobrevoando Brasília de helicóptero, eu não pude deixar de notar que, nos subúrbios mais abastados da cidade, os ricos se apressaram em construir residências neo-coloniais (algumas de gosto duvidoso), e quase nenhuma no estilo ultra-modernista. Pode-se discutir os papéis que a economia e a necessidade social desempenharam na revolução, mas a alteração no bom-gosto foi certamente de acordo com as doutrinas arquitetônicas dos mandarins em voga na época.

As três maiores personalidades na construção de Brasília foram o urbanista Lúcio Costa, o arquiteto Oscar Niemeyer, e o paisagista Burle Marx. Este último, que conhecia a flora de todas as regiões do Brasil, e criou os jardins planejados no interior e no exterior de vários prédios importantes da cidade, fez uma obra de grande beleza e elegância. Infelizmente, o seu talento e o seu bom-gosto acabaram quase sempre desperdiçados pelo brutalismo dos outros dois.

Costa e Niemeyer eram ambos admiradores e seguidores de Le Corbusier e dos comunistas – daí a estética desumana. Niemeyer, ainda vivo aos 103 anos [**], é, sem dúvida, um homem desinteressado financeiramente (embora ninguém nunca tenha sugerido que Lenin, Stalin, ou mesmo Hitler, estivessem nisso pelo dinheiro – eram monstros desinteressados); porém, é preciso certamente uma dose considerável de estupidez, uma deficiência na imaginação moral, ou um egoísmo mais pronunciado do que o mais voraz banqueiro de Wall Street para se proclamar comunista depois de todo o desastre humano que a doutrina provocou no século passado. Na verdade, há um pronunciamento de Niemeyer que representa não apenas o seu egoísmo, mas sintetiza grande parte do egoísmo doentio de muitos artistas e arquitetos modernos: “Quem quer que vá a Brasília pode gostar ou não dos seus palácios, mas não pode dizer que um dia já viu alguma coisa semelhante.” Isto continuaria sendo verdade, evidentemente, se Brasília tivesse sido construída com manteiga congelada, mas a originalidade de Brasília não é a questão.

A absoluta incompetência de Costa como planejador de cidades, ao menos do ponto de vista de toda a humanidade urbanizada que existiu antes, beira o ridículo. É claro que o julgamento da competência de um homem depende do que se crê que ele esteja tentando fazer. Aprendi esta difícil lição na Tanzânia, onde o presidente Julius Nyerere (atualmente em processo de canonização) tinha reduzido o país, através das suas políticas, a níveis inéditos de mendicância, ao mesmo tempo em que pregava sem cessar a necessidade de desenvolvimento econômico. Daí eu, ingênuo, concluí que ele era incompetente ao extremo, mas as escamas caíram dos meus olhos quando eu assumi que a sua meta era permanecer como líder supremo por vinte e cinco anos sem muita coisa que lhe fizesse oposição. Na verdade, ele era supremo na competência.

O que é que Costa fez, então (vamos esquecer, por ora, as suas intenções)? Ele organizou uma cidade de acordo com os conceitos de Le Corbusier: aqui, embaixadas; ali, hotéis; acolá, locais de lazer – cada quarteirão com uma função, separados por enormes campos abertos, e acessíveis apenas por meios motorizados de transporte. Tampouco foram deixadas áreas de sombra, já que alguns excêntricos poderiam querer caminhar ou andar de bicicleta: era preciso desencorajá-los diante da perspectiva de insolação – a temperatura costuma passar dos 38 graus sob o sol escaldante (o mesmo problema, por sinal, existe na cidade de Chandigarh, na Índia, planejada por Le Corbusier; o que sugere, para empregar uma frase que os marxistas adoram, que não se trata de uma coincidência).

Os poucos bancos de concreto – na Praça dos Três Poderes, por exemplo – deviam ser construídos de modo a provocar, em cinco minutos, dor nas costas ou no traseiro de eventuais mendigos; não se pode evitar a lembrança do comentário profético do Marquês de Custine sobre os espaços públicos de São Petersburgo: uma aglomeração de gente neles seria uma revolução. A possibilidade de uma aglomeração espontânea de pessoas em Brasília é praticamente inexistente, porém; é uma cidade para golpes de Estado, e não para revoluções. Talvez isto seja uma das razões ocultas do seu projeto, do mesmo modo que os bulevares de Haussmann foram projetados para que os soldados pudessem mirar facilmente na turba revolucionária.

O homem, em Brasília, é essencialmente um inseto, uma espécie de formiga, ou ainda uma bactéria nociva. Há um plano em andamento para garantir que, antes da Copa do Mundo de 2014, os carros na área central não estacionem na rua, e sim no subsolo: carros estacionados na rua são um sinal da espontaneidade humana e da tendência para o caos. Le Corbusier chegou a escrever certa vez em tom de exclamação: “O plano, o plano é tudo! O plano precisa ser a lei.” Que é a humanidade, e que dirá um homem, se comparada à espécie de cidade que eu desenhava aos dez anos de idade?

Quanto aos edifícios propriamente ditos, eu devo assinalar, por questão de justiça, que uma meia dúzia são admiráveis; e um deles, o Palácio Itamaraty (o Ministério das Relações Exteriores) é mesmo bonito, por certo um dos melhores edifícios da segunda metade do século XX. De modo quase excepcional, é adaptado ao clima, com o seu imponente andar superior aberto ao ar que nunca esfria. Bem proporcionado, elegante, e feito de um concreto bem trabalhado, sem aparência bruta, como eu jamais vi em outra parte, se assenta em meio a um adorável espelho d’água ajardinado. O salão de recepções, revestido em pedra branca, com uma graciosa escada helicoidal feita da mesma pedra, é de uma elegante frieza – quase anti-séptico, eu diria.

Será que um arquiteto, à maneira de um escritor, deve ser julgado por sua melhor obra? É tão pouco provável, afinal, um arquiteto construir por acaso um belo edifício quanto um escritor produzir por acaso um grande romance. O talento é necessário em ambos os casos. Só que a analogia não é bem exata: se não for por mais nada, um edifício ruim não pode ser descartado com a mesma facilidade de um livro ruim. Uma arquitetura de má qualidade é inevitável; livros de má qualidade, não. Edifícios ruins não ficam escondidos, mofando em prateleiras de bibliotecas: eles desfiguram cidades inteiras. E o fato é que Niemeyer é ruim na maior parte do tempo. Na realidade, bem ruim.

O seu longo desfile militar de prédios retangulares de vidro – os ministérios – ao longo do eixo central da cidade é uma celebração arquitetônica do cruel poder burocrático. Caixotes de vidro são especialmente mal-adaptados a um clima quente, no qual o sol brilha quase o tempo todo, e poucas sensações são mais desagradáveis do que a da luz solar golpeando a pele coberta de roupas após ter atravessado um vidro. A solução de Niemeyer para o problema técnico que ele mesmo criou foram os hediondos brise-soleil do Le Corbusier: lâminas ajustáveis de metal que desviam os raios, e que em pouco tempo dão aos edifícios a aparência de favela. E, de fato, quando se observa através do vidro que há no lado que não precisa dos brise-soleil, esta impressão é reforçada pela desordem singular do que se vê: diversos arranjos com espécies diferentes de cortinas e uma variedade arbitrária de móveis e equipamentos; em resumo, a impressão estética de um projeto de moradia num bairro sinistro de Chicago.

O funcionalismo, como de costume, não funciona; e o repúdio à ornamentação, em parte puritano e em parte ditado por uma ideologia estética, é derrotado pela necessidade humana. Alguns palácios – a Suprema Corte, por exemplo – têm uma aparência elegante quando inundados de luz à noite (estão entre as melhores obras de Niemeyer), mas causam uma impressão completamente diferente à luz do dia. O concreto da estrutura futurista já se deteriorou, conforme o esperado; a caixa de vidro por dentro da varanda aranhosa é uma bagunça precisamente porque abriga pessoas que têm de trabalhar, e elas usam cadeiras, mesas e outros acessórios. A caixa de vidro, obviamente, foi imaginada sem nada disto: a sua perfeição era tão abstrata quanto, digamos, um esquema de coletivização da agricultura.

Na sua pior parte, a arquitetura de Niemeyer é tão ruim que é quase cômica; ou melhor, seria engraçada se não fosse tão permanente, e não tivesse sido declarada patrimônio da humanidade pela UNESCO. O Teatro Nacional, por exemplo, é uma pirâmide truncada, feita de cimento queimado, cuja feiúra não vem deste mundo. Se o inferno precisasse de um arquiteto, Niemeyer teria boas chances. Se me pedissem para adivinhar o que é, a partir do exterior e do interior do edifício, eu acho que arriscaria dizer que se trata de um abrigo anti-nuclear, e não de um teatro. Os corredores recordam, em menor escala, aqueles túneis de guerra que os nazistas construíram na lateral de uma colina quando ocuparam Jersey. A equipe de Costa e Niemeyer conseguiram combinar as conseqüências desagradáveis do gigantismo com as claustrofóbicas de O Poço e o Pêndulo[***]: não é pouca proeza, mas também não é uma que eu queira ver repetida.

Dito tudo isto, a sinceridade me impele a registrar um fato que me colocou num estado desconfortável de dissonância cognitiva. Muitas pessoas me contaram que a população de Brasília, metade da qual já nasceu ali, gosta muito de viver na cidade, e não tenho motivos para duvidar. O primeiro pensamento que me ocorreu foi que isto acontece porque, mesmo com todas as falhas estéticas da cidade, a vida ali é relativamente fácil e conveniente quando comparada a outras cidades brasileiras que estão sempre com o trânsito congestionado e a taxa de crimes em alta. Mas a criminalidade não é exatamente desconhecida em Brasília; na verdade, os blocos de apartamento corbusianos, construídos sobre pilares para que os andares térreos sejam áreas abertas, poderiam ter sido projetados para tornar mais fácil a vida do assaltante e do estuprador. O fato de que os outros brasileiros, ao se mudarem para Brasília, detestem-na vigorosamente, sugere que a mera conveniência corporal de se viver numa cidade moderna (boa parte da qual, aliás, está distante do projeto original, sendo composta de torres de vidro que poderiam estar em qualquer lugar), que é tão boa para eles quanto para os nativos do local, não explica o apreço destes últimos por ela. E isto é um pensamento bastante incômodo, já que transforma os arquitetos naquilo que Stalin, ídolo de Niemeyer, achava que os escritores eram ou deviam ser: engenheiros da alma.


Notas:

[*] O artigo original, em inglês, foi publicado na edição de outubro de 2011 da revista de cultura The New Criterion. Link para o original: https://newcriterion.com/issues/2011/10/brutal-blueprints.

[**] N.T.: Em 2011, data da publicação do artigo original.

[***] Conto de Edgar Allan Poe, publicado originalmente em 1842. Há uma tradução brasileira, publicada pela Companhia das Letras em 2008.

O Roteiro Feminista de Vida e as Mulheres Infelizes

Autora: Joy Pullmann (*)
Tradução: André Carezia

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A nossa cultura é tão saturada de feminismo que até mesmo as pessoas conservadoras e devotamente religiosas como eu não conseguem raciocinar fora dos sulcos que as suas rodas criaram. Isto não seria um problema se o feminismo não fosse, graças à visão falsa da natureza humana, diametralmente oposto ao florescimento humano, tanto individual quanto coletivo.

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Mesmo com as evidências se acumulando de desgosto em desgosto, muitas mulheres continuam se entregando à dissonância cognitiva. Nós todos queremos crer que somos excepcionais, que os padrões do comportamento humano não se aplicam a nós; que coisas ruins aconteceram a outras pessoas que fizeram as mesmas coisas que nós fazemos ou queremos fazer, mas estas coisas ruins não vão acontecer também conosco. Somos especiais. Somos diferentes.

A recusa em aprender com a história e com a experiência apenas dessensibiliza as pessoas para a realidade que lhes bate na cara, e da qual precisam para tomar decisões mais inteligentes e viver melhor. Ter em mente que a experiência e a sabedoria dos seres humanos ao longo do tempo pode pesar no nosso comportamento presente permite uma forma de diagnóstico e tomada de decisões que utiliza bilhões de pontos de amostragem acumulados. Sim, é preciso ter humildade para julgar se as suas condutas e pressuposições são equivocadas, mas você deixa de marcar pontos no feminismo para colher cem vezes mais numa vida abundantemente feliz. Como é que eu sei? Aconteceu comigo.

Comecei a abandonar o feminismo no dia em que vi um teste de gravidez

Fui premiada com uma gravidez não planejada e não desejada. Éramos casados, mas eu fiquei arrasada, porque o que eu queria era fazer o que todo mundo dizia que se deve fazer: sair da faculdade e me concentrar imediatamente na carreira. Eu e o meu marido chamamos o bebê de “nosso bolo de frutas”: um mimo com o qual ninguém sabe exatamente o que fazer. Um bebê enjoado que mereceu ficar com este apelido por dois anos. Agora, não lhe cabe mais.

Com o tempo, eu aprendi que, em vez de ter me angustiado com este milagre, devia ter ficado – e acabei ficando, devagar – profundamente grata. Este menininho me salvou, mostrando-se lentamente na minha vida como uma flor rara e preciosa. Mais uma pétala se abriu esta semana: eu li dois relatos recentes de mulheres com as quais eu me pareceria muito mais se tivesse descoberto antes um jeito de esterilizar o meu útero, que era o que eu planejava.

Uma mulher de 35 anos escreveu no mês passado, imensamente angustiada, para a coluna de conselhos do The Cut, tornando-se uma das histórias mais lidas dos últimos tempos. Ela começou na vida como uma “inovadora” na costa oeste, pulando de cidade em cidade e de namorado em namorado: pode parecer glamouroso, mas hoje, em retrospectiva, ela vê o desperdício de potencial para formar uma família.

Eu não tenho familiares por perto. Nenhum relacionamento construído sobre anos de amadurecimento mútuo e experiências partilhadas. Nenhum filho. Amigos eu faço, facilmente, mas já deixei quase todos eles para trás; cada vez que eu me mudei para outras cidades, eles continuaram a criar raízes profundas: casamentos, propriedades, carreiras, comunidades, famílias, filhos. Tenho poucas amigas íntimas. Sou grata por elas, mas a vida prossegue cada vez mais atarefada, e hoje ficamos meses sem conversar. Grande parte das noites eu passo sozinha com o meu gato (olhe o clichê)…

A minha apatia está se manifestando de modos estranhos. Eu bebo demais, e, quando aparece a ocasião de encontrar os meus amigos, acabo ficando bêbada e irritada, ou triste (ou as duas coisas), e afastando-os. E eu sinto, com os homens que namoro, um ímpeto de obter algo cedo demais da relação – morar junto, me casar, ‘preciso ter filhos em dois ou três anos’; momentos divertidos! Tudo isto enquanto tento ser a gostosa de 25 anos que eu imaginava ser até pouco tempo atrás.

Eu pensava que era uma sabe-tudo. Vida de aventuras na cidade! Viajar o mundo! Criar recordações! Me sinto incrivelmente vazia agora. E tola.

A colunista respondeu com empatia e papo de auto-estima, mas não reconheceu e nem corroborou a verdadeira perda desta mulher. Aos 35 anos, a fertilidade feminina começa uma queda livre até a menopausa. É a idade na qual os médicos classificam uma gravidez como de alto risco, o que significa que a mulher tem maiores chances de complicações, que só aumentam à medida que a idade avança; são maiores também as chances de intervenção médica durante a gravidez e o parto, com mais riscos para a mãe e para a criança.

Assim, com toda a probabilidade, esta mulher já perdeu a capacidade de ter mais de um filho; se ela tiver sorte, pode conseguir um, apesar da falta de potencial para tal no horizonte em vista. Lembre que são precisos dois anos para ter cada bebê e se recuperar dele. Portanto, se você quer dois filhos, precisa de pelo menos cinco anos de fertilidade para tê-los. Se quer três filhos, precisa de pelo menos sete anos de fertilidade.

Subtraia isto de 35, e você obtém 28. Hoje, esta é a idade média para o primeiro casamento das mulheres, mas em geral elas não se casam pensando imediatamente em garantir ao menos um bebê. Isto quer dizer que milhões de casais estão, sem necessidade, arrumando encrencas para ter filhos, simplesmente por não escolherem os melhores momentos para tê-los.

Afastando as mulheres do nosso sonho americano

Hoje, 86% dos americanos querem ter pelo menos dois filhos. Mas adiar o casamento, e colocar a universidade e a carreira em primeiro lugar, faz com que eles não vivam à altura dos seus sonhos familiares. O New York Times registrou em fevereiro que “a distância entre o número de filhos que as mulheres dizem querer (2,7) e o número de filhos que provavelmente terão de fato (1,8) já é a maior em 40 anos.” Isto está criando um número cada vez maior de mulheres profundamente, irreparavelmente frustradas, como ilustra não apenas a escritora do The Cut, mas uma outra mulher esta mesma semana.

Uma mulher de carreira, com 50 anos e quatro diplomas universitários, ligou recentemente para o programa de rádio do Dennis Prager. Seu conselho para as mulheres jovens pode ser resumido no seguinte: não façam o que eu fiz. “Fui programada para entrar no mercado de trabalho, competir com os homens e ganhar dinheiro,” disse ela. “Supostamente seria uma vida de realizações. Mas quem me disse isto foi uma mãe feminista, divorciada, e que odiava o marido – meu pai.”

…é solitário ver os seus amigos tendo filhos, saindo de férias, planejando as vidas dos filhos, e você não tem mais nada para fazer à noite exceto ir para casa, para os seus cães e gatos…

Quando você envelhece e mora sozinha, surgem outras preocupações. Quem vai levá-la ao médico? Se alguma coisa lhe acontecer, não haverá outra renda para ajudá-la. São estas coisas que você não compreende quando tem os seus 20 e poucos anos; você não imagina que algum dia vai ficar velha e ter problemas de saúde…

Quero dizer às mulheres: encontrem alguém quando tiverem 20. Então vocês ainda são muito lindas. Então vocês ainda acham agradável resolver as coisas com alguém. Será muito mais difícil, quando chegarem nos 50 e já tendo morado sozinhas, vocês se comprometerem com alguém, terem alguém dentro de casa; cada mínimo detalhe deles é irritante, acostumadas que estão a serem sozinhas.

O famoso (ou infame) psicólogo e guru dos conselhos Jordan Peterson ouve isto o tempo todo das suas clientes femininas mais inteligentes e motivadas. Quando têm os seus 20 anos, elas acham que querem a carreira. Mas quando chegam aos 30, elas começam a perceber que também querem uma família, e que isto lhes é, na verdade, mais importante do que as marcas abstratas nos degraus de alguma carreira. Neste ponto, porém, dados os caprichos de encontrar alguém, de passar pelo casamento e de chegar depois na reta final da gravidez, é muito mais difícil que elas consigam a vida desejada.

Um dos vídeos populares de Peterson se chama “Mulheres de 30,” e contém comentários que ele repete em outros lugares.

“De fato não é evidente para mim que as mulheres jovens da nossa sociedade sejam informadas da verdade sobre como as suas vidas provavelmente serão,” diz ele. “Ensinam a elas, tanto de modo explícito quanto de modo implícito, que ficarão interessadas em primeiro lugar na busca de uma carreira dinâmica; há alguns sérios problemas com isto… A minha experiência tem sido a de que as mulheres de alto desempenho, quando chegam aos 30, decidem que o relacionamento e a família são as coisas mais importantes na vida.”

Peterson argumenta que a nossa sociedade “mente para as mulheres,” e ele tem razão. Somos instruídas a “buscar a nós mesmas” e procurar a felicidade em quase todos os lugares, menos onde a história humana já demonstrou que iremos colhê-la de modo mais generoso. O que ele não menciona aqui (nem em outros lugares, até onde eu vi) é a associação destas mentiras com os problemas de fertilidade, que tanta tristeza causam às mulheres.

Geralmente não é fácil encontrar alguém para casar, e mais do que um em cada dez casais experimentam infertilidade. Os problemas de infertilidade, além disto, aumentam e ficam mais difíceis de resolver com a idade. Aquele namorado que você descartou aos 25, porque “ainda não se achava pronta para casar,” não estará por perto aos 30, ou 35; os substitutos dele também já estarão sumindo de vista nesta idade.

A beleza feminina atinge o pico por volta dos 20 anos, e não surpreende que coincida (de um ponto de vista biológico) com a sua fertilidade. Eis um gráfico feito com dados do site OKCupid, mostrando a idade em que os homens acham uma mulher mais atraente:

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Aaron Renn, que postou este gráfico na sua lista de e-mail Masculinist, resume assim uma montanha de informações relacionadas ao romance e aos sexos: “Para a média das mulheres, a beleza geral provavelmente atingirá o pico por volta dos 25 anos, quando começará a decair então por praticamente o resto da vida. Para os homens, a aparência também entra em declínio. Mas o seu poder, status, dinheiro, começam no baixo e sobem com o tempo, compensando (ou às vezes mais do que compensando) por um certo tempo a perda na aparência… Na juventude, as mulheres estão na sua melhor forma, e os homens estão ainda se aprimorando. Daí que a mulher, em média, tenha muito mais poder de atração que o homem, em média. Quando chegamos aos 30 anos, esta situação começa a se inverter.”

Isto quer dizer que as mulheres detêm o maior poder de barganha nupcial por volta dos 20 anos. A estratégia feminina mais inteligente, portanto, é casar cedo, e se amarrar num marido antes que precisem competir com mulheres mais jovens e sexy. É exatamente o oposto do que a nossa sociedade manda as mulheres fazerem. Ela manda as mulheres fazerem a mesma coisa que os homens fazem. Mas as mulheres não são homens. Os nossos corpos são diferentes, a nossa fertilidade é diferente, as nossas prioridades são diferentes. Logo, enquanto os homens conseguem se recuperar (e até mesmo se beneficiar) de um casamento tardio, as mulheres em geral são extremamente prejudicadas por ele.

Nós, mulheres, necessitamos de um roteiro de vida próprio; merecemos um que se ajuste em nós. Para construir um, precisamos conhecer e precisamos que nos contem a verdade sobre aquilo que faz as mulheres felizes, aquilo que as mulheres querem com toda a força na vida, e os limites biológicos para realizarmos os nossos sonhos. Precisamos, depois, agir sobre este conhecimento para dar à luz os nossos sonhos.

Você pode dar sorte, como eu, e ter um bebê-surpresa precoce que transforme todos os seus planos de vida em algo melhor. Entretanto, se eu fosse você, não esperaria por um milagre. Eu sairia e arrumaria um de propósito.


(*) Tradução do artigo publicado em dezembro de 2018 na revista The Federalist. O link para o artigo original: https://thefederalist.com/2018/12/11/the-feminist-life-script-has-made-many-women-miserable-dont-let-it-sucker-you/

A Culpa Está Matando o Ocidente desde Dentro?

Autor: Giulio Meotti[1]
Tradução: André Carezia

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De acordo com o professor Bruce Gilley, uma ‘sensação de culpa’ pelo colonialismo está degradando o ocidente de dentro para fora, e regimes autoritários como Irã, Rússia, China e Turquia estão lucrando com esta fraqueza.

Os romanos chamavam de damnatio memoriae: a condenação da memória que resultava na destruição dos retratos dos imperadores decaídos, e até dos seus nomes. O mesmo processo está agora em curso no ocidente em relação ao seu passado colonial. A elite cultural no ocidente parece hoje tão assombrada por sentimentos de culpa imperialista que não tem mais a certeza de que a nossa civilização é um motivo de orgulho.

O sentimento de culpa parece agora uma espécie de religião substituta pós-cristã que seduz muitos ocidentais. O estudioso francês Shmuel Trigano sugeriu que esta ideologia está transformando os ocidentais em “sujeitos pós-coloniais” que já não crêem mais em sua própria civilização, e sim naquilo que vai destruí-la: o multiculturalismo. Na França, por exemplo, lançou-se um manifesto por uma “república multicultural e pós-racial.” O resultado será, nas palavras do antropólogo Jean-Loup Amselle, uma “guerra de identidades” e conflitos entre as comunidades. Jeremy Corbyn, líder do Partido dos Trabalhadores britânico, disse no mês passado que se eleito primeiro-ministro iria ordenar que o Museu Britânico devolvesse para a Grécia os mármores de Elgin, o friso que um dia envolveu o Partenon em Atenas e uma das maiores atrações do Museu Britânico. “Toda esta campanha é uma completa demência,” escreveu Richard Dorment. É uma demência, contudo, que se espalha por toda a Europa.

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O presidente francês Emmanuel Macron anunciou que deseja modificar as normas que tornam intocáveis as coleções públicas francesas, permitindo o retorno à África de dezenas de artefatos históricos que hoje ficam no Museu do Louvre. Macron já incumbiu dois comissários – o escritor senegalês Felwine Sarr e o especialista em arte Bénédicte Savoy – de prepararem um relatório.

A Tanzânia solicita a devolução do famoso esqueleto de um Braquiossauro pré-histórico, a principal atração do Museu de História Natural em Berlim. Novas regras a respeito da restituição de “objetos coloniais” foram anunciadas pela ministra da cultura da Alemanha, Monika Grütters.

A maioria dos historiadores hoje é favorável à campanha pela devolução destes objetos. David Olusoga é um deles. Historiador de origem nigeriana, ele alega que estes artefatos coloniais são “roubos” cometidos pelas potências coloniais da época. Opinião diversa tem Zareer Masani, um historiador de origem indiana. Escrevendo para o The Telegraph, ele afirma que foram os colonizadores que tiveram um papel decisivo na preservação das antigüidades da civilização:

“Foi a dedicação deles, freqüentemente com enormes sacrifícios pessoais, que desvendou as maravilhas de muitas civilizações clássicas perdidas… A realidade é que não temos nenhuma idéia do que aconteceria com as antigüidades ‘saqueadas’ pelo mundo se não tivessem sido preservadas em coleções do ocidente. Será que os tesouros do palácio de verão de Pequim teriam sobrevivido à revolução cultural de Mao? Será que os mármores de Elgin teriam sobrevivido aos guias turísticos turcos, que quebravam pedacinhos para vender como souvenir? Será que o Daesh [Estado Islâmico] teria poupado os artefatos que sobrevivem nos museus europeus?”

Em 1969, a BBC levou ao ar “Civilization”, uma série de Kenneth Clark que explorava a arte e a cultura ocidentais. A civilização, então, era algo a ser glorificado. Em 2018, a BBC colocou no ar uma nova versão do clássico de Clark, “Civilizations” – note o plural. “Este ano, a versão século XXI do consagrado programa vai lançar um olhar crítico à história da civilização britânica, questionando se foi construída mediante ‘o saque e a fraude’ e quem são, de verdade, os bárbaros,” escreve Hannah Furness no The Telegraph. Um dos novos apresentadores é David Olusoga, o historiador que chamou os mármores de Elgin “um claríssimo caso de roubo”.

Há trinta anos, num livro, “As Lágrimas do Homem Branco”, o filósofo francês Pascal Bruckner escreveu que “o crítico fanático que denuncia sem interrupção e sem remorso as mentiras da democracia parlamentar é repentinamente arrebatado pela admiração diante das atrocidades cometidas em nome do Corão, das Vedas, do Grande Timoneiro…” Desde então, as elites ocidentais já desculparam muitos crimes cometidos em nome do Islã político, como se fossem conseqüências de nossos próprios crimes coloniais.

Quando os cristãos no Iraque foram exilados, assassinados ou perseguidos en masse pelo chamado Estado Islâmico, o ocidente quedou em silêncio – como se esses cristãos fossem os agentes do colonialismo ocidental, e não os habitantes legítimos e mais antigos do Oriente Médio, muito antes dos árabes se converterem ao Islã. Quando uma turba destruiu o Instituto Francês no Cairo, queimando livros e coleções, aqueles que agora querem devolver os “artefatos coloniais” quedaram em silêncio. Quando o presidente Rouhani do Irã visitou Roma, as autoridades italianas cobriram as estátuas nuas nos Museus Capitolinos. Será que estamos encobrindo a nossa própria cultura para agradar o mundo islâmico?

Infelizmente, o que estamos “devolvendo” não são apenas os artefatos coloniais, mas o nosso orgulho mesmo da civilização ocidental. Uma nova “condenação da memória” está ocorrendo em nossos próprios museus, academia e classes falantes – e tem profundas repercussões em nossa capacidade de lidar com os inimigos da civilização. “O material pós-colonial fornece um combustível importante para o jihadismo,” declarou o estudioso de Islamismo mais importante da França, Gilles Kepel.

The Monuments Men”[2] é um filme feito em 2014 por George Clooney. É sobre um grupo de curadores ocidentais e especialistas em arte que viajam à Europa para resgatar obras-primas roubadas pelos nazistas. Foi uma estória de bravura e clareza moral ocidental durante a 2a. Guerra Mundial. Em 2015, o Estado Islâmico destruiu Palmira, uma das mais importantes cidades do mundo antigo. Mas o ocidente assistiu passivamente a esta destruição cultural, e nenhum “caçador de obra-prima” foi enviado para salvar Palmira e outros sítios ameaçados. Os russos, tirando vantagem da passividade do ocidente, entraram em Palmira; o maestro mais famoso da Rússia, Valery Gergiev, durante a apresentação de um concerto triunfal na arena de Palmira, disse: “Protestamos contra os bárbaros que destruíram monumentos maravilhosos da cultura mundial”. Daí os ocidentais recriaram em Londres uma cópia vulgar do arco de Palmira.

Cadê os nossos caçadores de obras-primas de hoje?


Notas:

[1] Traduzido do original publicado em 1/julho/2018 no site do Gatestone Institute. O autor Giulio Meotti é jornalista italiano e editor de cultura do jornal Il Foglio. Link para o artigo original: https://www.gatestoneinstitute.org/12569/guilt-museums-artifacts

[2] Lançado no Brasil com o título “Caçadores de Obras-Primas”