As Sete Orações de Santa Brígida

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(Estas orações devem ser rezadas por 12 anos, diariamente, sem interrupção. Traduzido do italiano por Ana Cândida Tocheton Cristofoletti. Versão em PDF.)

1) A circuncisão

Pai, pelas mãos puríssimas de Maria e pelo Coração Divino de Jesus, eu Te ofereço a primeira ferida, as primeiras dores e a primeira gota de sangue derramada por Jesus, em expiação dos pecados de todos os jovens e como proteção contra os primeiros pecados mortais, em particular dos meus consangüíneos.

Pai Nosso
Ave-Maria

2) O sofrimento de Jesus sobre o Monte das Oliveiras

Pai Eterno, pelas mãos puríssimas de Maria e pelo Coração Divino de Jesus, eu Te ofereço os terríveis sofrimentos do Coração Divino de Jesus sobre o Monte das Oliveiras, e também Te ofereço cada gota de Seu sangue em expiação de todos os meus pecados de coração e de todos aqueles da humanidade, como proteção contra esses pecados e pela difusão do Amor divino e fraterno.

Pai Nosso
Ave-Maria

3) A flagelação de Jesus

Pai Eterno, pelas mãos puríssimas de Maria e pelo Coração Divino de Jesus, eu Te ofereço os milhares e milhares de golpes, as dores atrozes e o Precioso Sangue derramado na flagelação, em expiação de todos os meus pecados da carne e de todos aqueles da humanidade, como proteção contra esses pecados e pela proteção da inocência, em particular dos meus consangüíneos.

Pai Nosso
Ave-Maria

4) A coroação de espinhos de Jesus

Pai Eterno, pelas mãos puríssimas de Maria e pelo Coração Divino de Jesus, eu Te ofereço as feridas, as dores e o preciosíssimo Sangue escorrido da cabeça de Jesus quando foi coroado de espinhos, em expiação dos meus pecados do espírito e daqueles de toda a humanidade, como proteção contra esses pecados e pela construção do Reino de Deus sobre esta terra.

Pai Nosso
Ave-Maria

5) A subida de Jesus pelo Calvário com a Cruz

Pai Eterno, pelas mãos puríssimas de Maria e pelo Coração Divino de Jesus, eu Te ofereço os sofrimentos suportados por Jesus ao longo da subida do Monte Calvário, e em particular a Santa Chaga do Ombro e o Precioso Sangue dela vertido, em expiação dos meus pecados e dos demais homens de rebelião à cruz, de revolta contra Teus santos desígnios e de todos os outros pecados da língua, como proteção contra esses pecados e por um amor autêntico à Santa Cruz.

Pai Nosso
Ave-Maria

6) A crucificação de Jesus

Pai Eterno, pelas mãos puríssimas de Maria e pelo Coração Divino de Jesus, eu Te ofereço Teu Filho pregado na cruz e nela levantado, as feridas de Suas mãos e pés, o precioso sangue delas vertido por nós, Seus terríveis tormentos do corpo e do espírito, Sua preciosa morte e a incruenta renovação em todas as Santas Missas celebradas sobre a Terra. Ofereço tudo isto em expiação de todas as faltas cometidas contra os votos e as regras das ordens religiosas, em reparação de todos os meus pecados e dos outros homens, pelos doentes e moribundos, pelos sacerdotes e pelos leigos, pelas intenções do Santo Padre relacionadas à família cristã, pelo reforço da fé, pelo nosso país, pela unidade das nações em Cristo no seio da Igreja, e pela diáspora.

Pai Nosso
Ave-Maria

7) A ferida do lado de Jesus

Pai Eterno, aceita, pelas necessidades da Santa Igreja e em expiação dos pecados de toda a humanidade, a Água e o Sangue preciosíssimos derramados na ferida do Coração Divino de Jesus e os infinitos méritos que dele decorrem. Suplicamos que sejas bom e misericordioso conosco! Sangue de Cristo, último e precioso conteúdo do Sagrado Coração de Jesus, purifica-me e purifica todos os irmãos de suas culpas! Água de Cristo, libera-me de todas as penas merecidas em decorrência de meus pecados e apaga as chamas do Purgatório, para mim e para todas as almas penitentes. Amém.

Pai Nosso
Ave-Maria

Minha Coleção de Arte para Rezar o Rosário

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Anunciação – Fra Angelico – 1440
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Visitação – Fra Angelico – 1432
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Nascimento – Rubens – 1617
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Apresentação – Lorenzetti – 1342
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Encontro – Ribera – 1630
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Agonia – Veronese – 1583
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Flagelação – Agnesius – 1640
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Coroação – Caravaggio – 1603
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Calvário – Rafael – 1516
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Crucificação – Rubens – 1620
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Ressurreição – Rafael – 1502
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Ascensão – Perugino – 1495
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Pentecostes – Ticiano – 1545
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Assunção – Ticiano – 1516
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Rainha – Velázquez – 1644

As Finalidades da Santa Missa

Este texto é uma adaptação de um material que elaborei em 2016 para reflexão em um grupo de estudos na capela do meu bairro. Reformatei para adequar a este blog.

Versão em PDF.

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Hoje vamos meditar sobre as finalidades e vantagens da Santa Missa, usando trechos de um pequeno livro escrito por São Leonardo de Porto-Maurício no século XVIII, “As Excelências da Santa Missa.”

Diz ele no prefácio do livro:

“Os tesouros, por grandes e preciosos que sejam, não podem ser estimados se não forem conhecidos. Eis porque, muitos não têm pelo santo Sacrifício da Missa o amor que deveriam ter, porque este tesouro, A MAIOR MARAVILHA e a MAIOR RIQUEZA da IGREJA DE DEUS é um TESOURO OCULTO um tesouro muito pouco conhecido. Ah! se todos conhecessem esta preciosidade celeste, tudo sacrificariam para adquiri-lo. A exemplo do mercador do Evangelho, cada um, de boa vontade, daria tudo que possuísse para obter tão precioso tesouro (Mt 13, 46).”

Mais adiante ele escreve:

“São Tomás de Aquino, o Doutor angélico, nos ensina quais são as dívidas que temos com DEUS. Ele diz que há especialmente quatro. Todas as quatro ilimitadas.”

“A primeira é de adorar, louvar e honrar este DEUS de majestade infinita e digno de infinitos louvores e homenagens. A segunda é dar-lhe satisfação pelos pecados que cometemos. A terceira, render-Lhe graças pelos benefícios recebidos. A quarta, implorar-Lhe, como fonte de todas as graças.”

“Ora, como é possível que pobres criaturas como nós, que nada possuímos, nem mesmo o ar que respiramos, possam jamais satisfazer obrigações tão grandes? Consolemo-nos, pois aqui está um meio facílimo. Façamos o possível para participar de muitas Missas e com a máxima devoção; e, se bem que nossas dívidas sejam enormes e inumeráveis, não há dúvida de que, com o tesouro contido na Santa Missa, poderemos solvê-las inteiramente.”

São Leonardo explica então a primeira finalidade: PELA SANTA MISSA ADORAMOS DIGNAMENTE A DEUS.

E diz:

“Nossa primeira obrigação para com DEUS é adorá-Lo e honrá-Lo. É preceito da própria lei natural que todo inferior deve homenagem a seu superior. E quanto maior a dignidade deste, tanto maiores devem ser as honras que se lhes prestam. Daí resulta que, sendo DEUS de majestade infinita, homenagens infinitas Lhe devemos.”

“Infelizes que somos! Onde encontraremos oferenda digna de nosso Criador? Passei vós em revista todas as criaturas do Universo: coisa alguma encontrareis digna Dele.”

“Ah! é que uma oferenda digna de DEUS não pode ser senão o próprio DEUS. Necessário é que Aquele, que está sentado no trono de Sua Majestade, desça para oferecer-se como vítima sobre os nossos altares, a fim de que a homenagem corresponda perfeitamente à Excelência de sua grandeza infinita.”

“Isto é o que se realiza na Santa Missa, pela qual DEUS é adorado na medida que merece, porque é adorado por DEUS mesmo, isto é, por JESUS que, pondo-se sobre o altar em estado de vítima, adora a SANTISSÍMA TRINDADE por um ato de inefável dependência e tanto quanto Ela merece.”

“Nós, que concorremos com Ele no oferecimento deste grande Sacrifício, damos também de nossa parte, a DEUS, honra e homenagem infinitas. Oh! Que coisa sublime! Digamos uma vez ainda, pois importantíssimo é sabê-lo: Sim, assistindo à Santa Missa, prestamos a DEUS adoração, honra e homenagem infinitas.”

“Sendo assim, como quitaremos bem a nossa primeira dívida com DEUS, assistindo à Santa Missa! Ó mundo obcecado, quando abrirás os olhos para compreender verdade tão importante. E vós cristãos negligentes, tereis ainda a coragem de dizer: ‘Uma missa a mais, uma missa a menos, pouco importa’? Que triste cegueira!”

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São Leonardo explica então a segunda finalidade: PELA SANTA MISSA PODEMOS SATISFAZER A JUSTIÇA DIVINA PELOS PECADOS COMETIDOS.

Continua ele:

“A segunda obrigação que temos para com DEUS é de satisfazer à sua justiça por tantos pecados cometidos. Oh! Que dívida imensa esta! Um único pecado mortal pesa tanto na balança da Justiça Divina que não bastariam, para expiá-lo, todas as boas obras de todos os mártires e de todos os santos passados, presentes e futuros. No entanto com o Santo Sacrifício da Missa, se considerarmos o seu valor intrínseco e seu preço, pode-se satisfazer plenamente por todos os pecados cometidos.”

“E aqui buscai compreender quanto de reconhecimento deveis a JESUS. Pensai-o bem: é Ele o ofendido; entretanto, não contente de no Calvário ter satisfeito por nós à Justiça Divina, deu-nos e continua a dar-nos incessantemente o meio de apaziguá-la no sacrifício da Santa Missa, pois aí renova a oferenda que, na Cruz, fez a DEUS PAI, pelos pecados do Mundo inteiro.”

“O mesmo sangue que derramou para resgatar o gênero humano é aplicado e oferecido especialmente na Santa Missa pelos pecados daquele que a celebra ou manda celebrar, e de todos os que participam deste augusto Sacrifício.”

“Não que o Sacrifício da Santa Missa apague por si mesmo e imediatamente nossos pecados, como é o caso do sacramento da Confissão; mas obtém que eles nos sejam apagados, proporcionando-nos, seja no momento mesmo da Santa Missa, seja em outra ocasião oportuna, boas inspirações, movimentos salutares e graças atuais que nos são indispensáveis para nos arrependermos dignamente de nossas faltas.”

“Conquanto às almas em estado de pecado mortal não lhes aproveite o valor no que tem de propiciatório, todos os pecadores deviam assistir muitas vezes à Santa Missa para alcançar mais facilmente a graça da conversão.”

“Quanto às almas vivendo em paz com DEUS, o Sacrifício da Santa Missa lhes dá uma força surpreendente para se manterem nesse estado e, conforme a opinião comum, são apagados todos os pecados veniais, caso tenham ao mesmo tempo um arrependimento geral. Ó bem-aventurada Santa Missa, que nos restitui a liberdade de filhos de DEUS, e satisfaz todas as penas devidas por nossos pecados!”

“Realmente, se bem que o valor do Santo Sacrifício seja infinito, deveis saber entretanto, que DEUS o aceita numa medida limitada e finita, mais ou menos, conforme a devoção maior ou menor de quem o celebra, manda celebrar, ou a ele assiste.”

“Note-se aqui o erro daqueles que preferem as missas mais curtas e menos devotas, ou, o que é pior, que a elas assistem com pouca ou nenhuma devoção. É verdade que todas as Missas são iguais do ponto de vista do Sacramento, como ensina São Tomás; não o são, porém, quanto aos efeitos que delas provêm. Quanto maior a piedade atual ou habitual do celebrante, maior será o fruto de seu sacrifício.”

São Leonardo continua, explicando agora a terceira finalidade: PELA SANTA MISSA AGRADECEMOS DIGNAMENTE A DEUS TODOS OS BENEFÍCIOS.

Do livro:

“A terceira dívida é a do reconhecimento pelos benefícios de que nos cumulou carinhosamente nosso DEUS. Computai todos os favores que dele tendes recebido, os bens da natureza e da graça, o corpo, a alma, os sentidos, as faculdades, a saúde, a vida. Como poderemos agradecer-Lhe suficientemente?”

“Nossa miséria é tão grande que não temos sequer o meio de satisfazer pelos menores benefícios recebidos de DEUS. Pois o menor de todos, provindo das mãos de tão grande Rei e acompanhado dum amor infinito, adquire um preço infinito e nos obriga a um reconhecimento também infinito. Infelizes que somos! Se não podemos suportar o peso de um só benefício, como poderemos arcar com o fardo de graças inumeráveis?”

“Consolai-vos, pois o meio de dar ações de graças suficientes ao boníssimo DEUS nos é ensinado pelo rei Davi, que, contemplando com espírito profético o divino sacrifício, confessava que só ele bastava para dar a DEUS ações de graças adequadas. Perguntava: ‘Que retribuirei ao Senhor por todos os benefícios que me tem feito?’”

“E responde: ‘Oferecer-Lhe-ei um sacrifício que será infinitamente agradável, e com o qual, somente, satisfarei a minha dívida por tantos e tão grandes benefícios.’ Este Sacrifício foi instituído pelo nosso Redentor, principalmente para este fim, quero dizer, para reconhecer a divina munificência e agradecer-Lhe, e por isso chama-se Eucaristia por excelência, o que significa ‘ação de graças’.”

“E vós, que fazeis? Abristes enfim os olhos para reconhecer tão preciosíssimo tesouro?”

São Leonardo comenta em seguida a quarta finalidade: PELA SANTA MISSA PODEMOS OBTER TODAS AS GRAÇAS QUE NECESSITAMOS.

Explica ele:

“Já sabeis quão grandes são vossas misérias, tanto de corpo como de alma, e por consequência, a necessidade que tendes de recorrer a DEUS, a fim de que a todo momento Ele vos assista e vos socorra, pois só Ele é o autor e o princípio de todos os nossos bens temporais e eternos.”

“Mas, doutra parte, ousaríeis pedir-Lhe novos benefícios, vendo a suprema ingratidão com que tendes correspondido às suas graças anteriores? Todavia, tende confiança; pois se não mereceis essas graças, JESUS mereceu-as por vós, e para este fim.”

“Na Santa Missa, nosso adorável JESUS, o primeiro e Sumo Pontífice, recomenda a Seu PAI a nossa causa, intercede por nós constituindo-se nosso amoroso advogado. Oh! Que riquezas de graças, bênçãos, virtudes e de socorros nos obtém a Santa Missa! Em primeiro lugar, ela nos alcança todas as graças espirituais e os bens que se relacionam com a alma, como a contrição por nossos pecados, a vitória sobre as tentações, sejam vindas de fora, das más companhias e do demônio, sejam produzidas no interior pelas revoltas da carne.”

“Além disso, a Santa Missa nos obtém todos os bens temporais, contanto que concorram à salvação da alma, por exemplo, a saúde, a abundância, a paz, e nos preserva dos males que se lhe opõem, como seja: epidemias, terremotos, guerras, fomes, perseguições, processos, inimizades, miséria, calúnias e injustiças.”

“E vós, por que não despertais, por que não pedis graças importantes? Se quiserdes confirmação, pedis a DEUS em cada Santa Missa, que faça de vós um grande santo.”

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Rezemos a Deus, hoje e em cada Santa Missa, para que nos faça grandes santos no céu. E peçamos que a Virgem Maria interceda por nós e por nossas necessidades.

Amém.

***

A Origem da Canção ‘Noite Feliz’

Autor: John Horvat II
Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

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A música ‘Noite Feliz’ é, de longe, a mais simbólica das cantigas de Natal. É compreensível, assim, que fiquemos a refletir sobre a origem de canção tão extraordinária. Para contar a história de suas origens, precisamos voltar à côrte de Frederico Guilherme da Prússia, o quarto rei com esse nome, logo após sua ascensão ao trono em 1840.

Era véspera de Natal. Em Berlim, o rei e seus cortesãos comemoravam o nascimento de Cristo. O coro da catedral, regido por Felix Mendelsohn, executava uma das peças de seu repertório. A música era ‘Noite Feliz’. O rei ficou bem impressionado pela bela canção e imaginou quem seria o autor. Examinou o programa com a lista de hinos sendo cantados e ficou surpreso ao saber que o autor era desconhecido. O rei da Prússia não podia permitir tal imprecisão.

Imediatamente, assim, após a cerimônia, ele fez o maestro vir vê-lo. Mendelsohn, porém, não foi capaz de iluminar em nada o assunto. Ele então chamou o chefe dos concertos reais, Ludovico, cuja reputação era a de descobridor da origem de canções desconhecidas. Mas, para frustração de Frederico Guilherme, ele também não sabia de nada. O rei então ordenou que Ludovico se virasse para descobrir, porque os livros de hinos da Prússia não podiam ficar em desordem!

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Agora que a sua reputação estava em jogo, Ludovico não tinha escolha senão descobrir quem era o compositor da canção. Escarafunchou as bibliotecas, cidades, principados e reinos daquelas terras que eram a Alemanha de então. Nada encontrou, porém.

Já tinham começado a chamar Ludovico de ‘o caçador de canções’, quando ele reparou no estilo da música, que parecia austríaca. Foi para Viena, mas novamente deu com os burros n’água. Então um velho músico dos tempos de Haydn lhe deu uma dica. Michael Haydn, o irmão do músico famoso, compôs muitas obras que se tinham perdido. “Talvez essa canção de Natal seja uma daquelas?” sugeriu o velho. Era um tiro no escuro, e Ludovico não se sentiu encorajado pela dica. Desistiu da busca e decidiu retornar à côrte.

Na viagem de volta, enquanto descansava em uma hospedaria, ouviu um passarinho em uma gaiola a cantar uma música familiar. Deu um pulo de tão surpreso. Ludovico percebeu que o pássaro cantava aquela música de Natal misteriosa cujo autor ele procurava; estava cantando ‘Noite Feliz!’

“Que foi?” perguntou o estalajadeiro.

“Este pássaro,” respondeu Ludovico. “Quem ensinou esta canção ao pássaro?”

O estalajadeiro não sabia. Mas acrescentou que um amigo tinha comprado o bicho na abadia de Salzburgo, e deixado ali na pousada para diversão dos hóspedes.

A Abadia de Salzburgo! Ludovico se sentiu de repente como aquele caçador que, depois de muitas buscas infrutíferas, encontra alguns rastros frescos na neve. A pista tinha esquentado de novo! Ele sabia que Michael Haydn tinha morado naquela abadia por muitos anos. Era quase certo que a canção era de Michael Haydn. Ludovico não perdeu tempo: mudou os planos de viagem e partiu para a abadia.

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Quando chegou, o chefe dos concertos reais da côrte prussiana foi recebido com todas as honrarias que seu posto merecia. O abade e os monges lhe ofereceram um bom jantar e confortáveis acomodações. Infelizmente, porém, ninguém sabia de onde a canção tinha vindo. Também não acreditavam que o autor fosse Michael Haydn.

Quando o ‘caçador de canções’ lhes contou a respeito do pássaro na gaiola, sugerindo que os monges tinham-lhe ensinado a cantar a música, o abade se mostrou ofendido, já que tais caprichos eram proibidos no mosteiro.

Ludovico examinou, então, todos os manuscritos que havia na cela onde Michael Haydn antigamente trabalhara. E, exatamente como os monges haviam previsto, não encontrou nada. A pista tinha esfriado de novo. Desanimado, Ludovico decidiu retomar sua jornada de volta à côrte prussiana.

Entretanto, por acaso, dentre aqueles que estavam presentes ao jantar oferecido pelo abade, havia um professor chamado Ambrósio Prestainer, que ficou particularmente interessado na estória do pássaro.

“Isto pode ser obra de algum dos meninos do coral da abadia”, matutou ele.

Então, já que o professor conseguia imitar com perfeição o passarinho, ele decidiu tentar um truque para ver se descobria quem havia ensinado esta canção ao animal. Alguns dias depois, ele se ajeitou em uma janela que dava para o pátio interno da escola. E assobiou, imitando o pássaro a cantar ‘Noite Feliz’.

O ardil deu certo, pois logo ele ouviu a voz de um menino: “Ah, passarinho, você voltou!” E um garoto de nove anos de idade veio correndo, saindo da aula. Mas quão surpreso o menino ficou ao ver que tinha caído em uma armadilha!

“Como se chama?”, perguntou o professor.

“Felix Gruber,” respondeu o garoto.

“Muito bem. Diga-me, Felix: onde você aprendeu essa música?”

“Meu pai me ensinou.”

“E de onde ele a tirou?”

“Ele a compôs, senhor.”

Prestainer, sem perder um minuto, foi até a casa do menino em uma vila próxima. Lá ele conheceu o professor de uma escola local, Franz Gruber, que confirmou ter de fato composto a música. Mas a letra, ele disse, tinha sido escrita pelo seu amigo Josef Mohr, que fora pároco na vila de Bagran, e que tinha morrido não fazia muito tempo.

Mal podendo conter a alegria por finalmente ter achado a origem da canção, Prestainer escreveu a Ludovico, “O Caçador de Canções”, contando que sua missão de busca das origens da música tinha acabado. Enviou a Ludovico um relato completo de como a canção surgiu. O relato foi assim:

É véspera de Natal, e a torre da pequena igreja da vila domina as casas cobertas pela neve, como uma galinha que protege seus pintinhos. No presbitério, o jovem Padre Josef Mohr, com 26 anos, se prepara para as cerimônias daquela noite relendo o Evangelho, quando uma batida na porta rompe o silêncio. É uma camponesa que pede ao pároco ajuda para um bebê que acabara de nascer.

Sem demora, o padre deixa o conforto da casa e, depois de uma íngreme subida pela montanha, chega a um casebre humilde onde estava a criança recém-nascida. Ao retornar, as estrelas brilham no céu e o branco da neve reflete sua luz.

Ele começa a refletir sobre a cena que acabara de testemunhar. A criança, o casal de camponeses, o casebre, tudo causou-lhe impressão. Lembravam uma outra criança, um outro casal, uma outra moradia rústica em Belém de Judá.

Após a Missa do Galo, o padre Mohr não consegue dormir. Toma uma caneta e uma folha de papel, e começa a escrever um poema que se tornaria a letra da canção ‘Noite Feliz’.

Na manhã seguinte, o Natal de 1818, o piedoso sacerdote vai atrás de um amigo chamado Franz Gruber, então com 31 anos. Depois de ler o poema, Gruber exclama:

“Padre, era exatamente essa a canção de Natal que eu procurava! Louvado seja Deus!” E naquele mesmo dia ele compôs a música que acompanha a letra.

E assim, dessa maneira singela, imitando os acontecimentos de Belém, nasceu a mais popular e bela canção de Natal de todos os tempos.

FIM.


Traduzido do original em inglês, publicado em dezembro/2016 no site http://www.returntoorder.org/

Sede da Sabedoria

Autor: Michael Hichborn
Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

“Deus pode criar uma pedra tão pesada que nem Ele mesmo pode erguer?”, pergunta em sua essência uma antiga charada medieval.

À primeira vista a questão parece bastante absurda, pois afinal Deus é onipotente: Ele pode fazer qualquer coisa. Porém, quando consideramos as possibilidades, parece impossível responder afirmativamente à pergunta – por qualquer ângulo que se tente.

Deus pode criar qualquer coisa que deseje, de modo que é óbvio que Ele pode criar um objeto infinitamente pesado. Entretanto, Deus é também todo-poderoso, de maneira que Ele pode erguer qualquer coisa que crie. Portanto, qualquer que seja a resposta à questão, ou Ele não consegue criar a pedra, ou Ele não consegue erguê-la.

Ao longo dos séculos os filósofos tentaram encarar de frente a questão. São Tomás de Aquino afirma, por exemplo, que a origem do paradoxo é um mau entendimento ou um abuso da palavra “onipotência”. Na questão 25 da primeira parte da Suma Teológica, o Doutor Angélico diz:

As coisas, porém, que implicam contradição não constituem objeto da divina onipotência, por não poderem ter a natureza de coisas possíveis. Por isso, é mais conveniente dizer que não podem ser feitas, em vez de dizer que Deus não pode fazê-las. Nem isto vai contra as palavras do Anjo: Porque a Deus nada é impossível. Pois, o contraditório, não podendo ser conceito, nenhum intelecto pode concebê-lo.

Em outras palavras, uma contradição sempre implica uma impossibilidade, não importando se Deus é ou não o agente principal no experimento teórico proposto.

C.S. Lewis, ao invés de examinar a charada pelo critério lógico, enfrentou-o como um problema de definição. Em seu livro “A Grief Observed” [Uma Dor em Observação], Lewis escreveu:

Um mortal consegue fazer perguntas que Deus não pode responder? É bem fácil, eu diria. Todas as perguntas nonsense são irrespondíveis. Quantas horas há em um quilômetro? O amarelo é quadrado ou redondo? É provável que metade das questões que levantamos – metade de nossos grandes problemas teológicos e metafísicos – sejam assim.

O Natal já está aí às portas, e nós temos a chance de considerar a questão sob uma outra luz. Já peço desculpas a esses grandes pensadores maiores do que eu, mas humildemente venho aqui propor que não apenas Deus pode criar um objeto tão grande que não possa levantar, como já o fez.

Os grandes pensadores com certeza responderam à questão em seu valor de face, apontando a falta de sentido e de lógica que ela contém. Entretanto, com alguma compreensão das duas naturezas de Deus, notamos que há um elemento que não está sendo considerado.

A Santíssima Virgem Maria é o pináculo da criação de Deus, perfeita em todos os sentidos, sem mancha, e literalmente cheia da Graça Divina. Deus criou Maria para ser a ponte de perfeição entre Ele próprio e o homem. Sem a perfeição dela, não poderia haver uma passagem da divindade para a humanidade. E por meio do “faça-se” de Nossa Senhora, Deus se tornou homem: Nosso Senhor foi concebido em seu ventre.

Naquele exato instante, Nosso Senhor Bendito, que tem duas naturezas, se encontrava em total presença no ventre de Maria. Jesus é 100% Deus e 100% homem.

Sendo Deus, pelo poder do Espírito Santo, Ele se fez homem. E uma vez encarnado no ventre na Puríssima Virgem Maria, Ele se tornou completamente dependente dela para manter Sua vida e Seu sustento. Na verdade, depois de nascido, Ele não somente não podia erguê-la, mas pela primeira vez em toda a história humana, um ser humano foi capaz de olhar para BAIXO e ver o rosto de Deus.

Ao erguer o Cristo Menino para colocá-lo sobre seus joelhos, Nossa Senhora se tornou a Sede da Sabedoria.

Deus criou Maria… mas ao se fazer encarnado no ventre dela, Ele ao mesmo tempo criou algo (ou melhor, alguém) tão grande no tempo e no espaço, que nem Ele podia erguer.

(Traduzido do original publicado em 22/dezembro/2017 no “Catholic Week in Review”, boletim semanal do Instituto Lepanto.)

A Consagração: Última Ceia e Calvário

Autor: Padre Ladis J. Cizik[*]
Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

In Nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti. Amen.

“Ceia do Senhor” é uma expressão bíblica que foi adotada durante a ‘de’-formação protestante da Igreja, com o objetivo de negar a natureza de sacrifício da Missa, e trocá-la por um simples “memorial”. Protestantes e modernistas[1] se esforçam por separar o sacrifício no Calvário, centrado em Cristo, do santo sacrifício da Missa, transformando um evento solene em um “lanche feliz” centrado na comunidade. Entretanto, tanto as sagradas Escrituras quanto a sagrada Tradição afirmam que o Calvário estava onipresente já na primeira Missa oferecida na história. Aquela primeira Missa no Cenáculo foi a última ceia na qual Nosso Senhor e Deus, Jesus Cristo, antecipou Sua morte salvadora no Calvário.

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A última ceia, a primeira Missa, não foi uma “refeição memorial” em consideração ao fato de que Cristo ainda não havia morrido na cruz. A última ceia apresenta uma espécie de catequese sobre a presença real de Cristo no Santíssimo Sacramento, a instituição da ordenação sacerdotal e a natureza de sacrifício da Missa. As orações da Consagração no Missal Romano tradicional (Missale Romanum) evocam a morte-sacrifício de Nosso Senhor no Calvário dentro do contexto das palavras e ações de Jesus na última ceia. Na pessoa de Cristo (in persona Christi), o sacerdote católico segue as palavras e gestos de Jesus na última ceia, consagrando e transformando pão e vinho no corpo, sangue, alma e divindade da segunda pessoa da Santíssima Trindade.

Pelo uso de “matéria e forma” apropriadas, as mesmas matéria e forma que Jesus usou na última ceia, e com a “intenção” adequada do sacerdote, o milagre da transubstanciação acontece. Assim, o Rito Romano da Igreja Católica prescreve que a “matéria” adequada à Eucaristia precisa ser o pão ázimo[2] e o vinho de uva natural. Pão ázimo é aquele que Jesus teria usado em Sua última ceia de Páscoa. O Antigo Testamento nos conta que o povo judeu só deveria comer pão ázimo todos os anos durante a Páscoa, como forma de comemorar seu êxodo do cativeiro egípcio[3]. De modo similar, o pão sem fermento que Jesus teria usado na última ceia pascal representaria o êxodo do pecado e da morte, que ocorreu para Seus seguidores após Sua morte salvífica e gloriosa ressurreição. Note que o fermento na bíblia é quase sempre símbolo do pecado[4]. Um pecado grave é o que ocorre quando o pão fermentado é introduzido na Missa católica de rito romano – embora o Concílio de Florença (século 15) confirme o entendimento corrente de que tal Missa ilícita continua sendo válida.

A “forma” apropriada para transformar pão e vinho em corpo e sangue de Cristo são as “palavras da consagração” (também chamadas palavras da instituição). Estas palavras sagradas são o centro espiritual e pináculo da Missa. O coração da Missa é a consagração. O Dr. Nicholas Gihr declara em sua obra clássica, O Santo Sacrifício da Missa: “O momento da consagração é o momento mais importante e solene, o fruto mais sublime e santo de toda a celebração do Sacrifício; pois neste momento é completada aquela obra gloriosa e inapreensivelmente profunda, o Sacrifício Eucarístico, no qual todas as maravilhas do amor de Deus estão concentradas como em um foco de calor e luz. A mudança de pão e vinho no corpo e sangue de Cristo só pode provir dEle, pois ‘só Ele operou maravilhosos prodígios’: é um ato de onipotência criativa. Mas este ato de supremo poder requer um ato humano, um cooperação humana da parte do sacerdote ordenado.”[5] Para uma Missa ser válida, o sacerdote ordenado validamente deve ter a “intenção” de transformar pão e vinho no corpo e sangue de Cristo. São Tomás de Aquino afirma: “a intenção [do sacerdote] é exigida; por meio dela ele se sujeita ao agente principal; ou seja, é necessário que ele tenha a intenção de fazer o que Cristo e a Igreja fazem.”[6]

Imediatamente antes das palavras da consagração vem a oração Qui pridie. O sacerdote nos leva misticamente à “véspera de sua paixão”, quando Jesus tomou o pão em Suas santas e veneráveis mãos (sanctas, ac venerabiles manus suas). Neste instante, o sacerdote já passou seus “dedos canônicos” (polegares e indicadores) no corporal para melhor purificá-los antes de segurar a hóstia com estes quatro dedos apenas. Ao pronunciar elevatis oculis in caelum, o sacerdote, in persona Christi, eleva os olhos para o céu em direção a Deus, o Pai todo-poderoso, dá-Lhe graças (com uma inclinação da cabeça) e abençoa (benedixit) a hóstia. O sacerdote relembra então Jesus partindo o pão e dando-o aos discípulos, enquanto dá voz às palavras de Nosso Senhor: tomai e comei dele, todos (Accipite, et manducate ex hoc omnes).

Observe que o sacerdote não está apenas lendo uma narrativa de um evento do passado; ele está ‘re’-presentando, in persona Christi, o evento por meio das palavras e ações simultâneas do próprio Jesus Cristo. Cristo não está lendo uma “narrativa da instituição” no pretérito. O Cristo-sacerdote não está meramente repetindo as palavras de uma antiga história de uma refeição que está “feita e encerrada”. Cristo está agindo no presente através do sacerdote. É por isso que dizemos que o santo sacrifício da Missa é a ‘re’-presentação incruenta do sacrifício de Cristo no calvário.

Profundamente reclinado sobre o corporal, com os antebraços apoiados na borda do altar (significando sua união com Cristo representado pelo altar), segurando a hóstia com os dedos canônicos de ambas as mãos, o sacerdote pronuncia as palavras da consagração sobre o pão. No missal da Missa Tridentina, as palavras da consagração são impressas com uma letra de tamanho duplo em relação ao resto do texto, e em negrito, para que se destaquem. O sacerdote, com os olhos postos na hóstia, deve dar voz às palavras de Cristo de maneira clara e atenta, sem pausas e num sussurro:

HOC EST ENIM CORPUS MEUM.

Tradução: “Pois isto é o meu corpo.” A hóstia agora É a presença real de Cristo na Eucaristia: Seu corpo, sangue, alma e divindade. Note que, assim como a carne humana contém sangue, também a Igreja ensina que o corpo e o sangue de Jesus Cristo estão presentes em cada espécie eucarística. Ninguém precisa “beber do cálice”, como dizem na Missa Novus Ordo, para receber o precioso sangue de Cristo. Jesus está completo e inteiro na hóstia consagrada. Isto corrobora a prática da Missa Tridentina, na qual a Santa Comunhão é distribuída apenas sob a aparência do pão. As palavras “isto é o meu corpo” aparecem nos quatro relatos bíblicos da Última Ceia[7]. A palavra “pois” não aparece nos relatos bíblicos, mas é considerada como sendo parte da Sagrada Tradição, como uma palavra que o Senhor teria dito.

Note que, depois de consagrar a Sagrada Hóstia, o sacerdote não separará mais seus polegares e indicadores, exceto para segurar o Santíssimo Sacramento, até que eles estejam “purificados” após a santa comunhão. Isto para assegurar que toda partícula da hóstia restante nos dedos seja consumida de maneira reverente durante as abluções. Além do mais, deste momento em diante, o sacerdote fará uma genuflexão honrosa antes e depois de cada toque que fizer na Sagrada Hóstia.

Depois da consagração da hóstia sagrada, o sacerdote segue para a oração simili modo, não sem antes retirar a pala do cálice. A oração inicia seguindo as ações e palavras de Jesus na Última Ceia: do mesmo modo (simili modo), depois da ceia, Ele tomou também o precioso cálice em Suas santas e veneráveis mãos (aqui o sacerdote eleva o cálice ligeiramente acima do corporal com ambas as mãos), deu graças ao Pai (inclinando a cabeça), abençoou-o (o sacerdote faz o sinal da cruz sobre o cálice) e deu-o a Seus discípulos dizendo: tomai e bebei dele todos vós (Accipite, et bibite ex eo omnes). Segurando o cálice nas mãos, um pouco acima do corporal, profundamente inclinado sobre o altar com os antebraços na borda (significando sua união com Cristo, representado pelo altar), o sacerdote dá voz às palavras de Cristo sobre o vinho, de maneira clara e atenta, e num sussurro:

HIC EST ENIM CALIX SANGUINIS MEI, NOVI ET AETERNI TESTAMENTI: MYSTERIUM FIDEI: QUI PRO VOBIS ET PRO MULTIS EFFUNDETUR IN REMISSIONEM PECCATORUM.

Tradução: “Pois este é o cálice do meu sangue, sangue do novo e eterno testamento (mistério da fé), o qual será derramado por vós e por muitos para remissão dos pecados.” Com relação às palavras “pois este é o cálice do meu sangue”, Gihr opina: “De acordo com a opinião geral, estas palavras e somente elas constituem a fórmula essencial da consagração do cálice; pois elas significam e tornam realidade a presença do sangue de Cristo sob a aparência do vinho.”[8] E continua dizendo: “As palavras seguintes… são acrescentadas por serem apropriadas. É aceitação comum que elas foram ditas alguma vez pelo próprio Senhor; além do mais, elas explicam a dignidade e os efeitos deste Sacrifício.”

Todas as outras palavras da consagração do vinho podem ser encontradas em um ou mais relatos da Última Ceia, exceto por “eterno” e “mistério da fé”. Estas palavras que não estão na Bíblia, incluindo “pois” (já mencionada acima na consagração do pão), têm origem na outra fonte da verdade católica: a Tradição Sagrada, tão válida quanto a Sagrada Escritura. Lembre que o santo sacrifício da Missa era celebrado pelos apóstolos antes mesmo da Igreja Católica elaborar a seção do Novo Testamento da Bíblia. Em especial, o papa Leão IX declarou que as palavras mysterium fidei (mistério da fé) são uma “tradição transmitida por São Pedro, o autor da liturgia romana.” De fato, São Pedro, o primeiro papa, escutou Nosso Senhor falar na Última Ceia e presidiu em Roma, onde morreu e está sepultado. As palavras “novo e eterno testamento” (ou seja: nova e eterna aliança) são essenciais ao entendimento católico de que a Nova Aliança, selada pelo sangue de Cristo, aboliu completamente e para sempre a Antiga Aliança, a qual existia para durar apenas temporariamente até a vinda do Messias, nosso Senhor e nosso Deus, Jesus Cristo[9].

As palavras da consagração incluem: qui pro vobis et pro multis effundetur in remissionem peccatorum (o qual será derramado por vós e por muitos para remissão dos pecados). Embora estas palavras nunca tenham mudado na Missa Tridentina, é incrível que as palavras pro multis tenham sido traduzidas incorretamente e de propósito quando da introdução da Missa Novus Ordo na língua inglesa[10], passando a ser lidas como “por todos” (pro omnibus). Mudar as palavras de Cristo foi um insulto feito para apoiar o pensamento modernista e herético de que TODOS são salvos; e para reforçar a heresia do indiferentismo religioso, o qual alega que não importa a religião – ou a falta dela – que o sujeito professa, já que todo mundo vai para o céu. Os estudos feitos levaram muitos a crer que a tradução errada e proposital invalidava a Missa Novus Ordo. Após quarenta longos anos de confusão, escândalo e profunda angústia, a tradução inglesa voltou ao correto “por muitos” (pro multis), por ordem do papa Bento XVI[11]. Isto é um exemplo de como a Missa Tridentina serve de guardiã da fé: pelo Cânon estar livre de erros[12], pelo Cânon nunca ter sido alterado, e pelo Missale Romanum tradicional estar somente em latim.

Note que effundetur in remissionem peccatorum é assim compreendido: o sangue de Cristo foi derramado pela remissão dos pecados: todos os pecados desde o pecado original de Adão e Eva; e todos os outros pecados passados, presentes e futuros. Entretanto, “nem todos recebem o benefício de Sua morte, mas apenas aqueles aos quais o mérito de Sua paixão é comunicado.”[13] Sendo assim, nem todo mundo é salvo: “Quem crer e for batizado será salvo, mas quem não crer será condenado”[14]; “em nenhum outro há salvação, porque debaixo do céu nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual devamos ser salvos”[15]; “trabalhai na vossa salvação com temor e tremor”[16]; além disto, existe aquele pecado mortal do qual a pessoa não se arrepende e não pede perdão, e que pode levá-la à danação eterna[17]. Note ainda que o “mérito de Sua paixão é comunicado” pelo santo sacrifício da Missa: “Em virtude deste sacrifício, os méritos infinitos de Cristo, obtidos por Seu precioso sangue derramado de uma vez [por todas] na cruz pela salvação dos homens, são aplicados às nossas almas.”[18]

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É importante observar que imediatamente após as palavras da consagração, primeiro sobre o pão, e depois sobre o vinho, em ambos os casos o sacerdote faz a genuflexão (e a sineta soa) antes de levantar as sagradas espécies. Isto colabora para assegurar o entendimento católico de que o milagre da transubstanciação, o qual acaba de acontecer, nada tem a ver com o testemunho da assembléia. Portanto, quando da elevação da hóstia ou cálice para adoração dos fiéis, a sineta toca pela segunda vez, e não pela primeira. Depois de voltar as espécies sagradas sobre o altar, o sacerdote faz nova genuflexão e a sineta toca pela terceira vez – simbolizando a Santíssima Trindade. Em relação ao precioso sangue, neste momento o cálice é coberto com a pala, o que o protege da profanação por insetos e outros elementos estranhos.

Uma nota pessoal sobre as palavras da instituição: quando eu fui empossado como capelão de um instituto público para retardados mentais, duas unidades (das muitas que havia) continham residentes com deficiências severas (físicas e mentais) e que não podiam falar. Em geral eles passavam o dia fazendo ruídos vocais, exceto quando as palavras da consagração eram pronunciadas na Missa e as elevações aconteciam – então havia um completo e incomum silêncio na capela. Eles sabiam! Suas mentes inocentes sentiam que a presença real de Cristo havia entrado ali no local. Em outra unidade com deficiências menos graves, onde a idade mental não passava de quatro anos, havia um menino chamado Joey que gritava durante a elevação da Hóstia sagrada: “Meu Senhor e meu Deus!” E Jesus disse: “Da boca dos meninos e das crianças de peito tirastes o vosso louvor.”[19] O papa São Pio X, com efeito, emitiu uma indulgência de sete anos para todos aqueles que, ao fixarem o olhar sobre a hóstia sagrada sendo elevada durante a Missa, exclamarem com fé e devoção: “Meu Senhor e meu Deus!” No instante da elevação do precioso sangue, o melhor amigo de Joey, Butchie, se unia a ele dizendo: “Meu Jesus, misericórdia!”

Imediatamente após a consagração do precioso sangue, o sacerdote reza: Haec quotiescumque feceritis, in mei memoriam facietis (Todas as vezes que isto fizerdes, fazei-o em memória de mim). A Igreja sempre ensinou que este momento foi a instituição do sacramento das Ordens Sagradas. A Última Ceia na quinta-feira santa foi também a instituição do sacramento da Eucaristia; foi a primeira Missa. A Última Ceia foi coisa seria. Foi uma antecipação sombria do Calvário, e não uma “celebração alegre.” Na Última Ceia o milagre da transubstanciação aconteceu pela primeira vez: Nosso Senhor e Deus, Jesus Cristo, como Sumo-Sacerdote eterno, transformou pão e vinho em Seu corpo, sangue, alma e divindade.

Na Última Ceia, Cristo deixava para a Igreja também Sua vontade e Seu testamento: “Fazei-o em memória de mim.” Com esta oração Haec quotiescumque, Jesus ordenou que os apóstolos e seus sucessores no sacerdócio oferecessem a Santa Missa, e continuassem assim a oferecer o sacrifício a Deus Todo-poderoso, trazendo Sua presença real ao mundo, para adoração e para servir como alimento espiritual. Cristo não ordenou aos sacerdotes que presidissem uma “refeição comunitária.” Cristo, na Última Ceia, mandou que os sacerdotes fizesse aquilo que só eles podem fazer: oferecer o sacrifício de Deus-Filho no calvário a Deus-Pai Todo-poderoso. O padre John Hardon, em seu Dicionário Católico, define assim o sacerdote: “Um mediador autorizado, que oferece o verdadeiro sacrifício em reconhecimento do supremo domínio de Deus sobre os seres humanos, e em expiação por seus pecados.” O sacerdote é ordenado para oferecer o sacrifício, e não para preparar refeições. Ao longo de toda a Bíblia e tradição da Igreja, Deus exige sacrifícios, e não refeições. Enquanto que todos os católicos são obrigados a ir à Missa dominical para prestar culto a Deus no sacrifício, nem todos estão em estado de graça para receber a santa Comunhão.

As duas consagrações separadas, primeiro do corpo e depois do sangue de Jesus na Última Ceia e na Missa, significam ‘misticamente’ a morte do Senhor no calvário. Na Última Ceia, Jesus antecipou Seu sacrifício no calvário. Naquela primeira Sexta-Feira Santa, no calvário, a separação violenta entre Seu precioso sangue e Seu corpo causou uma verdadeira separação entre Sua alma humana e Seu corpo, o que provocou Sua morte. No Santo Sacrifício da Missa, a Sua morte histórica na cruz é recordada e expressa pela dupla consagração, que é a separação mística entre o precioso sangue e o corpo sagrado de Cristo. Jesus morre misticamente a cada Missa oferecida. Entretanto, lembre que, após Sua gloriosa ressurreição, o corpo, o sangue, a alma e a divindade de Cristo não podem na realidade ser jamais separados novamente. A separação na Missa é mística, embora o sacrifício seja real. Cristo não pode morrer de novo. Assim sendo, o Senhor eucarístico está verdadeiramente presente no altar em estado vivo e glorioso, do mesmo jeito que está no céu; e Seu corpo vivo, Seu sangue vivo, Sua alma viva e Sua divindade viva estão presentes nas duas espécies, o tempo todo, imediatamente após as consagrações.

Concluindo: a Última Ceia e o calvário estão intimamente ligados. Como última reflexão, considere uma possível conexão entre a Última Ceia e o calvário que se crê ser do tempo de Cristo, e que ainda não tem explicação segundo a ciência moderna: é o sudário que São Pedro e São João contemplaram no túmulo vazio, e o qual é muito provavelmente o Sudário de Turim, atualmente guardado na capela real da catedral de São João Batista em Turim, na Itália. Muitos, incluindo este escriba, acreditam que o Sudário é a longa mortalha de Cristo, que cobriu todo o corpo de Nosso Senhor. Este Sudário contém imagens notáveis e inexplicáveis, bem como manchas de sangue, de um homem crucificado e coroado de espinhos. O curioso é que, além das manchas de sangue, há também manchas de vinho.

Alguns estudos conectando José de Arimatéia ao Cenáculo e ao sepultamento de Cristo, junto com as manchas de vinho que foram encontradas, dão credibilidade a uma possibilidade impressionante: a de que a toalha de mesa usada para a primeira Missa na Última Ceia seja o próprio Sudário de Turim presente no calvário. A teoria é que, na Sexta-Feira Santa, as lojas que vendiam as grosseiras mortalhas, tecidas com ligação simples 1×1, estariam fechadas para a Páscoa, forçando José de Arimatéia a usar a toalha de mesa da Última Ceia, tecida com ligação mais sofisticada 3×1, como mortalha. Além disto, acredita-se que o Cenáculo, parte de uma sinagoga liderada por José de Arimatéia, e local da Última Ceia, foi construída sobre o túmulo do rei Davi. Seria maravilhosamente apropriado que Nosso Senhor Jesus, o Rei dos Reis, o “Filho de Davi”, oferecesse a primeira Missa sobre o celebrado túmulo do rei Davi; além de aparecer ali depois da Ressurreição no domingo de Páscoa. E que coisa interessante: a conexão católica entre a Última Ceia e o Calvário, que protestantes e modernistas negam, parece ser confirmada em nosso tempo pelo Deus Todo-poderoso através do Santo Sudário de Turim. Deus escreve certo por linhas tortas. Ele deixa a nós, pela fé, a tarefa de conectar os pontos.

In Nomine Patris, et Filii, et Spiritus Sancti. Amen.


[*] Traduzido do original em inglês, publicado no jornal católico americano The Remnant, edição de 23 de março de 2016.

[1] Ver a encíclica Pascendi Dominici Gregis (39), na qual o papa São Pio X define o modernismo como “a síntese de todas as heresias.”

[2] Pão de trigo, sem fermento.

[3] Dt 16,3.

[4] Lc 12,1.

[5] The Holy Sacrifice of the Mass, páginas 666-667.

[6] Suma Teológica, parte III, q64, a8.

[7] Mt 26,26-28; Mc 14,22-24; Lc 22,19-20; e 1 Cor 11,24-25.

[8] Página 675.

[9] Denzinger 712; Ex Quo 61; Mystici Corporis 29 e 31.

[10] N.T.: Idem para a língua portuguesa.

[11] N.T.: A tradução portuguesa, na Missa Novus Ordo, continua errada.

[12] Trento: seção XXII, capítulo IV.

[13] Trento: seção VI, primeiro decreto, capítulo III.

[14] Mc 16,16.

[15] Atos 4,12.

[16] Fl 2,12.

[17] Denzinger, 1002; Catecismo da Igreja Católica, 1035.

[18] Papa Leão XIII, Carta Encíclica “Caritatis Studium”, 9.

[19] Mt 21,16.

Os Anjos da Guarda

Autor: Dom Prosper Gueranger, in “O Ano Litúrgico”
Tradução: André Carezia
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HISTÓRIA DA FESTA – Embora a solenidade de 29 de setembro tenha por objetivo honrar a todos os espíritos bem-aventurados dos nove coros, a piedade dos fiéis nestes últimos séculos quis que se consagrasse um dia especial aqui na Terra para celebrar os Anjos da Guarda. Várias igrejas começaram a celebrar esta festa, e puseram-na em diferentes data do ano; Paulo V, embora permitindo-a em 27 de setembro de 1608, achou conveniente não impor sua aceitação; Clemente X acabou com essa variação em torno da nova festa, e a 20 de setembro de 1670 fixou-a em 2 de outubro, primeiro dia livre depois de São Miguel, a cuja festa está como que subordinada.

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DOUTRINA DA IGREJA – É de fé que, neste desterro, Deus encomenda aos anjos a custódia dos homens destinados a contemplá-Lo no céu; e isto as Escrituras asseguram, e a Tradição o afirma unanimemente.

As conclusões mais certas da teologia católica estendem o benefício desta preciosa proteção a todos os membros da raça humana, sem distinção de justos ou pecadores, de infiéis ou batizados. Afastar os perigos, sustentar o homem em sua luta contra o demônio, despertar nele pensamentos virtuosos, apartá-lo do mal e castigá-lo de quando em quando, rogar por ele e apresentar a Deus suas próprias orações: eis aí o ofício do Anjo da Guarda. E é um ministério tão especial que o mesmo Anjo não acumula a custódia simultânea de vários. E é tão assíduo que acompanha seu protegido desde o primeiro dia até o último de sua vida, apanhando a alma que sai deste mundo para conduzi-la depois do juízo ao lugar merecido no céu, ou na mansão temporal de purificação e expiação.

Os NOVE COROS – A santa milícia dos Anjos da Guarda é recrutada principalmente do lado mais próximo de nossa natureza, entre os postos do último dos nove coros. Deus, de fato, reserva aos Serafins, Querubins e Tronos a honra de formar Sua augusta corte. As Dominações presidem do alto de seu trono o governo do universo. As Virtudes velam pela firmeza das leis da natureza, pela conservação das espécies, pelos movimentos dos céus; as Potestades mantêm acorrentado o inferno. A raça humana, em seu conjunto e nos grupos sociais das nações e das Igrejas, está confiada aos Principados; o ofício dos Arcanjos, encarregados das comunidades menores, parece incluir também o de transmitir aos Anjos as ordens do céu, com o amor e a luz que descem até nós da primeira e suprema hierarquia. Ó abismo de sabedoria em Deus![1] Assim é que o conjunto admirável de ministérios, disposto entre os diversos coros de espíritos celestiais, se ordena para o seu fim: guardar o mais humilde deles, o homem, para quem foi criado o universo. O mesmo afirma a Escolástica[2], e também o Apóstolo: Não são todos os anjos espíritos ao serviço de Deus, que lhes confia missões para o bem daqueles que devem herdar a salvação? [3]

OFÍCIO DOS ANJOS DA GUARDA – “Os anjos”, diz São Lourenço Justiano, “observam nossas diversas ações; exortam-nos, incitam-nos, levantam-nos depois de nossas quedas, e mantêm vigília em torno da Igreja militante. Sobem e descem sem cessar; andam sempre contentes, sempre solícitos, do céu à terra e da terra ao céu, oferecendo a Deus nossas obras, nossas lágrimas e nossas orações. Trazem-nos, do altar Deus, por assim dizer, a humanidade de Cristo, o fogo da caridade, o ardor da fé, e a esperança de um dia termos parte na glória dos santos. Mostram-nos o triunfo dos mártires para que tenhamos maior ânimo; a porta aberta do céu, para induzir-nos a desprezar o mundo; a presença contínua de Deus, para encher-nos de respeito; e por fim a imensidão da eterna fortuna, para excitar nossos desejos. Quanto mais oportunidades eles têm de cumprir por nós estas diversas funções, mais felizes e diligentes se sentem. Não invejam de forma alguma nosso progresso no bem, nem diminuem em nada nossos méritos; ao contrário, trabalham pela nossa perfeição, instruem-nos em nossos deveres, e dão-nos coragem para cumpri-los. Não têm outro desejo nem outro fim que não seja a glória do Onipotente e a nossa salvação. São amigos da Sabedoria e vivem próximos ao Verbo, isentos de toda miséria e de toda imperfeição. Mesmo enquanto exercem seu ministério em meio ao mundo, não ficam nem com a mais mínima mancha, e nem sentem fadiga alguma. Ainda que circunscritos pelo espaço, permanecem sempre na presença de Deus; ao mesmo tempo que servem aos homens, não cessam de oferecer amorosamente ao seu Criador o sacrifício de louvor; as funções de seu ministério não se separam da homenagem e da glória que devem tributar ao Rei imortal.”[4]

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Deus, porém, que se mostra extremamente admirável para a estirpe humana, não deixa por menos os governos deste mundo quando se trata de honrar com uma especial atenção os príncipes de Seu povo, os privilegiados de Sua graça, ou os que regem o mundo em nome dEle; como dizem os santos, uma suma perfeição, uma alta comissão do Estado ou da Igreja, exigem para o investido a assistência de um espírito também superior. A anjo da primeira hora – se assim se pode dizer – não precisa necessariamente ser guarda de si mesmo. Não há lugar, no campo das operações de salvação, para que o titular do posto a ele confiado desde o princípio possa temer encontrar-se sozinho; a uma chamada sua, ou a uma ordem do alto, os exércitos dos bem-aventurados companheiros, que enchem os céus e terra, estão sempre dispostos a prestar-lhe ajuda poderosa. Entre estes nobres espíritos, que na presença de Deus aspiram a aumentar por todos os meios seu amor a Ele, há alianças secretas que às vezes originam neste mundo, entre seus devotos, aproximações cujo mistério se descobrirá no dia da eternidade.

OS ANJOS NA CRIAÇÃO – “Profundo mistério”, diz Orígenes, “é a repartição das almas entre os anjos encarregados de sua guarda; segredo divino relacionado com a economia universal que descansa no Homem-Deus! E não é sem inefáveis disposições que se repartem entre as Virtudes dos céus os serviços da terra, os grupos múltiplos da natureza: fontes e rios, ventos e bosques, plantas, seres animados dos continentes e dos mares, cujos ofícios se harmonizam por intermédio dos anjos que dirigem seus variados ofícios ao fim comum.”[5] Deste modo se conserva, em sua forte unidade, a obra do Criador.

E sobre estas palavras de Jeremias, “Até quando permanecerá a terra em luto?”[6], Orígenes prossegue[7]: “A terra se regozija ou chora por cada um de nós; e não somente a terra, mas também a água, o fogo, o ar, e todos os elementos, não da matéria insensível, mas dos anjos que estão à frente de todas as coisas do mundo. Há um anjo da terra, e é este que, juntamente com seus companheiros, chora por nossos crimes. Há um anjo das águas, a quem se aplica o salmo: As águas vos viram, Senhor, as águas vos viram; elas tremeram e as vagas se puseram em movimento. Em torrentes de água as nuvens se tornaram, elas fizeram ouvir a sua voz, de todos os lados fuzilaram vossas flechas.”[8]

A natureza, considerada desta maneira, é grande. A antigüidade, que abundava de verdades e de poesias mais que nossas gerações atuais, deste modo contemplava o universo. Seu erro consistiu em adorar a esses poderosos mistérios, com prejuízo do único Deus, ante o qual se inclinam aqueles que sustentam o mundo.[9] “Ar, terra, oceano, tudo está cheio de anjos”, afirmou por sua vez Santo Ambrósio[10]. “Eliseu, assediado por um exército, não tinha medo algum, pois via que lhe assistiam esquadrões invisíveis. Oxalá o profeta te abra também os olhos, e que o inimigo, ainda que seja legião, não te assuste: crês que estás sitiado, mas estás livre; os que estão conosco são mais numerosos do que os que estão com eles[11].”

CULTO AO ANJO DA GUARDA – Para terminar, escutemos hoje, como a Igreja o faz, o abade de Claraval, em cuja eloqüência parecem nesta ocasião brotar asas: “Mostra-te, em todo lugar, respeitoso para com teu anjo. Disponha-te a render culto à sua grandeza e graças por seus benefícios. Ama este futuro co-herdeiro, que agora é o tutor designado pelo Pai para os dias de tua infância. Porque, ainda que sejamos filhos de Deus, não passamos agora de crianças, e o caminho é longo e perigoso. Mas aos seus anjos Deus mandou que te guardem em todos os teus caminhos. Eles te sustentarão em suas mãos, para que não tropeces em alguma pedra. Sobre serpente e víbora andarás, calcarás aos pés o leão e o dragão[12]. Certamente, por onde o caminho é fácil para uma criança, sua ajuda se reduzirá a ser simplesmente um guia, a sustentar-te como se faz às crianças. Mas a provação corre o risco de exceder tuas forças? Eles te levarão em suas mãos. Mãos de anjos! Quantos atoleiros temíveis, ultrapassados quase que sem se dar conta à mercê destas mãos, só deixaram no homem a impressão de um pesadelo rapidamente desvanecido!” [13]

AGRADECIMENTO AOS ANJOS – Santos Anjos, benditos sejais porque os crimes dos homens não cansam a vossa caridade; damos graças a vós pelo benefício – entre muitos outros – de conservar a terra habitável, dignando-nos permanecer sempre nela. Muitas vezes há perigo de que a solidão se torne pesada no coração dos filhos de Deus nas grandes cidades e nos caminhos do mundo, onde se acotovelam apenas desconhecidos ou inimigos; porém, se diminuiu o número dos justos, não diminui o vosso. E em meio à multidão entusiasmada, como também no deserto, não há um ser humano que não tenha junto de si seu anjo, representante da Providência universal sobre os bons e os maus. Espíritos bem-aventurados, temos a mesma pátria que vós, o mesmo pensamento e o mesmo amor; por que os ruídos confusos de uma turba frívola hão de turbar a vida do céu que desde agora podemos viver já convosco? O tumulto das praças públicas impede-vos por acaso de formar no além vossos coros, ou impede o Todo-poderoso de perceber nelas as vossas harmonias? Também nós queremos cantar por toda parte ao Senhor, e unir continuamente as nossas adorações às vossas, vivendo pela fé na face oculta do Pai[14], cuja contínua contemplação provoca arroubos em vós[15]. Se formos tomados por este modo angélico de viver, a vida presente não nos oferecerá nenhuma inquietude. E nem a eterna surpresa alguma.

Notas:

[1] Rm 11,33.

[2] Suárez, De Angelis, 1, Cap. VI , XVIII, 5.

[3] Hb 1,14.

[4] Da Agonia Triunfante.

[5] Comentário sobre Josué, Homilia 23.

[6] Jeremias 12, 4.

[7] Homilia 10.

[8] Salmo 76, 17-18

[9] Jó 9, 13.

[10] Comentário do Salmo 118; Sermão I, 9, 11, 12.

[11] 2Re 6, 16.

[12] Salmo 90, 11-13.

[13] Comentário ao Salmo 40; Sermão XII.

[14] Salmo 30, 21; Colossenses 3, 3.

[15] Mt 18, 10.