O Domingo do Surdo-Mudo

Autor: Dom Prósper Gueranger, in “O Ano Litúrgico”
Tradução: André Carezia

Evangelho (Mc 7, 31-37)

Jesus saiu de novo da região de Tiro, passou por Sidônia e continuou até o mar da Galiléia, atravessando a região da Decápole. Levaram então a Jesus um homem surdo e que falava com dificuldade e pediram que Jesus pusesse a mão sobre ele.

Jesus se afastou com o homem para longe da multidão; em seguida pôs os dedos no ouvido do homem, cuspiu e com a sua saliva tocou a língua dele. Depois olhou para o céu, suspirou e disse: “Efatá!”, que quer dizer: “Abra-se!”

Imediatamente os ouvidos do homem se abriram, sua língua se soltou e ele começou a falar sem dificuldade. Jesus recomendou com insistência que não contassem nada a ninguém. No entanto, quanto mais ele recomendava, mais eles pregavam.

Estavam muito impressionados e diziam: “Jesus faz bem todas as coisas. Faz os surdos ouvir e os mudos falar”.

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O GÊNERO HUMANO ENFERMO — Os santos doutores nos ensinam que este homem representa todo o gênero humano, com exceção do povo judeu. Abandonado há tantíssimo tempo nas regiões tempestuosas, onde somente reinava o príncipe do mundo, experimentou os efeitos desastrosos do esquecimento em que seu Criador e Pai parece tê-lo deixado, como consequência do pecado original. Satanás, cuja astúcia pérfida o fez sair do paraíso, apoderando-se dele, se excedeu a si mesmo na escolha do meio que usou para salvaguardar sua conquista. Com tirania ladina reduziu sua vítima a um estado de mutismo e de surdez, com o que o mantém debaixo de seu poder mais seguro que se estivesse amarrado com correntes de diamante; mudo para implorar a Deus, surdo para ouvir Sua voz; os dois meios de que podia se servir para se libertar, os têm impedidos. Satanás, o adversário de Deus e do homem, pode felicitar-se. Arruinou, pode-se pensar, a última das criaturas do Todo-Poderoso, arruinou o gênero humano, sem distinção de famílias e de povos; pois até essa mesma nação, conservada pelo Altíssimo como parte escolhida em meio à deslealdade dos povos, se aproveitou de suas vantagens para renegar, com mais crueldade que todos os demais, de seu Senhor e seu Rei!

O MILAGRE — O Homem-Deus gemeu ao ver uma miséria tão extrema. E como não iria fazê-lo considerando os estragos realizados pelo inimigo neste ser escolhido? Sendo assim, levantando os olhos sempre misericordiosos de Sua santa humanidade, vê o consentimento do Pai às intenções de Sua misericordiosa compaixão; e, usando aquele poder criador que no princípio fez perfeitas todas as coisas, pronuncia como Deus e como Verbo a palavra onipotente de restauração: Éfeta! O nada, neste caso a ruína que é pior que o nada, obedece a esta voz tão conhecida; o ouvido do desafortunado se desperta; abre-se com prazer aos ensinamentos generosos da triunfante ternura da Igreja, cujas orações maternais obtiveram esta libertação; e, penetrando nele a fé, e produzindo no mesmo instante seus efeitos, sua até então travada língua volta a emitir o cântico de louvor ao Senhor, interrompido pelo pecado séculos antes.

O ENSINAMENTO — Com tudo isso, o Homem-Deus quer mais instruir aos Seus do que manifestar o poder de Sua palavra divina; quer revelar-lhes simbolicamente as realidades invisíveis produzidas por Sua graça no segredo dos sacramentos. Por isso, conduz o homem que Lhe apresentam a um local apartado, leva-o para longe dessa turba tumultuosa de paixões e de pensamentos vãos que haviam-no deixado surdo às coisas do céu: de que serviria, de fato, curá-lo se está em perigo de voltar a cair novamente, por não se acharem distantes as causas de sua enfermidade? Jesus, assegurando o futuro, coloca nos ouvidos do corpo do enfermo Seus dedos sagrados, que carregam o Espírito Santo e fazem penetrar até os ouvidos de seu coração a virtude reparadora deste Espírito de amor. Finalmente, com maior mistério ainda, posto que a verdade que se quer expressar é mais profunda, toca com a saliva de Sua boca divina esta língua que se havia feito impotente para a confissão e para o louvor; e a Sabedoria — pois é ela que está aqui misticamente — a Sabedoria que sai da boca do Altíssimo e, qual onda embriagadora, flui sobre nós a partir da carne do Salvador, abre a boca do mundo do mesmo modo que faz eloqüente a língua das crianças que ainda não sabem falar.

RITOS DO BATISMO — Também a Igreja, para nos fazer ver que o relato evangélico figurado se refere não a um homem isolado mas a todos nós, quis que os ritos do batismo de cada um de seus filhos recordem as circunstâncias da cura que acabamos de ver. Seu ministro, antes de submergir no banho sagrado o escolhido que se apresenta, deve depositar em sua língua o sal da Sabedoria, e tocar os ouvidos do neófito, repetindo a palavra que Cristo disse ao surdo-mudo: Éfeta, que significa: abre-te.

Milagre Eucarístico de Tumaco

Baseado nos relatos originais em italiano (https://gloria.tv/text/dKCx3PXdHdXvKKPjuqMnNRPew) e espanhol (http://www.siame.mx/apps/info/p/?a=4815&z=2).

Tradução: Ana Cândida Tocheton Cristofoletti

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Houve um evento no dia 31 de janeiro de 1906 em Tumaco, pequeníssima ilha pertencente à Colômbia, situada na parte ocidental do país e banhada pelo Oceano Pacífico. Na época, os Padres Gerardo Larrondo di San José e Julián Moreno di San Nicolás di Tolentino estavam ali designados como sacerdotes missionários, cuidando das almas dos fiéis daquela localidade.

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Naquele dia 31 de janeiro estavam ambos em oração quando, por volta de dez horas da manhã, teve início um grande tremor de terra, o qual, pelos cálculos do padre Larrondo, durou cerca de dez minutos, e de tão intenso jogou por terra todas as imagens da igreja. A população da ilha foi tomada pelo pânico, e em meio a um tumulto lotou a Igreja e seus arredores, chorando e implorando aos padres para que organizassem imediatamente uma procissão na qual as imagens derrubadas pelo terremoto seriam levadas em andores improvisados.

Enquanto os dois fervorosos ministros do Senhor encorajavam e consolavam os paroquianos, dizendo que não havia motivo para aquele pânico que havia se abatido sobre todos, notaram que, como consequência do grande tremor de terra, o mar estava afastando-se da praia, deixando a seco aproximadamente um quilômetro e meio do terreno que até então era coberto pelas águas.

A população local sabia que, quando a água recua rapidamente da praia para o mar, o faz para acumular-se e formar uma onda de grandes proporções. Naquele momento, então, todos souberam que uma onda gigante viria sobre Tumaco, destruindo tudo em sua passagem. Tomado pelo terror, o padre Larrondo correu para dentro da Igreja em direção ao altar e consumiu rapidamente as pequenas hóstias consagradas que estavam guardadas no sacrário. Manteve em suas mãos apenas a Hóstia Magna e saiu da Igreja com a âmbula em uma das mãos e na outra Cristo Sacramentado, exclamando:

Venham, meus filhos, andemos todos para a praia; e que Deus tenha piedade de nós!

Comovidos pela presença de Jesus e pela atitude confiante de seu ministro, caminharam todos chorando e clamando que a Divina Majestade tivesse-lhes piedade e misericórdia. O rosto tenso dos moradores locais contrastava com a segurança do religioso, e aquela fé foi transmitida até ao mais incrédulo. Naquela procissão que ia ao encontro do mar enfurecido, iam também as imagens dos santos em seus andores.

Haviam-se passado poucos minutos desde que o Padre Larrondo chegara à praia, e aquela montanha de água começava a mover-se de volta à terra, na direção deles. A água avançava como uma impetuosa enchente, sem que qualquer força humana fosse capaz de detê-la. Aquela onda gigantesca ameaçava devastar o povoado de Tumaco em instantes.

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No entanto, o fervoroso padre não se intimidou, desceu convicto na areia colocando-se a um passo das águas, e no mesmo instante em que a onda estava chegando levantou com mãos firmes e com o coração cheio de fé a Hóstia Consagrada à vista de todos, e traçou com ela no ar o Sinal da Cruz. Momento solene! Espetáculo sublime! A onda avançou um pouco mais, e sem tocar no Cálice Sagrado, bateu no ministro alcançando apenas a cintura. Todo o povo começou a exclamar: Milagre! Milagre! Viva Jesus Sacramentado!

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Aquela onda havia sido contida instantaneamente, e a enorme montanha de água, que ameaçava varrer da face da Terra todo o povoado de Tumaco, iniciava seu movimento de volta, para desaparecer mar adentro, recobrando seu estado e níveis normais. O Pe. Larrondo retornou à Igreja e colocou a Hóstia no Ostensório, saindo em solene procissão pelas ruas do povoado e arredores da aldeia, levando Sua Majestade com todas as pompas e esplendor antes de levá-lo de volta ao Templo, de onde havia sido retirado de maneira tão precipitada naqueles momentos dramáticos.

O terremoto não sacudiu apenas Tumaco, mas grande parte da Costa do Pacífico. Aquela onda causou grande danos e destruição em outros pontos da Costa do Pacífico, que foram arrasados. O Padre Bernardino García della Concezione encontrava-se, naquele momento, na Cidade do Panamá, e relatou: “No Panamá, a maré estava baixa e inesperadamente veio uma maré alta e inundou o Porto, inundando o mercado e jogando ali dentro vários tipos de embarcações; as pequenas embarcações que estavam em terra seca foram jogadas a grande distância, muitos foram os danos e desgraças.”

Foi possível, então, compreender a graça que Deus concedeu ao povoado cristão de Tumaco, que se encontra no mesmo nível do mar, e que certamente sem a intervenção divina teria sido dizimado.

Louvor a Nosso Senhor Jesus Cristo sobre a conduta de Seu Espírito e de Sua graça para com Santa Madalena.

Autor: Cardeal Berulle (1575–1629)
Tradução: André Carezia

ELEIÇÃO DIVINA — Em Tua morada sobre a terra, ó Jesus, meu Senhor, e na ditosa vida que tiveste no mundo pelo tempo de três anos, como Messias da Judéia e como Salvador do mundo, obraste muitos milagres, concedeste muitas graças e elegeste muitas almas para atraí-las em busca de Ti. Mas a eleição mais rara de Teu amor, o mais digno objeto de Teus favores, a obra-prima de Tuas graças, o maior de Teus milagres Tu obraste nela.

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CONVERSÃO DE MADALENA — Quando caminhavas pela terra realizando Tuas obras maravilhosas, ó Senhor, lançaste Teu olhar sobre muitas almas. Mas Teus mais doces olhares, ó sol de justiça, e Teus raios mais poderosos foram para esta alma. Arrancaste-a da morte para a vida; da vaidade para a verdade; da criatura para o Criador e dela para Ti mesmo. Transportaste Teu espírito ao dela e em um instante derramaste no coração dela uma torrente de lágrimas que caem a Teus pés e os regam, e dão um benéfico banho que lava santa e suavemente essa alma pecadora que as derrama. Deste a ela, de pronto, uma graça tão abundante, que começa onde as outras apenas acabam, de modo que, desde o primeiro passo de sua conversão se encontra no cume da perfeição, gozando de amor tão profundo que foi digna de receber o elogio de Teus sagrados lábios, quando Te dignaste a defendê-la de seus imitadores e terminar sua justificado com estas doces palavras: “Muito amou.”

Eis aqui as primeiras homenagens rendidas a esses santos pés, e manancial de santidade desde que caminham sobre a terra para a salvação do mundo e glória do Pai. E eis aqui também as primeiras graças e favores emanados desses divinos pés. Estes pés são sagrados e divinos,s ao suaves e adoráveis, são também divinos; e entretanto se empregaram, se fatigaram pelos pecadores e serão um dia perfurados para derramar o sangue que lavará o mundo.

Desses pés sagrados emana agora uma fonte de graça e pureza para essa alma privilegiada, uma das mais nobres a seguir e amar Jesus. E desse Coração humilhado, melhor dizendo, cravado a Seus pés divinos, brota uma fonte de água viva que lava a própria pureza ao lavar os pés de Jesus. Dois mananciais e admiráveis rios: uma dessas fontes sai dos pés de Jesus e corre por Madalena, e a outra sai do coração de Madalena e vai até os pés de Jesus; duas fontes vivas e celestiais, e celestiais na terra, porque a terra também é um céu, posto que Jesus está na terra. Esse coração de Madalena, impuro em outros tempos, é agora um coração puro e celestial, e dele sai água viva adequada para lavar Jesus. E por isso Jesus se compraz como em um banho que Lhe é querido e delicioso, de modo que enaltece a Madalena e reprova o fariseu.

A UNÇÃO EM BETÂNIA — O tempo de Tua morte se aproxima, abandonas a Galiléia pela ultima vez, vais a Jerusalém para subir à cruz, quiseste dedicar a última semana de Tua vida para viver em Betânia, onde moravam essas santas mulheres Marta e Maria Madalena, para empregar Tuas últimas horas a conversar com essas santas almas. Ali se concentra e se renova o amor de Madalena; de novo ali se prostra a Teus pés, ali Te cobre e Te inunda com suas águas perfumadas. E enquanto Judas não tem outros pensamentos que não de ódio, ela pensa em amar-Te e entregar seu coração e seus perfumes a Ti; ali, como afirmas Tu mesmo, antecipa com essa unção Tua sepultura; ali Te enterra vivo, ignorante do que fazes; mas Tu o sabias por ela e Tu o ensinavas em Teu Evangelho, era seu amor mais ativo que refletivo; e por sua humilde e santa ignorância, nos ensina a seguir com docilidade os movimentos do Espírito Santo, sem ver, sem examinar as causas e os fins com que se apresenta a nós.

Mas Teu espírito, ó Jesus, me revela outro mistério contido nesse; há como uma luta secreta entre Ti e Madalena, uma luta de honra e de amor, contenda feliz entre duas pessoas tão desiguais, por certo, mas que estão tão unidas no amor como nos mesmos fins e intenções. Quando estiveres morto no sepulcro de José, quererá ungir-Te Madalena, mas então Tu Te adiantarás ressuscitando antes que chegue. Seu amor é sutil, não quer deixar-se enganar, mas Teu amor é mais forte e não pode ser vencido; antecipa ela agora, com a força de seu amor, o mesmo que então Tu farás com o poder de Tua vida ressuscitada e de Tua glória; quer ungir-Te e sepultar-Te, mas como não queres ser ungido por ela estando morto, quer ungir-Te e sepultar-Te desde já, quer enterrar-Te vivo, enterrar-Te neste banquete. E Tu cedes a seus desejos de sepultar-Te em seus perfumes e sepultar-Te ainda mais em seu coração e em sua alma, sepulcro para Ti delicioso e vivo.

AO PÉ DA CRUZ — Mas deixemos esse banquete e vamos ao pé da cruz, que está tão próxima dEle, e encontraremos ali Madalena unida a ela, enquanto Jesus está crucificado nela. Não tem vida além da cruz e não sente outra coisa que as dores de seu Salvador. Ele é sua vida e, posto que está na cruz, sua vida está na cruz. Não a puseram ali os judeus, mas é seu amor que a põe, e com laços mais fortes e mais santos do que aqueles que se acham nas mãos desses bárbaros.

Ao pé dessa cruz eleva seus olhos e sua alma a Jesus; não podem as trevas que cobrem a terra tirar sua vista dali. O sol, por certo, se encontra como que temeroso de mandar seus raios, ao ver o Pai da luz obscurecido por tantas desgraças. A terra se cobriu com sua infidelidade; mas essas trevas não podem cobrir nem Jesus nem Madalena. O sol que se eclipsou não é o sol dessa alma; tem outra luz distinta da sua e Jesus é o sol de Madalena, sol que nunca se eclipsa em seu coração. É nela mais brilhante do que nunca; ilumina-a em suas trevas e moribundo na cruz permanece vivo para ela; vive e age nela, mesmo em sua morte.

Basta-nos dizer que quanto mais digno é o objeto de nosso amor, maior será nosso amor, maior também nossa dor, seja vendo sofrer, seja estando separado daquele que amamos. Pois tudo isso se encontra em Madalena ao pé da cruz, e com toda excelência e com toda perfeição. Porque nunca se poderá encontrar um objeto mais digno de amor que Jesus, e Jesus paciente e sofrendo penas inauditas, e sofrendo-as por amor. E o que aumenta ainda mais o amor e a dor é que esse sofrimento, por fim, nos arrebata a Jesus. Entre todos os discípulos de Jesus, não houve ali uma alma mais fiel e constante que o amor de Madalena, nem entre os pecadores da terra um coração mais nobre e melhor disposto a receber o selo do amor celestial.

A MORTE DE JESUS — Entretanto Jesus morre nessa cruz, e Madalena não morre; porque ao morrer lhe dá a vida e fica impresso em seu coração, como na cera derretida pelo calor de Seus raios. Grava nela, nos estertores da agonia dessa vida moribunda, dessa morte vivente, Sua vida, Sua cruz, Sua morte e Seu amor; e esse amor é sempre vivo e vivificante nela. Porque Jesus é vida e amor de verdade; mas amor vivo, e vivo mesmo na morte. Pois ainda que Jesus morra, o amor que está em Jesus não morre; esse amor, que faz morrer Jesus, não morre de modo algum; esse amor, que faz Jesus morrer, nao pode morrer, mas antes é vivente, dominante e triunfante na própria morte de Jesus. Essa morte é a vida e o triunfo desse amor que vive e reina nas chamas. Diz-se que o amor é mais forte que a morte; digamos melhor: o amor, que dominava em Jesus, é mais forte que a vida de Jesus e que a própria morte de Jesus; porque o amor faz morrer Jesus e a morte de Jesus não faz morrer o amor de Jesus. Esse amor é vivente e triunfante em Jesus morto, e faz viver Madalena; é sua vida, é seu amor e por isso não morre com a morte de Jesus; ao não morrer, ela é crucificada, porque seu amor é crucificado e ele a crucifica também. E crucifica-la-á por trinta anos seguidos, de outro modo e em outra montanha distinta do Calvário. Ao entregar seu coração a Jesus, à Sua cruz, ao Seu amor, ela adora a ordem rigorosa do Pai Eterno, que extingue a vida de Seu Filho único nos tormentos da cruz.

MADALENA PROCURA JESUS — Durante Tua vida pública na Judéia, é a primeira que Te procurou por amor. Tu procuraste as pessoas, e elas Te procuravam por suas necessidades particulares e suas grandes necessidades, procurando mais Teus milagres que a Ti mesmo. Mas Madalena não procura mais que a Ti mesmo, e não procura senão o milagre de Teu amor; e por isso fazes para ela um milagre de amor na terra, e agora queres que seja ela a primeira a ver-Te imortal e glorioso. Os discípulos e apóstolos Te seguiram fielmente; mas eles foram chamados, e chamados sem que pensassem em Ti. Essa Te procura, segue-Te, sem ser chamada por Ti, sem palavra nenhuma que a atraia e que seja dirigida a ela, como aconteceu a outras; além do mais, ela está a Teus pés, e não parece que Tu a conhecesses ou que a olhasses, nem que pensasses nela, pois tão grande é o poder secreto que a atrai e que a une a Ti. E agora queres que seja a primeira a ouvir Tua voz, que escute a primeira palavra saída de Tua boca sagrada, e que receba o encargo tão honroso de anunciar Tua glória aos apóstolos. Por isso queres, ó rei da glória, honrar na terra e no céu aquela que Te amou tanto e que se pôs a Teus pés para adorar-Te.

MADALENA VÊ JESUS — Mas um amor tão grande não pode agüentar demora. Ditas essas duas palavras, manifesta-Se, revela Sua glória, devolve o juízo a ela, abre-lhe os olhos e ela vê vivo aquele que procura morto. E se mostra louca de alegria, de amor e de luz na presença de Jesus, na presença desse sol vivo.

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Desse modo a primeira obra de Jesus em Sua ressurreição é colocar em um novo estado de graça Madalena. É uma nova vida nessa alma, aos olhos de Jesus. Ele a ressuscitou e por isso cria nela como que uma ressurreição de estado de vida e de amor.

Bendito sejas, ó Jesus, por haveres enxugado assim suas lágrimas, e convertido sua dor em alegria, e por haveres empregado esse formoso nome de Maria, o nome único de Maria, para tal abundância de amor e de luz. Utilizaste a Tua pessoa, Tua voz e Tuas palavras ao dizer: Mulher, por que choras? A quem buscas? Mas foi tudo em vão; porque apesar dEle, não conhecia a quem procurava, aquele que estava presente diante dela e que lhe dirigia essas amáveis frases. Entretanto, quando pronúncias o doce nome de Maria, o nome único de Maria, se abrem seus olhos como aos discípulos de Emaús na misteriosa fração do pão. Esse nome tinha demasiada simpatia para Jesus, por Sua santa Mãe, e também pela pessoa dessa santa discípula, para não unir imediatamente dois corações tão próximos e tão preparados para o amor santo e mútuo de um para com o outro. Favorece a Madalena o ter esse formoso nome de Maria; e o Deus bendito, que bendiz tudo em Seus santos, quer bendizer esse nome santo e venerável, e quer empregá-lo na primeira obra de Sua vida ressuscitada, e através dele dar a conhecer Sua nova vida e Sua glória.

MADALENA, APÓSTOLO DOS APÓSTOLOS — A primeira missão que dás e, se me é permitido falar assim, a primeira bula e patente que expedes em Teu estado glorioso e de poder, confias a ela, fazendo dela um apóstolo, mas apóstolo de vida, de glória e de amor; e apóstolo de Teus apóstolos. Faz tempo que fizeste apóstolos, Senhor, mas foi durante Tua vida mortal; escolheste doze, mas fazendo-os apóstolos para o mundo, para anunciar Tua cruz e Tua morte; fazes aqui Madalena apóstolo em Teu estado de glória, e nesse estado escolhes a ela somente como apóstolo e apóstolo de Tua vida somente, porque somente anuncia e prega Tua vida, Teu poder e Tua glória. E faze-la apóstolo não para o mundo, mas para os próprios apóstolos do mundo e para os pastores universais de Tua Igreja, pois tanto Te comprazes em proclamar a honra e o amor dessa alma.

Dirijamos nossas súplicas àquela que o Senhor tanto amor e honrou. Peçamos a ela, com fervor, que nos revele os segredos do amor divino.

ORAÇÃO A SANTA MARIA MADALENA — Se pudéssemos estar na presença de Jesus e adentrar em Seu amor por tua meditação, ó Madalena! Oxalá eliminemos nossas faltas e lavemos nossas manchas como tu o fizeste, recebendo indulgência plenária da boca dEle e escutando aquelas palavras: Teus pecados estão perdoados! Oxalá me fira com Seu amor como te feriu a ti e me diga um dia estas consoladora palavras: Amou muito!

Que eu seja, pois, amigo do retiro, apartado dos cuidados e diversões humanos, fazendo a melhor parte. Que eu seja separado de tudo e até de mim mesmo, para pertencer-me todo a Ele, para imitar teu silêncio, teu esquecimento de ti mesmo e tuas elevações divinas.

Que eu seja pronto para escutar a voz de Jesus e Suas inspirações. Que não se aproxime de mim o espírito do erro e da ilusão, como não ousaram os maus espíritos se aproximarem de ti desde que te aproximaste de Jesus, obrigados a distanciarem-se e respeitar a presença, o poder, a santidade do espírito de Jesus que residia em ti.

Que eu participe dessa pureza de coração e de alma, pureza incomparável que recebeste do Filho de Deus quando estavas aos pés dEle; pureza nem humana nem angélica, mas divina; e saída também do homem-Deus em honra de Sua humanidade vivente na pureza, na santidade, na divindade do ser incriado. Sejamos fiéis e constantes no amor a Ele, inseparáveis dEle, como nem Sua cruz, nem Sua morte, nem o furor de Seus inimigos, nem o furor dos demônios, nada pôde afastar-te um centímetro dEle; porque se puderam separar a alma de Jesus de Seu precioso corpo, não conseguiram separar a alma de Madalena do corpo, da alma e do espírito de Jesus; e sempre está ela a Seu lado, seja vivo e sofrendo na cruz, seja morto, seja enterrado no sepulcro. O céu somente é que arranca Jesus de ti, e é o poder do Pai Eterno que leva Seu Filho com Ele à glória; mas arrebatando-o de ti, devolve-o a ti secretamente, e devolve para sempre na plenitude e na luz da glória.

Ó humilde penitência! Ó alma solitária! Ó divina amante e amada de Jesus, faz por tuas orações e por teu poder em Seu amor que eu seja ferido desse amor, que meu coração não descanse senão em Seu coração; que sejamos todos para Ele livres e cativos ao mesmo tempo, livres para aceitar Sua graça e cativos do triunfo de Seu amor e de Sua glória.

Amemo-Lo, sirvamo-Lo, adoremo-Lo e sigamo-Lo com todas as nossas forças e que, enfim, estejamos contigo e com Ele para sempre.

Amém.

São Luís e Santa Zélia Martin – Um Modelo Para a Vida da Família de Hoje

Publicado originalmente em inglês no jornal católico The Remnant, na edição de 20/out/2015.

Autor: Andrew J. Clarendon

Tradução: André Carezia

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Em julho de 2015, o Cardeal Ennio Antonelli, presidente emérito do Pontifício Conselho para a Família, deu uma palestra intitulada “A Crise do Matrimônio e a Eucaristia”, na qual afirmou:

Eu acredito firmemente que a maior urgência pastoral de hoje é a formação de famílias cristãs exemplares, capazes de dar testemunho concreto do fato de que o matrimônio cristão é belo e possível de ser cumprido.[1]

Com a segunda sessão do Sínodo da Família agora em andamento, bem no meio de uma alastrada crise na vida familiar, a Conferência da Angelus Press [de 9 a 11 de outubro] deste ano é o tempo oportuno para discutir a família católica. Não somente discutir doutrina e filosofia, assuntos pastorais, psicológicos, culturais e educacionais, mas também lançar um olhar aos santos à procura de iluminação, de como ser esposos e pais heróicos, de como ver a beleza matrimonial mencionada pelo Cardeal.

Para se juntar à Sagrada Família e aos vários santos do passado, na próxima semana [18/out/2015] ocorrerá a canonização de dois novos santos: Luís e Zélia Martin, os pais de Santa Teresa de Lisieux, e os primeiros santos na história a serem canonizados como casal ao invés de separadamente. É significativo como justo agora, com a estrutura da família em debate e sob ataque, que a Providência nos dê este marido e esta esposa como modelos. Há santos cujas vidas mais admiramos que imitamos: um São Simeão Estilita, que viveu quase 40 anos sobre o topo de um pilar, ou as grandes penitências de Santa Maria do Egito – pessoas tão ascéticas e avançadas na vida espiritual que quase não pareciam ser humanas. Nas representações artísticas de santos, ou na hagiografia, algumas vezes encontramos o extremo oposto: santos doces e de faces rosadas, com sorrisos forçados, cercados de nuvens de algodão-doce, como se a vida real neste vale de lágrimas fosse um jogo de Pollyanna que só agradasse às mocinhas novas – e mesmo assim, nem todas. Quem começa a conhecer Luís e Zélia Martin impressiona-se imediatamente em como suas vidas eram normais, quão fácil é simpatizar com eles. Depois de ler a biografia, entretanto, seus vários sofrimentos certamente põem um fim a eventuais suposições sobre joguinhos de Pollyanna. Eu gostaria de começar fazendo um breve relato da época deles, antes de prosseguir para a história deles.

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Eles viveram uma tradicional vida católica francesa, em uma época de mudanças extraordinárias. Luís nasceu em 1823 e viveu até quase o fim do século; Zélia era oito anos mais nova e morreu em 1877 aos 45 anos de idade, então ambos viveram as mudanças de meados do século XIX. Os pais de ambos foram capitães nas forças de Napoleão, passaram pelas guerras, e se estabeleceram em Alençon, Normandia, a aproximadamente 200 km a oeste de Paris. Depois da derrota final de Napoleão, a França sofreu várias revoluções com a restauração de vários ramos da monarquia de 1814 a 1848. Depois das revoluções liberais de 1848, que atingiram a Europa toda, Luís Napoleão – sobrinho do Imperador – subiu ao poder em 1852 como Napoleão III. Ele foi levado a uma guerra contra o poder crescente da Prússia em 1870. A França foi esmagada na guerra Franco-Prussiana; Luís e Zélia Martin, assim como muitas famílias, foram forçadas a hospedar soldados prussianos durante a ocupação. O resultado foi que Napoleão III acabou deposto e um governo liberal, anti-católico, foi estabelecido: a Terceira República. O anti-clericalismo da Revolução Francesa continuava influenciando a cultura francesa, e era concretamente manifesto na ação do governo “decretando educação secular, embora se permitisse às escolas católicas continuarem funcionando,… o fechamento de algumas comunidades religiosas, e, em 27 de maio de 1871, o assassinato do arcebispo de Paris junto com 64 padres”[2] pela Comuna de Paris, que teve vida curta. Politicamente falando, a Europa testemunhou o triunfo aparente das forças protestantes – Reino Unido, EUA, Prússia – juntamente com idéias liberais cada vez mais aceitas; o frágil balanço de forças, mantido pelas várias alianças, ruiu menos de 40 anos depois da morte de Luís Martin, e resultou na catastrófica destruição da 1a. Guerra Mundial, chamada pelo Papa Bento XV de “o suicídio da Europa civilizada.”[3]

Durante essa era de revoluções políticas, uma das maiores mudanças culturais e econômicas estava ocorrendo: a Revolução Industrial. O século XIX é a era da estrada de ferro, das grandes fábricas que tragavam enormes quantidades de pessoas do campo para as cidades, e de pobreza, doença e epidemias pavorosas. Muitos dos avanços da medicina, que usufruímos hoje, eram desconhecidos; como a própria família Martin experimentou pessoalmente, a taxa de mortalidade infantil ficava entre 15% e 20%.[4] Culturalmente, o século XIX foi uma era de tremenda energia, mas uma energia que era normalmente fruto da ansiedade, e que desembocou na rejeição da civilização ocidental, de várias maneiras. No início do século XIX a Europa estava excitada com o Romantismo, que criticava o racionalismo do século anterior sem dar entretanto uma solução real e duradoura. Quando Luís Martin nasceu em 1823, Beethoven estava escrevendo sua nona sinfonia e Byron era o poeta inglês mais famoso do mundo. Os anos 1840-50 são a era de ouro da “grande ópera” e das grandes novelas sociais de Dickens na Inglaterra, e de Victor Hugo na França – Santa Teresa citou algumas linhas de Hugo durante sua última doença.[5] Ainda antes da morte de Zélia, em 1877, a cultura ocidental já estava em transição para o modernismo: Baudelaire publicou Le Fleurs du Mal em 1857; a primeira exibição de quadros impressionistas se deu em Paris, um ano antes de Santa Teresa nascer; os primeiros trabalhos de Debussy datam da mesma época da morte de Luís; o manifesto comunista foi publicado em 1848; a Origem das Espécies de Darwin, em 1859. Em seu poema “A praia de Dover”, de 1867, Matthew Arnold lamenta que “o mar da fé” está recuando com “melancolia e um longo rugido de ressaca”, deixando apenas “uma tenebrosa planície… onde exércitos ignorantes lutam à noite.”

Em resumo: como frutos dos problemas dos séculos anteriores, os erros do início do modernismo no século XIX se reduzem, como Dr. Rao apontou, a um erro: o naturalismo. É um fato sub-valorizado que a negação do sobrenatural é a essência da definição de modernismo de São Pio X: “a síntese de todas as heresias”, como ele escreveu na encíclica Pascendi, de 1907 – uma data surpreendentemente precoce para aqueles pouco familiarizados com essa história. Luís Martin, cujo pai lutou por Napoleão, tinha morrido apenas treze anos antes do papa ser obrigado a alertar o rebanho que a própria subsistência da Fé corria grande perigo.

Obviamente que os papas do século XIX também viram os sinais dos tempos. Para dar apenas alguns exemplos, enquanto Luís e Zélia viviam, o Bem-aventurado Pio IX escreveu seus tratados anti-modernistas, convocou o Concílio Vaticano I, e proclamou o dogma da Imaculada Conceição. Um pouco antes da morte de Luís, Leão XIII publicou sua grande encíclica social Rerum Novarum.

Finalmente, esse período é também marcado por certo número de aparições de Nossa Senhora: entre 1830 e 1871, ela apareceu em cinco diferentes locais na França, incluindo Paris como Nossa Senhora da Medalha Milagrosa, La Salette em 1846, e Lourdes em 1858. Nessas aparições, Nossa Senhora emitiu alertas, pediu penitência, e assegurou proteção a seus filhos. “Foram os pedidos e orientações de Maria que formaram parte da espiritualidade de Luís e Zélia”[6] e de seus filhos.

Foi durante esse tempo, em que grandes batalhas físicas e espirituais eram travadas, que Luís e Zélia se conheceram, se amaram, viveram e morreram. Foi somente por uma intervenção direta da Providência que eles se encontraram. Luís, filho de um homem conhecido por sua piedade, decidiu se tornar relojoeiro, deixando Alençon aos 19 anos para estudar com um primo em Rennes. Enquanto passava férias na Suíça, ele visitou o mosteiro agostiniano de São Bernardo, e acabou ficando inspirado a seguir sua vocação. O prior lhe disse para voltar para casa e aprender latim, “porque sem isso não se podia pensar em sua admissão ao mosteiro. Quando ele soubesse latim, poderia voltar e sua vocação seria examinada com cuidado.”[7] Luís estudou com afinco durante um ano, quando então, por razões ignoradas – saúde ruim, falta de aptidão, talvez uma percepção de que não tinha vocação – ele interrompeu os estudos. Depois de ficar três anos em Paris para terminar sua educação como relojoeiro, ele retornou a Alençon como mestre no seu ofício. Ele abriu uma pequena relojoaria, à qual logo em seguida acrescentou um negócio de jóias. Ele viveu por quase oito anos em uma rua tranqüila – “uma vida de trabalho contínuo e grande piedade, [que] persuadiu as pessoas de que ele havia se devotado a uma vida celibatária.”[8] Ele assistia à Missa diariamente, visitava freqüentemente o Santíssimo Sacramento, e – ao contrário de todos os outros joalheiros da cidade – se recusava a abrir sua loja aos domingos. Luís também “fazia muitas e longas caminhadas solitárias no campo, mas pescar…era sua diversão favorita, enviando a maior parte da pesca para o convento das irmãs clarissas.”[9] Depois de alguns anos, ele comprou um lugar chamado Pavilhão, com uma torre hexagonal e um jardim onde “ele podia guardar sua vara de pesca, cuidar um pouco do jardim, e ler ou sentar sozinho e meditar.”[10] Tudo indicava que Luís estava se organizando para ter uma devota vida de solteiro.

Com Zélia não foi muito diferente. Segunda de três crianças, ela e sua irmã mais velha eram alunas das Irmãs do Sagrado Coração, e eram atraídas para a vida religiosa enquanto cresciam. Sua irmã Marie Louise se tornou uma irmã da Visitação, mas a Zélia disseram que não tinha vocação. Ela “aceitou essa decisão…com grande tristeza, até o final de sua vida ela sentiu anseios ocasionais pelo claustro.”[11] Incerta sobre o que fazer então, ela se voltou para a Mãe Santíssima; na festa da Imaculada Conceição de 1851, ouviu uma voz interior que dizia claramente: “vá e faça ponto de Alençon” – um tipo de laço que dava renome à cidade. Depois do curso e da certificação, ela montou uma loja na parte da frente da sua casa; após um tempo, ela passou a contar com uma equipe de funcionárias que fabricavam os laços enquanto ela montava os pedaços e fazia reparos.[12] “Mais tarde, [Zélia] diria que raramente ela fora mais feliz do que nesses momentos sentada à janela montando laços.”[13] Assim como Luís Martin no outro lado da cidade, Zélia Guérin se acomodou à vida pacata de artesã – um evidente contraste com a vida de operários de fábrica da Revolução Industrial de meados do século – e destinando-se aparentemente a uma vida de solteira.

Tudo isso mudou num dia de abril de 1858. Zélia cruzava a ponte Saint-Léonard e “passou por um homem cuja aparência chamou a atenção dela. De novo ela ouviu a voz interior: ‘este é aquele que preparei para você.’ Ela fez perguntas discretas sobre ele, descobriu que seu nome era Luís Martin, e conseguiu ser apresentada a ele. Não sabemos nada de seu namoro, exceto que foi bem curto, já que se casaram [em 13 de julho de 1858] três meses depois que [Zélia passou por Luís] na ponte”[14]; três dias depois aconteceu a última aparição de Nossa Senhora de Lourdes. Fica claro, a partir de suas cartas e do testemunho de seus filhos e parentes, que foi um verdadeiro amor à primeira vista. Ainda preservado está o medalhão que Luís projetou, gravou, e deu a Zélia no dia de seu casamento: de um lado, suas iniciais e a data do casamento; do outro, as imagens de Tobias e Sara do Antigo Testamento. “O gesto de Luís foi [uma] expressão sutil, embora poderosa, daquilo que estava em seu coração, e de como ele tencionava viver em matrimônio com Zélia.”[15] No livro de Tobias, o arcanjo Rafael alerta Tobias que “os que se casam, banindo Deus de seu coração e de seu pensamento, e se entregam à sua paixão como o cavalo e o burro, que não têm entendimento, sobre estes o demônio tem poder.”[16] Depois de um período de continência, Tobias deve “aproximar-se da jovem no temor ao Senhor, mais com o desejo de ter filhos que o ímpeto da paixão. Obterá assim para os seus filhos a bênção prometida à raça de Abraão.”[17] É o que ele faz, dizendo a Sara: “Porque somos filhos dos santos, e não nos devemos casar como os pagãos que não conhecem a Deus.”[18] Até que, no final do livro de Tobias, Rafael revela sua verdadeira identidade e elogia o velho Tobit e seu filho por suas boas obras e fidelidade:

Boa coisa é a oração acompanhada de jejum, e a esmola é preferível aos tesouros de ouro escondidos, porque a esmola livra da morte: ela apaga os pecados e faz encontrar a misericórdia e a vida eterna; aqueles, porém, que praticam a injustiça e o pecado são os seus próprios inimigos… Quando tu oravas com lágrimas e enterravas os mortos, quando deixavas a tua refeição e ias ocultar os mortos em tua casa durante o dia, para sepultá-los quando viesse a noite, eu apresentava as tuas orações ao Senhor. Mas porque eras agradável ao Senhor, foi preciso que a tentação te provasse.[19]

Esses versos são essenciais para entendermos tanto a vida privada de Luís, quanto seu casamento com Zélia, porque eles viveram de acordo com esses princípios; a sabedoria contida nesse antigo livro é de grande ajuda para tratarmos da atual crise no casamento e na família.

Luís, a princípio, insistiu numa forma pouco usual de matrimônio: que ele e Zélia vivessem como irmão e irmã, aparentemente de maneira a imitar mais de perto a Santa Mãe e São José; para, nas palavras do próprio Luís, representar “de maneira mais perfeita a casta e toda espiritual união de Jesus Cristo com Sua Igreja.”[20] Embora ela ansiasse por filhos, Zélia se submeteu e ambos permaneceram celibatários por dez meses, até que a orientação de um diretor espiritual fez Luís mudar de idéia. Ao longo dos treze anos seguintes, de 1860 a 1873, eles tiveram nove filhos; o objetivo explícito, nas palavras da própria Zélia, era que ela e Luís “fundassem uma família de santos… Seus desejos foram atendidos: de seus nove filhos, quatro foram para Deus entre seis meses e seis anos; os outros cinco eram meninas, e se tornaram freiras. Todos tinham o primeiro nome baseado em Nossa Senhora:”[21] Marie-Louise, Marie-Pauline, Marie-Léonie, Marie-Hélène, Marie-Joseph-Louis, Marie-Joseph-Jean-Baptiste, Marie-Céline, Marie-Mélanie-Thérèse, e por último Marie-Françoise-Thérèse, a futura Pequena Flor. “Das filhas que sobreviveram, Marie-Louise, que por ser a primogênita era chamada simplesmente [Marie], não tinha nem quatorze anos quando a mais nova, Thérèse, nasceu.”[22] Luís tinha apelidos para quase todas as crianças, alguns inspirados em seu ofício como joalheiro: Marie era seu “diamante”, e Pauline era sua “pérola”; Céline era “a destemida”, e Thérèse, querida de ambos os pais, era conhecida como “minha rainha”. Em uma época de significativa mortalidade infantil, todas as nove crianças enfrentaram, em algum momento, doenças potencialmente mortais. Os dois garotos, Marie-Joseph e Marie-Jean-Baptiste, morreram de infecção intestinal antes de completarem um ano de idade; os Martin tinham esperança que um deles se tornasse sacerdote e um grande missionário. Mais massacrante ainda foi que, menos de dois anos depois, o quarto filho deles, a menina Marie-Hélène, morreu de causa desconhecida aos cinco anos e meio. Depois da morte de Hélène, a irmã de Zélia escreveu-lhe do convento em Le Mans as seguintes palavras proféticas:

Essa fé e essa confiança de vocês, que nunca vacilam, um dia terão recompensa – e gloriosa será. Estejam bem certos de que Deus os abençoará, e que o abismo de seus sofrimentos se igualará à consolação reservada a vocês. Pois a recompensa não será boa se Deus, bem satisfeito com vocês, lhes der aquela grande santa que, para Sua Glória, vocês têm pedido tanto?[23]

Embora tenha sido capaz de amamentar, ela mesma, seus três primeiros filhos, aquilo que depois se revelou ser um câncer de mama tornou impossível a amamentação das outras crianças. Como a fórmula infantil tinha acabado de ser inventada, e ainda estava sendo aperfeiçoada, isso significava contratar uma ama-de-leite. Infelizmente, havia uma escassez de amas-de-leite fora das grandes cidades, obrigando as mães desesperadas a deixarem seus bebês com estranhas – freqüentemente em outra cidade – até desmamarem. A última criança Martin a morrer foi Marie-Mélanie-Thérèse, que faleceu de inanição com sete semanas, esquecida por uma ama-de-leite que se revelou ser alcoólatra.[24] Em outubro do ano seguinte, 1871, Zélia escreveu o seguinte para sua cunhada que tinha acabado de perder um bebê:

Quando eu fechei os olhos de minhas pequenas e queridas crianças, e quando as enterrei, eu senti grande dor, mas foi sempre de forma resignada. Eu não me arrependo das tristezas e dos problemas que enfrentei por elas. Muitas pessoas me disseram: “Seria muito melhor nunca tê-las tido.” Eu não suporto esse tipo de conversa. Eu não penso que as tristezas e os problemas podem ser comparados à felicidade eterna de minhas crianças. Note que elas não se perderam para sempre. A vida é curta e cheia de misérias. Nós as veremos de novo no Céu. Foi sobretudo na morte de meu primeiro filho que senti mais fundo a alegria de ter um filho no Céu, porque Deus me mostrou de modo evidente que Ele aceitara meu sacrifício. Veja você, minha querida irmã, é uma coisa muito boa ter anjinhos no Céu, mas não é menos doloroso perdê-los. Essas são as grandes tristezas de nossa vida.[25]

Uma resposta dessa a tal sofrimento é coisa de um santo heroísmo.

Santa Família Martín (2)

Enquanto isso, a vida da família tinha que continuar. Naquilo que podiam controlar, os Martin batalhavam para fazer de seu lar um lugar de santidade; era um lar em que as coisas católicas ordinárias eram feitas extraordinariamente bem. Luís e Zélia mantiveram a dedicação à liturgia por toda sua vida de casados. Eles iam diariamente à Missa das 05:45h e recebiam com freqüência a Santa Comunhão – uma raridade numa época ainda afetada pelo jansenismo. Quando cresciam o suficiente, as crianças passavam a acompanhá-los na Missa. Luís, ou uma das meninas mais velhas, lia para a família toda noite algumas páginas de “O Ano Litúrgico” de Dom Guéranger. Ambos obedeciam os jejuns da Igreja e o descanso dominical. Claro: havia o terço diário e outras devoções; o altar familiar era especialmente decorado em maio, mês de Maria, por exemplo. Zélia pedia às meninas para rezarem aos seus santos irmãos falecidos, para que intercedessem pela família. Ela sempre invocava outros santos também, e era especialmente devota de Santa Margarida Maria e de Santa Joana Francisca de Chantal; ela era franciscana da Terceira Ordem, enquanto Luís era membro de várias organizações católicas.[26] A leitura espiritual era encorajada em casa; antes de entrar para o Carmelo, Santa Terezinha tinha lido a Imitação de Cristo tantas vezes que a tinha memorizado.[27] Marie, Pauline e Thérèse eram todas membros da Congregação Mariana. Por fim, ao contrário de muitas em nosso tempo de crise, as meninas Martin tinham boas escolas católicas para freqüentar, escolas cheias de professoras religiosas devotas.

Recordando Tobias, de seu medalhão de casamento, Luís e Zélia “praticavam uma caridade ativa. Nunca ninguém necessitado apelou ao Sr. Martin em vão.”[28] A família tinha boas condições financeiras, graças ao negócio de relojoaria de Luís e especialmente devido à fabricação de laços de Zélia. Tão boas que, mais tarde, Luís fez o sacrifício de vender sua empresa para poder administrar as finanças do negócio de Zélia, e fazer as viagens para compras de insumos. Esse status de classe média significava que eles tinham tanto os meios de ajudar o próximo quanto a oportunidade de ensinar valiosas lições a seus filhos. “Uma de suas filhas disse, muito depois que eles já haviam morrido, que a coisa mais impressionante a respeito de seus pais era seu desapego de todas as coisas mundanas. ‘Nossa vida em casa era simples e patriarcal, e a eternidade era a preocupação dominante de meu pai e de minha mãe’.”[29]

Seria incorreto pensar, entretanto, que Luís e Zélia, mesmo com toda a convicção de que tinham uma vocação religiosa em sua juventude, exigissem de suas crianças uma vida exclusivamente de oração e penitência. Na verdade, Zélia teve uma infância especialmente infeliz justamente porque sua mãe era muito rígida, não permitindo nem mesmo que suas filhas tivessem bonecas. Luís levava suas crianças para longas caminhadas no campo, “com tardes passadas em uma feira, entardeceres animados com castanhas assadas, canções e poemas… e as imitações nas quais Luís era especialmente bom.”[30] A casa deles tinha também um agradável jardim para brincar. Exteriormente, eles aparentavam ser uma típica – embora devota – família burguesa francesa. Luís achava que Zélia era “muito extravagante ao vestir as meninas” – e ela respondia que elas não deveriam se vestir como se fossem esfarrapadas ou freiras – e Zélia achava que Luís “as mimava muito.”[31] No fundo, nota-se como eles se complementavam. Certamente a ordem e disciplina eram exigidas em casa, mas ficava claro para as meninas que isso tinha seu fundamento no amor. “No processo de beatificação de Terezinha, Marie declarou: ‘A educação em nossa família era afetuosa, mas de modo algum era branda… Nós nos atínhamos à conduta, à ordem, à pontualidade.’ Nem o desvio da linguagem, nem a preguiça, eram tolerados. Defeitos eram identificados e suprimidos logo aos primeiros sinais, a teimosia e os caprichos eram subjugados. Essa firmeza baseada no amor, sempre orientada para o bem da criança, era sempre praticada com discernimento…”[32] Embora Terezinha tivesse apenas quatro ano e meio quando sua mãe morreu, um dos melhores retratos da vida familiar está na sua autobiografia, História de uma Alma:

Foi vontade de Deus, durante toda minha vida, me cercar de amor, e as primeiras memórias que eu tenho são marcadas com sorrisos e carícias ternas. Mas embora Ele tenha posto tanto amor à minha volta, Ele também mandou muito amor para dentro de meu pequeno coração, tornando-o aquecido e afetuoso. Eu amava demais mamãe e papai. O que posso dizer das tardes de inverno em casa, em especial as tardes de domingo? Ah! Como eu adorava, depois de terminar o jogo de damas, sentar-me com Céline nos joelhos de papai. Ele costumava contar, com sua bela voz, melodias que preenchiam a alma com profundos pensamentos, ou então, embalando-nos delicadamente, ele recitava poemas que ensinavam as verdades eternas. Depois nós todos subíamos para fazer nossas orações noturnas, e a pequena Rainha ficava sozinha ao lado de seu Rei, sendo suficiente apenas olharmos para ele para vermos como os santos rezam.[33]

Essas pequenas coisas, bem-feitas, são a essência da vida de uma família santa que produziu cinco vocações religiosas e a “Pequena Via” de uma das maiores santas modernas. Claro que havia problemas, já que a família Martin vivia, como todos nós, neste vale de lágrimas. Além das mortes infantis trágicas, a terceira filha, Léonie, era uma criança que dava trabalho. A menos talentosa das cinco filhas era empestada de doenças, tinha um temperamento difícil, e foi expulsa da escola três vezes. Depois se descobriu que ela tinha sido abusada emocionalmente por uma das criadas. Em uma carta de janeiro de 1877 à sua cunhada, Zélia declara que pediu à sua santa irmã (a freira) que entregasse uma mensagem à Mãe Santíssima assim que chegasse ao céu. Zélia escreve:

Assim que você chegar no céu, procure a Mãe Santíssima e diga-lhe: “Minha boa Mãe, tu pregaste uma peça em minha irmã, dando-lhe a pobre Léonie. Ela não é uma criança como a que ela pediu a ti, e tu tens que consertar isso.” Depois, procure a Bem-aventurada Margarida Maria e diga-lhe: “Por que tu a curaste milagrosamente? Teria sido muito melhor deixá-la morrer, e tu tens a obrigação de consciência de reparar essa infeliz situação.” Ela [a irmã de Zélia] ralhou comigo por falar assim, mas eu não o fiz por má intenção, e Deus sabe muito bem disso. [34]

Nas cartas escritas perto de sua morte, Zélia descreve alguma melhora e encerra com uma prece final: “Léonie continua se tornando uma boa criança, mas é um terreno difícil de cultivar, que por certo precisa do orvalho do céu… Se a Mãe Santíssima não me curar, pelo menos pedirei a ela para curar minha filha, para abrir a inteligência dela, e fazê-la santa.”[35] Não há tempo nesta noite para apresentar a história inteira de Léonie, mas basta dizer que essas orações de uma Mônica moderna foram atendidas: depois de várias tentativas de seguir uma vocação, Léonie foi finalmente aceita na ordem da Visitação. Lá ela pôs em prática a “pequena via” de sua irmã Sta. Teresa, até sua morte em 1941. À medida que os fiéis foram aprendendo mais sobre sua biografia, eles foram começando a pedir sua intercessão para crianças problemáticas, problemas familiares, ou dúvidas de vocação. Em janeiro deste ano, o bispo de Bayeux-Lisieux aprovou a causa dela, de forma que ela agora é Serva de Deus. Léonie Martin está a caminho de se juntar à sua irmã e aos seus pais no reconhecimento das honras do altar.

Enfim, tanto Zélia quanto Luís foram purificados com sofrimentos físicos no fim de suas vidas. Na primavera de 1865, Zélia sentiu os primeiros sinais do câncer que a mataria doze anos depois.[36] Quando “era menina, ela tinha golpeado sua mama no canto de uma mesa, e agora… tinha um [dolorido] inchaço nessa mama…”[37] Esse caroço continuou a crescer e acabou se tornando canceroso, assim como outro no seu pescoço. Em outubro de 1876, ela sentia dores constantes, sendo já “uma mulher muito cansada, tanto de cuidar dos filhos quanto pelo trabalho incessante”;[38] ela finalmente procurou um médico, que lhe disse que uma cirurgia seria impossível, e que ela só tinha meses de vida. Embora resignada a morrer, ela implorou à Mãe Santíssima uma cura milagrosa, porque tinha medo de deixar suas crianças – em particular Léonie – sem seus cuidados.

Ela fez uma peregrinação a Lourdes no verão de 1877, mas não foi curada. “Ela viveu somente alguns meses a mais, e esses meses se passaram em agonia.”[39] O tumor começou a perfurar a pele, produzindo uma secreção que enchia a sala com um cheiro terrível. “Céline e Terezinha iam todos os dias à casa de uma amiga para evitar ver e ouvir esses horrores.”[40] Depois de receber a extrema-unção, ela morreu em 26 de agosto de 1877; nas mãos dela havia um terço que sua santa irmã havia beijado antes de morrer alguns meses antes. Terezinha escreveu, anos depois, sobre como se lembrava de tocar com os lábios a testa gelada da mãe, na manhã seguinte. No dia do enterro, Céline escolheu Marie como sua nova “mãe”; Terezinha, imitando-a, escolheu Pauline.[41] Luís decidiu se mudar para mais perto da família de Zélia, os Guérin, e então comprou uma casa – chamada Les Buissonnets – em Lisieux em novembro. Terezinha viveu nela até entrar no Carmelo de Lisieux em 1888.

Luís viveu o resto de sua vida como viúvo, devotado às suas filhas, à medida que cada uma ia deixando-o para entrar na vida religiosa. O homem contemplativo, que também adorava passear pela natureza, sofreu uma paralisia na perna em 1887 e depois o início do que é considerado pela maioria um endurecimento das artérias cerebrais – uma duradoura e terrível doença que Terezinha anteviu com seis anos, numa visão.[42] Uma série de derrames provocou choros, lágrimas e fala desconexa, alternados com períodos de alívio. Em fevereiro de 1889, Luís se sentiu ameaçado e, no intento de defender suas filhas de agressores imaginários, se armou com um revólver. Esse episódio sério levou a seu confinamento no Bon Sauveur de Caen, um hospital especializado em doentes mentais. Durante os três anos dele lá, as recaídas foram seguidas de momentos de lucidez; ele era conhecido como o “idoso venerável” e “bom patriarca”. Ele recusou o quarto particular oferecido a ele, e compartilhava com suas companhias as guloseimas que ele recebia de sua família. Quando tinha condições, ele assistia à Missa todo dia na capela do hospital. Ele estava consciente do apostolado dos doentes, e mencionava a necessidade de conversão de muitos dos internos. Para uma das irmãs enfermeiras, Luís admitiu: “Por mim, eu seria apóstolo em algum outro lugar. Mas esta é a vontade de Deus. Eu acho que é assim para domar meu orgulho.”[43] Em maio de 1892, já preso a uma cadeira de rodas, ele obteve permissão para retornar a Lisieux e oferecer um último adeus às suas três filhas carmelitas – já que Céline havia decidido entrar apenas depois da morte dele.

“Quando chegou o tempo de deixar suas filhas, [depois de ter conseguido apenas murmurar coisas incoerentes] ele ergueu os olhos e sua mão, com um dedo esticado, sufocando em soluços. Desse jeito ele ficou por longo tempo, capaz apenas de dizer as palavras ‘No céu! No céu!’”[44] Depois de um ataque cardíaco e de uma queda, Luís passou por seus últimos sofrimentos terrenos: a unção dos enfermos foi dada em 28 de junho de 1894 e ele morreu no dia seguinte.[45] Sta. Terezinha “ficou contente pelo descanso dele, e rezou para ele como se reza a um santo”[46]; ela escreveu à sua irmã: “como foi doce e precioso esse cálice amargo, já que de cada aflição do coração vieram somente suspiros de amor agradecido. Nós não estávamos mais andando – nós corríamos, nós voávamos pela estrada da perfeição.”[47] À medida que a fama de Sta. Terezinha se espalhava e, graças à sua autobiográfica História de uma Alma e a vários livros de sua irmã Céline, os fiéis aprendiam mais sobre Luís e Zélia, eles começaram a rogar pela intercessão deles. A partir de 1957, suas causas avançaram separadamente mas em paralelo, em diferentes dioceses, já que morreram em lugares diferentes. Em 1971, as causas foram fundidas e eles progrediram como um casal. Em 1994, o Papa João Paulo II reconheceu suas virtudes heróicas e declarou-os “veneráveis”. Os milagres da beatificação e da canonização envolveram, ambos, a cura de crianças pequenas: primeiro, em 2002, um recém-nascido italiano, cujos pulmões subdesenvolvidos foram inexplicavelmente curados; segundo, em 2008, a cura completa de uma recém-nascida espanhola, nascida prematura com hemorragia cerebral e outras complicações. Luís e Zélia foram beatificados em 19 de outubro de 2008 na Basilica de Sta. Terezinha, em Lisieux; sua canonização está agendada para o próximo domingo, 18 de outubro de 2015, enquanto o Sínodo da Família se encerra.

No consistório que aprovou a canonização, o Cardeal Angelo Amato, prefeito da Congregação para a Causa dos Santos, mencionou o “testemunho extraordinário de espiritualidade conjugal e familiar” de Luís e Zélia, sua “vida exemplar de fé, dedicação constantemente realista aos valores ideais, e atenção persistente ao pobre.”[48] Em nossa era de angústias, em que, como a Irmã Lúcia de Fátima escreveu ao Cardeal Carlo Caffarra, “o confronto final entre o Senhor e o reino de Satanás será sobre a família e sobre o matrimônio… [e em que] qualquer um que trabalhe pela santidade do matrimônio e da família será sempre combatido e contrariado de todos os modos, porque este é o ponto decisivo”[49], há alegria percorrendo o mundo católico com mais esses dois santos para rogarem por nós. Mais uma vez, a Igreja nossa mãe coloca diante de nós um exemplo humano real para nos dar esperança, juntamente com um ideal pelo qual nos esforçar. Luís e Zélia Martin, rogai por nossos filhos, rogai por nossas famílias, rogai por todos nós. Amém.


Notas:

[1] “Another cardinal speaks out against Kaspar,” SSPX News and Events, http://sspx.org/en/news-events/news/another-cardinal-speaks-out-against-kasper-8737

[2] A Call to a Deeper Love: The Family Correspondence of the Parents of Saint Thérèse of the Child Jesus, 1863-1885, trad. Ann Connors Hess, ed. Dr. Frances Renda (Staten Island, NY: St Pauls, 2011), xxxii.

[3] Papa Bento XV, Carta de 27 abril 1915 ao Cardeal Pietro Gasparri, em http://w2.vatican.va/content/benedict-xv/it/letters/1917/documents/hf_ben-xv_let_19170505_regina-pacis.html

[4] Deeper Love, 70, n. 151.

[5] Irmã Genoveva da Sagrada Face, Minha Irmã Santa Teresa (Rockford, IL: Tan Books, 1997), 227.

[6] Deeper Love, xxxvi.

[7] John Beevers, Storm of Glory (Garden City, NY: Image Books, 1955), 11.

[8] Beevers 11.

[9] Beevers 12.

[10] Beevers 12.

[11] Beevers 13.

[12] Arquivos do Carmelo de Lisieux, “The Martin Couple” em http://www.archives-carmel-lisieux.fr/english/carmel/index.php/couple-martin.

[13] Beevers 14.

[14] Beevers 14.

[15] Deeper Love xxii.

[16] Tobias 6,17.

[17] Tobias 6,22.

[18] Tobias 8,5.

[19] Tobias 12, 8-10, 12-13.

[20] Beevers 15.

[21] Henri Ghéon, “A Verdade sobre Teresa” (2011), 21.

[22] Ghéon 21.

[23] Beevers 18.

[24] Deeper Love 401.

[25] Deeper Love 90-91.

[26] Deeper Love xxxviii.

[27] Beevers 52.

[28] Beevers 15.

[29] Beevers 15-16.

[30] Arquivos do Carmelo de Lisieux.

[31] Deeper Love xiv.

[32] Arquivos do Carmelo de Lisieux.

[33] Santa Teresa de Lisieux, História de uma Alma, 3a. edição, tradução de John Clarke, O.C.D. (Washington, D.C.: ICS Publications, 1996), 17,43.

[34] Deeper Love 270.

[35] Deeper Love 315, 320.

[36] Beevers 16.

[37] Beevers 16.

[39] Beevers 30.

[40] Beevers 30.

[41] Beevers 31.

[42] Beevers 79.

[43] Beevers 77.

[44] Ghéon 117.

[45] Arquivos do Carmelo de Lisieux.

[46] Ghéon 117.

[47] Beevers 78-79.

[48] Radio Vaticana, 27 de junho de 2015 em http://www.news.va/en/news/popefrancisapprovesthedecreesforcanonization

[49] “Cardinal: ‘What Sister Lucia told me,’ blog do Rorate-Caeli em http://roratecaeli.blogspot.com/2015/06/cardinalwhatsisterluciatoldme.html