A Causa Palestina

Autor: Guy Millière
Tradução: André Carezia

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Já faz muitos anos que a ‘Palestina’ não cessa de aspirar a novas e grandiosas conquistas na chamada ‘comunidade internacional’. Desde 1996, a ‘Palestina’ já se apresenta nas Olimpíadas; um pouco depois ela se tornou observadora permanente da UNESCO e da ONU. A esmagadora maioria das 95 ‘embaixadas’ da ‘Palestina’ está no mundo islâmico; o resto está na Ásia, na África, na América Latina e na Europa. Em 2014, o parlamento espanhol votou a favor do pleno reconhecimento da ‘Palestina’. Algumas semanas mais tarde, o parlamento francês fez o mesmo.

Não há outro caso, na história do mundo, em que um Estado inexistente consegue estabelecer missões e embaixadas que fingem funcionar como se o Estado de fato existisse.

Agora parece ter chegado a hora dos ‘palestinos’ perceberem que perderam, e voltarem à Terra, como bem observou o estudioso Daniel Pipes.

Será que os líderes ‘palestinos’ demonstram, por seus discursos e ações, que estão prontos para dirigir um Estado que viva em paz com seus vizinhos e com o resto do mundo? Todas as lideranças ‘palestinas’ sempre – e incessantemente – incitaram o terrorismo, e não escondem o desejo de varrer Israel do mapa.

Será que o ‘povo palestino’ ambiciona ter, a longo prazo, um Estado, e viver pacificamente dentro dos limites desse Estado? Em verdade, a resposta é não. O ‘povo palestino’ foi inventado no final dos anos 60 pelos serviços de propaganda dos árabes e dos soviéticos. Em março de 1977, o líder da OLP, Zuheir Mohsen, contou ao jornal holandês Trouw:

“O povo palestino não existe. A criação de um Estado palestino é o único jeito de continuarmos a nossa luta pela unidade árabe, contra o Estado de Israel. Hoje, na realidade, não há diferença entre os jordanianos, os palestinos, os sírios e os libaneses.”

Os relatos da Cisjordânia, depois da guerra dos seis dias, mostram que os árabes se definiam como ‘árabes’ ou ‘jordanianos’ nas entrevistas; evidentemente não sabiam que eram o ‘povo palestino’. Desde então, eles foram instruídos a falar assim. Também foram instruídos que é seu dever matar judeus para ‘libertar a Palestina’. Os palestinos são o primeiro povo inventado para servir de arma de destruição em massa de um outro povo.

Será que ao menos há algum passado histórico para dar legitimidade à ambição de criar um ‘Estado palestino’? Novamente a resposta é não. Não há nenhuma cultura palestina distinta das culturas do mundo árabe islâmico; nenhum monumento que possa ser definido como um monumento histórico ‘palestino’, a menos que se falsifique a história.

Uma pergunta mais básica: um ‘Estado palestino’ hipotético seria economicamente viável? A resposta é não, de novo. Os territórios ocupados pelos movimentos palestinos somente sobrevivem graças à assistência financeira do ocidente.

Como é possível, então, que tantos países se empenhem, durante tanto tempo, em criar um Estado cujos dirigentes seriam provavelmente líderes ‘palestinos’ corruptos e retrógrados; cujos habitantes seriam usados como máquinas de matar; cuja história é inexistente ou falsificada; e cujo potencial econômico parece nulo?

A resposta é simples.

Por baixo desse apoio à criação de um ‘Estado palestino’, esses países perseguem há tempos outros objetivos. Há décadas que os países do mundo islâmico só querem uma coisa, e a querem de modo obsessivo: a destruição de Israel. Eles já tentaram atingir esse objetivo através de guerras convencionais, terrorismo, diplomacia e propaganda. Sempre culparam Israel, e somente ele, por todos os males no Oriente Médio.

Ao mesmo tempo, eles sabem quem são e o que fazem os líderes ‘palestinos’. Sabem que o ‘povo palestino’ foi inventado. Sabem o porquê do povo ‘palestino’ ter sido inventado. Sabem que um ‘Estado palestino’ não será economicamente viável. Mesmo assim, comprometeram-se com uma estratégia feita para desestabilizar e demonizar uma nação não-islâmica: Israel.

Eles chamam os ‘palestinos’ de ‘vítimas’; o terrorismo, de ‘militância’; e a ação de incitar assassinatos, de ‘resistir à ocupação’. Eles têm pisoteado sobre a verdadeira história para substituí-la por mitos.

Eles pressionam os líderes ‘palestinos’ a fazerem ‘negociações’, sabendo muito bem que nunca algum acordo será assinado, e que as negociações terminarão em banho de sangue. Propõem apenas ‘planos de paz’ que sabem que Israel terá que rejeitar – são planos que incluem as ‘linhas do armistício de 1949’ (chamadas ‘linhas Auschwitz’) ou o ‘direito de retorno’ dos ‘refugiados palestinos’, que eram meio milhão em 1949, e quase cinco milhões agora.

Eles reconhecem um ‘Estado palestino’, sabendo porém que o ‘Estado’ que reconhecem não é um Estado, mas um organismo terrorista sem fronteiras e território definidos, imbuído da intenção de derramar mais sangue e criar mais caos. Por meio do tumulto, da chantagem e das mentiras, eles estimulam o resto do mundo a pensar que a situação requer uma intervenção internacional drástica.

Eles sempre dizem que querem um ‘Estado palestino’, mas nunca dizem que querem que esse Estado renuncie ao terrorismo e encerre o conflito. Ao contrário, o que têm feito é se engajar em uma guerra selvagem que há muito tempo esperam vencer.

Durante mais de trinta anos, eles se beneficiaram do apoio da União Soviética. Ela financiou guerras (1967, 1973), terrorismo, diplomacia e propaganda. A União Soviética transformou a empreitada ‘palestina’ em uma causa anti-imperialista – um meio de fortalecer os pontos de vista soviéticos e de neutralizar os inimigos do ocidente. A União Soviética entrou em colapso em 1991, mas os efeitos de seu apoio à ‘causa palestina’ permaneceram por algum tempo. Muitos países hostis ao ocidente ainda apoiam e reconhecem os ‘palestinos’, ao mesmo tempo que fingem ignorar que estão reconhecendo uma organização terrorista. Estão colaborando para a guerra.

Alguns países do mundo ocidental, durante anos sujeitos às pressões do mundo islâmico e da União Soviética, gradualmente foram cedendo; alguns cederam antes mesmo de serem pressionados. A França escolheu o seu lado em 1967, quando o general Charles de Gaulle deu início ao que chamou de ‘política árabe’, após sua derrota na Argélia. A política internacional francesa se tornou decididamente ‘pró-palestina’ – em um aparente esforço de defletir o terrorismo, obter petróleo barato e competir com os EUA – e assim tem sido até os dias de hoje. Os países da Europa ocidental foram aos poucos adotando pontos de vista semelhantes aos da França. Depois do colapso da União Soviética, a União Européia se tornou a principal financiadora da ‘causa palestina’, inclusive de suas ações terroristas. Os líderes da Europa ocidental sabem quais são os objetivos reais, e no entanto repetem sem tréguas que a criação de um ‘Estado palestino’ é ‘essencial’. Também eles estão colaborando para a guerra.

Apesar de serem aliados de longo prazo de Israel, os Estados Unidos mudaram sua política para o Oriente Médio no início dos anos 90, adotando posições mais próximas àquelas do mundo islâmico. Alguns políticos e diplomatas pressionaram os israelenses a negociar com os líderes ‘palestinos’, e aparentemente perderam de vista o que era de fato – e em segredo – a ‘causa palestina’. Os líderes israelenses, cheios de fantasiosas esperanças, concordaram em negociar. O resultado trágico foram os acordos de Oslo e a criação da Autoridade Palestina (AP), que se tornou rapidamente uma base para ações terroristas anti-Israel. Uma onda de ataques letais anti-Israel começou imediatamente, logo seguida de uma aprimorada ofensiva diplomática e propagandística contra Israel. Os líderes americanos, como se tivessem acordado de um sono de vários anos, começaram a falar da necessidade de existência de um ‘Estado palestino’. Três presidentes americanos propuseram ‘planos de paz’, colaborando assim também para a guerra.

Mais um ‘plano de paz’ é aguardado para breve, mas os parâmetros serão completamente diferentes. O presidente Donald Trump parece querer romper com o passado. Recentemente, ele disse ao líder palestino Mahmoud Abbas que os líderes ‘palestinos’ são mentirosos. Nenhum dos negociadores americanos escolhidos por ele parece ter a mais mínima ilusão sobre a liderança ‘palestina’ ou sobre a ‘causa palestina’.

A Lei Taylor Force, aprovada em 5 de dezembro pela Câmara de Representantes dos EUA, tem por intenção condicionar toda ajuda americana à ‘faixa de Gaza’ e à ‘Cisjordânia’ às ‘ações empreendidas pela Autoridade Palestina para encerrar a violência e o terrorismo contra os cidadãos israelenses’; a lei pode ser ratificada em breve pelo Senado. A Autoridade Palestina rejeitou todas as condições da lei.

O mundo islâmico também passa por transformações. O Irã, enormemente fortalecido pelo acordo aprovado em julho de 2015, e pelo gigantesco aporte financeiro americano que veio juntamente com o tal acordo, tem mostrado seu desejo de se tornar um poder hegemônico no Oriente Médio. O regime dos mulás já domina três capitais além de Teerã: Bagdá, Damasco e Beirute. Atacou a Arábia Saudita e apoia a guerra liderada pela milícia Houthi no Iêmen; tem a intenção de capturar Sanaã e se apossar de Bab El Mandeb, único caminho para o Mar Vermelho e o Canal de Suez. O Catar e a Turquia já estabeleceram fortes ligações com o Irã.

Os líderes sauditas parecem estar cientes do perigo. O rei Salman escolheu seu filho, Mohamed bin Salman, como herdeiro do trono, dando-lhe plenos poderes. ‘MBS’ – como é conhecido – parece decidido a liderar uma verdadeira revolução. Em termos militares, ele é o chefe dos 40 membros da Coalizão Militar Islâmica de Contra-Terrorismo, e já declarou sua intenção de ‘dar um fim no terrorismo’. No aspecto econômico, ele está no comando de um projeto ambicioso de reforma que pretende fazer seu país ficar menos dependente do petróleo: o Visão 2030. Foram presos todos os líderes sauditas que não concordam com as novas orientações, e seus bens foram confiscados. Mohamed bin Salman identificou o Irã como o seu principal inimigo, e recentemente descreveu seu líder supremo, Ali Khamenei, como um ‘novo Hitler’. O Catar e a Turquia já estão sob intensa pressão saudita para que se distanciem do regime iraniano. O grão-mufti da Arábia Saudita, Abdulaziz ibn Abdullah al ash-Sheikh, há pouco tempo emitiu uma fatwa dizendo que ‘lutar contra os judeus’ é ‘contrário à vontade’ de Alá, e que o Hamas é uma organização terrorista.

Mohamed bin Salman tem o apoio do governo Trump; de Vladimir Putin, que parece desejar um equilíbrio de forças do Oriente Médio, embora seja aliado do Irã; e de Xi Jinping, que enfrenta o risco de uma rebelião islâmica sunita em Xinjiang, um território autônomo chinês.

O líder ‘palestino’, Mahmoud Abbas, foi aparentemente convocado a Riad, onde o rei Salman e Mohamed bin Salman disseram-lhe para aceitar o plano proposto pelo governo Trump, ou renunciar. Disseram-lhe também que lhe seria ‘arriscado’ considerar a incitação de um levante – ele o fez mesmo assim, embora com o cuidado de mantê-lo frouxo e pouco expressivo.

No mês de outubro, o presidente egípcio Abdel Fattah al-Sisi, aliado de Mohamed bin Salman, convidou os líderes da Autoridade Palestina e do Hamas para uma ‘reconciliação’ na cidade do Cairo. Aparentemente ele exigiu que o controle da Faixa de Gaza seja passado à Autoridade Palestina. Parece também que o governo Trump e o presidente Sisi disseram aos líderes do Hamas que eles teriam que aprovar os termos do acordo de ‘reconciliação’, e que eles correriam o risco de uma destruição completa caso empreendessem qualquer ataque contra Israel.

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O ‘plano de paz’ que o governo Trump vai evidentemente apresentar já provoca o extremo ódio dos líderes ‘palestinos’. O objetivo do ‘plano’ parece ser o de reavivar um ‘processo de paz’ indeterminado, que permita à Arábia Saudita e aos membros da Coalizão Militar Islâmica de Contra-Terrorismo se aproximarem de Israel, jogando a ‘causa palestina’ para o fim da fila.

No dia 19 de novembro, uma reunião de emergência da Liga Árabe no Cairo condenou veementemente o Hezbollah e o Irã. Além do mais, pela primeira vez em cinqüenta anos, uma reunião da Liga Árabe nem sequer mencionou a questão ‘palestina’.

O reconhecimento de Jerusalém como a capital de Israel, feito pelo presidente Trump em 6 de dezembro, causou rebuliço e acrimônia tanto no mundo islâmico quanto nas lideranças da Europa ocidental. Entretanto, os líderes sunitas aliados à Arábia Saudita, bem como a própria Arábia Saudita, parecem suficientemente ocupados com a ameaça iraniana para altercar com Israel, Estados Unidos ou qualquer outro. A Europa ocidental quase não tem peso algum sobre o que está acontecendo; o máximo que tem demonstrado é covardia, medo, e um contínuo desdém por uma democracia que é amiga do ocidente: Israel.

O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, agora no décimo segundo ano de seu mandato de quatro anos – e vendo aparentemente que tem pouco apoio – parece ter ido buscar uma intervenção divina: foi pedir ajuda ao papa. “Não é possível haver um Estado palestino sem a Jerusalém oriental como sua capital”, disse Abbas, dando mostras de que começou a entender que a ‘causa palestina’ pode estar se esvaindo. Não obstante, junto com outros líderes ‘palestinos’, convocou ‘três dias de fúria’. Alguns poucos manifestantes queimaram pneus e bandeiras americanas – o de sempre.

O presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, pediu à Organização de Cooperação Islâmica para se reunir em Istambul em 13 de dezembro, e compeliu os líderes dos países islâmicos a reconhecerem com urgência Jerusalém como ‘capital ocupada do Estado palestino’. O rei saudita Salman ficou bem à distância, e o mesmo fizeram quase todos os outros líderes sunitas. Ele apenas enviou uma mensagem dizendo que pede uma “solução política para resolver a crise regional”. E acrescentou que os “palestinos têm direito à Jerusalém oriental” – o mínimo que podia fazer, e mais nada fez. Erdogan é apoiado principalmente pelo Irã, que hoje é o mais importante inimigo da Arábia Saudita e de outros países sunitas.

“Não será o fim da guerra contra Israel”, disse o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, “mas pode ser o início do fim da causa palestina”.

Agora parece ser um bom momento para os líderes da Europa ocidental, que ainda apoiam cegamente a ‘causa palestina’, acabarem com suas perdas, tanto políticas quanto econômicas. Ficar do lado de Erdogan e dos mulás, só para apoiar uma organização terrorista que nunca será um ‘Estado’, não vai lhes servir em nada no combate ao terrorismo ou à crescente islamização da Europa.


(Traduzido do artigo original em inglês intitulado “Twilight over the Palestinian Cause”, publicado em 21 de dezembro de 2017 no site gatestoneinstitute.org. O autor, Dr. Guy Millière, é professor na Universidade de Paris e tem 27 livros publicados na França e na Europa.)

O Papa Francisco é um Protestante Esquerdista?

Autor: Gerald McDermott[*]
Tradução: André Carezia

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“O papa é católico?” Por mais de um século, era assim que nós os anglicanos brincávamos a respeito de qualquer coisa que parecesse muito óbvia. Mas agora precisamos perguntar – a sério – se o papa é ou não um protestante esquerdista.

No começo deste mês, um teólogo americano foi pressionado a pedir demissão de seu cargo de conselheiro teológico na Conferência dos Bispos Católicos dos EUA (USCCB). O que o Pe. Thomas Weinandy fez para merecer esta reprimenda pública? Ele tornou pública uma carta de julho ao papa, na qual ele acusava o Santo Padre de estar causando uma “confusão crônica”. A exortação apostólica Amoris Laetitia, escrita pelo papa, é “intencionalmente ambígua” em temas importantes de moral e doutrina. Ela “corre o risco de pecar contra o Espírito Santo, o Espírito da verdade”, e “diminui a importância da doutrina cristã” ao incentivar mudanças no ensino tradicional católico a respeito do matrimônio e do divórcio. O papa “ressente-se” com as críticas, e “zomba” daqueles que contestam a Amoris Laetitia chamando-os de “fariseus atiradores de pedras”.

Eu, sendo alguém de fora, não posso deixar de me perguntar se o papa e a USCCB não se sentiram especialmente provocados pela sugestão, feita por Weinandy, de que Jesus permitiu esta polêmica com a intenção “tornar manifesta a fraqueza de fé de muitos dentro da Igreja, mesmo entre muitos de seus bispos”. Os católicos que se decidam – mas eu admito que tenho muitas dúvidas a respeito da fé do papa Francisco, a qual parece, se não fraca, ao menos diferente daquela que se acha na tradição católica.

Antes mesmo da publicação de Amoris Laetitia em março de 2016, Francisco já tinha levado muitos a duvidarem de sua fidelidade a esta tradição. Em 2014, o relatório intermediário do Sínodo Extraordinário da Família recomendava aos pastores enfatizarem os “aspectos positivos” da coabitação e de um novo casamento civil após um divórcio. Ele afirmou que a multiplicação dos pães e peixes, feita por Jesus, era na verdade um milagre de partilha, e não de multiplicação (2013); disse a uma mulher que ela podia receber a Sagrada Comunhão mesmo sendo casada invalidamente (2014); postulou que as almas perdidas não vão para o inferno (2015); e afirmou que Jesus havia suplicado o perdão de seus pais (2015). Em 2016, ele disse que Deus havia sido “injusto com Seu filho”, anunciou suas orações pela intenção de construir uma sociedade que “coloque a pessoa humana no centro”, e declarou que a desigualdade é “o maior mal que existe”. Em 2017, fez uma piada: “no interior da Santíssima Trindade eles discutem a portas fechadas, mas externamente dão a impressão de unidade”. Jesus Cristo, afirmou, “se fez de diabo”. “Nenhuma guerra é justa”, pronunciou. Ao final da história, “tudo será salvo. Tudo”.

Weinandy e outros críticos católicos já destacaram afirmações e sugestões alarmantes na própria Amoris Laetitia. A exortação declara que “ninguém pode ser condenado para sempre, porque esta não é a lógica do Evangelho!” Em dezembro de 2016, os filósofos católicos John Finnis e Germain Grisez argumentaram em “Abusando de Amoris Laetitia” que, muito embora essa afirmação reflita uma tendência entre pensadores católicos desde Karl Rahner e Hans Urs von Balthasar, ela contradiz as claras afirmações dos Evangelhos e os ensinamentos tradicionais católicos: há sim “punição sem fim” no inferno. Finnis e Grisez criticam o raciocínio de Amoris Laetitia quando afirma que alguns fiéis são muito fracos para obedecer os mandamentos de Deus, e que podem viver em estado de graça mesmo cometendo, habitual e continuamente, pecados “em matéria grave”. Imitando o que Joseph Fletcher – um episcopaliano – ensinava em suas aulas de “ética situacional” em 1960, a exortação sugere que há exceções em todas as regras morais, e que simplesmente não existe algo como um “ato intrinsecamente mau”.

Não sinto prazer com a agonia de Roma. Por décadas, os anglicanos ortodoxos e outros protestantes em luta para resistir às apostasias do cristianismo esquerdista acostumaram a olhar para Roma em busca de apoio moral e teológico. A maioria dos anglicanos reconhecia estar lutando contra a revolução sexual, que se apropriou da Igreja Episcopal – e também da sua matriz do outro lado do oceano – e corrompeu-a. Primeiro foi a santidade da vida e a eutanásia. Depois foi a prática homossexual. E agora o casamento gay e a ideologia transgênera. Durante os pontificados de João Paulo II e Bento XVI, nós que não somos católicos e estávamos debatendo teologia moral podíamos nos apoiar em argumentos embasados e convincentes emanando de Roma e dizer: com efeito, “a porção mais velha e maior do corpo de Cristo concorda conosco, e o faz com notável sofisticação.”

Aqueles de nós que continuam a lutar pela ortodoxia, tanto em teologia dogmática quanto em teologia moral, sentem falta dos dias em que havia um farol claro brilhando do outro lado do Tibre. Porque agora, ao que parece, até Roma foi infiltrada pela revolução sexual. O centro não está aguentando[**].

Embora perturbados, nós não devemos desesperar. Pois a demonstração de coragem e de princípios feita por Tom Weinandy nos recorda que Deus acende luzes proféticas quando dias obscuros rondam a Sua Igreja.


[*] Traduzido do artigo original “Is Pope Francis a Liberal Protestant?”, escrito por um teólogo anglicano e publicado em novembro/2017 na revista First Things.

[**] No original: “the center is not holding”. A frase é do poema “The Second Coming”, publicado em 1920 pelo poeta irlandês William Butler Yeats.

Impedindo um Novo Eixo do Mal

Autor: Constantine C. Menges
Tradução: André Carezia

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Uma nova ameaça terrorista, envolvendo armas nucleares e mísseis balísticos, pode muito bem vir de um novo eixo que inclui a Cuba de Fidel Castro, o regime de Chávez na Venezuela e um presidente radical eleito no Brasil. Tudo isso conectado ao Iraque, Irã e China. Em visita ao Irã no ano passado, o Sr. Castro dizia: “Irã e Cuba podem colocar os EUA de joelhos”, ao mesmo tempo em que Chávez expressava sua admiração por Saddam Hussein durante uma visita ao Iraque.

O novo eixo ainda é evitável, mas se o candidato pró-Castro for eleito presidente do Brasil, os efeitos podem incluir um regime radical no Brasil, com o restabelecimento dos programas de armas nucleares de mísseis balísticos, a criação de fortes laços com financiadores estatais do terrorismo, como Cuba, Iraque e Irã, e a participação na desestabilização das frágeis democracias circunvizinhas. Isso pode fazer com que 300 milhões de pessoas em seis países fiquem sob o controle de regimes radicais e anti-americanos, e pode permitir que milhares de novos terroristas doutrinados tentem atacar os Estados Unidos a partir da América Latina. Apesar disso, o governo em Washington parece estar dando pouca atenção à coisa.

Os brasileiros terão eleições presidenciais em outubro. Se as pesquisas estiverem certas, o vencedor poderá ser um radical pró-Castro com conexões fortes com o terrorismo internacional. O nome dele é Luis Inácio da Silva, o candidato presidencial do Partido dos Trabalhadores, e tem hoje mais ou menos 40% nas pesquisas. O candidato do Partido Comunista tem 25%, e o adversário pró-democracia tem aproximadamente 14%.

O Sr. da Silva não esconde suas simpatias. Ele já é um aliado do Sr. Castro há mais de 25 anos. Em 1990, com o apoio do Sr. Castro, o Sr. da Silva fundou o Foro de São Paulo para ser um encontro anual de organizações comunistas e de outras organizações terroristas radicais e políticas da América Latina, Europa e Oriente Médio. Esse Foro tem sido usado para coordenar e planejar atividades políticas e ataques terroristas ao redor do mundo e contra os Estados Unidos. O último encontro correu em Havana, Cuba, em dezembro de 2001. Envolveu terroristas da América Latina, Europa e Oriente Médio, e condenou agressivamente a administração Bush e suas ações contra o terrorismo internacional.

O Sr. da Silva, assim como o Sr. Castro, culpa os Estados Unidos e o “neoliberalismo” por todos os verdadeiros problemas sociais e econômicos ainda enfrentados pelo Brasil e pela América Latina. O Sr. da Silva afirmou que a Área de Livre Comércio das Américas é um complô americano para “anexar” o Brasil, e chegou a chamar de “terroristas econômicos” os credores internacionais que buscam receber de volta seus empréstimos de 250 bilhões de dólares. Também chamou de “terroristas econômicos” aqueles que estão tirando dinheiro do Brasil por medo de seu governo. Isso dá uma idéia de que tipo de “guerra contra o terrorismo” seu governo vai travar.

O Brasil é um país vasto e rico, quase do tamanho dos Estados Unidos, com cerca de 180 milhões de habitantes, e a oitava economia do mundo (PIB: mais de 1,1 trilhões de dólares). Além disto, pode ser que se junte em breve às potências nucleares do mundo. Entre 1965 e 1994, os militares trabalharam ativamente para desenvolver armas nucleares. Projetaram com sucesso duas bombas atômicas, e aparentemente estavam na iminência de testar um dispositivo nuclear quando um novo governo democrático foi eleito e uma investigação do Congresso fez com que o programa fosse encerrado.

Essa investigação revelou, porém, que os militares haviam vendido oito toneladas de urânio para o Iraque em 1981. Também revelou que, depois do encerramento do programa brasileiro de mísseis balísticos, o general e 24 cientistas passaram a trabalhar para o Iraque. Há relatos de que um certo potencial de armas nucleares foi mantido secretamente, com financiamento do Iraque, contrariando ordens das lideranças democráticas civis.

O Sr. da Silva afirmou que o Brasil deveria ter armas nucleares e se aproximar da China, a qual tem cortejado ativamente os militares brasileiros. A China já vendeu urânio enriquecido para o Brasil, e já investiu na indústria aeroespacial brasileira, tendo como resultado um satélite usado em imagens e reconhecimento.

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O Brasil faz fronteira com dez outros países na América do Sul. Este fato seria de grande auxílio para Lula poder copiar — como ele disse que faria — a política internacional do regime chavista da Venezuela, que é pró-Castro e pró-Iraque, e que já deu apoio aos comunistas e narco-terroristas das FARC na Colômbia e a outros grupos anti-democráticos em outros países da América do Sul. Dois anos atrás, Hugo Chavez trabalhou com o Sr. Castro para desestabilizar temporariamente a frágil democracia do Equador. Agora ambos apóiam o líder socialista dos plantadores de coca, Evo Morales, que espera se tornar o presidente da Bolívia agora em agosto [de 2002].

Além de ajudar as guerrilhas comunistas a chegarem ao poder na conflituosa democracia colombiana, um regime de Da Silva no Brasil estaria muito bem situado para auxiliar os comunistas, os narco-terroristas e outros grupos anti-democráticos a desestabilizar as frágeis democracias da Bolívia, do Equador e do Peru. Também seria de grande valia na exploração [política] da profunda da crise econômica que há na Argentina e no Paraguai.

Um regime de Da Silva, além do mais, provavelmente iria suspender o pagamento de suas dívidas, provocando uma grave crise econômica em toda a América Latina, e deixando portanto suas democracias ainda mais vulneráveis. Com a conseqüente contração dos mercados de exportação, isto poderia também gerar uma segunda fase da crise econômica nos Estados Unidos.

Um eixo Castro-Chavez-da Silva significaria conectar 43 anos da guerra política de Fidel Castro contra os EUA com a riqueza petrolífera da Venezuela e o potencial econômico e de armas nucleares/mísseis balísticos do Brasil.

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Quando chegarem nossas eleições em novembro de 2004, os americanos poderão perguntar: quem deixou a América do Sul se perder? Os Estados Unidos ficaram passivos politicamente durante a administração Clinton, ignorando os clamores dos líderes democráticos venezuelanos por um auxílio na oposição às ações ilegais e anti-constitucionais do Sr. Chavez. Ignoraram também suas alianças públicas com os financiadores estatais do terrorismo. Por que a administração Bush não age antes que 20 anos de vitórias democráticas se percam na América Latina? Por que nada se faz antes que um vasto e novo flanco seja aberto pelo lado sul da ameaça terrorista, e nossa nação seja ameaçada por mais um regime radical anti-americano, com intenções de possuir armamento nuclear e mísseis balísticos?

Este desastre, tanto para a segurança nacional dos EUA quanto para os povos da América Latina, pode ser impedido se os nossos legisladores agirem com rapidez e decisão. Mas tem que ser agora. Os EUA e outras democracias devem dar atenção política e tomar atitudes. Isso inclui o encorajamento aos partidos pró-democracia no Brasil para que se unam um torno de um líder político capaz e honesto, que possa representar as esperanças da maioria dos brasileiros em uma autêntica democracia, e que tenha os recursos para montar uma efetiva campanha nacional.


Traduzido do original em inglês, publicado em 7 de agosto de 2002 no jornal conservador The Washington Times.

Homens que Vêem Mulheres como Objetos Sexuais

(Traduzido do artigo original do jornalista conservador americano Dennis Prager, publicado em 13/dezembro/2016: http://www.dennisprager.com/on-men-viewing-women-as-sex-objects/)

Tradução: André Carezia

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Minha última coluna levou o título de “Donald Trump é Misógino?” Depois que li as reações por toda a Internet, percebi a importância de elaborar melhor o assunto de como os homens vêem as mulheres.

A educação superior torna aqueles que freqüentam a universidade mais estúpidos, mais ingênuos, e muitas vezes até mais ignorantes a respeito da vida do que aqueles que nunca estiveram na faculdade. Uma das provas disso é a crença amplamente presente entre os mais educados de que quando os homens consideram as mulheres como objetos sexuais, isso significa que eles são misóginos, que odeiam as mulheres.

Eis então, para aqueles que têm um diploma em qualquer uma das “ciências sociais”, uma lista de oito verdades sobre os machos e a “objetificação” sexual:

  1. Para homens heterossexuais, é completamente normal ver como objetos sexuais as mulheres pelas quais se sentem sexualmente atraídos.

  2. Uma das provas de que tal “objetificação” sexual é normal, e nada tem a ver com a misoginia, é o fato de que os homens homossexuais vêem como objetos sexuais os homens pelos quais estão sexualmente atraídos. Se os homens heterossexuais são misóginos, então os homens homossexuais odeiam os homens.

  3. Uma razão para isso é o poder quase ímpar que o visual tem de excitar sexualmente os homens. Os homens se excitam com o mero vislumbre do braço de uma mulher, do tornozelo dela, da panturrilha dela, da coxa e da barriga dela, mesmo sem olhar para o rosto dela. Essas pernas, panturrilhas, braços, etc, são objetos sexuais. É por isso que aparecem em inúmeros sites na Internet.

  4. Todo homem heterossexual normal, mesmo enxergando uma mulher como um objeto sexual, pode também respeitar completamente a mente dela, o caráter dela, e todo o resto que não é sexual nela. Os homens fazem isso o tempo todo.

  5. A maior parte das mulheres heterossexuais também vêem as mulheres sensuais como objetos sexuais, e elas dificilmente são misóginas. Pergunte à sua esposa ou namorada o que a excita mais: observar um homem se despir diante de uma platéia feminina, ou uma mulher se despir diante de uma platéia masculina.

  6. Um casal sortudo é aquele em que o homem consegue considerar sua parceira como objeto sexual. Quanto mais tempo um marido consegue tratar sua esposa, ao menos de vez em quando, como um objeto sexual, melhor é o casamento deles. Nem sempre é fácil ver como objeto sexual a mulher que você vê todo dia, a mãe de seus filhos.

  7. Todo o propósito da lingerie e de outros trajes sexuais é tornar a mulher um objeto sexual aos olhos de seu parceiro. Será que todas as mulheres que vestem lingerie, biquínis, uniformes de torcida, ou o que quer que seja que excita seus parceiros — e elas também, de preferência — odeiam as mulheres?

  8. Se o seu marido nega as afirmações acima, ele está mentindo. Ele tem medo de que você reaja irritada, ou que isso magoe seus sentimentos. Pode ser também que ele minta para si mesmo — afinal, ele também freqüentou a universidade e lê opiniões esquerdistas sobre a misoginia; e quer se um macho “iluminado”.

Que estes oito pontos tenham que ser escritos é um sinal dos tempos. A pergunta é: por que qualquer um desses pontos — conhecidos por quase todos os homens e mulheres que viveram antes dos anos 1960 — é controverso para tantas pessoas bem-educadas hoje em dia?

Resposta: o esquerdismo e sua ramificação, o feminismo.

O esquerdismo é em primeiro lugar uma negação da realidade.

Os esquerdistas negam a realidade por dois motivos.

Um é que o esquerdismo é uma religião (secular), e por isso tem dogmas que se sobrepõem à verdade.

O outro motivo é que a realidade é repleta de decepção e dor, e evitar a dor é o ímpeto psicológico central do esquerdismo. Isso explica os “quartos do pânico” infantilizantes que ficam nas instituições que a esquerda mais controla: as universidades. Esses quartos existem para proteger os ouvidos dos alunos contra idéias das quais discordam (lembre-se do primeiro motivo) e contra idéias que lhes causam dor.

Cite uma posição da esquerda, e em quase todos os casos você verá como exemplifica um desses motivos, ou ambos.

A realidade é que a natureza humana não é basicamente boa. Mas desde o iluminismo francês a esquerda vem afirmando que as pessoas são basicamente boas. Por isso os esquerdistas culpam a “pobreza” e o “racismo” pelos crimes violentos, mas não culpam o criminoso violento.

A realidade é que quanto mais elevado o salário mínimo, menos funcionários serão contratados. Mas devido ao dogma, a esquerda nega isso. (Em 1987, quando a seção de editorial do New York Times não era esquerda pura como é hoje, houve um editorial intitulado “O Salário Mínimo Correto: $0.00”.)

A realidade é que a palavra Islã significa “submissão”, mas esse significado conflita com a fantasia esquerdista de que todas as culturas são moralmente iguais. Assim, quase todos os professores e publicações esquerdistas afirmam que Islã significa “paz”. (Na medida em que se conecta com a palavra árabe para “paz” — “salaam” — é a paz que sobrevém depois de toda a humanidade se submeter ao Islã). A magnitude da negação da realidade esquerdista em relação ao mundo islâmico é aproximadamente igual ao volume de afirmativas que os esquerdistas fazem a respeito dele. (Assim foi que o governo Obama chamou de “violência no local de trabalho” o massacre de 13 pessoas em Fort Hood por um radical islâmico.)

Também é realidade, e não uma expressão de misoginia, que os homens vejam como objetos sexuais os objetos de seu desejo sexual. Mas isso é muito doloroso para as feministas e para outros esquerdistas. E viola a teoria feminista, que diz que os homens e as mulheres são essencialmente iguais, e que enxergar como objeto sexual uma mulher é misoginia.

Como conseqüência, a realidade é rejeitada.

Um pedido de desculpas para os católicos do passado

(Traduzido do artigo original publicado em 19/agosto/2016 na Crisis Magazine, em http://www.crisismagazine.com/2016/apology-catholics-past)

Autor: Timothy J. Williams

Tradução: André Carezia

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Ao dar aulas de literatura francesa e ocidental, eu noto às vezes a reação perplexa de algum estudante aos pensamentos dos escritores medievais. Os leitores novatos mergulham avidamente em um texto de francês antigo esperando descobrir um panegírico à vida católica, numa época em que a cristandade estava ainda quase toda unida, e a Igreja integrada em cada aspecto da sociedade. Entretanto, quando lemos os grandes poemas católicos daquela época, percebemos imediatamente que as pessoas da Idade Média não se viam como modelos de católicos vivendo em tempos de grande fé. Ao contrário, freqüentemente elas julgavam a sociedade como irremediavelmente corrupta, infiel, hostil às virtudes, e indigna do nome “cristã”.

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Um bom exemplo dessa atitude se acha no poema A Vida de Sto. Aleixo[1], do século XI. Qual século poderia ser mais católico que aquele em que vários milhares responderam com gritos de “Deus vult!” ao apelo do Papa Urbano II para pegarem em armas na defesa dos cristãos na distante Terra Santa? E de fato a Vida de Sto. Aleixo é uma obra rústica de hagiografia, bem edificante, mas com grande força emocional. Entretanto, as linhas iniciais desse poema são marcadas pelo menosprezo, beirando o desespero:

Bons fut li siecles al tens ancienor,
Quer feit i ert e justise ed amor
Si ert credance, dont or n’i at nul prot;
Toz est mudez, perdude at sa color:
Ja mais n’iert tels com fut als ancessors.

O mundo era bom antigamente,
Pois havia fé e justiça e amor,
De fato havia confiança, da qual agora não há nenhuma;
Tudo mudou, e perdeu seu fascínio:
Jamais será como foi para nossos antepassados.

Um mundo arruinado, desprovido até mesmo das virtudes cristãs mais básicas, sem nenhuma esperança de que os homens que virão serão de alguma maneira melhores. O sentimento expresso aqui é muito mais que uma nostalgia de uma “era dourada” perdida no tempo, uma idéia que assombra não apenas o pensamento católico, mas também os mais primitivos pensamentos pagãos, idéia essa que muitos apologistas cristãos interpretaram corretamente como a primeira memória, fraca e fugaz, que nossa raça tem do Éden. Não, este poema (e incontáveis outros da Idade Média católica) revela um profundo senso de angústia, de indignidade, de humildade.

Claro que é exatamente este sentimento que torna a Idade Média muito mais católica que a nossa era. Mais que o poder temporal dos bispos e papas; mais que os sublimes milagres em pedra branca e vitrais coloridos; mais que os antigos rituais e as orações solenes entoadas em linguagem venerável — o verdadeiro espírito católico da Idade Média se encontra no desejo intenso de cauterizar as maldades do dia, de recuperar a virtude perdida, de restabelecer a amizade com os santos.

Não se trata de idealizar ou romancear o senso moral da Idade Média. Não há necessidade de repassar as crueldades da vida medieval. Mesmo levando em conta que a propaganda sobre a “idade das trevas” exagera enormemente sua morbidez e ignorância, não há dúvida de que a vida medieval podia ser “pobre, obscena, brutal e curta” (parafraseando o super-maquiavélico Hobbes). O fato notável é que para muitas pessoas hoje, a obscenidade e a brutalidade são modos atraentes de vida, embora não admitidos como tal. É improvável ouvirmos alguém falar hoje como um personagem de um romance de Mauriac: “Você não acha que a vida de pessoas como nós é horrivelmente similar à morte?

Se a conduta das pessoas do século XI não era necessariamente melhor que a das pessoas do século XXI, pelo menos elas não se gabavam de sua superioridade moral. Os católicos que escreveram, entoaram e ouviram poemas como a Vida de Sto. Aleixo não falavam de maneira untuosa sobre viverem uma “nova primavera” da Igreja, declarando a si mesmos como uma força de “renovação” por meio de métodos iluminados de “nova evangelização”. Eles essencialmente rezavam para evitar as piores calamidades, que eles sabiam merecer devido à sua cultura de pecado. E davam graças ao Deus que pensou neles o suficiente para lhes dar um Filho divino e Sua Mãe como consoladores in hac lacrimarum valle.

Acima de tudo, por estarem ocupados contemplando suas próprias faltas, os católicos dessa época antiga não se empenhavam em lamentar publicamente os supostos pecados das outras pessoas, tipo de “confissão” que parece estar na moda em nossos tempos. Nos três últimos papados, pelo menos, nós vimos uma avalanche de desculpas, quase sempre em nome de católicos de uma época anterior, e sem o contexto histórico necessário para sabermos o sentido das ações ou omissões daqueles fiéis. O papa São João Paulo II pediu desculpas tão freqüentemente, e por uma variedade tão grande de ofensas, que há uma página inteira da Wikipedia[2] dedicada a apenas esse aspecto de seu pontificado (e a página está bem incompleta).

O papa Francisco elevou a novas alturas esse culto à “eorum culpa”, emitindo pedidos de desculpas com estranhas palavras e que condenam os cristãos pelas próprias coisas pelas quais são dignos de louvor na cristandade. Por exemplo, de acordo com o papa[3], os cristãos devem pedir perdão “ao pobre, à mulher explorada, [e] às crianças exploradas como trabalhadoras”, mesmo que, historicamente, nenhuma religião ou outra organização de qualquer tipo tenha algum dia feito mais pelo pobre, pelo explorado, pelas mulheres, e pelas crianças.

Em que consiste, em última análise, esta afeição por emitir pedidos de desculpas em nome de cristãos (e especialmente católicos) de outras épocas? Às vezes, eu me pergunto se esses gestos não são apenas um tipo daquela oração do fariseu, de auto-elogio e de ação de graças pela própria superioridade moral: “O fariseu, em pé, orava no seu interior desta forma: Graças te dou, ó Deus, que não sou como os demais homens: ladrões, injustos e adúlteros; nem como ali aquele publicano.” (Lc 18,11) (Coloque o prefixo “Re-” na última palavra, e voila!aggiornamento moral.)

Alguém consegue realmente imaginar um papa medieval emitindo tais pedidos de desculpas? Certamente que o papa Inocêncio III expressou seu choque e arrependimento pelo resultado horroroso da quarta Cruzada, lançada por ele, mas isso não é nem de longe a mesma coisa que pedir desculpas por cristãos cujos feitos conhecemos apenas através de textos históricos. Inocêncio III (escrevendo em 1205) deveria ter pedido desculpas também pelo assassinato de Hipátia, filósofa pagã do século V, por uma multidão desvairada de cristãos em Alexandria? Ora, o historiador cristão Sócrates de Constantinopla, contemporâneo dela, já tinha condenado os cristãos da época dele por aquele crime. E não esqueçamos que o incitamento de violência dos pagãos contra os cristãos era bem comum naquele tempo.

Se queremos emitir um pedido de desculpas, não o façamos em nome com católicos do passado. Vamos pedir desculpas em nosso nome às gerações futuras que nunca terão chance de existir, devido à indiferença de muitos católicos de hoje em relação ao crime de aborto. Acabamos de testemunhar um católico bem conhecido, senador Tim Kaine, recebendo uma ovação de pé[4] de seus paroquianos e um voto de aprovação moral de seu pároco, apesar do forte apoio de Kaine ao posicionamento mais pró-aborto que um partido político americano jamais teve. Embora alguns bispos[5] tenham se pronunciado contra os católicos votarem em políticos pró-aborto, o mais comum é que políticos como Kaine não sofram nenhuma consequência por sua colaboração com o mal total.

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Os católicos da Idade Média nunca entenderiam este paradoxo: esta profusão de desculpas conjugada com piedosa indiferença. Eles tinham o hábito de falar sem rodeios sobre o mal, e de encontrá-lo neles mesmos, ao invés de apontá-lo nos outros. Faríamos bem se seguíssemos a luz de seu exemplo, nós que vivemos na verdadeira idade das trevas da humanidade.

Notas:

[1] https://archive.org/details/laviedesaintalex00pariuoft

[2] https://en.wikipedia.org/wiki/List_of_apologies_made_by_Pope_John_Paul_II

[3] https://cruxnow.com/vatican/2016/06/26/pope-backs-apology-gays-says-not-just/

[4] http://www.lifenews.com/2016/07/29/catholic-church-gives-pro-abortion-tim-kaine-a-standing-ovation/

[5] http://www.lifenews.com/2016/04/27/catholic-bishops-pro-life-voters-must-not-support-pro-abortion-candidates/

Confissões de um Esquerdista Radical

(traduzido do capítulo 45 do livro “The Liberal Mind”, de Lyle Rossiter, 2006)

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“Em períodos críticos de minha infância, fui dolorosamente privado de amor, empatia, atenção e cuidado. Estas privações me fazem sentir ferido, necessitado, vazio, invejoso e irritado, mas eu tenho que fingir que não tenho essas emoções. Quando eu era pequeno, eu implorava, exigia e chorava para conseguir o que eu queria. Eu ainda quero agir assim, mas corro o risco de me sentir humilhado se o fizer. Não importa o que faço, eu nunca acho que tenho o suficiente do que preciso. Isso é uma injustiça terrível, e por causa dela eu creio ser uma vítima. Não sou paranóico por acreditar nisso; minha falta de confiança é realista. Mas sentir-me necessitado, invejoso e desprovido me deixa também deprimido e sem esperança. Certas horas eu me sinto também em pânico e com ódio. Eu sei que certas pessoas vão me maltratar, como fui maltratado na infância. Sinto-me profundamente magoado e irritado com os maus tratos que sofri nas mãos de vilões do passado e do presente.

“Para me defender contra essas situações, eu tenho que culpar certos indivíduos e grupos por meus problemas, e tenho que fazê-los dar a mim o que quero. Odiando-os por serem grosseiros, cruéis e egoístas, e tirando deles aquilo que têm, eu posso expressar minha ira e me sentir seguro, dono da verdade e poderoso. Culpar e odiar os outros ajuda a me afirmar como vítima, e a ver os outros como vilões aos quais posso punir enquanto tiro deles o que têm. O que eles têm são certos bens, serviços e posições aos quais tenho direito mas ainda não recebi. Para pôr fim a essa injustiça, usarei o poder do Governo para conseguir o que quero. Então deixarei de me sentir necessitado, invejoso e irritado. Não terei mais que implorar, pedir, manipular ou intimidar, porque o Governo vai fazer tudo isso por mim.

“O fato de o Governo poder tomar as coisas dos outros e dá-las a mim é, em si mesmo, gratificante. Preciso ter esse poder sobre os outros para que eu não me sinta desamparado, como eu sentia quando criança. O poder de tomar as coisas dos outros também me permite obter vingança pelas injúrias que suportei, e me permite deixar de sofrer. Além do mais, ganhar coisas satisfaz minha ganância. E eu sou mesmo ganancioso e invejoso, devido às privações que sofri na infância, mas não admito isso nem a mim mesmo nem aos outros. Ao invés disso, eu finjo que não sou invejoso, e nego veementemente ser ganancioso. Disfarço minhas exigências cobiçosas chamando-as de direitos. Os direitos são bens que alguém deve me proporcionar, porque eu os mereço; não devem me ver como ganancioso e ambicioso, mesmo eu sendo essas coisas. Minha razão para eu ter aquilo que os outros têm é minha necessidade legítima. Os esforços deles para manterem o que têm são sua avareza egoísta. Desse modo, eles são os gananciosos, não eu. Além do mais, eles merecem perder o que têm, já que eles tomaram as coisas dos outros. Estas opiniões me ajudam a fingir que não sou invejoso, nem cobiçoso, nem vingativo.

“Eu e outros como eu que somos necessitados, irritados e invejosos rejeitamos quaisquer regras que exigem que mereçamos o que temos. Para conseguir aquilo que é essencial numa boa vida, não deveríamos ter que fazer nada além do que já fizemos. Todos nós já sofremos bastante. Merecemos ser compensados sem mais fardos. As privações que sofremos no passado são o que nos torna dignos de direitos, no presente e no futuro. O simples fato de estarmos vivos e de termos padecido tantas provações, é suficiente para termos direito a benefícios gratuitos. Na verdade merecemos muito mais do que o essencial para uma boa vida, de modo a compensar as adversidades do passado. Por estes motivos, os direitos tradicionais de propriedade não devem impedir a satisfação de nossos direitos. Nós, as vítimas, devemos ter acesso desimpedido às riquezas, poderes e posições dos outros. Não aceitamos a primazia dos direitos de propriedade na proteção da liberdade ordenada, nem achamos que a liberdade individual é um ideal justo. Nossos direitos positivos de termos nossas necessidades satisfeitas e nossas injúrias compensadas são muito mais importantes do que os direitos básicos de propriedade ou a liberdade individual. Ademais, não reconhecemos a soberania das outras pessoas. Não reconhecemos o direito de serem deixados em paz. Nossos direitos são mais importantes do que os alegados direitos dos outros viverem as próprias vidas. Já que sofremos certas injustiças na infância, nós temos certas reivindicações legítimas às outras pessoas, à guisa de reparação. O fato de que as pessoas às quais fazemos estas reivindicações neguem qualquer papel causal nas injustiças que sofremos, passadas ou presentes, é irrelevante. Temos o direito de obter aquilo que é devido a nós por qualquer um que tenha os meios de provê-lo. Por conseguinte nós, os sem-qualquer-coisa, temos direito ao tempo, aos esforços, aos talentos e ao dinheiro daqueles que têm mais do que nós.

“Ver a mim mesmo como vítima inocente da injustiça, e ver os outros como vilões cruéis, gananciosos e mesquinhos, é meu jeito de me relacionar com o mundo. Posso me unir a outros que se sentem como eu me sinto, e este tipo de relacionamento preenche uma parte do vazio e acalma parte da insegurança que vem de minha infância. É especialmente importante que nessa união eu me sinta ligado a algo e a alguém. Estar conectado desse jeito me deixa seguro e tranqüilo, e reduz minhas ansiedades em relação à vulnerabilidade, ao desamparo, à separação e ao abandono que ficaram de minha infância. Eu também posso conseguir simpatia e piedade pelo meu sofrimento; isso me ajuda a compensar a falta de ternura que experimentei quando criança. De fato, minha união com outras vítimas de vilões cria uma família de sofredores e uma confederação de vítimas com as quais consigo me identificar. Todos nós vemos a nós mesmos como nobres mártires unidos em nossas dores, em nossa inveja, em nossa auto-piedade e em nossa piedade mútua. Unimo-nos também em nossa ira e ódio pelos vilões de nossas vidas, passados e presentes. Com isto, sinto-me justificado ao agir com raiva e de maneira destrutiva contra os vilões. Além do mais, quando vejo que meus problemas são causados pelos outros, eu posso ser odioso e vingativo com eles, evitando assim odiar e punir a mim mesmo.

“O jeito com que vejo as vítimas e os vilões me permite entender a condição humana. O mundo consiste de pessoas inocentes que sofrem e de pessoas cruéis que fazem os primeiros sofrerem. Nós que sofremos não somos de nenhum modo responsáveis por nosso sofrimento. Nossa dor nunca é provocada por nossos próprios erros, sejam de ação ou de omissão. Nossa dor é causada por pessoas egoístas e mesquinhas, e por instituições malvadas como o capitalismo, que permite que pessoas ricas e poderosas explorem as minorias pobres e fracas. Tendo esta visão de mundo, consigo me convencer de que a minha desconfiança do mundo não é um legado neurótico de minha infância, nem uma distorção paranóide da realidade. É uma percepção perfeitamente natural e precisa do aterrorizante estado das relações humanas. Os únicos pontos luminosos neste mundo infeliz são os esquerdistas radicais modernos. Se aparecer a oportunidade, estes homens e mulheres heróicos conseguirão: derrotar os vilões de nossas vidas; deixar-nos seguros e tranqüilos; unir-nos em zelo amoroso uns pelos outros; e satisfazer nossa vontade de depender de líderes poderosos.

“Se puderem conquistar um poder político suficiente, nossos líderes esquerdistas radicais criarão uma sociedade utópica. Na verdade, o moderno Estado-Mamãe é a mãe idealizada de meus sonhos, um benfeitor onipotente com poderes mágicos para acabar com o sofrimento humano. Eu encaro essa entidade como uma criança que adora sua mãe amorosa, como um adolescente que idolatra uma estrela de rock, como um fiel que venera a divindade. Sob o moderno Estado-Mamãe eu não temo nenhum mal, porque o Governo elimina todas as privações, satisfaz todas as vontades, repara todas as injustiças. Isto é o espírito do mundo de Hegel. Ele não somente cria o contexto das relações humanas, mas é a realidade final das relações humanas. Em uma fusão mística com esse espírito, vou experimentar a unidade do cidadão e da sociedade, a conexão de todos com todos, a abolição da separação, e o fim da alienação em toda a existência humana. Não mais me sentirei solitário ou abandonado; minha angústia existencial se dissolverá em uma comunhão com o coletivo. Pertencerei a todos e todos pertencerão a mim. Estarei finalmente seguro, finalmente serei livre de necessidades, livre de desconfiança. Nessa minha fusão com o estado grandioso, alcançarei não apenas a segurança da confiança básica; sentirei-me conectado à própria alma da humanidade. Além do mais, em minha campanha coletiva contra o individualismo, alcançarei corroboração, vingança e significado. Minhas paixões serão finalmente justificadas na nobre guerra contra o egoísmo. Minha vida terá verdadeiro significado em uma campanha histórica contra o mal.”