Louvor a Nosso Senhor Jesus Cristo sobre a conduta de Seu Espírito e de Sua graça para com Santa Madalena.

Autor: Cardeal Berulle (1575–1629)
Tradução: André Carezia

ELEIÇÃO DIVINA — Em Tua morada sobre a terra, ó Jesus, meu Senhor, e na ditosa vida que tiveste no mundo pelo tempo de três anos, como Messias da Judéia e como Salvador do mundo, obraste muitos milagres, concedeste muitas graças e elegeste muitas almas para atraí-las em busca de Ti. Mas a eleição mais rara de Teu amor, o mais digno objeto de Teus favores, a obra-prima de Tuas graças, o maior de Teus milagres Tu obraste nela.

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CONVERSÃO DE MADALENA — Quando caminhavas pela terra realizando Tuas obras maravilhosas, ó Senhor, lançaste Teu olhar sobre muitas almas. Mas Teus mais doces olhares, ó sol de justiça, e Teus raios mais poderosos foram para esta alma. Arrancaste-a da morte para a vida; da vaidade para a verdade; da criatura para o Criador e dela para Ti mesmo. Transportaste Teu espírito ao dela e em um instante derramaste no coração dela uma torrente de lágrimas que caem a Teus pés e os regam, e dão um benéfico banho que lava santa e suavemente essa alma pecadora que as derrama. Deste a ela, de pronto, uma graça tão abundante, que começa onde as outras apenas acabam, de modo que, desde o primeiro passo de sua conversão se encontra no cume da perfeição, gozando de amor tão profundo que foi digna de receber o elogio de Teus sagrados lábios, quando Te dignaste a defendê-la de seus imitadores e terminar sua justificado com estas doces palavras: “Muito amou.”

Eis aqui as primeiras homenagens rendidas a esses santos pés, e manancial de santidade desde que caminham sobre a terra para a salvação do mundo e glória do Pai. E eis aqui também as primeiras graças e favores emanados desses divinos pés. Estes pés são sagrados e divinos,s ao suaves e adoráveis, são também divinos; e entretanto se empregaram, se fatigaram pelos pecadores e serão um dia perfurados para derramar o sangue que lavará o mundo.

Desses pés sagrados emana agora uma fonte de graça e pureza para essa alma privilegiada, uma das mais nobres a seguir e amar Jesus. E desse Coração humilhado, melhor dizendo, cravado a Seus pés divinos, brota uma fonte de água viva que lava a própria pureza ao lavar os pés de Jesus. Dois mananciais e admiráveis rios: uma dessas fontes sai dos pés de Jesus e corre por Madalena, e a outra sai do coração de Madalena e vai até os pés de Jesus; duas fontes vivas e celestiais, e celestiais na terra, porque a terra também é um céu, posto que Jesus está na terra. Esse coração de Madalena, impuro em outros tempos, é agora um coração puro e celestial, e dele sai água viva adequada para lavar Jesus. E por isso Jesus se compraz como em um banho que Lhe é querido e delicioso, de modo que enaltece a Madalena e reprova o fariseu.

A UNÇÃO EM BETÂNIA — O tempo de Tua morte se aproxima, abandonas a Galiléia pela ultima vez, vais a Jerusalém para subir à cruz, quiseste dedicar a última semana de Tua vida para viver em Betânia, onde moravam essas santas mulheres Marta e Maria Madalena, para empregar Tuas últimas horas a conversar com essas santas almas. Ali se concentra e se renova o amor de Madalena; de novo ali se prostra a Teus pés, ali Te cobre e Te inunda com suas águas perfumadas. E enquanto Judas não tem outros pensamentos que não de ódio, ela pensa em amar-Te e entregar seu coração e seus perfumes a Ti; ali, como afirmas Tu mesmo, antecipa com essa unção Tua sepultura; ali Te enterra vivo, ignorante do que fazes; mas Tu o sabias por ela e Tu o ensinavas em Teu Evangelho, era seu amor mais ativo que refletivo; e por sua humilde e santa ignorância, nos ensina a seguir com docilidade os movimentos do Espírito Santo, sem ver, sem examinar as causas e os fins com que se apresenta a nós.

Mas Teu espírito, ó Jesus, me revela outro mistério contido nesse; há como uma luta secreta entre Ti e Madalena, uma luta de honra e de amor, contenda feliz entre duas pessoas tão desiguais, por certo, mas que estão tão unidas no amor como nos mesmos fins e intenções. Quando estiveres morto no sepulcro de José, quererá ungir-Te Madalena, mas então Tu Te adiantarás ressuscitando antes que chegue. Seu amor é sutil, não quer deixar-se enganar, mas Teu amor é mais forte e não pode ser vencido; antecipa ela agora, com a força de seu amor, o mesmo que então Tu farás com o poder de Tua vida ressuscitada e de Tua glória; quer ungir-Te e sepultar-Te, mas como não queres ser ungido por ela estando morto, quer ungir-Te e sepultar-Te desde já, quer enterrar-Te vivo, enterrar-Te neste banquete. E Tu cedes a seus desejos de sepultar-Te em seus perfumes e sepultar-Te ainda mais em seu coração e em sua alma, sepulcro para Ti delicioso e vivo.

AO PÉ DA CRUZ — Mas deixemos esse banquete e vamos ao pé da cruz, que está tão próxima dEle, e encontraremos ali Madalena unida a ela, enquanto Jesus está crucificado nela. Não tem vida além da cruz e não sente outra coisa que as dores de seu Salvador. Ele é sua vida e, posto que está na cruz, sua vida está na cruz. Não a puseram ali os judeus, mas é seu amor que a põe, e com laços mais fortes e mais santos do que aqueles que se acham nas mãos desses bárbaros.

Ao pé dessa cruz eleva seus olhos e sua alma a Jesus; não podem as trevas que cobrem a terra tirar sua vista dali. O sol, por certo, se encontra como que temeroso de mandar seus raios, ao ver o Pai da luz obscurecido por tantas desgraças. A terra se cobriu com sua infidelidade; mas essas trevas não podem cobrir nem Jesus nem Madalena. O sol que se eclipsou não é o sol dessa alma; tem outra luz distinta da sua e Jesus é o sol de Madalena, sol que nunca se eclipsa em seu coração. É nela mais brilhante do que nunca; ilumina-a em suas trevas e moribundo na cruz permanece vivo para ela; vive e age nela, mesmo em sua morte.

Basta-nos dizer que quanto mais digno é o objeto de nosso amor, maior será nosso amor, maior também nossa dor, seja vendo sofrer, seja estando separado daquele que amamos. Pois tudo isso se encontra em Madalena ao pé da cruz, e com toda excelência e com toda perfeição. Porque nunca se poderá encontrar um objeto mais digno de amor que Jesus, e Jesus paciente e sofrendo penas inauditas, e sofrendo-as por amor. E o que aumenta ainda mais o amor e a dor é que esse sofrimento, por fim, nos arrebata a Jesus. Entre todos os discípulos de Jesus, não houve ali uma alma mais fiel e constante que o amor de Madalena, nem entre os pecadores da terra um coração mais nobre e melhor disposto a receber o selo do amor celestial.

A MORTE DE JESUS — Entretanto Jesus morre nessa cruz, e Madalena não morre; porque ao morrer lhe dá a vida e fica impresso em seu coração, como na cera derretida pelo calor de Seus raios. Grava nela, nos estertores da agonia dessa vida moribunda, dessa morte vivente, Sua vida, Sua cruz, Sua morte e Seu amor; e esse amor é sempre vivo e vivificante nela. Porque Jesus é vida e amor de verdade; mas amor vivo, e vivo mesmo na morte. Pois ainda que Jesus morra, o amor que está em Jesus não morre; esse amor, que faz morrer Jesus, não morre de modo algum; esse amor, que faz Jesus morrer, nao pode morrer, mas antes é vivente, dominante e triunfante na própria morte de Jesus. Essa morte é a vida e o triunfo desse amor que vive e reina nas chamas. Diz-se que o amor é mais forte que a morte; digamos melhor: o amor, que dominava em Jesus, é mais forte que a vida de Jesus e que a própria morte de Jesus; porque o amor faz morrer Jesus e a morte de Jesus não faz morrer o amor de Jesus. Esse amor é vivente e triunfante em Jesus morto, e faz viver Madalena; é sua vida, é seu amor e por isso não morre com a morte de Jesus; ao não morrer, ela é crucificada, porque seu amor é crucificado e ele a crucifica também. E crucifica-la-á por trinta anos seguidos, de outro modo e em outra montanha distinta do Calvário. Ao entregar seu coração a Jesus, à Sua cruz, ao Seu amor, ela adora a ordem rigorosa do Pai Eterno, que extingue a vida de Seu Filho único nos tormentos da cruz.

MADALENA PROCURA JESUS — Durante Tua vida pública na Judéia, é a primeira que Te procurou por amor. Tu procuraste as pessoas, e elas Te procuravam por suas necessidades particulares e suas grandes necessidades, procurando mais Teus milagres que a Ti mesmo. Mas Madalena não procura mais que a Ti mesmo, e não procura senão o milagre de Teu amor; e por isso fazes para ela um milagre de amor na terra, e agora queres que seja ela a primeira a ver-Te imortal e glorioso. Os discípulos e apóstolos Te seguiram fielmente; mas eles foram chamados, e chamados sem que pensassem em Ti. Essa Te procura, segue-Te, sem ser chamada por Ti, sem palavra nenhuma que a atraia e que seja dirigida a ela, como aconteceu a outras; além do mais, ela está a Teus pés, e não parece que Tu a conhecesses ou que a olhasses, nem que pensasses nela, pois tão grande é o poder secreto que a atrai e que a une a Ti. E agora queres que seja a primeira a ouvir Tua voz, que escute a primeira palavra saída de Tua boca sagrada, e que receba o encargo tão honroso de anunciar Tua glória aos apóstolos. Por isso queres, ó rei da glória, honrar na terra e no céu aquela que Te amou tanto e que se pôs a Teus pés para adorar-Te.

MADALENA VÊ JESUS — Mas um amor tão grande não pode agüentar demora. Ditas essas duas palavras, manifesta-Se, revela Sua glória, devolve o juízo a ela, abre-lhe os olhos e ela vê vivo aquele que procura morto. E se mostra louca de alegria, de amor e de luz na presença de Jesus, na presença desse sol vivo.

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Desse modo a primeira obra de Jesus em Sua ressurreição é colocar em um novo estado de graça Madalena. É uma nova vida nessa alma, aos olhos de Jesus. Ele a ressuscitou e por isso cria nela como que uma ressurreição de estado de vida e de amor.

Bendito sejas, ó Jesus, por haveres enxugado assim suas lágrimas, e convertido sua dor em alegria, e por haveres empregado esse formoso nome de Maria, o nome único de Maria, para tal abundância de amor e de luz. Utilizaste a Tua pessoa, Tua voz e Tuas palavras ao dizer: Mulher, por que choras? A quem buscas? Mas foi tudo em vão; porque apesar dEle, não conhecia a quem procurava, aquele que estava presente diante dela e que lhe dirigia essas amáveis frases. Entretanto, quando pronúncias o doce nome de Maria, o nome único de Maria, se abrem seus olhos como aos discípulos de Emaús na misteriosa fração do pão. Esse nome tinha demasiada simpatia para Jesus, por Sua santa Mãe, e também pela pessoa dessa santa discípula, para não unir imediatamente dois corações tão próximos e tão preparados para o amor santo e mútuo de um para com o outro. Favorece a Madalena o ter esse formoso nome de Maria; e o Deus bendito, que bendiz tudo em Seus santos, quer bendizer esse nome santo e venerável, e quer empregá-lo na primeira obra de Sua vida ressuscitada, e através dele dar a conhecer Sua nova vida e Sua glória.

MADALENA, APÓSTOLO DOS APÓSTOLOS — A primeira missão que dás e, se me é permitido falar assim, a primeira bula e patente que expedes em Teu estado glorioso e de poder, confias a ela, fazendo dela um apóstolo, mas apóstolo de vida, de glória e de amor; e apóstolo de Teus apóstolos. Faz tempo que fizeste apóstolos, Senhor, mas foi durante Tua vida mortal; escolheste doze, mas fazendo-os apóstolos para o mundo, para anunciar Tua cruz e Tua morte; fazes aqui Madalena apóstolo em Teu estado de glória, e nesse estado escolhes a ela somente como apóstolo e apóstolo de Tua vida somente, porque somente anuncia e prega Tua vida, Teu poder e Tua glória. E faze-la apóstolo não para o mundo, mas para os próprios apóstolos do mundo e para os pastores universais de Tua Igreja, pois tanto Te comprazes em proclamar a honra e o amor dessa alma.

Dirijamos nossas súplicas àquela que o Senhor tanto amor e honrou. Peçamos a ela, com fervor, que nos revele os segredos do amor divino.

ORAÇÃO A SANTA MARIA MADALENA — Se pudéssemos estar na presença de Jesus e adentrar em Seu amor por tua meditação, ó Madalena! Oxalá eliminemos nossas faltas e lavemos nossas manchas como tu o fizeste, recebendo indulgência plenária da boca dEle e escutando aquelas palavras: Teus pecados estão perdoados! Oxalá me fira com Seu amor como te feriu a ti e me diga um dia estas consoladora palavras: Amou muito!

Que eu seja, pois, amigo do retiro, apartado dos cuidados e diversões humanos, fazendo a melhor parte. Que eu seja separado de tudo e até de mim mesmo, para pertencer-me todo a Ele, para imitar teu silêncio, teu esquecimento de ti mesmo e tuas elevações divinas.

Que eu seja pronto para escutar a voz de Jesus e Suas inspirações. Que não se aproxime de mim o espírito do erro e da ilusão, como não ousaram os maus espíritos se aproximarem de ti desde que te aproximaste de Jesus, obrigados a distanciarem-se e respeitar a presença, o poder, a santidade do espírito de Jesus que residia em ti.

Que eu participe dessa pureza de coração e de alma, pureza incomparável que recebeste do Filho de Deus quando estavas aos pés dEle; pureza nem humana nem angélica, mas divina; e saída também do homem-Deus em honra de Sua humanidade vivente na pureza, na santidade, na divindade do ser incriado. Sejamos fiéis e constantes no amor a Ele, inseparáveis dEle, como nem Sua cruz, nem Sua morte, nem o furor de Seus inimigos, nem o furor dos demônios, nada pôde afastar-te um centímetro dEle; porque se puderam separar a alma de Jesus de Seu precioso corpo, não conseguiram separar a alma de Madalena do corpo, da alma e do espírito de Jesus; e sempre está ela a Seu lado, seja vivo e sofrendo na cruz, seja morto, seja enterrado no sepulcro. O céu somente é que arranca Jesus de ti, e é o poder do Pai Eterno que leva Seu Filho com Ele à glória; mas arrebatando-o de ti, devolve-o a ti secretamente, e devolve para sempre na plenitude e na luz da glória.

Ó humilde penitência! Ó alma solitária! Ó divina amante e amada de Jesus, faz por tuas orações e por teu poder em Seu amor que eu seja ferido desse amor, que meu coração não descanse senão em Seu coração; que sejamos todos para Ele livres e cativos ao mesmo tempo, livres para aceitar Sua graça e cativos do triunfo de Seu amor e de Sua glória.

Amemo-Lo, sirvamo-Lo, adoremo-Lo e sigamo-Lo com todas as nossas forças e que, enfim, estejamos contigo e com Ele para sempre.

Amém.

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