O Roteiro Feminista de Vida e as Mulheres Infelizes

Autora: Joy Pullmann (*)
Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

A nossa cultura é tão saturada de feminismo que até mesmo as pessoas conservadoras e devotamente religiosas como eu não conseguem raciocinar fora dos sulcos que as suas rodas criaram. Isto não seria um problema se o feminismo não fosse, graças à visão falsa da natureza humana, diametralmente oposto ao florescimento humano, tanto individual quanto coletivo.

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Mesmo com as evidências se acumulando de desgosto em desgosto, muitas mulheres continuam se entregando à dissonância cognitiva. Nós todos queremos crer que somos excepcionais, que os padrões do comportamento humano não se aplicam a nós; que coisas ruins aconteceram a outras pessoas que fizeram as mesmas coisas que nós fazemos ou queremos fazer, mas estas coisas ruins não vão acontecer também conosco. Somos especiais. Somos diferentes.

A recusa em aprender com a história e com a experiência apenas dessensibiliza as pessoas para a realidade que lhes bate na cara, e da qual precisam para tomar decisões mais inteligentes e viver melhor. Ter em mente que a experiência e a sabedoria dos seres humanos ao longo do tempo pode pesar no nosso comportamento presente permite uma forma de diagnóstico e tomada de decisões que utiliza bilhões de pontos de amostragem acumulados. Sim, é preciso ter humildade para julgar se as suas condutas e pressuposições são equivocadas, mas você deixa de marcar pontos no feminismo para colher cem vezes mais numa vida abundantemente feliz. Como é que eu sei? Aconteceu comigo.

Comecei a abandonar o feminismo no dia em que vi um teste de gravidez

Fui premiada com uma gravidez não planejada e não desejada. Éramos casados, mas eu fiquei arrasada, porque o que eu queria era fazer o que todo mundo dizia que se deve fazer: sair da faculdade e me concentrar imediatamente na carreira. Eu e o meu marido chamamos o bebê de “nosso bolo de frutas”: um mimo com o qual ninguém sabe exatamente o que fazer. Um bebê enjoado que mereceu ficar com este apelido por dois anos. Agora, não lhe cabe mais.

Com o tempo, eu aprendi que, em vez de ter me angustiado com este milagre, devia ter ficado – e acabei ficando, devagar – profundamente grata. Este menininho me salvou, mostrando-se lentamente na minha vida como uma flor rara e preciosa. Mais uma pétala se abriu esta semana: eu li dois relatos recentes de mulheres com as quais eu me pareceria muito mais se tivesse descoberto antes um jeito de esterilizar o meu útero, que era o que eu planejava.

Uma mulher de 35 anos escreveu no mês passado, imensamente angustiada, para a coluna de conselhos do The Cut, tornando-se uma das histórias mais lidas dos últimos tempos. Ela começou na vida como uma “inovadora” na costa oeste, pulando de cidade em cidade e de namorado em namorado: pode parecer glamouroso, mas hoje, em retrospectiva, ela vê o desperdício de potencial para formar uma família.

Eu não tenho familiares por perto. Nenhum relacionamento construído sobre anos de amadurecimento mútuo e experiências partilhadas. Nenhum filho. Amigos eu faço, facilmente, mas já deixei quase todos eles para trás; cada vez que eu me mudei para outras cidades, eles continuaram a criar raízes profundas: casamentos, propriedades, carreiras, comunidades, famílias, filhos. Tenho poucas amigas íntimas. Sou grata por elas, mas a vida prossegue cada vez mais atarefada, e hoje ficamos meses sem conversar. Grande parte das noites eu passo sozinha com o meu gato (olhe o clichê)…

A minha apatia está se manifestando de modos estranhos. Eu bebo demais, e, quando aparece a ocasião de encontrar os meus amigos, acabo ficando bêbada e irritada, ou triste (ou as duas coisas), e afastando-os. E eu sinto, com os homens que namoro, um ímpeto de obter algo cedo demais da relação – morar junto, me casar, ‘preciso ter filhos em dois ou três anos’; momentos divertidos! Tudo isto enquanto tento ser a gostosa de 25 anos que eu imaginava ser até pouco tempo atrás.

Eu pensava que era uma sabe-tudo. Vida de aventuras na cidade! Viajar o mundo! Criar recordações! Me sinto incrivelmente vazia agora. E tola.

A colunista respondeu com empatia e papo de auto-estima, mas não reconheceu e nem corroborou a verdadeira perda desta mulher. Aos 35 anos, a fertilidade feminina começa uma queda livre até a menopausa. É a idade na qual os médicos classificam uma gravidez como de alto risco, o que significa que a mulher tem maiores chances de complicações, que só aumentam à medida que a idade avança; são maiores também as chances de intervenção médica durante a gravidez e o parto, com mais riscos para a mãe e para a criança.

Assim, com toda a probabilidade, esta mulher já perdeu a capacidade de ter mais de um filho; se ela tiver sorte, pode conseguir um, apesar da falta de potencial para tal no horizonte em vista. Lembre que são precisos dois anos para ter cada bebê e se recuperar dele. Portanto, se você quer dois filhos, precisa de pelo menos cinco anos de fertilidade para tê-los. Se quer três filhos, precisa de pelo menos sete anos de fertilidade.

Subtraia isto de 35, e você obtém 28. Hoje, esta é a idade média para o primeiro casamento das mulheres, mas em geral elas não se casam pensando imediatamente em garantir ao menos um bebê. Isto quer dizer que milhões de casais estão, sem necessidade, arrumando encrencas para ter filhos, simplesmente por não escolherem os melhores momentos para tê-los.

Afastando as mulheres do nosso sonho americano

Hoje, 86% dos americanos querem ter pelo menos dois filhos. Mas adiar o casamento, e colocar a universidade e a carreira em primeiro lugar, faz com que eles não vivam à altura dos seus sonhos familiares. O New York Times registrou em fevereiro que “a distância entre o número de filhos que as mulheres dizem querer (2,7) e o número de filhos que provavelmente terão de fato (1,8) já é a maior em 40 anos.” Isto está criando um número cada vez maior de mulheres profundamente, irreparavelmente frustradas, como ilustra não apenas a escritora do The Cut, mas uma outra mulher esta mesma semana.

Uma mulher de carreira, com 50 anos e quatro diplomas universitários, ligou recentemente para o programa de rádio do Dennis Prager. Seu conselho para as mulheres jovens pode ser resumido no seguinte: não façam o que eu fiz. “Fui programada para entrar no mercado de trabalho, competir com os homens e ganhar dinheiro,” disse ela. “Supostamente seria uma vida de realizações. Mas quem me disse isto foi uma mãe feminista, divorciada, e que odiava o marido – meu pai.”

…é solitário ver os seus amigos tendo filhos, saindo de férias, planejando as vidas dos filhos, e você não tem mais nada para fazer à noite exceto ir para casa, para os seus cães e gatos…

Quando você envelhece e mora sozinha, surgem outras preocupações. Quem vai levá-la ao médico? Se alguma coisa lhe acontecer, não haverá outra renda para ajudá-la. São estas coisas que você não compreende quando tem os seus 20 e poucos anos; você não imagina que algum dia vai ficar velha e ter problemas de saúde…

Quero dizer às mulheres: encontrem alguém quando tiverem 20. Então vocês ainda são muito lindas. Então vocês ainda acham agradável resolver as coisas com alguém. Será muito mais difícil, quando chegarem nos 50 e já tendo morado sozinhas, vocês se comprometerem com alguém, terem alguém dentro de casa; cada mínimo detalhe deles é irritante, acostumadas que estão a serem sozinhas.

O famoso (ou infame) psicólogo e guru dos conselhos Jordan Peterson ouve isto o tempo todo das suas clientes femininas mais inteligentes e motivadas. Quando têm os seus 20 anos, elas acham que querem a carreira. Mas quando chegam aos 30, elas começam a perceber que também querem uma família, e que isto lhes é, na verdade, mais importante do que as marcas abstratas nos degraus de alguma carreira. Neste ponto, porém, dados os caprichos de encontrar alguém, de passar pelo casamento e de chegar depois na reta final da gravidez, é muito mais difícil que elas consigam a vida desejada.

Um dos vídeos populares de Peterson se chama “Mulheres de 30,” e contém comentários que ele repete em outros lugares.

“De fato não é evidente para mim que as mulheres jovens da nossa sociedade sejam informadas da verdade sobre como as suas vidas provavelmente serão,” diz ele. “Ensinam a elas, tanto de modo explícito quanto de modo implícito, que ficarão interessadas em primeiro lugar na busca de uma carreira dinâmica; há alguns sérios problemas com isto… A minha experiência tem sido a de que as mulheres de alto desempenho, quando chegam aos 30, decidem que o relacionamento e a família são as coisas mais importantes na vida.”

Peterson argumenta que a nossa sociedade “mente para as mulheres,” e ele tem razão. Somos instruídas a “buscar a nós mesmas” e procurar a felicidade em quase todos os lugares, menos onde a história humana já demonstrou que iremos colhê-la de modo mais generoso. O que ele não menciona aqui (nem em outros lugares, até onde eu vi) é a associação destas mentiras com os problemas de fertilidade, que tanta tristeza causam às mulheres.

Geralmente não é fácil encontrar alguém para casar, e mais do que um em cada dez casais experimentam infertilidade. Os problemas de infertilidade, além disto, aumentam e ficam mais difíceis de resolver com a idade. Aquele namorado que você descartou aos 25, porque “ainda não se achava pronta para casar,” não estará por perto aos 30, ou 35; os substitutos dele também já estarão sumindo de vista nesta idade.

A beleza feminina atinge o pico por volta dos 20 anos, e não surpreende que coincida (de um ponto de vista biológico) com a sua fertilidade. Eis um gráfico feito com dados do site OKCupid, mostrando a idade em que os homens acham uma mulher mais atraente:

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Aaron Renn, que postou este gráfico na sua lista de e-mail Masculinist, resume assim uma montanha de informações relacionadas ao romance e aos sexos: “Para a média das mulheres, a beleza geral provavelmente atingirá o pico por volta dos 25 anos, quando começará a decair então por praticamente o resto da vida. Para os homens, a aparência também entra em declínio. Mas o seu poder, status, dinheiro, começam no baixo e sobem com o tempo, compensando (ou às vezes mais do que compensando) por um certo tempo a perda na aparência… Na juventude, as mulheres estão na sua melhor forma, e os homens estão ainda se aprimorando. Daí que a mulher, em média, tenha muito mais poder de atração que o homem, em média. Quando chegamos aos 30 anos, esta situação começa a se inverter.”

Isto quer dizer que as mulheres detêm o maior poder de barganha nupcial por volta dos 20 anos. A estratégia feminina mais inteligente, portanto, é casar cedo, e se amarrar num marido antes que precisem competir com mulheres mais jovens e sexy. É exatamente o oposto do que a nossa sociedade manda as mulheres fazerem. Ela manda as mulheres fazerem a mesma coisa que os homens fazem. Mas as mulheres não são homens. Os nossos corpos são diferentes, a nossa fertilidade é diferente, as nossas prioridades são diferentes. Logo, enquanto os homens conseguem se recuperar (e até mesmo se beneficiar) de um casamento tardio, as mulheres em geral são extremamente prejudicadas por ele.

Nós, mulheres, necessitamos de um roteiro de vida próprio; merecemos um que se ajuste em nós. Para construir um, precisamos conhecer e precisamos que nos contem a verdade sobre aquilo que faz as mulheres felizes, aquilo que as mulheres querem com toda a força na vida, e os limites biológicos para realizarmos os nossos sonhos. Precisamos, depois, agir sobre este conhecimento para dar à luz os nossos sonhos.

Você pode dar sorte, como eu, e ter um bebê-surpresa precoce que transforme todos os seus planos de vida em algo melhor. Entretanto, se eu fosse você, não esperaria por um milagre. Eu sairia e arrumaria um de propósito.


(*) Tradução do artigo publicado em dezembro de 2018 na revista The Federalist. O link para o artigo original: https://thefederalist.com/2018/12/11/the-feminist-life-script-has-made-many-women-miserable-dont-let-it-sucker-you/

A Culpa Está Matando o Ocidente desde Dentro?

Autor: Giulio Meotti[1]
Tradução: André Carezia

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De acordo com o professor Bruce Gilley, uma ‘sensação de culpa’ pelo colonialismo está degradando o ocidente de dentro para fora, e regimes autoritários como Irã, Rússia, China e Turquia estão lucrando com esta fraqueza.

Os romanos chamavam de damnatio memoriae: a condenação da memória que resultava na destruição dos retratos dos imperadores decaídos, e até dos seus nomes. O mesmo processo está agora em curso no ocidente em relação ao seu passado colonial. A elite cultural no ocidente parece hoje tão assombrada por sentimentos de culpa imperialista que não tem mais a certeza de que a nossa civilização é um motivo de orgulho.

O sentimento de culpa parece agora uma espécie de religião substituta pós-cristã que seduz muitos ocidentais. O estudioso francês Shmuel Trigano sugeriu que esta ideologia está transformando os ocidentais em “sujeitos pós-coloniais” que já não crêem mais em sua própria civilização, e sim naquilo que vai destruí-la: o multiculturalismo. Na França, por exemplo, lançou-se um manifesto por uma “república multicultural e pós-racial.” O resultado será, nas palavras do antropólogo Jean-Loup Amselle, uma “guerra de identidades” e conflitos entre as comunidades. Jeremy Corbyn, líder do Partido dos Trabalhadores britânico, disse no mês passado que se eleito primeiro-ministro iria ordenar que o Museu Britânico devolvesse para a Grécia os mármores de Elgin, o friso que um dia envolveu o Partenon em Atenas e uma das maiores atrações do Museu Britânico. “Toda esta campanha é uma completa demência,” escreveu Richard Dorment. É uma demência, contudo, que se espalha por toda a Europa.

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O presidente francês Emmanuel Macron anunciou que deseja modificar as normas que tornam intocáveis as coleções públicas francesas, permitindo o retorno à África de dezenas de artefatos históricos que hoje ficam no Museu do Louvre. Macron já incumbiu dois comissários – o escritor senegalês Felwine Sarr e o especialista em arte Bénédicte Savoy – de prepararem um relatório.

A Tanzânia solicita a devolução do famoso esqueleto de um Braquiossauro pré-histórico, a principal atração do Museu de História Natural em Berlim. Novas regras a respeito da restituição de “objetos coloniais” foram anunciadas pela ministra da cultura da Alemanha, Monika Grütters.

A maioria dos historiadores hoje é favorável à campanha pela devolução destes objetos. David Olusoga é um deles. Historiador de origem nigeriana, ele alega que estes artefatos coloniais são “roubos” cometidos pelas potências coloniais da época. Opinião diversa tem Zareer Masani, um historiador de origem indiana. Escrevendo para o The Telegraph, ele afirma que foram os colonizadores que tiveram um papel decisivo na preservação das antigüidades da civilização:

“Foi a dedicação deles, freqüentemente com enormes sacrifícios pessoais, que desvendou as maravilhas de muitas civilizações clássicas perdidas… A realidade é que não temos nenhuma idéia do que aconteceria com as antigüidades ‘saqueadas’ pelo mundo se não tivessem sido preservadas em coleções do ocidente. Será que os tesouros do palácio de verão de Pequim teriam sobrevivido à revolução cultural de Mao? Será que os mármores de Elgin teriam sobrevivido aos guias turísticos turcos, que quebravam pedacinhos para vender como souvenir? Será que o Daesh [Estado Islâmico] teria poupado os artefatos que sobrevivem nos museus europeus?”

Em 1969, a BBC levou ao ar “Civilization”, uma série de Kenneth Clark que explorava a arte e a cultura ocidentais. A civilização, então, era algo a ser glorificado. Em 2018, a BBC colocou no ar uma nova versão do clássico de Clark, “Civilizations” – note o plural. “Este ano, a versão século XXI do consagrado programa vai lançar um olhar crítico à história da civilização britânica, questionando se foi construída mediante ‘o saque e a fraude’ e quem são, de verdade, os bárbaros,” escreve Hannah Furness no The Telegraph. Um dos novos apresentadores é David Olusoga, o historiador que chamou os mármores de Elgin “um claríssimo caso de roubo”.

Há trinta anos, num livro, “As Lágrimas do Homem Branco”, o filósofo francês Pascal Bruckner escreveu que “o crítico fanático que denuncia sem interrupção e sem remorso as mentiras da democracia parlamentar é repentinamente arrebatado pela admiração diante das atrocidades cometidas em nome do Corão, das Vedas, do Grande Timoneiro…” Desde então, as elites ocidentais já desculparam muitos crimes cometidos em nome do Islã político, como se fossem conseqüências de nossos próprios crimes coloniais.

Quando os cristãos no Iraque foram exilados, assassinados ou perseguidos en masse pelo chamado Estado Islâmico, o ocidente quedou em silêncio – como se esses cristãos fossem os agentes do colonialismo ocidental, e não os habitantes legítimos e mais antigos do Oriente Médio, muito antes dos árabes se converterem ao Islã. Quando uma turba destruiu o Instituto Francês no Cairo, queimando livros e coleções, aqueles que agora querem devolver os “artefatos coloniais” quedaram em silêncio. Quando o presidente Rouhani do Irã visitou Roma, as autoridades italianas cobriram as estátuas nuas nos Museus Capitolinos. Será que estamos encobrindo a nossa própria cultura para agradar o mundo islâmico?

Infelizmente, o que estamos “devolvendo” não são apenas os artefatos coloniais, mas o nosso orgulho mesmo da civilização ocidental. Uma nova “condenação da memória” está ocorrendo em nossos próprios museus, academia e classes falantes – e tem profundas repercussões em nossa capacidade de lidar com os inimigos da civilização. “O material pós-colonial fornece um combustível importante para o jihadismo,” declarou o estudioso de Islamismo mais importante da França, Gilles Kepel.

The Monuments Men”[2] é um filme feito em 2014 por George Clooney. É sobre um grupo de curadores ocidentais e especialistas em arte que viajam à Europa para resgatar obras-primas roubadas pelos nazistas. Foi uma estória de bravura e clareza moral ocidental durante a 2a. Guerra Mundial. Em 2015, o Estado Islâmico destruiu Palmira, uma das mais importantes cidades do mundo antigo. Mas o ocidente assistiu passivamente a esta destruição cultural, e nenhum “caçador de obra-prima” foi enviado para salvar Palmira e outros sítios ameaçados. Os russos, tirando vantagem da passividade do ocidente, entraram em Palmira; o maestro mais famoso da Rússia, Valery Gergiev, durante a apresentação de um concerto triunfal na arena de Palmira, disse: “Protestamos contra os bárbaros que destruíram monumentos maravilhosos da cultura mundial”. Daí os ocidentais recriaram em Londres uma cópia vulgar do arco de Palmira.

Cadê os nossos caçadores de obras-primas de hoje?


Notas:

[1] Traduzido do original publicado em 1/julho/2018 no site do Gatestone Institute. O autor Giulio Meotti é jornalista italiano e editor de cultura do jornal Il Foglio. Link para o artigo original: https://www.gatestoneinstitute.org/12569/guilt-museums-artifacts

[2] Lançado no Brasil com o título “Caçadores de Obras-Primas”

 

Tirania e abuso sexual na Igreja Católica: uma tragédia jesuíta

Autor: John R. T. Lamont[*]
Tradução: André Carezia

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Em vista das novas revelações sobre abusos sexuais na Igreja, muitos católicos querem saber como é possível que a situação mostrada por essas revelações viesse a se instalar. A primeira pergunta já vem de longa data: por que os bispos, ao invés de remover os predadores sexuais de seus ministérios, escondem os seus crimes e transferem-nos para novos postos? Nenhuma resposta satisfatória foi dada a esta questão ainda. E agora ela se tornou mais grave por causa de uma segunda pergunta: como é que nomeiam Theodore McCarrick arcebispo de Washington e cardeal, e ainda o fazem planejador-mor da política de abuso sexual dos bispos americanos em 2002, sendo que o seu envolvimento nos abusos sexuais era amplamente conhecido nos círculos clericais e já tinha sido levado ao conhecimento da Santa Sé?

Estas coisas não acontecem por causa da lei da Igreja. Até o dia 27 de novembro de 1983, a lei em vigor na Igreja Latina era o Código de Lei Canônica de 1917. O cânon 2359 deste código, no parágrafo 2, decretava que se os clérigos cometessem, com menores de 16 anos, uma ofensa ao sexto mandamento do decálogo, eles deveriam ser suspensos, declarados infames, destituídos de qualquer cargo, benefício, dignidade ou posto que ocupassem; nos casos mais sérios deveriam ser laicizados.

Este cânon foi substituído pelo cânon 1395 do código de 1983, que no parágrafo 2 declara: ‘o clérigo que de outro modo tenha cometido delito contra o sexto mandamento do Decálogo, […] com menor abaixo de dezesseis anos, seja punido com justas penas, não excluída, se for o caso, a demissão do estado clerical.’ O código de 1983 trata os crimes do tipo cometido pelo cardeal McCarrick no cânon 1395, parágrafo 2: ‘O clérigo que de outro modo tenha cometido delito contra o sexto mandamento do Decálogo, se o delito foi praticado com violência, ou com ameaças, ou publicamente, ou com menor abaixo de dezesseis anos, seja punido com justas penas, não excluída, se for o caso, a demissão do estado clerical.’ Esses cânones não dispõem essas punições como opcionais; eles obrigam que tais crimes sejam punidos pela autoridade eclesiástica. A pergunta então agora é outra: por que as autoridades eclesiásticas violaram a lei e não cumpriram esses cânones?

Sem dúvida uma porção de fatores se juntou para produzir esta situação desastrosa. Um fator, porém, não foi ainda amplamente discutido ou compreendido, mesmo tendo um efeito primário na geração da situação escandalosa que ora prende a nossa atenção. Tal fator é a influência dentro da Igreja de um conceito de autoridade como uma forma de tirania, ao invés de se basear na lei e de ser constituída por ela. Este ensaio apresenta a natureza desse conceito, descreve como ele veio a se tornar influente, e explora alguns de seus resultados mais significativos.

As origens intelectuais desse conceito de autoridade e obediência se encontram principalmente na teologia e filosofia nominalista. Guilherme de Ockham, notoriamente, tomou partido de um dos lados do dilema de Eutífron ao afirmar que as ações boas são boas simplesmente por serem ordenadas por Deus, e que Deus poderia tornar bons a idolatria, o homicídio, a sodomia, e mau o abster-se dessas ações, se Ele ordenasse que elas fossem praticadas. Este conceito de autoridade divina dá força a uma compreensão tirânica da autoridade em geral: ela se basearia na vontade arbitrária daquele que detém o poder, ao invés de se basear na lei.

Uma compreensão da autoridade baseada na lei, por outro lado, sustenta que a lei derivada da natureza do bem é que é a fonte da autoridade de um líder, e delimita a esfera na qual um líder pode emitir ordens. Os estudiosos há muito tempo sabem que o domínio do pensamento nominalista no século quatorze deixou marcas no pensamento católico por vários séculos; importantes teses nominalistas permaneceram incrustadas mesmo em estudiosos que se acreditavam defensores das tradições anti-nominalistas. A natureza da autoridade era uma dessas teses. Todos os teólogos e filósofos católicos durante a contra-reforma sustentavam que a obrigação moral e legal devia ser compreendida como conseqüência da ordem de um superior; [Francisco] Suárez, caracteristicamente, descrevia a lei como ‘o ato pelo qual um superior deseja obrigar um inferior a desempenhar uma ação específica.’

Um dos principais objetivos da contra-reforma era a restauração da disciplina entre os clérigos e os religiosos. As teorias sobre a lei e a autoridade que guiaram essa restauração se distinguiam da posição puramente nominalista, mas estas distinções se perderam quando os princípios práticos de treinamento em obediência foram concebidos. Estes princípios incorporaram uma compreensão tirânica da autoridade, e uma compreensão servil da justa obediência, no sentido de que consistiam na total submissão à vontade do superior. A mais influente formulação destes princípios aparece nos escritos de Santo Inácio de Loyola sobre a obediência. Os elementos centrais da noção de autoridade inaciana são os seguintes:

  • A mera execução da ordem de um superior é o grau mais baixo de obediência, e não merece o nome de obediência, nem constitui um exercício da virtude da obediência.
  • Para que mereça ser chamado de virtude, um exercício de obediência deve alcançar o segundo grau da obediência, que consiste em não apenas fazer o que o superior ordena, mas conformar a vontade à do superior; assim, não apenas se deseja obedecer uma ordem, mas se deseja que aquela ordem específica seja dada – simplesmente porque o superior a deseja.
  • O terceiro (e mais elevado) grau de obediência consiste em conformar não apenas a vontade mas também o intelecto à ordem do superior; assim, não apenas se deseja que a ordem seja dada, mas em verdade se acredita que a ordem é a ordem certa a ser dada, simplesmente porque o superior a deu. ‘Aquele que visa a fazer uma completa e perfeita oblação de si mesmo deve oferecer, além da sua vontade, o seu entendimento; este é o grau seguinte e o mais elevado da obediência. Ele não deve somente desejar, mas deve pensar igual ao superior, submetendo seu julgamento ao do superior, tanto quanto uma vontade devota pode subjugar o entendimento.’
  • No grau mais elevado e meritório da obediência, o fiel não tem mais vontade própria (ao obedecer) do que um objeto inanimado. ‘Todos aqueles que vivem sob obediência devem se permitir ser levados e dirigidos pela divina providência, através da influência do superior, como um corpo sem vida se permite ser levado a qualquer lugar e ser tratado de qualquer maneira; ou como se ele fosse a bengala de um homem idoso que serve em qualquer lugar e é usada da maneira que o seu portador deseje usar.’
  • O sacrifício da vontade e do intelecto que está envolvido nesta forma de obediência é a forma mais elevada de sacrifício possível, já que ela oferece a Deus as faculdades humanas mais elevadas: o intelecto e a vontade.

É preciso dizer que o exercício prático da autoridade de Santo Inácio não estava de acordo com os seus próprios escritos. Ele tinha o costume de enviar jesuítas em missões independentes nas quais eles precisavam ter iniciativa própria. Se interpretados de modo literal, os seus escritos não poderiam ser aplicados nestas situações, já que o superior não estaria ali para dar as ordens às quais se devia esse tipo de obediência.

Podemos explicar a contradição entre teoria e prática pela influência que em Sto. Inácio tiveram as idéias filosóficas e teológicas aceitas em sua época, e pelos objetivos que queria atingir com seus ensinamentos sobre a obediência. Sua doutrina a respeito da obediência foi planejada para proporcionar um treinamento básico em disciplina, do tipo praticado pela profissão militar da qual ele tinha feito parte. Este treinamento também foi planejado para, depois de completado, assegurar que os jesuítas em missões independentes internalizassem o objetivo que seus superiores tinham mandado cumprir, de modo que pudessem levar a cabo, corretamente e de todo o coração, as missões que lhes tinham sido confiadas. Santo Inácio, porém, não tinha a intenção de dar aos superiores um controle totalitário sobre todos os pensamentos e ações de seus subordinados.

Infelizmente, aqueles que interpretaram as suas obras leram os seus escritos de maneira literal, e até lhe deram crédito por defender um controle totalitário desse tipo como o modelo de autoridade religiosa. Algumas apresentações de seus ensinamentos descreveram como algo especialmente elevado e digno de nota obedecer uma ordem sobre a qual paira a suspeita – mas não a certeza – de ser imoral. Esta declaração sobre os méritos excepcionais da obediência às ordens moralmente duvidosas é feita por Santo Inácio em sua carta 150. A carta foi escrita na realidade a pedido dele pelo seu secretário Pe. Polanco; mas já que foi enviada com a assinatura de Santo Inácio, se beneficiou da sua autoridade.

O desenvolvimento pleno de um conceito tirânico da autoridade religiosa e de um conceito servil da obediência encontra-se em Ejercicio de Perfección y Virtudes Cristianas, de Alonso Rodriguez, S.J. Esta obra, o manual de teologia ascética mais lido durante a contra-reforma, foi publicado em 1609. Foi leitura obrigatória para os noviços jesuítas até o Concílio Vaticano II. O conteúdo dele era aceito como a interpretação correta dos ensinamentos de Santo Inácio sobre a obediência. No exame de consciência que propõe, o Pe. Rodriguez (não confundir com Santo Alfonso Rodriguez) exige que o penitente:

  • Obedeça com a vontade e com o coração, tendo uma só intenção e determinação: a mesma do superior.

  • Obedeça também com o entendimento e com o julgamento, adotando a mesma visão e o mesmo sentimento do superior, sem dar lugar a qualquer juízo ou razão para o contrário.

  • Assuma a voz do superior… como a voz de Deus, e obedeça ao superior, quem quer que seja, como a Cristo Nosso Senhor, fazendo o mesmo em relação às autoridades subordinadas.

  • Siga o preceito da obediência cega: que obedeça sem questionar ou examinar, nem buscar motivos para os porquês, considerando como razão suficiente o fato de ser obediência e de ser a ordem do superior.

Rodriguez louva a obediência – do jeito que ele a entende – em termos reveladores:

Um dos maiores confortos e consolos que nós temos na religião é este: o de que, se fizermos o que manda a obediência, estaremos seguros. O superior é que pode se enganar ao ordenar isto ou aquilo, mas você tem a certeza de não estar errado ao fazer o que lhe ordenam, porque a única conta que você deve prestar a Deus é a de ter feito tudo o que lhe ordenaram; com isto a sua prestação de contas estará cumprida a contento diante de Deus. Você não precisa justificar que a coisa ordenada era uma coisa boa, ou que alguma outra coisa teria sido pior; isto não lhe pertence, mas pertence à prestação de contas do superior. Quando você age sob obediência, Deus tira dos seus livros e coloca nos livros do superior.

Rodriguez, assim como outros autores, abre aquela costumeira exceção: não é preciso obedecer ordens manifestamente contrárias à lei divina. Entretanto, já foi observado que a doutrina jesuítica do probabilismo tende a anular esta exceção. De acordo com esta doutrina, não é pecado fazer qualquer ação que uma autoridade respeitável declare ser permitida; e o superior religioso de alguém geralmente conta como autoridade respeitável. Além disto, há um dado psicológico que tende a tornar ineficaz esta exceção. É difícil internalizar e praticar esta noção de obediência; requer tempo, motivação e esforço. Depois de ser executada com sucesso, tem um efeito duradouro. Uma vez que alguém tenha destruído a capacidade de criticar as ações de seus superiores, não consegue mais ressuscitar esta capacidade e exercê-la à vontade. Seguir a diretriz de recusar obediência ao superior, quando suas ordens são manifestamente pecaminosas, se torna então psicologicamente difícil e até mesmo impossível – exceto talvez nos casos mais extremos, como no caso de uma ordem para assassinar alguém, mas este já não é o tipo de ordem ilícita que os superiores religiosos têm interesse em dar.

Este conceito de obediência não se limitou a ser uma peculiaridade da Sociedade de Jesus, mas veio a ser adotado pela Igreja da contra-reforma como um todo. Tornou-se predominante na nova instituição dos seminários da contra-reforma; o Tratado da Obediência do sulpiciano Louis Tronson colocou os ensinamentos e escritos de Santo Inácio no cume da doutrina católica sobre a obediência. A adoção deste conceito pelos sulpicianos foi especialmente importante por causa do seu papel central no treinamento de sacerdotes nos seminários a partir do século XVII. O conceito servil da obediência continuou sendo o padrão no século XX. Adolphe Tanquerey, em sua obra Précis de théologie ascétique et mystique, amplamente lida e traduzida (e, em vários aspectos, excelente), chegou a escrever que as almas perfeitas que atingem o mais alto grau de obediência submetem seu julgamento ao do superior, sem nem mesmo examinar as razões que ele tem para dar as ordens.

A abordagem jesuítica da manifestação da consciência contribuiu para inculcar uma compreensão totalitária da autoridade. Santo Inácio não somente encorajou mas exigiu a manifestação da consciência, e exigiu que a manifestação fosse feita ao superior religioso. A manifestação da consciência incluía ‘as disposições e desejos pela execução do bem, as paixões e tentações que movem a alma, as faltas mais freqüentemente cometidas… o padrão usual de conduta, afeições, inclinações, propensões, tentações e fraquezas.’ Ele exigiu que as manifestações fossem feitas a cada seis meses, e declarou que todos os superiores e até mesmo os seus representantes estavam qualificados para receber tais manifestações. Ao invés de restringir o propósito da manifestação da consciência ao bem-estar espiritual do manifestante, ele não apenas permitiu como exigiu que o superior usasse para propósitos administrativos o conhecimento obtido dos subordinados através da manifestação da consciência.

Não é preciso sublinhar o poder de presunção que esta prática dá ao superior religioso. As antigas ordens religiosas resistiram à introdução de uma manifestação de consciência compulsória no estilo de Santo Inácio, mas vários institutos religiosos modernos a adotaram. Os abusos de tal prática foram tão sérios que o papado teve afinal de aboli-la. Foi proibida pelo cânon 530 do Código de Direito Canônico de 1917 para todos os religiosos (os jesuítas, porém, através de um decreto do Papa Pio XI, receberam uma permissão especial para mantê-la). Nessa altura, entretanto, a prática já tinha tido vários séculos para deixar sua marca na compreensão da autoridade, nos modelos de comportamento, e na psicologia dos superiores e subordinados dentro da Igreja Católica.

Pode-se ver a novidade desta compreensão da obediência no contraste com a posição de Santo Tomás de Aquino. Santo Tomás considera que o objeto próprio da obediência é o preceito do superior (Summa Theologiae, IIa-IIae q. 104 a. 2 co., a. 2 ad. 3). O grau mais baixo de obediência de Santo Inácio, que ele não considera virtuoso, é considerado por Santo Tomás como a única forma de obediência. Ele sustenta que as formas supostamente mais elevadas de obediência de Santo Inácio nem sequer entram na categoria de virtude da obediência:

Diz Sêneca (De Beneficiis iii): Erra quem pensa que a servidão envolve o homem na sua totalidade. Pois a sua melhor parte está isenta dela; porquanto, ao passo que o corpo está adscrito e sujeito ao senhor, o espírito é livre. Portanto, no que respeita ao movimento interior da vontade, ninguém está obrigado a obedecer senão a Deus. (IIa-IIae q. 104 a. 5 co.)

Santo Tomás não considera que a obediência envolva o sacrifício da vontade enquanto tal. Em sua visão, a virtude da obediência envolve apenas o sacrifício da teimosia, definida como a adesão a objetivos contrários à nossa felicidade eterna. Rodriguez, porém, deixa claro que não é a teimosia, mas a própria faculdade humana da vontade que deve ser sacrificada por inteiro. Isto é um sacrifício no sentido de abandono e destruição, já que envolve eliminar o funcionamento da vontade do sujeito para entregá-la à vontade de um outro ser humano. Santo Tomás, além disto, não pensa na obediência como uma forma virtuosa de ascese pessoal. Ele não considera que obedecer uma ordem sem gostar dela seja melhor, em si mesmo, do que obedecer uma ordem cujo cumprimento nos deixa contentes.

Uma pessoa boa vai se alegrar no cumprimento de qualquer ordem apropriada, já que tais ordens concorrem para o bem comum. Ela não considera que todos os atos bons são motivados pela obediência a Deus, porque considera que há virtudes cuja prática antecede à obediência – a obediência religiosa pressupõe, por exemplo, a fé. Nem considera que a essência do pecado consista na desobediência a Deus, ou mesmo que todo pecado envolva o pecado da desobediência. Todo pecado envolve de fato uma desobediência às ordens divinas, mas esta desobediência não é desejada pelo pecador exceto se o pecado envolve uma vontade de desobedecer a ordem somada a uma vontade de fazer o ato proibido (IIa-IIae q. 104 a. 4 ad 3). A obediência é simplesmente um ato da virtude da justiça, que é motivada pelo amor a Deus no caso de ordens divinas e pelo amor ao próximo no caso de ordens de um superior humano. Estes amores são mais fundamentais e mais abrangentes do que a obediência.

O conceito de autoridade religiosa e obediência religiosa que se tornou dominante na Igreja a partir do século XVI foi então uma substancial inovação que se desviou da visão católica anterior. Acabou influenciando a Igreja através do treinamento fornecido nos seminários aos padres diocesanos, e através da abordagem disciplinar nas ordens religiosas. A vida cotidiana dos seminaristas e religiosos foi estruturada como um sem fim de regras a governar as minúcias dos comportamentos, e as atividades à margem dessa rotina só podiam ser executadas em geral com a permissão do superior. Tal permissão era arbitrariamente negada, de tempos em tempos, a fim de encorajar a submissão dos subordinados. Não se davam as razões para as ordens, e não se respondiam as perguntas a respeito das razões para as ordens.

Esta forma de encarar a autoridade teve efeitos daninhos ao clero e aos religiosos. A obediência servil, extraída dos subordinados à força, destruiu o vigor do caráter e a capacidade de pensamento independente. O exercício da autoridade tirânica por parte dos superiores produziu um orgulho arrogante e uma deficiência na auto-crítica. O fato de que todos os superiores começavam algum dia na posição de subordinados significava que a subida era mais fácil para aqueles que eram habilidosos nas artes do escravo – bajulação, dissimulação e manipulação.

Os leigos não podiam almejar subir na hierarquia eclesiástica, de modo que o efeito de se promover a compreensão servil da obediência religiosa foi infantilizá-los na esfera religiosa. Esta infantilização se observa na arte e na devoção religiosas, especialmente a partir do século XIX, e na propensão para a obediência cega ao clero. O resultado foi a dissociação entre a maturidade adulta e a crença religiosa, o que solapou entre os leigos a fé religiosa e o compromisso, contribuindo para a paulatina secularização das sociedades católicas.

Os efeitos desta concepção de obediência foram minimizados por alguns contrapesos. A lei canônica, a disciplina litúrgica, as regras das ordens religiosas, tudo isso continha prescrições detalhadas que limitavam o exercício tirânico da autoridade por parte dos superiores. A filosofia e a teologia escolásticas, a educação clássica, o requisito de proficiência no latim, isso tudo impunha padrões objetivos de conhecimento e de capacidade intelectual exigidos do clero. As escolas secundárias jesuíticas, de longe as mais importantes e bem-sucedidas do seu apostolado, eram governadas por um ratio studiorum formidavelmente desenhado: estabelecia em detalhes o que era para ser estudado, e como. Enquanto o conceito tirânico de autoridade foi contido por esses fatores, ele aleijou mas não matou a Igreja.

Um aspecto pérfido dessa concepção de autoridade é que, no início, ela foi um aparente sucesso. Foi usada para pôr fim às más condutas financeiras e sexuais do clero que colaboraram para gerar a Reforma, contribuindo, assim, para as brilhantes conquistas da Contra-Reforma. A situação da Igreja era similar àquela de Roma sob Augusto, ou àquela da França sob Luís XIV: a paz e a ordem produzidas pelo governo absolutista permitiram o florescimento dos talentos produzidos pela sociedade livre que havia antes do absolutismo. Ao se esgotar a herança da liberdade, e ao se sentirem os efeitos totais do absolutismo, esses talentos mingüaram. A constelação fulgurante de santos e gênios que iluminou a França católica do século XVII foi sucedida, no século XVIII, pelo fracasso e freqüente capitulação diante dos ataques anti-cristãos do Iluminismo.

Esta exposição da história e da natureza do conceito tirânico da autoridade na Igreja explica muitos aspectos da crise de abusos sexuais. Maturidade psicológica é algo necessário para resistir bem às tentações sexuais. A inculcação de uma compreensão servil da autoridade, por atacar esta maturidade, torna muito difícil a castidade. Num sistema de treinamento baseado na inculcação da obediência servil, as personalidades deformadas e inadequadas daqueles que são atraídos por atividades sexuais perversas não são identificadas. Pessoas assim geralmente são boas em servilismo e dissimulação. Elas se desenvolvem tremendamente num sistema baseado na obediência servil, ao passo que homens de inteligência e caráter sofrem com ele.

Os superiores não raciocinam que a sua própria autoridade está presa à autoridade da lei, e não se inclinam a respeitar e obedecer a lei enquanto tal. Eles têm um forte incentivo para encobrir abusos sexuais, porque a autoridade do clero sobre os leigos repousa sobre um conceito infantilizado de clérigos como figuras paternas divinizadas, incapazes de errar. Tal conceito é destruído quando delitos sérios são expostos publicamente. Os leigos que acreditam neste conceito são facilmente persuadidos ou intimidados a manterem sigilo sobre os casos de abusos sexuais que eles encontram. Num sistema tirânico, tanto os superiores quanto os subordinados são ensinados a idolatrar o poder e aqueles que o detém, e a desprezar os inferiores, os fracos e as vítimas. O resultado é a tendência de não sentirem simpatia pelas vítimas de abuso sexual, em particular as crianças. Sua simpatia é dirigida aos predadores, que exercem o poder tirânico na sua forma extrema. Todos esses fenômenos descritos acima já foram observados repetidas vezes nos casos de abusos sexuais que vieram à tona.

A infantilização gerada por essa compreensão da autoridade colaborou de várias maneiras para os abusos sexuais. Uma pessoa infantilizada não consegue exercer um julgamento independente, e não tem a capacidade de se defender ou defender os outros. As criancinhas não são capazes de compreender o mal, e não são capazes de admitir ou mesmo de entender que suas figuras paternas são malignas. Aqueles sacerdotes que levaram a sério a compreensão tirânica da autoridade, ao invés de se adaptar a ela para alcançar suas ambições e usufruir dos prazeres da tirania, ficaram então psicologicamente incapazes de se manifestar contra os abusos sexuais e de correr riscos para corrigi-los. Os ambiciosos não o fizeram porque não havia nisso nenhum proveito para eles.

Quanto aos leigos, a verdade nua e crua é que a maior parte dos abusos sexuais de crianças por padres aconteceram com a conivência dos pais dessas crianças. Sem esta conivência, o abuso sexual de crianças e adolescentes por padres nunca teria alcançado as proporções que alcançou. Observe este testemunho de “Tiago”, garoto abusado sexualmente repetidas vezes pelo cardeal McCarrick:

Tiago afirmou ter tentado, aos 15 ou 16 anos, contar ao seu pai sobre os abusos que estava sofrendo. Mas o padre McCarrick era tão amado pela sua família, disse ele, e considerado tão santo, que a idéia era incomensurável… Tiago disse que quando era menino ele não tinha nenhum lugar seguro para discutir o que estava acontecendo com ele. “Lugar nenhum. Lugar nenhum. Meu pai simplesmente não ouvia.” … “Tentei umas duas vezes com a minha mãe, mas ela dizia ‘você deve estar enganado.’ Meu pai nasceu em 1918, minha mãe em 1920. Cresceram acreditando que a Igreja Católica era tudo. Meu pai era um cara santo. Andava para lá e para cá com o terço na mão o dia inteiro. Meus pais eram muito santos, e os pais deles eram muito santos. Toda a idéia deles sobre a vida era assim.” [**]

Esta concepção errada de santidade não foi resultado da estupidez dos pais desse rapaz. Foi o que o clero lhes ensinou – seguindo uma concepção tirânica da autoridade. Resultou que foram incapazes de imaginar que padres podem ser maus – e ainda acharam que esta incapacidade era uma virtude e um dever religioso.

O caos que tragou a Igreja nos anos 1960 e 1970 provavelmente se deveu em grande parte à rebelião contra o exercício tirânico da autoridade que havia sido infligido aos clérigos e religiosos antes dos anos 60. Porém, assim como aconteceu com outras revoluções registradas na história, esta revolta contra a tirania não levou ao triunfo da liberdade. Ao contrário: ao destruir os elementos do ancien régime que tinha colocado limites ao poder dos superiores, gerou uma tirania ainda mais extensa e completa. Deu um fim nos fatores, listados acima, que tinham contrabalançado a influência do conceito tirânico da autoridade na Igreja da Contra-Reforma.

A facção progressista que assumiu o poder nos seminários e ordens religiosas tinha seu próprio programa e ideologia a demandar adesão total, e isto justificava suprimir brutalmente a oposição. As ferramentas de controle psicológico e de opressão que haviam sido aprendidas pelos progressistas durante a sua própria formação foram colocadas em pleno uso, e aplicadas de modo mais abrangente do que jamais tinham sido antes – sendo a diferença entre os dois regimes muito parecida com a diferença entre a Okhrana e a Cheka.

Uma parte da ideologia progressista era a falsidade e o malefício do ensinamento sexual tradicional católico; não é preciso elaborar os efeitos desta doutrina sobre a crise dos abusos sexuais. Mas seria um engano achar que o progressismo em si é responsável por esta crise, e que a sua derrota resolveria o problema. As raízes da crise vêm de muito antes, e exigem uma reforma nas atitudes para com a lei e a autoridade em todas as áreas da Igreja.


Notas:

[*] Artigo original publicado no site https://rorate-caeli.blogspot.com/2018/10/tyranny-and-sexual-abuse-in-catholic.html em outubro/2018.

[**] Testemunho original: https://www.theamericanconservative.com/dreher/uncle-ted-mccarrick-special-boy/

Design Inteligente dos Evangelhos

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Até onde se conhece, ninguém nunca chegou a propor uma evidência científica de um design inteligente – nem causal, nem combinado com design humano – de material bíblico. Este artigo é o relatório de um estudo feito sobre os evangelhos para demonstrar uma evidência científica da “inspiração” na Bíblia. Sendo uma amostra representativa dos evangelhos, a história do Domingo de Ramos, com Jesus entrando em Jerusalém montado em um jumento e expulsando os mercadores do templo, foi a escolhida para servir de laboratório experimental. O estudo estabeleceu que os relatos desse evento feitos pelos quatro evangelhos permitem dois cenários significativamente diferentes. Esses dois cenários de Jesus chegando a Jerusalém foram comparados usando o método científico da “melhor alternativa”, para estabelecer qual representa com maior probabilidade a história do “Domingo de Ramos”. O autor proporciona uma análise complexa da contribuição dos quatro evangelhos para o evento histórico, concluindo que o material de todos os quatro evangelhos é necessário para a história completa. Além do mais, os quatro evangelhos são integrados de uma maneira específica para contar a história, e isso seria impossível sem o auxílio de um coordenador-supervisor, ou seja, um designer inteligente.”

Ler o texto completo (33 páginas, PDF).

Se Eu Fosse O Diabo

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Autor: Paul Harvey, 1965
Tradução: André Carezia
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Se eu fosse o diabo… se eu fosse o príncipe das trevas, eu iria querer mergulhar o mundo inteiro na escuridão, ser dono de um terço de suas terras e mandar em quatro quintos de sua população, mas não ficaria feliz enquanto não tivesse me apropriado da maçã mais madura da árvore: Tu.

Assim, eu iniciaria pelo que fosse necessário para assumir o controle dos Estados Unidos. Subverteria primeiro as igrejas. Começaria com uma campanha de sussurros. Com a sabedoria de uma serpente, sussurraria a ti como sussurrei a Eva: ‘Faze o que te agrada.’

Aos jovens, eu sussurraria que a Bíblia é um mito. Eu os convenceria de que o homem criou Deus, e não o inverso. Contaria um segredo: o que mau é bom, e o que é bom é ‘quadrado’.

Aos velhos, eu ensinaria a rezar comigo: ‘Pai Nosso, que estais em Washington.’

Então eu iria para as coisas organizadas. Educaria os autores para tornar excitante a literatura sinistra, de modo a fazer todo o resto parecer tedioso e pouco interessante. Ameaçaria a TV com filmes mais sujos, e vice-versa. Venderia drogas para quem eu pudesse. Venderia álcool para senhoras e senhores ilustres. Doparia o resto com pílulas.

Se eu fosse o diabo, logo as famílias entrariam em guerra com elas mesmas, as igrejas entrariam em guerra com elas mesmas, e nações entrariam em guerra com elas mesmas, até que se consumissem uma a uma. E, com promessas de maiores audiências, eu hipnotizaria a mídia para que atiçassem as chamas.

Se eu fosse o diabo, encorajaria as escolas a refinar os jovens intelectos mas a negligenciar a disciplina das emoções – que estas corram soltas – até que, sem perceber, tu tivesses que botar cães farejadores e detectores de metal em cada porta de escola.

Em uma década, as prisões estariam lotadas, e os juízes promoveriam a pornografia. Em pouco tempo eu poderia expulsar Deus dos tribunais, depois da escola, e então do Congresso. E em Suas próprias igrejas eu trocaria a religião pela psicologia, e endeusaria a ciência. Eu colocaria iscas para atrair padres e pastores, para que abusassem de meninos, de meninas e do dinheiro da igreja.

Se eu fosse o diabo, o símbolo da Páscoa seria um ovo; o símbolo do Natal, uma garrafa.

Se eu fosse o diabo, tiraria daqueles que têm para dar àqueles que querem, até que eu tivesse arruinado todo o incentivo dos arrojados. Queres apostar que eu faria estados inteiros promoverem a jogatina como modo de enriquecer?

Eu colocaria advertências contra os extremos: no trabalho duro, no patriotismo, na conduta moral.

Convenceria os jovens de que o casamento é antiquado, de que a troca de casais é mais divertida, de que o que se vê na TV é o caminho a seguir. E assim eu poderia despir-te em público, e poderia atrair-te para a cama com doenças que não têm cura.

Em outras palavras, se eu fosse o diabo, eu simplesmente continuaria fazendo exatamente o que ele está fazendo.

Trump e o Ocidente

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Artigo escrito em 2017 pelo diplomata brilhante Ernesto Araújo, futuro Ministro das Relações Exteriores do governo Bolsonaro. É essencial para a compreensão do fenômeno Trump e sua importância na possível reversão do que parecia ser o final do jogo para o Ocidente. O abstract é o seguinte:

“O presidente Donald Trump propõe uma visão do Ocidente não baseada no capitalismo e na democracia liberal, mas na recuperação do passado simbólico, da história e da cultura das nações ocidentais. A visão de Trump tem lastro em uma longa tradição intelectual e sentimental, que vai de Ésquilo a Oswald Spengler, e mostra o nacionalismo como indissociável da essência do Ocidente. Em seu centro, está não uma doutrina econômica e política, mas o anseio por Deus, o Deus que age na história. Não se trata tampouco de uma proposta de expansionismo ocidental, mas de um pan ‐nacionalismo. O Brasil necessita refetir e definir se faz parte desse Ocidente.”

O artigo completo de 35 páginas pode ser lido AQUI.

 

As Sete Orações de Santa Brígida

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(Estas orações devem ser rezadas por 12 anos, diariamente, sem interrupção. Traduzido do italiano por Ana Cândida Tocheton Cristofoletti. Versão em PDF.)

1) A circuncisão

Pai, pelas mãos puríssimas de Maria e pelo Coração Divino de Jesus, eu Te ofereço a primeira ferida, as primeiras dores e a primeira gota de sangue derramada por Jesus, em expiação dos pecados de todos os jovens e como proteção contra os primeiros pecados mortais, em particular dos meus consangüíneos.

Pai Nosso
Ave-Maria

2) O sofrimento de Jesus sobre o Monte das Oliveiras

Pai Eterno, pelas mãos puríssimas de Maria e pelo Coração Divino de Jesus, eu Te ofereço os terríveis sofrimentos do Coração Divino de Jesus sobre o Monte das Oliveiras, e também Te ofereço cada gota de Seu sangue em expiação de todos os meus pecados de coração e de todos aqueles da humanidade, como proteção contra esses pecados e pela difusão do Amor divino e fraterno.

Pai Nosso
Ave-Maria

3) A flagelação de Jesus

Pai Eterno, pelas mãos puríssimas de Maria e pelo Coração Divino de Jesus, eu Te ofereço os milhares e milhares de golpes, as dores atrozes e o Precioso Sangue derramado na flagelação, em expiação de todos os meus pecados da carne e de todos aqueles da humanidade, como proteção contra esses pecados e pela proteção da inocência, em particular dos meus consangüíneos.

Pai Nosso
Ave-Maria

4) A coroação de espinhos de Jesus

Pai Eterno, pelas mãos puríssimas de Maria e pelo Coração Divino de Jesus, eu Te ofereço as feridas, as dores e o preciosíssimo Sangue escorrido da cabeça de Jesus quando foi coroado de espinhos, em expiação dos meus pecados do espírito e daqueles de toda a humanidade, como proteção contra esses pecados e pela construção do Reino de Deus sobre esta terra.

Pai Nosso
Ave-Maria

5) A subida de Jesus pelo Calvário com a Cruz

Pai Eterno, pelas mãos puríssimas de Maria e pelo Coração Divino de Jesus, eu Te ofereço os sofrimentos suportados por Jesus ao longo da subida do Monte Calvário, e em particular a Santa Chaga do Ombro e o Precioso Sangue dela vertido, em expiação dos meus pecados e dos demais homens de rebelião à cruz, de revolta contra Teus santos desígnios e de todos os outros pecados da língua, como proteção contra esses pecados e por um amor autêntico à Santa Cruz.

Pai Nosso
Ave-Maria

6) A crucificação de Jesus

Pai Eterno, pelas mãos puríssimas de Maria e pelo Coração Divino de Jesus, eu Te ofereço Teu Filho pregado na cruz e nela levantado, as feridas de Suas mãos e pés, o precioso sangue delas vertido por nós, Seus terríveis tormentos do corpo e do espírito, Sua preciosa morte e a incruenta renovação em todas as Santas Missas celebradas sobre a Terra. Ofereço tudo isto em expiação de todas as faltas cometidas contra os votos e as regras das ordens religiosas, em reparação de todos os meus pecados e dos outros homens, pelos doentes e moribundos, pelos sacerdotes e pelos leigos, pelas intenções do Santo Padre relacionadas à família cristã, pelo reforço da fé, pelo nosso país, pela unidade das nações em Cristo no seio da Igreja, e pela diáspora.

Pai Nosso
Ave-Maria

7) A ferida do lado de Jesus

Pai Eterno, aceita, pelas necessidades da Santa Igreja e em expiação dos pecados de toda a humanidade, a Água e o Sangue preciosíssimos derramados na ferida do Coração Divino de Jesus e os infinitos méritos que dele decorrem. Suplicamos que sejas bom e misericordioso conosco! Sangue de Cristo, último e precioso conteúdo do Sagrado Coração de Jesus, purifica-me e purifica todos os irmãos de suas culpas! Água de Cristo, libera-me de todas as penas merecidas em decorrência de meus pecados e apaga as chamas do Purgatório, para mim e para todas as almas penitentes. Amém.

Pai Nosso
Ave-Maria