O Homem no Matrimônio

(Extraído da edição italiana do livro “A Intimidade Conjugal: o Livro do Marido”, de Pierre Dufoyer, publicado em 1957.)

Tradução: Ana Cândida Tocheton Cristofoletti

Revisão: André Carezia

Marido

A chave para se conhecer a psicologia de uma mulher constitui-se, principalmente, na riqueza de seu coração, de sua vida sentimental e de sua notável sensibilidade psíquica (…). Sua força é o coração. Possui uma capacidade sentimental particularmente aflorada e por causa disso reage de maneira intensa a todas as emoções. Seus modos gentis e atenciosos no trato constituem prova visível desse afeto que lhe proporciona grande alegria (…). Uma mulher que ama possui mil maneiras de ser carinhosa, demonstrar delicadeza e agradar. Nessa arte é extremamente hábil. (…)

O marido deverá recordar-se que fará a esposa feliz, acima de tudo, quando a envolver com um intenso amor vindo de dentro de seu coração, aquele amor que se constitui no grande sonho de qualquer noiva. (…) Sem amor, a alma da mulher atrofia. Naturalmente, espera-se firmeza do marido, mas uma firmeza com amor. Dele emana força, mas uma força unida à delicadeza. É desejada a força masculina, mas entrelaçada com amor e carinho.

Enquanto busca cuidadosamente desvendar a natureza da própria esposa, o homem deve preocupar-se em possuir todas as verdadeiras características masculinas, mas sem os respectivos defeitos. Deve ser calmo, senhor de si, com retidão de caráter, seguro e enérgico em suas maneiras. Com esse comportamento firme nas diversas situações e dificuldades da vida, dá à esposa um reconfortante sentimento de segurança e confiança. (…) Aquele que compreende o segredo da verdadeira autoridade, sabe combinar firmeza com delicadeza, força com suavidade. Mas deverá também desvendar a natureza de sua esposa e fazê-la feliz.

Na convivência com a mulher amada, o homem descobre tesouros do coração que nenhuma outra pessoa pode oferecer. Por isso, deve tolerar, com caridade, suas fraquezas de caráter. (…) Nunca deve o marido perder a calma, nem mesmo em resposta ao temperamento emotivo da esposa. Nesses casos, é necessário um apoio efetivo ao invés de uma reação irritada, uma vez que não existem más intenções. O marido atencioso deve empreender a tarefa que o destina a ser o apoio e a proteção da própria mulher. A característica fundamental de sua natureza, e que o torna encantador, é a capacidade de unir a firmeza com a suavidade.

Por Que Deus Permite as Doenças?

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Muitos católicos se perguntam: se Deus nos ama, porque permite as doenças? São Beda Venerável, doutor da Igreja que viveu nos séculos VII e VIII onde hoje é a Inglaterra, explica:

“Principalmente são cinco as causas das enfermidades que afligem os homens:

  1. Aumentar seus méritos, como aconteceu com Jó (cap. 1) e com os mártires;
  2. Conservar sua humildade, da qual é exemplo São Paulo atormentado por Satanás (2Cor, 12);
  3. Conhecermos nossos pecados e nos emendarmos, como sucedeu a Maria, irmã de Moisés (Num 12) e a este paralítico [de Mc 2,1-12];
  4. Para maior glória de Deus, como ocorreu com o cego de nascimento (Jo 9) e com Lázaro (Jo 11); e
  5. Aquela que é, enfim, um princípio de condenação, como se demonstra em Herodes (Atos 12) e em Antíoco (2Mac 9).

Digna de admiração é, pois, a virtude do poder divino, que faz com que à ordem do Salvador se siga instantaneamente a cura.”

(Os comentários de São Beda foram traduzidos por mim da Catena Aurea, de São Tomás de Aquino, versão espanhola: http://hjg.com.ar/catena/c298.html)

Santo Agostinho, Bispo e Doutor da Igreja

Autor: Dom Próspero Gueranger, in “O Ano Litúrgico”

Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

A ALMA DOS SANTOS — “Quão admirável é Deus em Seus Santos!”[1] Esta exclamação do Salmo nos é sugerida pela liturgia quase todos os dias. Dentre todos os espetáculos oportunos para alegrar-nos e animar-nos, nenhum há que cause tanta admiração como a alma de um santo. “Que formosa é uma alma!”, dizia o santo Cura d’Ars; e santa Catarina de Gênova exclamou no dia em que recebeu do céu o favor de contemplar uma alma em estado de graça: “Senhor, se eu não soubesse que há um só Deus, creria que esta alma é um deus.” A Igreja se compraz em trazer à nossa memória a recordação dos santos, agrupar-nos junto a seus altares, expor suas relíquias para a nossa veneração, e propor-nos seus exemplos e conselhos. Neles, mostra-nos o que a natureza e a graça têm de mais elevado e mais suave, de mais misterioso e mais atraente.

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SANTO AGOSTINHO — É muito difícil comparar os méritos dos santos para averiguar quais são os maiores, e talvez seja preferível nem sequer tentá-lo. Contudo, não podemos deixar de reconhecer naquele que a Igreja celebra hoje “o homem que, unido ao corpo místico de Cristo por um milagre, provavelmente não teve nunca, a julgar pela história, em tempo algum e em povo algum, outro que lhe igualasse em grandeza e em sublimidade.”[2]

É destes homens suscitados por Deus para que, com seu talento superior e com suas obras, adaptando-se às necessidades de sua época e de todos os tempos, fortaleçam e continuem sustentando o povo cristão, sobretudo quando o poder das trevas se apresenta mais ameaçador e o erro se propaga com maior facilidade. “É, dizia Leão XIII, um talento vigoroso que, dominando todas as ciências humanas e divinas, combateu todos os erros de seu tempo;”[3] e se a autoridade de sua palavra não pode se colocar acima da autoridade da Igreja docente, sabemos ao menos que “a Igreja romana segue e conserva a doutrina de Santo Agostinho.”

O AMANTE DA SABEDORIA — Santo Agostinho é, em primeiro lugar, o amante da Sabedoria, a qual é Deus: “Ama somente Ela, por Ela mesma, e unicamente por Ela ama o descanso e a vida.[4] Ouçamo-lo por um momento a desafogar seu coração, que foi objeto de tão grande misericórdia: ‘Tarde Te amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde Te amei!’ E Tu estavas dentro de mim e eu fora, e por fora Te buscava…[5] Perguntei à terra e ela me disse: ‘Não sou eu aquele que tu buscas’; e todas as coisas que nela há me confessavam o mesmo. Perguntei ao mar e aos abismos e aos répteis de alma viva, e me responderam: ‘Não somos teu Deus; busca-O acima de nós.’ Interroguei o ar que respiramos, e o vento, com seus moradores, me disse: ‘Engana-se Anaxímenes, eu não sou teu Deus.’ Perguntei ao céu, ao sol, à lua e às estrelas: ‘tampouco somos nós o Deus que buscas’, me responderam. Disse então a todas as coisas que estão fora das portas de minha carne: ‘dizei-me algo de meu Deus, já que vós não O sois; dizei-me algo dEle.’ E exclamaram todas com grande voz: Ele nos fez[6]. Se houvesse alguém no qual silenciasse o tumulto da carne; e silenciassem as imagens da terra, da água e do ar; e silenciasse o próprio céu, e ainda a própria alma silenciasse e se elevasse acima de si, sem pensar em si; se silenciassem os sonhos e revelações imaginárias; e se, enfim, silenciasse por completo toda língua, todo sinal e tudo quanto sucede, posto que todas estas coisas dizem a quem lhes dá ouvidos: ‘Não nos fizemos a nós mesmas, mas Aquele que permanece eternamente foi quem nos fez’; se, dito isto, silenciassem e voltassem o ouvido Àquele que as fez, e somente Ele falasse, não por elas, mas por Ele mesmo, de modo que ouvissem Sua palavra, não por língua de carne, nem por voz de anjo, nem por som de nuvens, nem por enigmas de semelhança, mas sim que O ouvíssemos a Ele mesmo, a quem amamos nestas coisas, a Ele mesmo sem elas, como no presente nos elevamos e tocamos rapidamente com o pensamento a eterna Sabedoria, que permanece sobre todas as coisas; se, por último, este estado continuasse e fossem afastadas dEle as demais visões de índole muito inferior, e estas somente arrebatassem, absorvessem e confundissem os gozos mais íntimos de seu contemplador, de modo que a vida eterna fosse qual este momento de intuição pelo qual suspiramos, não seria isto o Entrar no gozo de teu Senhor[7]? Chamaste e clamaste, Senhor, e rompeste minha surdez; brilhaste e resplandeceste, e afugentaste minha cegueira; exalaste Teu perfume e respirei, e suspiro por Ti; gostei de Ti, e sinto fome e sede; tocaste-me, e me abrasei em Tua paz. Quando me unir a Ti com todo meu ser, já não haverá mais dor nem esforço para mim.”[8]

O DOUTOR DA IGREJA — Por muito tempo, Agostinho foi escravo das concupiscências e das paixões de seu coração; por muito tempo sua inteligência esteve presa pelos horrores maniqueístas, e muito lhe custou romper também estes laços e voltar a falar a verdade da Igreja católica. Porém, uma vez convertido, empreendeu resolutamente a ofensiva contra o erro. Vinha no rastro dos célebres doutores Clemente de Roma, Irineu, Hilário, Atanásio, Ambrósio, Basílio, João Crisóstomo; mas são seus ensinamentos orais e escritos ao longo de quase meio século que mais nos admiram.

Declara-se inimigo do maniqueísmo, do qual em outros tempos fora apóstolo convicto, e reduz a nada essa estranha heresia, que, para explicar a existência do mal, havia imaginado divinizá-lo e colocá-lo contra o Deus bom. Nesta luta, entretanto, Agostinho mostra sua alma repleta de mansidão para com aqueles com quem compartilhou tanto tempo a mesma ilusão: “Que sejam severos convosco os que não sabem quão raro é, e quanto custa, chegar a superar com a serenidade de uma alma piedosa os fantasmas dos sentidos. Mostrem-se duros os que ignoram com que trabalho se cura o olho do homem interior, para olhar para seu sol, o sol de justiça; os que não sabem com que ânsias e com que gemidos se chega a entender um pouco de Deus. Tolero, enfim, a intransigência daqueles que jamais conheceram tal sedução como a que vos faz viver equivocados… De minha parte, de modo algum serei exigente convosco, porque, além do meu espírito procurar fantasias fúteis que lhe arrastaram para todo lado, eu tomei parte nessa vossa miséria, e tive que chorar muito.” [9]

Era-lhe mais agradável demonstrar aos homens seu fim último e o único meio de conseguir a bem-aventurança, como o faz nesta famosa oração: “Fizeste-nos para Ti, ó Deus meu, e nosso coração está inquieto até que descanse em Ti;” [10] e recordar-lhes que inutilmente tentariam alcançar o céu sem a submissão e a obediência que se devem à Igreja católica, que é a única instituída por Deus para levar às almas a luz e a força. O próprio santo tinha supremo empenho em submeter-se à autoridade da Igreja docente, convencido de que, enquanto assim agisse, não se afastaria nem um milímetro da verdadeira doutrina.

De modo especial, agrada-lhe defender a natureza da graça, já que sabe muito bem quanto deve a ela. Sua oração preferida: “Senhor, concede-me o que ordenas, e ordena o que queres”[11], feria o orgulho do monge Pelágio, para quem a natureza era onipotente para fazer o bem, e se bastava totalmente para a salvação, posto que o pecado original não a havia modificado. Fez um estudo sobre a graça, tão completo e perfeito, que passou a ser chamado de “Doutor da Graça”; estudo que os escritores católicos, dali em diante, passaram a consultar ao tratarem desse tema, para, seguindo seus ensinamentos e os ensinamentos da Igreja, verem-se livres de cair em erro.

O ENSINAMENTO DE SUA VIDA — Há, entretanto, outro ensinamento que Agostinho dava aos fiéis: o de sua vida virtuosa. Posídio, seu primeiro biógrafo, assegurava que “os que puderam vê-lo e ouvi-lo pregar na igreja, e sobretudo os que desfrutaram de suas conversas, tiraram muito proveito. Porque não somente era um sábio nas coisas do reino dos céus, mas era daqueles de quem havia dito o Salvador: aquele que praticar e ensinar aos homens desta maneira, este será grande no reino dos céus.” Buscou ardorosamente a caridade como a mais nobre das virtudes, e cultivou-a com tal constância que lhe valeu ser representado com um coração de fogo na mão; sua alma, por vezes, voltava-se a Deus, como ele mesmo nos contou no famoso episódio do êxtase de Óstia. É que se entregava sem interrupção a contemplar a vida de Cristo; além disso, esforçava-se para reproduzir em si o modelo divino, devolvendo amor por amor, como ele aconselhava às virgens: “Esteja gravado em vosso coração Aquele que por vós foi cravado na cruz.”

AS PROVAS — Não podia faltar a provação de dor a esta grande alma. Nem devemos imaginar o santo em amena meditação, ou escrevendo na paz de uma singela cidade episcopal, escolhida para tal pela Providência, essas obras preciosas cujos frutos o mundo colheria até nossos dias. Nesta vida não há fecundidade sem padecimento, sem tribulações públicas ou privadas, sem sacrifícios conhecidos por Deus ou pelos homens; quando, ao ler os escritos dos santos, brotam em nós piedosos pensamentos e resoluções generosas, não devemos nos contentar, como se fossem livros profanos, em render um tributo de admiração ao gênio de seus autores; devemos, ao contrário, pensar ainda mais em quanto lhes custou esse bem sobrenatural que produzem em nossas almas. Antes de Agostinho chegar a Hipona, os donatistas já eram tal maioria que o santo conta que se valiam disso até para proibir assar pães para os católicos[12]. Quando o santo morreu, as coisas haviam mudado notavelmente; mas foi necessário que o pastor, colocando em primeiro lugar o dever de salvar a todo custo as almas que se lhe haviam confiado, gastasse seus dias e suas noites nesta obra essencial, correndo mais de uma vez o feliz perigo do martírio[13]. Os chefes dos cismáticos, temendo mais a força de seus argumentos do que sua eloqüência, negavam-se a disputar com ele, e haviam tornado público que matar Agostinho seria uma obra louvável, merecedora do perdão de todos os pecados de quem se comprometesse a levá-la a cabo[14].

“Rogai por nós”, dizia no início de seu ministério, “rogai por nós, que vivemos de maneira tão precária, entre dentes de lobos furiosos; ovelhas desgarradas, ovelhas obstinadas, que se aborrecem porque vamos atrás delas, como se seus extravios fizessem-nas não ser nossas.”[15]

SEU ZELO — E para com seu rebanho fiel, que abnegação e que bondade manifestava o Pastor! É uma delícia vê-lo em meio a seu povo, falando-lhe familiarmente, deixando-se cercar e cativar por ele. Sua porta sempre aberta a todos os que chegavam, atendia todo pedido, toda dor, todo litígio. Às vezes, ante a insistência das outras igrejas e dos concílios que reivindicavam seus trabalhos e conselhos, Agostinho e seus visitantes faziam um pacto que, por certo, durava muito pouco, porque sobretudo os pobres e os humildes sabiam que a vida e o coração do santo era para eles.

Seria preciso ler todas as suas obras, o relato de suas “Confissões”, seus sermões e suas homilias para chegar a compreender esta alma incomparável. Pio XI, ao encerrar a encíclica que dedicou a seu louvor, dizia que “sua vida e seus méritos, seu agudo talento, a amplitude e a profundidade de sua ciência, a sublimidade de sua santidade, a luta que teve que travar para defender a verdade católica, fazem com que não se possam encontrar, por assim dizer, outros homens, ou muito poucos a quem compará-lo, desde o princípio do mundo até hoje.”

A grandeza dos santos não se parece com a dos poderosos deste mundo; estes nos assustam e aqueles, ao contrário, nos atraem e nos infundem confiança. Não nos desanimam nem a sublimidade de seu talento, nem a santidade de sua vida, nem o rigor de sua penitência, nem o fogo de sua caridade. Pelo dogma da Comunhão dos Santos, sabemos que são nossos irmãos; e, por estarem próximos ao Senhor, parecem-se com Ele, participam de Sua ternura, de Sua benignidade, de Sua misericórdia. Deixaram-nos seus exemplos e seus ensinamentos, e agora oferecem sua oração e seus méritos para que, embora de longe, sigamo-los pelo caminho que leva a Deus. Tomara que cheguemos a nos unir intimamente e para sempre com este Deus, o qual Agostinho se lamentava “de haver conhecido e começado a amar demasiado tarde”!

VIDA — Agostinho nasceu em Tagaste, na Numídia, em 13 de novembro de 354, de pai pagão e de mãe cristã, Santa Mônica. De inteligência brilhante, estudou em Cartago, depois em Roma e em Milão, onde ensinou a retórica. Em sua juventude conheceu a desordem dos sentidos e caiu na heresia maniqueísta. Tocado porém pela graça obtida pelas orações e lágrimas de sua mãe Santa Mônica, iluminado pelos ensinamentos e conselhos de Santo Ambrósio, converteu-se e recebeu o batismo em 25 de abril de 387. Pouco depois chegou à África para ali praticar, com muitos outros discípulos, uma vida monástica totalmente dedicada à oração e ao estudo. Em 391 se ordenou sacerdote. Sua ciência, sua eloqüência, sua santidade, valeram-lhe para substituir Valério, bispo de Hipona. Durante cerca de quarenta anos se entregou ao ensino de seu povo, à conversão dos hereges e a escrever suas inumeráveis obras. Morreu em 430, quando os vândalos cercaram sua cidade.

SÚPLICA — Enfim, após doze séculos, voltamos a ver a Cruz na África tão querida, onde perecera até o nome de muitas igrejas florescentes em outros tempos. Queira Deus que a liberdade de que agora desfruta permita-lhe alcançar rapidamente seu triunfo sobre o Corão! Tomara que a nação que hoje protege teu solo natal possa sentir-se orgulhosa desta nova honra, e compreenda as obrigações que disso derivam!

Teus feitos, contudo, não se amorteceram no decorrer desta noite prolongada. Tuas obras imortais iluminaram as inteligências e despertaram o amor através do mundo inteiro. Nas basílicas atendidas por teus filhos e imitadores, o esplendor do culto divino e a perfeição das santas melodias mantiveram no coração dos povos a alegria sobrenatural que se apoderou de ti ao ressoar pela primeira vez em nosso Ocidente o canto alternado dos salmos e dos hinos litúrgicos[16] sob a direção de Ambrósio. Em todas as épocas, a vida perfeita renovou sua juventude com as mil formas com que o mandamento duplo da caridade exige revesti-la, bebendo nas águas que correm de tuas fontes[17].

Ilumina continuamente a Igreja com tuas luzes incomparáveis. Bendize as muitas famílias religiosas que se amparam em teu insigne patrocínio. Ajuda-nos a todos, alcançando-nos o espírito de amor e de penitência, de confiança e de humildade, que orna tão bem com uma alma resgatada; ensina-nos quão débil e indigna é a natureza depois da queda, mas também dá-nos conhecer a bondade sem limites de nosso Deus, a superabundância de Sua redenção, a onipotência de Sua graça. E que, contigo, todos saibamos não somente reconhecer a verdade, mas também dizer a Deus de modo leal e prático: “Fizeste-nos para Ti, e nosso coração está inquieto até que descanse em Ti.”[18]

[1] Salmo 67, 36.

[2] Encíclica Ad salutem humani, de 20 de abril de 1930.

[3] Encíclica Aeterni Patris.

[4] João II, Registro de Cartas, l. X , c. XXXVII.

[5] Confissões, l. X, c. XXVII.

[6] Confissões, l. X, c. VI.

[7] Confissões, l. IX, c. X.

[8] ibid, l. X, c. XXVII.

[9] Contra epist. Manichael quam vocant fundamenti, 2-3.

[10] Confissões, l. I, c. I.

[11] Confissões, l. X , cc. XXIX, XXXI.

[12] Contra litteras Petiliani, II, 184.

[13] Posidius, Vita Augustini, 13.

[14] ibid., 10.

[15] Sermão XLVI, 14.

[16] Confissões, l. IX , cc. VI, VII.

[17] Prov 5, 16.

[18] Confissões, l. I, c. I.

A Conversão de São Paulo

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At 9, 1-22

Enquanto isso, Saulo só respirava ameaças e morte contra os discípulos do Senhor. Apresentou-se ao príncipe dos sacerdotes, e pediu-lhe cartas para as sinagogas de Damasco, com o fim de levar presos a Jerusalém todos os homens e mulheres que achasse seguindo essa doutrina.

Durante a viagem, estando já perto de Damasco, subitamente o cercou uma luz resplandecente vinda do céu. Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que me persegues? Saulo disse: Quem és, Senhor? Respondeu ele: Eu sou Jesus, a quem tu persegues. [Duro te é recalcitrar contra o aguilhão. Então, trêmulo e atônito, disse ele: Senhor, que queres que eu faça? Respondeu-lhe o Senhor:] Levanta-te, entra na cidade. Aí te será dito o que deves fazer.

Os homens que o acompanhavam enchiam-se de espanto, pois ouviam perfeitamente a voz, mas não viam ninguém. Saulo levantou-se do chão. Abrindo, porém, os olhos, não via nada. Tomaram-no pela mão e o introduziram em Damasco, onde esteve três dias sem ver, sem comer nem beber. Havia em Damasco um discípulo chamado Ananias. O Senhor, numa visão, lhe disse: Ananias! Eis-me aqui, Senhor, respondeu ele. O Senhor lhe ordenou: Levanta-te e vai à rua Direita, e pergunta em casa de Judas por um homem de Tarso, chamado Saulo; ele está orando.

(Este via numa visão um homem, chamado Ananias, entrar e impor-lhe as mãos para recobrar a vista.) Ananias respondeu: Senhor, muitos já me falaram deste homem, quantos males fez aos teus fiéis em Jerusalém. E aqui ele tem poder dos príncipes dos sacerdotes para prender a todos aqueles que invocam o teu nome.

Mas o Senhor lhe disse: Vai, porque este homem é para mim um instrumento escolhido, que levará o meu nome diante das nações, dos reis e dos filhos de Israel. Eu lhe mostrarei tudo o que terá de padecer pelo meu nome. Ananias foi. Entrou na casa e, impondo-lhe as mãos, disse: Saulo, meu irmão, o Senhor, esse Jesus que te apareceu no caminho, enviou-me para que recobres a vista e fiques cheio do Espírito Santo.

No mesmo instante caíram dos olhos de Saulo umas como escamas, e recuperou a vista. Levantou-se e foi batizado. Depois tomou alimento e sentiu-se fortalecido. Demorou-se por alguns dias com os discípulos que se achavam em Damasco. Imediatamente começou a proclamar pelas sinagogas que Jesus é o Filho de Deus. Todos os seus ouvintes pasmavam e diziam: Este não é aquele que perseguia em Jerusalém os que invocam o nome de Jesus? Não veio cá só para levá-los presos aos sumos sacerdotes?

Saulo, porém, sentia crescer o seu poder e confundia os judeus de Damasco, demonstrando que Jesus é o Cristo.

(A reflexão que segue é retirada das Catequeses Paulinas de Bento XVI, de 3 de setembro de 2008; o original está em https://w2.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/audiences/2008/documents/hf_ben-xvi_aud_20080903.html)

A catequese de hoje será dedicada à experiência que São Paulo teve no caminho de Damasco, e portanto ao que comumente se chama a sua conversão. Precisamente no caminho de Damasco, nos primeiros anos 30 do século I, e depois de um período no qual tinha perseguido a Igreja, verificou-se o momento decisivo da vida de Paulo.

Sobre ele muito foi escrito e naturalmente sob diversos pontos de vista. O que é certo é que ali aconteceu uma mudança, aliás, uma inversão de perspectiva. Então ele, inesperadamente, começou a considerar “perda” e “esterco” tudo o que antes constituía para ele o máximo ideal, quase a razão de ser da sua existência (cf. Fl 3, 7-8). O que tinha acontecido?

Em relação a isto temos dois tipos de fontes. O primeiro tipo, o mais conhecido, são as narrações pela mão de Lucas, que por três vezes narra o acontecimento nos Atos dos Apóstolos (cf. 9, 1-19; 22, 3-21; 26, 4-23). O leitor médio é talvez tentado a deter-se demasiado nalguns pormenores, como a luz do céu, a queda por terra, a voz que chama, a nova condição de cegueira, a cura e a perda da vista e o jejum.

Mas todos estes pormenores se referem ao centro do acontecimento: Cristo ressuscitado mostra-se como uma luz maravilhosa e fala a Saulo, transforma o seu pensamento e a sua própria vida. O esplendor do Ressuscitado torna-o cego: assim vê-se também exteriormente o que era a sua realidade interior, a sua cegueira em relação à verdade, à luz que é Cristo.

E depois o seu “sim” definitivo a Cristo no batismo volta a abrir os seus olhos, faz com que ele realmente veja. Na Igreja antiga o batismo era chamado também “iluminação”, porque este sacramento realça, faz ver realmente. O que assim se indica teologicamente, em Paulo realiza-se também fisicamente: curado da sua cegueira interior, vê bem.

Portanto, São Paulo foi transformado não por um pensamento mas por um acontecimento, pela presença irresistível do Ressuscitado, da qual nunca poderá sucessivamente duvidar, dado que foi muito forte a evidência do acontecimento, deste encontro. Ele mudou fundamentalmente a vida de Paulo; neste sentido pode e deve falar-se de uma conversão.

Este encontro é o centro da narração de São Lucas, o qual é possível que tenha usado uma narração que provavelmente surgiu na comunidade de Damasco. Leva a pensar isto o entusiasmo local dado à presença de Ananias e dos nomes quer do caminho quer do proprietário da casa em que Paulo esteve hospedado (cf. At 9, 9-11).

O segundo tipo de fontes sobre a conversão é constituído pelas próprias Cartas de São Paulo. Ele nunca falou pormenorizadamente deste acontecimento, talvez porque podia supor que todos conhecessem o essencial desta sua história: todos sabiam que de perseguidor tinha sido transformado em apóstolo fervoroso de Cristo.

E isto tinha acontecido não após uma própria reflexão, mas depois de um acontecimento importante, um encontro com o Ressuscitado. Mesmo sem falar dos pormenores, ele menciona diversas vezes este fato importantíssimo, isto é, que também ele é testemunha da ressurreição de Jesus, do qual recebeu imediatamente a revelação, juntamente com a missão de apóstolo. O texto mais claro sobre este ponto encontra-se na sua narração sobre o que constitui o centro da história da salvação: a morte e a ressurreição de Jesus e as aparições às testemunhas (cf. 1 Cor 15).

Com palavras da tradição antiga, que também ele recebeu da Igreja de Jerusalém, diz que Jesus morto e crucificado, sepultado e ressuscitado apareceu, depois da ressurreição, primeiro a Cefas, isto é a Pedro, depois aos Doze, depois a quinhentos irmãos que em grande parte naquele tempo ainda viviam, depois a Tiago, e depois a todos os Apóstolos. E a esta narração recebida da tradição acrescenta: “E, em último lugar, apareceu-me também a mim” (1 Cor 15, 8).

Assim dá a entender que é este o fundamento do seu apostolado e da sua nova vida. Existem também outros textos nos quais se encontra a mesma coisa: “Por meio de Jesus Cristo recebemos a graça do apostolado” (cf. Rm 1, 5); e ainda: “Não vi eu a Jesus Cristo, Nosso Senhor?” (1 Cor 9, 1), palavras com as quais ele faz alusão a um aspecto que todos conhecem.

E finalmente o texto mais difundido lê-se em Gl 1, 15-17: “Mas, quando aprouve a Deus que me reservou desde o seio de minha mãe e me chamou pela Sua graça revelar o Seu Filho em mim, para que O anunciasse entre os gentios, não consultei a carne nem o sangue, nem voltei a Jerusalém para ir ter com os que foram Apóstolos antes de mim, mas parti para a Arábia e voltei outra vez a Damasco”.

Nesta “auto-apologia” ressalta decididamente que também ele é testemunha verdadeira do Ressuscitado, tem uma missão própria que recebeu imediatamente do Ressuscitado.

Assim podemos ver que as duas fontes, os Atos dos Apóstolos e as Cartas de São Paulo, convergem e convêm sob o ponto fundamental: o Ressuscitado falou a Paulo, chamou-o ao apostolado, fez dele um verdadeiro apóstolo, testemunha da ressurreição, com o encargo específico de anunciar o Evangelho aos pagãos, ao mundo greco-romano.

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E ao mesmo tempo Paulo aprendeu que, apesar da sua relação imediata com o Ressuscitado, ele deve entrar na comunhão da Igreja, deve fazer-se batizar, deve viver em sintonia com os outros apóstolos. Só nesta comunhão com todos ele poderá ser um verdadeiro apóstolo, como escreve explicitamente na primeira Carta aos Coríntios: “Assim é que pregamos e é assim que vós acreditastes” (15, 11). Há só um anúncio do Ressuscitado, porque Cristo é um só.

Como se vê, em todos estes trechos Paulo nunca interpreta este momento como um fato de conversão. Porquê? Existem muitas hipóteses, mas para mim o motivo é muito evidente. Esta mudança da sua vida, esta transformação de todo o seu ser não foi fruto de um processo psicológico, de uma maturação ou evolução intelectual e moral, mas vem de fora: não foi o fruto do seu pensamento, mas do encontro com Cristo Jesus.

Neste sentido não foi simplesmente uma conversão, uma maturação do seu “eu”, mas foi morte e ressurreição para ele mesmo: morreu uma sua existência e outra nova nasceu com Cristo Ressuscitado. De nenhum outro modo se pode explicar esta renovação de Paulo. Todas as análises psicológicas não podem esclarecer e resolver o problema.

Só o acontecimento, o encontro forte com Cristo, é a chave para compreender o que tinha acontecido: morte e ressurreição, renovação por parte d’Aquele que se tinha mostrado e tinha falado com ele. Neste sentido mais profundo podemos e devemos falar de conversão. Este encontro é uma renovação real que mudou todo os seus parâmetros. Agora pode dizer que o que antes era para ele essencial e fundamental, se tornou agora “esterco”; já não é “lucro”, mas perda, porque agora só conta a vida em Cristo.

Contudo não devemos pensar que Paulo assim se tenha fechado num acontecimento cego. É verdade o contrário, porque Cristo Ressuscitado é a luz da verdade, a luz do próprio Deus. Isto alargou o seu coração, tornou-o aberto a todos. Neste momento não perdeu o que havia de bom e verdadeiro na sua vida, na sua herança, mas compreendeu de modo novo a sabedoria, a verdade, a profundidade da lei e dos profetas, e delas se apropriou de modo novo.

Ao mesmo tempo, a sua razão abriu-se à sabedoria dos pagãos; tendo-se aberto a Cristo com todo o coração, tornou-se capaz de um diálogo amplo com todos, tornou-se capaz de se fazer tudo em todos. Assim podia ser realmente o apóstolo dos pagãos.

Voltando a nós, perguntamo-nos o que significa isto para nós? Significa que também para nós o cristianismo não é uma nova filosofia ou uma nova moral. Somos cristãos unicamente se encontramos Cristo. Certamente Ele não se mostra a nós deste modo irresistível, luminoso, como fez com Paulo para fazer dele o apóstolo de todas as nações.

Mas também nós podemos encontrar Cristo, na leitura da Sagrada Escritura, na oração, na vida litúrgica da Igreja. Podemos tocar o coração de Cristo e sentir que Ele toca o nosso. Só nesta relação pessoal com Cristo, só neste encontro com o Ressuscitado nos tornamos realmente cristãos. E assim abre-se a nossa razão, abre-se toda a sabedoria de Cristo e toda a riqueza da verdade.

Portanto rezemos ao Senhor para que nos ilumine, para que nos doe no nosso mundo o encontro com a sua presença: e assim nos conceda uma fé viva, um coração aberto, uma grande caridade para todos, capaz de renovar o mundo.

Oração

Ó São Paulo Apóstolo, pregador da Verdade e Doutor dos Gentios, interceda por nós junto a Deus, que o escolheu. Amém.

Ó Deus, vós que instruístes muitas nações através das pregações do bem-aventurado apóstolo Paulo, dai-nos caminhar para vós seguindo seus exemplos e ser, no mundo, testemunhas do Evangelho. Amém.

Pai-Nosso…

Ave-Maria…

Glória…

Você vê o que eu vejo?

(Publicado originalmente no jornal católico The Remnant, edição de 31/dez/2015.)

Autora: Susan Claire Potts

Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

A neve caía fraca, congelando a guirlanda de folha de cedro na sacada do apartamento de Tom e Angelina Reynolds. Angelina estava em pé junto ao guarda-corpo, de roupão de banho bem amarrado, olhando para baixo, para o Rio Detroit. Um único cargueiro avançava lentamente em direção ao Lago Saint Clair, silencioso como uma jangada, seu casco amarelo queimado a única cor no rio.

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Era véspera de Natal, e o sol se elevava no oriente. Ela ouviu a porta se abrir por trás dela.

“Ei! Angie!”, exclamou Tom.

Ela se virou.

“Que está fazendo aqui fora?”

“Pensando.”

“Ninguém lhe contou que está nevando?”

Ela ignorou a pergunta. “Você levantou cedo”, ela disse.

“A emissora acabou de ligar”, ele respondeu. “Tenho que ir a Holly.”

“Pensei que estava de folga hoje.”

“Também pensei”. Ele fez uma careta. “Meu, está congelando. Você vem?”

“Claro.”

Ela o ouvia resmungar enquanto o seguia até a cozinha. “Tinha que me chamar. Não podia mandar outro… acaba com meu dia de folga…”, ele reclamou enquanto se servia de uma xícara de café.”

“O que há em Holly?”, ela perguntou.

“Umas crianças da fazenda montando um presépio vivo, ou algo do tipo”, ele respondeu dando de ombros. “Markowitz achou que daria uma boa história. Crianças, animais, Natal… muitas emoções.”

Ele abriu a geladeira para pegar o creme de leite. “Bom quando terminar.”

“Tom…”

Ele não queria ouvir. “Então o que vai fazer agora pela manhã?”, perguntou.

“Ensaio do coral”. Ela fez uma pausa. “Para a Missa da meia-noite. Quer ir comigo?”

“Não”. Ele virou a cabeça. Não queria ver a reprovação que ele sabia estar no rosto dela. “Mas levarei você de carro.”

“Obrigada.”

“De nada.”

Ela estava quieta. Exceto pelo próprio casamento, Tom não ia à Missa desde a faculdade. Ele era um repórter de TV e só acreditava no que via com seus próprios olhos. Sua mãe a alertara. Angelina, ele não vai à igreja, ela dissera, enxugando as mãos no avental. Que vai fazer quando os bebês vierem?

“Vou pensar nisso quando chegar a hora”, respondeu Angelina. Nada bom. Nada bom mesmo.

Mas Angelina era teimosa. Ela amava Tom e pensava que as coisas seriam diferentes depois de casados. Ela estava certa de que ele iria à igreja com ela. Mas ele não foi. Não faz sentido, ele dissera.

“O que não faz?”

“A coisa toda.”

Ela não tinha nada para dizer. Nada podia fazer, exceto rezar. “Quando você tem que sair?”, ela perguntou.

“Vou encontrar o Josh na fazenda às onze. Vamos preparar e entrar ao vivo meio-dia.”

“A essa hora já estarei de volta. Assistirei.”

Tom se refugiou em seu canto para se preparar para a história. Lá pelas oito horas, Angelina estava na cozinha, assando bolinhos de Natal. Cantava Tu Scendi dalle Stelle, a música que cantava desde criança, a música natalina de seus ancestrais italianos. Ela traduzira para ele uma noite:

Vós desceis das estrelas, Ó Rei dos Céus, para uma gruta… para o frio… para o gelo… quanto custa a Vós me amar!

Ele parara de trabalhar para escutar. As palavras o tocaram de uma maneira que ele não entendera. Mas ainda assim ele não acreditara.

***

A antiga casa da fazenda ficava afastada da estrada de cascalho. Perto do celeiro, no meio de uma área aberta, estava um estábulo simples de madeira, construído para a cena do presépio, seu telhado coberto de neve. Uma estrela cintilante, feita de cartolina, pendia de uma macieira. Atrás disso tudo ficavam acres e acres de abetos e pinheiros.

O ar tinha perfume de Natal. Tom estacionou seu carro e correu pela área aberta até o estábulo. Josh Evans, seu câmera, já estava lá, montando o equipamento. Juntou-se uma multidão. Às cinco para meio-dia, um homem — Tom supôs ser o dono da fazenda — trouxe animais para o estábulo. A vaca e o burro, lembrou-se Tom. Ele não havia esquecido tudo. O fazendeiro pôs os animais atrás da manjedoura. Batendo em seus dorsos, ele se abaixou, sussurrou algo em seus ouvidos, e então saiu, enquanto um coro de crianças, vestidas como anjos, vinham em fila da casa da fazenda.

A Sagrada Família tomou seus lugares. Maria, delicada com seu manto azul e um véu, carregava um nenê, embalando-o nos braços. Ela sorriu para os animais e depositou o nenê na manjedoura, envolvendo-o carinhosamente com um grosso cobertor de lã. A criança balbuciou de leve. Tom segurou a respiração. Ele pensara que era um boneco. Mas era real. No frio como o Menino Jesus. Maria se ajoelhou, seu véu recaindo sobre seu rosto, enquanto José se colocou a seu lado. Será que aconteceu mesmo? Tom ponderou, e então afastou o pensamento. Indo para a lateral do estábulo, ele ligou seu microfone e virou-se para Josh. “Vamos gravar”, disse.

“Já.”

Tom limpou a garganta e olhou para a câmera. “Aqui é Tom Reynolds”, começou, “transmitindo ao vivo da Fazenda Hauzenberg, onde um grupo de crianças está encenando o Natal de Jesus Cristo”. O coro cantou Gloria in excelsis Deo! Tom estremeceu, sem saber se do vento batendo em seu rosto ou da música dos anjos. Meninos pastores chegaram então, trazendo um pequeno rebanho de carneiros. Depois de entrarem no estábulo, ajoelharam-se na manjedoura. Tom fez uma mímica para Josh. Dê um close, falou sem emitir som. O câmera se posicionou para filmar.

Tom terminou a gravação. “Está feito”, disse com um aceno do braço.

“Acho que não acabou”, disse Josh.

“Por que?”

“Olhe lá.”

Os três Reis Magos — meninos ricamente vestidos com casacos de pele e coroas nas cabeças — estavam aguardando ao longe na área aberta. Um camelo estava atrás deles. O camelo era alto, com mais de 1,80m, e tinha uma corcova só. Um cobertor bordado, com pendões nos cantos, e pedras cintilantes costuradas na bainha, estava estendido sobre suas costas. Pendia de seu pescoço uma corrente de pequenos sinetes de bronze. Os pequenos sinos soaram à medida que o camelo acompanhou os Magos ao estábulo, trazendo presentes para o recém-nascido Rei.

“Acho que temos aqui uma outra história”, disse Tom.

Quando a peça terminou, um dos reis meninos, trajando veludo vermelho, levou o camelo até o celeiro. Ele estava amarrando o camelo a um poste quando Tom se aproximou. O camelo se virou e considerou Tom serenamente, seus olhos inteligentes cercados por cílios duplos.

“Belo animal”, disse Tom. “Você pode nos falar sobre ele?”

“Claro”, o menino respondeu. “Ele pertence a meu tio, que tem uma fazenda lá no ‘Polegar’[1]. Quando eu lhe contei sobre o presépio vivo, ele me perguntou se eu queria usar seu camelo. Não é legal?”

“Muito legal.”

“Ele é um dromedário. Sabia que os dromedários conseguem correr a 50 km/h?”, ele perguntou.

“Não sabia”, respondeu Tom. “Isso seria algo interessante de se ver.”

“Veja isto”, disse o menino. Ele bateu três palmas, e o camelo se abaixou mantendo a cabeça ereta.

“Parece que ele está se ajoelhando”, disse Tom.

“E está. Eles treinam os camelos para fazerem isso”, respondeu o menino. “Assim é mais fácil de carregá-lo — e de montar nele”. Ele abriu um largo sorriso. “Parece que está rezando, não parece?”

Tom deu risada. “Acho que sim.”

“O nome dele é Naveed”, o menino falou ao dar um tapinha no pescoço do camelo. “Quer dizer Boa Nova.”

***

Tom levou Angelina à igreja, a tempo para um ensaio de última hora antes do recital de Natal às onze. Ele estacionou o carro e andou com ela pela neve até os degraus da frente.

“A que horas você quer que eu volte?”, ele perguntou.

“1:30h?”

“Estarei aqui.”

“Queria que viesse à meia-noite… para a Missa…”

Ele deu um beijo no rosto dela. “Até mais tarde.”

Tom esperou até que Angelina estivesse segura lá dentro. Ao invés de voltar para casa, ele foi ao Sinbad’s, o restaurante beira-rio perto do apartamento deles. Ele não queria ficar sozinho. O restaurante estava cheio e barulhento, bem do jeito que ele queria. Algo o estava incomodando. O que era? O presépio? A Missa? O pedido de Angelina? Ele chegou à conclusão que era tudo isso junto. Até o camelo.

Ele sentou junto ao bar, pediu uma cerveja e um prato de lula. Uma música de Natal estava tocando no alto-falante. Uma voz de menino: Você vê o que eu vejo?

“Não, eu não”, disse Tom.

“Hein?”, exclamou o atendente do bar.

“Nada. Só pensando.”

Seria bom se ele pudesse ver, mas ele não via. Ele se lembrou do Natal quando era criança. Ele acreditava naquela época? Ele não sabia. Não lembrava. Ele agitou sua cerveja e tentou imaginar como Angelina fazia — como ela podia ter tanta certeza de ser verdade. A garçonete tinha acabado de trazer sua janta quando seu telefone vibrou, e depois tocou tão alto que o homem sentado ao lado quase derramou a bebida. Tom fez um gesto de desculpas, tirou o telefone do bolso e atendeu.

“Reynolds”, ele disse.

“Tom. Aqui é Markowitz. Escute, arrumei uma reportagem.”

“Angelina está na igreja. Tenho que pegá-la à uma, uma e meia.”

“Tempo de sobra.”

“O que há?”

“Você não vai acreditar.”

“Tente.”

“Sabe aquela coisa do presépio que você fez hoje lá em Holly? Com os animais e tudo aquilo?”

“Sim…”

“O camelo escapou. Rompeu a corda e saiu em disparada. Parece que ele se enfiou por umas estradinhas, e depois foi para o sul, como se soubesse para onde ir. Alguém o avistou no Lago White. O camelo desapareceu, mas depois outro cara ligou do carro, gaguejando sobre um camelo correndo a 50 ou 60 km/h, ao longo da I-75, em direção a Detroit.” Markowitz fez uma pausa para tomar fôlego. “Um camelo corredor! No Natal! Que reportagem!”

“Aonde devo ir?”

“Josh está esperando você no drive-in do Mack. Espere lá. Pelo que vejo, o camelo vai aparecer a qualquer momento.” Tom enfiou o telefone no bolso, pagou a conta, e saiu. Quinze minutos depois, ele avistou o furgão da emissora. Ele parou atrás dele e saltou para fora. Josh abaixou a janela. “Ei”, ele gritou. “Outra reportagem de camelo! Coisa estranha.”

“Estranho mesmo”, disse Tom enquanto subia no furgão. Eles esperaram, mas o camelo não apareceu. Tom ligou na emissora. “Eu acho que o perdemos. Olhe, tenho que ir buscar Angelina.”

“Onde ela está?”

“Sagrada Família. Saindo da Lafayette. Josh vai ficar aqui. Ele vai me mandar mensagem se vir algo, e eu voltarei imediatamente aqui.”

“Mantenha-me informado”, Markowitz ordenou. “Vamos saber logo, logo. O controle de animais está à procura. Os tiras também. Quer dizer, quão difícil pode ser avistar um camelo?”

Estava nevando forte enquanto Tom dirigia de volta à igreja. Ele estacionou o carro e estava saindo dele quando ouviu algo se mexendo atrás do prédio, no canto. Ele esperou, escutando, mas não voltou a ouvir. Um gato, provavelmente, ele pensou, ou um cachorro perdido.

Ao abrir a porta lateral para entrar na igreja, ele ouviu o tilintar de sinos. Deve estar vindo do coral, pensou ele ao entrar e se esgueirar por um banco do fundo. As pessoas estavam se ajoelhando, cantaram o Sanctus, e depois tudo ficou quieto. O sacerdote rezava em latim no altar, com a voz baixa, quase inaudível. Tom correu os olhos do altar às pessoas cheias de adoração. Ele queria saber o que eles sabiam, queria ver o que eles viam naquele antigo Sacrifício.

O alter Christus se inclinou profundamente, sussurrando. A sineta tocou, então, os triplos sons dourados, enquanto o sacerdote pronunciava as Palavras do Salvador, chamando Deus para descer dos Céus.

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O mistério da fé. O silêncio manifestou-se na igreja, mais pesado que o som, uma quietude sagrada, envolvendo-se em Tom como os braços de uma mãe. Tom sentiu uma punhalada no coração. Sentiu como nunca tinha sentido antes. Conforto e paz. E acima de tudo, uma alegria maravilhosa. O padre se virou para o povo, segurando a Hóstia diante deles, para que pudessem contemplar seu Deus. Ecce Agnus Dei.

E então Tom viu. Não com o corpo, mas com os olhos da alma, ele viu o Menino na Hóstia, olhando para ele. Não sorrindo. Não abrindo os braços. Apenas olhando. Tom olhou de volta com reverência, seu coração pulando, enquanto ouvia as palavras de humildade e desejo, há muito esquecidas.

Domine non sum dignus, sussurrou ele.

Enquanto as longas filas de pessoas enchiam o corredor para receber a comunhão, o coro começou a cantar. Tom escutava a voz de Angelina acima das outras, cantando o Senhor Deus descido das estrelas. Tu scendi dalle stellae, ela cantava, O re del cielo. Ó Rei dos Céus, sussurrava Tom, à medida que a dura casca da incredulidade se despedaçava.

A Missa terminou e o povo saiu. As pesadas portas foram abertas completamente, e Tom podia ouvir a comoção na frente da igreja — as pessoas rindo e conversando. Tom ignorou tudo isso. Ficou onde estava, subjugado, com a cabeça entre as mãos.

Olhando para ele do alto do coro, Angelina tentou imaginar qual era o problema. “Será que ele está doente?”, pensou ela ao descer as escadas e entrar no banco ao lado dele. Você está bem?, sussurrou ela. Ele olhou para ela e apertou sua mão. Ele não precisou dizer uma palavra. Ela entendeu. Lágrimas escorreram de seu rosto.

Eles ficaram ali, sozinhos, rezando. Então Tom ouviu um ruído suave de passos atrás dele. Ele se virou para ver quem era, e seu queixo caiu. Ele cutucou Angelina.

Era o camelo.

Do presépio?, Angelina mexeu os lábios. Ele fez que sim com a cabeça.

Mas como…?

Ele escapou. Depois eu conto.

Enquanto eles assistiam, o camelo andou pelo corredor central, majestoso como um rei, os olhos fixos no tabernáculo. E parou a um metro da mesa de comunhão.

Você tem que fazer algo?, sussurrou Angelina.

Espere aqui. Tenho que enviar mensagem a Josh. Tom saiu do banco e foi ao hall de entrada da igreja, e avisou o câmera. Depois chamou a polícia e o pessoal de controle de animais. Seu telefone vibrou.

Uma mensagem de Josh. Chegando com a câmera.

Tom voltou para dentro da igreja. Entrou no banco perto de Angelina, e o camelo se mexeu. Os sinos soaram em seu pescoço, enquanto Naveed se virava e andava lentamente em direção ao Presépio no altar lateral. Ele ficou parado por uns instantes diante da manjedoura, e então vagarosamente, lentamente, abaixou-se até ficar de joelhos.

Lá fora, o vento soprou. As nuvens se dissiparam, e uma estrela solitária iluminou o céu.

***

Notas:

[1] O estado do Michigan tem o formato de uma luva, e a região entre o Lago St. Clair, Port Austin e Bay City tem o formato do polegar da luva.