A Culpa Está Matando o Ocidente desde Dentro?

Autor: Giulio Meotti[1]
Tradução: André Carezia

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De acordo com o professor Bruce Gilley, uma ‘sensação de culpa’ pelo colonialismo está degradando o ocidente de dentro para fora, e regimes autoritários como Irã, Rússia, China e Turquia estão lucrando com esta fraqueza.

Os romanos chamavam de damnatio memoriae: a condenação da memória que resultava na destruição dos retratos dos imperadores decaídos, e até dos seus nomes. O mesmo processo está agora em curso no ocidente em relação ao seu passado colonial. A elite cultural no ocidente parece hoje tão assombrada por sentimentos de culpa imperialista que não tem mais a certeza de que a nossa civilização é um motivo de orgulho.

O sentimento de culpa parece agora uma espécie de religião substituta pós-cristã que seduz muitos ocidentais. O estudioso francês Shmuel Trigano sugeriu que esta ideologia está transformando os ocidentais em “sujeitos pós-coloniais” que já não crêem mais em sua própria civilização, e sim naquilo que vai destruí-la: o multiculturalismo. Na França, por exemplo, lançou-se um manifesto por uma “república multicultural e pós-racial.” O resultado será, nas palavras do antropólogo Jean-Loup Amselle, uma “guerra de identidades” e conflitos entre as comunidades. Jeremy Corbyn, líder do Partido dos Trabalhadores britânico, disse no mês passado que se eleito primeiro-ministro iria ordenar que o Museu Britânico devolvesse para a Grécia os mármores de Elgin, o friso que um dia envolveu o Partenon em Atenas e uma das maiores atrações do Museu Britânico. “Toda esta campanha é uma completa demência,” escreveu Richard Dorment. É uma demência, contudo, que se espalha por toda a Europa.

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O presidente francês Emmanuel Macron anunciou que deseja modificar as normas que tornam intocáveis as coleções públicas francesas, permitindo o retorno à África de dezenas de artefatos históricos que hoje ficam no Museu do Louvre. Macron já incumbiu dois comissários – o escritor senegalês Felwine Sarr e o especialista em arte Bénédicte Savoy – de prepararem um relatório.

A Tanzânia solicita a devolução do famoso esqueleto de um Braquiossauro pré-histórico, a principal atração do Museu de História Natural em Berlim. Novas regras a respeito da restituição de “objetos coloniais” foram anunciadas pela ministra da cultura da Alemanha, Monika Grütters.

A maioria dos historiadores hoje é favorável à campanha pela devolução destes objetos. David Olusoga é um deles. Historiador de origem nigeriana, ele alega que estes artefatos coloniais são “roubos” cometidos pelas potências coloniais da época. Opinião diversa tem Zareer Masani, um historiador de origem indiana. Escrevendo para o The Telegraph, ele afirma que foram os colonizadores que tiveram um papel decisivo na preservação das antigüidades da civilização:

“Foi a dedicação deles, freqüentemente com enormes sacrifícios pessoais, que desvendou as maravilhas de muitas civilizações clássicas perdidas… A realidade é que não temos nenhuma idéia do que aconteceria com as antigüidades ‘saqueadas’ pelo mundo se não tivessem sido preservadas em coleções do ocidente. Será que os tesouros do palácio de verão de Pequim teriam sobrevivido à revolução cultural de Mao? Será que os mármores de Elgin teriam sobrevivido aos guias turísticos turcos, que quebravam pedacinhos para vender como souvenir? Será que o Daesh [Estado Islâmico] teria poupado os artefatos que sobrevivem nos museus europeus?”

Em 1969, a BBC levou ao ar “Civilization”, uma série de Kenneth Clark que explorava a arte e a cultura ocidentais. A civilização, então, era algo a ser glorificado. Em 2018, a BBC colocou no ar uma nova versão do clássico de Clark, “Civilizations” – note o plural. “Este ano, a versão século XXI do consagrado programa vai lançar um olhar crítico à história da civilização britânica, questionando se foi construída mediante ‘o saque e a fraude’ e quem são, de verdade, os bárbaros,” escreve Hannah Furness no The Telegraph. Um dos novos apresentadores é David Olusoga, o historiador que chamou os mármores de Elgin “um claríssimo caso de roubo”.

Há trinta anos, num livro, “As Lágrimas do Homem Branco”, o filósofo francês Pascal Bruckner escreveu que “o crítico fanático que denuncia sem interrupção e sem remorso as mentiras da democracia parlamentar é repentinamente arrebatado pela admiração diante das atrocidades cometidas em nome do Corão, das Vedas, do Grande Timoneiro…” Desde então, as elites ocidentais já desculparam muitos crimes cometidos em nome do Islã político, como se fossem conseqüências de nossos próprios crimes coloniais.

Quando os cristãos no Iraque foram exilados, assassinados ou perseguidos en masse pelo chamado Estado Islâmico, o ocidente quedou em silêncio – como se esses cristãos fossem os agentes do colonialismo ocidental, e não os habitantes legítimos e mais antigos do Oriente Médio, muito antes dos árabes se converterem ao Islã. Quando uma turba destruiu o Instituto Francês no Cairo, queimando livros e coleções, aqueles que agora querem devolver os “artefatos coloniais” quedaram em silêncio. Quando o presidente Rouhani do Irã visitou Roma, as autoridades italianas cobriram as estátuas nuas nos Museus Capitolinos. Será que estamos encobrindo a nossa própria cultura para agradar o mundo islâmico?

Infelizmente, o que estamos “devolvendo” não são apenas os artefatos coloniais, mas o nosso orgulho mesmo da civilização ocidental. Uma nova “condenação da memória” está ocorrendo em nossos próprios museus, academia e classes falantes – e tem profundas repercussões em nossa capacidade de lidar com os inimigos da civilização. “O material pós-colonial fornece um combustível importante para o jihadismo,” declarou o estudioso de Islamismo mais importante da França, Gilles Kepel.

The Monuments Men”[2] é um filme feito em 2014 por George Clooney. É sobre um grupo de curadores ocidentais e especialistas em arte que viajam à Europa para resgatar obras-primas roubadas pelos nazistas. Foi uma estória de bravura e clareza moral ocidental durante a 2a. Guerra Mundial. Em 2015, o Estado Islâmico destruiu Palmira, uma das mais importantes cidades do mundo antigo. Mas o ocidente assistiu passivamente a esta destruição cultural, e nenhum “caçador de obra-prima” foi enviado para salvar Palmira e outros sítios ameaçados. Os russos, tirando vantagem da passividade do ocidente, entraram em Palmira; o maestro mais famoso da Rússia, Valery Gergiev, durante a apresentação de um concerto triunfal na arena de Palmira, disse: “Protestamos contra os bárbaros que destruíram monumentos maravilhosos da cultura mundial”. Daí os ocidentais recriaram em Londres uma cópia vulgar do arco de Palmira.

Cadê os nossos caçadores de obras-primas de hoje?


Notas:

[1] Traduzido do original publicado em 1/julho/2018 no site do Gatestone Institute. O autor Giulio Meotti é jornalista italiano e editor de cultura do jornal Il Foglio. Link para o artigo original: https://www.gatestoneinstitute.org/12569/guilt-museums-artifacts

[2] Lançado no Brasil com o título “Caçadores de Obras-Primas”