O Roteiro Feminista de Vida e as Mulheres Infelizes

Autora: Joy Pullmann (*)
Tradução: André Carezia

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A nossa cultura é tão saturada de feminismo que até mesmo as pessoas conservadoras e devotamente religiosas como eu não conseguem raciocinar fora dos sulcos que as suas rodas criaram. Isto não seria um problema se o feminismo não fosse, graças à visão falsa da natureza humana, diametralmente oposto ao florescimento humano, tanto individual quanto coletivo.

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Mesmo com as evidências se acumulando de desgosto em desgosto, muitas mulheres continuam se entregando à dissonância cognitiva. Nós todos queremos crer que somos excepcionais, que os padrões do comportamento humano não se aplicam a nós; que coisas ruins aconteceram a outras pessoas que fizeram as mesmas coisas que nós fazemos ou queremos fazer, mas estas coisas ruins não vão acontecer também conosco. Somos especiais. Somos diferentes.

A recusa em aprender com a história e com a experiência apenas dessensibiliza as pessoas para a realidade que lhes bate na cara, e da qual precisam para tomar decisões mais inteligentes e viver melhor. Ter em mente que a experiência e a sabedoria dos seres humanos ao longo do tempo pode pesar no nosso comportamento presente permite uma forma de diagnóstico e tomada de decisões que utiliza bilhões de pontos de amostragem acumulados. Sim, é preciso ter humildade para julgar se as suas condutas e pressuposições são equivocadas, mas você deixa de marcar pontos no feminismo para colher cem vezes mais numa vida abundantemente feliz. Como é que eu sei? Aconteceu comigo.

Comecei a abandonar o feminismo no dia em que vi um teste de gravidez

Fui premiada com uma gravidez não planejada e não desejada. Éramos casados, mas eu fiquei arrasada, porque o que eu queria era fazer o que todo mundo dizia que se deve fazer: sair da faculdade e me concentrar imediatamente na carreira. Eu e o meu marido chamamos o bebê de “nosso bolo de frutas”: um mimo com o qual ninguém sabe exatamente o que fazer. Um bebê enjoado que mereceu ficar com este apelido por dois anos. Agora, não lhe cabe mais.

Com o tempo, eu aprendi que, em vez de ter me angustiado com este milagre, devia ter ficado – e acabei ficando, devagar – profundamente grata. Este menininho me salvou, mostrando-se lentamente na minha vida como uma flor rara e preciosa. Mais uma pétala se abriu esta semana: eu li dois relatos recentes de mulheres com as quais eu me pareceria muito mais se tivesse descoberto antes um jeito de esterilizar o meu útero, que era o que eu planejava.

Uma mulher de 35 anos escreveu no mês passado, imensamente angustiada, para a coluna de conselhos do The Cut, tornando-se uma das histórias mais lidas dos últimos tempos. Ela começou na vida como uma “inovadora” na costa oeste, pulando de cidade em cidade e de namorado em namorado: pode parecer glamouroso, mas hoje, em retrospectiva, ela vê o desperdício de potencial para formar uma família.

Eu não tenho familiares por perto. Nenhum relacionamento construído sobre anos de amadurecimento mútuo e experiências partilhadas. Nenhum filho. Amigos eu faço, facilmente, mas já deixei quase todos eles para trás; cada vez que eu me mudei para outras cidades, eles continuaram a criar raízes profundas: casamentos, propriedades, carreiras, comunidades, famílias, filhos. Tenho poucas amigas íntimas. Sou grata por elas, mas a vida prossegue cada vez mais atarefada, e hoje ficamos meses sem conversar. Grande parte das noites eu passo sozinha com o meu gato (olhe o clichê)…

A minha apatia está se manifestando de modos estranhos. Eu bebo demais, e, quando aparece a ocasião de encontrar os meus amigos, acabo ficando bêbada e irritada, ou triste (ou as duas coisas), e afastando-os. E eu sinto, com os homens que namoro, um ímpeto de obter algo cedo demais da relação – morar junto, me casar, ‘preciso ter filhos em dois ou três anos’; momentos divertidos! Tudo isto enquanto tento ser a gostosa de 25 anos que eu imaginava ser até pouco tempo atrás.

Eu pensava que era uma sabe-tudo. Vida de aventuras na cidade! Viajar o mundo! Criar recordações! Me sinto incrivelmente vazia agora. E tola.

A colunista respondeu com empatia e papo de auto-estima, mas não reconheceu e nem corroborou a verdadeira perda desta mulher. Aos 35 anos, a fertilidade feminina começa uma queda livre até a menopausa. É a idade na qual os médicos classificam uma gravidez como de alto risco, o que significa que a mulher tem maiores chances de complicações, que só aumentam à medida que a idade avança; são maiores também as chances de intervenção médica durante a gravidez e o parto, com mais riscos para a mãe e para a criança.

Assim, com toda a probabilidade, esta mulher já perdeu a capacidade de ter mais de um filho; se ela tiver sorte, pode conseguir um, apesar da falta de potencial para tal no horizonte em vista. Lembre que são precisos dois anos para ter cada bebê e se recuperar dele. Portanto, se você quer dois filhos, precisa de pelo menos cinco anos de fertilidade para tê-los. Se quer três filhos, precisa de pelo menos sete anos de fertilidade.

Subtraia isto de 35, e você obtém 28. Hoje, esta é a idade média para o primeiro casamento das mulheres, mas em geral elas não se casam pensando imediatamente em garantir ao menos um bebê. Isto quer dizer que milhões de casais estão, sem necessidade, arrumando encrencas para ter filhos, simplesmente por não escolherem os melhores momentos para tê-los.

Afastando as mulheres do nosso sonho americano

Hoje, 86% dos americanos querem ter pelo menos dois filhos. Mas adiar o casamento, e colocar a universidade e a carreira em primeiro lugar, faz com que eles não vivam à altura dos seus sonhos familiares. O New York Times registrou em fevereiro que “a distância entre o número de filhos que as mulheres dizem querer (2,7) e o número de filhos que provavelmente terão de fato (1,8) já é a maior em 40 anos.” Isto está criando um número cada vez maior de mulheres profundamente, irreparavelmente frustradas, como ilustra não apenas a escritora do The Cut, mas uma outra mulher esta mesma semana.

Uma mulher de carreira, com 50 anos e quatro diplomas universitários, ligou recentemente para o programa de rádio do Dennis Prager. Seu conselho para as mulheres jovens pode ser resumido no seguinte: não façam o que eu fiz. “Fui programada para entrar no mercado de trabalho, competir com os homens e ganhar dinheiro,” disse ela. “Supostamente seria uma vida de realizações. Mas quem me disse isto foi uma mãe feminista, divorciada, e que odiava o marido – meu pai.”

…é solitário ver os seus amigos tendo filhos, saindo de férias, planejando as vidas dos filhos, e você não tem mais nada para fazer à noite exceto ir para casa, para os seus cães e gatos…

Quando você envelhece e mora sozinha, surgem outras preocupações. Quem vai levá-la ao médico? Se alguma coisa lhe acontecer, não haverá outra renda para ajudá-la. São estas coisas que você não compreende quando tem os seus 20 e poucos anos; você não imagina que algum dia vai ficar velha e ter problemas de saúde…

Quero dizer às mulheres: encontrem alguém quando tiverem 20. Então vocês ainda são muito lindas. Então vocês ainda acham agradável resolver as coisas com alguém. Será muito mais difícil, quando chegarem nos 50 e já tendo morado sozinhas, vocês se comprometerem com alguém, terem alguém dentro de casa; cada mínimo detalhe deles é irritante, acostumadas que estão a serem sozinhas.

O famoso (ou infame) psicólogo e guru dos conselhos Jordan Peterson ouve isto o tempo todo das suas clientes femininas mais inteligentes e motivadas. Quando têm os seus 20 anos, elas acham que querem a carreira. Mas quando chegam aos 30, elas começam a perceber que também querem uma família, e que isto lhes é, na verdade, mais importante do que as marcas abstratas nos degraus de alguma carreira. Neste ponto, porém, dados os caprichos de encontrar alguém, de passar pelo casamento e de chegar depois na reta final da gravidez, é muito mais difícil que elas consigam a vida desejada.

Um dos vídeos populares de Peterson se chama “Mulheres de 30,” e contém comentários que ele repete em outros lugares.

“De fato não é evidente para mim que as mulheres jovens da nossa sociedade sejam informadas da verdade sobre como as suas vidas provavelmente serão,” diz ele. “Ensinam a elas, tanto de modo explícito quanto de modo implícito, que ficarão interessadas em primeiro lugar na busca de uma carreira dinâmica; há alguns sérios problemas com isto… A minha experiência tem sido a de que as mulheres de alto desempenho, quando chegam aos 30, decidem que o relacionamento e a família são as coisas mais importantes na vida.”

Peterson argumenta que a nossa sociedade “mente para as mulheres,” e ele tem razão. Somos instruídas a “buscar a nós mesmas” e procurar a felicidade em quase todos os lugares, menos onde a história humana já demonstrou que iremos colhê-la de modo mais generoso. O que ele não menciona aqui (nem em outros lugares, até onde eu vi) é a associação destas mentiras com os problemas de fertilidade, que tanta tristeza causam às mulheres.

Geralmente não é fácil encontrar alguém para casar, e mais do que um em cada dez casais experimentam infertilidade. Os problemas de infertilidade, além disto, aumentam e ficam mais difíceis de resolver com a idade. Aquele namorado que você descartou aos 25, porque “ainda não se achava pronta para casar,” não estará por perto aos 30, ou 35; os substitutos dele também já estarão sumindo de vista nesta idade.

A beleza feminina atinge o pico por volta dos 20 anos, e não surpreende que coincida (de um ponto de vista biológico) com a sua fertilidade. Eis um gráfico feito com dados do site OKCupid, mostrando a idade em que os homens acham uma mulher mais atraente:

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Aaron Renn, que postou este gráfico na sua lista de e-mail Masculinist, resume assim uma montanha de informações relacionadas ao romance e aos sexos: “Para a média das mulheres, a beleza geral provavelmente atingirá o pico por volta dos 25 anos, quando começará a decair então por praticamente o resto da vida. Para os homens, a aparência também entra em declínio. Mas o seu poder, status, dinheiro, começam no baixo e sobem com o tempo, compensando (ou às vezes mais do que compensando) por um certo tempo a perda na aparência… Na juventude, as mulheres estão na sua melhor forma, e os homens estão ainda se aprimorando. Daí que a mulher, em média, tenha muito mais poder de atração que o homem, em média. Quando chegamos aos 30 anos, esta situação começa a se inverter.”

Isto quer dizer que as mulheres detêm o maior poder de barganha nupcial por volta dos 20 anos. A estratégia feminina mais inteligente, portanto, é casar cedo, e se amarrar num marido antes que precisem competir com mulheres mais jovens e sexy. É exatamente o oposto do que a nossa sociedade manda as mulheres fazerem. Ela manda as mulheres fazerem a mesma coisa que os homens fazem. Mas as mulheres não são homens. Os nossos corpos são diferentes, a nossa fertilidade é diferente, as nossas prioridades são diferentes. Logo, enquanto os homens conseguem se recuperar (e até mesmo se beneficiar) de um casamento tardio, as mulheres em geral são extremamente prejudicadas por ele.

Nós, mulheres, necessitamos de um roteiro de vida próprio; merecemos um que se ajuste em nós. Para construir um, precisamos conhecer e precisamos que nos contem a verdade sobre aquilo que faz as mulheres felizes, aquilo que as mulheres querem com toda a força na vida, e os limites biológicos para realizarmos os nossos sonhos. Precisamos, depois, agir sobre este conhecimento para dar à luz os nossos sonhos.

Você pode dar sorte, como eu, e ter um bebê-surpresa precoce que transforme todos os seus planos de vida em algo melhor. Entretanto, se eu fosse você, não esperaria por um milagre. Eu sairia e arrumaria um de propósito.


(*) Tradução do artigo publicado em dezembro de 2018 na revista The Federalist. O link para o artigo original: https://thefederalist.com/2018/12/11/the-feminist-life-script-has-made-many-women-miserable-dont-let-it-sucker-you/

A Catástrofe do Suicídio

Autora: Emily Esfahani Smith
Tradução: André Carezia
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Nos últimos meses, houve vários acontecimentos desoladores a nos lembrar o aumento, por todo o país, dos suicídios, um tema sobre o qual escrevi em minha primeira coluna “Modos & Moral” em outubro (“Life on the island”, A Vida na Ilha). Destes, o mais falado de todos foi o de LWren Scott. A designer de moda de 49 anos foi achada morta em seu apartamento na cidade de Nova Iorque, apartamento este que foi aparentemente comprado para ela por Mick Jagger, seu namorado da época.

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Uma semana depois, a secretária de educação da cidade de Nova Iorque, Carmen Fariña, convocou uma reunião fechada com os diretores para discutir a epidemia de suicídios entre os alunos da cidade. Graças ao fato do New York Post ter publicado a estória, sabemos agora que os suicídios estão em alta no meio juvenil da cidade: há dois anos atrás, nove alunos cometeram suicídio; no último ano, quatorze; e, nestes primeiros meses de 2014, doze já cometeram suicídio em Nova Iorque.

Em março, alguns voluntários se reuniram em Washington para instalar 1892 bandeiras americanas no [parque] National Mall, lembrando cada veterano que cometeu suicídio desde o início de 2014. Faça a conta: são vinte e dois veteranos se suicidando por dia. Outro número trágico: desde 2001, o ano que marca o início das guerras no Iraque e Afeganistão, mais soldados da ativa se mataram do que morreram em combate.

O aumento no número de suicídios veio acompanhado pelo sumiço das questões morais que antigamente cercavam aqueles. G. K. Chesterton foi um dos nossos últimos críticos vigorosos do suicídio. Sua insistência em dizer que o suicídio é imoral soa estranha aos nossos ouvidos individualistas: “O suicídio não é apenas um pecado; é o pecado”, escreveu Chesterton. “É o mal final e absoluto, a recusa em se interessar pela existência; a recusa em fazer o juramento de lealdade à vida. O homem que mata um homem, mata um homem. O homem que mata a si mesmo, mata todos os homens; do seu ponto de vista, ele aniquila o mundo”. Chesterton prossegue dizendo que o ato suicida é egoísta: “Um suicida é um homem que dá tão pouca importância a qualquer coisa além dele, que ele quer ver o fim de tudo”. Seria difícil imaginar alguém escrevendo coisas assim polêmicas hoje. Não consideramos que o suicídio é a catástrofe moral que pessoas como Chesterton antigamente pensavam.

Nossa cultura contemporânea, ao contrário, trata o suicídio como um problema médico – uma “questão de saúde pública”, como o psicólogo e pesquisador Joshua Rottman afirmou recentemente ao The Atlantic. De acordo com seu novo estudo, tanto as pessoas religiosas quanto as não-religiosas possuem uma inclinação moral contrária ao suicídio, e a inclinação nasce das “reações de repugnância” que elas têm quando confrontadas com estórias de suicídios. Cometer suicídio, elas pensam, contamina a alma. Para Rottman, isto é um problema. Estas reações são irracionais e portanto nocivas: “A questão valendo 1 milhão de dólares”, diz Rottman, é “como tirar do suicídio o estigma de coisa impura”. E continua: “Isto não quer dizer que devemos começar a achar que suicídios são uma coisa completamente boa, mas não acho que devemos tratá-los como tabu (sendo assim assunto proibido em conversas educadas). Ao invés disso, devemos lidar como eles como se fossem uma questão de saúde pública, e buscar maneiras de efetivamente aumentar a prevenção.” Mas Rottman está errado ao desmoralizar a noção de suicídio. Se queremos seriamente ajudar as pessoas a superar suas noites escuras da alma, devemos insistir – com Chesterton – que o suicídio é um problema moral, e não apenas clínico.

É exatamente isso que faz um novo e importante livro. Stay: A History of Suicide and the Philosophies Against It [“Fique: Uma História do Suicídio e as Filosofias Contrárias a Ele”], da poeta e filósofa Jennifer Michael Hecht, desafia a nossa cultura de aceitação do suicídio, e revigora os argumentos morais contrários a ele. Em uma época em que poucos filósofos e intelectuais oferecem argumentos não religiosos fortes e convincentes contra o suicídio, o livro de Hecht surge como uma advertência de que nossa abordagem liberal em relação ao suicídio é relativamente nova, e na verdade bastante radical, e deve ser claramente contestada. Em parte uma história intelectual, em parte uma polêmica – e branda – contra o suicídio, o livro preenche um vazio no diálogo cultural a respeito da escolha de terminar a vida de alguém. Hecht escreve: “Os argumentos contra o suicídio, os quais pretendo reviver na consciência pública, afirmam que o suicídio é errado, que ele prejudica a comunidade, que ele estraga a humanidade, que ele antecipa injustamente seu próprio eu.”

Hecht staynos recorda que através da história – no ocidente ao menos – sempre houve forte pressão social e argumentos filosóficos contra o suicídio. Embora os antigos em geral já escrevessem contra o suicídio, suas posições foram defendidas com máximo vigor por pensadores cristãos, que encaravam o suicídio como um pecado – uma violação da lei moral de Deus. A crença cristã sobre o suicídio foi articulada de modo mais claro por Santo Tomás de Aquino, que achava, como escreve Hecht, que “o suicídio é cruel para com a comunidade, é cruel para consigo mesmo, e Deus mandou não fazer.” Aqueles que violavam a lei moral, tirando as próprias vidas, enfrentavam um destino póstumo pavoroso. Seus corpos eram torturados e arrastados pelas ruas. Suas propriedades eram confiscadas pela Igreja, e suas famílias eram deixadas sem nada.

Esta visão começou a mudar durante o Iluminismo. Os filósofos seculares daquela época, como David Hume e o Barão d’Holbach, fizeram tudo que puderam para empurrar o cristianismo para a irrelevância filosófica. Uma nas baixas na guerra contra a religião foi a proibição moral contra o suicídio, que Hume associava, como aponta Hecht, com a “superstição da Europa moderna.” Foi um caso clássico de jogar o bebê junto com a água do banho. Para Hume e d’Holbach, o suicídio era um caminho permitido para escapar ao sofrimento, e a justificativa deles era quase sempre assustadoramente desumana. Pergunta d’Holbach: “Além do mais, que auxílio ou que vantagem uma sociedade pode obter de um miserável desgraçado reduzido ao desespero, de um misantropo sufocado de dor, de um miserável atormentado pelo remorso, que não tem mais nenhum motivo para se considerar útil aos outros, que abandonou-se, e que não se interessa mais em preservar sua vida?”

A visão pró-suicida, que “agora é uma atitude que define a cultura secular, é um erro e precisa ser repensada”, escreve Hecht. Produziu uma confusão moral. Os seculares que estão entre nós rejeitam o cristianismo e as idéias cristãs sobre o suicídio – e certamente a resposta medieval a ele – mas isto não quer dizer que devemos concluir que o suicídio é permitido. O argumento não-religioso contra o suicídio, afinal, já foi encampado por um grupo admirável de pensadores, desde Kant até Durkheim até (o suicida) Wittgenstein. Como cultura, esquecemos seus argumentos, mas precisamos revivê-los e encampá-los de modo a salvar as pessoas suicidas da tirania de suas emoções. O suicida precisa perceber que o sofrimento é parte natural e passageira da vida, que ele precisa persistir, e que ele vive não apenas para si mesmo mas para os outros.

O peso moral do argumento de Hecht fica claro quando consideramos os efeitos de longo alcance do suicídio. Eles se estendem além da morte do suicida, e da dor de seus amados. O suicídio é contagioso como uma doença infecciosa. Quando uma pessoa em uma comunidade tira sua vida, não é incomum que outras pessoas sigam seu exemplo, criando o que os cientistas chamam de “suicídio em série”. Por isso é que, usando um potente floreio retórico, Hecht chama o suicídio de assassinato “retardado”. Quando você decide tirar a sua vida, ela alega, você não mata apenas você mesmo, mas também seu vizinho, seu colega de escola, seu irmão de luta.

A própria idéia de suicídio pode levar ao auto-assassinato. O romance de Goethe, Os Sofrimentos do Jovem Werther (1774) – sobre um jovem que se mata quando a mulher que ele ama o rejeita – iniciou após sua publicação uma onda de suicídios em série na Europa. O chamado “efeito Werther” deve fazer-nos parar e refletir sobre o modo como a mídia faz a cobertura dos suicídios reais, e sobre a maneira dos artistas e criadores abordarem o suicídio em suas obras. Neste sentido, Hecht cita um estudo do New England Journal of Medicine a respeito de três filmes cujos aspectos centrais do enredo são suicídios. O estudo “descobriu que os suicídios aumentaram depois de dois deles, ambos com foco na vítima de suicídio. O outro filme, não associado ao crescimento na taxa de suicídio, se concentrou nos pais e em sua angústia.” Idéias têm conseqüências: “Elas podem influenciar as pessoas tanto em direção à morte quanto para longe dela.” Hecht cita uma pesquisa que mostra que, das pessoas que tentaram cometer suicídio e falharam, a maior parte é grata pela falha. Elas não tentam mais tirar suas vidas, e admitem que “a tentativa inicial foi um ato impulsivo.”

Em minha coluna de outubro passado, indiquei uma pesquisa – de Durkheim e da ciência social moderna – que mostra que o crescimento do suicídio veio acompanhado pelo crescimento do individualismo. O papel do indivíduo na sociedade mudou dramaticamente desde o Iluminismo. Antes, a influência da tradição judaico-cristã no ocidente colocava restrições na vontade do indivíduo. A moralidade estava organizada em torno da vontade de Deus e de nossos deveres comunitários – e o suicídio era considerado uma afronta a ambos. Hoje, porém, nosso sentido de certo e errado está organizado mais em torno da experiência individual do que no bem da comunidade.

O famoso filme A Sociedade dos Poetas Mortos (1989) é um bom exemplo da resposta moderna e individualista ao suicídio. O filme gira em torno de um grupo de colegiais veteranos em uma escola de elite, um internato apenas para meninos, em New England. O líder do problemático grupo, Neil, enfrenta um dilema comum de adolescente. Seus pais querem que ele faça medicina, mas ele quer ser ator. Contrariando o desejo de seu pai, Neil faz o papel de Puck na montagem de Sonho de Uma Noite de Verão que a escola realiza. Seu pai decide removê-lo do idílico internato e mandá-lo para a academia militar, a fim de prepará-lo melhor para Harvard e uma carreira de médico. Quando Neil volta para sua casa, ele está em um turbilhão emocional. Acha que sua vida acabou. Acha que não será capaz de concretizar seu sonho de ser um ator. Ele se convence de que a solução para o problema é se matar na casa de seus pais, os quais encontram seu corpo mais tarde naquela noite.

Lamentavelmente, a estória romantiza o suicídio dele. Neil veste uma coroa de espinhos antes de tirar a própria vida, estabelecendo uma ligação espúria entre seu último ato de vontade e a submissão de Cristo à vontade do Pai. Somos levados a concluir que o adolescente é uma vítima – e seu pai é o vilão, responsável por sua morte e merecedor do sofrimento que sente ao ver seu filho morto. O filme convida-nos a simpatizar com a situação infeliz de Neil. A morte de Neil é apresentada como se fosse uma expressão da liberdade, uma fuga da infelicidade extrema, do sofrimento, e de outras barreiras que o impediriam de viver a vida do jeito que ele gostaria. Mas o fato é que a decisão de Neil é impetuosa e acima de tudo egoísta. Ao contrário de Cristo, ele não entrega sua vida por amor aos outros; seu suicídio, ao invés disso, é um ato de vingança. Mesmo assim, somos levados a concluir que ele é uma espécie de herói que morre porque o mundo é imperfeito e ele não consegue atingir a plenitude de seu ideal artístico.

Hecht impele-nos a “aposentar a idéia de que cada um é livre para tirar sua própria vida.” Hecht aqui realmente insiste em que repensemos o relacionamento do indivíduo com sua comunidade. O suicídio, que pode acabar com a infelicidade do indivíduo, é causa de incontáveis infelicidades na comunidade. Tirar a própria vida não é, portanto, uma escolha puramente pessoal, cujos efeitos são sentidos apenas pelo morto. Impõe um julgamento profundo contra o mundo partilhado por todos.

Nossa atitude perante o suicídio diz muito sobre o quanto valorizamos a vida e as comunidades que nos sustentam. Para nós não deveria ser surpresa que o suicídio tenha ganhado aceitação em nossa cultura; nossas comunidades estão se dissolvendo; o indivíduo, livre das muitas amarras tradicionais, se considera o senhor de seu próprio destino. Embora haja certamente casos em que a morte é com justiça considerada uma libertação do sofrimento, já é tempo de reconsiderar nossa crença de que, como indivíduos, somos livres para escolher a hora e o lugar desta libertação. Como assinala Hecht: “O sentido da vida é maior do que o indivíduo.”


(Traduzido do original em inglês, publicado em maio de 2014 na revista americana de cultura The New Criterion. O artigo original está disponível para assinantes no seguinte link: http://www.newcriterion.com/articles.cfm/The-catastrophe-of-suicide-7902)