Pensa que a comida orgânica é melhor para você, para os animais, e para o planeta? Pense melhor.

Artigo publicado originalmente em inglês, em 12 de junho de 2016, no The Telegraph: http://www.telegraph.co.uk/news/2016/06/12/thinkorganicfoodisbetterforyouanimalsandtheplanetthin/

Autor: Bjørn Lomborg

Tradução: André Carezia

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Aquilo que comemos é dollyconsiderado cada vez mais importante. E em toda parte nos instigam a apoiar o orgânico: dizem que é mais nutritivo, que melhora o bem-estar dos animais, e que ajuda o meio ambiente. Na realidade, tudo isso é praticamente só propaganda exagerada.

Em 2012, o Centro de Políticas de Saúde da Universidade de Stanford fez a maior comparação já feita entre comidas convencionais e orgânicas[1] e não achou nenhuma evidência sólida de que os orgânicos são mais nutritivos. Uma reavaliação recente[2] acabou de descobrir a mesma coisa: “Estudos científicos não mostram que produtos orgânicos são mais nutritivos e seguros que as comidas convencionais.”

De modo similar, os animais nas fazendas orgânicas não têm saúde melhor. Um estudo[3] americano de cinco anos mostrou que os “índices de saúde são semelhantes aos dos produtores leiteiros convencionais”. O Comitê Científico de Segurança Alimentar, da Noruega, não encontrou “diferença alguma na ocorrência objetiva de doenças.”[4] Porcos e aves orgânicos podem usufruir de mais acesso a espaços abertos, mas isso aumenta sua carga de parasitas, patogênicos e predadores. Enquanto isso, os regulamentos orgânicos contra alimentar colônias de abelhas com suplementos de pólen em períodos de pouco pólen, bem como a regulação contra a descontaminação correta, resultam em um bem-estar bem baixo para as abelhas.

O cultivo orgânico é promovido como se fosse bom para o meio ambiente. Isso está correto para um único campo de cultivo: a produção orgânica usa menos energia, emite menos gases de efeito estufa, óxido nitroso e amônia, e provoca menos lixiviação do nitrogênio do que um campo convencional[5]. Mas cada unidade de cultivo orgânico rende muito, muito menos. Assim, para cultivar a mesma quantia de trigo, espinafre ou morangos, é preciso usar muito mais terra. Isso quer dizer que, na média, os produtos orgânicos resultam na emissão da mesma quantidade de gases de efeito estufa que os produtos convencionais; e mais ou menos 10% a mais de óxido nitroso, amônia e acidificação. Pior: para produzir quantidades equivalentes, as fazendas orgânicas precisam ocupar 84% mais terra[6] — terra que não pode ser usada para florestas e reservas naturais genuínas. Por exemplo, produzir o volume de comida que os EUA produzem hoje, só que organicamente, exigiria aumentar as terras cultiváveis em quase dois Reinos Unidos[7]. Isto é o equivalente a erradicar todos os parques e florestas em toda a parte continental dos EUA.

Mas e os pesticidas? Por certo são evitados em orgânicos? Não. O cultivo orgânico pode usar qualquer pesticida “natural”[8]. Isso inclui sulfato de cobre, que já causou doenças no fígado de agricultores de vinícolas na França[9]. As piretrinas são também pesticidas orgânicos: um estudo mostrou um aumento de 3,7 vezes na incidência de leucemia em camponeses[10] que lidaram com piretrinas, comparado com aqueles que não usaram.

É verdade que alimentos convencionais têm maior contaminação por pesticidas. Embora muito pequeno, esse é um claro benefício dos orgânicos. Entretanto, usando a pior estimativa feita pela chefia do Setor de Toxicologia do FDA [ministério da agricultura], todos os resíduos de pesticidas convencionais juntos podem causar cerca de 20 mortes anuais por câncer nos EUA.

Isso é nada perto do impacto dos orgânicos. Se os Estados Unidos inteiro se tornasse orgânico, o custo anual ficaria em torno de 200 bilhões de dólares, devido à produtividade menor. Esse dinheiro não pode ser gasto em hospitais, pensão, escolas ou infraestrutura.

Tais impactos econômicos também têm consequências de vida e morte. Os estudos mostram que quando uma nação se torna 15 milhões de dólares mais pobre, isso custa uma “vida” estatística[11], porque o povo tem menos condições de gastar com saúde e boa comida. Isso significa que transformar tudo em orgânico nos EUA vai matar mais de 13 mil pessoas por ano. Fazendo uma regra de três para o Reino Unido, isso daria cerca de 4 mortes por ano devido aos pesticidas convencionais, e se tudo virasse orgânico o custo anual seria de 22 bilhões de libras, resultando em mais de 2 mil mortes anuais.

Os orgânicos são um fenômeno do mundo rico, com 90% das vendas na América do Norte e Europa[12]. Apesar do aumento de 5 vezes nas vendas nós últimos 15 anos, apenas 1% do cultivo mundial de grãos é orgânico. Isso acontece porque metade da humanidade[13] depende da comida produzida com fertilizantes sintéticos, excluídos pelas regras dos orgânicos. Norman Borlaug, ganhador do Prêmio Nobel por ter iniciado a revolução verde, gostava de dizer[14] que o cultivo orgânico em escala global deixaria bilhões sem comida. “Eu não consigo ver dois bilhões de voluntários desaparecendo”, ele disse.

comida-organica

A comida orgânica, no fundo, é o pessoal rico gastando a sobra do dinheiro deles para se sentirem bem. Embora isso seja tão aceitável quanto gastá-lo em férias, é preciso rejeitar a superioridade moral que está subentendida. Os orgânicos não são mais saudáveis ou melhores para os animais. Expandir para qualquer escala maior vai custar dezenas de bilhões de libras e matar milhares de pessoas. Na verdade, uma revolução generalizada de orgânicos vai aumentar o dano ambiental, e diminuir as florestas.

Quando a estilista Vivienne Westwood[15] proferiu a famosa frase dizendo que as pessoas que não podem comer comida orgânica deveriam “comer menos”, ela pode tê-lo feito com a melhor das intenções. Mas ela se mostrou incrivelmente fora da realidade. O resto do mundo precisa de mais comida, e mais barata. Isso não vai acontecer com orgânicos.

Notas

[1] http://annals.org/article.aspx?articleid=1355685

[2] http://cogentoa.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/23311932.2016.1142818

[3] http://extension.oregonstate.edu/news/release/2014/08/organicandconventionaldairiesshowfewdifferencescowhealthandmilk

[4] http://www.vkm.no/dav/087562e4da.pdf

[5] http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/s0301479712004264

[6] ibid

[7] https://www.scribd.com/doc/283996769/theyieldgapfororganicfarming

[8] http://www.ecfr.gov/cgibin/textidx?c=ecfr&sid=9874504b6f1025eb0e6b67cadf9d3b40&rgn=div6&view=text&node=7:3.1.1.9.32.7&idno=7#se7.3.205_1600

[9] http://web.pppmb.cals.cornell.edu/resourceguide/pdf/resourceguidefororganicinsectanddiseasemanagement.pdf

[10] http://web.pppmb.cals.cornell.edu/resourceguide/pdf/resourceguidefororganicinsectanddiseasemanagement.pdf

[11] http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/j.1465-7295.1999.tb01450.x/abstract

[12] http://www.pnas.org/cgi/doi/10.1073/pnas.1423674112

[13] http://www.nature.com/ngeo/journal/v1/n10/abs/ngeo325.html

[14] https://www.technologyreview.com/s/409243/greenrevolutionary

[15] http://www.telegraph.co.uk/news/health/news/11225326/viviennewestwoodpeoplewhocantaffordorganicfoodshouldeatless.html