A Causa Palestina

Autor: Guy Millière
Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

Já faz muitos anos que a ‘Palestina’ não cessa de aspirar a novas e grandiosas conquistas na chamada ‘comunidade internacional’. Desde 1996, a ‘Palestina’ já se apresenta nas Olimpíadas; um pouco depois ela se tornou observadora permanente da UNESCO e da ONU. A esmagadora maioria das 95 ‘embaixadas’ da ‘Palestina’ está no mundo islâmico; o resto está na Ásia, na África, na América Latina e na Europa. Em 2014, o parlamento espanhol votou a favor do pleno reconhecimento da ‘Palestina’. Algumas semanas mais tarde, o parlamento francês fez o mesmo.

Não há outro caso, na história do mundo, em que um Estado inexistente consegue estabelecer missões e embaixadas que fingem funcionar como se o Estado de fato existisse.

Agora parece ter chegado a hora dos ‘palestinos’ perceberem que perderam, e voltarem à Terra, como bem observou o estudioso Daniel Pipes.

Será que os líderes ‘palestinos’ demonstram, por seus discursos e ações, que estão prontos para dirigir um Estado que viva em paz com seus vizinhos e com o resto do mundo? Todas as lideranças ‘palestinas’ sempre – e incessantemente – incitaram o terrorismo, e não escondem o desejo de varrer Israel do mapa.

Será que o ‘povo palestino’ ambiciona ter, a longo prazo, um Estado, e viver pacificamente dentro dos limites desse Estado? Em verdade, a resposta é não. O ‘povo palestino’ foi inventado no final dos anos 60 pelos serviços de propaganda dos árabes e dos soviéticos. Em março de 1977, o líder da OLP, Zuheir Mohsen, contou ao jornal holandês Trouw:

“O povo palestino não existe. A criação de um Estado palestino é o único jeito de continuarmos a nossa luta pela unidade árabe, contra o Estado de Israel. Hoje, na realidade, não há diferença entre os jordanianos, os palestinos, os sírios e os libaneses.”

Os relatos da Cisjordânia, depois da guerra dos seis dias, mostram que os árabes se definiam como ‘árabes’ ou ‘jordanianos’ nas entrevistas; evidentemente não sabiam que eram o ‘povo palestino’. Desde então, eles foram instruídos a falar assim. Também foram instruídos que é seu dever matar judeus para ‘libertar a Palestina’. Os palestinos são o primeiro povo inventado para servir de arma de destruição em massa de um outro povo.

Será que ao menos há algum passado histórico para dar legitimidade à ambição de criar um ‘Estado palestino’? Novamente a resposta é não. Não há nenhuma cultura palestina distinta das culturas do mundo árabe islâmico; nenhum monumento que possa ser definido como um monumento histórico ‘palestino’, a menos que se falsifique a história.

Uma pergunta mais básica: um ‘Estado palestino’ hipotético seria economicamente viável? A resposta é não, de novo. Os territórios ocupados pelos movimentos palestinos somente sobrevivem graças à assistência financeira do ocidente.

Como é possível, então, que tantos países se empenhem, durante tanto tempo, em criar um Estado cujos dirigentes seriam provavelmente líderes ‘palestinos’ corruptos e retrógrados; cujos habitantes seriam usados como máquinas de matar; cuja história é inexistente ou falsificada; e cujo potencial econômico parece nulo?

A resposta é simples.

Por baixo desse apoio à criação de um ‘Estado palestino’, esses países perseguem há tempos outros objetivos. Há décadas que os países do mundo islâmico só querem uma coisa, e a querem de modo obsessivo: a destruição de Israel. Eles já tentaram atingir esse objetivo através de guerras convencionais, terrorismo, diplomacia e propaganda. Sempre culparam Israel, e somente ele, por todos os males no Oriente Médio.

Ao mesmo tempo, eles sabem quem são e o que fazem os líderes ‘palestinos’. Sabem que o ‘povo palestino’ foi inventado. Sabem o porquê do povo ‘palestino’ ter sido inventado. Sabem que um ‘Estado palestino’ não será economicamente viável. Mesmo assim, comprometeram-se com uma estratégia feita para desestabilizar e demonizar uma nação não-islâmica: Israel.

Eles chamam os ‘palestinos’ de ‘vítimas’; o terrorismo, de ‘militância’; e a ação de incitar assassinatos, de ‘resistir à ocupação’. Eles têm pisoteado sobre a verdadeira história para substituí-la por mitos.

Eles pressionam os líderes ‘palestinos’ a fazerem ‘negociações’, sabendo muito bem que nunca algum acordo será assinado, e que as negociações terminarão em banho de sangue. Propõem apenas ‘planos de paz’ que sabem que Israel terá que rejeitar – são planos que incluem as ‘linhas do armistício de 1949’ (chamadas ‘linhas Auschwitz’) ou o ‘direito de retorno’ dos ‘refugiados palestinos’, que eram meio milhão em 1949, e quase cinco milhões agora.

Eles reconhecem um ‘Estado palestino’, sabendo porém que o ‘Estado’ que reconhecem não é um Estado, mas um organismo terrorista sem fronteiras e território definidos, imbuído da intenção de derramar mais sangue e criar mais caos. Por meio do tumulto, da chantagem e das mentiras, eles estimulam o resto do mundo a pensar que a situação requer uma intervenção internacional drástica.

Eles sempre dizem que querem um ‘Estado palestino’, mas nunca dizem que querem que esse Estado renuncie ao terrorismo e encerre o conflito. Ao contrário, o que têm feito é se engajar em uma guerra selvagem que há muito tempo esperam vencer.

Durante mais de trinta anos, eles se beneficiaram do apoio da União Soviética. Ela financiou guerras (1967, 1973), terrorismo, diplomacia e propaganda. A União Soviética transformou a empreitada ‘palestina’ em uma causa anti-imperialista – um meio de fortalecer os pontos de vista soviéticos e de neutralizar os inimigos do ocidente. A União Soviética entrou em colapso em 1991, mas os efeitos de seu apoio à ‘causa palestina’ permaneceram por algum tempo. Muitos países hostis ao ocidente ainda apoiam e reconhecem os ‘palestinos’, ao mesmo tempo que fingem ignorar que estão reconhecendo uma organização terrorista. Estão colaborando para a guerra.

Alguns países do mundo ocidental, durante anos sujeitos às pressões do mundo islâmico e da União Soviética, gradualmente foram cedendo; alguns cederam antes mesmo de serem pressionados. A França escolheu o seu lado em 1967, quando o general Charles de Gaulle deu início ao que chamou de ‘política árabe’, após sua derrota na Argélia. A política internacional francesa se tornou decididamente ‘pró-palestina’ – em um aparente esforço de defletir o terrorismo, obter petróleo barato e competir com os EUA – e assim tem sido até os dias de hoje. Os países da Europa ocidental foram aos poucos adotando pontos de vista semelhantes aos da França. Depois do colapso da União Soviética, a União Européia se tornou a principal financiadora da ‘causa palestina’, inclusive de suas ações terroristas. Os líderes da Europa ocidental sabem quais são os objetivos reais, e no entanto repetem sem tréguas que a criação de um ‘Estado palestino’ é ‘essencial’. Também eles estão colaborando para a guerra.

Apesar de serem aliados de longo prazo de Israel, os Estados Unidos mudaram sua política para o Oriente Médio no início dos anos 90, adotando posições mais próximas àquelas do mundo islâmico. Alguns políticos e diplomatas pressionaram os israelenses a negociar com os líderes ‘palestinos’, e aparentemente perderam de vista o que era de fato – e em segredo – a ‘causa palestina’. Os líderes israelenses, cheios de fantasiosas esperanças, concordaram em negociar. O resultado trágico foram os acordos de Oslo e a criação da Autoridade Palestina (AP), que se tornou rapidamente uma base para ações terroristas anti-Israel. Uma onda de ataques letais anti-Israel começou imediatamente, logo seguida de uma aprimorada ofensiva diplomática e propagandística contra Israel. Os líderes americanos, como se tivessem acordado de um sono de vários anos, começaram a falar da necessidade de existência de um ‘Estado palestino’. Três presidentes americanos propuseram ‘planos de paz’, colaborando assim também para a guerra.

Mais um ‘plano de paz’ é aguardado para breve, mas os parâmetros serão completamente diferentes. O presidente Donald Trump parece querer romper com o passado. Recentemente, ele disse ao líder palestino Mahmoud Abbas que os líderes ‘palestinos’ são mentirosos. Nenhum dos negociadores americanos escolhidos por ele parece ter a mais mínima ilusão sobre a liderança ‘palestina’ ou sobre a ‘causa palestina’.

A Lei Taylor Force, aprovada em 5 de dezembro pela Câmara de Representantes dos EUA, tem por intenção condicionar toda ajuda americana à ‘faixa de Gaza’ e à ‘Cisjordânia’ às ‘ações empreendidas pela Autoridade Palestina para encerrar a violência e o terrorismo contra os cidadãos israelenses’; a lei pode ser ratificada em breve pelo Senado. A Autoridade Palestina rejeitou todas as condições da lei.

O mundo islâmico também passa por transformações. O Irã, enormemente fortalecido pelo acordo aprovado em julho de 2015, e pelo gigantesco aporte financeiro americano que veio juntamente com o tal acordo, tem mostrado seu desejo de se tornar um poder hegemônico no Oriente Médio. O regime dos mulás já domina três capitais além de Teerã: Bagdá, Damasco e Beirute. Atacou a Arábia Saudita e apoia a guerra liderada pela milícia Houthi no Iêmen; tem a intenção de capturar Sanaã e se apossar de Bab El Mandeb, único caminho para o Mar Vermelho e o Canal de Suez. O Catar e a Turquia já estabeleceram fortes ligações com o Irã.

Os líderes sauditas parecem estar cientes do perigo. O rei Salman escolheu seu filho, Mohamed bin Salman, como herdeiro do trono, dando-lhe plenos poderes. ‘MBS’ – como é conhecido – parece decidido a liderar uma verdadeira revolução. Em termos militares, ele é o chefe dos 40 membros da Coalizão Militar Islâmica de Contra-Terrorismo, e já declarou sua intenção de ‘dar um fim no terrorismo’. No aspecto econômico, ele está no comando de um projeto ambicioso de reforma que pretende fazer seu país ficar menos dependente do petróleo: o Visão 2030. Foram presos todos os líderes sauditas que não concordam com as novas orientações, e seus bens foram confiscados. Mohamed bin Salman identificou o Irã como o seu principal inimigo, e recentemente descreveu seu líder supremo, Ali Khamenei, como um ‘novo Hitler’. O Catar e a Turquia já estão sob intensa pressão saudita para que se distanciem do regime iraniano. O grão-mufti da Arábia Saudita, Abdulaziz ibn Abdullah al ash-Sheikh, há pouco tempo emitiu uma fatwa dizendo que ‘lutar contra os judeus’ é ‘contrário à vontade’ de Alá, e que o Hamas é uma organização terrorista.

Mohamed bin Salman tem o apoio do governo Trump; de Vladimir Putin, que parece desejar um equilíbrio de forças do Oriente Médio, embora seja aliado do Irã; e de Xi Jinping, que enfrenta o risco de uma rebelião islâmica sunita em Xinjiang, um território autônomo chinês.

O líder ‘palestino’, Mahmoud Abbas, foi aparentemente convocado a Riad, onde o rei Salman e Mohamed bin Salman disseram-lhe para aceitar o plano proposto pelo governo Trump, ou renunciar. Disseram-lhe também que lhe seria ‘arriscado’ considerar a incitação de um levante – ele o fez mesmo assim, embora com o cuidado de mantê-lo frouxo e pouco expressivo.

No mês de outubro, o presidente egípcio Abdel Fattah al-Sisi, aliado de Mohamed bin Salman, convidou os líderes da Autoridade Palestina e do Hamas para uma ‘reconciliação’ na cidade do Cairo. Aparentemente ele exigiu que o controle da Faixa de Gaza seja passado à Autoridade Palestina. Parece também que o governo Trump e o presidente Sisi disseram aos líderes do Hamas que eles teriam que aprovar os termos do acordo de ‘reconciliação’, e que eles correriam o risco de uma destruição completa caso empreendessem qualquer ataque contra Israel.

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O ‘plano de paz’ que o governo Trump vai evidentemente apresentar já provoca o extremo ódio dos líderes ‘palestinos’. O objetivo do ‘plano’ parece ser o de reavivar um ‘processo de paz’ indeterminado, que permita à Arábia Saudita e aos membros da Coalizão Militar Islâmica de Contra-Terrorismo se aproximarem de Israel, jogando a ‘causa palestina’ para o fim da fila.

No dia 19 de novembro, uma reunião de emergência da Liga Árabe no Cairo condenou veementemente o Hezbollah e o Irã. Além do mais, pela primeira vez em cinqüenta anos, uma reunião da Liga Árabe nem sequer mencionou a questão ‘palestina’.

O reconhecimento de Jerusalém como a capital de Israel, feito pelo presidente Trump em 6 de dezembro, causou rebuliço e acrimônia tanto no mundo islâmico quanto nas lideranças da Europa ocidental. Entretanto, os líderes sunitas aliados à Arábia Saudita, bem como a própria Arábia Saudita, parecem suficientemente ocupados com a ameaça iraniana para altercar com Israel, Estados Unidos ou qualquer outro. A Europa ocidental quase não tem peso algum sobre o que está acontecendo; o máximo que tem demonstrado é covardia, medo, e um contínuo desdém por uma democracia que é amiga do ocidente: Israel.

O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, agora no décimo segundo ano de seu mandato de quatro anos – e vendo aparentemente que tem pouco apoio – parece ter ido buscar uma intervenção divina: foi pedir ajuda ao papa. “Não é possível haver um Estado palestino sem a Jerusalém oriental como sua capital”, disse Abbas, dando mostras de que começou a entender que a ‘causa palestina’ pode estar se esvaindo. Não obstante, junto com outros líderes ‘palestinos’, convocou ‘três dias de fúria’. Alguns poucos manifestantes queimaram pneus e bandeiras americanas – o de sempre.

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, pediu à Organização de Cooperação Islâmica para se reunir em Istambul em 13 de dezembro, e compeliu os líderes dos países islâmicos a reconhecerem com urgência Jerusalém como ‘capital ocupada do Estado palestino’. O rei saudita Salman ficou bem à distância, e o mesmo fizeram quase todos os outros líderes sunitas. Ele apenas enviou uma mensagem dizendo que pede uma “solução política para resolver a crise regional”. E acrescentou que os “palestinos têm direito à Jerusalém oriental” – o mínimo que podia fazer, e mais nada fez. Erdogan é apoiado principalmente pelo Irã, que hoje é o mais importante inimigo da Arábia Saudita e de outros países sunitas.

“Não será o fim da guerra contra Israel”, disse o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, “mas pode ser o início do fim da causa palestina”.

Agora parece ser um bom momento para os líderes da Europa ocidental, que ainda apoiam cegamente a ‘causa palestina’, acabarem com suas perdas, tanto políticas quanto econômicas. Ficar do lado de Erdogan e dos mulás, só para apoiar uma organização terrorista que nunca será um ‘Estado’, não vai lhes servir em nada no combate ao terrorismo ou à crescente islamização da Europa.


(Traduzido do artigo original em inglês intitulado “Twilight over the Palestinian Cause”, publicado em 21 de dezembro de 2017 no site gatestoneinstitute.org. O autor, Dr. Guy Millière, é professor na Universidade de Paris e tem 27 livros publicados na França e na Europa.)

A Origem da Canção ‘Noite Feliz’

Autor: John Horvat II
Tradução: André Carezia

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A música ‘Noite Feliz’ é, de longe, a mais simbólica das cantigas de Natal. É compreensível, assim, que fiquemos a refletir sobre a origem de canção tão extraordinária. Para contar a história de suas origens, precisamos voltar à côrte de Frederico Guilherme da Prússia, o quarto rei com esse nome, logo após sua ascensão ao trono em 1840.

Era véspera de Natal. Em Berlim, o rei e seus cortesãos comemoravam o nascimento de Cristo. O coro da catedral, regido por Felix Mendelsohn, executava uma das peças de seu repertório. A música era ‘Noite Feliz’. O rei ficou bem impressionado pela bela canção e imaginou quem seria o autor. Examinou o programa com a lista de hinos sendo cantados e ficou surpreso ao saber que o autor era desconhecido. O rei da Prússia não podia permitir tal imprecisão.

Imediatamente, assim, após a cerimônia, ele fez o maestro vir vê-lo. Mendelsohn, porém, não foi capaz de iluminar em nada o assunto. Ele então chamou o chefe dos concertos reais, Ludovico, cuja reputação era a de descobridor da origem de canções desconhecidas. Mas, para frustração de Frederico Guilherme, ele também não sabia de nada. O rei então ordenou que Ludovico se virasse para descobrir, porque os livros de hinos da Prússia não podiam ficar em desordem!

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Agora que a sua reputação estava em jogo, Ludovico não tinha escolha senão descobrir quem era o compositor da canção. Escarafunchou as bibliotecas, cidades, principados e reinos daquelas terras que eram a Alemanha de então. Nada encontrou, porém.

Já tinham começado a chamar Ludovico de ‘o caçador de canções’, quando ele reparou no estilo da música, que parecia austríaca. Foi para Viena, mas novamente deu com os burros n’água. Então um velho músico dos tempos de Haydn lhe deu uma dica. Michael Haydn, o irmão do músico famoso, compôs muitas obras que se tinham perdido. “Talvez essa canção de Natal seja uma daquelas?” sugeriu o velho. Era um tiro no escuro, e Ludovico não se sentiu encorajado pela dica. Desistiu da busca e decidiu retornar à côrte.

Na viagem de volta, enquanto descansava em uma hospedaria, ouviu um passarinho em uma gaiola a cantar uma música familiar. Deu um pulo de tão surpreso. Ludovico percebeu que o pássaro cantava aquela música de Natal misteriosa cujo autor ele procurava; estava cantando ‘Noite Feliz!’

“Que foi?” perguntou o estalajadeiro.

“Este pássaro,” respondeu Ludovico. “Quem ensinou esta canção ao pássaro?”

O estalajadeiro não sabia. Mas acrescentou que um amigo tinha comprado o bicho na abadia de Salzburgo, e deixado ali na pousada para diversão dos hóspedes.

A Abadia de Salzburgo! Ludovico se sentiu de repente como aquele caçador que, depois de muitas buscas infrutíferas, encontra alguns rastros frescos na neve. A pista tinha esquentado de novo! Ele sabia que Michael Haydn tinha morado naquela abadia por muitos anos. Era quase certo que a canção era de Michael Haydn. Ludovico não perdeu tempo: mudou os planos de viagem e partiu para a abadia.

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Quando chegou, o chefe dos concertos reais da côrte prussiana foi recebido com todas as honrarias que seu posto merecia. O abade e os monges lhe ofereceram um bom jantar e confortáveis acomodações. Infelizmente, porém, ninguém sabia de onde a canção tinha vindo. Também não acreditavam que o autor fosse Michael Haydn.

Quando o ‘caçador de canções’ lhes contou a respeito do pássaro na gaiola, sugerindo que os monges tinham-lhe ensinado a cantar a música, o abade se mostrou ofendido, já que tais caprichos eram proibidos no mosteiro.

Ludovico examinou, então, todos os manuscritos que havia na cela onde Michael Haydn antigamente trabalhara. E, exatamente como os monges haviam previsto, não encontrou nada. A pista tinha esfriado de novo. Desanimado, Ludovico decidiu retomar sua jornada de volta à côrte prussiana.

Entretanto, por acaso, dentre aqueles que estavam presentes ao jantar oferecido pelo abade, havia um professor chamado Ambrósio Prestainer, que ficou particularmente interessado na estória do pássaro.

“Isto pode ser obra de algum dos meninos do coral da abadia”, matutou ele.

Então, já que o professor conseguia imitar com perfeição o passarinho, ele decidiu tentar um truque para ver se descobria quem havia ensinado esta canção ao animal. Alguns dias depois, ele se ajeitou em uma janela que dava para o pátio interno da escola. E assobiou, imitando o pássaro a cantar ‘Noite Feliz’.

O ardil deu certo, pois logo ele ouviu a voz de um menino: “Ah, passarinho, você voltou!” E um garoto de nove anos de idade veio correndo, saindo da aula. Mas quão surpreso o menino ficou ao ver que tinha caído em uma armadilha!

“Como se chama?”, perguntou o professor.

“Felix Gruber,” respondeu o garoto.

“Muito bem. Diga-me, Felix: onde você aprendeu essa música?”

“Meu pai me ensinou.”

“E de onde ele a tirou?”

“Ele a compôs, senhor.”

Prestainer, sem perder um minuto, foi até a casa do menino em uma vila próxima. Lá ele conheceu o professor de uma escola local, Franz Gruber, que confirmou ter de fato composto a música. Mas a letra, ele disse, tinha sido escrita pelo seu amigo Josef Mohr, que fora pároco na vila de Bagran, e que tinha morrido não fazia muito tempo.

Mal podendo conter a alegria por finalmente ter achado a origem da canção, Prestainer escreveu a Ludovico, “O Caçador de Canções”, contando que sua missão de busca das origens da música tinha acabado. Enviou a Ludovico um relato completo de como a canção surgiu. O relato foi assim:

É véspera de Natal, e a torre da pequena igreja da vila domina as casas cobertas pela neve, como uma galinha que protege seus pintinhos. No presbitério, o jovem Padre Josef Mohr, com 26 anos, se prepara para as cerimônias daquela noite relendo o Evangelho, quando uma batida na porta rompe o silêncio. É uma camponesa que pede ao pároco ajuda para um bebê que acabara de nascer.

Sem demora, o padre deixa o conforto da casa e, depois de uma íngreme subida pela montanha, chega a um casebre humilde onde estava a criança recém-nascida. Ao retornar, as estrelas brilham no céu e o branco da neve reflete sua luz.

Ele começa a refletir sobre a cena que acabara de testemunhar. A criança, o casal de camponeses, o casebre, tudo causou-lhe impressão. Lembravam uma outra criança, um outro casal, uma outra moradia rústica em Belém de Judá.

Após a Missa do Galo, o padre Mohr não consegue dormir. Toma uma caneta e uma folha de papel, e começa a escrever um poema que se tornaria a letra da canção ‘Noite Feliz’.

Na manhã seguinte, o Natal de 1818, o piedoso sacerdote vai atrás de um amigo chamado Franz Gruber, então com 31 anos. Depois de ler o poema, Gruber exclama:

“Padre, era exatamente essa a canção de Natal que eu procurava! Louvado seja Deus!” E naquele mesmo dia ele compôs a música que acompanha a letra.

E assim, dessa maneira singela, imitando os acontecimentos de Belém, nasceu a mais popular e bela canção de Natal de todos os tempos.

FIM.


Traduzido do original em inglês, publicado em dezembro/2016 no site http://www.returntoorder.org/

Sol, Lua e Talia

Autor: Giambattista Basile, século XVI
Tradução: André Carezia

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Era uma vez um grande senhor que foi agraciado com o nascimento de uma filha, a quem deu o nome de Talia. Chamou os homens sábios e astrônomos de suas terras para que predissessem o seu futuro. Encontraram-se e, assessorando-se mutuamente, consultaram seu horóscopo e chegaram à conclusão de que ela correria um grande perigo devido a uma farpa de linho. Seu pai então proibiu qualquer planta de linho, cânhamo, ou qualquer outro material desse tipo em sua casa, esperando assim que escapasse do perigo.

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Um dia, quando se havia convertido em uma bela jovem, Talia estava olhando através da janela e viu passar uma velha mulher fiando. Talia, que nunca tinha visto nem uma roca nem um fuso, quis ver como girava, e era tal a sua curiosidade que pediu à velha mulher que fosse até ela. Tomando a roca em sua mão, a garota começou a fiar o linho. Desgraçadamente, cravou-se uma farpa de linho debaixo da unha de Talia, e ela caiu morta ao solo. Quando a velha mulher viu o acontecido, assustou-se tanto que saiu pelas escadas e está fugindo até hoje.

Tão logo seu desgraçado pai viu o desastre que havia ocorrido, tomou-a e, depois de ser inundado pela tristeza e de derramar rios de lágrimas, tirou dali a belíssima Talia e levou-a até um de seus palácios no campo. Ali sentou-a em um trono de veludo debaixo de um dossel de brocado. Desejando apagar da memória todo o seu infortúnio, fechou todas as portas e abandonou para sempre o palácio onde havia sofrido sua grande perda.

Depois de muito tempo aconteceu que um rei caçava ali por perto. Um de seus falcões escapou de sua mão e voou ao interior do palácio através de uma janela. Como não acudisse ao chamado, o rei teve que bater à porta, crendo que o lugar fosse habitado. Mas ninguém atendeu, e então o rei mandou trazerem uma escada de vindimador, pois desejava descobrir o que havia dentro do palácio. Percorreu todos os quartos, salas e recantos, surpreendendo-se grandemente por não encontrar viva alma. Por fim abriu a porta do quarto onde Talia se achava sob o encantamento e, crendo que apenas dormia, chamou-a. Como ela continuasse inconsciente, ele tentou reanimar a bela moça, pensando que estivesse passando mal, mas não teve sucesso. Sentindo então inflamar-se seu sangue pela beleza dela, carregou-a nos braços, deitou-a na cama, beijou-a e lhe deu todo o seu amor. Deixando-a assim deitada, voltou para o seu reino e para as suas ocupações, e por um longo tempo não pensou mais naquilo que tinha acontecido.

Nove meses depois, Talia deu à luz dois filhos, um menino e uma menina, formosos como duas jóias. Duas fadas apareceram no palácio e cuidaram deles, colocando-os sobre os peitos de sua mãe. Certa vez, querendo mamar e não encontrando o mamilo, começaram a sugar o dedo de Talia. Fizeram-no tão forte que arrancaram a farpa de linho. Talia despertou assim de um longo sono e, vendo seus belíssimos filhos sobre ela, toda contente lhes deu o leite. Os bebês eram a coisa que mais queria na vida.

Talia se viu sozinha no palácio, com os gêmeos ao lado, e não sabia o que tinha acontecido com ela. Mas notou que a mesa estava posta, com comida e bebida, embora não conseguisse ver quem as tinha trazido. Enquanto isso, o rei se lembrou da bela adormecida. Tornou a caçar e, voltando ao palácio, entrou para vê-la e encontrou-a desperta com aqueles dois lindos e alegres bonequinhos. Ele se regozijou como nunca antes na vida.

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Contou a Talia quem era, e como a tinha visto e entrado naquele lugar. Eles então se conheceram melhor, a amizade de ambos imediatamente se estreitou, e ele permaneceu com ela durante alguns dias. Depois desse tempo ele se despediu, prometendo que regressaria para levá-la com ele ao seu reino. E voltou ao seu reino, onde a todo momento tinha nos lábios os nomes de Talia, Sol e Lua – pois era assim que se chamavam seus filhos. Até mesmo quando estava comendo chamava-os pelos nomes. E não dormia nem acordava sem pronunciar seus nomes.

A rainha, vendo que algo estranho havia ocorrido ao seu marido durante a caçada, começou a suspeitar. Percebendo que ele não fazia outra coisa além de chamar pelos nomes de Talia, Sol e Lua, ficou furiosa de ciúmes. Chamou seu secretário e disse-lhe:

– Escuta, meu querido, tu estás entre a cruz e a espada. Se me disseres de quem o rei, meu marido, está enamorado, te farei enriquecer; e se me esconderes a verdade, te farei morrer.

O secretário, por um lado, estava assustado; por outro lado, estava ávido pela riqueza. A avareza e o medo lhe fizeram esquecer a honra, a justiça e a lealdade, e contou-lhe tudo que sabia.

Então a rainha ordenou que o secretário fosse até Talia, e lhe dissesse que o rei queria as crianças no palácio. Talia, com grande contentamento, obedeceu e enviou Sol e Lua pelo secretário, que os entregou nas mãos da rainha. Esta, que era mais venenosa que uma víbora, pediu ao cozinheiro que os matasse e cozinhasse em vários e apetitosos molhos, e os servisse para o rei comer. Mas o cozinheiro, tendo um coração terno, ao ver aquelas duas jóias formosas, sentiu compaixão e os entregou à sua esposa para que cuidasse deles. No palácio, ele preparou dois cordeiros de acordo com cem receitas diferentes.

Quando o rei chegou, a rainha, toda satisfeita, mandou servir a comida. O rei comeu com gosto, exclamando:

– Oh, como isto é bom! Que requinte! Que primor!

E ela, de quando em quando, lhe dizia:

– Come! Pois a carne que comes é tua!

Depois de ouvir isto algumas vezes, o rei se entristeceu e disse-lhe:

– Sei muito bem que eu como a carne que é minha, porque sou rei e tudo é meu, enquanto tu nada trouxeste a esta casa.

E se levantou, e foi dar uma volta pelo seu país para fazer a raiva passar.

Mas à rainha ainda não bastava o que tinha feito, e então ordenou ao secretário que trouxesse Talia ao palácio, com a desculpa de que o rei a esperava. Talia se arrumou, toda contente, e partiu o mais rápido que pôde, pois desejava com todas as forças ver o rei, sem desconfiar do que sua inimiga lhe estava preparando.

Encontrou-se diante da rainha, e esta, com o rosto deformado pela crueldade, disse-lhe com voz perversa e zombeteira:

– Ah! Ah! Bem-vinda, senhora vagabunda! Então tu és a cachorra que enganou o rei! Tu, com esse sorriso insinuante, querias tê-lo todo para ti! Já chega, madame porcina! Chegaste ao teu tribunal, pois agora vou te dar o castigo que mereces!

Talia começou a desculpar-se, dizendo que não era culpa dela, que o rei havia tomado posse das suas coisas enquanto ela estava enfeitiçada, mas a rainha não quis saber das desculpas. Acendeu uma grande fogueira no pátio do palácio, e deu ordens de botar a moça para arder. Ao ver que as coisas iam mal, Talia se ajoelhou diante da rainha e lhe disse:

– Por favor, dá-me tempo ao menos para eu tirar estas belas roupas que uso!

Não por piedade, mas porque queria ficar com aqueles vestidos bordados de ouro e pérolas, a rainha respondeu:

– Está bem, vai te despir!

Talia, então, foi se despir lentamente, e soltava um grito para cada parte da vestimenta que tirava. Tirou o manto, o casaco e a saia. No momento de remover a anágua, lançou um último grito. Depois disto, tomaram-na novamente e prepararam-se para prendê-la na estaca onde a rainha pretendia transformá-la em um montículo de cinzas. De repente, o rei apareceu e, diante daquela cena, mandou que ninguém se movesse. Queria saber o que se passava. Ao perguntar por seus filhos, a cruel rainha lhe disse:

– A isto tu não darás remédio, porque eu te fiz comê-los, e tu adoraste!

Quando o rei ouviu isto, caiu em desespero, chorando e gritando:

– Ai! Meus pobres cordeiros, então eu mesmo fui vosso lobo! Ai! Como é possível que eu não tenha reconhecido vossas carnes que tanto cheguei a acariciar? E tu, bruxa pérfida e renegada, como é que pudeste ser mais feroz do que bestas selvagens? Mas eu não te darei tempo nem para que peças perdão pelos teus pecados!

E ordenou que a rainha fosse queimada na fogueira que havia preparado para Talia, fazendo queimar também o secretário, seu cúmplice. Mandou queimar até o cozinheiro, por haver picado e cozinhado os seus filhos. Mas o cozinheiro se atirou aos seus pés e disse:

– Senhor, seria uma fogueira a recompensa pelo serviço que prestei a ti? Farás festa de mim, enquanto sou assado preso a uma estaca? É este o bom lugar que me darás, em uma grelha com a rainha? Eu esperava algo melhor por ter salvado as tuas crianças, desobedecendo àquele coração de pedra que queria te fazer comê-las!

Ao ouvir estas palavras, o rei ficou atônito. Pensou estar sonhando, porque não podia crer no que seus próprios ouvidos lhe diziam. Voltou-se então para o cozinheiro e lhe disse:

– Se é verdade que salvaste os meus filhos, então estejas seguro de que te impedirei de girar no espeto, e te darei o poder de fazer girar o meu coração, porque quero contentar-te em todos os teus desejos, e te darei uma recompensa tão grande que serás o homem mais feliz do mundo!

Enquanto o rei pronunciava estas palavras, a esposa do cozinheiro, que tinha visto seu marido em perigo, trouxe Sol e Lua. O rei abraçou-os juntamente com Talia e, chorando de alegria, não se fartava nunca de beijá-los e acariciá-los.

Depois de haver destinado uma grande renda ao cozinheiro, e de havê-lo nomeado camareiro-mor do palácio, o rei se casou com Talia, que viveu feliz e contente para sempre com seu marido e filhos, depois de ter experimentado que até mesmo dormindo é possível ser favorecida com a sorte.


Traduzido das versões italiana e espanhola:
http://www.alaaddin.it/_TESORO_FIABE/FA_1996/FA_XVII_Sole_Luna_Talia.html
https://bibliotecadeloscuentos.wordpress.com/2016/02/20/sol-luna-y-talia/