Tirania e abuso sexual na Igreja Católica: uma tragédia jesuíta

Autor: John R. T. Lamont[*]
Tradução: André Carezia

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1830

Em vista das novas revelações sobre abusos sexuais na Igreja, muitos católicos querem saber como é possível que a situação mostrada por essas revelações viesse a se instalar. A primeira pergunta já vem de longa data: por que os bispos, ao invés de remover os predadores sexuais de seus ministérios, escondem os seus crimes e transferem-nos para novos postos? Nenhuma resposta satisfatória foi dada a esta questão ainda. E agora ela se tornou mais grave por causa de uma segunda pergunta: como é que nomeiam Theodore McCarrick arcebispo de Washington e cardeal, e ainda o fazem planejador-mor da política de abuso sexual dos bispos americanos em 2002, sendo que o seu envolvimento nos abusos sexuais era amplamente conhecido nos círculos clericais e já tinha sido levado ao conhecimento da Santa Sé?

Estas coisas não acontecem por causa da lei da Igreja. Até o dia 27 de novembro de 1983, a lei em vigor na Igreja Latina era o Código de Lei Canônica de 1917. O cânon 2359 deste código, no parágrafo 2, decretava que se os clérigos cometessem, com menores de 16 anos, uma ofensa ao sexto mandamento do decálogo, eles deveriam ser suspensos, declarados infames, destituídos de qualquer cargo, benefício, dignidade ou posto que ocupassem; nos casos mais sérios deveriam ser laicizados.

Este cânon foi substituído pelo cânon 1395 do código de 1983, que no parágrafo 2 declara: ‘o clérigo que de outro modo tenha cometido delito contra o sexto mandamento do Decálogo, […] com menor abaixo de dezesseis anos, seja punido com justas penas, não excluída, se for o caso, a demissão do estado clerical.’ O código de 1983 trata os crimes do tipo cometido pelo cardeal McCarrick no cânon 1395, parágrafo 2: ‘O clérigo que de outro modo tenha cometido delito contra o sexto mandamento do Decálogo, se o delito foi praticado com violência, ou com ameaças, ou publicamente, ou com menor abaixo de dezesseis anos, seja punido com justas penas, não excluída, se for o caso, a demissão do estado clerical.’ Esses cânones não dispõem essas punições como opcionais; eles obrigam que tais crimes sejam punidos pela autoridade eclesiástica. A pergunta então agora é outra: por que as autoridades eclesiásticas violaram a lei e não cumpriram esses cânones?

Sem dúvida uma porção de fatores se juntou para produzir esta situação desastrosa. Um fator, porém, não foi ainda amplamente discutido ou compreendido, mesmo tendo um efeito primário na geração da situação escandalosa que ora prende a nossa atenção. Tal fator é a influência dentro da Igreja de um conceito de autoridade como uma forma de tirania, ao invés de se basear na lei e de ser constituída por ela. Este ensaio apresenta a natureza desse conceito, descreve como ele veio a se tornar influente, e explora alguns de seus resultados mais significativos.

As origens intelectuais desse conceito de autoridade e obediência se encontram principalmente na teologia e filosofia nominalista. Guilherme de Ockham, notoriamente, tomou partido de um dos lados do dilema de Eutífron ao afirmar que as ações boas são boas simplesmente por serem ordenadas por Deus, e que Deus poderia tornar bons a idolatria, o homicídio, a sodomia, e mau o abster-se dessas ações, se Ele ordenasse que elas fossem praticadas. Este conceito de autoridade divina dá força a uma compreensão tirânica da autoridade em geral: ela se basearia na vontade arbitrária daquele que detém o poder, ao invés de se basear na lei.

Uma compreensão da autoridade baseada na lei, por outro lado, sustenta que a lei derivada da natureza do bem é que é a fonte da autoridade de um líder, e delimita a esfera na qual um líder pode emitir ordens. Os estudiosos há muito tempo sabem que o domínio do pensamento nominalista no século quatorze deixou marcas no pensamento católico por vários séculos; importantes teses nominalistas permaneceram incrustadas mesmo em estudiosos que se acreditavam defensores das tradições anti-nominalistas. A natureza da autoridade era uma dessas teses. Todos os teólogos e filósofos católicos durante a contra-reforma sustentavam que a obrigação moral e legal devia ser compreendida como conseqüência da ordem de um superior; [Francisco] Suárez, caracteristicamente, descrevia a lei como ‘o ato pelo qual um superior deseja obrigar um inferior a desempenhar uma ação específica.’

Um dos principais objetivos da contra-reforma era a restauração da disciplina entre os clérigos e os religiosos. As teorias sobre a lei e a autoridade que guiaram essa restauração se distinguiam da posição puramente nominalista, mas estas distinções se perderam quando os princípios práticos de treinamento em obediência foram concebidos. Estes princípios incorporaram uma compreensão tirânica da autoridade, e uma compreensão servil da justa obediência, no sentido de que consistiam na total submissão à vontade do superior. A mais influente formulação destes princípios aparece nos escritos de Santo Inácio de Loyola sobre a obediência. Os elementos centrais da noção de autoridade inaciana são os seguintes:

  • A mera execução da ordem de um superior é o grau mais baixo de obediência, e não merece o nome de obediência, nem constitui um exercício da virtude da obediência.
  • Para que mereça ser chamado de virtude, um exercício de obediência deve alcançar o segundo grau da obediência, que consiste em não apenas fazer o que o superior ordena, mas conformar a vontade à do superior; assim, não apenas se deseja obedecer uma ordem, mas se deseja que aquela ordem específica seja dada – simplesmente porque o superior a deseja.
  • O terceiro (e mais elevado) grau de obediência consiste em conformar não apenas a vontade mas também o intelecto à ordem do superior; assim, não apenas se deseja que a ordem seja dada, mas em verdade se acredita que a ordem é a ordem certa a ser dada, simplesmente porque o superior a deu. ‘Aquele que visa a fazer uma completa e perfeita oblação de si mesmo deve oferecer, além da sua vontade, o seu entendimento; este é o grau seguinte e o mais elevado da obediência. Ele não deve somente desejar, mas deve pensar igual ao superior, submetendo seu julgamento ao do superior, tanto quanto uma vontade devota pode subjugar o entendimento.’
  • No grau mais elevado e meritório da obediência, o fiel não tem mais vontade própria (ao obedecer) do que um objeto inanimado. ‘Todos aqueles que vivem sob obediência devem se permitir ser levados e dirigidos pela divina providência, através da influência do superior, como um corpo sem vida se permite ser levado a qualquer lugar e ser tratado de qualquer maneira; ou como se ele fosse a bengala de um homem idoso que serve em qualquer lugar e é usada da maneira que o seu portador deseje usar.’
  • O sacrifício da vontade e do intelecto que está envolvido nesta forma de obediência é a forma mais elevada de sacrifício possível, já que ela oferece a Deus as faculdades humanas mais elevadas: o intelecto e a vontade.

É preciso dizer que o exercício prático da autoridade de Santo Inácio não estava de acordo com os seus próprios escritos. Ele tinha o costume de enviar jesuítas em missões independentes nas quais eles precisavam ter iniciativa própria. Se interpretados de modo literal, os seus escritos não poderiam ser aplicados nestas situações, já que o superior não estaria ali para dar as ordens às quais se devia esse tipo de obediência.

Podemos explicar a contradição entre teoria e prática pela influência que em Sto. Inácio tiveram as idéias filosóficas e teológicas aceitas em sua época, e pelos objetivos que queria atingir com seus ensinamentos sobre a obediência. Sua doutrina a respeito da obediência foi planejada para proporcionar um treinamento básico em disciplina, do tipo praticado pela profissão militar da qual ele tinha feito parte. Este treinamento também foi planejado para, depois de completado, assegurar que os jesuítas em missões independentes internalizassem o objetivo que seus superiores tinham mandado cumprir, de modo que pudessem levar a cabo, corretamente e de todo o coração, as missões que lhes tinham sido confiadas. Santo Inácio, porém, não tinha a intenção de dar aos superiores um controle totalitário sobre todos os pensamentos e ações de seus subordinados.

Infelizmente, aqueles que interpretaram as suas obras leram os seus escritos de maneira literal, e até lhe deram crédito por defender um controle totalitário desse tipo como o modelo de autoridade religiosa. Algumas apresentações de seus ensinamentos descreveram como algo especialmente elevado e digno de nota obedecer uma ordem sobre a qual paira a suspeita – mas não a certeza – de ser imoral. Esta declaração sobre os méritos excepcionais da obediência às ordens moralmente duvidosas é feita por Santo Inácio em sua carta 150. A carta foi escrita na realidade a pedido dele pelo seu secretário Pe. Polanco; mas já que foi enviada com a assinatura de Santo Inácio, se beneficiou da sua autoridade.

O desenvolvimento pleno de um conceito tirânico da autoridade religiosa e de um conceito servil da obediência encontra-se em Ejercicio de Perfección y Virtudes Cristianas, de Alonso Rodriguez, S.J. Esta obra, o manual de teologia ascética mais lido durante a contra-reforma, foi publicado em 1609. Foi leitura obrigatória para os noviços jesuítas até o Concílio Vaticano II. O conteúdo dele era aceito como a interpretação correta dos ensinamentos de Santo Inácio sobre a obediência. No exame de consciência que propõe, o Pe. Rodriguez (não confundir com Santo Alfonso Rodriguez) exige que o penitente:

  • Obedeça com a vontade e com o coração, tendo uma só intenção e determinação: a mesma do superior.

  • Obedeça também com o entendimento e com o julgamento, adotando a mesma visão e o mesmo sentimento do superior, sem dar lugar a qualquer juízo ou razão para o contrário.

  • Assuma a voz do superior… como a voz de Deus, e obedeça ao superior, quem quer que seja, como a Cristo Nosso Senhor, fazendo o mesmo em relação às autoridades subordinadas.

  • Siga o preceito da obediência cega: que obedeça sem questionar ou examinar, nem buscar motivos para os porquês, considerando como razão suficiente o fato de ser obediência e de ser a ordem do superior.

Rodriguez louva a obediência – do jeito que ele a entende – em termos reveladores:

Um dos maiores confortos e consolos que nós temos na religião é este: o de que, se fizermos o que manda a obediência, estaremos seguros. O superior é que pode se enganar ao ordenar isto ou aquilo, mas você tem a certeza de não estar errado ao fazer o que lhe ordenam, porque a única conta que você deve prestar a Deus é a de ter feito tudo o que lhe ordenaram; com isto a sua prestação de contas estará cumprida a contento diante de Deus. Você não precisa justificar que a coisa ordenada era uma coisa boa, ou que alguma outra coisa teria sido pior; isto não lhe pertence, mas pertence à prestação de contas do superior. Quando você age sob obediência, Deus tira dos seus livros e coloca nos livros do superior.

Rodriguez, assim como outros autores, abre aquela costumeira exceção: não é preciso obedecer ordens manifestamente contrárias à lei divina. Entretanto, já foi observado que a doutrina jesuítica do probabilismo tende a anular esta exceção. De acordo com esta doutrina, não é pecado fazer qualquer ação que uma autoridade respeitável declare ser permitida; e o superior religioso de alguém geralmente conta como autoridade respeitável. Além disto, há um dado psicológico que tende a tornar ineficaz esta exceção. É difícil internalizar e praticar esta noção de obediência; requer tempo, motivação e esforço. Depois de ser executada com sucesso, tem um efeito duradouro. Uma vez que alguém tenha destruído a capacidade de criticar as ações de seus superiores, não consegue mais ressuscitar esta capacidade e exercê-la à vontade. Seguir a diretriz de recusar obediência ao superior, quando suas ordens são manifestamente pecaminosas, se torna então psicologicamente difícil e até mesmo impossível – exceto talvez nos casos mais extremos, como no caso de uma ordem para assassinar alguém, mas este já não é o tipo de ordem ilícita que os superiores religiosos têm interesse em dar.

Este conceito de obediência não se limitou a ser uma peculiaridade da Sociedade de Jesus, mas veio a ser adotado pela Igreja da contra-reforma como um todo. Tornou-se predominante na nova instituição dos seminários da contra-reforma; o Tratado da Obediência do sulpiciano Louis Tronson colocou os ensinamentos e escritos de Santo Inácio no cume da doutrina católica sobre a obediência. A adoção deste conceito pelos sulpicianos foi especialmente importante por causa do seu papel central no treinamento de sacerdotes nos seminários a partir do século XVII. O conceito servil da obediência continuou sendo o padrão no século XX. Adolphe Tanquerey, em sua obra Précis de théologie ascétique et mystique, amplamente lida e traduzida (e, em vários aspectos, excelente), chegou a escrever que as almas perfeitas que atingem o mais alto grau de obediência submetem seu julgamento ao do superior, sem nem mesmo examinar as razões que ele tem para dar as ordens.

A abordagem jesuítica da manifestação da consciência contribuiu para inculcar uma compreensão totalitária da autoridade. Santo Inácio não somente encorajou mas exigiu a manifestação da consciência, e exigiu que a manifestação fosse feita ao superior religioso. A manifestação da consciência incluía ‘as disposições e desejos pela execução do bem, as paixões e tentações que movem a alma, as faltas mais freqüentemente cometidas… o padrão usual de conduta, afeições, inclinações, propensões, tentações e fraquezas.’ Ele exigiu que as manifestações fossem feitas a cada seis meses, e declarou que todos os superiores e até mesmo os seus representantes estavam qualificados para receber tais manifestações. Ao invés de restringir o propósito da manifestação da consciência ao bem-estar espiritual do manifestante, ele não apenas permitiu como exigiu que o superior usasse para propósitos administrativos o conhecimento obtido dos subordinados através da manifestação da consciência.

Não é preciso sublinhar o poder de presunção que esta prática dá ao superior religioso. As antigas ordens religiosas resistiram à introdução de uma manifestação de consciência compulsória no estilo de Santo Inácio, mas vários institutos religiosos modernos a adotaram. Os abusos de tal prática foram tão sérios que o papado teve afinal de aboli-la. Foi proibida pelo cânon 530 do Código de Direito Canônico de 1917 para todos os religiosos (os jesuítas, porém, através de um decreto do Papa Pio XI, receberam uma permissão especial para mantê-la). Nessa altura, entretanto, a prática já tinha tido vários séculos para deixar sua marca na compreensão da autoridade, nos modelos de comportamento, e na psicologia dos superiores e subordinados dentro da Igreja Católica.

Pode-se ver a novidade desta compreensão da obediência no contraste com a posição de Santo Tomás de Aquino. Santo Tomás considera que o objeto próprio da obediência é o preceito do superior (Summa Theologiae, IIa-IIae q. 104 a. 2 co., a. 2 ad. 3). O grau mais baixo de obediência de Santo Inácio, que ele não considera virtuoso, é considerado por Santo Tomás como a única forma de obediência. Ele sustenta que as formas supostamente mais elevadas de obediência de Santo Inácio nem sequer entram na categoria de virtude da obediência:

Diz Sêneca (De Beneficiis iii): Erra quem pensa que a servidão envolve o homem na sua totalidade. Pois a sua melhor parte está isenta dela; porquanto, ao passo que o corpo está adscrito e sujeito ao senhor, o espírito é livre. Portanto, no que respeita ao movimento interior da vontade, ninguém está obrigado a obedecer senão a Deus. (IIa-IIae q. 104 a. 5 co.)

Santo Tomás não considera que a obediência envolva o sacrifício da vontade enquanto tal. Em sua visão, a virtude da obediência envolve apenas o sacrifício da teimosia, definida como a adesão a objetivos contrários à nossa felicidade eterna. Rodriguez, porém, deixa claro que não é a teimosia, mas a própria faculdade humana da vontade que deve ser sacrificada por inteiro. Isto é um sacrifício no sentido de abandono e destruição, já que envolve eliminar o funcionamento da vontade do sujeito para entregá-la à vontade de um outro ser humano. Santo Tomás, além disto, não pensa na obediência como uma forma virtuosa de ascese pessoal. Ele não considera que obedecer uma ordem sem gostar dela seja melhor, em si mesmo, do que obedecer uma ordem cujo cumprimento nos deixa contentes.

Uma pessoa boa vai se alegrar no cumprimento de qualquer ordem apropriada, já que tais ordens concorrem para o bem comum. Ela não considera que todos os atos bons são motivados pela obediência a Deus, porque considera que há virtudes cuja prática antecede à obediência – a obediência religiosa pressupõe, por exemplo, a fé. Nem considera que a essência do pecado consista na desobediência a Deus, ou mesmo que todo pecado envolva o pecado da desobediência. Todo pecado envolve de fato uma desobediência às ordens divinas, mas esta desobediência não é desejada pelo pecador exceto se o pecado envolve uma vontade de desobedecer a ordem somada a uma vontade de fazer o ato proibido (IIa-IIae q. 104 a. 4 ad 3). A obediência é simplesmente um ato da virtude da justiça, que é motivada pelo amor a Deus no caso de ordens divinas e pelo amor ao próximo no caso de ordens de um superior humano. Estes amores são mais fundamentais e mais abrangentes do que a obediência.

O conceito de autoridade religiosa e obediência religiosa que se tornou dominante na Igreja a partir do século XVI foi então uma substancial inovação que se desviou da visão católica anterior. Acabou influenciando a Igreja através do treinamento fornecido nos seminários aos padres diocesanos, e através da abordagem disciplinar nas ordens religiosas. A vida cotidiana dos seminaristas e religiosos foi estruturada como um sem fim de regras a governar as minúcias dos comportamentos, e as atividades à margem dessa rotina só podiam ser executadas em geral com a permissão do superior. Tal permissão era arbitrariamente negada, de tempos em tempos, a fim de encorajar a submissão dos subordinados. Não se davam as razões para as ordens, e não se respondiam as perguntas a respeito das razões para as ordens.

Esta forma de encarar a autoridade teve efeitos daninhos ao clero e aos religiosos. A obediência servil, extraída dos subordinados à força, destruiu o vigor do caráter e a capacidade de pensamento independente. O exercício da autoridade tirânica por parte dos superiores produziu um orgulho arrogante e uma deficiência na auto-crítica. O fato de que todos os superiores começavam algum dia na posição de subordinados significava que a subida era mais fácil para aqueles que eram habilidosos nas artes do escravo – bajulação, dissimulação e manipulação.

Os leigos não podiam almejar subir na hierarquia eclesiástica, de modo que o efeito de se promover a compreensão servil da obediência religiosa foi infantilizá-los na esfera religiosa. Esta infantilização se observa na arte e na devoção religiosas, especialmente a partir do século XIX, e na propensão para a obediência cega ao clero. O resultado foi a dissociação entre a maturidade adulta e a crença religiosa, o que solapou entre os leigos a fé religiosa e o compromisso, contribuindo para a paulatina secularização das sociedades católicas.

Os efeitos desta concepção de obediência foram minimizados por alguns contrapesos. A lei canônica, a disciplina litúrgica, as regras das ordens religiosas, tudo isso continha prescrições detalhadas que limitavam o exercício tirânico da autoridade por parte dos superiores. A filosofia e a teologia escolásticas, a educação clássica, o requisito de proficiência no latim, isso tudo impunha padrões objetivos de conhecimento e de capacidade intelectual exigidos do clero. As escolas secundárias jesuíticas, de longe as mais importantes e bem-sucedidas do seu apostolado, eram governadas por um ratio studiorum formidavelmente desenhado: estabelecia em detalhes o que era para ser estudado, e como. Enquanto o conceito tirânico de autoridade foi contido por esses fatores, ele aleijou mas não matou a Igreja.

Um aspecto pérfido dessa concepção de autoridade é que, no início, ela foi um aparente sucesso. Foi usada para pôr fim às más condutas financeiras e sexuais do clero que colaboraram para gerar a Reforma, contribuindo, assim, para as brilhantes conquistas da Contra-Reforma. A situação da Igreja era similar àquela de Roma sob Augusto, ou àquela da França sob Luís XIV: a paz e a ordem produzidas pelo governo absolutista permitiram o florescimento dos talentos produzidos pela sociedade livre que havia antes do absolutismo. Ao se esgotar a herança da liberdade, e ao se sentirem os efeitos totais do absolutismo, esses talentos mingüaram. A constelação fulgurante de santos e gênios que iluminou a França católica do século XVII foi sucedida, no século XVIII, pelo fracasso e freqüente capitulação diante dos ataques anti-cristãos do Iluminismo.

Esta exposição da história e da natureza do conceito tirânico da autoridade na Igreja explica muitos aspectos da crise de abusos sexuais. Maturidade psicológica é algo necessário para resistir bem às tentações sexuais. A inculcação de uma compreensão servil da autoridade, por atacar esta maturidade, torna muito difícil a castidade. Num sistema de treinamento baseado na inculcação da obediência servil, as personalidades deformadas e inadequadas daqueles que são atraídos por atividades sexuais perversas não são identificadas. Pessoas assim geralmente são boas em servilismo e dissimulação. Elas se desenvolvem tremendamente num sistema baseado na obediência servil, ao passo que homens de inteligência e caráter sofrem com ele.

Os superiores não raciocinam que a sua própria autoridade está presa à autoridade da lei, e não se inclinam a respeitar e obedecer a lei enquanto tal. Eles têm um forte incentivo para encobrir abusos sexuais, porque a autoridade do clero sobre os leigos repousa sobre um conceito infantilizado de clérigos como figuras paternas divinizadas, incapazes de errar. Tal conceito é destruído quando delitos sérios são expostos publicamente. Os leigos que acreditam neste conceito são facilmente persuadidos ou intimidados a manterem sigilo sobre os casos de abusos sexuais que eles encontram. Num sistema tirânico, tanto os superiores quanto os subordinados são ensinados a idolatrar o poder e aqueles que o detém, e a desprezar os inferiores, os fracos e as vítimas. O resultado é a tendência de não sentirem simpatia pelas vítimas de abuso sexual, em particular as crianças. Sua simpatia é dirigida aos predadores, que exercem o poder tirânico na sua forma extrema. Todos esses fenômenos descritos acima já foram observados repetidas vezes nos casos de abusos sexuais que vieram à tona.

A infantilização gerada por essa compreensão da autoridade colaborou de várias maneiras para os abusos sexuais. Uma pessoa infantilizada não consegue exercer um julgamento independente, e não tem a capacidade de se defender ou defender os outros. As criancinhas não são capazes de compreender o mal, e não são capazes de admitir ou mesmo de entender que suas figuras paternas são malignas. Aqueles sacerdotes que levaram a sério a compreensão tirânica da autoridade, ao invés de se adaptar a ela para alcançar suas ambições e usufruir dos prazeres da tirania, ficaram então psicologicamente incapazes de se manifestar contra os abusos sexuais e de correr riscos para corrigi-los. Os ambiciosos não o fizeram porque não havia nisso nenhum proveito para eles.

Quanto aos leigos, a verdade nua e crua é que a maior parte dos abusos sexuais de crianças por padres aconteceram com a conivência dos pais dessas crianças. Sem esta conivência, o abuso sexual de crianças e adolescentes por padres nunca teria alcançado as proporções que alcançou. Observe este testemunho de “Tiago”, garoto abusado sexualmente repetidas vezes pelo cardeal McCarrick:

Tiago afirmou ter tentado, aos 15 ou 16 anos, contar ao seu pai sobre os abusos que estava sofrendo. Mas o padre McCarrick era tão amado pela sua família, disse ele, e considerado tão santo, que a idéia era incomensurável… Tiago disse que quando era menino ele não tinha nenhum lugar seguro para discutir o que estava acontecendo com ele. “Lugar nenhum. Lugar nenhum. Meu pai simplesmente não ouvia.” … “Tentei umas duas vezes com a minha mãe, mas ela dizia ‘você deve estar enganado.’ Meu pai nasceu em 1918, minha mãe em 1920. Cresceram acreditando que a Igreja Católica era tudo. Meu pai era um cara santo. Andava para lá e para cá com o terço na mão o dia inteiro. Meus pais eram muito santos, e os pais deles eram muito santos. Toda a idéia deles sobre a vida era assim.” [**]

Esta concepção errada de santidade não foi resultado da estupidez dos pais desse rapaz. Foi o que o clero lhes ensinou – seguindo uma concepção tirânica da autoridade. Resultou que foram incapazes de imaginar que padres podem ser maus – e ainda acharam que esta incapacidade era uma virtude e um dever religioso.

O caos que tragou a Igreja nos anos 1960 e 1970 provavelmente se deveu em grande parte à rebelião contra o exercício tirânico da autoridade que havia sido infligido aos clérigos e religiosos antes dos anos 60. Porém, assim como aconteceu com outras revoluções registradas na história, esta revolta contra a tirania não levou ao triunfo da liberdade. Ao contrário: ao destruir os elementos do ancien régime que tinha colocado limites ao poder dos superiores, gerou uma tirania ainda mais extensa e completa. Deu um fim nos fatores, listados acima, que tinham contrabalançado a influência do conceito tirânico da autoridade na Igreja da Contra-Reforma.

A facção progressista que assumiu o poder nos seminários e ordens religiosas tinha seu próprio programa e ideologia a demandar adesão total, e isto justificava suprimir brutalmente a oposição. As ferramentas de controle psicológico e de opressão que haviam sido aprendidas pelos progressistas durante a sua própria formação foram colocadas em pleno uso, e aplicadas de modo mais abrangente do que jamais tinham sido antes – sendo a diferença entre os dois regimes muito parecida com a diferença entre a Okhrana e a Cheka.

Uma parte da ideologia progressista era a falsidade e o malefício do ensinamento sexual tradicional católico; não é preciso elaborar os efeitos desta doutrina sobre a crise dos abusos sexuais. Mas seria um engano achar que o progressismo em si é responsável por esta crise, e que a sua derrota resolveria o problema. As raízes da crise vêm de muito antes, e exigem uma reforma nas atitudes para com a lei e a autoridade em todas as áreas da Igreja.


Notas:

[*] Artigo original publicado no site https://rorate-caeli.blogspot.com/2018/10/tyranny-and-sexual-abuse-in-catholic.html em outubro/2018.

[**] Testemunho original: https://www.theamericanconservative.com/dreher/uncle-ted-mccarrick-special-boy/

Sede da Sabedoria

Autor: Michael Hichborn
Tradução: André Carezia

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“Deus pode criar uma pedra tão pesada que nem Ele mesmo pode erguer?”, pergunta em sua essência uma antiga charada medieval.

À primeira vista a questão parece bastante absurda, pois afinal Deus é onipotente: Ele pode fazer qualquer coisa. Porém, quando consideramos as possibilidades, parece impossível responder afirmativamente à pergunta – por qualquer ângulo que se tente.

Deus pode criar qualquer coisa que deseje, de modo que é óbvio que Ele pode criar um objeto infinitamente pesado. Entretanto, Deus é também todo-poderoso, de maneira que Ele pode erguer qualquer coisa que crie. Portanto, qualquer que seja a resposta à questão, ou Ele não consegue criar a pedra, ou Ele não consegue erguê-la.

Ao longo dos séculos os filósofos tentaram encarar de frente a questão. São Tomás de Aquino afirma, por exemplo, que a origem do paradoxo é um mau entendimento ou um abuso da palavra “onipotência”. Na questão 25 da primeira parte da Suma Teológica, o Doutor Angélico diz:

As coisas, porém, que implicam contradição não constituem objeto da divina onipotência, por não poderem ter a natureza de coisas possíveis. Por isso, é mais conveniente dizer que não podem ser feitas, em vez de dizer que Deus não pode fazê-las. Nem isto vai contra as palavras do Anjo: Porque a Deus nada é impossível. Pois, o contraditório, não podendo ser conceito, nenhum intelecto pode concebê-lo.

Em outras palavras, uma contradição sempre implica uma impossibilidade, não importando se Deus é ou não o agente principal no experimento teórico proposto.

C.S. Lewis, ao invés de examinar a charada pelo critério lógico, enfrentou-o como um problema de definição. Em seu livro “A Grief Observed” [Uma Dor em Observação], Lewis escreveu:

Um mortal consegue fazer perguntas que Deus não pode responder? É bem fácil, eu diria. Todas as perguntas nonsense são irrespondíveis. Quantas horas há em um quilômetro? O amarelo é quadrado ou redondo? É provável que metade das questões que levantamos – metade de nossos grandes problemas teológicos e metafísicos – sejam assim.

O Natal já está aí às portas, e nós temos a chance de considerar a questão sob uma outra luz. Já peço desculpas a esses grandes pensadores maiores do que eu, mas humildemente venho aqui propor que não apenas Deus pode criar um objeto tão grande que não possa levantar, como já o fez.

Os grandes pensadores com certeza responderam à questão em seu valor de face, apontando a falta de sentido e de lógica que ela contém. Entretanto, com alguma compreensão das duas naturezas de Deus, notamos que há um elemento que não está sendo considerado.

A Santíssima Virgem Maria é o pináculo da criação de Deus, perfeita em todos os sentidos, sem mancha, e literalmente cheia da Graça Divina. Deus criou Maria para ser a ponte de perfeição entre Ele próprio e o homem. Sem a perfeição dela, não poderia haver uma passagem da divindade para a humanidade. E por meio do “faça-se” de Nossa Senhora, Deus se tornou homem: Nosso Senhor foi concebido em seu ventre.

Naquele exato instante, Nosso Senhor Bendito, que tem duas naturezas, se encontrava em total presença no ventre de Maria. Jesus é 100% Deus e 100% homem.

Sendo Deus, pelo poder do Espírito Santo, Ele se fez homem. E uma vez encarnado no ventre na Puríssima Virgem Maria, Ele se tornou completamente dependente dela para manter Sua vida e Seu sustento. Na verdade, depois de nascido, Ele não somente não podia erguê-la, mas pela primeira vez em toda a história humana, um ser humano foi capaz de olhar para BAIXO e ver o rosto de Deus.

Ao erguer o Cristo Menino para colocá-lo sobre seus joelhos, Nossa Senhora se tornou a Sede da Sabedoria.

Deus criou Maria… mas ao se fazer encarnado no ventre dela, Ele ao mesmo tempo criou algo (ou melhor, alguém) tão grande no tempo e no espaço, que nem Ele podia erguer.

(Traduzido do original publicado em 22/dezembro/2017 no “Catholic Week in Review”, boletim semanal do Instituto Lepanto.)

Santo Agostinho, Bispo e Doutor da Igreja

Autor: Dom Próspero Gueranger, in “O Ano Litúrgico”

Tradução: André Carezia

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A ALMA DOS SANTOS — “Quão admirável é Deus em Seus Santos!”[1] Esta exclamação do Salmo nos é sugerida pela liturgia quase todos os dias. Dentre todos os espetáculos oportunos para alegrar-nos e animar-nos, nenhum há que cause tanta admiração como a alma de um santo. “Que formosa é uma alma!”, dizia o santo Cura d’Ars; e santa Catarina de Gênova exclamou no dia em que recebeu do céu o favor de contemplar uma alma em estado de graça: “Senhor, se eu não soubesse que há um só Deus, creria que esta alma é um deus.” A Igreja se compraz em trazer à nossa memória a recordação dos santos, agrupar-nos junto a seus altares, expor suas relíquias para a nossa veneração, e propor-nos seus exemplos e conselhos. Neles, mostra-nos o que a natureza e a graça têm de mais elevado e mais suave, de mais misterioso e mais atraente.

agostinho

SANTO AGOSTINHO — É muito difícil comparar os méritos dos santos para averiguar quais são os maiores, e talvez seja preferível nem sequer tentá-lo. Contudo, não podemos deixar de reconhecer naquele que a Igreja celebra hoje “o homem que, unido ao corpo místico de Cristo por um milagre, provavelmente não teve nunca, a julgar pela história, em tempo algum e em povo algum, outro que lhe igualasse em grandeza e em sublimidade.”[2]

É destes homens suscitados por Deus para que, com seu talento superior e com suas obras, adaptando-se às necessidades de sua época e de todos os tempos, fortaleçam e continuem sustentando o povo cristão, sobretudo quando o poder das trevas se apresenta mais ameaçador e o erro se propaga com maior facilidade. “É, dizia Leão XIII, um talento vigoroso que, dominando todas as ciências humanas e divinas, combateu todos os erros de seu tempo;”[3] e se a autoridade de sua palavra não pode se colocar acima da autoridade da Igreja docente, sabemos ao menos que “a Igreja romana segue e conserva a doutrina de Santo Agostinho.”

O AMANTE DA SABEDORIA — Santo Agostinho é, em primeiro lugar, o amante da Sabedoria, a qual é Deus: “Ama somente Ela, por Ela mesma, e unicamente por Ela ama o descanso e a vida.[4] Ouçamo-lo por um momento a desafogar seu coração, que foi objeto de tão grande misericórdia: ‘Tarde Te amei, beleza tão antiga e tão nova, tarde Te amei!’ E Tu estavas dentro de mim e eu fora, e por fora Te buscava…[5] Perguntei à terra e ela me disse: ‘Não sou eu aquele que tu buscas’; e todas as coisas que nela há me confessavam o mesmo. Perguntei ao mar e aos abismos e aos répteis de alma viva, e me responderam: ‘Não somos teu Deus; busca-O acima de nós.’ Interroguei o ar que respiramos, e o vento, com seus moradores, me disse: ‘Engana-se Anaxímenes, eu não sou teu Deus.’ Perguntei ao céu, ao sol, à lua e às estrelas: ‘tampouco somos nós o Deus que buscas’, me responderam. Disse então a todas as coisas que estão fora das portas de minha carne: ‘dizei-me algo de meu Deus, já que vós não O sois; dizei-me algo dEle.’ E exclamaram todas com grande voz: Ele nos fez[6]. Se houvesse alguém no qual silenciasse o tumulto da carne; e silenciassem as imagens da terra, da água e do ar; e silenciasse o próprio céu, e ainda a própria alma silenciasse e se elevasse acima de si, sem pensar em si; se silenciassem os sonhos e revelações imaginárias; e se, enfim, silenciasse por completo toda língua, todo sinal e tudo quanto sucede, posto que todas estas coisas dizem a quem lhes dá ouvidos: ‘Não nos fizemos a nós mesmas, mas Aquele que permanece eternamente foi quem nos fez’; se, dito isto, silenciassem e voltassem o ouvido Àquele que as fez, e somente Ele falasse, não por elas, mas por Ele mesmo, de modo que ouvissem Sua palavra, não por língua de carne, nem por voz de anjo, nem por som de nuvens, nem por enigmas de semelhança, mas sim que O ouvíssemos a Ele mesmo, a quem amamos nestas coisas, a Ele mesmo sem elas, como no presente nos elevamos e tocamos rapidamente com o pensamento a eterna Sabedoria, que permanece sobre todas as coisas; se, por último, este estado continuasse e fossem afastadas dEle as demais visões de índole muito inferior, e estas somente arrebatassem, absorvessem e confundissem os gozos mais íntimos de seu contemplador, de modo que a vida eterna fosse qual este momento de intuição pelo qual suspiramos, não seria isto o Entrar no gozo de teu Senhor[7]? Chamaste e clamaste, Senhor, e rompeste minha surdez; brilhaste e resplandeceste, e afugentaste minha cegueira; exalaste Teu perfume e respirei, e suspiro por Ti; gostei de Ti, e sinto fome e sede; tocaste-me, e me abrasei em Tua paz. Quando me unir a Ti com todo meu ser, já não haverá mais dor nem esforço para mim.”[8]

O DOUTOR DA IGREJA — Por muito tempo, Agostinho foi escravo das concupiscências e das paixões de seu coração; por muito tempo sua inteligência esteve presa pelos horrores maniqueístas, e muito lhe custou romper também estes laços e voltar a falar a verdade da Igreja católica. Porém, uma vez convertido, empreendeu resolutamente a ofensiva contra o erro. Vinha no rastro dos célebres doutores Clemente de Roma, Irineu, Hilário, Atanásio, Ambrósio, Basílio, João Crisóstomo; mas são seus ensinamentos orais e escritos ao longo de quase meio século que mais nos admiram.

Declara-se inimigo do maniqueísmo, do qual em outros tempos fora apóstolo convicto, e reduz a nada essa estranha heresia, que, para explicar a existência do mal, havia imaginado divinizá-lo e colocá-lo contra o Deus bom. Nesta luta, entretanto, Agostinho mostra sua alma repleta de mansidão para com aqueles com quem compartilhou tanto tempo a mesma ilusão: “Que sejam severos convosco os que não sabem quão raro é, e quanto custa, chegar a superar com a serenidade de uma alma piedosa os fantasmas dos sentidos. Mostrem-se duros os que ignoram com que trabalho se cura o olho do homem interior, para olhar para seu sol, o sol de justiça; os que não sabem com que ânsias e com que gemidos se chega a entender um pouco de Deus. Tolero, enfim, a intransigência daqueles que jamais conheceram tal sedução como a que vos faz viver equivocados… De minha parte, de modo algum serei exigente convosco, porque, além do meu espírito procurar fantasias fúteis que lhe arrastaram para todo lado, eu tomei parte nessa vossa miséria, e tive que chorar muito.” [9]

Era-lhe mais agradável demonstrar aos homens seu fim último e o único meio de conseguir a bem-aventurança, como o faz nesta famosa oração: “Fizeste-nos para Ti, ó Deus meu, e nosso coração está inquieto até que descanse em Ti;” [10] e recordar-lhes que inutilmente tentariam alcançar o céu sem a submissão e a obediência que se devem à Igreja católica, que é a única instituída por Deus para levar às almas a luz e a força. O próprio santo tinha supremo empenho em submeter-se à autoridade da Igreja docente, convencido de que, enquanto assim agisse, não se afastaria nem um milímetro da verdadeira doutrina.

De modo especial, agrada-lhe defender a natureza da graça, já que sabe muito bem quanto deve a ela. Sua oração preferida: “Senhor, concede-me o que ordenas, e ordena o que queres”[11], feria o orgulho do monge Pelágio, para quem a natureza era onipotente para fazer o bem, e se bastava totalmente para a salvação, posto que o pecado original não a havia modificado. Fez um estudo sobre a graça, tão completo e perfeito, que passou a ser chamado de “Doutor da Graça”; estudo que os escritores católicos, dali em diante, passaram a consultar ao tratarem desse tema, para, seguindo seus ensinamentos e os ensinamentos da Igreja, verem-se livres de cair em erro.

O ENSINAMENTO DE SUA VIDA — Há, entretanto, outro ensinamento que Agostinho dava aos fiéis: o de sua vida virtuosa. Posídio, seu primeiro biógrafo, assegurava que “os que puderam vê-lo e ouvi-lo pregar na igreja, e sobretudo os que desfrutaram de suas conversas, tiraram muito proveito. Porque não somente era um sábio nas coisas do reino dos céus, mas era daqueles de quem havia dito o Salvador: aquele que praticar e ensinar aos homens desta maneira, este será grande no reino dos céus.” Buscou ardorosamente a caridade como a mais nobre das virtudes, e cultivou-a com tal constância que lhe valeu ser representado com um coração de fogo na mão; sua alma, por vezes, voltava-se a Deus, como ele mesmo nos contou no famoso episódio do êxtase de Óstia. É que se entregava sem interrupção a contemplar a vida de Cristo; além disso, esforçava-se para reproduzir em si o modelo divino, devolvendo amor por amor, como ele aconselhava às virgens: “Esteja gravado em vosso coração Aquele que por vós foi cravado na cruz.”

AS PROVAS — Não podia faltar a provação de dor a esta grande alma. Nem devemos imaginar o santo em amena meditação, ou escrevendo na paz de uma singela cidade episcopal, escolhida para tal pela Providência, essas obras preciosas cujos frutos o mundo colheria até nossos dias. Nesta vida não há fecundidade sem padecimento, sem tribulações públicas ou privadas, sem sacrifícios conhecidos por Deus ou pelos homens; quando, ao ler os escritos dos santos, brotam em nós piedosos pensamentos e resoluções generosas, não devemos nos contentar, como se fossem livros profanos, em render um tributo de admiração ao gênio de seus autores; devemos, ao contrário, pensar ainda mais em quanto lhes custou esse bem sobrenatural que produzem em nossas almas. Antes de Agostinho chegar a Hipona, os donatistas já eram tal maioria que o santo conta que se valiam disso até para proibir assar pães para os católicos[12]. Quando o santo morreu, as coisas haviam mudado notavelmente; mas foi necessário que o pastor, colocando em primeiro lugar o dever de salvar a todo custo as almas que se lhe haviam confiado, gastasse seus dias e suas noites nesta obra essencial, correndo mais de uma vez o feliz perigo do martírio[13]. Os chefes dos cismáticos, temendo mais a força de seus argumentos do que sua eloqüência, negavam-se a disputar com ele, e haviam tornado público que matar Agostinho seria uma obra louvável, merecedora do perdão de todos os pecados de quem se comprometesse a levá-la a cabo[14].

“Rogai por nós”, dizia no início de seu ministério, “rogai por nós, que vivemos de maneira tão precária, entre dentes de lobos furiosos; ovelhas desgarradas, ovelhas obstinadas, que se aborrecem porque vamos atrás delas, como se seus extravios fizessem-nas não ser nossas.”[15]

SEU ZELO — E para com seu rebanho fiel, que abnegação e que bondade manifestava o Pastor! É uma delícia vê-lo em meio a seu povo, falando-lhe familiarmente, deixando-se cercar e cativar por ele. Sua porta sempre aberta a todos os que chegavam, atendia todo pedido, toda dor, todo litígio. Às vezes, ante a insistência das outras igrejas e dos concílios que reivindicavam seus trabalhos e conselhos, Agostinho e seus visitantes faziam um pacto que, por certo, durava muito pouco, porque sobretudo os pobres e os humildes sabiam que a vida e o coração do santo era para eles.

Seria preciso ler todas as suas obras, o relato de suas “Confissões”, seus sermões e suas homilias para chegar a compreender esta alma incomparável. Pio XI, ao encerrar a encíclica que dedicou a seu louvor, dizia que “sua vida e seus méritos, seu agudo talento, a amplitude e a profundidade de sua ciência, a sublimidade de sua santidade, a luta que teve que travar para defender a verdade católica, fazem com que não se possam encontrar, por assim dizer, outros homens, ou muito poucos a quem compará-lo, desde o princípio do mundo até hoje.”

A grandeza dos santos não se parece com a dos poderosos deste mundo; estes nos assustam e aqueles, ao contrário, nos atraem e nos infundem confiança. Não nos desanimam nem a sublimidade de seu talento, nem a santidade de sua vida, nem o rigor de sua penitência, nem o fogo de sua caridade. Pelo dogma da Comunhão dos Santos, sabemos que são nossos irmãos; e, por estarem próximos ao Senhor, parecem-se com Ele, participam de Sua ternura, de Sua benignidade, de Sua misericórdia. Deixaram-nos seus exemplos e seus ensinamentos, e agora oferecem sua oração e seus méritos para que, embora de longe, sigamo-los pelo caminho que leva a Deus. Tomara que cheguemos a nos unir intimamente e para sempre com este Deus, o qual Agostinho se lamentava “de haver conhecido e começado a amar demasiado tarde”!

VIDA — Agostinho nasceu em Tagaste, na Numídia, em 13 de novembro de 354, de pai pagão e de mãe cristã, Santa Mônica. De inteligência brilhante, estudou em Cartago, depois em Roma e em Milão, onde ensinou a retórica. Em sua juventude conheceu a desordem dos sentidos e caiu na heresia maniqueísta. Tocado porém pela graça obtida pelas orações e lágrimas de sua mãe Santa Mônica, iluminado pelos ensinamentos e conselhos de Santo Ambrósio, converteu-se e recebeu o batismo em 25 de abril de 387. Pouco depois chegou à África para ali praticar, com muitos outros discípulos, uma vida monástica totalmente dedicada à oração e ao estudo. Em 391 se ordenou sacerdote. Sua ciência, sua eloqüência, sua santidade, valeram-lhe para substituir Valério, bispo de Hipona. Durante cerca de quarenta anos se entregou ao ensino de seu povo, à conversão dos hereges e a escrever suas inumeráveis obras. Morreu em 430, quando os vândalos cercaram sua cidade.

SÚPLICA — Enfim, após doze séculos, voltamos a ver a Cruz na África tão querida, onde perecera até o nome de muitas igrejas florescentes em outros tempos. Queira Deus que a liberdade de que agora desfruta permita-lhe alcançar rapidamente seu triunfo sobre o Corão! Tomara que a nação que hoje protege teu solo natal possa sentir-se orgulhosa desta nova honra, e compreenda as obrigações que disso derivam!

Teus feitos, contudo, não se amorteceram no decorrer desta noite prolongada. Tuas obras imortais iluminaram as inteligências e despertaram o amor através do mundo inteiro. Nas basílicas atendidas por teus filhos e imitadores, o esplendor do culto divino e a perfeição das santas melodias mantiveram no coração dos povos a alegria sobrenatural que se apoderou de ti ao ressoar pela primeira vez em nosso Ocidente o canto alternado dos salmos e dos hinos litúrgicos[16] sob a direção de Ambrósio. Em todas as épocas, a vida perfeita renovou sua juventude com as mil formas com que o mandamento duplo da caridade exige revesti-la, bebendo nas águas que correm de tuas fontes[17].

Ilumina continuamente a Igreja com tuas luzes incomparáveis. Bendize as muitas famílias religiosas que se amparam em teu insigne patrocínio. Ajuda-nos a todos, alcançando-nos o espírito de amor e de penitência, de confiança e de humildade, que orna tão bem com uma alma resgatada; ensina-nos quão débil e indigna é a natureza depois da queda, mas também dá-nos conhecer a bondade sem limites de nosso Deus, a superabundância de Sua redenção, a onipotência de Sua graça. E que, contigo, todos saibamos não somente reconhecer a verdade, mas também dizer a Deus de modo leal e prático: “Fizeste-nos para Ti, e nosso coração está inquieto até que descanse em Ti.”[18]

[1] Salmo 67, 36.

[2] Encíclica Ad salutem humani, de 20 de abril de 1930.

[3] Encíclica Aeterni Patris.

[4] João II, Registro de Cartas, l. X , c. XXXVII.

[5] Confissões, l. X, c. XXVII.

[6] Confissões, l. X, c. VI.

[7] Confissões, l. IX, c. X.

[8] ibid, l. X, c. XXVII.

[9] Contra epist. Manichael quam vocant fundamenti, 2-3.

[10] Confissões, l. I, c. I.

[11] Confissões, l. X , cc. XXIX, XXXI.

[12] Contra litteras Petiliani, II, 184.

[13] Posidius, Vita Augustini, 13.

[14] ibid., 10.

[15] Sermão XLVI, 14.

[16] Confissões, l. IX , cc. VI, VII.

[17] Prov 5, 16.

[18] Confissões, l. I, c. I.

São Bernardo de Claraval

Autor: Dom Prósper Gueranger, in O Ano Litúrgico [1]

Tradução: André Carezia

Versão em PDF.

GLÓRIAS DE SÃO BERNARDO — “Eis aqui a Rainha, que se sentou diante de seu único Filho no festim eterno. Então, como o nardo que difunde seu perfume, Bernardo entregou sua alma a Deus.” [2] Sem dúvida foi para recompensá-lo por ter sido seu cavaleiro tão fiel, e cantador tão amante e eloqüente de todas as suas grandezas, que Maria veio buscar Bernardo durante a Oitava de sua gloriosa Assunção.

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O menológio [3] cisterciense recorda a seus filhos todos os anos a figura gloriosa e os méritos do primeiro Abade de Claraval: “No claustro se exercita maravilhosamente em jejuns, em orações, em vigílias, levando na terra uma vida toda celestial. Sem descuidar de seu trabalho de aperfeiçoamento, ocupa-se com zelo e êxito na santificação dos seus; vê-se, ademais, obrigado a apresentar-se diante do mundo. Aconselha os papas, pacifica os reis, converte os povos; extermina a heresia, abate o cisma, prega a cruzada, recusa bispados, realiza um sem número de milagres, escreve obras admiráveis e mil cartas. Aos 63 anos, quando morre, tinha fundado já 150 mosteiros, e 700 religiosos choram por ele em Claraval. O papa Alexandre III inscreveu-o no livro dos santos, e Pio VIII, em 1830, conferiu a ele o título de Doutor da Igreja Universal. Grande é o elogio, mas não exagerado.

Inumeráveis são os títulos que se deram ao que veio a Claraval para buscar, na humildade da vida monástica, o silêncio, a facilidade de fazer penitência e de rezar enquanto se aproximava a morte que o uniria a seu Deus. Ele, que procurava ser esquecido por todos, chegou a ser, para seu pesar, o homem de quem não podia prescindir seu século, ele que iria ter sobre seus compatriotas uma influência sem par, e que na história ficaria com uma das figuras mais nobres e mais atraentes da Igreja e de sua pátria. Bossuet, em um célebre panegírico, representou-o na cela estudando a cruz de Jesus, depois na cátedra sagrada e através dos caminhos da Europa, pregando essa mesma cruz. Porém, antes dele, Alexandre III o havia chamado “luz de toda a Igreja de Deus pela tocha de sua fé e de sua doutrina”; Santo Tomás de Aquino: “o eleito de Deus, a pérola, o espelho e o modelo da fé; a coluna da Igreja, o vaso precioso, a boca de ouro que embriagou todo o mundo com o vinho de sua doçura”; e São Boaventura lhe chamou “o grande contemplativo, de máxima eloqüência, cheio do espírito de sabedoria e de uma santidade eminente”; e nos estenderíamos demasiado se fôssemos citar os nomes e os elogios dos santos que o veneraram e saborearam sua doutrina “melíflua”, desde Santa Gertrudes e Santa Matilde até São Luiz Gonzaga e Santo Afonso de Ligório.

O CAVALEIRO DE NOSSA SENHORA — Mas o que de modo especial nos deve impressionar nestes dias, o que deveria bastar para dar glória a São Bernardo, é que foi cantador e cavaleiro de Nossa Senhora. “Foi, diz Bossuet, o mais fiel e o mais casto de seus filhos; o que mais honrou dentre todos os homens sua maternidade gloriosa, o que creu que devia aos seus cuidados e à sua caridade materna a influência contínua de graças que recebia de seu divino Filho”. Diz a lenda que um dia os anjos o ensinaram a Salve Rainha na Igreja de São Benigno de Dijon, e que uma vez a Virgem fez cair nos lábios dele algumas gotas do leite com que havia alimentado Jesus. Porém, seja como for, Bernardo se mostrava mais eloqüente e mais persuasivo do que nunca ao falar de Maria. Seus discursos apresentam-na a nós em todos os mistérios de nossa salvação, ocupando junto ao Senhor o posto que Eva havia tido junto a nosso primeiro pai; falou dela em termos tão ternos e comovedores, que fez vibrar o coração dos monges e das multidões que o escutavam, tão grande amor sentia por esta divina Mãe, e contribuiu poderosamente para fazê-la amada em sua nação. Seus sermões sobre a Anunciação se tornaram famosos, e os do mistério da Assunção se diriam ser posteriores à definição do dogma que tanta alegria trouxe ao mundo. Talvez seja isso o que lhe proporcionou tanta popularidade. Porque São Bernardo não é admirado somente pelos que estudam a história do século XII e se encontram com ele em tudo de grande e grave que então sucede, nem somente pelos monges e teólogos que estudam sua doutrina; São Bernardo é amado, e “o segredo de sua popularidade e do amor que se lhe tem, está no amor que ele teve a Jesus e na ternura com que amou a Maria, ternura profunda, amor ardente que nos entusiasma ainda depois de oito séculos” [4] “Jesus e Maria: dois nomes, dois amores que fundem em um só e fazem de seu coração um forno. O amor de Maria dá o movimento, e o amor de Jesus se abre nele como um lírio em seu talo. Este amor o persegue pelas sendas da Escritura, pelas montanhas ásperas da vida monástica, pela prática assídua das virtudes mais varonis, mas sempre por meio de Maria; esforça-se por cantar o Verbo acompanhando-se de Maria como de uma lira.” [5]

Depois de oito séculos, as orações que São Bernardo redigiu ou esboçou servem para que as almas rezem a Maria, para expressar-lhe sua confiança e seu amor. Repetimos-las todos os dias, valorizadas com o fervor de todos os que as pronunciaram antes de nós: a Salve Rainha, o Lembrai-vos. Não conhecemos melhor modo de honrar este grande santo, ser-lhe grato e dar-lhe graças, que repetir, seguindo seu exemplo, as orações que brotaram de seu coração e sobretudo louvar a Nossa Senhora com suas próprias palavras.

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VIDA — Bernardo nasceu em Fontaine-lez-Dijon, em 1090. Aos 16 anos se encontrou sem mãe. Pouco depois pensou em ingressar no Cister, onde o abade Stephen Harding estava desacorçoado por não ter vocações. Mas não chegou sozinho. Na Páscoa de 1112, apresentou-se com trinta parentes e amigos, a quem havia animado a abraçar a vida perfeita. Permaneceu durante três anos nesse mosteiro, entregue à oração e à mais rude penitência. Em 1115 chegou a ser abade de Claraval. A fama de sua doutrina e de sua santidade de pronto lhe trouxe postulantes em grande número; logo teve que fundar mosteiros e aceitar a reforma daqueles que solicitavam sua ajuda. Todo inteiro para todos, teve muitas vezes que deixar seu mosteiro para combater o cisma de Anacleto II na Itália, a heresia no sul da França, ou para pregar a cruzada a pedido de Eugênio III. Para este filho, que chegou a ser Papa, escreveu o tratado da Consideração, e para seus monges sua Apologia do Ideal Cisterciense, o Tratado do Amor de Deus e o Comentário ao Cântico dos Cânticos. Esgotado pelos trabalhos e lidas, consumido por excessiva penitência, acabou por fim seus dias em seu mosteiro, em 20 de agosto de 1153. Foi canonizado vinte anos depois, e declarado por Pio VIII Doutor da Igreja em 23 de julho de 1830.

ORAÇÃO A SÃO BERNARDO — Era conveniente que víssemos o mensageiro da Mãe de Deus seguir de perto sua carruagem triunfal; e, ao entrar no céu nesta oitava radiante, tu te perdes com deleite na glória daquela cujas grandezas enalteceste neste mundo. Ela nos ampara em sua corte; dirige até o Cister seus olhos maternais; em seu nome, salva mais uma vez a Igreja e defende o vigário do Esposo.

Mas neste dia nos convidas a cantar contigo para ela, a rogar-lhe, que é melhor que rezar; a homenagem que mais te agrada, ó Bernardo, é ver que nos aproveitamos de teus escritos sublimes para admirar “aquela que hoje sobe gloriosa e plena de felicidade aos habitantes do céu.”

Ainda que rutilante, o céu resplandece com novo fulgor à luz da tocha virginal. Nas alturas ressoam também a ação de graças e o louvor. Estas alegrias da pátria, não devemos fazê-las nossas em meio a nosso desterro? Sem morada permanente, buscamos a cidade à qual a Virgem bendita sobe neste momento. Cidadãos de Jerusalém, muito justo é que daqui das margens dos rios da Babilônia nos decidamos sobre isso, e dilatemos nossos corações diante do transbordamento do rio de felicidade cujas gotículas hoje saltam à terra. Nossa Rainha tomou hoje a dianteira; a acolhida esplêndida que se fez a ela nos dá confiança a nós que somos seu séquito e seus servidores. Nossa caravana, precedida da Mãe da misericórdia como advogada junto ao Juiz, seu Filho, terá boa acolhida no negócio da salvação. [6]

“Deixe de enaltecer tua misericórdia, ó Virgem Bem-aventurada, aquele que recorda haver-te invocado inutilmente em suas necessidades. Nós, servos teus, te felicitamos, sim, por todas as demais virtudes; mas em tua misericórdia nos felicitamos melhor ainda a nós mesmos. Louvamos em ti a virgindade e admiramos tua humildade; mas a misericórdia tem sabor mais doce aos miseráveis; por isso abraçamos com mais amor a misericórdia, recordamo-nos dela mais vezes, e invocamo-la sem cessar. Quem poderá examinar, ó Virgem bendita, a latitude e a longitude, a altura e profundidade de tua misericórdia? Porque sua latitude alcança até a ultima hora (aos que a invocam); sua longitude enche a terra; sua altura e sua profundidade preencheram o céu e deixaram vazio o inferno. Agora que recuperaste teu Filho e és tão poderosa quanto misericordiosa, manifesta ao mundo a graça que alcançaste nEle: alcança o perdão para o pecador, saúde para o enfermo, fortaleza aos débeis, consolo para os aflitos, amparo e proteção aos ameaçados por algum perigo, ó clementíssima, ó piedosa, ó doce Virgem Maria!” [7]

Notas

[1] A festa litúrgica de São Bernardo é no dia 20 de agosto, no meio da oitava da Assunção de Nossa Senhora, cuja festa litúrgica é no dia 15 de agosto.

[2] Paráfrase da oração de P. Condren, Veni Domine Jesu.

[3] Calendário com a biografia dos mártires e respectivas datas em que são celebrados.

[4] Dom Dominique Nogues: La Mariología de San Bernardo, p. XIV.

[5] Ibid, p. XV.

[6] São Bernardo, Primeiro Sermão sobre a Assunção.

[7] São Bernardo, Quarto Sermão sobre a Assunção.