Et tu, Bento?

Autora: Hilary White[1]
Tradução: André Carezia

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Recentemente, o editor de uma revista católica “conservadora” me perguntou se eu estava interessada em escrever um artigo sobre a renúncia do papa Bento XVI, agora que se passaram cinco anos. Recusei dizendo-lhe que eu estava moralmente certa de que nada do que eu tinha para contar estaria de acordo com a sua linha editorial. Depois destes cinco anos eu já percebo que há muito menos gente se referindo ao abandono do pontificado como um ato “corajoso”. As conseqüências daquele ato têm se mostrado tão bizarras – mesmo para quem, no geral, está de acordo com Francisco – que muito poucas pessoas ainda se dispõem a emitir ruídos educados sobre isto.

Na verdade, após cinco anos da renúncia do papa Bento, a maioria dos fiéis católicos quer saber o porquê. Por que um papa – um homem com décadas de experiência íntima e pessoal com a “sujeira” na cúria e em toda a Igreja – decidiria sair de repente? Por que ele escolheria ir embora sabendo que a sua tarefa não estava completa? Tanto na época quanto agora, especialmente à luz do que vem acontecendo, as razões oferecidas são tão triviais, tão inapropriadas, tão desproporcionalmente mesquinhas, que parecem ser um dos aspectos mais bizarros de toda esta situação bizarra.

Essas respostas absurdas a perguntas sérias e graves levantaram de modo inescapável a suspeita de que Bento simplesmente não levou o papado tão a sério como nós aqui levamos. Não é possível evitar a ponderação: será que essas respostas trivializadas revelam algum profundo defeito nunca antes suspeitado? Será que estivemos errados sobre ele? Em caso positivo, será que estivemos tão errados assim?

As razões que ouvimos na época eram todas, em essência, “estou cansado”. Havia uma certa sugestão de que ele não se sentia mais apto para viagens internacionais, de modo que não podia ir ao Dia Internacional da Juventude e a eventos similares. A trivialização da renúncia parecia estar de mãos dadas com o conceito moderno do “papa como pop star”, coisa em que um homem tão sério – um católico tão sério – quanto Bento não poderia acreditar. Assim pensávamos. Assumimos que Bento XVI, mais do que todos, levava o papado a sério.

E desde então, enquanto todos os venenos que ficaram à espreita por cinqüenta anos na lama da Nova Igreja estão agora eclodindo freneticamente, muitos católicos querem saber: por que não ouvimos nada dele? Deste homem que acreditávamos ser o “campeão da ortodoxia”, que pensávamos conhecer. O erro, e até mesmo a heresia e a blasfêmia, escorrem diariamente da boca de seu sucessor – o qual, literalmente, transformou o Vaticano em um covil de ladrões – e não ouvimos nada além dos pronunciamentos ocasionais, feitos com palavras cuidadosamente escolhidas, para dizer que está tudo muito bem. Quão contente ele está com a sua decisão, e quão feliz com a sua vida atual!

Depois de três anos de desmonte sistemático de tudo que ele tinha tentado fazer em seu pontificado, o que obtemos de um Ratzinger que parece absolutamente tranqüilo é isto: “Sua bondade é o meu lar, é o lugar onde me sinto seguro.” Todo mundo que já tenha lido qualquer coisa escrita por ele ficou admirado dele ser capaz de emitir um disparate tão piegas quanto este, mas o vídeo não mente.

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Este novo tom foi tão estranho que começou a circular uma especulação de que ele estava sob algum tipo de pressão externa, sem liberdade para falar o que pensa. Mas isto não é o que nós vemos. Ele está ali claramente feliz, lendo aquilo em voz alta. “Pode ter sido escrito para ele.” Mas então por que repetir? Se ele tem algum receio, por que se deixar guiar em ocasiões assim, por que ler esta propaganda descarada? Se é uma fraude, por que participar dela?

Todos os que comentam esperançosamente em blogs e outras mídias sociais, dizendo-me sempre o quanto “sentem falta” dele, na verdade deixam de respeitá-lo numa coisa: eles não aceitam a sua palavra. Alguns insistem que a sua renúncia foi feita sob algum tipo de coação e é portanto inválida. Mas nós o ouvimos dizer várias vezes que ninguém o estava constrangendo, que ele tinha renunciado livremente. E de fato ele está longe de ser um “prisioneiro do Vaticano”. Ao contrário de ser um isolado, Bento já recebeu muitos convidados, os quais sempre relatam que, embora frágil, ele parece contente e nunca abre a boca para reclamar. Ainda estamos esperando alguma notícia de algum bilhete escondido debaixo de um jogo americano na mesa de jantar, implorando por socorro.

Não há dúvida de que esta é uma situação extremamente esquisita e, francamente, suspeita; alguma coisa não bate, esta é que é a verdade. Todas as perguntas ou foram desconsideradas ou receberam respostas frívolas e jocosas:

Por que o Senhor renunciou?

Ratzinger: “Eu estava meio cansado, sem muita vontade de festejar com a criançada no Dia Mundial da Juventude.”

Se o Sr. não é papa, por que ainda se veste de branco?

Ratzinger: “Ah, não tinha uma batina preta que me servisse.”

Por que o Sr. continua a se chamar Bento XVI, se não é mais papa?

Ratzinger: “Bom, eu sou um ‘emérito’, entende…?”

E de onde é que veio este negócio de “emérito”? Existe algum precedente para isto na história católica? Em termos canônicos e doutrinais, o que significa?

Ratzinger: “…”

O que foi aquela besteira do Gänswein sobre haver um “munus” dividido – um membro ativo e um “membro contemplativo”? Quer dizer que agora há dois papas?

Ratzinger: “…”

E provavelmente a mais agonizante de todas: “Como é que o Sr. pode ficar aí sorridente, pronunciando platitudes e tolices insossas, enquanto este lunático empurra as ovelhas para um precipício?”

Alguns dias atrás, o meu amigo Steve Skojec, do website tradicionalista/restauracionista One Peter Five, resumiu a consternação daqueles que ainda sentem uma afeição pelo (homem que costumávamos chamar) papa Bento. Talvez muitos de nós ainda nos sintamos relutantes em expressar publicamente toda a raiva e todo o devastador desapontamento que aparece resumido nesta breve postagem do Steve:

“O papa Bento XVI abdicou do papado há exatamente cinco anos atrás. E, através do abandono do dever de pastorear a Igreja, ele abriu espaço para o pior papado de todos os tempos – ao qual ele obstinadamente recusa se opor por palavras, atos ou até mesmo algum gesto por mais sutil que seja.

“Você pode amá-lo por razões diversas, pode sentir falta dele pelo contraste, mas não pode dispensá-lo da responsabilidade que ele tem. Ele se afastou de sua família, deixando a porta aberta para um padrasto abusador, e assiste não apenas em silêncio seus filhos serem surrados e desencaminhados, mas em aparente contentamento.

“Mesmo assim, ele foi o melhor dos papas pós-conciliares, motivo pelo qual ele será o único a não ser canonizado.”

Quem é o verdadeiro Joseph Ratzinger?

Observadores experientes do Vaticano já me disseram mais de uma vez: “Provavelmente ele apenas não era quem pensávamos que fosse”. Eu suspeito haver mais coisas nesta história do que a maioria das pessoas pode imaginar. Acho que cometemos o erro de acreditar na imprensa. Ficamos contentes porque a mídia, que é extremamente anti-católica, o odiava e temia. Esquecemos que eles não sabem absolutamente nada de catolicismo. O que os jornais nunca nos contaram foi que o teólogo Joseph Ratzinger, no início de seu sacerdócio em 1962, era conhecido pelo termo “progressista”. Esta reputação foi solidificada durante os trabalhos dele como peritus (conselheiro teológico) de um dos mais influentes bispos na ala progressista do Concílio, o cardeal Josef Frings, de Colônia. O que fez a fama de Frings naquele grande drama foi um pronunciamento criticando a CDF – e seu prefeito, o cardeal Alfredo Ottaviani – pelo “conservadorismo” presente no “schema” (os documentos preparados pela CDF para servirem de guia às discussões dos bispos.

Após o pronunciamento, houve uma revolta entre os bispos da comissão preparatória, e eles exigiram que o schema – que havia levado anos para ficar pronto – fosse abandonado. E isto foi feito, apesar das objeções de Ottaviani. Novos documentos foram improvisados por uma coalizão de “progressistas” alemães e franceses, os quais se rejubilaram por ter, na prática, tomado o controle do Concílio a partir daquele instante, mesmo antes de ter começado.

Hoje em dia se sabe que foi Joseph Ratzinger – o “progressista” rebelde trazido pelo teólogo e acadêmico Frings a Roma como seu secretário – que escreveu esse pronunciamento.

O cardeal Henri de Lubac, escrevendo em 1985 para recordar aquele drama, afirmou:

“Joseph Ratzinger, um perito conciliar, era também o secretário pessoal do cardeal Frings, arcebispo de Colônia. O idoso e já cego cardeal se utilizava amplamente de seu secretário para escrever suas intervenções. Ora, uma destas intervenções se tornou memorável: a crítica radical (embora serena) dos métodos do Santo Ofício. Malgrado uma resposta do cardeal Ottaviani, Frings manteve a sua crítica.

“Não é exagero dizer que o Santo Ofício, tal como se apresentava até então, foi naquele dia destruído por Ratzinger em conjunto com seu arcebispo.

“O cardeal Seper, homem cheio de bondade, iniciou a renovação. Ratzinger, que não mudou, a continua.”

A reputação de Ratzinger como um “progressista” não se baseava em um incidente, e nem se restringia às suas primeiras obras. Na gritaria que fizeram devido à sua liderança da CDF, ninguém notou que ele tinha escrito em 1982 uma convocação para que a Igreja “nunca retornasse” ao Sílabo dos Erros de Pio IX. No livro “Princípios de Teologia Católica”, Ratzinger propôs a questão “O Concílio deve ser revogado?”, e respondeu sua própria pergunta recomendando a “demolição dos bastiões” da Igreja Católica em relação ao mundo moderno:

“Portanto, o dever não é suprimir o Concílio, mas sim descobrir o verdadeiro Concílio, cavoucando em profundidade aquilo que ele realmente deseja em relação ao que já aconteceu desde então.

“Isto implica em não haver um possível retorno ao Syllabus, que pode muito bem ter sido um primeiro passo no combate ao liberalismo e ao marxismo nascente, mas nunca a palavra final. Nem o abraço, nem o gueto, podem resolver o problema do mundo moderno para o cristão. Por isto é que a ‘demolição dos bastiões’, convocada já em 1952 por Hans Urs von Balthasar, era na verdade uma obrigação urgente.

“Era necessário que ela [a Igreja] demolisse os velhos bastiões, confiando apenas na proteção da fé: o poder da palavra, que é sua força única, verdadeira e permanente. Mas demolir os bastiões não significa que ela não tem mais nada a proteger, ou que ela vive em dívida para com forças diferentes daquelas que a engendraram: a água e o sangue que brotaram do lado aberto do Senhor crucificado.”

Sua tese – um estai da ideologia “conservadora” – era a de que o Concílio “verdadeiro”, desde que corretamente implementado, seria a salvação da Igreja e do mundo; e ele nunca abandonou este tema.

Para aqueles que se lembravam desta história, quão irônico deve ter parecido que se entregasse ao próprio Ratzinger o cargo que ele tinha “destruído”, e que ele ganhasse a reputação midiática de um “arqui-conservador”. Isto é o indício de uma resposta, ou pelo menos de uma linha de investigação, para as seguintes perguntas: Por que tão pouca coisa se realizou em seu longo mandato? Por que, com o rottweiler “arqui-conservador” Ratzinger na CDF, temos a situação que temos hoje? O que ele fez para impedir a explosão do neo-modernismo, que queimou como um fogo descontrolado por todo o mundo católico ao longo do reinado de João Paulo II?

O que o “silêncio” imposto pela CDF de Ratzinger fez para impedir Hans Küng de se tornar um célebre “padre-teólogo”, cortejado pela mídia por sua aversão ao catolicismo? Küng, que nunca foi removido do sacerdócio apesar de sua manifesta heresia? Será que conseguimos pensar em outros nomes que foram corrigidos pelo menos nesta medida? Bem poucos.

Certamente, porém, nós conseguimos pensar em muitos e muitos que passaram a vida negando e solapando abertamente a fé católica – teólogos acadêmicos, religiosos, padres, bispos e cardeais ao redor do mundo – sem nem um pio de protesto vindo de Roma. Mais ainda: a escandalosa montanha de fraudes que hoje temos no episcopado é, em sua totalidade, fruto dos pontificados do “arqui-conservador” João Paulo II e do “rottweiler” Bento XVI.

Por que é que nós achávamos que Ratzinger, em seu papel crucial como prefeito da CDF, era um baluarte da ortodoxia? Será que é simplesmente porque nos afastamos tanto da antiga fé que já não temos mais uma noção realista da fé que permita uma comparação, um julgamento objetivo? O destruidor “progressista” de Ottaviani herdando o seu cargo… O epíteto de “arqui-conservador”…

O próprio Ratzinger, para dizer a verdade, sustentava que nunca havia mudado de opinião teológica. Ele dizia que eram seus velhos colegas acadêmicos como Küng e Kasper que tinham se deslocado ainda mais na direção da “esquerda” ideológica depois dos anos 60, enquanto ele tinha ficado no mesmo lugar. Talvez possamos agora finalmente aceitar a sua palavra nisto, como uma peça que se encaixa em nosso quebra-cabeças aparentemente contraditório. Talvez o mundo acadêmico da teologia católica tenha se tornado tão corrupto que um homem considerado “progressista” em 1963 pareceria um “campeão da ortodoxia tradicional católica” em 2005, mesmo sem mudar nenhuma de suas idéias.

Será que foi por isto que ele renunciou? Será que a sua concepção da Igreja, do papado, simplesmente nunca foi aquilo que os católicos acreditavam ser? Talvez um indício de resposta venha do La Stampa de 2015, que publicou algumas das memórias de Silvano Fausti, SJ, confessor e guia espiritual do cardeal Carlo Maria Martini, o chefão da Igreja Católica européia “liberal”[2] e suposto líder da “máfia de Sankt Gallen”, a qual conspirou contra o papa Bento por anos, conforme admitiu o cardeal Danneels.

Fausti disse que Bento se encontrou com Martini no palácio dos bispos em Milão, em junho de 2012. Disse ainda que Martini insistiu que Bento renunciasse ao papado. Aparentemente, na época da sua eleição em 2005, Martini havia dito que sua principal tarefa seria reformar a Curia, coisa que se demonstrou impossível por volta de 2012.

Por que Bento aceitaria conselhos de um homem como Martini – o “chefão” da “ala liberal” do catolicismo europeu? Eu acho que a pergunta nem mesmo ocorreria a um homem como Ratzinger. Eles eram bons colegas na academia. Eram irmãos no episcopado. Qualquer aparência de divisão ideológica entre ambos era, essencialmente, um produto da narrativa midiática. Por que o papa não levaria em conta o conselho do seu mais velho e respeitado cardeal?

Por que Walter Kasper é um cardeal?

Uma das peças mais proeminentes desse quebra-cabeças é que aparentemente os tais prelados “conservadores” não conseguem detectar (e muito menos barrar) os insolentes inimigos da fé em meio ao episcopado e ao colégio de cardeais. É impossível explicar a pessoas comuns como, depois de tantos anos ouvindo e lendo essa gente, Ratzinger ainda manteria tão boa amizade com homens como Walter Kasper e Carlo Maria Martini, os supostos cérebros da máfia de Sankt Gallen.

Quando o papa Francisco, no seu primeiro Angelus, em 2013, contou à multidão o quanto adorava os escritos de Walter Kasper, quase todos nós que tínhamos passado vários anos acompanhando o Vaticano começamos a entender para onde estávamos indo com o novo papa. Jorge Bergoglio podia até ser um desconhecido aos olhos do mundo católico, mas Walter Kasper era um herege célebre; ele era a fachada midiática da “ala ultra-liberal” da Igreja pós-Vaticano II.

Em um artigo sobre a obra do cardeal, Thomas Jansen, editor-chefe do Katholisch.de, observou recentemente que Walter Kasper não teria conseguido fazer o estrago que fez sem a assistência direta de João Paulo II e do papa Bento. O debacle monstruoso da Amoris Laetitia é tanto obra do Kasper quanto do Bergoglio. Este é um homem que, por 40 anos, nunca se incomodou em esconder suas opiniões heterodoxas, tendo devotado a maior parte de sua vida a uma campanha para produzir justamente este resultado.

Jansen chama a atenção para o fato de que Kasper, em 1993, já tinha tentado avançar a mesma proposta de comunhão para divorciados e recasados, junto com Karl Lehmann, outro membro de “Sankt Gallen”. Foi barrado por Ratzinger e a CDF. Mas então vem a próxima pergunta: se Ratzinger sabia muito bem que tipo de criatura era Kasper, por que não o catou pela orelha e lançou-o para fora do episcopado? Por que não lhe deu, no mínimo, o mesmo “tratamento de silêncio” dado a Küng? Kasper foi na mídia recentemente para reclamar por ter sido chamado de herege. Mas é a pura verdade: ele é herege. Todo mundo sabe que ele é herege, porque nós já o escutamos trombetear por décadas as suas heresias descaradas de cima de todos os telhados que ele conseguiu encontrar.

Após trabalhar abertamente contra a fé, ele ganhou de João Paulo II o título de cardeal, ao invés de ser rebaixado, silenciado, laicizado e/ou excomungado. O seu esquema de Amoris-Laetitia-ar a Igreja, lembre-se, foi barrado em 1993 pela CDF de Ratzinger. Ele não foi, porém, nem rebaixado, nem admoestado, nem corrigido em nada. Também não foi removido de postos de influência. Ao contrário: em 1994, Kasper foi enxertado na Cúria Vaticana ao ser nomeado co-presidente da Comissão Internacional para o Diálogo Luterano-Católico. Em 1999, subindo mais um degrau, foi nomeado secretário do Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, o departamento “ecumênico” no qual o seu manifesto indiferentismo religioso pôde reinar livremente. Em 2001 ele foi sagrado cardeal-diácono, com a incrível responsabilidade de votar em um conclave.

Bento, então, permitiu-lhe permanecer cardeal. E, como um toque final ao bolo envenenado que é o envolvimento de Ratzinger na criação do “novo paradigma católico”, agora há o rumor de que Bento calculou o momento exato de sua renúncia de modo a permitir a participação de seu velho colega de academia no conclave de 2013. Jansen chamou a atenção – e Maike Hickson citou num artigo para o One Peter Five – para o seguinte:

“O cardeal Kasper quase não conseguiu entrar no último conclave, porque tinha acabado de fazer 80 anos. Porém, como a data da morte (ou abdicação, como foi o caso em 2013) do papa é decisiva, ele ainda pôde participar e votar naquela eleição. (Alguns observadores notaram que isto foi um gesto de generosidade de Bento XVI em relação ao cardeal Kasper: a renúncia na hora certa.)”

Maike que me desculpe, mas não acho que isto seja um assunto parentético. É mesmo de admirar que tantos católicos tenham ficado ressentidos?

Cardeal Ratzinger, Papa “emérito” Bento – chame-se como quiser – eu tenho uma pergunta muito importante para você responder: Por que este homem ainda é um cardeal? Por que ainda é um bispo? Por que ainda deixam que ele se proclame um “teólogo católico”? Por que você, aparentemente de propósito, assegurou a participação dele no conclave que iria decidir o seu sucessor?

Será que ninguém mais quer saber isto? Não queremos todos saber porque Hans Küng ainda é um sacerdote? Por que deixaram que o cardeal Mahony se aposentasse em boa reputação? Por que um homem como Weakland, aquele homossexual ativo que comprou seu ex-amante, não foi excomungado? Quais são os nomes que todos nós recordamos só assim de cabeça? Meu próprio bispo em Victoria, o ocultista Remi de Roo, o Raymond Hunthausen de Seattle, o Favalora de Miami, o Matthew Clark de Rochester, o Derek Worlock de Liverpool… Às vezes eu fico pensando no tamanho que esta lista vai ter quando tudo isso acabar.

Faz cinqüenta anos que os católicos querem saber porque nada nunca foi feito. Por que deixaram estes lobos no episcopado, atacando continuamente a Igreja ano após ano? Por que nós sempre vimos estes homens – comprometidos intelectual e moralmente – serem elevados a degraus superiores, apesar da insolência inacreditável do seu ódio à fé católica?

O fim do “catolicismo guarda-chuva”

Ross Douhat, do New York Times, é um dos que estão começando a fazer esse tipo de pergunta. Maike Hickson cita um escrito dele sobre esta situação bizarra, na qual cada um dos chamados prelados “da máfia de Sankt Gallen”, inclusive Kasper, que fez campanha pela abolição de fato do ensinamento moral da Igreja[3]: “Algo característico da efetiva trégua na Igreja [entre conservadores e progressistas] foi que o próprio João Paulo II entregou à maioria deles os barretes vermelhos, promovendo-os apesar do desacordo que eles mantinham em relação à sua abordagem restauracionista.”

Quando os jornalistas falam de catolicismo, é comum se referirem a homens tipo Kasper como – está em sua página na Wikipédia – “uma das principais figuras da ala liberal da Igreja Católica.” E supostamente isto deve fazer algum sentido para os católicos, e supostamente temos que aceitar isto como uma realidade de nossos tempos: há uma “ala liberal” e uma “ala conservadora”, e ambas são católicas.

Steve Skojec me disse que a nossa disposição de aceitar toda aquela charada de “papa emérito” foi um erro: “Acho que o problema é termos aceitado o jogo de faz-de-conta deles, quando não deveríamos ter aceitado.” Na verdade, estou começando a achar que a disposição de aceitar toda a charada do catolicismo pós-conciliar, que muitos católicos tiveram, foi um sério erro. Ao entrar no jogo, ao fingir que podíamos ser “católicos conservadores” neste novo paradigma que inclui também “católicos liberais”, nós os ajudamos a perpetrar uma [das] mais monstruosas fraudes da história humana.

Devido a esta mentalidade esquizofrênica da liderança da Igreja desde 1965, acabamos por aceitar a premissa oculta: a de que a Igreja é um “imenso guarda-chuva” com um montão de espaço para pessoas de todas as opiniões pessoais… que temas como a liturgia são questões de “gosto” pessoal… que duas coisas opostas podem ambas ser a verdade católica.

Esta esquizofrenia é o modelo sob o qual os “conservadores” operaram todo esse tempo, e pelo qual eles julgaram que um homem como Joseph Ratzinger é um “conservador e campeão da ortodoxia”. E qual o resultado disto? Isto criou uma fachada para os homens da panelinha de Kasper manobrarem seu homem no trono de Pedro cinco anos atrás.

E assim, de repente, o jargão da “tolerância” e do “imenso guarda-chuva” chega ao fim, e o expurgo dos religiosos, seminaristas, padres e acadêmicos fiéis começa. E tinha que ser assim. Eles ao menos não alimentam esta contradição insana, e entendem – e freqüentemente dizem em voz alta – que o novo paradigma e a Igreja Católica não são a mesma coisa. E sua Nova Igreja é a única que resta.

Por cinco décadas nós brincamos de jogo anglicano: se não falamos sobre o assunto, não existe problema algum. O Santo Ofício de Ottaviani e o schema eram o último suspiro da velha Igreja – que, como de Lubac escreveu acima, foi destruída por Joseph Ratzinger. Depois de um longo hiato, no qual os papas fingiram que nada de essencial estava mudando, enquanto a instituição à sua volta sucumbia ao novo paradigma, uma única coisa ainda restava: o papado.

Uma das coisas que eu venho dizendo a respeito da era Bergoglio – e que é uma benção disfarçada, um enorme alívio – é que finalmente nós podemos abandonar a situação absurda da era Wojtyla/Ratzinger. Todos estes anos nós tivemos que fingir estar em uma “nova primavera do Vaticano II”, enquanto assistíamos a esses lobos em pele de pastor devorando as ovelhas.

Agora, enfim, podemos pelo menos parar de fingir que tudo é fantástico sob o novo paradigma da misericordiosa maravilha conciliar. Para quem ainda está em dúvida, Bergoglio não é um escândalo, e nem mesmo uma surpresa; ele é somente a conclusão lógica. Este pontificado não é uma anomalia; é o único resultado possível, e foi uma obra tanto de Walter Kasper quanto de Joseph Ratzinger.

[1] Tradução de artigo originalmente publicado em 12 de março de 2018 no jornal americano católico The Remnant. Link original: https://remnantnewspaper.com/web/index.php/articles/item/3786-et-tu-benedict-some-final-thoughts-on-joseph-ratzinger

[2] A palavra “liberal”, seguindo a tradição americana, é usada neste artigo como sinônimo de “esquerdista”.

[3] N.T. A frase aqui está aparentemente cortada no original. A idéia é clara, entretanto.

As Finalidades da Santa Missa

Este texto é uma adaptação de um material que elaborei em 2016 para reflexão em um grupo de estudos na capela do meu bairro. Reformatei para adequar a este blog.

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Hoje vamos meditar sobre as finalidades e vantagens da Santa Missa, usando trechos de um pequeno livro escrito por São Leonardo de Porto-Maurício no século XVIII, “As Excelências da Santa Missa.”

Diz ele no prefácio do livro:

“Os tesouros, por grandes e preciosos que sejam, não podem ser estimados se não forem conhecidos. Eis porque, muitos não têm pelo santo Sacrifício da Missa o amor que deveriam ter, porque este tesouro, A MAIOR MARAVILHA e a MAIOR RIQUEZA da IGREJA DE DEUS é um TESOURO OCULTO um tesouro muito pouco conhecido. Ah! se todos conhecessem esta preciosidade celeste, tudo sacrificariam para adquiri-lo. A exemplo do mercador do Evangelho, cada um, de boa vontade, daria tudo que possuísse para obter tão precioso tesouro (Mt 13, 46).”

Mais adiante ele escreve:

“São Tomás de Aquino, o Doutor angélico, nos ensina quais são as dívidas que temos com DEUS. Ele diz que há especialmente quatro. Todas as quatro ilimitadas.”

“A primeira é de adorar, louvar e honrar este DEUS de majestade infinita e digno de infinitos louvores e homenagens. A segunda é dar-lhe satisfação pelos pecados que cometemos. A terceira, render-Lhe graças pelos benefícios recebidos. A quarta, implorar-Lhe, como fonte de todas as graças.”

“Ora, como é possível que pobres criaturas como nós, que nada possuímos, nem mesmo o ar que respiramos, possam jamais satisfazer obrigações tão grandes? Consolemo-nos, pois aqui está um meio facílimo. Façamos o possível para participar de muitas Missas e com a máxima devoção; e, se bem que nossas dívidas sejam enormes e inumeráveis, não há dúvida de que, com o tesouro contido na Santa Missa, poderemos solvê-las inteiramente.”

São Leonardo explica então a primeira finalidade: PELA SANTA MISSA ADORAMOS DIGNAMENTE A DEUS.

E diz:

“Nossa primeira obrigação para com DEUS é adorá-Lo e honrá-Lo. É preceito da própria lei natural que todo inferior deve homenagem a seu superior. E quanto maior a dignidade deste, tanto maiores devem ser as honras que se lhes prestam. Daí resulta que, sendo DEUS de majestade infinita, homenagens infinitas Lhe devemos.”

“Infelizes que somos! Onde encontraremos oferenda digna de nosso Criador? Passei vós em revista todas as criaturas do Universo: coisa alguma encontrareis digna Dele.”

“Ah! é que uma oferenda digna de DEUS não pode ser senão o próprio DEUS. Necessário é que Aquele, que está sentado no trono de Sua Majestade, desça para oferecer-se como vítima sobre os nossos altares, a fim de que a homenagem corresponda perfeitamente à Excelência de sua grandeza infinita.”

“Isto é o que se realiza na Santa Missa, pela qual DEUS é adorado na medida que merece, porque é adorado por DEUS mesmo, isto é, por JESUS que, pondo-se sobre o altar em estado de vítima, adora a SANTISSÍMA TRINDADE por um ato de inefável dependência e tanto quanto Ela merece.”

“Nós, que concorremos com Ele no oferecimento deste grande Sacrifício, damos também de nossa parte, a DEUS, honra e homenagem infinitas. Oh! Que coisa sublime! Digamos uma vez ainda, pois importantíssimo é sabê-lo: Sim, assistindo à Santa Missa, prestamos a DEUS adoração, honra e homenagem infinitas.”

“Sendo assim, como quitaremos bem a nossa primeira dívida com DEUS, assistindo à Santa Missa! Ó mundo obcecado, quando abrirás os olhos para compreender verdade tão importante. E vós cristãos negligentes, tereis ainda a coragem de dizer: ‘Uma missa a mais, uma missa a menos, pouco importa’? Que triste cegueira!”

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São Leonardo explica então a segunda finalidade: PELA SANTA MISSA PODEMOS SATISFAZER A JUSTIÇA DIVINA PELOS PECADOS COMETIDOS.

Continua ele:

“A segunda obrigação que temos para com DEUS é de satisfazer à sua justiça por tantos pecados cometidos. Oh! Que dívida imensa esta! Um único pecado mortal pesa tanto na balança da Justiça Divina que não bastariam, para expiá-lo, todas as boas obras de todos os mártires e de todos os santos passados, presentes e futuros. No entanto com o Santo Sacrifício da Missa, se considerarmos o seu valor intrínseco e seu preço, pode-se satisfazer plenamente por todos os pecados cometidos.”

“E aqui buscai compreender quanto de reconhecimento deveis a JESUS. Pensai-o bem: é Ele o ofendido; entretanto, não contente de no Calvário ter satisfeito por nós à Justiça Divina, deu-nos e continua a dar-nos incessantemente o meio de apaziguá-la no sacrifício da Santa Missa, pois aí renova a oferenda que, na Cruz, fez a DEUS PAI, pelos pecados do Mundo inteiro.”

“O mesmo sangue que derramou para resgatar o gênero humano é aplicado e oferecido especialmente na Santa Missa pelos pecados daquele que a celebra ou manda celebrar, e de todos os que participam deste augusto Sacrifício.”

“Não que o Sacrifício da Santa Missa apague por si mesmo e imediatamente nossos pecados, como é o caso do sacramento da Confissão; mas obtém que eles nos sejam apagados, proporcionando-nos, seja no momento mesmo da Santa Missa, seja em outra ocasião oportuna, boas inspirações, movimentos salutares e graças atuais que nos são indispensáveis para nos arrependermos dignamente de nossas faltas.”

“Conquanto às almas em estado de pecado mortal não lhes aproveite o valor no que tem de propiciatório, todos os pecadores deviam assistir muitas vezes à Santa Missa para alcançar mais facilmente a graça da conversão.”

“Quanto às almas vivendo em paz com DEUS, o Sacrifício da Santa Missa lhes dá uma força surpreendente para se manterem nesse estado e, conforme a opinião comum, são apagados todos os pecados veniais, caso tenham ao mesmo tempo um arrependimento geral. Ó bem-aventurada Santa Missa, que nos restitui a liberdade de filhos de DEUS, e satisfaz todas as penas devidas por nossos pecados!”

“Realmente, se bem que o valor do Santo Sacrifício seja infinito, deveis saber entretanto, que DEUS o aceita numa medida limitada e finita, mais ou menos, conforme a devoção maior ou menor de quem o celebra, manda celebrar, ou a ele assiste.”

“Note-se aqui o erro daqueles que preferem as missas mais curtas e menos devotas, ou, o que é pior, que a elas assistem com pouca ou nenhuma devoção. É verdade que todas as Missas são iguais do ponto de vista do Sacramento, como ensina São Tomás; não o são, porém, quanto aos efeitos que delas provêm. Quanto maior a piedade atual ou habitual do celebrante, maior será o fruto de seu sacrifício.”

São Leonardo continua, explicando agora a terceira finalidade: PELA SANTA MISSA AGRADECEMOS DIGNAMENTE A DEUS TODOS OS BENEFÍCIOS.

Do livro:

“A terceira dívida é a do reconhecimento pelos benefícios de que nos cumulou carinhosamente nosso DEUS. Computai todos os favores que dele tendes recebido, os bens da natureza e da graça, o corpo, a alma, os sentidos, as faculdades, a saúde, a vida. Como poderemos agradecer-Lhe suficientemente?”

“Nossa miséria é tão grande que não temos sequer o meio de satisfazer pelos menores benefícios recebidos de DEUS. Pois o menor de todos, provindo das mãos de tão grande Rei e acompanhado dum amor infinito, adquire um preço infinito e nos obriga a um reconhecimento também infinito. Infelizes que somos! Se não podemos suportar o peso de um só benefício, como poderemos arcar com o fardo de graças inumeráveis?”

“Consolai-vos, pois o meio de dar ações de graças suficientes ao boníssimo DEUS nos é ensinado pelo rei Davi, que, contemplando com espírito profético o divino sacrifício, confessava que só ele bastava para dar a DEUS ações de graças adequadas. Perguntava: ‘Que retribuirei ao Senhor por todos os benefícios que me tem feito?’”

“E responde: ‘Oferecer-Lhe-ei um sacrifício que será infinitamente agradável, e com o qual, somente, satisfarei a minha dívida por tantos e tão grandes benefícios.’ Este Sacrifício foi instituído pelo nosso Redentor, principalmente para este fim, quero dizer, para reconhecer a divina munificência e agradecer-Lhe, e por isso chama-se Eucaristia por excelência, o que significa ‘ação de graças’.”

“E vós, que fazeis? Abristes enfim os olhos para reconhecer tão preciosíssimo tesouro?”

São Leonardo comenta em seguida a quarta finalidade: PELA SANTA MISSA PODEMOS OBTER TODAS AS GRAÇAS QUE NECESSITAMOS.

Explica ele:

“Já sabeis quão grandes são vossas misérias, tanto de corpo como de alma, e por consequência, a necessidade que tendes de recorrer a DEUS, a fim de que a todo momento Ele vos assista e vos socorra, pois só Ele é o autor e o princípio de todos os nossos bens temporais e eternos.”

“Mas, doutra parte, ousaríeis pedir-Lhe novos benefícios, vendo a suprema ingratidão com que tendes correspondido às suas graças anteriores? Todavia, tende confiança; pois se não mereceis essas graças, JESUS mereceu-as por vós, e para este fim.”

“Na Santa Missa, nosso adorável JESUS, o primeiro e Sumo Pontífice, recomenda a Seu PAI a nossa causa, intercede por nós constituindo-se nosso amoroso advogado. Oh! Que riquezas de graças, bênçãos, virtudes e de socorros nos obtém a Santa Missa! Em primeiro lugar, ela nos alcança todas as graças espirituais e os bens que se relacionam com a alma, como a contrição por nossos pecados, a vitória sobre as tentações, sejam vindas de fora, das más companhias e do demônio, sejam produzidas no interior pelas revoltas da carne.”

“Além disso, a Santa Missa nos obtém todos os bens temporais, contanto que concorram à salvação da alma, por exemplo, a saúde, a abundância, a paz, e nos preserva dos males que se lhe opõem, como seja: epidemias, terremotos, guerras, fomes, perseguições, processos, inimizades, miséria, calúnias e injustiças.”

“E vós, por que não despertais, por que não pedis graças importantes? Se quiserdes confirmação, pedis a DEUS em cada Santa Missa, que faça de vós um grande santo.”

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Rezemos a Deus, hoje e em cada Santa Missa, para que nos faça grandes santos no céu. E peçamos que a Virgem Maria interceda por nós e por nossas necessidades.

Amém.

***

A Causa Palestina

Autor: Guy Millière
Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

Já faz muitos anos que a ‘Palestina’ não cessa de aspirar a novas e grandiosas conquistas na chamada ‘comunidade internacional’. Desde 1996, a ‘Palestina’ já se apresenta nas Olimpíadas; um pouco depois ela se tornou observadora permanente da UNESCO e da ONU. A esmagadora maioria das 95 ‘embaixadas’ da ‘Palestina’ está no mundo islâmico; o resto está na Ásia, na África, na América Latina e na Europa. Em 2014, o parlamento espanhol votou a favor do pleno reconhecimento da ‘Palestina’. Algumas semanas mais tarde, o parlamento francês fez o mesmo.

Não há outro caso, na história do mundo, em que um Estado inexistente consegue estabelecer missões e embaixadas que fingem funcionar como se o Estado de fato existisse.

Agora parece ter chegado a hora dos ‘palestinos’ perceberem que perderam, e voltarem à Terra, como bem observou o estudioso Daniel Pipes.

Será que os líderes ‘palestinos’ demonstram, por seus discursos e ações, que estão prontos para dirigir um Estado que viva em paz com seus vizinhos e com o resto do mundo? Todas as lideranças ‘palestinas’ sempre – e incessantemente – incitaram o terrorismo, e não escondem o desejo de varrer Israel do mapa.

Será que o ‘povo palestino’ ambiciona ter, a longo prazo, um Estado, e viver pacificamente dentro dos limites desse Estado? Em verdade, a resposta é não. O ‘povo palestino’ foi inventado no final dos anos 60 pelos serviços de propaganda dos árabes e dos soviéticos. Em março de 1977, o líder da OLP, Zuheir Mohsen, contou ao jornal holandês Trouw:

“O povo palestino não existe. A criação de um Estado palestino é o único jeito de continuarmos a nossa luta pela unidade árabe, contra o Estado de Israel. Hoje, na realidade, não há diferença entre os jordanianos, os palestinos, os sírios e os libaneses.”

Os relatos da Cisjordânia, depois da guerra dos seis dias, mostram que os árabes se definiam como ‘árabes’ ou ‘jordanianos’ nas entrevistas; evidentemente não sabiam que eram o ‘povo palestino’. Desde então, eles foram instruídos a falar assim. Também foram instruídos que é seu dever matar judeus para ‘libertar a Palestina’. Os palestinos são o primeiro povo inventado para servir de arma de destruição em massa de um outro povo.

Será que ao menos há algum passado histórico para dar legitimidade à ambição de criar um ‘Estado palestino’? Novamente a resposta é não. Não há nenhuma cultura palestina distinta das culturas do mundo árabe islâmico; nenhum monumento que possa ser definido como um monumento histórico ‘palestino’, a menos que se falsifique a história.

Uma pergunta mais básica: um ‘Estado palestino’ hipotético seria economicamente viável? A resposta é não, de novo. Os territórios ocupados pelos movimentos palestinos somente sobrevivem graças à assistência financeira do ocidente.

Como é possível, então, que tantos países se empenhem, durante tanto tempo, em criar um Estado cujos dirigentes seriam provavelmente líderes ‘palestinos’ corruptos e retrógrados; cujos habitantes seriam usados como máquinas de matar; cuja história é inexistente ou falsificada; e cujo potencial econômico parece nulo?

A resposta é simples.

Por baixo desse apoio à criação de um ‘Estado palestino’, esses países perseguem há tempos outros objetivos. Há décadas que os países do mundo islâmico só querem uma coisa, e a querem de modo obsessivo: a destruição de Israel. Eles já tentaram atingir esse objetivo através de guerras convencionais, terrorismo, diplomacia e propaganda. Sempre culparam Israel, e somente ele, por todos os males no Oriente Médio.

Ao mesmo tempo, eles sabem quem são e o que fazem os líderes ‘palestinos’. Sabem que o ‘povo palestino’ foi inventado. Sabem o porquê do povo ‘palestino’ ter sido inventado. Sabem que um ‘Estado palestino’ não será economicamente viável. Mesmo assim, comprometeram-se com uma estratégia feita para desestabilizar e demonizar uma nação não-islâmica: Israel.

Eles chamam os ‘palestinos’ de ‘vítimas’; o terrorismo, de ‘militância’; e a ação de incitar assassinatos, de ‘resistir à ocupação’. Eles têm pisoteado sobre a verdadeira história para substituí-la por mitos.

Eles pressionam os líderes ‘palestinos’ a fazerem ‘negociações’, sabendo muito bem que nunca algum acordo será assinado, e que as negociações terminarão em banho de sangue. Propõem apenas ‘planos de paz’ que sabem que Israel terá que rejeitar – são planos que incluem as ‘linhas do armistício de 1949’ (chamadas ‘linhas Auschwitz’) ou o ‘direito de retorno’ dos ‘refugiados palestinos’, que eram meio milhão em 1949, e quase cinco milhões agora.

Eles reconhecem um ‘Estado palestino’, sabendo porém que o ‘Estado’ que reconhecem não é um Estado, mas um organismo terrorista sem fronteiras e território definidos, imbuído da intenção de derramar mais sangue e criar mais caos. Por meio do tumulto, da chantagem e das mentiras, eles estimulam o resto do mundo a pensar que a situação requer uma intervenção internacional drástica.

Eles sempre dizem que querem um ‘Estado palestino’, mas nunca dizem que querem que esse Estado renuncie ao terrorismo e encerre o conflito. Ao contrário, o que têm feito é se engajar em uma guerra selvagem que há muito tempo esperam vencer.

Durante mais de trinta anos, eles se beneficiaram do apoio da União Soviética. Ela financiou guerras (1967, 1973), terrorismo, diplomacia e propaganda. A União Soviética transformou a empreitada ‘palestina’ em uma causa anti-imperialista – um meio de fortalecer os pontos de vista soviéticos e de neutralizar os inimigos do ocidente. A União Soviética entrou em colapso em 1991, mas os efeitos de seu apoio à ‘causa palestina’ permaneceram por algum tempo. Muitos países hostis ao ocidente ainda apoiam e reconhecem os ‘palestinos’, ao mesmo tempo que fingem ignorar que estão reconhecendo uma organização terrorista. Estão colaborando para a guerra.

Alguns países do mundo ocidental, durante anos sujeitos às pressões do mundo islâmico e da União Soviética, gradualmente foram cedendo; alguns cederam antes mesmo de serem pressionados. A França escolheu o seu lado em 1967, quando o general Charles de Gaulle deu início ao que chamou de ‘política árabe’, após sua derrota na Argélia. A política internacional francesa se tornou decididamente ‘pró-palestina’ – em um aparente esforço de defletir o terrorismo, obter petróleo barato e competir com os EUA – e assim tem sido até os dias de hoje. Os países da Europa ocidental foram aos poucos adotando pontos de vista semelhantes aos da França. Depois do colapso da União Soviética, a União Européia se tornou a principal financiadora da ‘causa palestina’, inclusive de suas ações terroristas. Os líderes da Europa ocidental sabem quais são os objetivos reais, e no entanto repetem sem tréguas que a criação de um ‘Estado palestino’ é ‘essencial’. Também eles estão colaborando para a guerra.

Apesar de serem aliados de longo prazo de Israel, os Estados Unidos mudaram sua política para o Oriente Médio no início dos anos 90, adotando posições mais próximas àquelas do mundo islâmico. Alguns políticos e diplomatas pressionaram os israelenses a negociar com os líderes ‘palestinos’, e aparentemente perderam de vista o que era de fato – e em segredo – a ‘causa palestina’. Os líderes israelenses, cheios de fantasiosas esperanças, concordaram em negociar. O resultado trágico foram os acordos de Oslo e a criação da Autoridade Palestina (AP), que se tornou rapidamente uma base para ações terroristas anti-Israel. Uma onda de ataques letais anti-Israel começou imediatamente, logo seguida de uma aprimorada ofensiva diplomática e propagandística contra Israel. Os líderes americanos, como se tivessem acordado de um sono de vários anos, começaram a falar da necessidade de existência de um ‘Estado palestino’. Três presidentes americanos propuseram ‘planos de paz’, colaborando assim também para a guerra.

Mais um ‘plano de paz’ é aguardado para breve, mas os parâmetros serão completamente diferentes. O presidente Donald Trump parece querer romper com o passado. Recentemente, ele disse ao líder palestino Mahmoud Abbas que os líderes ‘palestinos’ são mentirosos. Nenhum dos negociadores americanos escolhidos por ele parece ter a mais mínima ilusão sobre a liderança ‘palestina’ ou sobre a ‘causa palestina’.

A Lei Taylor Force, aprovada em 5 de dezembro pela Câmara de Representantes dos EUA, tem por intenção condicionar toda ajuda americana à ‘faixa de Gaza’ e à ‘Cisjordânia’ às ‘ações empreendidas pela Autoridade Palestina para encerrar a violência e o terrorismo contra os cidadãos israelenses’; a lei pode ser ratificada em breve pelo Senado. A Autoridade Palestina rejeitou todas as condições da lei.

O mundo islâmico também passa por transformações. O Irã, enormemente fortalecido pelo acordo aprovado em julho de 2015, e pelo gigantesco aporte financeiro americano que veio juntamente com o tal acordo, tem mostrado seu desejo de se tornar um poder hegemônico no Oriente Médio. O regime dos mulás já domina três capitais além de Teerã: Bagdá, Damasco e Beirute. Atacou a Arábia Saudita e apoia a guerra liderada pela milícia Houthi no Iêmen; tem a intenção de capturar Sanaã e se apossar de Bab El Mandeb, único caminho para o Mar Vermelho e o Canal de Suez. O Catar e a Turquia já estabeleceram fortes ligações com o Irã.

Os líderes sauditas parecem estar cientes do perigo. O rei Salman escolheu seu filho, Mohamed bin Salman, como herdeiro do trono, dando-lhe plenos poderes. ‘MBS’ – como é conhecido – parece decidido a liderar uma verdadeira revolução. Em termos militares, ele é o chefe dos 40 membros da Coalizão Militar Islâmica de Contra-Terrorismo, e já declarou sua intenção de ‘dar um fim no terrorismo’. No aspecto econômico, ele está no comando de um projeto ambicioso de reforma que pretende fazer seu país ficar menos dependente do petróleo: o Visão 2030. Foram presos todos os líderes sauditas que não concordam com as novas orientações, e seus bens foram confiscados. Mohamed bin Salman identificou o Irã como o seu principal inimigo, e recentemente descreveu seu líder supremo, Ali Khamenei, como um ‘novo Hitler’. O Catar e a Turquia já estão sob intensa pressão saudita para que se distanciem do regime iraniano. O grão-mufti da Arábia Saudita, Abdulaziz ibn Abdullah al ash-Sheikh, há pouco tempo emitiu uma fatwa dizendo que ‘lutar contra os judeus’ é ‘contrário à vontade’ de Alá, e que o Hamas é uma organização terrorista.

Mohamed bin Salman tem o apoio do governo Trump; de Vladimir Putin, que parece desejar um equilíbrio de forças do Oriente Médio, embora seja aliado do Irã; e de Xi Jinping, que enfrenta o risco de uma rebelião islâmica sunita em Xinjiang, um território autônomo chinês.

O líder ‘palestino’, Mahmoud Abbas, foi aparentemente convocado a Riad, onde o rei Salman e Mohamed bin Salman disseram-lhe para aceitar o plano proposto pelo governo Trump, ou renunciar. Disseram-lhe também que lhe seria ‘arriscado’ considerar a incitação de um levante – ele o fez mesmo assim, embora com o cuidado de mantê-lo frouxo e pouco expressivo.

No mês de outubro, o presidente egípcio Abdel Fattah al-Sisi, aliado de Mohamed bin Salman, convidou os líderes da Autoridade Palestina e do Hamas para uma ‘reconciliação’ na cidade do Cairo. Aparentemente ele exigiu que o controle da Faixa de Gaza seja passado à Autoridade Palestina. Parece também que o governo Trump e o presidente Sisi disseram aos líderes do Hamas que eles teriam que aprovar os termos do acordo de ‘reconciliação’, e que eles correriam o risco de uma destruição completa caso empreendessem qualquer ataque contra Israel.

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O ‘plano de paz’ que o governo Trump vai evidentemente apresentar já provoca o extremo ódio dos líderes ‘palestinos’. O objetivo do ‘plano’ parece ser o de reavivar um ‘processo de paz’ indeterminado, que permita à Arábia Saudita e aos membros da Coalizão Militar Islâmica de Contra-Terrorismo se aproximarem de Israel, jogando a ‘causa palestina’ para o fim da fila.

No dia 19 de novembro, uma reunião de emergência da Liga Árabe no Cairo condenou veementemente o Hezbollah e o Irã. Além do mais, pela primeira vez em cinqüenta anos, uma reunião da Liga Árabe nem sequer mencionou a questão ‘palestina’.

O reconhecimento de Jerusalém como a capital de Israel, feito pelo presidente Trump em 6 de dezembro, causou rebuliço e acrimônia tanto no mundo islâmico quanto nas lideranças da Europa ocidental. Entretanto, os líderes sunitas aliados à Arábia Saudita, bem como a própria Arábia Saudita, parecem suficientemente ocupados com a ameaça iraniana para altercar com Israel, Estados Unidos ou qualquer outro. A Europa ocidental quase não tem peso algum sobre o que está acontecendo; o máximo que tem demonstrado é covardia, medo, e um contínuo desdém por uma democracia que é amiga do ocidente: Israel.

O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, agora no décimo segundo ano de seu mandato de quatro anos – e vendo aparentemente que tem pouco apoio – parece ter ido buscar uma intervenção divina: foi pedir ajuda ao papa. “Não é possível haver um Estado palestino sem a Jerusalém oriental como sua capital”, disse Abbas, dando mostras de que começou a entender que a ‘causa palestina’ pode estar se esvaindo. Não obstante, junto com outros líderes ‘palestinos’, convocou ‘três dias de fúria’. Alguns poucos manifestantes queimaram pneus e bandeiras americanas – o de sempre.

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, pediu à Organização de Cooperação Islâmica para se reunir em Istambul em 13 de dezembro, e compeliu os líderes dos países islâmicos a reconhecerem com urgência Jerusalém como ‘capital ocupada do Estado palestino’. O rei saudita Salman ficou bem à distância, e o mesmo fizeram quase todos os outros líderes sunitas. Ele apenas enviou uma mensagem dizendo que pede uma “solução política para resolver a crise regional”. E acrescentou que os “palestinos têm direito à Jerusalém oriental” – o mínimo que podia fazer, e mais nada fez. Erdogan é apoiado principalmente pelo Irã, que hoje é o mais importante inimigo da Arábia Saudita e de outros países sunitas.

“Não será o fim da guerra contra Israel”, disse o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, “mas pode ser o início do fim da causa palestina”.

Agora parece ser um bom momento para os líderes da Europa ocidental, que ainda apoiam cegamente a ‘causa palestina’, acabarem com suas perdas, tanto políticas quanto econômicas. Ficar do lado de Erdogan e dos mulás, só para apoiar uma organização terrorista que nunca será um ‘Estado’, não vai lhes servir em nada no combate ao terrorismo ou à crescente islamização da Europa.


(Traduzido do artigo original em inglês intitulado “Twilight over the Palestinian Cause”, publicado em 21 de dezembro de 2017 no site gatestoneinstitute.org. O autor, Dr. Guy Millière, é professor na Universidade de Paris e tem 27 livros publicados na França e na Europa.)

A Origem da Canção ‘Noite Feliz’

Autor: John Horvat II
Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

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A música ‘Noite Feliz’ é, de longe, a mais simbólica das cantigas de Natal. É compreensível, assim, que fiquemos a refletir sobre a origem de canção tão extraordinária. Para contar a história de suas origens, precisamos voltar à côrte de Frederico Guilherme da Prússia, o quarto rei com esse nome, logo após sua ascensão ao trono em 1840.

Era véspera de Natal. Em Berlim, o rei e seus cortesãos comemoravam o nascimento de Cristo. O coro da catedral, regido por Felix Mendelsohn, executava uma das peças de seu repertório. A música era ‘Noite Feliz’. O rei ficou bem impressionado pela bela canção e imaginou quem seria o autor. Examinou o programa com a lista de hinos sendo cantados e ficou surpreso ao saber que o autor era desconhecido. O rei da Prússia não podia permitir tal imprecisão.

Imediatamente, assim, após a cerimônia, ele fez o maestro vir vê-lo. Mendelsohn, porém, não foi capaz de iluminar em nada o assunto. Ele então chamou o chefe dos concertos reais, Ludovico, cuja reputação era a de descobridor da origem de canções desconhecidas. Mas, para frustração de Frederico Guilherme, ele também não sabia de nada. O rei então ordenou que Ludovico se virasse para descobrir, porque os livros de hinos da Prússia não podiam ficar em desordem!

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Agora que a sua reputação estava em jogo, Ludovico não tinha escolha senão descobrir quem era o compositor da canção. Escarafunchou as bibliotecas, cidades, principados e reinos daquelas terras que eram a Alemanha de então. Nada encontrou, porém.

Já tinham começado a chamar Ludovico de ‘o caçador de canções’, quando ele reparou no estilo da música, que parecia austríaca. Foi para Viena, mas novamente deu com os burros n’água. Então um velho músico dos tempos de Haydn lhe deu uma dica. Michael Haydn, o irmão do músico famoso, compôs muitas obras que se tinham perdido. “Talvez essa canção de Natal seja uma daquelas?” sugeriu o velho. Era um tiro no escuro, e Ludovico não se sentiu encorajado pela dica. Desistiu da busca e decidiu retornar à côrte.

Na viagem de volta, enquanto descansava em uma hospedaria, ouviu um passarinho em uma gaiola a cantar uma música familiar. Deu um pulo de tão surpreso. Ludovico percebeu que o pássaro cantava aquela música de Natal misteriosa cujo autor ele procurava; estava cantando ‘Noite Feliz!’

“Que foi?” perguntou o estalajadeiro.

“Este pássaro,” respondeu Ludovico. “Quem ensinou esta canção ao pássaro?”

O estalajadeiro não sabia. Mas acrescentou que um amigo tinha comprado o bicho na abadia de Salzburgo, e deixado ali na pousada para diversão dos hóspedes.

A Abadia de Salzburgo! Ludovico se sentiu de repente como aquele caçador que, depois de muitas buscas infrutíferas, encontra alguns rastros frescos na neve. A pista tinha esquentado de novo! Ele sabia que Michael Haydn tinha morado naquela abadia por muitos anos. Era quase certo que a canção era de Michael Haydn. Ludovico não perdeu tempo: mudou os planos de viagem e partiu para a abadia.

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Quando chegou, o chefe dos concertos reais da côrte prussiana foi recebido com todas as honrarias que seu posto merecia. O abade e os monges lhe ofereceram um bom jantar e confortáveis acomodações. Infelizmente, porém, ninguém sabia de onde a canção tinha vindo. Também não acreditavam que o autor fosse Michael Haydn.

Quando o ‘caçador de canções’ lhes contou a respeito do pássaro na gaiola, sugerindo que os monges tinham-lhe ensinado a cantar a música, o abade se mostrou ofendido, já que tais caprichos eram proibidos no mosteiro.

Ludovico examinou, então, todos os manuscritos que havia na cela onde Michael Haydn antigamente trabalhara. E, exatamente como os monges haviam previsto, não encontrou nada. A pista tinha esfriado de novo. Desanimado, Ludovico decidiu retomar sua jornada de volta à côrte prussiana.

Entretanto, por acaso, dentre aqueles que estavam presentes ao jantar oferecido pelo abade, havia um professor chamado Ambrósio Prestainer, que ficou particularmente interessado na estória do pássaro.

“Isto pode ser obra de algum dos meninos do coral da abadia”, matutou ele.

Então, já que o professor conseguia imitar com perfeição o passarinho, ele decidiu tentar um truque para ver se descobria quem havia ensinado esta canção ao animal. Alguns dias depois, ele se ajeitou em uma janela que dava para o pátio interno da escola. E assobiou, imitando o pássaro a cantar ‘Noite Feliz’.

O ardil deu certo, pois logo ele ouviu a voz de um menino: “Ah, passarinho, você voltou!” E um garoto de nove anos de idade veio correndo, saindo da aula. Mas quão surpreso o menino ficou ao ver que tinha caído em uma armadilha!

“Como se chama?”, perguntou o professor.

“Felix Gruber,” respondeu o garoto.

“Muito bem. Diga-me, Felix: onde você aprendeu essa música?”

“Meu pai me ensinou.”

“E de onde ele a tirou?”

“Ele a compôs, senhor.”

Prestainer, sem perder um minuto, foi até a casa do menino em uma vila próxima. Lá ele conheceu o professor de uma escola local, Franz Gruber, que confirmou ter de fato composto a música. Mas a letra, ele disse, tinha sido escrita pelo seu amigo Josef Mohr, que fora pároco na vila de Bagran, e que tinha morrido não fazia muito tempo.

Mal podendo conter a alegria por finalmente ter achado a origem da canção, Prestainer escreveu a Ludovico, “O Caçador de Canções”, contando que sua missão de busca das origens da música tinha acabado. Enviou a Ludovico um relato completo de como a canção surgiu. O relato foi assim:

É véspera de Natal, e a torre da pequena igreja da vila domina as casas cobertas pela neve, como uma galinha que protege seus pintinhos. No presbitério, o jovem Padre Josef Mohr, com 26 anos, se prepara para as cerimônias daquela noite relendo o Evangelho, quando uma batida na porta rompe o silêncio. É uma camponesa que pede ao pároco ajuda para um bebê que acabara de nascer.

Sem demora, o padre deixa o conforto da casa e, depois de uma íngreme subida pela montanha, chega a um casebre humilde onde estava a criança recém-nascida. Ao retornar, as estrelas brilham no céu e o branco da neve reflete sua luz.

Ele começa a refletir sobre a cena que acabara de testemunhar. A criança, o casal de camponeses, o casebre, tudo causou-lhe impressão. Lembravam uma outra criança, um outro casal, uma outra moradia rústica em Belém de Judá.

Após a Missa do Galo, o padre Mohr não consegue dormir. Toma uma caneta e uma folha de papel, e começa a escrever um poema que se tornaria a letra da canção ‘Noite Feliz’.

Na manhã seguinte, o Natal de 1818, o piedoso sacerdote vai atrás de um amigo chamado Franz Gruber, então com 31 anos. Depois de ler o poema, Gruber exclama:

“Padre, era exatamente essa a canção de Natal que eu procurava! Louvado seja Deus!” E naquele mesmo dia ele compôs a música que acompanha a letra.

E assim, dessa maneira singela, imitando os acontecimentos de Belém, nasceu a mais popular e bela canção de Natal de todos os tempos.

FIM.


Traduzido do original em inglês, publicado em dezembro/2016 no site http://www.returntoorder.org/

Sol, Lua e Talia

Autor: Giambattista Basile, século XVI
Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

Era uma vez um grande senhor que foi agraciado com o nascimento de uma filha, a quem deu o nome de Talia. Chamou os homens sábios e astrônomos de suas terras para que predissessem o seu futuro. Encontraram-se e, assessorando-se mutuamente, consultaram seu horóscopo e chegaram à conclusão de que ela correria um grande perigo devido a uma farpa de linho. Seu pai então proibiu qualquer planta de linho, cânhamo, ou qualquer outro material desse tipo em sua casa, esperando assim que escapasse do perigo.

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Um dia, quando se havia convertido em uma bela jovem, Talia estava olhando através da janela e viu passar uma velha mulher fiando. Talia, que nunca tinha visto nem uma roca nem um fuso, quis ver como girava, e era tal a sua curiosidade que pediu à velha mulher que fosse até ela. Tomando a roca em sua mão, a garota começou a fiar o linho. Desgraçadamente, cravou-se uma farpa de linho debaixo da unha de Talia, e ela caiu morta ao solo. Quando a velha mulher viu o acontecido, assustou-se tanto que saiu pelas escadas e está fugindo até hoje.

Tão logo seu desgraçado pai viu o desastre que havia ocorrido, tomou-a e, depois de ser inundado pela tristeza e de derramar rios de lágrimas, tirou dali a belíssima Talia e levou-a até um de seus palácios no campo. Ali sentou-a em um trono de veludo debaixo de um dossel de brocado. Desejando apagar da memória todo o seu infortúnio, fechou todas as portas e abandonou para sempre o palácio onde havia sofrido sua grande perda.

Depois de muito tempo aconteceu que um rei caçava ali por perto. Um de seus falcões escapou de sua mão e voou ao interior do palácio através de uma janela. Como não acudisse ao chamado, o rei teve que bater à porta, crendo que o lugar fosse habitado. Mas ninguém atendeu, e então o rei mandou trazerem uma escada de vindimador, pois desejava descobrir o que havia dentro do palácio. Percorreu todos os quartos, salas e recantos, surpreendendo-se grandemente por não encontrar viva alma. Por fim abriu a porta do quarto onde Talia se achava sob o encantamento e, crendo que apenas dormia, chamou-a. Como ela continuasse inconsciente, ele tentou reanimar a bela moça, pensando que estivesse passando mal, mas não teve sucesso. Sentindo então inflamar-se seu sangue pela beleza dela, carregou-a nos braços, deitou-a na cama, beijou-a e lhe deu todo o seu amor. Deixando-a assim deitada, voltou para o seu reino e para as suas ocupações, e por um longo tempo não pensou mais naquilo que tinha acontecido.

Nove meses depois, Talia deu à luz dois filhos, um menino e uma menina, formosos como duas jóias. Duas fadas apareceram no palácio e cuidaram deles, colocando-os sobre os peitos de sua mãe. Certa vez, querendo mamar e não encontrando o mamilo, começaram a sugar o dedo de Talia. Fizeram-no tão forte que arrancaram a farpa de linho. Talia despertou assim de um longo sono e, vendo seus belíssimos filhos sobre ela, toda contente lhes deu o leite. Os bebês eram a coisa que mais queria na vida.

Talia se viu sozinha no palácio, com os gêmeos ao lado, e não sabia o que tinha acontecido com ela. Mas notou que a mesa estava posta, com comida e bebida, embora não conseguisse ver quem as tinha trazido. Enquanto isso, o rei se lembrou da bela adormecida. Tornou a caçar e, voltando ao palácio, entrou para vê-la e encontrou-a desperta com aqueles dois lindos e alegres bonequinhos. Ele se regozijou como nunca antes na vida.

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Contou a Talia quem era, e como a tinha visto e entrado naquele lugar. Eles então se conheceram melhor, a amizade de ambos imediatamente se estreitou, e ele permaneceu com ela durante alguns dias. Depois desse tempo ele se despediu, prometendo que regressaria para levá-la com ele ao seu reino. E voltou ao seu reino, onde a todo momento tinha nos lábios os nomes de Talia, Sol e Lua – pois era assim que se chamavam seus filhos. Até mesmo quando estava comendo chamava-os pelos nomes. E não dormia nem acordava sem pronunciar seus nomes.

A rainha, vendo que algo estranho havia ocorrido ao seu marido durante a caçada, começou a suspeitar. Percebendo que ele não fazia outra coisa além de chamar pelos nomes de Talia, Sol e Lua, ficou furiosa de ciúmes. Chamou seu secretário e disse-lhe:

– Escuta, meu querido, tu estás entre a cruz e a espada. Se me disseres de quem o rei, meu marido, está enamorado, te farei enriquecer; e se me esconderes a verdade, te farei morrer.

O secretário, por um lado, estava assustado; por outro lado, estava ávido pela riqueza. A avareza e o medo lhe fizeram esquecer a honra, a justiça e a lealdade, e contou-lhe tudo que sabia.

Então a rainha ordenou que o secretário fosse até Talia, e lhe dissesse que o rei queria as crianças no palácio. Talia, com grande contentamento, obedeceu e enviou Sol e Lua pelo secretário, que os entregou nas mãos da rainha. Esta, que era mais venenosa que uma víbora, pediu ao cozinheiro que os matasse e cozinhasse em vários e apetitosos molhos, e os servisse para o rei comer. Mas o cozinheiro, tendo um coração terno, ao ver aquelas duas jóias formosas, sentiu compaixão e os entregou à sua esposa para que cuidasse deles. No palácio, ele preparou dois cordeiros de acordo com cem receitas diferentes.

Quando o rei chegou, a rainha, toda satisfeita, mandou servir a comida. O rei comeu com gosto, exclamando:

– Oh, como isto é bom! Que requinte! Que primor!

E ela, de quando em quando, lhe dizia:

– Come! Pois a carne que comes é tua!

Depois de ouvir isto algumas vezes, o rei se entristeceu e disse-lhe:

– Sei muito bem que eu como a carne que é minha, porque sou rei e tudo é meu, enquanto tu nada trouxeste a esta casa.

E se levantou, e foi dar uma volta pelo seu país para fazer a raiva passar.

Mas à rainha ainda não bastava o que tinha feito, e então ordenou ao secretário que trouxesse Talia ao palácio, com a desculpa de que o rei a esperava. Talia se arrumou, toda contente, e partiu o mais rápido que pôde, pois desejava com todas as forças ver o rei, sem desconfiar do que sua inimiga lhe estava preparando.

Encontrou-se diante da rainha, e esta, com o rosto deformado pela crueldade, disse-lhe com voz perversa e zombeteira:

– Ah! Ah! Bem-vinda, senhora vagabunda! Então tu és a cachorra que enganou o rei! Tu, com esse sorriso insinuante, querias tê-lo todo para ti! Já chega, madame porcina! Chegaste ao teu tribunal, pois agora vou te dar o castigo que mereces!

Talia começou a desculpar-se, dizendo que não era culpa dela, que o rei havia tomado posse das suas coisas enquanto ela estava enfeitiçada, mas a rainha não quis saber das desculpas. Acendeu uma grande fogueira no pátio do palácio, e deu ordens de botar a moça para arder. Ao ver que as coisas iam mal, Talia se ajoelhou diante da rainha e lhe disse:

– Por favor, dá-me tempo ao menos para eu tirar estas belas roupas que uso!

Não por piedade, mas porque queria ficar com aqueles vestidos bordados de ouro e pérolas, a rainha respondeu:

– Está bem, vai te despir!

Talia, então, foi se despir lentamente, e soltava um grito para cada parte da vestimenta que tirava. Tirou o manto, o casaco e a saia. No momento de remover a anágua, lançou um último grito. Depois disto, tomaram-na novamente e prepararam-se para prendê-la na estaca onde a rainha pretendia transformá-la em um montículo de cinzas. De repente, o rei apareceu e, diante daquela cena, mandou que ninguém se movesse. Queria saber o que se passava. Ao perguntar por seus filhos, a cruel rainha lhe disse:

– A isto tu não darás remédio, porque eu te fiz comê-los, e tu adoraste!

Quando o rei ouviu isto, caiu em desespero, chorando e gritando:

– Ai! Meus pobres cordeiros, então eu mesmo fui vosso lobo! Ai! Como é possível que eu não tenha reconhecido vossas carnes que tanto cheguei a acariciar? E tu, bruxa pérfida e renegada, como é que pudeste ser mais feroz do que bestas selvagens? Mas eu não te darei tempo nem para que peças perdão pelos teus pecados!

E ordenou que a rainha fosse queimada na fogueira que havia preparado para Talia, fazendo queimar também o secretário, seu cúmplice. Mandou queimar até o cozinheiro, por haver picado e cozinhado os seus filhos. Mas o cozinheiro se atirou aos seus pés e disse:

– Senhor, seria uma fogueira a recompensa pelo serviço que prestei a ti? Farás festa de mim, enquanto sou assado preso a uma estaca? É este o bom lugar que me darás, em uma grelha com a rainha? Eu esperava algo melhor por ter salvado as tuas crianças, desobedecendo àquele coração de pedra que queria te fazer comê-las!

Ao ouvir estas palavras, o rei ficou atônito. Pensou estar sonhando, porque não podia crer no que seus próprios ouvidos lhe diziam. Voltou-se então para o cozinheiro e lhe disse:

– Se é verdade que salvaste os meus filhos, então estejas seguro de que te impedirei de girar no espeto, e te darei o poder de fazer girar o meu coração, porque quero contentar-te em todos os teus desejos, e te darei uma recompensa tão grande que serás o homem mais feliz do mundo!

Enquanto o rei pronunciava estas palavras, a esposa do cozinheiro, que tinha visto seu marido em perigo, trouxe Sol e Lua. O rei abraçou-os juntamente com Talia e, chorando de alegria, não se fartava nunca de beijá-los e acariciá-los.

Depois de haver destinado uma grande renda ao cozinheiro, e de havê-lo nomeado camareiro-mor do palácio, o rei se casou com Talia, que viveu feliz e contente para sempre com seu marido e filhos, depois de ter experimentado que até mesmo dormindo é possível ser favorecida com a sorte.


Traduzido das versões italiana e espanhola:
http://www.alaaddin.it/_TESORO_FIABE/FA_1996/FA_XVII_Sole_Luna_Talia.html
https://bibliotecadeloscuentos.wordpress.com/2016/02/20/sol-luna-y-talia/

Sede da Sabedoria

Autor: Michael Hichborn
Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

“Deus pode criar uma pedra tão pesada que nem Ele mesmo pode erguer?”, pergunta em sua essência uma antiga charada medieval.

À primeira vista a questão parece bastante absurda, pois afinal Deus é onipotente: Ele pode fazer qualquer coisa. Porém, quando consideramos as possibilidades, parece impossível responder afirmativamente à pergunta – por qualquer ângulo que se tente.

Deus pode criar qualquer coisa que deseje, de modo que é óbvio que Ele pode criar um objeto infinitamente pesado. Entretanto, Deus é também todo-poderoso, de maneira que Ele pode erguer qualquer coisa que crie. Portanto, qualquer que seja a resposta à questão, ou Ele não consegue criar a pedra, ou Ele não consegue erguê-la.

Ao longo dos séculos os filósofos tentaram encarar de frente a questão. São Tomás de Aquino afirma, por exemplo, que a origem do paradoxo é um mau entendimento ou um abuso da palavra “onipotência”. Na questão 25 da primeira parte da Suma Teológica, o Doutor Angélico diz:

As coisas, porém, que implicam contradição não constituem objeto da divina onipotência, por não poderem ter a natureza de coisas possíveis. Por isso, é mais conveniente dizer que não podem ser feitas, em vez de dizer que Deus não pode fazê-las. Nem isto vai contra as palavras do Anjo: Porque a Deus nada é impossível. Pois, o contraditório, não podendo ser conceito, nenhum intelecto pode concebê-lo.

Em outras palavras, uma contradição sempre implica uma impossibilidade, não importando se Deus é ou não o agente principal no experimento teórico proposto.

C.S. Lewis, ao invés de examinar a charada pelo critério lógico, enfrentou-o como um problema de definição. Em seu livro “A Grief Observed” [Uma Dor em Observação], Lewis escreveu:

Um mortal consegue fazer perguntas que Deus não pode responder? É bem fácil, eu diria. Todas as perguntas nonsense são irrespondíveis. Quantas horas há em um quilômetro? O amarelo é quadrado ou redondo? É provável que metade das questões que levantamos – metade de nossos grandes problemas teológicos e metafísicos – sejam assim.

O Natal já está aí às portas, e nós temos a chance de considerar a questão sob uma outra luz. Já peço desculpas a esses grandes pensadores maiores do que eu, mas humildemente venho aqui propor que não apenas Deus pode criar um objeto tão grande que não possa levantar, como já o fez.

Os grandes pensadores com certeza responderam à questão em seu valor de face, apontando a falta de sentido e de lógica que ela contém. Entretanto, com alguma compreensão das duas naturezas de Deus, notamos que há um elemento que não está sendo considerado.

A Santíssima Virgem Maria é o pináculo da criação de Deus, perfeita em todos os sentidos, sem mancha, e literalmente cheia da Graça Divina. Deus criou Maria para ser a ponte de perfeição entre Ele próprio e o homem. Sem a perfeição dela, não poderia haver uma passagem da divindade para a humanidade. E por meio do “faça-se” de Nossa Senhora, Deus se tornou homem: Nosso Senhor foi concebido em seu ventre.

Naquele exato instante, Nosso Senhor Bendito, que tem duas naturezas, se encontrava em total presença no ventre de Maria. Jesus é 100% Deus e 100% homem.

Sendo Deus, pelo poder do Espírito Santo, Ele se fez homem. E uma vez encarnado no ventre na Puríssima Virgem Maria, Ele se tornou completamente dependente dela para manter Sua vida e Seu sustento. Na verdade, depois de nascido, Ele não somente não podia erguê-la, mas pela primeira vez em toda a história humana, um ser humano foi capaz de olhar para BAIXO e ver o rosto de Deus.

Ao erguer o Cristo Menino para colocá-lo sobre seus joelhos, Nossa Senhora se tornou a Sede da Sabedoria.

Deus criou Maria… mas ao se fazer encarnado no ventre dela, Ele ao mesmo tempo criou algo (ou melhor, alguém) tão grande no tempo e no espaço, que nem Ele podia erguer.

(Traduzido do original publicado em 22/dezembro/2017 no “Catholic Week in Review”, boletim semanal do Instituto Lepanto.)

O Papa Francisco é um Protestante Esquerdista?

Autor: Gerald McDermott[*]
Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

“O papa é católico?” Por mais de um século, era assim que nós os anglicanos brincávamos a respeito de qualquer coisa que parecesse muito óbvia. Mas agora precisamos perguntar – a sério – se o papa é ou não um protestante esquerdista.

No começo deste mês, um teólogo americano foi pressionado a pedir demissão de seu cargo de conselheiro teológico na Conferência dos Bispos Católicos dos EUA (USCCB). O que o Pe. Thomas Weinandy fez para merecer esta reprimenda pública? Ele tornou pública uma carta de julho ao papa, na qual ele acusava o Santo Padre de estar causando uma “confusão crônica”. A exortação apostólica Amoris Laetitia, escrita pelo papa, é “intencionalmente ambígua” em temas importantes de moral e doutrina. Ela “corre o risco de pecar contra o Espírito Santo, o Espírito da verdade”, e “diminui a importância da doutrina cristã” ao incentivar mudanças no ensino tradicional católico a respeito do matrimônio e do divórcio. O papa “ressente-se” com as críticas, e “zomba” daqueles que contestam a Amoris Laetitia chamando-os de “fariseus atiradores de pedras”.

Eu, sendo alguém de fora, não posso deixar de me perguntar se o papa e a USCCB não se sentiram especialmente provocados pela sugestão, feita por Weinandy, de que Jesus permitiu esta polêmica com a intenção “tornar manifesta a fraqueza de fé de muitos dentro da Igreja, mesmo entre muitos de seus bispos”. Os católicos que se decidam – mas eu admito que tenho muitas dúvidas a respeito da fé do papa Francisco, a qual parece, se não fraca, ao menos diferente daquela que se acha na tradição católica.

Antes mesmo da publicação de Amoris Laetitia em março de 2016, Francisco já tinha levado muitos a duvidarem de sua fidelidade a esta tradição. Em 2014, o relatório intermediário do Sínodo Extraordinário da Família recomendava aos pastores enfatizarem os “aspectos positivos” da coabitação e de um novo casamento civil após um divórcio. Ele afirmou que a multiplicação dos pães e peixes, feita por Jesus, era na verdade um milagre de partilha, e não de multiplicação (2013); disse a uma mulher que ela podia receber a Sagrada Comunhão mesmo sendo casada invalidamente (2014); postulou que as almas perdidas não vão para o inferno (2015); e afirmou que Jesus havia suplicado o perdão de seus pais (2015). Em 2016, ele disse que Deus havia sido “injusto com Seu filho”, anunciou suas orações pela intenção de construir uma sociedade que “coloque a pessoa humana no centro”, e declarou que a desigualdade é “o maior mal que existe”. Em 2017, fez uma piada: “no interior da Santíssima Trindade eles discutem a portas fechadas, mas externamente dão a impressão de unidade”. Jesus Cristo, afirmou, “se fez de diabo”. “Nenhuma guerra é justa”, pronunciou. Ao final da história, “tudo será salvo. Tudo”.

Weinandy e outros críticos católicos já destacaram afirmações e sugestões alarmantes na própria Amoris Laetitia. A exortação declara que “ninguém pode ser condenado para sempre, porque esta não é a lógica do Evangelho!” Em dezembro de 2016, os filósofos católicos John Finnis e Germain Grisez argumentaram em “Abusando de Amoris Laetitia” que, muito embora essa afirmação reflita uma tendência entre pensadores católicos desde Karl Rahner e Hans Urs von Balthasar, ela contradiz as claras afirmações dos Evangelhos e os ensinamentos tradicionais católicos: há sim “punição sem fim” no inferno. Finnis e Grisez criticam o raciocínio de Amoris Laetitia quando afirma que alguns fiéis são muito fracos para obedecer os mandamentos de Deus, e que podem viver em estado de graça mesmo cometendo, habitual e continuamente, pecados “em matéria grave”. Imitando o que Joseph Fletcher – um episcopaliano – ensinava em suas aulas de “ética situacional” em 1960, a exortação sugere que há exceções em todas as regras morais, e que simplesmente não existe algo como um “ato intrinsecamente mau”.

Não sinto prazer com a agonia de Roma. Por décadas, os anglicanos ortodoxos e outros protestantes em luta para resistir às apostasias do cristianismo esquerdista acostumaram a olhar para Roma em busca de apoio moral e teológico. A maioria dos anglicanos reconhecia estar lutando contra a revolução sexual, que se apropriou da Igreja Episcopal – e também da sua matriz do outro lado do oceano – e corrompeu-a. Primeiro foi a santidade da vida e a eutanásia. Depois foi a prática homossexual. E agora o casamento gay e a ideologia transgênera. Durante os pontificados de João Paulo II e Bento XVI, nós que não somos católicos e estávamos debatendo teologia moral podíamos nos apoiar em argumentos embasados e convincentes emanando de Roma e dizer: com efeito, “a porção mais velha e maior do corpo de Cristo concorda conosco, e o faz com notável sofisticação.”

Aqueles de nós que continuam a lutar pela ortodoxia, tanto em teologia dogmática quanto em teologia moral, sentem falta dos dias em que havia um farol claro brilhando do outro lado do Tibre. Porque agora, ao que parece, até Roma foi infiltrada pela revolução sexual. O centro não está aguentando[**].

Embora perturbados, nós não devemos desesperar. Pois a demonstração de coragem e de princípios feita por Tom Weinandy nos recorda que Deus acende luzes proféticas quando dias obscuros rondam a Sua Igreja.


[*] Traduzido do artigo original “Is Pope Francis a Liberal Protestant?”, escrito por um teólogo anglicano e publicado em novembro/2017 na revista First Things.

[**] No original: “the center is not holding”. A frase é do poema “The Second Coming”, publicado em 1920 pelo poeta irlandês William Butler Yeats.